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Contos-->QUANDO O AMOR NÃO ACABA -capítulo XXII -- 01/03/2007 - 09:30 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XXII

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Meu único pensamento no outro dia ao acordar foi: “Preciso saber onde ela está. Tenho que me encontrar com ela de qualquer jeito!”. E foi em função disso que pouco depois de levantar e tomar o café em companhia de meus avós peguei o ônibus para Santa Paula. Minha avó ainda me levou até o ponto do outro lado do rio Paraibuna. E enquanto o ônibus não vinha, fiz-lhe algumas perguntas acerca de Santa Paula, mas como ela respondera que faziam meses que não ia até lá, conclui que minhas indagações seriam infrutíferas.
Antes de descer do ônibus eu já sabia que teria outros compromissos antes de poder obter informações precisas de Diana. O ônibus parava bem em frente à casa de dona Marieta. E mesmo que quisesse não havia como ir à outro lugar sem parar naquela casa antes. Seria uma desfeita. “Ah, mas quem sabe ela pode saber alguma coisa. Quando tiver uma oportunidade, vou perguntar.”, disse para mim mesmo ao descer do ônibus.
Encontrei uma oportunidade para obter informações acerca de Diana quando dona Marieta falou de Betinho, um rapaz quase da mesma idade que a minha, da sua morte trágica há poucos dias, quando caiu do caminhão em que viajava e as rodas traseiras passaram por cima da sua cabeça.
-- Lembro-me vagamente – respondi. -- Na verdade, já me esqueci de muita gente. Alguns nem conheço mais. De outros ainda me lembro muito bem.
-- Coitado! Era um bom rapaz – acrescentou ela.
Depois ela passou a falar do êxodo dos jovens para a cidade.
-- A maioria daqueles jovens da sua idade não moram mais por aqui. Foram para a cidade. O Marcelinho, a Elísia, a Adailza, todos foram embora – comentou com um ar de tristeza, como a partida dessas pessoas representassem o fim de uma época.
-- A Elísia nunca mais vi. Eu a achava tão bonita. Quando fui embora daqui, estava apaixonado por ela – segredei. Era a primeira vez que contava isso para alguém. Agora no entanto, isso não tinha mais importância. -- E o que virou ela?
-- Casou. Conheceu um rapaz na festa de Nossa Senhor de Paula no ano passado e três meses depois estavam casados – disse ela da cozinha. Estava preparava um cafezinho.
Eu permanecia sentado no banco de madeira na sala, cujo solo era de terra batida. No centro jazia um velho tapete sujo. Provavelmente da própria terra. Enquanto conversávamos, olhava ao redor e via que nada mudara nas paredes desde a última vez em que estive ali. A única mudança estava no calendário do ano corrente. Era uma folhinha em que na parte superior via-se uma fotografia de um jardim florido e ao lado a logomarca e o nome do estabelecimento ao qual a folhinha pertencia. Aliás, a folhinha do ano anterior ainda continuava esquecida na parede ao lado da nova. No canto da sala jazia um móvel de madeira gasto pelo tempo sobre o qual via-se uma imagem de Nossa Senhora Aparecida um tanto desbotada e um relógio. A imagem da santa estava ali há muito tempo. Aliás, recordo-me de vê-la todas as vezes que entrei naquela casa muito antes de ir para Santos.
-- E aquela mercearia que foi do Seu Chico? Ainda continua aberta? -- perguntei pensando em Diana, pois sabia através dela que seu pai a comprara.
-- Continua sim. -- respondeu. -- É do Nelson agora.
“Será que esse é o nome do pai dela? Ela nunca me disse! Também não tive curiosidade de saber. A gente ficava só falando de nós dois que esquecíamos todo o resto. Ah, mas deve ser”, pensei.
-- Ah, acho que sei quem é – falei, tentando conter a vontade de saber mais. Mas era algo que estava além de mim. Mesmo que quisesse, era fraco demais para não deixar ser arrastado por meus impulsos. -- Não é ele que tem uma filha magra, de cabelos longos e mais ou menos da minha idade?
-- É sim! A Diana – afirmou. Nisso voltou a sala segurando uma bandeja sobre a qual havia uma caneca de alumínio, dessas feitas a partir da latinha de extrato de tomate de 250 g. -- Toma um cafezinho – ofereceu-me a xícara.
-- É, acho que é – asseverei. Peguei a caneca de café e levei à boca. Enquanto isso, pensei: “Será que ela sabe onde a Diana está? Pelo menos seus pais continuam por aqui. Mesmo que ela não saiba, ainda resta a família dela para perguntar”. -- Lembro-me dela. Cheguei a conversar com ela da última vez em que estive aqui.
Dona Marieta voltou a cozinha e depositou a bandeja sobre a pia.
-- Ih! Ela andou muito mal. Correu um boato de que ela estava assim por causa do cigarro. Mas depois melhorou e agora está trabalhando em São Mateus como babá.
“Ah, então ela está mesmo em Juiz de Fora. Preciso saber o endereço. Tenho que descobri isso custe o que custar”. Aliás, as palavras de Dona Marieta me provocaram um desejo incontrolável de sair daquela casa. Era como se de um momento para outro fosse tomado por uma sensação de nojo, como se aquela casa me repugnasse, embora até momentos antes a sensação fosse outra.
Tentei encurtar a conversa. Somente um pensamento me consumia: saber o endereço de Diana. E não importava o sacrifício e o quanto isso pudesse me custar; estava disposto a pagar o preço necessário para encontrá-la.
Não consegui ficar mais do que dez minutos na companhia de dona Marieta. Com a desculpa de que precisava fazer outras visitas, fui me levantando e indo em direção à porta. Ela ainda me acompanhou até a rua. E ao me despedir, convidou-me para voltar à sua casa antes de retornar para Juiz de Fora no final do dia. Prometi voltar. “Mas não antes de saber o paradeiro de Diana”, acrescentei em pensamentos.
A coisa acabou sendo mais fácil do que eu fazia crer. Entrei no bar do senhor Nelson e dei de cara com a irmã de Diana. Apesar de tê-la visto poucas vezes, sua fisionomia me veio a memória ao lembrar-me da vez em que ela foi me avisar de que Diana queria falar comigo na primeira vez em que voltei à Santa Paula depois de nosso rompimento.
Ela não me reconheceu de imediato. No entanto, quando me aproximei e disse-lhe um “oi” ela não teve mais dúvida.
-- Não acredito! Você por aqui? -- disse ela surpresa.
-- É – respondi com um sorriso. -- Quem é vivo sempre aparece – acrescentei.
Valdiceia se aproximou e nos cumprimentamos de forma mais íntima.
-- E aí? Como vai? -- perguntou ela, depois de um rápido silêncio. Aliás, acho que só me perguntou isso para não deixar que o silêncio me constrangesse.
-- Vou bem – Foi o que consegui dizer, pois não me veio à cabeça nada melhor para dizer.
-- Veio procurar Diana? -- adiantou-se, como se pudesse ler em meus olhos as minhas intenções.
-- É. Queria vê-la e dizer-lhe um “oi!” -- falei.
-- Ela está trabalhando em Juiz de Fora – disse a irmã, confirmando o que eu já sabia. -- Quer o telefone dela?
-- Claro que sim – afirmei, tomado por uma sensação eufórica, tão intensa como se já estivesse diante da própria Diana.
-- Espere um pouquinho que vou anotar para você. -- Valdicéia deu a volta pelo balcão e foi até o caixa; pegou uma caneta, rasgou um pedacinho de papel e anotou alguns números; em seguida me entregou dizendo: -- Fica em São Mateus – Isso também eu já sabia --, perto da Avenida Independência. Bem ali no comecinho.
-- Vou ligar para ela – falei pegando o pedacinho de papel e guardando-o com cuidado dentro da carteia – quando chegar na cidade.
-- Liga mesmo – recomendou Valdicéia – Ela vai ficar muito feliz de falar contigo. Ela estava falando de você um dia desses. Disse que estava morrendo de saudades, que gostaria de muito de te ver.
Essas últimas palavras por pouco não encheram meus olhos de lágrimas. Mas o aperto no coração foi inevitável. Foi uma sensação esquisita, como se o peso da culpa me esmagasse e me fizesse diminuto. Ah, querido leitor! Se fosse possível eu teria saído dali naquele mesmo instante e voltado para a cidade ao encontro dela. Mas não era possível. O próximo ônibus só saia no final do dia, quando o sol se punha. Contra a minha vontade, teria de permanecer naquele lugar que já não me interessava mais. Se mais cedo não via a hora de estar em Santa Paula, agora não via a hora de partir.
Ah, se eu soubesse onde encontrar Diana! Não teria me dado o trabalho de vir à Santa Paula. Não era Santa Paula que me fascinava e me atraia, não eram os amigos, a vontade de rever o lugar onde passei toda a minha infância e de onde tenho as mais belas recordações; não era nada disso, embora fosse inevitável aquela sensação de nostalgia ao retornarmos ao passado. O que realmente me atraia e me fazia viajar tantos quilômetros de Santos à Juiz de Fora era uma volta ao passado, mas uma volta aos braços de uma mulher para se entregar a uma paixão intensa e duradoura que nem a distância e o tempo foram capazes de pôr termo.
Às vezes eu me pergunto como o ser humano é afetado por suas lembranças. Foi só tomar conhecimento de que Diana pensava em mim que as lembranças de nossos momentos quase esquecidos afloraram como se tratasse de acontecimentos vividos no dia anterior. Era como se o tempo fosse relativo e todos esses anos transcorridos desde aquele nosso primeiro encontro não passassem de dias, horas talvez. Eu me sentia como se ainda fosse aquele garoto de dezesseis anos, como se tudo acontecesse pela primeira vez. E isso me afetou de tal forma que aguardar a partida do ônibus de volta à cidade se tornou uma tortura. Eu tentava ocupar o tempo visitando uma pessoa e outra, mas o que deveria ser motivo de prazer, de uma conversa demorada, quase sem fim, tornava-se motivo de inquietação. E poucos minutos após encontrar a pessoa, papear um pouquinho eu já queria me afastar e ir até a praça do coreto ver se o ônibus não havia chegado.
Amiúde interrompia a conversa e me distraía. De quando em quando o interlocutor tinha que me perguntar uma segunda vez, pois não havia escutado o que estava dizendo. Embora ninguém tenha feito nenhum comentário, acredito que tenham percebido o meu distanciamento. Espero entretanto que ninguém tenha ficado chateado por causa disso, pois não fiz por mal. Eu até fazia algum esforço para não pensar em Diana e agir com naturalidade, mas era só me descuidar por um segundo e lá estava eu com a cabeça nas nuvens, como se meu corpo estivesse ali, mas a alma a quilômetros de distância.
Ah, que alívio quando finalmente deu a hora de retornar. Quase dei pulinhos de alegria ao sair da venda do Sr. Expedito, onde parei para tomar uma coca-cola, e ver o ônibus encostando. “Até que enfim... Já não agüentava mais de ansiedade”, pensei. Consultei o relógio: faltavam vinte minutos para as seis da tarde. “Vou me despedir do pessoal. Não sei se volto mais aqui dessa vez”, continuei a pensar ao ir em direção a casa de dona Marieta. Aliás, ela estava do lado de fora me acompanhando com os olhos, como se me vigia-se, como se quisesse saber na casa de quem eu tinha entrado.
-- Por que não pernoita aqui com a gente? – indagou ela, quando me despedi. – A casa é simples, não tem o conforto que vocês têm lá em Santos, mas dá para dormir muito bem.
-- Não, não. Falei pra vó que voltava no ônibus – menti. – E se não aparecer ela vai ficar preocupada – De fato era verdade, embora se não chegasse deduziria o óbvio: eu teria ficado em Santa Paula.
Ela ainda insistiu um pouco mais, mas não conseguiu me convencer. Aliás, nada seria capaz de me reter em Santa Paula por mais um dia. Se por ventura o ônibus me deixasse para trás, eu seria capaz de alugar um carro – pois não é possível que alguém não tivesse um carro para alugar naquele lugar – só para me levar até Benfica, onde eu tomaria um ônibus para Juiz de Fora.
Que alívio eu senti quando finalmente ouvi o ronco do motor do ônibus. Consultei o relógio e pensei: “Seis horas. Daqui há uma hora e meia mais ou menos estaremos em Juiz de Fora. Vou descer do ônibus e ligar para ela do primeiro orelhão”.
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