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Contos-->À Flor da Pele (Uma história verídica) -- 22/04/2007 - 22:51 (João Rios Mendes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
João: Luiz, você que tem mais intimidade com gravadores... Dessa distância grava?
Luiz: Ah, grava. Grava. Quer ver? Fala você, amor. Com sua voz natural, daí mesmo (risos).
Malu: Meu nome é Malu, Maria de Lourdes, mas gosto que me chamem Malu.
Luiz: Ok, ok, tá bom, chega... (risos)
João: Como vocês se conheceram? Está gravando!
Malu: Foi assim: Eu nasci em Dom Silvério, cidade do interior de Minas. Com 13 anos, fui morar em Juiz de Fora, onde estudei e morei até o ano retrasado (1998). No verão de 1976, fui para a casa de minha família passar férias. O Luiz também foi para a cidade a fim de se restabelecer de uma estafa.
João: Onde fica essa cidade?
Luiz: Minas Gerais, pertinho de Ponte Nova, cidade... deixa eu ver uma pessoa conhecida para poder ilustrar melhor. Cidade do grande João Bosco, Tunay, do craque Reinaldo - do Atlético Mineiro. E Dom Silvério, que fica a uns 39 km de lá, é a cidade de Maria de Lourdes a maior craque de todos eles (risos). É também território de Quinca Fibra, Juquita, Caial e do Saudense Futebol Clube. E foi lá que aconteceu nosso primeiro encontro.
Malu: Naquela época, teve uma procis... Posso falar amor?
Luiz: Pode, pode!
Malu: Uma procissão. Eu me lembro direitinho que era uma tarde de domingo, dia de São Sebastião. Nunca mais me esqueço.
João: Malu, deixe-me te interromper um instante?
Malu: Claro!
João: Luiz, de cara, não podemos deixar passar essa história. Você me falou que essa estafa foi devido a um episódio em plena ditadura militar.
Luiz: Bem, João, eu fui inventado por um sujeito obscuro. Inventado porque eu nada tinha a oferecer à tal aliança. A não ser, claro, a minha indignação. Mas a minha indignação não pretendia ser conspiradora e muito menos eu pretendia financiar qualquer atividade terrorista. Mas o sujeito cismou comigo. Eu tenho a impressão de que ele pensava que eu era filhinho de papai. Só pode.
João: Mas, por que a cisma?
Luiz: Eu estava na boate do Hotel Eron com uma menina de nome Amélia Alves. Era moça bonita, alta e trajava um lindo vestido branco de seda. O papai aqui, que só entrava em boate porque tinha carteira funcional do gabinete do ministro da Justiça, estava vestindo um terno de veludo vinho. Na mesa, além de uma linda garrafa de Ballantimes 12 anos, havia uma vela acesa que conspirava ao romantismo. Já naquela época, João, eu gostava do que era bom. E foi naquela boate que tudo começou.
João: Como assim? O que a Amélia tinha a ver com isso?
Luiz: Nada, nada. Na semana seguinte, fui abordado por um homem de mais ou menos 28 anos em plena Rodoviária do Plano Piloto de Brasília. Ele disse ter-me visto na tal boate e, sem cerimônia, descreveu todos os momentos que vivi com a moça, tudo conforme relatei a você, João. E, de cara, ele me convidou a visitar uma fazenda próxima à cidade de Anápolis. Um programa imperdível. Só vendo. E as pessoas? Mulheres lindas e homens que não atrapalhariam em nada. Aliás, eles estariam lá apenas para nos ajudar. Confesso que fiquei impressionado com o convite. Ainda mais porque o convite falava em meninas de Goiânia. Mas, não sei o motivo, não fui. Acho que preferi sair com os colegas para um lugar que não me lembro. Na segunda-feira, o tal sujeito me deu uma bronca por não ter atendido ao chamado dele. O que me deixou mais ou menos puto... No outro dia, ele volta a ligar me convidando a visitá-lo em seu escritório no shopping Conjunto Nacional, e eu fui. Ele era publicitário e se chamava Rui. Lembro que ele desenhava alguma coisa em um estúdio parecido com um de fotografia. Mas o tal sujeito começou a pegar no meu pé, queria porque queria que eu visitasse a tal fazenda. Como eu não dava a importância que ele desejava aos convites ele começou a me ameaçar. Eram ameaças veladas, que só fui compreender mais tarde. E o tal começou a me ligar pelo menos umas cinco vezes por dia. E o mais impressionante é que ele sabia de todos os meus passos. Incrível!
João: O que ele queria realmente? Que você só visitasse a fazenda?
Luiz: Eu chego lá. Nessa época eu já trabalhava na Codevasf, que ficava muito próxima ao Conjunto Nacional. Muito garoto, comecei a ficar impressionado com os fatos. Será que o sujeito era gay? Ou ele pretendia me levar para uma turma e me fazer refém de algum vício? Num belo dia, ou melhor, numa noite de quinta-feira, eu havia marcado com o amigo Augusto um chopp no Beirute. Quando chego lá quem eu encontro? O tal Rui. Sem jeito, atendi ao chamado dele e de mais seis colegas para chegar até a mesa em que estavam. E nada de o Augusto chegar... E foi assim que o Rui me apresentou aos seus amigos: "Esse aqui é o Adriano, o mais novo integrante da nossa aliança. É ou não é camarada?" Para logo a seguir um dos caras da mesa emendar: "Ele é nosso? Então, vai levar a famosa picadinha”. E todos começaram a rir. A essa altura eu já estava em pânico. "Será que esses caras querem me injetar alguma droga?". Daí, eu ainda em pé, dei a primeira desculpa que me veio à cabeça. Disse-lhes que um amigo chegaria com duas mulheres de Uberaba e que não tinha sentido sentar-me com um monte de barbudos. E mais que depressa saí em direção a outro bar. Chegando ao Bar Bem pedi o telefone e liguei para o Augusto. E o filho da... ainda estava em casa. Contei o que havia acontecido e ele, com o velho e bom fusquinha vermelho 1970, tratou de chegar o mais rápido possível. Enquanto isso, escolhi uma mesa bem no fundo do bar, em local praticamente sem luz. De repente, vejo um dos caras na porta do bar tentando me buscar, e mais que rapidamente escondi o copo cheio de uísque duplo e gelo, que reluzia em cima da mesa e que podia me entregar, e fiquei absolutamente imóvel no canto escuro em que estava. Daí a pouco ele foi embora. Ufa, que alívio!...
João: O que aconteceu depois?
Luiz: Depois, os telefonemas tornaram-se ameaçadores. E para a minha surpresa um conto que eu havia escrito e guardado em uma revista Veja tinha sumido. Nele escrevi sobre Maria e João, dois favelados, que acabavam de ganhar um lote em Ceilândia. Maria e João tinham o lote, mas não o que comer. A partir daí eu comecei a perceber que estava sendo seguido. Foi quando eu relatei o que estava acontecendo para os meus pais, que imediatamente chamaram meu tio delegado para investigar o caso. No dia seguinte, fui chamado à casa dele e comunicado que o SNI (Serviço Nacional de Investigação) sabia de tudo, inclusive de minha aspiração a revolucionário como denunciava a tal crônica. E fui mais ou menos interrogado por ele. Jurei que não tinha ido à tal fazenda. Meu tio, que só naquele instante ficamos sabendo de seu envolvimento com o organismo do governo militar, disse que daria a palavra dele pela minha palavra. E foi o que aconteceu, pois eu já estava na lista do Órgão e pegaria três anos e seis meses de cadeia para só depois poder me explicar.
João: E os caras?
Luiz: Tenho a impressão de que eles desconfiaram de tudo. Talvez soubessem do meu tio. E a coisa complicou. Daí eu tive que me refugiar em Dom Silvério e foi quando conheci a Maria de Lourdes, Malu. Depois, quando voltei, novos telefonemas ameaçavam até a minha família. E eles sabiam que eu havia estado no interior de Minas. Sabiam de tudo, de todos os passos. Passado o final de semana, eu mais magro quatro quilos, vítima do medo, fui comunicado que a fazenda havia sido invadida e que 17 jovens tinham sido encontrados mortos. A coisa era tão feia que até o falecido jornalista Mário Eugênio tinha dado somente uma pequena nota no jornal, algo muito pequeno, só para dizer que não deu. Depois de tudo eu ainda fiquei com medo por mais ou menos cinco anos.
João: Voltando a um assunto mais ameno, fala sobre um momento inesquecível que vocês viveram logo assim que se conheceram?
Luiz: Lembra-se do cinema, amor?
Malu: Claro!!! Acho que não tem nada de mais contar.
Luiz: Na época que namoramos eu gostava muito de Mr. John Wayne. E fomos assistir a um desses "cawboião".
Malu: Um tipo de filme nada romântico, diga-se de passagem.
Luiz: Pois é, e este só tinha uma cena de beijo e no final do filme. Cawboy que é cawboy não é assim meloso. Mas o fato de levá-la a um ambiente escurinho onde pudéssemos beijar e beijar e beijar, era particularmente único. Bem, no cinema procuramos sentar mais ou menos afastados das outras pessoas. E quando o filme apareceu na tela eu comecei a maquinar como ultrapassar os beijos e tocá-la. Quando a coragem enfim chegou, entre beijos maravilhosamente eternos, procurei forças sei lá de onde para, pelo menos, colocar a mão o mais próximo dos seios dela. E a mão subia delicada e vagarosamente, ao mesmo tempo em que o coração acelerava. E acelerava, acelerava, até que eu olhei para ela e a vi absolutamente pálida, rígida, sem respiração. E minha mão já quase chegando começou a sentir a pulsação do seu coração. E o meu, completamente descompassado e sem fôlego, deu sinal para que eu não devesse continuar. Envergonhado, sentei-me desolado em minha poltrona. "Meu Deus, o que eu estou fazendo? Ela é o meu sonho, o meu amor. Por que não posso esperar o casamento, a lua de mel?" Desconfiado, olhei para o lado e o lado olhava para mim. Lembro que falei assim: "Eu te amo e quero me casar com você". E depois de respirar fundo, até quase desfalecer, pude ver o primeiro tiro do filme  e acordei. Quando saímos do cinema, nenhum comentário sequer sobre a fita e uma única palavra sobre a mais eterna e íntima cena que já tínhamos vivido. E continuamos o nosso fim-de-semana de mãos dadas, apenas. O amor cabia naquele simples gesto.
João: E você, Malu, qual foi a sua reação?
Malu: Quando o Luiz conta essa história a minha respiração parece continuar prisioneira daquele momento. Ali, bem ali, ele me fez refém do que vivemos hoje. Retomando a minha narração inicial, era dia de São Sebastião. Nunca mais me esqueço. Eu estava na praça, no centro da cidade, quando bati o olho na esquina e vi o Luiz. Para mim essas cenas estão muito vivas, como se fossem ontem, entendeu? O Luiz era diferente, um cara novo na cidade e tudo mais. E eu fazia parte de um grupo de adolescentes da cidade que quando ia a Dom Silvério se encontrava para conversar. Então, o que aconteceu? As minhas colegas, que estudavam em Belo Horizonte, viram o Luiz todo boy numa Brasília vermelha. Ficou todo mundo querendo escutar esse vozeirão, quando descobrimos: “Ah ele é sobrinho do Juquita, é de Brasília”. Eu pensei “Nossa Senhora, ‘sujou’. Brasília tem o maior número de desquites, esse cara é safado, está aqui só passar a mão nessa mulherada toda e as tolas se derretem por ele”. O Luiz estava com aquela mulherada toda olhando para ele – ele não é nada tímido, com esse jeitinho (risos)... Eu até falo com o Luiz que ele já tinha, embora muito novinho, uma maneira de ser diferente. Ele fala que convivia sempre com pessoas mais velhas do que ele; era adolescente, mas vivia aqui em Brasília com amigos mais velhos. Ele tinha um charme de conquistador bem aguçado... 16, 17 anos. Então ele parou na praça e se apresentou. A mulherada estava naquele ti-ti-ti e eu fiquei só observando aquilo, calada, na minha. E a mulherada fala daqui, fala dali, e o Luiz me observava o tempo todo. Ele só ouviu o meu nome e eu não tive espaço para falar. E eu só observava aquilo tudo e com aquele receio também de “chegar”; eu jamais queria ser mais uma na vida de um cara que foi ali só para se aproveitar; não estava a fim de ser isso para ninguém. Eu estudava em Juiz de Fora e lá havia muitos homens bonitos (risos)... Naquele momento da minha vida eu tinha também um ideal: queria fazer uma faculdade... muito mais, eu não queria um namoro sério nem nada naquele momento. Acabou que a noite foi passando. Geralmente, nas cidades pequenas, quando dão 10 horas os pais vão até a praça buscar as meninas...
Luiz: Naquela época, não é, amor?
Malu: Naquela época. O que aconteceu? O meu pai, por coincidência ou sei lá o que aconteceu lá em casa, esqueceu-se de dar uma chegada na praça e olhar. E acabou que todo mundo foi embora e fiquei com o Luiz, que chegou e falou:
 É com você mesma que eu quero conversar; você ficou sozinha, calada, mas foi você quem me chamou atenção.
Logo após, a gente começou a conversar. Falei coisas do meu projeto de vida e tudo o mais. Era outro papo que eu tinha com ele; não era aquela coisa que rolava quando a mulherada toda estava reunida. Nisso o meu pai chega na esquina e eu disse:
 Olha, eu vou embora, se você vai ficar aí esses dias a gente pode se encontrar e conversar. Nesse momento, uma pessoa passou e disse assim para ele:
 Ô, você é doido, você está com a filha do homem mais bravo da cidade.
 Pode deixar que eu amanso a fera – respondeu o Luiz (risos).
 Ó, Luiz tchau, boa noite, vou embora pois estou com sono também.
 Não, eu vou falar com seu pai, eu o conheço pela minha mãe!... Eu sei como falar.
 Não quero que você venha não...
E ele veio atrás de mim. E eu lembro direitinho desse dia. Na praça tinha um galho de rosas, aquelas rosas miudinhas; tudo estava florido de rosas. E estava na época daquela propaganda do ‘impulse’...
Luiz: O cara correndo com uma rosa...
Malu: O Luiz apanhou aquele galhão de árvore, até espetou o dedo, e disse “ai, ai, ai”, e correu atrás de mim dizendo “tudo é impulse. Para você”. E eu já estava perto do meu pai. Meu pai olhou e o Luiz bem ousado, disse: “Eu sou filho da Dona Nitinha, seu Joaquim...” Aí eles ficaram conversando. Pois a mãe do Luiz foi quem alfabetizou meu pai, e meu avô foi quem ensinou a profissão da mãe dele... Contabilidade. Então isso tinha toda uma estória antes, sabe? Ali eles começaram a conversar e se esqueceram de mim. Em seguida, fomos todos para casa. Quando chegamos a minha avó estava na varanda, pois fazia muito calor; minha mãe e eles conversaram... Chegou a um ponto que eu disse: “Ô gente, eu vou dormir que estou com sono. Boa noite!” Agora fala um pouquinho, amor!
Luiz: Bom, nisso ficamos até meia-noite. Naquele momento quase nada podia me deter, de repente tive forças que provocaram a melhor das impressões, tanto para o pai quanto para a avó Dona Branca. Segundo a Malu, eu não me lembro, da boca de um garoto de apenas 16 anos saíram coisas surpreendentes. Mas antes de continuar, gostaria de chamar a atenção daqueles que acham que a felicidade está no lado racional do homem. Não, não está. Eu vim de uma família extremamente racional. “Gente, não se case achando que a vida conjugal pode ser somada simplesmente. Pois, o que pode se somar também pode multiplicar, dividir, diminuir.” “Não é possível fazer do seu casamento uma colcha de retalhos. Isso é coisa para alfaiates e costureiras.” Há casos em minha família absurdamente inacreditáveis; se eu os revelasse aqui seria um escândalo e provocaria constrangimentos a rodo. Talvez sobrassem um ou dois casos legítimos de amor. E eu fui pelo mesmo caminho da maioria. Que não quer dizer MAIOR. Bem, deixa isso para lá. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Voltando ao ano de 1976, na pacata e gostosa Dom Silvério, saí daquele alpendre certo de que já tinha conquistado a menina. Ledo engano: para pegar na mão foi um sacrifício. E olha que a minha intenção era me valer de ser uma novidade na cidade para arranjar um monte de namoradas. E eu ali tentando pegar na mão dela, completamente hipnotizado e feliz. Mas ela insistia em dizer:
 Você só quer, você só veio aqui para, fazer farra.
 Vou provar que gosto de você. Eu vou a Juiz de Fora te ver.
 Não acredito.
Pois acabaram as férias e duas semanas depois eu estava lá.
João: Você disse uma vez que gostou mesmo foi do olhar dela.
Luiz: Isso mesmo o olhar. O silêncio dela naquela turma e esses olhos... Se você puder, nesse livro, contratar um artista para colocar apenas duas bolas azuis, duas luas azuis ou dois sóis azuis... Foi isso que ficou na minha cabeça. Aquilo me marcou profundamente. E sempre que vejo este olhar todo o meu ser entra em erupção . Eu tenho a impressão de que ela deve ter enfeitiçado muitos homens com esse olhar (risos). Mas graças a Deus sou eu quem está aqui. Pois é... duas semanas depois eu estava lendo um jornal na escadaria do colégio que ela estudava. Quando desceu as escadas, ela tomou um susto. Só assim acreditou que eu estava ali realmente por causa dela. E nos dois anos seguintes eu ia a Juiz de Fora todos os meses. O meu salário era para o Hotel Rocha, que não existe mais, para os presentes, para pagar passagem de ônibus, uísque, picolé, essas coisas... Naquela época não tinha McDonalds. Às vezes, íamos a uma boate chamada Grilos, na avenida Rio Branco.
Malu: ...que hoje se chama Dreams.
Luiz: E assim se passaram dois anos e eu estava feliz da vida. Mas a distância... eu queria me casar com ela.
Malu: O Luiz me ligava todos os dias a uma da tarde, religiosamente. Uma hora, uma e quinze, isso quando não ligava à noite também.
João: Malu, ele já estava apaixonado, e você?
Malu: Eu já sentia falta. Eu não tinha ainda consciência de que o meu inconsciente já não estava mais só comigo, estava com ele também. Acho que na vida tem coisas que não conseguimos enxergar, temos que fazer uma retrospectiva da vida e amarrar os detalhes. Passei por isso e amadureci. Então hoje vejo que eu não tinha essa consciência em relação ao Luiz.
Luiz: E eu, metido a poeta, escrevi para ela várias poesias. Tenho algumas e você pode levá-las para ler. Passei a ir a Juiz de Fora e sempre ficava em hotel. Namorava muito e tinha uma grande paixão. Minha luta, minha vida, era voltada para ela. Tinha aqui uns amigos para sair, gostava de viajar muito por Minas Gerais, mas o meu coração era só dela. Mas um dia, nós temos duas versões para o fato, veio o rompimento, que para mim foi uma grande surpresa, cheguei até a comprar um solitário para ela – que naquela época era a mesma coisa que noivado – de um amigo que veio da China. Comprei-lhe também uma camisola de seda.
Malu: Namoramos dois anos. Eu nunca vim a Brasília porque o meu pai jamais iria permitir. Veja bem, minha mãe morava no interior e eu na cidade na casa de um tio. Hoje eu entendo a minha mãe: sendo eu adolescente e recebendo namorado no final de semana, não ficava bem. Para eles eu já estava num hotel com o Luiz e fazendo tudo. Meu tio se queixava para a minha mãe que ele não tinha domínio sobre mim quando o Luiz estava em Juiz de Fora. Existia uma preocupação da minha mãe e do meu pai quanto a uma possível gravidez. A mãe que seria culpada porque liberou demais, mesmo que fosse para estudar. Esse tio, que hoje a gente nem se fala, tinha algo contra o Luiz, e fazia a maior fofoca para a minha mãe. Falava que eu saía demais, que vivia em más companhias, etc. Para a minha mãe não era certo: esse fato de eu viver em Juiz de Fora e o Luiz em Brasília; Ele era novo e já não parava em casa; e usava o dinheiro todo para ir a Juiz de Fora. Até que aconteceu a gota d’água, certo dia a mãe dele escreveu para minha mãe, uma infeliz carta. Olha, a grosseria era tanta que eu tenho até vergonha de falar, aquilo para mim foi uma violência... “O cavalo está solto no pasto e a dona da égua deve prender a sua cria”. A gente está usando aqui mais ou menos cavalo amarrado também pasta, uma idéia chula assim... Acho que por isso eu tenho horror a cavalo e à tal de hípica, por mim nem existiriam (risos). Eu me senti muito mal com aquilo. Uma prima da mãe dele fez questão de levar a carta para a minha mãe. Ela leu a carta às quatro da tarde e às seis da manhã do outro dia pegou um ônibus para Juiz de Fora para me encontrar e disse: “Para morar em Juiz de Fora você tem que se separar do Luiz, senão não vou mais te receber como filha. Você está simplesmente me matando.” Foi a gota d’água. E o Luiz, coitado, ia ligar a uma, uma e quinze. Eu me lembro que o Luiz ligou e a minha mãe ao lado virou-se para mim e disse: “vai se despedir agora, senão você vai embora hoje.” E eu tinha um ideal: eu estava bem na escola, queria fazer uma faculdade, não queria viver no interior, queria trabalhar, fazer tudo, entendeu? Então eu pensei: “o meu momento é esse, mas eu amo o Luiz. Eu tenho que rever isso.” E falei para o Luiz:
 “Olha, eu não tenho condições de ficar com você mais. Eu acho melhor a gente dar um tempo.” Eu me lembro direitinho dessas palavras e do que ele falou:
 O que é isso, Amor? Temos que lutar pelo nosso amor. Como é que eu fico? A dependência que tenho de você e você de mim... Eles não podem jogar com esse amor desse jeito!
 Luiz, me colocaram na parede, não tenho saída. Se eu ficar com você minha mãe me leva embora para Dom Silvério e isso eu não quero. O que vou fazer em Dom Silvério? Eu tenho só 17 anos. Quero fazer uma faculdade e acho que não é hora. Dá um tempo pra mim!?!
Isso foi um bombardeio. Imagino o que esse Luiz fez em Brasília. E outra coisa: na carta, a mãe dele dizia que ele gastava todo o dinheiro, com ouro ─ no caso o anel ─ e milhões de coisas. Então pensei: “gente, eu vou responder mal ao Luiz e ele não merece, mas a família dele bem que merece”. Enrolei todos os presentes que ele tinha me dado, menos a camisola, que era uma coisa íntima nossa, mandei pelo correio com um bilhete: “eu não estou com você por coisas materiais". Essa não é a minha maneira de agir, mas mandei para Brasília. Foi outro golpe para ele. Ele ainda fez duas tentativas de volta. Ele sabia de minhas férias e que eu estava em Dom Silvério, e foi lá. E a gente não conseguia se separar, acabava ficando junto, de mãos dadas e tudo o mais. A minha mãe foi cruel comigo. Quando eu chegava em casa ela falava: “gosto do Luiz, mas não quero ver você com ele. O Luiz é para outra mulher e você para outro homem. Se você fizer isso os seus irmãos vão ficar sozinhos porque eu vou morrer de contrariedade e a culpa é sua.” Mamãe fazia encenação mesmo, de pressão alta, de médico entrar lá em casa... O meu pai nunca me cobrou nada de certo ou errado, ele nunca me chamou a atenção por causa do Luiz, era a minha mãe que me perseguia. Então eu tive que olhar para o Luiz pela última vez e dizer:
─ Luiz nunca mais me procure. Olhe nos meus olhos: eu não gosto de você se eu gostasse iria lutar por você, mas a minha história é outra”.:
 É isso que você quer?
 É. Vai embora e não me procure mais.
E ficamos 21 anos sem nos ver e nem falar um com o outro. Num feriado em Dom Silvério, eu estava no jardim de casa com meu pai e minha mãe e uma amiga da mãe do Luiz, uma cruel amiga... chegou e falou assim: “Ô Maria, tudo bom? Adivinha! Eu vim te dar uma notícia. Hoje é sábado e sabe quem está se casando em Brasília?” Quando falava em Brasília o meu coração ia direto nele. E ela foi cruel: “Quem vai se casar? É o filho da Nitinha, com a mulher mais rica de Brasília, linda, um monumento...” Pôs a ex-mulher do Luiz como se fosse assim a primeira maravilha de Brasília e a oitava da humanidade (risos). Eu olhei para ela fixamente e ela para mim, venenosamente, sorridente. Parecia que era até a mando da mãe dele. Entrei para o meu quarto para tomar banho e sair, foi quando o meu pai falou comigo:
 É... como você está?
 Estou bem pai.
 É, mas você ficou triste? A única pessoa que você gostou, não é minha filha?
 Pai, esquece isso que eu também vou esquecer. Se o Luiz resolveu se casar é porque nunca gostou de mim. Aliás hoje é 2 de novembro, dia de finados.
Luiz: Eu me recordo que morava no Guará e mostrei a carta para a minha mãe e a devolução dos objetos. Aquilo acabou comigo. Eu já trabalhava na TV Globo nessa época. E passei mal da seguinte maneira: quando ia dormir, eu me deitava e o mundo fugia, eu não conseguia abrir os olhos, não conseguia mexer um dedo. Primeiro pensava que estava sonhando. Isto aconteceu umas oito vezes. Eu fui procurar um médico e ele, depois de muito investigar, disse o seguinte:
 Única explicação: você sofreu alguma forte emoção?
 Sofri.
─ Talvez seja isso.
Tentei me recuperar, porque eu andava cabisbaixo, triste. Há algum tempo, li no Jornal do Brasil que existe na Universidade Federal do Rio de Janeiro um estudo chamado Projeciologia, que começou no Brasil e hoje é investigado em universidades de outros países. Há casos em que a pessoa sai do corpo. Uns completam o transe e outros, como foi o meu caso, creio, se apavoram e sofrem com a incapacidade momentânea de não conseguirem mexer um dedo, uma pálpebra sequer. Eram segundos que duravam uma eternidade, enfim passou. Bem, era preciso dar a volta por cima, provar, de alguma maneira, que eu não era o tal revolucionariozinho de merda como fui chamado pelo tio da Malu. E a vida me fez encontrar Leila. E, veja bem, a aliança que comprei para um compromisso com essa moça foi a mesma que usei no meu casamento. Pouco tempo depois de terminado esse romance, eu fui para uma boate com uns amigos. Um deles, o Paulo, virou-se para mim e disse:
 Aquela loura está me dando bola.
 Vai lá rapaz, vai lá. Quem sabe dá em alguma coisa.
 Não, vai lá você, ela está mais para você do que para mim.
Eu fui. Ela estava de costas, loura e braços que pareciam os da Maria de Lourdes. Aí virei para outro amigo, o Bassul, e falei:
 Vou tirar essa moça para dançar e ela vai se casar comigo.
 Te dou um fogão.
Três meses depois ele teve que comprar o fogão. E a partir daí eu fui viver a vida de casado. Cheguei a ter três apartamentos, dois carros...
João: A vida financeira bem folgada.
Luiz: É, mas sempre pensando na Maria de Lourdes.
João: Casou-se por amor ou por aposta?
Luiz: Nem uma coisa nem outra.
João: Não tinha nada para fazer?
Luiz: É, acho que a agenda estava livre naquele dia! O fato é que eu me casei. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Desse casamento eu tive três filhos, extraordinários, maravilhosos, mas são filhos de amor unilateral: um amor de pai, igualmente de mãe, mas não um amor de pai e mãe. Exatamente como aconteceu com os meus pais. E isso a igreja e a sociedade precisam considerar, discutir com muito carinho. Não adianta sermos absolutos. Ninguém é absoluto. Temos que nos encostar no outro COM AMOR e ali armar a nossa tenda. “Me recordo” que aqui em Brasília, antes de ir para o Rio de Janeiro, fiquei uns oito meses tomando todas num bar chamado London Tavern, escutando o Periquito, um grande músico de jazz que tocava na Banda do Corpo de Bombeiros de Brasília e à noite ele arrebentava no London; tocou também com Erasmo Carlos, Cazuza, Djavan, Ivan Lins, muito competente. Quem passava sempre era a hoje deputada federal Maria de Lourdes Abadia. Olha o nome: Maria de Lourdes. Eu olhava para ela e chorava, chorava calado. João, você me conhece, brinco com todo mundo... Comigo não tem tempo ruim, não tem mau humor sou assim mesmo. Mas existia um vazio dentro de mim; aquela tristeza me sugava e eu ia para o bar escrever, e escrevia!...
João: Você sabia o que te sugava ou era inconsciente?
Luiz: Era inconsciente. Era inconsciente. Depois do uísque, eu me pegava escrevendo o nome de Maria de Lourdes, escrevendo poesia para os olhos dela — infinitamente azuis ─ ficava atormentado e dizia: “meu Deus onde ela estiver abençoe o meu amor”, mas nunca a pedi para mim. Em 1986, logo depois da morte de papai, fui para o Rio de Janeiro, TV Manchete, Jornal em Rede, revista Amiga, tudo parecia o sucesso, mas eu não saía do chão. Nada valia a pena realmente. Em agosto de 1987, fui parar em Dom Silvério, depois de um longo tempo sem ir lá, para a procissão de Nossa Senhora da Saúde. E fui com um primo da Malu, o Roberto, que era – veja bem – meu vizinho no Grajaú. Mas eu fui para lá sem a menor expectativa de vê-la, porque ela já estava casada. Na viagem acabei contando para o Roberto e o Iran – que também foi com a gente – a minha agonia de nunca ter esquecido a prima dele. Mesmo muito jovem, o Iran ficou impressionado com a história. Agora, Malu, tenho que falar de sua avó, dona Branca: antes dessa viagem acontecer fui à casa do Roberto, desse primo da Maria de Lourdes, e me encontrei com a avó dela, Dona Branca, em pé, saudável, que me disse:
 Meu filho, essa é a última vez que você está me vendo.
 Por que dona Branca?
 Acho que já chegou a minha hora.
 O que é isso dona Branca, a senhora está tão bem!
 Não, meu filho, você pode dizer que eu estou tão bem, mas não estou bem. Agora quem está bem é você. Está muito bonito. Eu vou dizer para a Maria de Lourdes que te vi, que você está mais bonito do que na televisão.
 Ô dona Branca (com a garganta já seca), dona Branca, diga a ela que mando um abraço.
 Iiih, meu filho, se eu fizer isso ela chora e nem se casa.
Aquilo acabou comigo. Dona Branca faleceu 5 horas depois. Então, fui até a casa dos pais de Maria de Lourdes com o Roberto. Para mim, ela morava em Juiz de Fora, como de fato morava. Quando lá cheguei perguntei ao pai dela, que sempre me tratou maravilhosamente bem.
 Seu Quincas, e a dona Maria como está?
 Maria foi na procissão, mas daqui a pouco deve estar chegando.
Mas ele não falou que ela estava com a filha. Eu fui para a cozinha  mineiro gosta de ficar na cozinha  para conversar com o Roberto quando a Malu chegou. Ela me viu e saiu correndo e o ex-marido correu para ver o que estava acontecendo. Por estar muito próxima à parede eu a vi por meio segundo, e de costas, mas tenho até hoje gravado na memória, o sapato, a meia, a saia, a blusa e o jeito do cabelo dela.
João: Na época, ela já estava casada?
Malu: Depois eu vou te contar.
Luiz: O quadro da sala cai da parede — uma cena impressionante — e o coração disparou como nunca. Foi uma aflição louca. Eu disse:
 Vou embora.
 Meu filho fique mais um pouco.
 Dona Maria, a senhora sabe porque não posso ficar.
E saí. Fui a um bar ao lado para tentar ao menos vê-la pela janela. Só que eu tomei uma cerveja e com essa cerveja fiquei bêbado. Nessa hora, escrevi uma poesia que foi publicada no jornal da cidade naquela época, houve comentários depois. Mas eu vou interromper para ela poder falar.
Malu: Ele contou até quando eu estava casada, não foi? Eu vou começar de onde parei. Como algumas pessoas interromperam nossa história, eu pensei: “agora vou botar um ponto final neste sofrimento. O Luiz se casou e jamais vou ligar para ele, porque eu tive a minha chance. Tenho que continuar a minha vida. Eu vou para Juiz de Fora assumir o que tenho que fazer.” Lá, fiz vestibular, fiz faculdade, namorei um, outro, mas não era a mesma coisa. Em tantos homens eu buscava a maneira como o Luiz era comigo e não batia. Até que fui participar do movimento Emaús, na paróquia onde depois trabalhei como catequista durante muito tempo e fui promovida a ministra de Eucaristia, lá, conheci o pai das minhas filhas. Namoramos durante 5 anos, não me casei logo, não. Fiz pelo pai das crianças tudo o que eu tinha que ter feito pelo Luiz. Se minha mãe não gostasse dele, eu iria enfrentá-la, eu ia fazer isso e aquilo, eu ia ser presente. E pensei assim: “para mim é o meu ponto final.” Mas eu continuava a sentir uma coisa estranha: quando eu andava pelas ruas da cidade com o meu marido, de repente, eu sentia a presença do Luiz como se ele estivesse me seguindo. Um dia ele, intrigado, perguntou-me:
— O que você tanto procura?
— Não sei, não sei. Parece que vejo alguém me seguindo, uma coisa estranha.
E era o Luiz. Eu o via como se fosse uma energia. Era uma coisa estranha.
João: Durante quanto tempo esta sensação te acompanhou?
Malu: Eu namorei durante cinco anos e fui casada onze. Essa sensação me seguiu por quase todo esse período. Eu me lembro que estava na rua Olegário Maciel quando pude ver na pracinha uma energia que não era possível ver com os olhos, mas com o corpo, me observando. Chego até a arrepiar. Eu dizia: "Meu Deus, o que está acontecendo?” Em Juiz de Fora, eu ia a um lugar onde ele estava mais presente. No cenáculo, eu pedia muito a Deus que o Luiz e sua mulher fossem muito felizes, porque eu também tinha, meio que tortamente, construído minha vida. Mas eu fazia com todo o meu coração um outro pedido: "Meu Deus quando eu morrer, e o Luiz também, quero me encontrar com ele, nem que seja só para a gente olhar um para o outro, olho no olho". Para mim era o bastante. Eu sentia a presença do Luiz sempre nos mesmos lugares onde namorávamos. Numa certa noite, ele invadiu até o meu sono. Eu estava grávida da Mariana quando comecei a sonhar com o Luiz. Era um sonho parecido com a sensação que eu sentia por onde andava. Só que no sonho ele estava realmente me seguindo; não era vulto ou energia, era ele, de repente ele se aproximou para arrancar a Mariana da minha barriga e eu, em vez de defender a gravidez, acabei por abraçá-lo com tanta força, mas tanta força, que ele foi diminuindo, diminuindo, até ficar do tamanho de um bebê. Assustada, acabei pronunciando o nome dele com todas as letras. E foi muito difícil justificar isso para o marido. Nossa! Foram dois pesadelos. E você nem queira saber o que eu ouvi a noite toda, cruz credo. Nunca tive a intenção de estar aqui hoje com ele. Nunca pedi a Deus para que o Luiz deixasse a casa dele, não, absolutamente não. Mas, se ele fosse primeiro, eu queria ir logo depois para ficar com ele. Lembro-me de que eu perguntava para a minha tia Norma, que era vizinha dele no Rio, como ele estava e ela só me dava notícias dos filhos dele. Ela nunca me disse que do apartamento dela dava para ver a casa dele. E eu quando ia até lá não sabia que ele estava tão perto.
João: Você sabia que ele morava no Rio?
Malu: Sabia, só não sabia onde. Quando eu insistia com a minha tia, iiiiihhhh!, ela desconversava na hora. A minha vida de casada já não tinha mais sentido no terceiro dia após o casamento. Nem para mim e acho que nem para o ex. E eu era muito só e o Luiz existia, existia fortemente dentro de mim. Aquele marido que se achava o tal, e que me usou muito, não passava de um fulano de tal. Porém, o descaso dele me fazia sofrer ainda mais. E eu trabalhava, trabalhava sem parar, para sustentar a casa e até os estudos dele, que não queria saber de trabalho.
João: E como foi ter duas filhas desse relacionamento?
Malu: Foi difícil e sem programação. Elas vieram para a vida somente com amor de mãe. O pai, ao saber que eram meninas, ficava transtornado. A minha primeira filha foi a que mais sofreu discriminação. O caráter dele era duvidoso: assumia dívidas e não as pagava, era egocêntrico ao extremo, era ele, só ele. Em nenhum momento ele se sentia pai de família. As meninas eram e são órfãs de pai vivo. E tem coisas que convêm não revelar, até para poupá-las. Logo que Mariana nasceu, nós recebemos uma visita até certo ponto inesperada: o Iran, aquele que viajou com o Luiz e o meu primo do Rio, para Dom Silvério e sabe o que ele me falou bem baixinho? "Não sei não, Malu, mas a sua menina tem os olhos do Luiz, e parece que sinto a presença dele nela. Que coisa estranha". Nesse dia eu rezei muito pelo Luiz...
João: Luiz aconteceu algo interessante no dia do casamento da Malu, e naquele dia você entrevistava o Ivan Lins, como foi isso?
Luiz: Na hora do casamento da Malu, dia 31 de janeiro de 1987, eu estava entrevistando o cantor e compositor Ivan Lins na extinta Rádio Nacional FM do Rio de Janeiro Ivan foi até lá para lançar a música Iluminados. Lembro-me que fomos surpreendidos com o passeio de uma barata bem em cima da mesa de trabalho, e brincamos com o inseto chamando-o de "um intruso adentra ao gramado sem a menor cerimônia". E foi justamente ele, Ivan Lins, que ouvimos na missa do dia de Santo Antônio, quando de nosso reencontro no Rio de Janeiro, quase doze anos depois. A mesma música Iluminados, inclusive.
João: Luiz, você disse que andou bebendo muito por aí...
Luiz: Nunca bebi na hora do trabalho. Um copo de cerveja é suficiente para que eu enrole a língua e não consiga tirar o melhor de mim. Mas depois do trabalho, cansei de ir para bares como o Jazz Mania em Ipanema ou o People no Leblon, em Vila Isabel eu vivia na 28 de Setembro tomando algumas para esquecer. Hoje eu sinto vergonha daqueles porres. Era uma fuga, uma grande fuga. Também uma coisa sem sentido e sentimento. Aqueles que se debruçam nos bares sabem: tudo é motivo. Isso acontece com quem não tem chão, fé... E eu brincava com os colegas: “Aids, que Aids? Isso não pega em mim, não”; Era como se fosse uma roleta russa, não tinha a mínima preocupação. Dane-se! Primeiro por não saber que tinha Deus; não tinha Deus porque não tinha amor, não tinha amor porque... e eu ia vivendo. Até que o Rio também se esgotou, mas tudo se esgotava na minha vida, nada dava certo, tudo literalmente entornava. Eu já colocava um NÃO em tudo. Era NÃO até para loteria. João, no final do ano de 1997 eu me lembro que estava na portaria da Rádio Nacional ouvindo o amigo Otávio Miguel falar sobre uma recente e doída separação. Depois de ouvi-lo eu acabei também falando do grande amor da minha vida, da saudade, do sacrifício de que fomos vítima. Mas teve um momento que eu disse: "Um dia ainda vou atrás dela. Não tenho saída, Otávio". Alguns dias depois eu estava no Carpe Diem conversando com o amigo Resende sobre o cheiro da mulher amada. Confesso que eu nunca tinha pensado nisso, mas quando ele falou da importância do tal cheiro eu pude sentir a fragrância Malu, essencialmente ali comigo. Foi uma sensação inesquecível. João, você não acha que o universo já conspirava a nosso favor?
João: A resposta está aí.
Luiz: Pois bem, de volta a Brasília, fui chefiar a Rádio Globo FM, mas a coisa estava do mesmo jeito, e por isso acabei fazendo minhas primeiras sessões de terapia. Na Rádio Nacional de Brasília, voltei a procurar uma profissional que pudesse sinalizar para mim uma vida menos angustiante. E foi assim que acabei no consultório da Dra. Ângela Mota, uma psicodramatista da pesada. Em nosso primeiro contato, por telefone, eu ameacei: "Não quero tomar remédio. Eu sei como me virar. Eu só quero conversar.” E ela calmamente me respondeu: "Tudo bem, tudo bem". E nós começamos as sessões: em uma delas ela quase me sufocou com um almofadão sobre a minha cabeça. Ela vinha para cima de mim me xingava, e apertava a almofada cada vez mais forte, e me xingava e eu não reagia. Até que Ângela cobrou de mim energicamente uma reação: "Reage, Luiz, está na hora de você voltar para a vida!!!" De repente eu joguei tudo para o alto, até a Ângela (risos). Abrindo um parêntese nesta narração, eu me lembro que três meses depois nós rimos muito ao lembrar do nosso primeiro telefonema e de como eu tinha chegado lá na primeira vez. Bem, a técnica empregada por Ângela me fez enxergar muita coisa, inclusive a minha depressão. Eu me anulava da seguinte maneira: com a vida sentimental destruída, eu vivia para os meus filhos. Em casa eu costurava, levava e buscava as crianças na escola, fazia bainha, cozinhava, fazia compras, saía com o cachorro, trabalhava, contava história, ia ao supermercado, fazia feira, trabalhava sozinho para sustentar a família, contava piadas, fazia isso e aquilo. A noite era do uisquinho pelos bares da vida. Em Brasília, eu gostava do Moinho, do London Tavern e do Carpe Diem, que foi o meu último refúgio, em seus guardanapos eu escrevia as minhas lágrimas. E quando chegava em casa não queria ir para o quarto. Às vezes escutava as músicas “O que será” e “À flor da pele”, com Milton e Chico era a minha saudade. E Maria Bethânia cantando “Você” de Roberto Carlos, era demais para mim: “Você que tanto tempo faz; você que eu não conheço mais; você que um dia eu amei demais. Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade”... Era justamente o que eu sentia. Então eu pegava papel e caneta e escrevia o nome de Maria de Lourdes ou uma poesia. Era muito angustiante. Só Deus sabe. Quando foi em 1996, eu já sem os três apartamentos, sem os carros, gordo, peguei os meus filhos homens e fomos acampar em Cabo Frio. Acampar com tíquete restaurante e de carona no carro do filho do amigo Marcos. Na praia eu corria para ver se um pouco de endorfina me ajudava a sair da depressão. Pela manhã, quando o sol vinha desvirginar a madrugada, era hora de rezar, coisa que eu não fazia há muito tempo. Quando eu rezava, os raios do sol nasciam também em mim. E eu rezava assim: "Meu Deus, eu estou no buraco, me tira dele, dá um sentido a minha vida. Eu preciso amar, Senhor”. E sem perceber eu escrevia o nome da Malu na areia. O mar vinha e apagava. E as lágrimas eram tão salgadas quanto a água do mar. E eu dizia: “estou ficando velho e bobo.” Naqueles dias eu resolvi ler um livro de psicologia, quase que de auto-ajuda, e esse livro chamou a minha atenção.
João: Que livro é esse?
Luiz: Eu não me lembro. Com a depressão minha memória foi parcialmente afetada. Segundo os psicólogos isso foi defesa do organismo, porque se as coisas tivessem ficado aqui no peito um enfarto já teria me fulminado. Voltando à praia, eu corria, andava na areia, e rezava. Fisicamente eu estava melhorando, corria até o forte e voltava, uns 6, 8 km. Voltei para Brasília e comecei a freqüentar a igreja de São Camilo de Lélis todo sábado, às 7 da noite. Achava o padre um bobo, não acreditava no sujeito, que para mim naquela época falava cada bobagem...!!! Mas eu insisti. Era exercer a fé, exercitar a fé.
João: Quantos anos você ficou casado?
Luiz: 18 anos.
Malu: E nesse longo período ele tentou a separação por duas vezes. Acho que não se separou porque a mulher, pressentindo o que achava pior, engravidava.
Luiz: Em 1983, eu tentei a primeira separação, mas quando soube que a ex estava grávida do meu querido Paulo Fernando, recuei. Naquela época cheguei a alugar apartamento no bloco A, da quadra 210 norte, mas acabei me desfazendo dele dois meses depois. Em 1988, ficamos grávidos de Danielle, que veio nascer em Brasília, nessa época morávamos no Rio. E Danielle nasceu para tampar a enorme lacuna que existia em mim; eu a chamava de meu grande amor, minha namorada. Adorava beijá-la na boca. Aliás, em uma das sessões de psicologia eu cheguei a relatar o meu temor de que a coisa pudesse virar um incesto. Bem, podemos continuar? E eu continuei indo à igreja, até que um dia uma matéria sobre Santo Antônio me chamou atenção e, movido por curiosidade e desespero, fui à paróquia da 911 sul para pedir-lhe uma graça. Quando lá cheguei, eu não sabia quem era o santo no altar, mas não perdi a viagem, acabei rezando o de sempre: "Meu Deus, dê-me um grande amor pelo amor de Deus". Mas foi em Patrocínio, Minas Gerais, que eu fiz a minha primeira promessa. Patrocínio é cidade de mulheres lindas, e como eu ia lá dar uma força a Rádio Módulo FM do meu antigo Mané, a farra era inevitável. Um dia entrei na igreja matriz, olhei para o Cristo e disse: "Meu Deus, basta, chega, eu não agüento mais. Que tal uma promessa, Senhor? Prometo rezar e visitar 40 igrejas, em quarenta cidades mineiras, alimentar 5 famílias, e em toda ocasião falar do teu amor para os meus filhos, meus amigos e pessoas que de mim ou deles se aproximarem, mas me dê um grande amor. Eu não me importo que este grande amor seja até a minha mulher, mas sem amor eu não posso continuar."
João: Quem sabia do seu sofrimento?
Luiz: Quase ninguém sabia, com exceção dos amigos Marquinhos e do Mané. Um dia cheguei a chorar no Carpe Diem. A partir daí o Mané me levou para o escritório dele para que eu pudesse fazer aquilo que gosto, criar. Criando eu tentava suportar toda aquela barra. Fora eles, ninguém sabia. Eu me recordo que trabalhava na redação da Radiobrás onde fazia o telejornal Rede Brasil Noite. E lá, de segunda a sábado, eu chegava a ler cinco jornais diariamente antes de apresentar as notícias. E na redação só uma pessoa sabia do meu amor por Malu, a jornalista Rosa Wasen. Bem, na Redação eu cumprimentava a todos, beijava as colegas, às vezes contava piadas, mas o fundo do poço era o meu chão, e por causa disso fui perdendo a memória e tendo dificuldade na articulação de sílabas; alguma coisa tinha que estourar e atingiu justamente a memória e a pronúncia, que ainda hoje tenho alguma dificuldade. Mas onde nós paramos?
Malu: Você parou em Patrocínio...
Luiz: Sim, Patrocínio. Aí saí de lá com aquela promessa. E já arquitetando a minha separação. Era preciso acabar com o casamento, mas não era necessário acabar com as férias dos meus filhos e resolvi que tomaria uma decisão a respeito quando voltasse de Cabo Frio.
Malu: Agora você dá um tempo para eu contar um pouco da minha história?
Luiz: Está bom... Aceita um queijinho amor?... Mais um vinho João?
Malu: O que o Luiz daqui a pouco vai contar quase chegou ao nosso encontro. Aí o que aconteceu? Casada, fiz o melhor pelo marido, justamente o que eu não tive forças para fazer pelo Luiz. Eu tinha que continuar a minha vida, e nesta caminhada eu trabalhei muito, fiz amigos e tive duas pedras preciosas que são as minhas filhas, Mariana e Thaís. E assim foram 11 anos de relação sem sentido onde eu me via sozinha. Graças a Deus consegui vencer os desafios. Quando me separei, o Luiz imediatamente ficou sabendo e foi me procurar. No primeiro telefonema, depois de 21 anos, nós conversamos muito; foi uma grande emoção; choramos e falamos das nossas histórias de vida. A partir daí voltamos a conversar todos os dias, do mesmo jeito de quando tínhamos 17 anos. Num desses telefonemas eu passei o número da amiga Zé, com quem eu desabafava, para que ele pudesse confirmar o que eu estava dizendo. Estávamos anestesiados e sonhando de novo. Registra aí João: tia Zê e minha irmã Celeste foram as pessoas que marcaram nossas vidas naquele momento. Bem, com elas o Luiz armou o nosso reencontro, sem que eu soubesse. Ganhei roupa nova, me produziram toda, a desculpa era a de um encontro seria num bar do bairro São Mateus em Juiz de Fora com uma pessoa que iria arranjar um emprego melhor para o marido da tia Zé. Achei tudo muito estranho, mas, nem desconfiei!!! E assim eu resmunguei para a tia Zê:
 Por que você tem que se encontrar com um empresário num barzinho? Por que não vamos à empresa dele? Nossa, que coisa complicada!
 Ele marcou lá porque também terá um encontro com outra pessoa. E você, Malu, vai comigo, eu não vou sozinha não. Olha, vai com aquele vestido!
E eu pensando: “mas que coisa doida”. E fomos. Enquanto andávamos, ela ia parando o tempo todo, era um telefonema atrás do outro e quando eu perguntava dizia que estava ligando para o tal empresário. No barzinho, completamente vazio, comentei com a tia Zê sobre o calor que estava fazendo, de pronto ela sugeriu:
─ Vamos tomar um suco de maracujá?
─ Eu não, vai que eu durmo.
Quando, de repente, chega o Luiz atrás de mim e a tia Zê fala: "Malu, este é o empresário que vai arranjar emprego para o meu marido". Eu olhei para ele; a imagem dele vibrava no meu corpo; devo ter ficado que nem um arco-íris. Foi muita emoção, João, foi indescritível. E por um instante fiquei cega e quando dei por mim estava nos braços dele.
João: O que vocês sentiram na hora?
Malu: Ah, eu nem sei. O que foi que eu falei, amor?
Luiz: Não sei.
Malu: Só sei que eu tremia muito. Parecia que estava suspensa no ar. Então eu cobrei dele:
─ A gente não combinou de se ver só no inverno?
─ Ah, eu não ia agüentar, não.
João: Luiz, certa vez você me disse que nesse dia, antes do encontro, você não teve condição de caminhar, o que aconteceu?
Luiz: Pouco antes desse encontro eu parecia um adolescente. “Me deu uma dor de barriga braba”; cada minuto parecia uma hora e nunca o carro demorou tanto para chegar. Eu me perguntava: “o que está acontecendo comigo”? Mas quando eu a vi, João, não havia delírio nenhum, entendeu? Nem tudo pode ser fabricado; algumas emoções podemos até fabricar, podemos até deixar o coração acelerar sem necessidade, mas é impossível fabricarmos um conjunto de emoções, o inesperado. A distância que nos separava eram uns dez metros, mas demorei uma eternidade para transpô-la. Eu precisei ser apoiado pela Celeste, pois não conseguia atravessar a rua. A Celeste falou:
 Cuidado! Olha o carro!
 Mas não estou vendo carro nenhum! Ajude-me! Meu Deus do céu!
E fui chegando à Pizzaria Brasil. Ao me aproximar, cada vez mais, o coração e as pernas tremiam. Quando a vi com aquele vestido provocante, o corpo ainda dourado da praia, eu disse: “meu Deus do céu e agora...?”Ao subir o degrau eu não sabia se estava acima ou abaixo dele, e só não caí porque a Celeste me segurou pelo braço. E abracei a Malu. A gente começou a chorar, a tia Zê e a Celeste também choravam. O garçom e o barman estavam atônitos com aquela cena, a gente abraçado, e todos muito emocionados. Ela, com esses lindos olhos azuis, escolheu um vestido azul. Imagina só como ela estava, queimadinha de praia “choice de lock”. Nos abraçamos numa sofreguidão sem fim; eu senti todo o calor do corpo dela. João, eu tenho certeza de que nunca abracei ninguém com tanto fervor, com tamanha entrega como naquele momento. E ainda abraçados, sussurrei no ouvido dela “mulher, eu te amo, tu és minha e eu sou teu”; ela me abraçou mais forte e me deu um beijo que até hoje sinto o calor dos seus lábios. Então lembrei do livro Como Era Verde Meu Vale, onde o autor Richard Llewellyn, descrevendo um momento de volúpia com a mulher amada, escreve “...como dizer NÃO quando ela estava dizendo SIM naquela voz que poria à prova a vontade de um bando de profetas. Não adiantava lutar, pois uma fraqueza se apoderava inteiramente de mim, e tudo que eu queria fazer era estirar os músculos e me deitar ao lado dela, sentir seu perfume, estar perto de sua boca, ao alcance da maciez de seu corpo... Ardia dentro de mim uma loucura que me vinha da boca, dos dedos e do centro do meu corpo. Nenhum homem saberá o que os deuses nessa hora estão forjando dentro dele. A boca procura colher novos frutos que parecem estar perto, mas jamais serão saboreados. Os dedos buscam intensamente os lugares macios, mas os sentidos estão muito longe de suas pontas, e impacientes com tantas tateações. E no meio do corpo, onde se forja a seta de aço, há uma perdição de calor que parece intimamente saber que só encontrará refrigério no sangue mais quente da mulher. Há uma ânsia veemente de encontrar esse lago de água fresca, retorções para se ver livre a fim de procurá-lo, milagres momentâneos de ricas unções, suaves esplendores de imersão e uma sofreguidão de contorções para estar mais perto, mais profundo e mais ligado. Naquele beijo dos sangues, há uma exacerbação dos sentidos, quando se esquece a respiração, os músculos se petrificam e o arco da espinha se curva na mão do arqueiro, enquanto a corda sibilante é puxada para lançar a seta. E no seu vôo atinge uma altura mais elevada do que qualquer outra sobre a terra. Um cântico de alegria ruge como uma tempestade, com uma cadência poética que jamais conheceu linguagem e uma música elevada e estranha. Fogos crepitantes de cores primitivas queimam por trás de olhos cegos e miríades de luas chamejantes se levantam para girar durante séculos num recém-nascido universo de ouro, incenso e mirra. Depois, o arco retesado se distende, pois a corda já cantou sua canção, a respiração volta a encher os pulmões e os membros tremem. Os olhos voltam a ver com clareza. As árvores são verdes, exatamente como eram antes. Não houve qualquer mudança. Nem raios de fogo. Nem anjos com espadas flamejantes. Entretanto, fora isso que deixara o Paraíso entregue às ervas daninhas. Eu havia comido da Árvore...”
Malu: Ele diz que não tem memória, imagina se tivesse?!
Luiz: João, eu quero falar das férias. Em janeiro de 1998, eu já havia decidido pela minha separação e por esquecer de vez o amor por Maria de Lourdes, o qual insistia em ficar comigo. Era hora de parar de chorar, de deixar de sofrer. E naquele mesmo período a Malu também tinha decidido que aquelas seriam as últimas férias dela com o seu marido. Parece mentira, mas esses são os fatos. Ambos pareciam ser um para o outro e que tudo havia sido combinado pelo destino. Lembro-me de que eu me levantava cedo para ter-me comigo e com o mar. E não sei porque eu estava feliz. Acho que era o destino que batia à porta.
Malu: Que coisa, meu Deus! Nessa mesmíssima época, eu desabafava com a minha cunhada, Soraia; lá em Vila Velha, onde estávamos, eu revelava a minha saudade pelo Luiz. Mas independente dele, eram só as férias terminarem e o meu casamento estaria desfeito. Até que sonhei com o padre Adalberto, que me acolheu em várias situações difíceis e no final da vida dele eu o acolhi; ele trazia um pacote e dizia: “minha filha, eu só tenho um minuto, este presente é seu, mas não o abra agora. Você vai entender que a partir de agora a sua vida vai mudar". E foi embora... No sonho, fiquei curiosa e com cuidado abri o presente, que era uma camisa azul. Acordei assustada e liguei para a minha irmã Beth, em Dom Silvério. “Será que aconteceu alguma coisa com os meus pais?” Ao telefone, Beth foi logo dizendo: “sabe quem esteve aqui?” E eu, não sei o porquê, disse: “O Luiz.” Depois que ela confirmou, eu me lembrei do sonho: “o meu presente seria o Luiz?” Por obra dos sonhos o Luiz tem uma camisa exatamente igual. Você já deve tê-lo visto com ela, João. É linda!
João: Um momento, você comprou uma camisa igual à do sonho?
Malu: Não, ele a comprou quando ainda nem tínhamos nos encontrado.
Luiz: João, quando do nosso reencontro, e eu não sabia desse sonho, eu estava com a camisa do Padre Adalberto. Azul como os olhos dele e os dela. João, veja como o Espírito Santo agiu: nas mesmas férias eu passei uns três dias no Rio, dividido entre a casa do Sérgio e a casa dos amigos Fred e Cristina. Quando decidimos voltar para Brasília, a minha ex-mulher bateu o pé para que não fizéssemos todo o percurso em um só dia, e o mais interessante é que ela falava em Dom Silvério como ponto de descanso da viagem, e a cidadezinha nunca foi e nunca será caminho entre as duas capitais, ao contrário, do Rio até lá são 500 km e de Dom Silvério a Brasília são mais 950. E a ex, que nunca gostou da cidade, não parava de falar nela. Quando chegamos em Juiz de Fora, ela decidiu: "Nós vamos para Dom Silvério". E quando deveríamos pegar o caminho, paramos um casal que estava numa Brasília de Rio Pomba, bege, como a que eu dirigia quando namorei Malu. Detalhe: estávamos a 100 metros do Parque Halfeld, exatamente em frente a casa onde Maria de Lourdes morava, e eu, claro, não sabia, nem atinava. Bem, quando pegamos o caminho de Ubá, Rio Pomba, Viçosa, a mãe das crianças vira-se para eles e diz: "Dom Silvério é a terra do grande amor de seu pai". E um silêncio sepulcral tomou conta da viagem. Chegando, a ex teve uma hemorragia e evitou sair de casa. Enquanto isso, fui dar um passeio para rever amigos e parentes, afinal eram 10 anos sem Dom Silvério, sem o cheiro de Maria de Lourdes. Quando passei em frente à casa de Quinca Fibra, o pai dela, resolvi entrar. Dona Maria, a mãe, veio com um largo sorriso e acabou nos mostrando algumas fotografias da família. Em uma delas tinha a Malu, e tudo voltou como nunca deixou de ser. João, olha que intrigante, em outra foto estavam Thaís e Mariana, filhas de Maria de Lourdes, o que provocou o seguinte diálogo com a minha filha Danielle:
 Um dia você ainda vai brincar muito com essas meninas.
 Quem são, pai?
 São filhas de uma pessoa muito importante para o papai.
E nem passava pela cabeça o que o destino nos preparava. E foi em Dom Silvério que eu fiquei sabendo que Malu já decidira por se separar do marido, exatamente como eu tinha em mente. E a mesma pessoa que revelou a tal notícia acabou por deixar escapar que a Malu ainda me amava. Dentro daquele contexto escrevi:
O sol d mar cou
A cor morena do meu rio
O mar sol tou-se
No azul infinito dos seus olhos.
E o tempo,
inútil na sua utopia,
há de consagrar-se com a nossa alegria.
...E quando o mar beija a terra,
que morena o calor de uma grande via,
é quando o sol também lua
a lua cheia de maria.
João: “Nesse momento Malu vira-se para Luiz e beija-o apaixonadamente.”
Malu: Ufa! E, João, mesmo com a emoção à flor da pele, a distância que tínhamos um do outro acabou nos ajudando, no sentido de resguardar o nosso amor e os nossos filhos. E quando o Luiz me ligou pela primeira vez eu passei a viver duas grandes aflições: o ex, que não queria sair de casa, vivia descontrolado e era uma ameaça constante, eu, que morria de medo dele, ia para o quarto da minha irmã Celeste temendo que ele fizesse alguma coisa. Nossa Senhora, foram momentos terríveis, mas graças a Deus ele foi embora; e a reviravolta na minha vida com o retorno do Luiz.
Luiz: E eu aqui, João, temendo o pior. Quase enlouqueci. Quando soube que a Malu tinha dado cartão vermelho para o então marido, mais que depressa, saí de casa. Seria mais uma traição, uma grande sacanagem, se eu ficasse ali dando margem à consciência que ficaria insuportavelmente pesada e aquele grande amor estava longe disso. Era preciso não mais trair a Malu.
João: Você disse trair a Malu?
Luiz: Sim, durante todo esse tempo que fiquei casado eu achava que estava traindo a Malu. E a gente queria construir um novo lar, uma nova família, e como ficaríamos se empurrássemos o problema com a barriga? Depois, a gente recomeçou a namorar por cartas e a cada quinze dias eu ia a Juiz de Fora, de carro ou de ônibus. Com a separação eu tive que vender o carro e um amigo me emprestava um Passat velho, que vivia quebrando. Fiquei três meses com esse carro para viajar e comprei um Fiat Pálio, com ele eu ia a Juiz de Fora, e fui às 40 cidades; 33 delas com a Malu, Ouro Preto, Mariana e tantas outras. Promessa cumprida.
Malu: E em todas as igrejas rezávamos agradecendo a Deus. Temos fotos de todas elas. As cartas do Luiz chegavam na casa da tia Zê, pois não podiam chegar lá em casa porque as meninas iriam abrir e perguntar. Para resguardar os nossos filhos e não dar margem a comentários maldosos, nós só ficamos juntos mesmo depois da separação judicial dele. A gente sofria muito com a distância; eram só telefonemas. Aliás, nesse caso, distância que hoje apelidamos de amiga da razão.
Luiz: Quando nos encontramos não havia mais nada dos nossos casamentos: nem braço, mão, nem toque nada, nada. A partir da minha separação meu corpo pertencia à Malu; eu não sabia se realmente ela ia ter forças para romper o casamento dela. Só sei que eu já tinha decidido a minha vida.
Malu: No dia em que nos encontramos, sentamos e acordamos que nos separaríamos de vez ou montaríamos um projeto de vida para nós dois. A partir daí traçamos metas e datas e definimos até que dia teríamos que estar separados oficialmente. Tudo nosso aconteceu junto, a Justiça decidiu aqui em Brasília a separação dele e sete dias depois decidiu a minha em Juiz de Fora.
Luiz: No dia que eu me separei fui a um bar, chamei dois amigos para tomar cerveja e contar a minha história: era o Augusto, amigo de infância, que conheceu Dom Silvério, e o outro era o Celso, advogado que fez a minha separação judicial. Então chegou uma menina em nossa mesa, fazendo todo charme para mim, menina bonita que trabalhava ali nas redondezas, então eu perguntei: “qual o seu nome?”. Ela pensou um pouquinho e disse: Maria de Lourdes, eu comecei a rir comigo mesmo; mas ela estava mentindo, o nome dela não era aquele, mas foi justamente Maria de Lourdes que ela escolheu. Que coisa absurda! Olhei de soslaio para o Augusto e fiquei “na minha”, porque eu não contava essa história, fazia o maior segredo. Eu não queria que nada desse errado, contei só da separação, mas não do reencontro com Malu.
Malu: Isso era combinado entre nós, só quem sabia eram a tia Zê e a Celeste.
Luiz: Quando estivemos no Rio, andando pela praia conhecemos o padre Zequinha, da igreja de Nossa Senhora de Copacabana, um padre famoso, sambista e surfista.
Malu: Contamos ao padre Zequinha parte da nossa história. O Luiz falou de Santo Antônio, e Santo Antônio é o santo de minha devoção, sei toda a vida dele, sempre o admirei, foi uma coincidência maravilhosa. No Dia dos Namorados eu e o Luiz estávamos passeando no Rio de Janeiro...
Luiz: Nós estávamos andando numa praia. A gente se abraçou com uma ternura muito gostosa... João, pode acreditar, muitas e muitas vezes eu pedi pela Malu nas minhas orações.
Malu: A gente rezava na praia. Do mesmo jeito que eu andava sozinha ele também andava. Meu Deus é testemunha, quantas vezes eu andei na praia pensando no Luiz e ele me disse que fazia a mesma coisa, parece que a nossa união estava escrita na terra e no mar. Aí ele trouxe as cartas e poesias que fazia para mim e mostrou ali mesmo, sentados na areia da praia.
Luiz: A água do mar veio e abruptamente deu um susto na gente, e aquilo foi muito gostoso... rimos por um bom tempo. Naquele dia era o casamento do filho de um amigo meu, eu liguei para ele, da praia, e falei que não podia ir. Falei para Malu: “hoje é dia de Santo Antônio, vamos à igreja ver que horas será a missa.” Quando passávamos em frente à igreja tomamos uma descarga elétrica vinda do nada, não pisamos em nenhum fio elétrico, estávamos de mãos dadas...
Malu: ...Em frente à igreja.
Luiz: Então nós paramos.
Malu: Trocamos um beijo que deu até faísca.
Luiz: Sabe aquela “coisa de doido?” Confesso que fiquei com medo, foi algo tão forte que me deu arrepio. Entramos na igreja e eu disse: “precisamos rezar, amor.” Não conhecíamos a igreja, do lado direito do santuário tem um local com várias imagens, lá no fundo a de Santo Antônio, exatamente em frente ao local onde recebemos a descarga elétrica. Coincidência? Não sei! Tem gente que acredita em coincidência, eu acredito na obra do Espírito Santo.
João: Onde estava exatamente a imagem?
Luiz: A imagem estava próxima à parede onde passamos e sofremos a descarga elétrica. Fizemos até um cálculo e foi exatamente em frente à imagem de Santo Antônio. Voltamos para a missa à noite e o padre Zequinha, na sua homilia maravilhosa, disse: “como diz o meu amigo Ivan Lins, o amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida. Já curou desenganados, já sarou muitas feridas.” Aquilo me encheu de alegria, foi uma missa extraordinária. Em outro dia...
Malu: Deixa que eu falo essa, amor! Nós estávamos na rua olhando móveis, e foi muito engraçado quando, em Copacabana, encontramos uma velhinha bem arrumada, toda engomadinha. Estávamos repletos da luz do amor. Então, essa velhinha olhou para gente e perguntou: “O que vocês têm? Alguma coisa está diferente em vocês... Se existe essa tal áurea ou energia eu estou vendo em vocês”. A gente andava abraçado na rua, as pessoas passavam e olhavam, chegou a ponto de uma senhora de meia idade nos dizer: “Parabéns pelo Dia dos Namorados, vocês são o sinal do amor; a televisão deveria focalizar vocês.” Eu disse: “Cruz-credo se chega uma televisão aqui eu morro de vergonha.” (risos).
João: Quando essas pessoas os viam, vocês estavam se beijando, se abraçando...?
Luiz: Não, era uma coisa contagiante que ninguém sabe explicar. João, o amor é evidente quando é verdadeiro. Era impressionante como a gente passava a imagem, o calor e o cheiro do amor. Não consigo me lembrar o nome da loja, mas a senhora era Maria Luiza...
Malu: Nós estávamos olhando uma mesa com oito lugares, e esta Senhora disse:
 Para que tudo isso se vocês vão casar ou estão recém-casados, tão novinhos?
 Mas nós já temos cinco filhos. Ela se assustou e perguntou:
 Quando vocês se casaram?
Ela gostou tanto da gente que por fim contamos parte da nossa história.
Luiz: Ela chegou a chorar, nos abraçou e disse: “Vão com Deus meus filhos!” Foi muito bonito aquele momento.
Malu: À saída da loja encontramos duas moças e uma delas disse: “Olha, que bonito!” Tudo isso foi muito marcante. Outra coisa muito boa também foi que ficamos sozinhos no apartamento do tio dele. No Dia dos Namorados perdemos a noção do tempo...
Luiz: Ficamos andando na praia...
Malu: A impressão era que saímos do mundo e fomos viver nosso momento. Nesse dia já eram duas horas da madrugada e não nos demos conta disso.
Luiz: Existe um restaurante que eu indico a quem for ao Rio de Janeiro, fica na Fernando Mendes ao lado do hotel Copacabana Palace, é uma tratoria simples com uma comida gostosíssima, um pão de alho maravilhoso, e a levei lá. Nesse dia, todas as cadeiras estavam de pés para cima com o garçom já dobrando as toalhas...
Malu: Estávamos tão envolvidos um com o outro que não sabíamos se era noite ou dia. Então o Luiz perguntou ao garçom:
 O que é que está acontecendo aqui?
 Meu Senhor, são duas e meia da manhã e vocês estão tão radiantes que não se deram conta do tempo.
João: A que horas vocês chegaram lá?
Malu: Não sabemos, o tempo havia parado.
Luiz: João, realmente há momentos em que se sai mesmo da realidade, acho que chegamos lá por volta de uma e meia da manhã, até então estávamos andando na praia, correndo um risco danado, tenho a impressão de que até o ladrão nos poupou: “Epa, aqueles ali, não”.
Malu: Nós perdemos a noção do tempo naquele dia...
Luiz: Não, amor, nós não perdemos, ganhamos o tempo (risos). E fui trabalhando; as coisas foram acontecendo, até que parei e disse: “gente eu nunca trabalhei tanto na vida”. Eu comprava tudo à vista.
Luiz: Já que não dava mais para viver sem Malu, eu disse: vou comprar isso e aquilo e comprei toda a casa, toda a casa, repito, tudo à vista. Nunca trabalhei tanto, nunca tive tanta alegria em trabalhar. Eu não me cansava, não ia mais para os bares encher a cara, era todo trabalho e dedicação, tinha prazer em trabalhar, levantar cedo, em sair do trabalho, tudo para mim era e é felicidade. Tudo isso acontecia espontaneamente, tudo para mim era bonito, a vida era um paraíso. Acho que naqueles dias eu nem vi se tinha alguém triste, chorando, passando fome ou coisa parecida.
Malu: Eu não trouxe nada da minha casa. Até o enxoval eu comprei, roupa de cama, tudo, tudo novo. João, o que você está vendo aqui neste apartamento é nosso; do passado ficou tudo para a ex-mulher dele. Eu não aceitei, nem ele, nada dos nossos casamentos. Até roupas de vestir eu trouxe o mínimo para mim, para minhas filhas e para as crianças dele também.
Luiz: Eu consegui tudo! Graças a Deus. A única coisa que veio foi meu som, meu velho e bom som. Mas vamos em frente... Então fui trabalhando, gravando, gravando.
João: Você disse no início que embora tivesse apartamentos, carros, você não tinha estímulo para trabalhar. Percebo que depois que vocês se reencontraram, em pouco tempo, em seis meses, você conseguiu tudo o que queria.
Luiz: Seis meses é muito. E não pense que foi só comprar coisas de casa, eu queria a melhor televisão, o melhor fogão, a melhor máquina de lavar; foi tudo do bom e do melhor; foi o sofá mais bonito, não importava o preço. A cama eu mandei fazer, era a mais bonita. Precisa de quarto para as crianças? Duas mesas para estudar? Estão as duas mesas lá! Agora, amor, vem a parte que eu gostaria que você contasse, quando preparamos o nosso casamento.
Malu: E outra coisa, eu não podia ajudá-lo, pois eu tinha que manter tudo em Juiz de Fora, o Luiz teve que pagar tudo sozinho: o meu vestido de casamento, os músicos e tudo o mais. Quem fez o nosso casamento foi o padre João, eu não o conhecia direito, foi uma amiga minha que contou a ele a nossa história e quando entrei na igreja ele disse que se sentiu tocado e que eu era a pessoa que Deus tinha mandado procurá-lo.
Luiz: Ele conversou conosco e falou que devido à vida religiosa da Malu e toda a nossa história, ele iria estudar o nosso caso. Dito o sim, marcamos o dia do casamento, seria pela manhã. Deveria ser uma cerimônia simples, porque a igreja não poderia estar exposta demais a este tipo de cerimônia Nos casamos no dia 10 de outubro, dia da honestidade, na igreja Melquita, que é bizantina, igreja católica apostólica oriental, coordenada pelo papa João Paulo II, mas os padres são diferenciados. Um dia antes do casamento, nós e o padre João fomos tomar cerveja, contar nossa história com detalhes, os sinais de fé e ele ficou emocionado. Nós relatamos tudo e durante a cerimônia ele tratou a questão com muita propriedade. Foi muito bom, um casamento, muito bonito. Ah! Na celebração os noivos tomam uma taça de vinho.
Malu: O ritual bizantino também tem uma coroa.
Luiz: Sim, tem a coroa. Três vezes se coloca a aliança, três vezes coloca a coroa e damos três voltas no altar.
Malu: Tudo isso significa os primeiros passos para uma nova vida. E tem mais: os convidados se envolveram tanto com o casamento que todos choravam a cada música que tocava, até os músicos (risos). E sabe quem foi ao nosso casamento? O Iran. Quando soube que a gente ia se casar, ele saiu de Vitória, onde mora, para ver de perto a nossa união. Ele nos disse que tinha que testemunhar o nosso amor. Inacreditável, esta foi a palavra que o Iran usou freqüentemente na ocasião. João, você vai arrepiar com o que aconteceu no nosso casamento. Antes do casamento falei: “Luiz vamos fazer a novena de Nossa Senhora Aparecida e rezar para o padre Adalberto, acho que esses nove dias devem ser dedicados a ele”. Então aconteceram dois fatos: Rita, uma amiga que mora em Niterói, me ligou e disse: “Eu vou para o seu casamento e vou levar o bolo”, ela faz cada bolo maravilhoso, desses que ficam em feira de exposição e concorrem a prêmios. Então Rita chegou para o casamento, naquela agitação toda, ela assistiu e chorou o tempo todo e o marido dela, como todo mundo, também se emocionou. E Rita, depois do casamento, foi lá para minha casa trocar de roupa e para o almoço. Ela chegou perto da imagem de Nossa Senhora, aquela que ali está, e perguntou para a minha mãe:
 Ô Dona Maria, esse velhinho aqui da foto, está doente?
 Quem Rita, eu não sei de que foto você está falando?
 Esse retrato junto à Nossa Senhora. Por que a Malu o colocou aqui? Ele está com câncer? Ele não parecia doente na igreja. Estava sorrindo o tempo todo, numa felicidade!
 Minha filha, este aí é o padre Adalberto e já faleceu há dois anos.
Até hoje a Rita lembra do semblante alegre do padre.
João: Realmente causa arrepios. É muita emoção!
Luiz: Mas tem outra coisa que aconteceu. Quando fizemos o almoço para comemorarmos o casamento, levamos a D. Sininha em casa. D. Sininha é uma dessas que tem muita força de Deus. Foi ela quem nos apresentou ao padre que celebrou nosso casamento.
Malu: E sem ela saber do fenômeno que Rita tinha presenciado, falou para nós assim:
 Tinha uma pessoa que estava com você, Malu, o tempo todo na igreja. O padre Adalberto. Eu chego a ficar arrepiada, ele estava lá com vocês, o tempo todo. E Malu, quando foi a vez de o Luiz tomar a taça de vinho, ele levantou a sua mão, minha filha.
 D. Sininha, a Rita também o viu.
 Eu também vi meu filho.”
Luiz: E eu cá com meus botões pensei: “Ela está dizendo que viu. Já estão vendo coisas demais”.
João: Quer dizer que duas pessoas viram o padre que já tinha morrido há dois anos?
Malu: Viram.
Luiz: Passada a meia lua de mel, porque foi uma coisa muito rápida, eu tinha que trabalhar e ela também, fomos pegar o álbum de fotos, para nossa surpresa e confirmação do que estamos dizendo, a gente se depara com a foto, eu tomando o vinho e a mão da Malu assim (a mão direita levantada em forma de concha em direção ao cálice do Luiz).
Malu: Veja a foto é esta aí. Do mesmo jeito que a D. Sininha descreveu antes de revelarmos as fotos. Ainda no dia do casamento tínhamos feito uma oração para a novena de Nossa Senhora Aparecida. Então o que aconteceu? D. Sininha vira-se para mim e diz: “Oi, minha filha, você pegou as flores? Vamos fazer uma horinha no cenáculo e agradecer por tudo; foi tudo muito bonito. Que tal levar estas flores e deixar lá no Santíssimo?” Quando chegamos ao cenáculo para uma missa em homenagem à Nossa Senhora Aparecida a única coisa que não víamos eram flores na igreja. Quando a irmã nos viu com aquelas flores, ela veio encontrar-se com a gente e disse:
 Que bom que vocês trouxeram estas flores para a igreja.
 Eu trouxe para Nossa Senhora Aparecida.
 Que bom porque vai ter a missa agora mesmo, coloquem aí.
Então as flores do nosso casamento enfeitaram a igreja para celebrar o dia de Nossa Senhora Aparecida no cenáculo. Para mim, são dois sinais de Deus muito fortes, muito fortes mesmo! Passada toda a festança, eu não vim para Brasília logo de imediato, fiquei em Juiz de Fora até o dia 13 dezembro, porque a escola estava toda em polvorosa e eu tinha bastante trabalho. A meninada toda estava a mil por hora.
Luiz: É bom registrar, Cristo Redentor Academia de Comércio é o nome da escola, que é a mais famosa de Juiz de Fora.
Malu: E o padre Adalberto era dessa escola e a matéria que passei a trabalhar com os alunos foi Formação Humana. Quando eu visitava o padre Adalberto já no finalzinho da vida dele, em 1996, eu cortava a unha ou aparava a barba dele, ele falava assim comigo, com uma voz muito rouca e lenta: “Oh, Malu você está passando aos alunos direitinho, falando tudo direitinho de Deus para eles? E eles estão escutando? Trate deles com muito carinho”. E quando eu tive a Thais, a minha segunda filha, ele não queria de jeito nenhum que eu ligasse. Será que queria dizer alguma coisa?
Luiz: Então nós tivemos essa benção maravilhosa. Então fui lá desmontar os móveis dela e ajudei a doá-los.
Malu: Então viemos para Brasília. Quando chegamos, eu estava morrendo de medo: “ai, meu Deus, uma nova vida. O que é que vou fazer?” No aeroporto havia vários táxis parados e o próximo que seria o nosso estava escrito “Maria Rainha da Paz”. Eu logo pensei: “é aqui que eu entro”. Fui acolhida por Maria logo que pisei em Brasília. Nesse dia me deu uma tremedeira nas pernas, tive cólica, você lembra, amor? O Luiz já tinha montado a casa toda e eu não a conhecia.
Luiz: Eu tinha montado um apartamento na 303, e estava doido para mostrá-lo. Graças a Deus ela gostou logo de cara. Dom Bôsco foi a escola que a recebeu para trabalhar.
Malu: João, quando entrei na escola Dom Bôsco senti a presença do próprio. Eu o conheço e sei de cor toda a vida dele. Senti uma coisa lá dentro de mim dizendo “é aqui que eu vou ficar”. Deixei currículo numas sete escolas, e eu senti uma vibração mais forte me dizendo “é aqui que você vai ficar”.
João: Vocês pediram a nulidade dos casamentos de vocês?
Luiz: Estamos com processo no Tribunal Eclesiástico. Foram casamentos com total inobservância de todos os valores. O sacramento não existiu, definitivamente.
João: Você, Malu, ia me falar das dificuldades que vocês encontraram aqui em Brasília.
Malu: Esse amor já resistiu a muitas coisas depois que nos casamos. Eu não sei se você já viu alguma imagem que tem a aquela redoma. Assim somos nós... tudo pode vir para nos destruir, mas existe uma proteção porque nada diminui o que sinto por ele, nada afeta a base do nosso amor. Estou aqui simplesmente por causa do Luiz, apesar de ter feito novas amizades.
Luiz: A título de narrativa, seria bom que esse amor pudesse ter uma reticência no final, para que as pessoas também não ficassem pensando: “que merda, ter que passar por tudo isso! Aí é soda!” (risos). Mas a gente ficou com a preocupação em passar que é tão forte esse amor que não conta a parte de canseira, rotineira, financeira...
Malu: Mas tem uma parte que a gente realmente se esqueceu de falar. Foi quando ele foi conversar com o meu pai. Ah, foi muito bonito isso!
Luiz: Ah, como você sabe, ele é o homem mais bravo da cidade. A Malu não queria falar com ele, a mãe dela tinha medo. Eu disse: “Meu Deus do céu. Como é que vai ser isso?”
Malu: Isso em junho.
Luiz: Em julho a Malu foi passar as férias em Dom Silvério e levou uma carta minha para ele. Então, o homem mais temido da cidade foi a pessoa que mais acolheu o nosso retorno.
Malu: Ele só fez uma razoável observação: que o Luiz cuidasse das meninas, “as minhas netas”, disse.
Luiz: E a resposta foi em uma carta, pois prefiro escrever. Escrevi e aquele homem, segundo a Malu, se desmanchou.
Malu: Chorou muito.
Luiz: Aquele homem de garra, de guerra... Ah! é um extraordinário ser humano. Muito criticado por toda a cidade como um sujeito temperamental, é um ser brilhante e extravagantemente honesto.
Malu: Ele é muito correto.
Luiz: Toda a cidade tem um respeito muito grande por ele e ele por nós. Tenho um enorme carinho por ele. Ele é de poucas palavras, mas é sábio.
João: Malu você falou para suas filhas toda a sua história com o Luiz?
Malu: Algumas coisas sim. Tem uma cena muito bonita da Mariana que no dia da entrevista no Colégio Dom Bôsco uma das perguntas era: “Por que você veio morar em Brasília?” Ela respondeu: “Porque minha mãe veio encontrar o grande amor da vida dela” (risos). Outro dia eu comentava com o Luiz que talvez esse nosso amor seja uma coisa tão forte que ele agüentaria esperar mais, se precisasse... Certa vez eu estava muito chateada e chorei muito então perguntei para Deus “por que Tu não me deixaste mais um pouco sozinha? Para algumas coisas ficarem mais bem resolvidas?” E hoje quando eu fui procurá-Lo, à minha maneira, eu encontrei a resposta, Deus falou assim: “O seu amor é lindo e você nunca esteve só, Eu é que quero vocês dois juntos”. Entendeu por que transcende? Deus não entra na vida do homem para cortar a liberdade. O amor onde existe, onde tem condição de ele acontecer, já não é mais seu nem meu, é de Deus. Eu não posso ser maior que Deus.
João: Eu gostaria que vocês dessem algumas receitas. Vamos começar pelo ciúme? Ciúme ajuda ou prejudica uma relação?
Malu: Em todo relacionamento humano  pode ser marido e mulher, namorados, filhos  existe ciúme. Se ele for bem dosado um tanto melhor, é salutar, faz parte. Quando se fala de um relacionamento, do grande amor da nossa vida, é normal que tenhamos ciúmes.
Luiz: Quando somos garotos temos mania de racionalizar tudo e dizer: ah, eu confio no meu taco, sou isso, sou aquilo... Uma coisa é falarmos do ciúme e não ter por quem ter ciúme. Outra coisa é termos um relacionamento estável e filosofar sobre os ciúmes. Sem querer filosofar muito, eu gosto quando minha mulher tem ciúmes de mim, eu me sinto valorizado. Eu adoro a inconstância do meu amor, as nossas diferenças, os diferentes climas que a gente vive; isso é que eu acho importante. É muito bom ter um amor constante num clima adverso.
João: Vocês passaram 21 anos separados sem nenhum contato, mas apaixonados, cada um à sua maneira vivendo seu mundo, e lutando por esse amor. O que vocês diriam para quem está em dificuldades com a pessoa amada. Qual é a receita?
Luiz: Bom, a meu ver esse amor que a gente vive e está tratando nesta história só foi possível porque ele é um pedacinho de grandes amores. O que são para mim esses grandes amores? Outro dia eu estava lendo Rimbault, mostrei a você João, sobre a delicadeza. Eu sempre fui muito delicado e na expressão viva da palavra sou aquele que oferece seu lugar na fila, aquele que oferece a sua vida pelos filhos, aquele que vê o amigo feliz. Eu não imaginava me casar com a Malu. Imaginar eu imaginava, sonhar, sonhava, mas jamais pensei que acontecesse. Então, como eu agi corretamente, mesmo na minha solidão, no meu sofrimento, eu tive como resposta merecer esse amor. Então para se ter um amor, precisamos merecê-lo. Quando da minha depressão, logo depois que eu fazia o jornal da televisão à noite no Rio de Janeiro, eu ia para o Jazz Mania, para o People e tantos outros. Eu adorava ficar lá, e tomava vários uísques. Eu, o uísque e a solidão, porque eu vivia um relacionamento em que a outra pessoa me roubava a solidão. A solidão era a coisa que me fazia escrever, me fazia continuar a viver, mesmo que bestamente. Mas esse amor que hoje Deus me deu foi em decorrência das minhas boas ações e pensamentos. Naquela época negra em que precisei procurar um psicólogo, eu não merecia esse amor, repito, eu não merecia, estava no buraco, lá embaixo, entende? Eu não tinha o menor o relacionamento com Ele. Então, a partir do momento em que a gente vai mudando, se modificando, há um dia em que acontece o soerguimento do homem e se começa a merecer as coisas de Deus. Por mais que eu pensasse na Malu, que eu corresse atrás dela e fosse ousado, naquela época não ia dar certo. Mas mesmo nas minhas farras eu nunca desejei o mal nem quis as coisas ruins; nunca maquinei contra as pessoas e Deus via isso e dizia “calma meu filho, vai chegar tua vez”, graças a Deus chegou.
João: Qual a receita para os casais não se magoarem e continuarem se amando?
Malu: Quando se faz a experiência desse amor é como se olhássemos lá dentro; vou fazer uma comparação bem grosseira: “é pegar o feijão e separar pedra e feijão, isso aqui é pedra e isso é feijão”. Eu já havia falado nesse nosso diálogo que nós vivemos muitos momentos onde as coisas externas, as nossas diferenças, tudo o que envolve a gente acontece e não nos atinge. Às vezes a gente quer ficar sozinho, mas lá dentro, na essência do amor, isso não chega. Já fiz a experiência de sentir a força desse amor, que supera, que consegue muito. Em certos momentos não é hora de falar, espera-se um pouco e depois volta ao assunto. Aí está a receita.
Luiz: Os problemas da pessoa amada  no caso a Malu  seus erros eu os conheço, mas eu a amo desse jeito, com esses defeitos, com esses erros. Então isso não é um problema. O problema se consagra quando vem de fora, de fora para dentro do relacionamento. São problemas que o mundo nos oferece, pode ser um relacionamento desagradável na família ou no trabalho. Quando os problemas vêm de fora o que temos a fazer é não aumentar esse problema. Existe uma frase que eu posso resumir muito bem: “não diga para o seu Deus o tamanho do seu problema, diga para o seu problema o tamanho do seu Deus”.
João: Malu, lá no começo da história você disse que no terceiro ou quarto dia do casamento você e o seu marido perceberam que não ia dar certo. Com relação ao Luiz em que momento você percebeu que ele era o grande amor da sua vida?
Malu: Eu não precisei me casar para perceber isso, esta é a primeira resposta. Mas como o Luiz estava casado eu não podia fazer nada. E, para mim, o Luiz tinha muita raiva de mim. Eu achava que era um sentimento de raiva; eu achava que era um amor ferido... Então eu dei aquele ponto final; pensei que tinha dado. E continuei minha vida, pois eu não podia parar. Sempre pedi muito a Deus para eu ser feliz juntamente com os meus familiares e amigos. Aos 19 anos eu trabalhava na pastoral e ajudei muita gente construir suas casas. Inclusive o padre Adalberto falava: “Malu você é muito procurada para ajudar as pessoas a construírem suas casas e você ainda paga aluguel.” Agora entendo por que isso acontecia, pois eu não devia estar ali, eu não queria casa nenhuma. Só agora é que eu quero casa e colo.
Luiz: Amor, agora você está na sua casa e este é o seu colo. Deita aqui.







MENDES, João Rios. Amar: A verdadeira aventura. Ed. Gráfica Santa Clara. Brasília-DF, 2000. 112 p.
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