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Ensaios-->Patacoada cômica -- 05/01/2017 - 23:15 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Sabia que o pai participava de antologias e mantinha os livros escondidos em um quarto dos fundos, e também que sua mãe era uma pedra-pomes, um pomo de discórdia saído das lavas de um vulcão em atividade. Pensava  a mãe como uma pedra? Será que as pedras guardam o registro de tudo que aconteceu em sua vida pétrea? Se uma pedra nunca foi esmagada  e sendo uma pedra dura de roer, por quanto tempo durará a existência de uma pedra? Pode uma dinamite que explode uma pedreira, por fim a vida de uma pedra? Não a transformaria em dezenas e centenas de pedras menores que continuarão, individualmente, sendo uma pedra? Pode uma bola de fogo destruir um templo e não deixar pedra sobre  pedra? Cada pedra caída continuará sendo uma pedra, mas já não haverá mais o templo de pedra.

Parou... Pensou... 
Há coisas mais importantes do que refletir sobre uma pedra. O que pensam as pessoas sobre os personagens dos livros que leem?  Uns torcem para que Ramayana  morra, outros que ela se case com Leonardo e viva feliz para sempre. Machado sugere que se comesse uma peça pelo fim. Entre logo no ápice, atingindo a culminância nos primeiros momentos. Seduzir o leitor, contar tudo no primeiro ato, e dali em diante, desfiar os pormenores da trama, até chegar aos fatos que desencadearam o que já fora dito antes. Talvez por isso, Jeremias ou quem quer que seja que escreveu “Percalina verde-drummond”, reduziu  de 24 para 12 os volumes a coleção encadernada em percalina verde, para depois apresentar mais seis volumes e depois mais seis, abrindo a torneira aos poucos e fechando na hora certa, para que Osíris pudesse arrepender-se de tomar para si como mulher, a própria irmã. E Isis deixasse Leonardo viver seu idílio com Ramayana.
Robert acompanhava pelo pela cópia que recebera e fazia anotações para serem avaliadas no intervalo da leitura.
— Já apresentaste tua percalina verde. Não convém retomar Boitempo nem  enrolar demais o leitor.  Por que dizer tão pouco com tantas letras, se pode-se dizer muito, com pouca tinta? 
— Preciso de mais tempo para acompanhar teu raciocínio. Ele é rápido como a luz. Continue.
— A linguagem cria seu próprio jeito de adequar-se e, já não se pode mais ser tão prolixo como outrora, mesmo porque, o tempo não para, anda  à velocidade da luz. O leitor não aceita ou não se debruça mais para ler longos textos; prefere os microcontos. Sejamos, pois, concisos em tudo que dissermos, porque já o somos naquilo que fazemos. Ninguém tem tempo para nada. Ninguém para diante de uma formiga que arrasta uma carga sete vezes mais pesada do que ela. Ninguém cuida de um pardal que caiu do ninho, antes de estar pronto para voar. 
Sabia que no voo literário, o percurso mais longo é a porta do avião e, antes que a Dama do Metrô reabrisse uma polêmica sobre  assunto já encerrado, e voltasse   a afagá-lo com piparotes; bocejou, acomodou-se melhor na cadeira e com as mãos metidas em luvas de seda sentenciou:
— Há muita patacoada cômica e  célula-dramática  demais em teu ensaio, digo conto, ou melhor, romance... Produziste mais de quinhentas páginas, a partir de um acidente na plataforma do metrô. Aproxima-se a hora de enxugarmos obra. Retirar  as garças negras penduradas como morcegos no travessão de João Cabral. E outros pensamentos alheios que utilizamos para explicar, confundir ou ganhar tempo. Façamos citações indiretas e recuos. Não gosto de aprisionar ninguém entre parênteses.
Robert se referia às aspas, imagem buscada em morcegos grudados nas palavras como brincos em orelha de madama. Neste ponto, estavam de acordo. Ravenala queria também usar outros recursos, como realçar em itálico,  ou dizer o nome do autor, sem dizer.Não queria  entrar em guerra naqueles matos com Gregório. Mas, não  polemizou o discurso. Engoliu a seco muitas aspas e caspas que a vida lhe ofereceu. Não precisava voltar ao primeiro século antes de Cristo para encontrar Lucrécio ajoelhado aos pés de Mecenas. Encontraria em qualquer esquina um escritor vendendo o cérebro para comprar leite e pão. Muitos pagam pela edição de seus primeiros títulos. Raquel pagou, Queirós também, e Coralina gastou todos os seus Vinténs de Cobre. Robert não queria pagar para ser lido. Também Ravenala  nada pagaria a ele a pareceria e revisão dos textos, a não ser que uma editora de renome abraçasse a causa, publicando a obra e lhe recompensasse,  em dinheiro os justos e merecidos direitos autorais. Não cobraria nada dele, se ela  resolvesse fazer uma edição independente. Mas não haveria produção independente. Pagar para ser divulgada estava fora de seus propósitos, neste ponto, seus anseios respiravam o mesmo ar que o parceiro. Ela  também tinha ojeriza às aspas, verdadeiras caspas poluindo os textos que lia ou escrevia.
Abriu um sorriso sardônico e deu seu grito de gaivota: 
—Mãos à obra!
— Amanhã, em minha casa— disse ele.
***

Adalberto Lima, trecho de Esrtrada sem fim...

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