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Ensaios-->Peripatético: A verdade histórica de uma expressão -- 25/01/2017 - 15:48 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

PERIPATÉTICO: A VERDADE HISTÓRICA E OBJETIVA DE UMA EXPRESSÃO

João Ferreira
Janeiro de 2017

Nem sempre na divulgação de conceitos se transmite a verdadeira história dos termos. Acasos fortuitos fazem por vezes que se atribua indevidamente autoria a escritores, a pensadores e a escolas que apenas adotaram ou praticaram o uso de uma terminologia, e não que eles fossem autores dessas expressões. É o caso do termo peripatético, termo que certa tradição cristalizou como se fosse próprio de Aristóteles quando na verdade a história nos revela que o costume peripatético vinha já das escolas filosóficas gregas antigas, desde Sócrates e Platão pelo menos.
Partindo deste desconhecimento, nossos dicionários continuam registrando indevidamente o nome "peripatético" (do grego peripatetikós, que significa ambulante, itinerante) como sinônimo de aristotélico, pelo fato de Aristóteles ter o hábito de "caminhar enquanto lia ou ensinava" no Liceu. Apesar do hábito de Aristóteles ensinar ou ler passeando, ele não inovava, mas apenas cumpria uma tradição em uso nos círculos filosóficos gregos desde Sócrates. O avanço dos dicionaristas em terem tomado o termo peripatético como sinônimo de aristotélico é um exagero e uma inverdade. Mais justo seria atribuir esse termo a todos os mestres gregos, que além de sua própria filosofia eram também peripatéticos, na medida em que usavam e gostavam de debater os mais altos assuntos "caminhando e passeando ao ar livre", como sabemos através do testemunho escrito de Platão

II
Histórias da Filosofia

A renomada "História da Filosofia" do renomado autor alemão Johannes Hirschberger, Tradução espanhola, Tomo I, Barcelona, Editorial Herder, 1954, ao falar de Aristóteles faz este registro: "Da mesma forma que Platão na Academia, o grupo de estudos [de Aristóteles]tem o aspecto de "Thiasos", uma espécie de comunidade religiosa dedicada ao culto e à honra das Musas. Mais tarde, os homens daquela escola foram chamados de "peripatéticos". Nessa época e posteriormente se deu como explicação e significado desse nome o fato de que os mestres da escola faziam suas explicações doutrinais passeando. Dado que este costume era muito comum desde Sócrates , é bem provável que este nome possa ter proveniência de alguma circunstância de que poderia ser a galeria ou passeio (Peripatos) que se encontrava a poucos passos do Liceu" Ib. 104.

III
Platão

Sabe-se porém que não só o termo mas o hábito de os filósofos debaterem ou explicarem seus pontos de vista culturais e filosóficos já era usado nos círculos de debate e nas escolas de filosofia da Grécia Antiga, provavelmente pelo menos desde Pitágoras e já, com toda a certeza, no tempo de Sócrates, hábito que Platão herdou, usou e transmitiu em sua Academia, deixando em várias passagens de sua numerosa obra escrita, testemunhos dessa tradição. Para exemplificar recortamos algumas passagens importantes. Em primeiro lugar, o testemunho da obra "As Leis". Logo no Livro I (625b), há uma passagem em que o interlocutor "O Ateniense", na proposta de debate que faz ao estrangeiro Clínias diz literalmente: "E visto que tu [Clínias de Cnossos/Creta] e nosso amigo Megilo foram ambos educados em instituições legais de tal excelência, não considerariam um desprazer, imagino, que nos ocupássemos em discutir o assunto governo e leis "à medida que caminhamos". É certo conforme me foi dito que a estrada de Cnossos à caverna e templo de Zeus é longa e seguramente encontraremos nesta temperatura abafada locais de descanso com sombra sob as árvores altas ao longo da estrada: neles poderemos descansar amiúde, como convém a nossa idade, passando o tempo discursando e assim completaremos nossa viagem confortavelmente." Ib. 625b. [...]. Por sua vez, no diálogo Fedro, o interlocutor Fedro diz para Sócrates que estava curioso em saber o que Fedro e Lísias [ descrito por Sócrates como "famoso por seus eloquentes discursos"] tinham conversado. Fedro satisfaz a curiosidade de Sócrates e responde: "Tu ouvirás a respeito disso se dispuseres de tempo livre para caminhar comigo e ficares à escuta" (Cf. Diálogo "Fedro", [Cf. PLATÃO, Diálogos Socráticos. Trad. em português de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2008, pág.32.
Podemos aduzir ainda outro testemunho platônico no diálogo "O Banquete", aproveitando a fala de Apolodoro que relata o pedido de um "conhecido seu" que "desejaria ouvir tudo acerca do jantar que reuniu Agaton, Sócrates, Alcibíades e outros": "Pois então, ele disse, "conta-me agora mesmo porque o caminho em direção à cidade se presta bem ao narrar e ao ouvir enquanto andamos." (cf. PLATÃO, O Banquete, trad. port. Edson Bini. São Paulo: Edipro 2010, pág. 35.) E logo em seguida: "Assim nos pusemos a caminhar e esse foi o teor do discurso, para o qual como vos disse inicialmente não estou despreparado". Ib., pág.35.

IV
Estes testemunhos nos levam, portanto, a tomar conhecimento da verdade histórica. Essa verdade nos diz que "o costume peripatético de ensinar passeando" na Grécia não é uma criação de Aristóteles mas "um costume generalizado nos círculos filosóficos da Grécia Antiga", como comprovam fontes escritas anteriores a Aristóteles. A conclusão a tirar desta informação é que Aristóteles não é o fundador e criador do peripatetismo mas apenas um seguidor da tradição grega, que já utilizava o "debate e o ensino de forma peripatética", "passeando" ou "caminhando", de forma generalizada. Aristóteles apenas adotou e universalizou o estilo junto de seus discípulos e seguidores e em sua própria escola que era o Liceu. É um utilizador do estilo peripatético, não o fundador.
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