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Contos-->AMONÁ - O CALCINHA DE BISSAU -- 07/06/2007 - 19:40 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

AMONÁ - O CALCINHA DE BISSAU
João Ferreira
7 de junho de 2007

Não está havendo confusão, não. Não falamos da "calcinha" no sentido brasileiro. Falamos de um calcinha de Bissau.Era assim mesmo que se chamava ao jovem que usava seu short como peça principal de vestuário na cidade. Um nome que marcava a ação de certos jovens de rua, nos idos de 1964, em Bissau.
Naquela tarde ele seguia atento o ritmo da charanga militar que desfilava pela Avenida do Império. Muito compenetrado, Amoná integrou-se todo empertigado no desfile. Estava com seu chapéu Zorro na cabeça, camisa à sport e short de sarja e acompanhava as forças negras que integravam o exército colonial, no tempo da guerrilha guineense pró-independência. Mãos nos bolsos, ele olhava atentamente o garbo dos caçadores especiais embraçando suas pistolas metralhadoras sem descuidar o aprumo da marcha. Olhava sobretudo o cofió vermelho dos soldados fulas que assumiam a responsabilidade de puxar a música instrumental da charanga!
Naquele dia, a atmosfera tórrida da cidade não impediu que os jagodis, eternos hóspedes dos telhados do matadouro municipal, esvoaçassem lentos no céu de Bissau. Era um quotidiano pesado, bem conhecido.
Amoná continuava atrás da charanga, no meio da multidão, entre tantos compatriotas de raça papel misturados com mancanhas, manjacos, mandingas, fulas e saracolés. Habituado à rua, estava ali no eido de sua pátria preferida. Como sempre, sem destino. Apenas como “calcinha”, num tempo em que o calcinha tinha uma figuração especial na cidade. Significava no mundo africano daquele tempo da Guiné-Bissau o mesmo que significava um teddy boy na Inglaterra ou um tricheur na França! Um jovem de rua, enfim!
Amoná era calcinha desde menino. Deixado de lado pela família, foi crescendo como menino abandonado. Praticando pequenos furtos. Um pobre diabo, viciado no furto, mas não violento. Tinha agora 16 anos! Seu comportamento tático era o de um carrapato. Tentava chamar a atenção de alguém e colar-se como jovem de bem, como parasita com um plano escondido. Sabidamente frequentava a terra de ninguém. Entrava manso, contava uma história. Fazia-se de vítima infeliz. Dizia por exemplo que tinha saído do hospital. Precioava de comer, não tinha onde dormir. E então, armava. Entrava assim. Depois acompanhava friamente o desenrolar da história esperando dar o bote de menino esperto. Estava ali para enganar No fundo, era de verdade um rapaz abandonado ao seu destino, sem um mundo ao qual pudesse dizer que pertencia. Era na origem um filho da terra, um filho de seus pais, um filho da sociedade, um filho de si mesmo. Mas agora perdera a identidade primeira e transformara-se num jovem auto-produzido. Agia impessoalmente com toda a frieza de quem não foi educado em códigos éticos ou em berço de família. Seu viver era uma simples existência! Somava dias com dias. E sua cabeça tinha um simples relógio: seguir adiante! Tentar a sorte. Tentar a sobrevivência trapaceando, com esperteza mas sem maldade e sem violência.
Por dentro desta forma de viver, sua filosofia imediata consistia em enrolar, em “engrolar”, servindo qualquer meio ao seu alcance para atingir seus fins de ocasião. Esta era a filosofia de vida de todos os calcinhas da cidade, incluindo Amoná. Auto-defesa de sobrevivência ensaiada no abandono!
Tinha agora dezesseis anos. Nascido no chão papel, na ilha de Bissau. Sua fisionomia mostrava um rosto com nariz cheio de movimento e lábio inferior voluptuoso e olhos oblongos de gazela. Esperto.
Num dia escaldante de março, apareceu-me abatido à porta:
-“Saí hoje do hospital. Não tenho pai nem mãe. Vinha pedir se me deixava dormir aqui!”
Olhei seu rosto ingênuo e disse:
“Não tenho sítio para te dar!”
-“Ainda que seja num cantinho da garage!”
Não tinha como negar. Mandei colocar uma cama num canto da garagem. Ficaria por aquela noite.
Disse ao empregado para lhe dar arroz e vianda, segundo os usos da terra. Ao outro dia, consegui despedi-lo, aconselhando-o a que procurasse trabalho.
Mais tarde voltou. Aproximou-se com uma vozinha de vítima e disse:
-“Ainda não consegui trabalho. Estou triste. A vida tornou-se pesada. Já estive tentado a matar-me hoje. Ajude-me. Dê-me trabalho cá na casa!”
Fui lhe dizendo de que não dispunha de vaga, mas que lhe permitia ficar mais dois dias para continuar a procurar trabalho. Me disse que esteve em Santa Luzia pedindo para ser admitido nas obras que corriam ali pelos lados do Quartel. Para facilitar a coisa, eu próprio consegui arranjar-lhe patrão. Marquei-lhe o dia de saída e quando devia se apresentar junto do novo patrão, disse-lhe que preparasse a mala para seguir. Aconteceu então que o acaso me levou a passar diante da garagem. Sem desconfiar de nada e sem nenhuma predisposição, olhei para dentro, vi as coisas que tinha ali perto da mala e descobri, com enorme admiração minha, brilhando... minha caneta Parker!!! Havia muita roupa nova por ali. Camisas. Shorts, roupas boas, do melhor. Estranhei. Me deu um estalo na intuição! Fui ao telefone e liguei para um delegado da polícia, meu conhecido, e solicitei seus serviços na minha residência naquela hora. Atendeu de pronto!
-Tocou a campainha. Entrou e quando deu de cara com o calcinha, só disse:
-Ah és tu outra vez, meu malandro?
Amoná não reagiu nem mostrou nenhum susto com a presença do delegado! Tudo fazia sentido agora! Já tinha roubado dinheiro no meu escritório, fora aos melhores estabelecimentos de Bissau, comprou as melhores roupas com o dinheiro roubado.
Agora estava ali encalacrado! Tinha saído da cadeia no dia em que bateu à minha porta.
Estava novamente nas mãos do delegado!


João Ferreira
7 de junho de 2007
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