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Ensaios-->UM BELO LIVRO DE POESIA -- 21/08/2017 - 01:31 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

UM BELO LIVRO DE POESIA

João Ferreira
20 de Agosto de 2017

O nome de Noélia Ribeiro já é bem conhecido nas rodas poéticas de Brasília. Seu livro "Atarantada" publicado em 2009 deixou nos leitores de poesia uma bela impressão. A crítica foi-lhe muito favorável. Mais recentemente, em 2015, através da Editora Vidráguas, de Porto Alegre, Noélia publicou novo livro a atestar sua vitalidade poética, com o nome provocador de "Escalafobética", o qual, no projeto da autora, passaria a ser o segundo de uma trilogia iniciada com "Atarantada".
O novo livro pode ser olhado como uma obra de íntima visão poética do mundo amoroso, com o selo de autenticidade como virtude de proa. Uma poetisa caracterizada pela autenticidade tende a dar-nos uma poesia natural disposta a abrir o verbo na direção da vida e da vivencialidade.
Para decifrar a provocadora palavra escolhida para o título - Escalafobética - talvez alguns leitores, como eu, terão de recorrer a um bom Dicionário de Língua Portuguesa.
Pela consulta ficarão a saber, sumariamente que "escalafobética" significa "desajeitada", "desengonçada", "estrombótica", "destrambelhada". São conceitos gerais, abstratos. Mas, o mais prático é o leitor ir montando aos poucos o sentido que acha mais apropriado na medida em que vai lendo os poemas. Só assim descobrirá o rosto e o caráter do que pode figurar-se como "princesa escalafobética". É a leitura do texto e só ele que nos dará o perfil desta princesa. Como já nos ensinaram os formalistas russos, há que dar à leitura a força que nos leva a descobrir o "sentido imanente do texto". Descoberto o sentido imanente ficará mais relativo e menos forte o sentido de fora oferecido pelo dicionário e por outras fontes não autorais. É este sentido imanente do texto que nos firma no ritmo da escrita e nos possibilita a entrada no horizonte poético da autora dos versos. Desta maneira, na progressão da leitura vai nos parecendo pertinente que, no centro da intenção filológica da poetisa, o espaço poético seja ocupado primordialmente pela figura da moça que fica "sem jeito" e que se "atrapalha" no baralhado quotidiano existencial onde o amor sonha e percorre seus caminhos. Nesta caminhada poderá imaginar-se também um núcleo reservado ao mundo das "fobias" e das "atrapalhações amorosas". Esse aspecto, certamente que a jovem autora brasiliense o percebeu mais do que ninguém e o colocou dentro de seu canto poético. Por isso achamos que ao escolher um nome provocador como esse de "escalafobética", Noélia quis colocar o leitor em alerta sobre as incertezas, as variações e as trapalhadas do amor. No fundo, o que Noélia parece querer conscientizar aos mais perceptivos é a condição humana que subsiste nos mistérios do amor. A tese que se supõe é a de que o ser humano não ama como máquina. E que o amor não é uma simples operação de somar. Há que atender e analisar os meandros de duas psicologias associadas num encontro, a psicologia da atração, as diferenças entre o eu e o outro. Na travessia amorosa uma variedade enorme de sentimentos e de afeições selam o trajeto do amador e do amado.
A poesia de Noélia voa poeticamente por todo o painel de sonhos, ilusões, buscas, desejos e paixões, que caracteriza o ser humano. As estrelas que iluminam seu universo lírico são o encantamento, o ritual do prazer, a variação das sensações nos dias e nas horas. Sua arte poética sabe agitar e tornar viva a complexa consciência humana, em seus mitos e perplexidades românticas. Apesar "da vida aos solavancos", há "paixão em versos", há "arrepios" e a tendência da poesia de Noélia é cantar um mundo real e também sonhador, onde a dialética do amor tudo condiciona. É fácil verificar que não importam muito os títulos dos poemas na encantada cidade lírica de Noélia. O que importa, são os horizontes poéticos onde se manifestam e se aninham as vivências amorosas. É nelas que tem morada a vida do amor e da paixão e a profunda verdade da vida expressa em poesia. São versos lapidares como "tua ausência me mata"; "silêncio do outro é tempestade/desespera" aqueles que não deixam dúvidas de que as fórmulas poéticas assentam realisticamente num sentimento real. Noélia consegue associar ao dizer poético as próprias perplexidades amorosas que atingem a sensibilidade poética. Entre essas perplexidades se esconde "esse sentir-se desajeitado", na fenomenalidade da aventura mundana. O poeta é o peregrino existencial com antenas raras de capacidade sensitiva, intelectiva, compreensiva. A autora não deixa de nos dar uma pista do universo semântico que ela quer dar à sua poesia em "Escalafobética": "Sou barco inseguro/deste planalto sem mar/onde fico a reparar/ na escuridão do museu/ bêbados ambulantes/ Quixotes de Cervantes/ assim como eu/ Falsa ninfa estacionada/ em pit stop do nada/ sob o céu bordô/ de uma cidade sem ética/ que nesta noite nos reduz/ meu inconstante amor/ a príncipe esfarrapado e/ Princesa escalafobética"."pág. 19). Lugar, tempo, circunstância, subjetividade são fontes primordiais que abastecem o poeta. Daí brotam emoções, sentimentos, paixões, amores e discursos poéticos. O poeta é o filósofo sutil da Existencialidade. Em sua expressão, carrega como anexo imprescindível, uma busca de sentido da vida, uma respiração que se volta para dentro, se transformando em inspiração: "Yo soy yo y mi circunstáncia" (Ortega y Gasset).
II
A Princesa escalafobética

A figura da princesa escalafobética, insegura, desajeitada, desengonçada, peregrina, atenta, desolada, saudosa, sensual, cética, feliz, por outro lado, em momentos de posse e de desejo, dinamiza toda a dinâmica do núcleo do eu poético repartido por situações existenciais desiguais, dolorosas por vezes: "Quando meus ombros/doem do peso de existir/ não consigo erguer os olhos/para contar estrelas[...] Minha casa/ não tem janelas/ em dias cinzentos." 21 Esta figura vai-se revelando aos poucos:[...] Cacos na mão/ sigo a carpinejar-te /até emoldurar com sangue/ meus suspiros de vate"(pág. 22). São feridas poeticamente lembradas.
III

Elementos de identificação

Vários elementos concretos poderiam ajudar a estruturar a identificação desta "Princesa em sua torre de areia"(96). Trata-se de uma princesa que também passa por abalos sísmicos, atarantada"(98), e que tem como característica específica movimentar-se guerreiramente:[...]Movimento-me/ não me reconheço na paz (98)[...]"Se Deus quiser falar comigo/ vai me encontrar/ estupida e humanamente/atrapalhada/ com meu umbigo" (97).
A procura amorosa
O grande tom desta interessante poesia está na insistente busca amorosa, na busca escalafobética e desengonçada, afetiva e profunda, sentimentalmente autêntica: "Procuro-te no palheiro/ e espeto o dedo enamorado." (pág.23). [...] ou em "O sabor da fruta": "Deslizei teu nome no papel/com suave pena/ para não despertar/ a suprema razão/ que cochilava/ à sombra da macieira/plena/ da fruta da paixão" (pág. 24). "Fim de namoro em Brasília" confirma esta busca, reafirmando-a também "Cosme Damião" (27) onde o ponto alto é a "fome do encontro". Memórias amorosas perpassam em ´"Águas de abril" (30). Em "Autoajuda", o desejo é franco: "Sozinha/no meio da quadra/espero alguém/que mexa no meu queijo (31). A sensualidade desponta discretamente na real descrição fenomenológica e sensação do corpo em "O toque da ponta" (32). Como se estivesse dialogando poeticamente com Florbela Espanca, Noélia entoa um lindo canto de amor em "No lago" (33). Em "Versos órfãos", o conteúdo é essencialmente escalafobético onde a poesia mostra "a vida/aos solavancos", num desabafo poético para a mãe (pág. 34). Em "Poema nada original", a "exiguidade" é uma temática escalafobética também (35). A inspiração andarilheira da poesia tem uma amostragem muito bem tratada em "Onde andará meu poema"? (pág. 36-37), com uma das mais felizes chaves de ouro que é difícil encontrar até em modelares sonetos clássicos: "Onde andará meu poema/minuciosamente feito/com métrica, rima e/ português escorreito?/ Onde andará esse vil desertor/ que um dia esteve em ti, meu amor"(pág.37).
IV
Instinto poético de composição
Um detalhe que muito me chamou a atenção foi a capacidade que Noélia demonstra em saber equilibrar, no decorrer da dicção poética, a força dos contrários. Essa capacidade é a chave do nível lírico e dialético de sua poesia e manifesta-se de uma maneira especial na estrofe final de uma boa parte de seus poemas. Essa estrofe representa na poesia de Noélia papel semelhante ao que tem a chave de ouro no soneto clássico. Como exemplificação gostaria de lembrar esta belíssima chave que fecha o poema "Deep in my mind":
"Meu amor nada sabe/da minha sandice/Não beija quente/nem fala inglês./Toca-me com doçura/e ama minha nudez/ de moça pura" (62). Como é belíssima também a estrofe que fecha o poema "Enquanto dure":"Meu amor não tem pressa/ Meu amor quer ficar conosco a sós/Reunir nossos corpos e nossas almas/ enquanto houver estrelas/ enquanto o amor estiver em nós" (86).

V
O espaço da paixão na poesia de Noélia

Há destaques temáticos na realimentação desta poesia. Uma das mais fortes e constantes é a paixão. No discurso poético encontramos os dois movimentos: de um lado, o movimento da paixão: "A paixão me exagera" (64) "A paixão (eu sei) me exagera (64) "Rimar paixão e razão não dá" (66) "Perto de ti/ arrepio nas costas/Eu sinto/tremor nas pernas / (84)."Vira e mexe/estás aqui a me abraçar cf. Eis o Mistério da fé (85). Do outro, o movimento da auto-crítica e da anti-paixão: a "sandice de se apaixonar" (79).

VI
Um perfeito compêndio de dosagem emocional

Ler um livro de poemas de um autor moderno que tenha como tom poético escrever com arte a subjetiviadde amorosa ou lírica, torna-se uma experiência riquíssima que nunca acabaremos de elogiar. Os exageros nos comportamentos quotidianos, os erros, os ressentimentos, as raivas, os ódios, a compaixão, a doação voluntária e a solidariedade, a amizade, o amor com suas doçuras, desencantos e adversidades, a confissão ("não sou mais razão em nada"(64), a paixão sem amor, a sinceridade ("o que me falta é a coragem de me entregar a ti sem amor"(67), a aceitação crítica da vida banal ("faz de conta que viver é isto"(73), percorrer "os becos de incerteza" (77), o poema como forma de viver o amor (86), o jogo da conquista amorosa ("Conquistar-te é jogo intrincado" (82), tudo isto se transforma numa enciclopédia poética temática, onde entram também poemas do quotidiano (94) e de auto-análise (95).

VII
Analítica poética

Escalafobética oferece vários ângulos de análise. Seu grande alcance é a busca de compreensão do que é o amor, em sua complexa teia vivencial. Escrever poesia amorosa é conceber a linguagem dentro de um clima sem desnaturar a vivência natural e autêntica do amor.
"Poesia escalafobética" parece representar um estado de espírito onde o amor é uma vivência profunda que toma conta absoluta do ser humano em níveis de paixão, de vivência e de suspense. Esta poesia mostra o lado humano da insegurança, da atrapalhação, da precariedade, e do medo de não conquistar ou de perder... O livro de Noélia tem essa originalidade. Foge dos discursos absolutistas e ditatoriais e escolhe o caminho simples e humilde da busca da expressão natural, sem disfarce, que corresponda à real fenomenologia da psique humana.
A poesia escalafobética representa as nuances amorosas das almas anelantes e desejosas, que buscam a posse feliz no amor e na paixão. A poesia que se expressa com clara capacidade escalafobética é aquela que se dispõe a cantar "o desamparo mudo", o "medo oculto" (68) ou o "viver assim feliz sem adereço" (90) e muito mais; ou a viver em sobressalto na inquietante busca do "onde estás?" (91), na existencialidade das incertezas, da ansiedade, da dúvida ou da angústia (90); uma poesia que lhanamente consegue mostrar a mistura de forças amorosas convivendo entre fronteiras onde por vezes se juntam forças enigmáticas e forças magnéticas num encontro (88).

VIII

Fluidez poética

Poderíamos acrescentar ainda a fluidez como uma das características dominantes deste livrinho de poemas. "O sabor da fruta" (24) e "Paixão em mim" (64), entre outros mostram que o discurso poético flui como uma correnteza que encarna o verso temático da "paixão me exagera" e do "não sou mais razão em nada". É uma fluidez sem pausa que inclui o caminhar livre da palavra sem pontuação para melhor garantia da ideia da correnteza avassaladora da paixão incontida. A temática da loucura feminina faz parte deste fluxo em "elas" (28). Escrever poemas conseguindo manter o clima da vivência, da suspense, da insegurança, da carência, da posse, do prazer, da felicidade, da busca, do medo da distância, do medo de perder, do medo de não ter, da fobia do abandono, da fobia do fracasso, da fobia de não ser correspondida, do medo da exiguidade, do medo de não atingir a plenitude figurada pelo desejo faz parte da natureza da psique humana e, como derivação, da própria escrita poética.
Belo livro, este "Escalafobética", de Noélia Ribeiro.

João Ferreira/Jan Muá
agosto de 2017
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