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Ensaios-->DIÁRIO DE TROPEIRO -- 24/11/2017 - 02:53 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

DIÁRIO DE TROPEIRO,
um livro de poemas de Coelho Vaz (1940-)

João Ferreira
24 de novembro de 2017

Diário de Tropeiro é uma obra da autoria do poeta várias vezes galardoado, escritor, ensaísta, cronista e pesquisador da história de Goiás, Geraldo Coelho Vaz, filho ilustre de Goiânia. Dono de um vasto e nobre currículo, Coelho Vaz foi professor de Direito, repórter da Folha de Goyaz por muitos anos e membro da Academia Goiana de Letras. Três vezes Presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás, foi Secretário de Estado de Cultura de Goiás, tendo sido galardoado com vários prêmios literários. Colaborou em antologias brasileiras e estrangeiras, sendo autor de uma extensa e rica bibliografia repartida por cerca de trinta títulos que abrangem as áreas de poesia, ensaio, crônica e pesquisa histórica. Neste ano de 2017, publicado pela editora Kelps, em Goiânia, saiu a quinta edição de Diário de Tropeiro, um livro notável pelo que representa das tradições campesinas goianas. Tenho em mãos um exemplar com gentil dedicatória que o autor me enviou pelas mãos de sua prima Neila Vaz Flores. Revivi na leitura destes poemas experiências que tive anos atrás nos campos abertos de Goiás onde assisti a cavalgadas e desfile de tropas e ouvi as lições agrárias de meus amigos e familiares Odilon Vaz e Jânio.

A importância da publicação de um livro a que foi dado o título de Diário de Tropeiro, é relevada pelas palavras do escritor Ursulino Leão, membro da Academia Goiana de Letras: ""De singular importância para o desenvolvimento sócio-econômico do Estado, o tropeirismo goiano ainda não mereceu quaisquer estudos por parte dos mestres da nossa Historiografia". Respondendo a este apelo histórico, o livro de Coelho Vaz vem preencher, poeticamente, esta lacuna. Em edição muito agradável, e enriquecido com ilustrações do famoso luso-goiano Antonio Poteiro, "Diário de Tropeiro" arranca a partir da memória de Glicério Coelho e Maria Vaz Coelho, pais do autor, considerados dois exemplos de tropeirismo original.A memória começa no início do século XX: 6 de fevereiro de 1909. No desenvolvimento da leitura percebe-se que o livro é, em sua essência, uma biografia poética do tropeiro, com capítulos e especificações caracterizantes. Em seu conjunto, os poemas resumem o dia a dia, as tarefas, a ação, as viagens, os contatos, a intermediação, a comercialização, a condução das muladas e as tarefas essenciais dos tropeiros que por vezes se transformaram em desbravadores e bandeirantes das causas comerciais em Goiás e no Brasil inteiro. Os poemas de Coelho Vaz nos levam a passeio pela teoria do lugar e do sem-lugar, pela geografia física dos vales, dos córregos e das serras, pelo sertão adentro, fazendo-nos ver o tropeiro acompanhado de seus animais adestrados, caminhando em paz, sem pressa, em ritmo macio ou sonolento, por léguas infinitas bafejados pelo sol morno: "O tropeiro tem um caminho: vai caminhando, vai pelos trieiros dos sonhos, na travessia dos dias da vida. O tropeiro é antes de tudo um descobridor em expedição. Descobre matas, árvores e pássaros, leitos de rios e nuvens passantes, estrelas dirigentes no caminho da solidão." O tropeiro torna-se, no livro, o sujeito dominante, o substantivo por excelência: "O tropeiro caminha com alegria, envolvido em sua sina. Sina que o obriga por vezes a levar notícias tristonhas, desastrosas. Ele é o "correio ambulante", "pilhando manadas de bilhetes nos pousos. Abre espaços na conquista comercial, leva e traz. Faz contatos nos arraiais. Não tem dia, não tem noite, demarca trajetos. Dono das muladas, boiadas, das vacadas, é homem de negócios. Dono da cartucheira e do punhal de prata, dono do comando, da participação, da transação, das longas e curtas viagens. Dono da peonagem, também. "Tropeiro branco ou preto, lenço no pescoço e guaiaca na cintura, documentos guardados contra assaltos ou contra a chuva, brutalidade e firmeza no trato com os peões e no trato mercantil". Tropeiro, é o caminhante que passa "estradando" na virada da curva ou na reta do atalho". Tropeiro é o caminheiro de lugares, em Paranaíba, Corumbá, Roncador; "conversa palavreado ao redor da fogueira". Tropeiro é aquele que "registra o grosso do comércio dos burros e das muladas vindas de Minas Gerais em Roncador de Goiás" É o negociador de madeira de lei e montarias de burros brabos em Roncador. O negociador no comércio de animais. O tropeiro cavalga horas a fio e carrega suas dores existenciais representadas por "dores antigas, angústias no peito; chora na viola, meia verdade e meia mentira". Imaginativo, inventa, vira falador e comete também seus desatinos no linguajar. "É vaidoso nos badulaques e arrumações. O tropeiro sonha sua vaidade" "Para ter valor tem que ter bestas e burros". "Trotando na solidão, o tropeiro, na sua importância, não perde sua arribada quer na mata fechada, nos cerrados ou nos campos gerais". "O tropeiro segue a guia. Mulas carregam bruacas com mantimentos reservados e "uma boa dose de cachaça e rapadura, queijo e pacoça", esquenta sua comida na trempe. "Andando, atravessa o rio turvo; no seguimento solta. Do outro lado do rio, a raia ou terra barrenta". "O tropeiro é solidão. A noite vai, com ela a alma a cismar". "Léguas muitas, muitas léguas em distâncias. "Pensamentos ocultos empacados, segue o tropeiro. Vezes soltos, envoltos no caminho e na perseguição da amada vem o pensar: -Maluquice do coração ". Mesmo assim, o tropeiro chora a paixão na viola, no olhar perdido do azul infinito. O peito sofre a solidão do estar só, sempre só". "O tropeiro no descanso da sonolência noturna dorme e sonha. Sonha e dorme com a imagem da amada ausente".
Estes poemas dão testemunho de um tempo. Um tempo de vida natural. No poema final, Coelho Vaz faz realçar, na imagem do tropeiro, o objeto de lembranças e saudades de longas épocas. "Resta o silêncio da vida que sangra e não canta. -Poeira que não volta mais. É um livro simples cheio de informação e de filosofia existencial, manual de sofrimento heroico e solitário. Um livro que se lê na ilusão de que se está caminhando com tropa e visitando lugares, vivenciando circunstâncias. Um livro que rememora tempos antigos de Goiás e chega até nós, leitores, com muita verdade, autoridade, movimento, realismo, som, emoção e voz.

João Ferreira
Brasília, 24 de novembro de 2017
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