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Poesias-->MÃE -- 11/05/2008 - 21:44 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




MÃE

Poema de Almada Negreiros(1893-1970)

Poeta e artista plástico do Modernismo português





Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!

Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!

Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!

Eu ainda não fiz viagens

E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Eu vou viajar.

Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.

Depois venho sentar-me a teu lado.

Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!



Almada Negreiros (1893-1970)

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