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Teses_Monologos-->AS PERGUNTAS QUE KARDEC NÃO FEZ - I PARTE -- 24/05/2003 - 10:49 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
Primeira Parte

1. Quem estará apto a ascender em paz ao reino do Senhor, partindo diretamente do campo da matéria?

R. Estará propenso a freqüentar as regiões mais felizes ou menos dolorosas do Umbral todo aquele que cumprir as diretrizes evangélicas, quais sejam, as do amor, do perdão, da caridade, da generosidade, da compaixão, da solidariedade, da fraternidade, do estímulo à compreensão dos deveres dos seres sobre quem exerça influência por obrigação familiar ou social. Para isso, existe a necessidade de realizar sereno estudo dos ensinamentos de Jesus e das explicações de Kardec. Se alguém, ao tomar este compêndio nas mãos, julgar que vai achar todas as soluções, haverá de ficar decepcionado, porque a nossa primeira lição está em endereçar os leitores às obras da Codificação Espírita. O mais é que virá por acréscimo, conforme a pregação do Mestre: “Não se inquietem, portanto, jamais, dizendo: Que comeremos nós, ou que beberemos nós, ou com que nos vestiremos nós? — como fazem os pagãos que se requintam em todas essas coisas; pois seu Pai sabe o de que vocês têm necessidade. Busquem, pois, primeiro, o reino de Deus e sua justiça e todas essas coisas lhes serão oferecidas em acréscimo.” (Mateus, VI, 31-33.)



2. Por que devem os mortais estudar tanto os livros de Kardec se, afinal, assim que deixarem a carne, imergirão no etéreo, onde tudo se revelará a todos?

R. Propriamente dito, esta pergunta foi feita, em diversas oportunidades, por Kardec, talvez sem a ênfase aos próprios escritos, mas tendo em vista as respostas dos espíritos que o assistiam. No entanto, vamos burlar a vigilância do grande pedagogo francês e dizer que as observações dele são importantes para a afirmação da realidade cultural disseminada pela Europa entre os países tidos, na época, como cultos e civilizados. Não poucas vezes, referindo-se às nações mais pobres em obras tidas como científicas, ou seja, fundamentadas no saber tecnológico, segundo as descobertas e invenções do início do século dezenove, teve oportunidade de rebaixar os espíritos como atrasados. Este tipo de leitura de seu pensamento não deve causar polêmica mas facultar a compreensão de que as pessoas estruturam a personalidade também em função do que a sociedade considera como ideal. Lamentavelmente, devemos referir-nos aos dizeres do Codificador àqueles que chamava de selvagens, de primitivos, de bárbaros, chegando mesmo a dizer que os brancos eram mais adiantados que os negros em termos de evolução espiritual. Ora, é preciso não se esquecer de que os testes de aptidão e de inteligência, de acordo com a capacidade de adaptação dos indivíduos ao meio, não existiam, de forma que as conclusões, neste aspecto, não tinham rigor científico. Ainda hoje, muitos há que pensam exatamente pela mesma cartilha, dando curso aos mais ignóbeis preconceitos e discriminações de cor e de raça. Sendo assim, que se conclua que muito do que ocorre nesse setor se deve a fatores emocionais, sentimentais, sem conteúdo intelectual, já que os avanços nos estudos das raças se fizeram a favor de conceituação bastante precisa sobre o desenvolvimento mental de cada uma. Isto posto, os textos de Kardec devem ser lidos com muito carinho e com elevado espírito crítico, para não sermos envolvidos pelas formulações filosóficas do materialismo que predominava naquela época e que se infiltrou nos comentários do Codificador. Parece ao caro amigo que estamos praticando uma injustiça? Desculpe-nos a afoiteza com que nos dispusemos a abrir este cofre de Pandora, para dele retirar fantasmas. É que devemos partir para colocações mais próximas do entendimento atual das elites culturais, segundo o prisma dos lentes universitários, que era onde se inscrevia o mui digno e emérito escritor francês.



3. Quer dizer que devemos abolir do pensamento a crença de que Kardec era um espírito de luz, dominado que estava pelas aspirações presas aos esquemas mentais do século, e não pela visão da eterna bem-aventurança dos que se filiam às hostes de Jesus na qualidade de mensageiros e de portadores de novas?

R. Absolutamente, não! Kardec veio destinado a cumprir relevantes serviços à humanidade. Não fora ele e não teríamos sequer a nomenclatura valiosa de Espiritismo, o que caracteriza a doutrina como Ciência e Filosofia a um só tempo. O que desejamos alertar é para a possibilidade de modificarmos o ponto de vista meramente humano do Codificador. No que se reportar aos ensinamentos doutrinários, propriamente ditos, ou seja, no que respeita às leis e sistemas espirituais, ao logos do Espírito de Verdade, à fenomenologia mediúnica, à necessidade da reencarnação, às instruções quanto às virtudes emanadas do Evangelho de Jesus, tudo havemos de respeitar e de seguir, para honra e glória das legiões de anjos que nos trouxeram a doutrina espírita. Além do mais, toda a orientação quanto aos cuidados relativos ao tratar com os espíritos, a prudência para não se extraírem teorias das informações não inteiramente solidificadas pelo rol dos dispositivos da argumentação espírita, como ainda o auxílio diuturno que se deve aos menos evoluídos, tudo continua válido dentro da importância dos cânones doutrinários.



4. Mesmo que sejam dadas amplas explicações e feitas minuciosas pesquisas a respeito dos pontos frágeis das obras da codificação, não parece que, de certa maneira, se desprestigia a figura do Mestre e se põe na berlinda o ensino provindo diretamente dos espíritos de luz? Por exemplo, escrever espírito com inicial minúscula não contraria o respeito que tinha Kardec para com as entidades do etéreo?

R. Bem pouca coisa seria oferecer a quem quer que seja o apanágio de uma letra em ícone diferenciado para homenageá-la. Mas a tese da escrituração sob uma ou outra característica ortográfica nos remete para o fato de que os princípios da escrita se codificam segundo leis e estatutos não universais. A inicial maiúscula, para os alemães, traduz o nome ou substantivo. Apenas isso. Quanto à palavra espírito, trata-se de substantivo comum, o que o vocabulário ortográfico da língua portuguesa obriga a escrever com inicial minúscula. Ao contrário, Espírito de Verdade, por designar nome próprio, ou seja, um substantivo que caracteriza apenas um indivíduo da espécie, deve, pelas normas, escrever-se com iniciais maiúsculas, com exceção da partícula prepositiva de, que se mantém em minúsculas. Quanto à preposição, porém, Leonardo Da Vinci, em italiano, induz-nos, diferentemente, a optar por outra forma ortográfica. Não são poucos os atrevimentos hodiernos, esteticamente em destaque, que trazem com minúsculas, contrariando os dispositivos legais, os nomes de pessoas, como seria se escrevêssemos allan kardec, por exemplo. Mas tais considerações são meramente lingüísticas e não atingem o cerne doutrinário da codificação. No entanto, para Kardec se deveria escrever Espírito, sempre. E Espiritismo? Não é certo que, nas obras originais, se escrevia com minúscula? Então, vamos seguir uma regra dele mesmo, qual seja, a do bom senso, de acordo com o roteiro estabelecido pelo senso comum. Sendo assim, Espiritismo, para quando a palavra denominar a doutrina espírita, e espiritismo, para quando quisermos referir-nos aos eventos de que participam os espíritos. De resto, ao contrário do que se lê em quase todos os registros espíritas, quer no jornalismo, quer na editoração de livros, Kardec jamais escreveu doutrina espírita com iniciais maiúsculas.



5. Está a parecer que os elementos contidos na questão anterior foram retirados da mente do médium, professor de língua pátria. O que tem de verdade esta suspeita?

R. De fato, os mensageiros que elaboram estes textos não teriam real interesse em desenvolver tais aspectos periféricos, quando fizeram questão de mencionar, desde a primeira pergunta, que o que vale para as pessoas é o evoluir dentro do espírito de solidariedade, de fraternidade e de respeito. No entanto, é preciso promover toda espécie de discussão, tendo em vista que muita gente incutida dos valores doutrinários se vê às voltas com tais problemas, buscando soluções nem sempre justas, pelo temor de ferir os princípios de mesmo teor estabelecidos pelo Professor Rivail. Vamos dar a cada passo a extensão mais favorável para a compreensão do trecho a ser vencido. Se caminharmos a passos de gigante, encontraremos, com certeza, razões para lamentar não termos observado o que à volta de nós se passava; enquanto outras pessoas vão tão lentamente que temem não decifrar os números relativos a cada partícula de areia sobre que pisam. Se estamos retirando do acervo profissional do médium os conhecimentos específicos, que reajam os técnicos no assunto e ofereçam os subsídios com que nos refutar ou que elejam um elenco de motivos que justifiquem as teses sobre que erigimos os raciocínios.



6. Com certeza, muitos leitores hão de relembrar as palavras da abertura dos trabalhos, segundo as quais iria o grupo desenvolver textos de fácil assimilação. Não estariam sendo traídos os desígnios de se eliminar a complexidade das composições?

R. Aparentemente, sim. Contudo, se os leitores se atrapalharem com temas tão pueris e de tão fácil entendimento, porque cabe aos alfabetizados conhecer as normas ortográficas, como é que irão criar condições para vislumbrar as falácias e engodos dos espíritos interessados em desvirtuar as conclusões dos espíritos superiores? Utilizamo-nos de mera exemplificação para provocar a santa ira dos que apenas requerem dos mensageiros apanhados novos com que adornar os conhecimentos hauridos precariamente das informações sutis dos espíritos que forneceram a Kardec as instruções fundamentais para a criação do corpo doutrinário espírita. Não se pode querer sempre que os que vêm do etéreo passem justamente aquelas idéias ou impressões que estruturam os aspectos culturais dos leitores. Quando os beneméritos da espiritualidade vieram trazer a Kardec as respostas às questões que lhes propunha, muitas vezes obrigaram-no a refazer os seus próprios conceitos, o que, com muita humildade, sempre reconheceu. Quererão os leitores que busquemos os exemplos ou vão satisfazer-se apenas com a notícia, porque concordam conosco?



7. Existe interesse em orientar os encarnados ou o grupo haverá de satisfazer-se em recriminá-los?

R. Estamos muito longe de determinar os princípios para as nossas transmissões, uma vez que devemos seguir os parâmetros dos professores. Caso tenhamos o desplante de rascunhar para o aceite dos mestres com o fito de, posteriormente, oferecermos outro texto, seremos obstados no mesmo instante em que tal pensamento nos ocorrer. É que os temas não podem ser meros brinquedos infantis como os joguinhos de adivinhação. Temos responsabilidade para com as próprias virtudes que vimos pregar, de sorte que tudo deve dar-se em consonância com o aprendizado que realizamos. Se pedimos aos leitores para melhorarem o procedimento, isto significa, necessariamente, que passamos pelos mesmos fatores de consecução da personalidade. Pela terminologia que aplicamos, talvez deixemos transparecer que não alcançamos ser tão simples como gostaríamos e anunciamos. Contudo, os pensamentos vão sendo transmitidos e redigidos, de forma que, se houver discrepâncias entre intenção e realização, que nos perdoem os bons e que nos ignorem os de má vontade.



8. Dentre os elementos da equipe, existem os que estão mais adiantados e os mais atrasados, conforme foi sugerido na questão tida como a mais jocosa e que se encontra no texto de abertura?

R. Evidentemente, esta questão Kardec repetiu inúmeras vezes, para saber como categorizar os espíritos cujas mensagens lhe caíam às mãos para análise, caracterização e divulgação. O que diferencia a nossa pergunta é que se trata de um conjunto de espíritos reunidos com a finalidade de cursar as matérias para formação de socorristas, de sorte que, pouco mais, pouco menos, todos se encontram na mesma faixa evolutiva. Não somos muito bons no aspecto intelectual, embora pelejemos para não oferecer resistência aos ensinamentos dos professores. Por outro lado, mal comparando, estamos ao nível dos melhores alunos dos cursos terrenos de pós-graduação. Isto está a indicar que, para a maioria dos leitores, deveremos apresentar desempenho de superior quilate. O que menos sabe dentre nós conhece todos os textos de Kardec e a maioria dos divulgados dentro da seara espírita. Além disso, não se dá o direito a ninguém de desconhecer qualquer dos textos do Novo Testamento, para o que devemos integrá-los ao nosso saber ativo, sempre prontos para o exame das situações pelo prisma dos enunciados evangélicos. O que importa mais é o desenvolvimento das virtudes morais, sendo proibido levantarmos dúvida quanto ao caráter de qualquer dos colegas, porque coube ao corpo de dirigentes da colônia a seleção do grupo, com o objetivo de harmonizar os resultados, tendo em vista que não se aceita nenhuma retenção na série, vamos assim dizer, por razões de desleixo emocional e exacerbação da vontade, em detrimento dos ganhos evolutivos da classe. Com certeza, Kardec sabia da existência de escolas e hospitais em colônias no etéreo, mas não deu ênfase a tais eventos, tendo em vista o fato de estar ainda muito crua a divulgação dos dados mais concretos do espaço semimaterial onde se refugiam os seres sem os densos corpos terrenos, apenas com seus perispíritos. Nem haveria necessidade de oferecer ao Codificador tais elementos do plano espiritual, porque teria sido preciso que muitos textos fossem elaborados, exatamente como se deu com a obra de André Luís, pela psicografia de Waldo Vieira e de Francisco Cândido Xavier, isto quase um século depois da desencarnação de Kardec.



9. Quer dizer, então, que devem os mortais levar em alta consideração as informações que lhes estão sendo transmitidas por simples escolares de uma tal de Escolinha de Evangelização?

R. Não se deve jamais julgar as entidades através da conceituação própria que anunciam. Se o indivíduo for desprezível pela desonestidade e mistificação, tenderá a dizer que é o mais modesto de todos os mensageiros, para fixar na mente dos leitores o prisma contrário aos próprios vícios e defeitos. Claro está que, sabendo que podem ser desmascarados, outros virão afirmando-se sábios e prudentes, insinuando que estão em contato direto com Jesus, quando não com Deus. E como reconhecer as virtudes deles em confronto com os nomes sacratíssimos que muitas vezes fazem questão de ostentar? Da mesma forma que Kardec, ou seja, pela qualidade das dissertações, quer no que respeita ao fundo quer à forma. O que se não pode é ficar desprevenido, acreditando que, através de sua voz, de sua pena ou de seu teclado, só poderão apresentar-se entidades de sumo valor. Até quando os temas apenas repetem os que se encontram selecionados nas obras da codificação espírita, mesmo assim há que se estar atento para os pequenos deslizes e senões, a revelar o intuito do gravame dos defeitos e vícios dos encarnados. Deste modo, se quiserem, podem apostar em que estamos levando aos encarnados o melhor fruto de nosso plantio de conhecimentos, pela amorosa concepção de que não exercem o magistério sem se exporem os mestres aos alunos. Nesse sentido, o desenvolvimento do espírito de observação, de análise e de crítica há de ser o principal escopo das aulas.



10. Pelo que nos foi dado avaliar, segundo a linha de raciocínio da questão anterior, até aqui, pelo menos, os expositores se preocuparam em ressalvar a sua postura e o relevante serviço que pretendem prestar através desta obra. Que outras informações poderão fornecer relativamente aos pressupostos do trabalho, sem se aterem ao âmbito da escola ou da colônia que representam?

R. Claro está que o volume nas mãos dos leitores está a demonstrar que fomos bastante longe em nossa perspectiva de auxiliar o lento evoluir dos mortais e também dos irmãos que nos sucederem nesta matéria, porque irão herdar a nossa tarefa, já com os acréscimos dos estudos e dos debates que estamos realizando. Para além das muralhas desta nossa cidadela, muralhas em sentido meramente figurado porque as nossas defesas são constituídas energeticamente de baterias de repulsão contra os mal-intencionados, oferecemos os serviços de emergência fluídica, de acordo com complexa programação que envolve, em primeiro plano, a intervenção dos protetores individuais e, depois, toda uma escala de entidades postadas estrategicamente no caminho dos assistidos, com variadíssimas funções. Quando estivermos formados e suficientemente adiantados para agirmos com desenvoltura dentro do campo das vibrações condizentes com a freqüência das ondas que emitimos e somos capazes de receber e descodificar, ainda assim iremos dar preferência para a atuação conjunta, sempre mais segura quanto aos resultados, porque aqui, como em todos os lugares, uma cabeça pensante não vale tanto quanto duas ou mais. Quando evoluirmos, seremos convocados para tarefas de maior responsabilidade. Quando passarmos por todos os setores, havendo assimilado todos os conhecimentos, segundo as áreas de interesse dos labores ali empreendidos, seremos guindados a postos administrativos, dentro dos diferentes ministérios. Após muito labutar, tendo compreendido cada minúscula reação dos seres sob a tutela dos ministros, vamos para a governadoria, ponto mais elevado dentro da hierarquia da colônia. Podemos, segundo o interesse demonstrado, em se abrindo vaga, ser investidos no cargo de ministro, de onde sairá o governador. Entretanto, nem todos fazem carreira nesse sentido, porque vão se afunilando as oportunidades de trabalho dentro da colônia. Aí, muitos vão exercer o mui digno cargo de embaixadores junto a instituições recém-constituídas ou, o que é mais valioso, serem responsabilizados para a construção e manutenção de uma nova colônia. Se era a isso que a pergunta fazia referência quando pedia para extrapolarmos as lindes dos trabalhos meramente escolares, pensamos haver respondido.



11. Pelo teor das respostas, estamos temerosos de que o título da obra não esteja muito adequado, uma vez que, verdadeiramente, Kardec não poderia ter efetuado tais questões, já que o ponto de vista de quem interroga se situa fora da área dos mortais, ou seja, parte de entidades despojadas das vestes carnais. Isto não irá dar aos leitores razões para repudiarem o livro?

R. Evidentemente, se estamos respondendo às perguntas que nós mesmos elaboramos, não temos o que temer, porque não estamos ludibriando ninguém, quando pretendemos, sim, elucidar certos aspectos diretamente vinculados aos do etéreo. Se tais notícias não despertarem os leitores para as necessidades de conhecimento para além da vida, poderemos censurá-los mais à vontade quanto à materialidade de suas intenções. O mundo que denunciamos não irá abranger completamente todos os círculos de existência para os espíritos, não apenas porque não queremos acreditar em que as pessoas que estejam acompanhando os nossos esforços de transmissão mediúnica se predispõem à maldade, aos crimes e aos vícios, como ainda suspeitamos de que não haverá ninguém com tamanha envergadura moral e intelectual que prescinda de enfrentar os rigores destas explanações. Mas concordamos em que basta de falar em função da classe e de seus objetivos. A partir de agora, as perguntas devem eleger aspectos problemáticos modernos. Chega de defender os roteiros que adotamos por força das atividades curriculares.



12. Para fazer jus ao título, Kardec não perguntou nada a respeito dos genocídios, das guerras de extermínio, das hecatombes tecnológicas e do avanço extraordinário das artes bélicas. Sabemos que se interessou pelas mortes coletivas, tendo recebido respostas coerentes com a necessidade da dor para a evolução dos espíritos. Não haveria certa ingenuidade nas batalhas ao tempo do Codificador, em função do que se deram as respostas a que nos referimos? Por outra, o espírito humano não teria evoluído no sentido do mal, não retrogradando de per si, mas possibilitando que seres mais perversos viessem a encarnar-se, contrariando a expectativa dos espíritas da primeira hora, que esperavam que o Espiritismo trouxesse a paz universal, transformando a civilização do tipo europeu no tão sonhado paraíso terrestre?

R. A natureza humana se compraz em realizar objetivos dentro dos arcabouços sociais que estrutura. Sendo assim, para que se efetuem os avanços espirituais de última geração, para utilizar-nos de linguagem técnica, preciso seria que as pessoas se dedicassem a descobrir os segredos dos mundos ocultos, das vibrações sutis, das influenciações de outro caráter que não o material, sem canalizar os conhecimentos para as vantagens pessoais de se gozarem todos os recursos sensórios. Em outras palavras, o despertar da consciência deveria dar-se na direção do bem por amor à humanidade. Enquanto prevalecerem o egoísmo, o orgulho e a vaidade, haverá a prepotência de reinar nos corações dos homens e dos povos, numa tentativa de fazer com que cada nacionalidade esteja usufruindo o mais possível as condições de excelência da vida. Mesmo quando a guerra não se declara entre as sociedades reunidas em pátrias, vemos a destruição do homem pelo homem no interesse dos lucros, como no caso das drogas e de outros vícios. Tal princípio sumamente materialista é que vigora de maneira geral, sendo incompreensível a exigência de sacrifícios que onerem a todos. Por isso, as maiorias são seviciadas pelo poder de concentração das riquezas naturais, como também se estabelece a preponderância dos mais inteligentes e sagazes, no mau sentido, em função do aproveitamento do trabalho alheio para a manutenção do poder. Se guerras existem, concordem conosco, é porque existem armas, que são fabricadas justamente para fomentar o extermínio. Hoje em dia, não se dá sequer a desculpa da legítima defesa, mas se estimulam as vendas dos armamentos com a justificativa de que tal indústria dá emprego a muitos chefes de família. Mesmo que admitíssemos que se vem dando mais uma oportunidade aos piores para regeneração e que, por isso, crescem os males, ainda assim não poderíamos julgar justo que as pessoas não tenham recursos de sobrevivência material, para o efeito do crescimento espiritual. Não é verdade que a frase idealizada pelos centros espíritas, segundo inspiração mediúnica, é ler ou estudar Kardec para viver Jesus? Ora, se as pessoas estão largadas à miserabilidade e à mais grosseira ignorância, sem escolaridade e sem meios de adquirir a cultura livresca, não se pode esperar que prospere o Espiritismo como roteiro para a salvação da humanidade, enquanto espécie imersa nos transes da dor e da infelicidade. É preciso, pois, que, entre os encarnados, se estruturem os contatos com bases menos materialistas, para propiciar aos bons a precedência sobre os maus.



13. Em suma, podemos concluir que os homens vão continuar massacrando-se em todos os níveis de seus relacionamentos? Por outra: ninguém se salva?

R. No fundo do baú de Pandora, ficou presa a esperança. É ela que nos sustenta a voz e nos dá força para evidenciar aos encarnados que os espíritos estão preocupados com os desajustes morais, vamos dizer assim, que causam tanto sofrimento nas camadas mais modestas das populações. Todavia, a visão pessimista de quem apenas leva em conta que, no século vinte, mais de cem milhões de pessoas foram mortas através de atos criminosos, deve ofuscar-se pela informação de que existem bilhões de seres no espaço espiritual em atividade de esclarecimento individual e coletivo, quer no plano etéreo, quer mediunicamente. A salvação, pois, tem de prever-se forçosamente, porque Jesus nos ensinou o caminho e todos teremos de passar pela porta estreita que a ele dá acesso. Mas não se tenha como prioridade a transformação das sociedades humanas em verdadeiros paraísos de equilíbrio e harmonia, porque a bem-aventurança está muito além, em moradas sublimes, onde o respeito ao direito dos semelhantes é absoluto. É, entretanto, de todo necessário que os primeiros avanços se dêem nos planos mais grosseiros, neste ou em outros orbes de expiação e de dor, segundo o desenvolvimento espiritual de cada um.



14. A explicação acima nos autoriza a perquirir a respeito de dois pensamentos que correm entre os encarnados: em primeiro lugar, se os que não melhorarem irão ser levados para climas menos amenos, em planetas de piores condições cármicas; em segundo lugar, se as populações da Terra serão responsabilizadas pela devastação da vida, o que as remeterá às regiões trevosas, seja em sentido próprio, isto é, aos Infernos chamados de Umbral dentro da sistemática doutrinária espírita, seja em sentido figurado, quer dizer, nas profundezas das consciências pejadas de culpas.

R. Deus é pai de misericórdia e jamais faltará aos seus filhos. Qualquer que seja a condição de inferioridade em que se virem as criaturas, merecerão toda ajuda dos anjos guardiães individuais ou coletivos. Tal foi a resposta dada a Kardec às questões que propôs nesse mesmo sentido. Contudo, respondendo diretamente ao que se propõe como alternativa, podemos garantir, sem medo de errar, que existem lugares no Universo equipados materialmente para receberem os espíritos mais rebeldes, onde a morte não se põe como fim da carreira, o que elimina completamente o aspecto do holocausto. As composições energéticas que dão compleição ao organismo material se recompõem naturalmente, reimplementando as situações de desgaste, sem a perspectiva da fuga para o etéreo. Mas aquele não é o Inferno das penas eternas. Simplesmente, aguardam os orientadores espirituais que haja compenetração dos males contra a criação, para resgatarem os infelizes, proporcionando-lhes vidas mais amenas em outras esferas, vidas em condições melhores de progresso. Mas esse recurso não é de agora. É de sempre, conforme Kardec foi informado no que tange à chamada povoação da Terra pelos exilados da Capela, a raça adâmica que o Codificador assinalou em seu livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. A segunda parte remete-nos à preservação das condições ambientais do planeta favoráveis à existência de vida humana. Está muito claro que a reencarnação é de lei e a ela aspiram quantos habitam o báratro, pelo desequilíbrio de seus espíritos, em perene desconforto porque não se conformam às lições de Jesus. É de se imaginar que os que provocarem o desaparecimento da vida humana na Terra, quando se inteirarem de que não terão mais, por muitos séculos, a oportunidade de regressar às paradisíacas regiões em que o sensório de suas personalidades possa refolgar-se em gozo, terão do que se arrepender, submetendo-se, finalmente, à perspectiva de outras soluções sobre que não terão domínio.



15. Não há como não reconhecer que o quadro é sombrio. Estarão os espíritos preocupados em orientar os encarnados no sentido de favorecerem empreendimentos de defesa dos recursos naturais, tendo em vista que precisam volver à matéria para darem continuidade aos seus planos de resgate e aperfeiçoamento?

R. Mais do que fazem crer as nossas respostas anteriores. Kardec, em diversas ocasiões, manifestou pensamentos em que enquadrava seres com funções de resguardo da natureza. Se chamarmos, então, essas entidades de seres elementais, não feriremos os pruridos de sensibilidade dos espíritas mais ortodoxos. Elas existem e velam pelas realizações vegetais e minerais. O que podemos adiantar é que não no fazem para dar aos homens a regalia de uma vida mais fácil. Fazem-no para o desenvolvimento dos seres de que tratam. Quando os arquitetos dos organismos complexos puderam dar forma às espécies animais, naturalmente, fundamentaram os atributos da constituição dos corpos aproveitando-se dos desenvolvimentos nos outros setores da realidade terrestre. Ora, a crise em vias de abranger todo o orbe, pela destruição do ar, da água e do solo em condições de manter a vida humana, também atingirá o reino vegetal e, parcialmente, o mineral. Nesse sentido, unem-se todas as forças de controle ambiental e promovem, por muitas vias, a conscientização dos responsáveis pela obra política de equilíbrio social e multinacional. Neste trabalho, são empregados todos os meios de contato, embora os que diretamente conturbam os ecossistemas não dêem acesso aos protetores e fazem ouvidos moucos para as informações que não são de seu interesse material. Como todos, receberão, em tempo oportuno, a tarefa de, volvendo ao plano terreno, restabelecerem, esperamos que sem sofrimento, o equilíbrio que romperam.



16. As explicações estão claras. O que nos parece obscuro é o prognóstico da salvação do globo, porque está muito acelerada a devastação de que falamos acima. Podemos contar para o próximo século com a solução do problema?

R. Não nos cabe fazer previsões. Pelas respostas às questões anteriores, parece-nos havermos deixado claro que, qualquer venha a ser a conseqüência das atividades de aniquilamento do hábitat humano, sempre haverá honrosa saída para os beneméritos espíritos de luz a quem se deu o encargo de auxiliar o progresso dos espíritos que aqui existem. Antes e acima de tudo, é preciso manter a esperança de renovação das oportunidades de progresso espiritual, ainda que se desfaçam as de regalada vida dentro da matéria. Lembrando-nos da lição bíblica do Gênese, podemos dizer que aos homens cabe destruir o paraíso terrestre, enquanto ao Pai não falta a generosa complacência de manter abertas as portas do paraíso celeste.



17. Se estão sendo dadas tantas oportunidades de regresso ao ambiente terrestre, ao mesmo tempo, não se estará estimulando o desejo de permanência nesse vaivém, principalmente no que concerne aos espíritos medianos, porque não sofrem nas trevas e não deixam de possuir gozos e felicidades terrenas? Não estará aí um meio de se tornarem preguiçosas tais entidades, no sentido de favorecer-lhes bem-estar material, sem qualquer incentivo aos ganhos espirituais?

R. Em verdade, muitos seres existem nessa pendência há muitos séculos. Mas a paciência, sendo apanágio dos santos, não haverá também de ser de Deus? Explicamo-nos. Quando todos os recursos tiverem sido conhecidos e exaustivamente usufruídos, despertar-se-ão os instintos da curiosidade evolutiva, tanto que muitos dos amigos e familiares pertencentes ao círculo dos estacionários vão deixando, por mudanças para melhor no procedimento evangelizado, a companhia dos que retardam o progresso, de maneira que acabam estes não vendo vantagem alguma em retomar indefinidamente a tarefa da aproximação para junto de novos companheiros. A saudade é sentimento que se desenvolve indelevelmente para quantos elejam a felicidade como prisma existencial. A captação de novas amizades vai tornando-se angustiosa, de sorte que se obrigam os mais renitentes a estudarem as razões de seu procedimento, acabando por atinar com a lei que os obriga a partirem para as esferas mais evoluídas.



18. Quer dizer que, para esses indivíduos, o melhor é deixá-los à própria sorte?

R. Todos estamos sob a tutela atenta dos protetores que, por razões óbvias, devem entender mais que nós do caminho mais produtivo para a aquisição dos bens espirituais. O que se passa no caso da questão anterior é que os envolvidos pela rotina não aceitam a influência superior, sem colocarem, porém, nenhuma resistência de caráter ativo. São passivos e vão deixando fugir as oportunidades de discussão e de estudo. Para encerrar, devemos pôr em relevo que estamos tentando alertar para a necessidade do desejo de abandonar os embalos materialistas, mesmo porque, segundo o que mais acima expusemos, as condições do planeta estão francamente em decadência, de forma que vai tornando-se cada vez mais complicada a condição dos regressos infensos à dor e ao sofrimento. Cada vez mais se caracteriza que os abonados apenas se aproveitam das riquezas que acumulam a partir do trabalho, do sacrifício e da miséria da maioria.



19. Sem que pretendamos ofender, desculpem-nos, não existe, na posição que privilegia os melhores, a sutil sugestão de que devam passar por encarnações de extrema privação? Queremos aludir ao fato de que muita gente pratica a caridade (sem a qual não existe salvação) possuindo bens materiais de vulto. Não estariam os mensageiros sendo extremamente radicais na aplicação das leis do amor, do trabalho e da justiça? Sabemos que Jesus orientou o jovem rico a que vendesse tudo e distribuísse o resultado dos negócios entre os necessitados. No entanto, atendeu, de maneira sublime, a todos, recomendando para que não mais pecassem. Isto não está a demonstrar que a questão da salvação não está centrada na riqueza mas no procedimento? Se disse o Mestre que era mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no reino, não disse que seria impossível. Em que ficamos?

R. Está claro que o processo das reencarnações elimina a preocupação com a utilização errada dos recursos em sobejo. O que se põe à consideração dos encarnados é o fato de se encararem os ensinamentos desde a compreensão deles, de maneira a se integrarem na personalidade. Quando houverem assimilado as vantagens espirituais do comportamento afeito ao bem dos demais, não estarão sujeitos ao egoísmo de quem se vê sempre em primeiro lugar. Se não precisarem extinguir todas as benesses que receberam por herança, estimulando o crescimento delas em função da aplicação em prol do bem-estar coletivo, melhor para o conforto com que irão dedicar-se ao aprendizado evangélico. Afinal de contas, para o entendimento, por exemplo, destes dizeres, terão as pessoas que saber ler e interpretar com alguma acuidade os raciocínios desenvolvidos. Para tanto, se não tiverem tempo para os estudos, imergindo tão-só no trabalho desolador de quem precisa do suor, das lágrimas e até do próprio sangue para a sobrevivência, não haverão de saber que espíritos existem interessados em fornecer-lhes os haveres intelectuais pertinentes ao sucesso das encarnações e poderão perder-se em infrutíferas e injustas lamentações contra o destino e, por conseqüência, contra o Criador.



20. Muito embora as duas últimas questões possam ser entendidas como de todas as épocas, não é verdade que as pessoas, no final do século vinte, estão muito mais coagidas que as do tempo de Kardec a pensarem em si mesmas e aos familiares, tendo em vista que os bens materiais vão tornando-se cada vez mais próximos do bolso e do desejo de todos? Por outra, não existe a suspeita de que a igualdade entre os cidadãos é só questão de justiça e não de herança consuetudinária dos estratos e camadas da sociedade?

R. Esse anseio de obtenção das mesmas regalias dos mais ricos é de todos os tempos. O que existe de novidade é a perspectiva do emprego da força para a revolução econômica, sem que se organizem os rebelados em associações ou grêmios, sob o prisma de princípios extraídos de teorias filosóficas. Hoje em dia, despreza-se o direito instituído pelas leis e o grosso da população assume as rédeas do seu próprio crescimento material, rejeitando a coerção de caráter moral ou religioso. Mas isto ocorre em função do caos governamental de algumas nações. Onde existe o império da lei e as forças de repressão atuam com eficácia, persiste aquela paz que propugnamos para a aquisição dos valores codificados na doutrina espírita. Em todo caso, muitos indivíduos vão recebendo as informações de caráter evangélico, restringindo a sua vontade ao máximo, oferecendo-se para uma vida equilibrada, segundo os padrões do amor ao próximo e da felicidade de todos.



21. Não nos parece que as explicações sejam de molde a facultar aos leitores o entendimento do que deles se requer. Não poderiam os expositores ser mais claros?

R. Não queremos elaborar digressões históricas. Cabe-nos flagrar o momento presente e delimitar as respostas aos problemas da hora. Para sermos mais claros, deveríamos repetir a recomendação das leituras básicas, uma vez que a respeito dos procedimentos morais tudo já foi dito e não apenas nos Evangelhos mas em muitíssimos outros textos espíritas. Não há como realizar pregações diferenciadas quando o tema envolve as eternas mazelas da alma humana. Se existe, no mundo de hoje, recrudescimento da maldade, é porque os cidadãos estão mais armados, em todos os sentidos, ou seja, com apetrechos bélicos mais eficazes para a eliminação dos obstáculos humanos aos seus objetivos, como ainda se dissemina entre a população o uso das drogas alienantes, que inspiram o vandalismo particular e coletivo. Por isso, entre os espíritos mais adiantados se nota crescente interesse em vir à presença dos encarnados (os de boa vontade) para o fornecimentos de textos de advertência e de orientação, o que se pode observar desde Kardec. Antes que perguntem, vamos dizer que as ondas de fervor apostólico de nossos maiores nos impulsionam também a nós, últimos na escala da Escolinha de Evangelização, para virmos trazer mensagens de mesmo teor, no ensejo que nos dão os professores.



22. Não querendo sair da linha das questões, desejamos saber como podem os mais esclarecidos dentre os encarnados trabalhar para melhorarem o aspecto acima referido da ganância desmedida dos que submetem o povo a roteiro de atitudes francamente contrárias ao ideal espírita da perfeição moral. Não estarão os espíritas meio perdidos dentro dessa esfera de criminalidade cada vez mais terrível?

R. O trabalho não é fácil nem simples; nem será realizado em uma única geração de abnegados servidores kardecistas. Estende-se por quase cento e cinqüenta anos e não se vêem perspectivas de se universalizarem os conceitos impressos nos livros da codificação. No entanto, não se deve colocar o nível de aspiração socorrista muito alto. Quando se der aquele despertar referido na questão de número dezessete, todos irão passar para a fase subseqüente do progresso espiritual, ainda que isso represente alguns milênios de expectativas frustradas dos que gostariam de ver a Terra imediatamente sob a luz evangélica. Vocês pararam para pensar em qual poderá estar sendo a atitude mental do Cristo, perante a atual crise de consciência por que passa a humanidade? Então, havemos de confiar em que os espíritos de luz também estão atentos para os problemas humanos, tanto quanto estão para os problemas de degeneração do planeta.



23. É verdade que os espíritos de luz têm roteiros de atividades que não incluem os encarnados, ou seja, vivem existência alheia aos preceitos do realizar o bem por amor ao próximo, uma vez que se dedicam exclusivamente aos estudos dos princípios e leis universais para poderem evoluir livremente, sem o peso dos compromissos ou o ônus das promessas?

R. Certamente, muitos estão nesse caso, talvez por terem concluído a sua quota de benemerência. Não será justo que os seres se arremetam para a configuração do perfeito, segundo o incentivo de Jesus? Nesse aspecto, não estarão os ensinos do Mestre muito mais voltados para as realizações materiais, porque foram ministrados aos homens? No plano espiritual, devemos esperar que outras sejam as tarefas nobilitantes. Quanto ao que concerne aos que vêm ditar estas mensagens, claro está que somos do quadro dos socorristas com funções de soerguimento dos leitores. No entanto, preocupam-nos as atividades superiores, porque temos para nós que, um dia ou outro, iremos defrontar-nos com um convite de ascensão, momento em que precisaremos afastar o cálice das amarguras alheias, porque a cada qual segundo as suas obras. Se efetivarmos as missões que nos concernem e que nos são propugnadas pela mentalidade do amor incondicional a todas as criaturas, não será justo que mereçamos o beneplácito da condição de subirmos na escala espírita? Não estamos, contudo, preparados para analisar os meandros da espiritualidade maior nem as sutilezas dos raciocínios que envolvem ensinamentos que não assimilamos porque muitíssimo complexos para a nossa capacidade intelectual. Se os irmãos que vivem nas esferas de completa bem-aventurança realizam obras cuja extensão e profundidade não somos capazes de avaliar, com certeza estarão recebendo a aprovação de Jesus e demais administradores do cosmos.



24. Os que se julgam desamparados pelos melhor dotados de sentimentos e de conhecimentos podem ser acusados de egoístas?

R. Não nos cabe acusar ninguém de nada. Que cada qual observe o seu esforço próprio, tendo em vista o acumular das virtudes. Se as pessoas nadam nos defeitos e nos vícios, vão ter de superar as estruturas de comportamento que as manietam e submetem a parâmetros de vida inferior. Como ascender em conhecimentos, se não se dominam os desejos espúrios? Se o levar vantagem orienta o procedimento, clara fica a conexão entre o privilegiar do ego e as atividades dentro do campo mundano. Ora, sentir-se desamparado só poderá quem, realizando um esforço sacrificial, não obtenha a ação ou a reação correspondente do campo etéreo. Mas isto não consta dos anais da espiritualidade, porque sempre existem os protetores que dão cobertura às solicitações de amparo, sutilmente enviando avisos através da intuição ou pelo estímulo dos mais sensíveis às informações de caráter mediúnico para a influência indireta dos que desejam promover o próprio progresso. Sendo assim, cabe a cada um, repetimos, conhecer-se a si mesmo, para deixar-se impregnar da sabedoria espírita.



25. Nem sempre concordam os estudiosos do Espiritismo em pontos essenciais da doutrina, julgando por si mesmos tais ou quais roteiros ou diretrizes emanadas dos textos codificados por Kardec. Como deverão agir os menos aptos às discussões de caráter filosófico, para o estabelecimento da realidade etérea, quando encalacrados pelas discussões dos mais doutos?

R. Existe uma regra geral indefectível, qual seja, a ninguém é dado suspeitar de que Deus seja injusto, renegando umas criaturas em benefício de outras. Dizem que no infinito até as linhas paralelas se encontram. Pois bem, por mais azedas possam ser as querelas humanas, irão conflagrar posteriormente em adequada arena para a solução das controvérsias, isto no plano da espiritualidade. Nesse momento, se houver a necessidade da união dos sentimentos, porque a disputa envolveu o setor das suscetibilidades, estarão sendo esclarecidos os litigantes pelos protetores individuais, em clara demonstração de que a querela não passou das ofensas secundárias no âmbito do amor-próprio. Depois de resolvido o problema emocional, os novos companheiros serão convidados a pesquisar em conjunto os pontos sobre que divergiam, estabelecendo com precisão cada premissa, de modo a concluírem em sintonia qual é a verdade, sem constrangimento para o que não estava com a razão. Podemos adiantar que, quase sempre, ambos terão o que aprender, porque as visões humanas estão restritas ao seu próprio campo energético e os neurônios cerebrais, embora complexos, nem por sombra representam o vigor da inteligência liberta dos espíritos quando afeitos aos temas doutrinários. Os pobres e imperfeitos, que não chegam a atinar sequer com as razões da hora dos debates carnais, farão muito bem se, confiando em Deus, aguardarem o resultado das próprias pesquisas em tempo hábil, ainda que se passem vários milênios. Só o fato de virem prestando atenção a estas questões é prova suficiente para serem designados como esperançosos, fiéis e caritativos. E isto é muito perante as forças de integração evangélica encarregadas da supervisão das tarefas que serão requeridas às pessoas de boa vontade.



26. Vamos descer ainda mais no nível de expectativas dos encarnados, para podermos compreender o que se espera dos analfabetos que participam do movimento espírita na qualidade de auxiliares dos trabalhadores intelectualizados. Não é justo que obtenham favores especiais dos protetores e mentores das instituições do etéreo?

R. Enquanto encarnados, receberão assistência direta e indireta, como acima referimos. Se estiverem verdadeiramente interessados em prestarem serviços relevantes à causa espírita, na figura dos irmãos sofredores, através da doação de seu tempo para lenir as aflições morais ou físicas dos semelhantes, não terão que se preocupar com o fato de não entenderem os desenvolvimentos silogísticos estruturados em linguajar castiço, onde o léxico se constitui em barreira intransponível, como no caso desta dissertação. Supondo-se que estão ouvindo a leitura do texto, caberá aos expositores melhor treinados na interpretação das teses informar do que se trata, por meio de explanações mais lúdicas, menos acadêmicas, com exemplificação coerente com o grau de desenvolvimento intelectual dos companheiros. Isto é óbvio. Mesmo quando muito ficar sem compreensão, ainda assim tudo haverá de fixar-se no cérebro semimaterial do perispírito para evidenciação durante as reflexões a que serão estimulados em momento oportuno. Sabe-se que até dormindo as pessoas podem receber a influência externa, embora haja consideráveis entraves segundo a contextura mental de cada indivíduo. Em todo caso, mutatis mutandis, é o que se passa no caso em pauta. Não serão estes os tais favores especiais a que se refere a pergunta? São tão especiais que se incrustam na natureza profunda de suas organizações físicas e espirituais, elemento inerente e imanente ao processo de criação e de educação evolutiva dos seres.



27. Não querendo revolver os informes iniciais, parece-nos que se disse que não estariam os mensageiros preocupados em tornar filosóficos os textos. Sem censura, gostaríamos que nos fosse fornecido esclarecimento relativo à complexidade dos últimos desenvolvimentos.

R. Na verdade, se as composições forem lidas com atenção, verificar-se-á que a preocupação não está centrada nos temas filosóficos nem doutrinários, propriamente ditos. O que ocorre é que não se pode tornar simples o que de per si só é extremamente complexo. A simplicidade que se requer talvez vise a brindar os leitores com explicações exaustivas, burilando-se cada minúsculo pensamento com o desbastar das arestas das dúvidas parciais. Por outra, para tornar mais inteligível o contexto da frase anterior, deveremos expor através de diversos ângulos cada apreciação levada a cabo a partir do assentamento das premissas, como este mesmo parágrafo se acrescenta ao que tomamos como exemplo de formulação complicada. Entretanto, se assim procedêssemos para cada item referido, estaríamos tornando o diálogo em monólogo, transformando as questões em verdadeiros tratados. Nada temos contra este tipo de dissertação, todavia, elegemos a maneira do interrogatório, conforme se propugnou ao Codificador, para favorecer a partição dos temas, limitando o mais possível a tendência dos leitores ao devaneio, obrigando-os a repetir o ato de concentração toda vez que se insere uma nova pergunta.



28. Qual a importância da quebra seqüencial realizada através da pergunta acima, tendo em vista que nada acrescentou ao alerta para o desenvolvimento espiritual das pessoas menos dotadas intelectualmente?

R. Reside a importância justamente na diversificação dos interesses dos encarnados, que respeitamos e, de certo modo, incentivamos. Nem todos vão entender tudo, de forma que alguns parênteses faremos em proveito dos que a pergunta classificou de menos dotados.



29. Não podemos deixar passar a oportunidade de notar que existe certo ranço de malícia na resposta acima, como a provocar os amigos terrestres ao refazimento das expectativas de si mesmos, segundo o prisma de que não devem considerar-se inferiores, caso em que se veriam magoados com a observação. Não foi essa a intenção?

R. Dissemos na introdução que não brincaríamos e que a pergunta mais engraçada havia sido reproduzida ali. Sendo assim, induzimos para uma leitura mais refletida, mais meditada, o que fará render a obra para além do explícito. Pesquisas bibliográficas enriquecerão os nossos textos e ampliarão os horizontes humanos. Afinal de contas, nem Kardec perguntou tudo, nem nós estamos aptos a exaurir o rol das questões dos estudiosos, mesmo porque os irmãos médiuns já transcreveram muitíssimos outros ensinamentos que os espíritos de luz houveram por bem enviar depois que a doutrina foi codificada. Fique a advertência para que não se pense que o Espiritismo se resume nas obras do chamado pentateuco kardequiano.



30. Se Kardec estivesse presidindo estas manifestações, teria preocupações diferentes das que teve quando encarnado? Por favor, não fujam à pergunta, dizendo-se incapazes de supor o que o Codificador diria. Obrigado.

R. Imaginar o que estaria passando pelo lúcido espírito do Professor Rivail não é tarefa de somenos. No entanto, podemos afirmar, sem medo de cair em erro, que as questões se repetiriam, caso não tivesse havido a codificação. A presente pergunta é oportuníssima para discorrermos a respeito da necessidade das leituras básicas. Por outro lado, reencarnando-se no meio espírita, aqui no Brasil, Kardec se veria às voltas com inúmeras questiúnculas levantadas pelas diferentes alas do movimento que se fundou a partir dos eventos mediúnicos que dão sustentação à doutrina. Sem dúvida, teria muita dificuldade em caracterizar, perante os dirigentes supremos das federações, associações e sociedades, que estaria recebendo informações exatamente dos mesmos espíritos que lhe deram a responsabilidade de divulgar os tópicos essenciais da doutrina. Qualquer pessoa que se diga sob orientação de espíritos como os de Sócrates, Platão, São Luís, Santo Agostinho, Erasto, sem falar do próprio Espírito de Verdade, iria causar celeumas infindáveis, pela desconfiança de fraude ou mistificação, como ainda os médiuns correriam o risco de serem acusados de animismo. Se o nosso grupo estiver desenvolvendo temas de superior qualidade, por outro lado, afirmando que se trata de um conjunto de escolares pertencentes a uma tal de Escolinha de Evangelização, aí a cobrança se dá ao contrário, querendo o povo saber de quem se trata, uma vez que os pensamentos se coadunam com os mais sofisticados e melhor redigidos que se encontram nas obras de Kardec. Preso por ter cão; preso por não ter cão.



31. Como é que se resolvem problemas dessa espécie, para configurar aos leitores que se trata de textos de superior envergadura moral, de acordo com os critérios que pautaram as mesmas transmissões ao tempo do Codificador?

R. O exemplo deve partir das obras captadas pelos diferentes médiuns que se atreveram a fixar nomes de grande repercussão cultural. É que os analistas vão além das prescrições do próprio Kardec, que solicitou muitas vezes que a prudência das interpretações se fundamentasse na elevação moral, na universalidade das informações e no alto gabarito lingüístico ou literário das peças sob julgamento. Quando o nome é conhecido, exige-se que o estilo, ou seja, a maneira de escrever, reflita a postura mental dos tempos em que o mensageiro era encarnado. Para abrir caminho para as obras que seriam postas a lume através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, o grupo que lhe dava sustentação mediúnica convidou grande número de poetas para oferecerem composições muito próximas das que produziram em vida. Mesmo assim, críticos apareceram que afirmaram que as obras não se comparavam, esquecidos de que todos evoluímos no plano espiritual, elegendo temas de conteúdo doutrinário, desprezando, por conseguinte, o glamour das expressões inusitadas para a configuração do autêntico, do genuíno, do vanguardeiro, porque existirá sempre, nesse caso, o desprezo da forma supimpa que é característica da vaidade dos gênios encarnados, no sentido da afirmação da personalidade como exponencial para o meio em que atuam. Não é verdade que este mesmo texto causa arrepios até na medula dos que têm a coluna ereta e rija, pela extrema simpatia aos textos absolutamente sérios, dentro do rigor metodológico do próprio Codificador? De qualquer forma, um só vestígio de preponderância dos conceitos ainda não carimbados pelos notáveis dentre os dirigentes ou dentre os tidos como os impolutos dentro do movimento espírita torna suspeitoso o próprio desenvolvimento, ainda que embasado na lógica mais primorosa, segundo as normas cultas do idioma. Hão de valer, enfim, os critérios de Kardec, desde que, é claro, utilizados com a mesma desenvoltura intelectual.



32. Quer parecer-nos que as obras nem sempre comoverão os editores, sem a chancela dos mais preclaros ou a recomendação dos mais influentes. Isso haverá de pesar na balança da inspiração dos mensageiros do Grupo das Perguntas?

R. Indubitavelmente, porque não queremos jamais provocar a santíssima ira dos que se virem desalojados de seus tronos de sabedoria, posição sempre conseguida com muito esforço, segundo trabalhos elaborados através de ingentes sacrifícios. Para alcançarmos sucesso editorial, tudo fizemos da melhor maneira possível, estudando os textos fundamentais, partindo para o conhecimento das obras subsidiárias, criticando os elementos menos representativos dentre os que se projetam no ambiente espírita através de recursos nem sempre saudáveis do ponto de vista doutrinário e até mesmo moral, lendo na alma dos dirigentes mais importantes, conversando com os mentores espirituais das federações, caracterizando a matéria de interesse dos que se aventuram a questionar as posições menos felizes dos que se arrojam por conta própria, aventurando-se no mar aberto das divagações imaginosas. Se Kardec estivesse vivo, gostaria, sobretudo, de encontrar espíritos que se afirmassem preocupados com a atualidade dos ensinamentos, sob o ponto de vista das necessidades dos que imergem na propedêutica doutrinária, principalmente porque os que vêm estudando com afinco as obras fundamentais se encontram preparados para desenlace com perspectivas de agasalho nas colônias, para os acréscimos teóricos de que se virem em falta.



33. Não haverá incrustada nessa atitude certa malícia, certo desejo de acertar sempre, pela imposição de superior intelecto, apesar da pobreza das considerações?

R. Teriam razão os que nos imputassem semelhantes intenções, se pretendêssemos tão-somente oferecer textos de caráter incentivador, dentro dos roteiros conhecidos, favorecidos pela maleabilidade idiomática de que somos possuidores. No entanto, estamos indo bastante longe na apreciação das realizações humanas em todos os setores de atuação, de forma a estabelecer critérios de análise nem sempre condizentes com a perspectiva simplista dos que desejam ver em tudo apenas a inocência dos que erram muito, porque não sabem o que fazem, segundo a expressão magnífica do Cristo, ao solicitar ao Pai que lhe perdoasse os algozes. É evidente que, se todos estivessem informados das conseqüências de seus atos, evitariam os deslizes, desejosos de acertar sempre. Ora, não é exatamente ao que estamos visando com a pretensão de que a nossa iniciativa chegue ao maior número possível de encarnados? Estas apreciações, portanto, longe de serem periféricas, aqui se estendem para finalizar a explicação de que, desde sempre, os espíritos procuraram influir nas decisões dos encarnados, por meio de roteiros enérgicos, para não ensejarem dúvidas perniciosas ou conclusões falsas, a partir de textos não peremptórios, não definitivos, não claros nem elegantes. A retórica humana deve pôr-se a serviço da divulgação da doutrina espírita, ou os escritores, jornalistas e palestrantes não conseguirão atrair o povo para a verdade que se quer universal.



34. Temos uma pergunta muito delicada. Será que não provocaremos certa desolação no ânimo dos expositores, se lhes oferecermos a suspeita de que o movimento espírita, para ser aceito pela maioria, deveria ceder no aspecto religioso, permitindo que as pessoas erijam templos para as cerimônias de culto a Deus, onde rogariam pela assistência dos protetores?

R. Kardec foi incisivo ao apregoar que as manifestações de fé não poderiam consignar ritos nem cerimônias. O igrejismo de muitos tem tornado certos centros espíritas em tendas semelhantes às do primitivo povo judeu errante pelo deserto, com a prebenda dos sacerdotes sendo recebida pelos que se atrevem a designar-se a si mesmos artífices das comunicações entre vivos e mortos, os que determinam os serviços dos médiuns e doutrinam os sofredores. Deste modo, estamos afirmando que existem, nos estabelecimentos espíritas de tendência kardecista, os ritos e cerimônias condenados pelo Codificador, embora disfarçados muitas vezes, por respeito às possíveis reações dos ortodoxos. O que vemos se encontra na intimidade dos corações e não nas atitudes externas. Sendo assim, se dá exatamente o contrário da proposta que se revelou na pergunta, ou seja, a permissão para a transformação das casas espíritas em templos não vem sendo solicitada, mas vem sendo aplicada, por força das necessidades psíquicas das comunidades em que se implantaram.



35. Estamos vendo que os expositores se atrevem já às considerações de caráter contundente. Isto significa que estão de acordo com que o momento histórico é que determina o tipo de abordagem da sociedade, no intento de divulgar o Espiritismo não como tendência cultural, mas como verdadeiro apanágio da mente desenvolvida dentro das teses doutrinárias?

R. Não são poucos os fiéis kardecistas que temem a degenerescência da doutrina pela inclusão nas fileiras do movimento espírita das multidões incultas, que não se interessam pelo aprendizado das teses, mas apenas pelos resultados práticos dos encontros medianímicos com os parentes falecidos, ou pela cura dita espiritual, quando as esperanças se perderam para a medicina vulgar. Vêem os puristas, com muita razão, aliás, que existe risco enorme na abertura indiscriminada das portas para o agasalho dos que aspiram à salvação pela consecução da caridade dos outros sobre si, sem se dedicarem eles mesmos à ajuda aos semelhantes, fazendo como os que se limitam a doar o dízimo para os pastores e sacerdotes nas seitas e religiões em que a promessa da eterna felicidade se justifica pela materialidade do sacrifício.



36. Podemos deduzir que o movimento espírita navega sobre a esteira dos governos preocupados com a educação do povo?

R. Também depende do interesse dos particulares em favorecer os ganhos culturais, a partir da alfabetização, porque a nossa doutrina, como afirmamos anteriormente, está toda consignada nos livros, independendo, portanto, da pregação profissional, como seria o caso de se constituírem escolas confessionais, conforme as católicas e protestantes. Entretanto, raciocinando por absurdo, se todas as pessoas adotassem o Espiritismo, não haveria como não remunerar as pessoas dedicadas ao ensino da doutrina, apenas para citar um grupo profissional organizado. Os médicos, dentre os quais muitos hoje prestam assistência gratuita, ficariam sem emolumentos, porque todo o seu trabalho estaria vinculado às instituições sectárias. Se pensarmos em termos visionários, deveremos profetizar que, mais cedo ou mais tarde, a humanidade irá toda reconhecer que a verdade se encontra nos ensinamentos espíritas. Por enquanto, temos de ceder a prevalência da iniciativa ao poder maior legalmente estabelecido no país ou no mundo, buscando influenciar no sentido de captar pessoas com aptidão para liderar e com vocação para se constituírem em exemplos vivos do procedimento evangelizado.


37. Claro está que o desempenho individual redundará em benefícios públicos, sempre que as pessoas estiverem voltadas para o bem alheio. No entanto, quer parecer-nos que as instituições são muito mais poderosas e alcançam área populacional muito mais extensa. Exemplificamos com a obra de Francisco Cândido Xavier, a qual nada representaria sem as editoras e demais associações de caráter benemérito que distribuíram as informações por ele recebidas. Por que, então, os assistidos do plano espiritual se contam entre alguns indivíduos apaniguados pelos favores mediúnicos especialíssimos de alguns orientadores de expressão, e não se dão os mesmos recursos às casas evangelizadoras, restringindo as comunicações a aspectos particulares, como no caso significativo da mediunidade de cura?

R. Se as perguntas se fizerem sempre tão extensas, não haverá necessidade de responder. Evidentemente, os encarnados têm medo de ser explorados por obsessores ladinos ou por médiuns embusteiros. No tempo de Kardec, o proficiente professor punha todas as mensagens na berlinda de sua crítica arguta e meticulosa, tanto que repudiou a muitas e ofereceu outras bastante imperfeitas aos olhos do povo, com o devido comentário esclarecedor, para que se formassem os espíritas dentro de parâmetros doutrinários mais sérios e precisos. Hoje em dia, o pessoal que dá apoio espiritual aos trabalhadores da seara mediúnica se restringe ao âmbito das preocupações do momento, para a orientação de encarnados ou de egressos do plano terreno, com o intuito da consolidação dos conhecimentos básicos. O que diriam os conselheiros dos grupos que não se encontre já nas obras de Kardec? Por outro lado, quando as pessoas se predispõem ao serviço solitário, ficam à mercê da desconfiança de quem suspeita de que possam estar falsificando ou adulterando as informações que desejam ver impressas e divulgadas. Sendo assim, para os olhos dos escrutinadores da teoria espírita, sempre haverá de ser proveitoso que os médiuns aptos aos textos de maior sofisticação ou de maior requinte procurem fazê-lo à vista de companheiros, junto às mesas mediúnicas coletivas. Este mesmo desenvolvimento, caso tivesse sido oferecido junto a um grupo de médiuns, receberia encômios pela presteza com que foi redigido à frente de todos. Realizado longe das pessoas, apenas proporá um problema e não a consolidação da certeza de que a obra se faz dentro do improviso da capacidade do médium. Sendo assim, é justo conjeturar que os nossos textos recebam acréscimos e correções posteriores, como, de resto, se sabe que é assim que trabalham muitos companheiros, no aperfeiçoamento das peças, inclusive pela contribuição de outros espíritos, em sessões mediúnicas subseqüentes. Teremos respondido à questão implícita e deixado de lado ao que se explicitou?



38. Não queremos insistir em tópicos exaustivamente explicados, no entanto, gostaríamos de ver como se saem os parceiros quanto ao fato de o movimento espírita estar, no Brasil, arrastando-se no campo dos empreendimentos, limitando-se a alguns congressos, palestras e seminários, quando a força da comunidade, caso se concentrasse em torno do objetivo maior de cativar o povo todo, ensejaria a fundação de escolas de todos os níveis. Não é certo que existem muitos pontos em que os donos do poder da palavra (jornalistas e editores) se põem em contradição, uns querendo formar a personalidade dos convertidos dentro dos padrões convencionais, outros, mais ousados, trabalhando por expandir os conceitos, segundo os apanhados científicos?

R. Tais colocações de caráter geral, à vista da perspectiva da universalização da doutrina, haverão de perder a atualidade dentro de algum tempo. Se os corações se doarem aos princípios que norteiam o procedimento evangelizado, de acordo com os prismas doutrinários, pela consciência de que os homens são apenas espíritos encarnados e que voltarão à Terra pela necessidade de melhorarem o desempenho moral, eliminando os vícios e defeitos de toda ordem, a construção dos edifícios destinará boa quantidade de recintos para se dar a escolarização dos jovens, dentro de roteiros pedagógicos apropriados, segundo os diferentes níveis dos alunos. Mas é preciso reconhecer que, se nem todos estão convictos de que será através da educação que se dará o envolvimento da maioria, pelo menos existem os que se dedicam vanguardeiros às denominadas Mocidades Espíritas, sendo que, aos poucos, estão aparecendo escolas organizadas segundo os modelos aceitos oficialmente pelos responsáveis pelo ensino no país.



39. E quanto aos jornalistas e editores em constante luta pela preferência da clientela?

R. Para perguntas diretas, respostas sem evasivas. Cada qual deseja vender o seu peixe, muitas vezes colhidos nas redes alheias. Quem está preocupado em salvar a alma, através da caridade? Com certeza, muitos editores mantêm obras de vulto, através da venda de sua produção. Com certeza, entretanto, também existem os que afagam o ego pela introdução no meio espírita de sua ascendência intelectual, nem sempre honesta, positiva ou digna.



40. Reconhecemos a impropriedade da questão, já que o Espiritismo não irá ganhar nada com o desmascaramento das individualidades em débito para com as leis do amor, da justiça e do trabalho. Por isso, aceitamos o desafio de caracterizarmos os preceitos em falta nos pronunciamentos de tais criaturas em destaque dentro do movimento espírita. Poderiam vocês discorrer genericamente, apontando erros e desvios, de modo a oferecer aos leitores critérios semelhantes aos que apontaram na resposta à pergunta de número trinta e sete e elaborados pelo Codificador?

R. Podemos, sim, embora não tenhamos a certeza de sermos bem compreendidos justamente pelos que melhor se aproveitariam das observações, ou seja, os que praticam esse espiritismo de resultados, tendo em vista a constituição de um rol de objetivos ou metas a serem atingidos ao longo dos anos, segundo visão restrita dos ensinamentos do etéreo. Primeiro, vamos notar que as discussões giram em torno de problemas menores, como os que envolvem a vontade de administrar os seus núcleos segundo perspectivas de sucesso, para o efeito da supremacia de sua capacidade realizadora. Segundo, os discursos pregam o aperfeiçoamento do caráter alheio, sem a contrapartida do sacrifício da opinião, porque os que se contradizem pela imprensa não desejam verdadeiramente arredar pé da posição que prefixaram como superior, sem a legítima configuração de que, em algum ponto, podem estar equivocados. Terceiro, quando, no arrebatamento do fugidio momento de rancor, elaboram suas peças de reprimenda ou de defesa, não se predispõem à aceitação das razões alheias, não raciocinam pela formulação dos silogismos dos adversários, não enveredam pela postura mais eclética de quem adota como princípio fundamental a verdade e não a opinião. Quarto, na análise dos comentários que lhes são adversos, são incapazes de reconhecer o mérito das conclusões mais justas, esquecidos de que o método de Kardec incluía a hipótese de que poderia estar enganado, como se acusou ele próprio em diversas ocasiões, honestamente declarando que o seu pensamento, antes das advertências dos amigos da espiritualidade ou dos companheiros encarnados, era outro. O mais que poderíamos dizer em tom de prestação de serviço haverá de coincidir com o bom senso dos leitores. O importante é saber que estamos atentos para os deslizes dentro de setores do movimento espírita e que esperamos que o alerta alcance corações desarmados.



41. Já que se formulou a resposta acima em função dos valores em falta, não seria coerente que se dessem, agora, as premissas para a correção dos desvios de rota?

R. Eis que os que perguntam fogem à proposta que se evidenciou desde o título, ou seja, tais explicações incorreriam em repetir muitas das questões levantadas por Kardec e a ele respondidas pelos orientadores do plano espiritual. Em todo caso, para não parecer que fugimos da liça e para tornar reais as observações que fazemos aos atuais dirigentes ou responsáveis pelas entidades em litígio, declaramos, veementemente, que devem ser abertos os horizontes da doutrina para o campo do relacionamento com os espíritos de luz, porque falham os homens, quando não levam em conta que Kardec consultava constantemente aqueles que lhe davam amparo a partir do etéreo. O que mais censuramos nas discórdias entre os homens que se dizem espíritas é o fato de se bastarem a si mesmos, esquecidos de que a doutrina lhes foi totalmente passada pelos espíritos. É através dessa atitude que se chega a um condenável espiritismo sem espíritos, como se pode verificar nos órgãos de divulgação que, quando agasalham alguma mensagem mediúnica, dão preferência a textos inócuos quanto às falências específicas dos indivíduos, comunicações de caráter poético de gosto duvidoso ou trechos de obras consagradas, infensas, portanto, de receberem qualquer crítica, como a subsidiar a envergadura moralizada do colunista. Mas chega de preocuparmo-nos com quem não está a merecer elogios.



42. Se Allan Kardec tivesse tomado conhecimento do instrumental eletrônico do século vinte, teria intentado utilizá-lo para a comunicação mediúnica?

R. Kardec foi um precursor da mediunidade. Foi dele a idéia de favorecer o contato direto entre os mortos e os vivos, simplesmente por meio de uma criatura imersa em sonhos, despreparada, muitas vezes, intelectualmente, mas pronta ao sacrifício de algumas horas para o trabalho em prol das comunicações entre os planos. Esse pioneirismo evidencia que outros métodos seriam testados por ele, sem afetação e sem preconceitos. Sendo assim, o que importa não é a tentativa, que sempre é válida, mas os resultados passíveis de exame rigoroso para a confirmação de que os mensageiros lograram êxito nas transmissões. Os modernos meios da transcomunicação instrumental, como o apanhado de imagens e de textos diretamente nos computadores, são experimentos a que o mestre francês não fugiria. Em todo caso, a maneira mais fácil é a da formulação mental direta no cérebro dos médiuns, em estado de simiconsciência ou mesmo inconscientes, como a cura cirúrgica, que se dá preferencialmente através de médiuns em estado sonambúlico, para utilizarmos linguagem coerente com a do Codificador. Por isso, é quase certo que os métodos mais emperrados fossem deixados de lado, apenas para a curiosidade dos que não admitem que as informações possam advir do etéreo, quando perpassam pela mente de algum encarnado quase plenamente consciente. No entanto, Kardec deu preferência a este último tipo de transmissão, porque desenvolveu o senso crítico e pôs todas as mensagens sob a luz da doutrina que codificou. Eis que se pôde, assim, dar vazão a obras extensas e completas, ainda que eivadas de muitos preconceitos de época, porque é quase impossível de implantar no cérebro do médium todos os elementos transcendentais, sempre havendo choques ou crises entre os dados de uns e os conhecimentos do outro. O que Kardec mais desejava não conseguiu, ou seja, que os espíritos escrevessem sem a participação de nenhum mortal. Todas as escritas, mesmo a escrita direta em folhas dobradas e colocadas dentro de cofres, sem lápis ou penas, sempre eram acompanhadas, de perto ou de longe, por alguém dotado de mediunidade. Mas tais comunicações eram inferiores, uma ou duas palavras apenas, sem esquemas de elaboração mais profunda. Eram fruto de inteligência mas não levavam a nada que pudesse ser catalogado dentro dos cânones doutrinários. Hoje em dia, temos notícia de que alguns textos extensos foram achados em softwares, sem a participação datilográfica de ninguém. Contudo, nada pode atestar que não tenha havido o aproveitamento magnético de alguma pessoa. Tais escritos, no entanto, não acrescentaram nenhum elemento novo ao rol das informações habituais apanhadas quase mecanicamente através das mãos dos médiuns. Neste aspecto, parece-nos mais contundente o fenômeno da xenoglossia, quando intercorrentes dois fatos importantes: o desconhecimento pelo médium do idioma e a impossibilidade de leitura por ele dos ideogramas ou modalidade de escrita utilizada, como no caso de alguém escrever em caracteres russos ou chineses, sem jamais haver sequer tomado contato com tais línguas. Mais surpreendente é quando se vê algo relativo a algum dialeto ou linguajar perdido no tempo, com apenas alguns registros históricos. Mas todos estes fatos estão estreitamente ligados ao primitivo movimentar das mesas ou cestas dançantes, uma vez que nenhuma orientação expressiva possa dar-se por esses métodos estranhos, sem que os mesmos ensinos também venham a ser passados pelo sistema tradicional da escrita de próprio punho.



43. Isso significa, necessariamente, que o avanço científico da humanidade não irá servir para os espíritos gravarem na mentalidade das pessoas que dominam as técnicas de transmissão sem o concurso dos seres encarnados?

R. Nenhuma precipitação, amigos, por favor, nas conclusões. Atualmente, é muito mais importante que as gentes se habituem ao ideário da doutrina. De que adiantam os fenômenos espetaculares, se não se incrustarem nos corações os conceitos do evangelho de Jesus? Futuramente, talvez, quando se derem às comunicações o valor do auxílio incondicional dos protetores, excluídas todas as possibilidades de fraude ou de obsessão por parte dos espíritos mais imperfeitos, quem sabe os aparelhos se apresentem como de inteira confiança para a fixação das diretrizes que se queiram implantar no procedimento dos encarnados. Nesse caso, não estamos referindo-nos aos processos de consolação dos que perderam entes queridos, porque esses desgastes emocionais estarão superados pela fé em que Deus é pai de misericórdia e tem enviado os seus anjos de benemerência para a assistência dos que partem da vida antes do término do ciclo biológico. Estamos enviando as reflexões dos leitores para as comunicações de cunho eminentemente técnico ou científico, quando a natureza da matéria será desvendada cada vez mais completamente, para aproveitamento integral das fontes de energia em consonância com a capacidade de construção do instrumental adequado. Será a cooperação definitiva entre os planos, em algo que interessa diretamente aos encarnados e que, na eventualidade do reingresso dos espíritos ao planeta, irá servir também àqueles.



44. As considerações acima não estarão penetrando muito profundamente no imaginário a que se resolveu atribuir o nome de ficção científica? Não estaremos, por esse meio, estimulando a fantasia e a projeção para o futuro da humanidade dos elementos que trarão recursos mais perfeitos para o propiciar de felicidade às pessoas? Não se sentirão os leitores frustrados com o desenvolvimento mais tacanho de seus dotes espirituais?

R. Se causarmos reações nesse sentido, ou seja, se provocarmos o desassossego nas almas mais ingênuas, incapazes de por si mesmas vislumbrarem que o futuro da humanidade haverá de passar por aspectos de evolução no campo científico aplicado ao Espiritismo, para a descoberta da verdade que se esconde nos meandros da existência material, então deixaremos estas palavras para dizer bem mais tarde, no limiar do progresso a que acenamos. De fato, existe a tendência de se fixar na matéria um campo de energia sublimada, capaz de gerar corpos cada vez mais perfeitos, no sentido do integral aproveitamento dos recursos genéticos, de sorte que todos os seres humanos irão tornar-se quase imortais, porque todos os desvios do organismo terão remédio ou sofrerão os órgãos malformados substituições através de dispositivos fabricados a partir do conhecimento completo das funções e dos tecidos que constituem o todo da carapaça com que se envolve o perispírito. Não estamos falando de simples clonagens, pela formação in vitro de embriões a serem implantados nos ventres maternos. Estamos levando o conteúdo para além desses toscos eventos, acreditando que a inteligência humana possa evoluir até a construção de máquinas que realizem as operações mais complexas dos cálculos que induzirão os benefícios da cura da moléstias ou do desgaste dos tecidos. Se isto é impregnar a mente dos leitores de fantasias, pedimos que aguardem com paciência, através do ir e vir constante entre os planos, nos próximos milênios, até a constatação final de que os limites da imortalidade estejam definidos. Aí, com certeza, o nível de conhecimento doutrinário estará tão avançado que as pessoas saberão rigorosamente quais as falhas de sua constituição espiritual a serem extirpadas para fazerem jus a penetrar em círculos mais elevados. Não será justo, nesse momento, que os guardiães se utilizem do instrumental eletrônico para a orientação dos pupilos?



45. Falou-se em milênios. Isso é um exagero para as perspectivas de vida dos amigos que nos lêem. Para estes, o que se tem a dizer que possa dar-lhes tranqüilidade quanto aos aspectos científicos mais adiantados?

R. Por que não se perguntou diretamente a respeito do assunto mais palpitante do momento, ou seja, a respeito da implantação dos espíritos nos ovos constituídos a partir de células extraídas de seres vivos e correspondentes óvulos maternos desprovidos do núcleo? O processo de clonagem está em franco desenvolvimento no setor da Genética, o que está levantando uma série de questões pertinentes à doutrina dos espíritos. Mas a resposta haverá de ser muito mais simples do que gostariam os que elaboram teses fantasiosas, segundo prismas em que entram problemas de energia, de vibração, de fluidos, de magnetismo... Na verdade, o sistema de integração do espírito no corpo não fugirá das diretrizes que se seguem quando a concepção é a natural. A resposta é simples mas a providência é especialmente complexa e só será totalmente entendida, quando os amigos vierem cursar as matérias que se desenvolvem nas aulas superiores deste instituto ou de outros que existem em várias colônias do etéreo. Apenas para que não fique uma dúvida no ar, nem todos os que cuidam da inserção do espírito na matéria freqüentaram esses bancos escolares. Acontece que trabalham de maneira prática, como se lidassem com um produto quase acabado, porque a natureza é quem realiza os liames dos elementos perispirituais com os materiais. Compare-se com os médicos obstetras e as parteiras. Existem muitos casos de imersão na carne de espíritos que realizaram todo o processo sozinhos, assistidos bem de longe por seus anjos guardiães. Se isto não vem para tranqüilizar os mortais, apeguem-se, caríssimos, aos preceitos mais seguros das teses de Kardec, abrindo para nós tão-só a perspectiva da possibilidade de virmos a estar certos. Talvez tal atitude represente permanecer sob a visão mais academicista da ciência do século dezenove, mas, indubitavelmente, estarão os adeptos da doutrina bem próximos do pensamento do Codificador, o que não é pouco.



46. Dentre os diversos pontos elucidados, faltou falar a respeito dos temores que assombram os encarnados quanto ao fato de os corpos produzidos em série, a partir de células da mesma pessoa a serem colocadas em óvulos da mesma mulher, estarem a indicar que os seres resultantes da clonagem irão constituir-se em exército de mesmo caráter, de mesma inteligência, de mesmo aparato físico, de mesma personalidade em suma. Terão os que assim pensam motivos de real preocupação?

R. Está claro que diferenças existem entre os que serão produzidos pela forma acima descrita e os irmãos gêmeos univitelinos, no entanto, não nos estimula a hipótese para a constituição de seres absolutamente idênticos, senão que estarão bem próximos entre si, pelo menos no aspecto material. Ora, existem bilhões de espíritos vagando pelo etéreo à procura de reencarnar-se de forma proveitosa. Os protetores estarão atentos para destinarem os que melhor se ajustarem a tal modalidade de formação corpórea. Se existirem problemas, não estarão afetos aos encarnados que providenciaram o sistema industrializado de concepção. O decorrer da existência no mundo denso da matéria propiciará aos espíritos assim encarnados meios de caracterização de suas personalidades espirituais, caso deliberarem, porque estarão munidos de livre-arbítrio, que deverão proceder em harmonia com as próprias maneiras de ver, de conhecer e de sentir a realidade. Estarão apetrechados de forma parecida quanto aos recursos da natureza corpórea, mas deverão progredir, certamente, sob os auspícios das dores e das expiações próprias do planeta. Passaremos por tais experimentos? Não temos a certeza de que os cientistas desbloquearão as resistências culturais, morais e religiosas dos governantes e das instituições que se mantêm no poder econômico sob estreita vigilância ideológica das igrejas, dos congressos, dos exércitos e de quantos se virem compelidos a expender suas opiniões perante o povo, o qual, em última análise, é que irá sustentar as pessoas que se apresentarão sem paternidade definida, muito embora, cientificamente, se saiba que o pai que forneceu o espermatozóide para a reprodução da pessoa de quem foram retiradas as células a serem introduzidas nos óvulos sem núcleo é também o pai de todos os clones. Em tese, existe a possibilidade da realização, no âmbito da raça humana, dessas experiências genéticas. Sabemos que obras existem em vários ramos da produção artística que tomaram por tema a produção em série dos indivíduos com finalidades, evidentemente, de pressionar a opinião pública para convenientes análises a respeito dos perigos que a população estaria correndo, se, por exemplo, fossem criadas pessoas a partir de doadores imperfeitos, tiranos, ditadores, praticantes de genocídios...



47. Gostaríamos, para finalizar, se possível, que os companheiros discorressem a respeito dos aspectos puramente morais, já que os tópicos emergentes dos pontos científicos nos ficaram bastante claros.

R. A ambição humana é legítima quanto ao aperfeiçoamento máximo dos recursos científicos, desde que visem ao benefício dos semelhantes. O que se fizer com amor, por amor ao próximo, segundo a determinação da maior das leis cristãs, estará sendo abençoado pelos benfeitores dos humanos. Será imoral qualquer atividade que pretenda oferecer lucros a uns, em detrimento do bem-estar físico ou emocional (o que vem a dar no mesmo) de outros.



48. Esperávamos resposta mais desenvolvida. Não haverá outros aspectos a serem considerados?

R. Não. Sempre que se falar em algo relacionado às leis cósmicas, a resposta estará consignada em O Livro dos Espíritos, de Kardec.



49. Então, vamos questionar a expectativa de desenvolvimento da civilização terrena, tendo em vista as assertivas anteriores segundo as quais a vida está ameaçada. Como conciliar o desastre em vias de arruinar a capacidade de sobrevivência com as afirmações de que a humanidade viverá períodos milenares de integral domínio da existência, através dos recursos tecnológicos e científicos?

R. Deduzimos todas as teorias, mesmo conflitantes, a partir do exame do interesse próprio das diversas parcelas da população. Perecerá a humanidade porque está a exaurir as fontes de água potável, porque está a envenenar a atmosfera, porque está a comprometer irreversivelmente a fertilidade do solo? Bem, as projeções dos males que se multiplicam contra o ecossistema responsável pela existência e manutenção da vida redundam em catástrofe para os próximos cinqüenta anos. Têm, portanto, os humanos tempo para reagir contra a destruição da natureza. Aliás, as advertências que se dão ainda timidamente são efetivas e fundamentadas. Os que terão de sacrificar seus interesses individuais ainda não se convenceram de que razões existem para temerem as descrições do cataclismo que se avizinha. Mas, quando a realidade estiver à beira da falência universal, os exércitos serão arregimentados para a defesa da vida ou todos serão engolfados pela violência com que a natureza reagirá. Estaremos oferecendo subsídios para previsões terríveis? Não cabe a nós estabelecer o nível em que se encontra o pensamento coletivo, em função de ser evitado possível pânico internacional. Desenvolvemos os raciocínios com a intenção de manifestar apreensão isenta de sentimentalismo, para impregnar nas almas a necessidade de se estudarem as observações concernentes ao final da vida na face do globo. Contudo, confiamos em que existem muitos seres preocupados em avisar os encarnados, fornecendo-lhes roteiros seguros de superação das crises iminentes. Confiamos também no discernimento dos que vão crescendo sob o continuum de informações a respeito do desregramento das gerações anteriores e atuais, de sorte que, ao assumirem as rédeas do poder, poderão desviar a humanidade do abismo que vem abrindo-se tão vorazmente. Não dissemos que todos possuímos liberdade de decisão? Pois, se não levantarmos as hipóteses de desgraça com alguma antecipação, não mais se oferecerão oportunidades de deliberação aos homens, uma vez que tudo se resumirá em simples alternativa: ou se sanam os males, ou todos perderão a crosta para seus esforços de regeneração ou de aperfeiçoamento espiritual. Estaremos sendo suficientemente frios para o gosto dos que não desejam que as mensagens se dêem sob o impacto emocional? É o que esperamos que leiam em nossas entrelinhas, sem se deixarem impregnar pelo mesmo racionalismo, uma vez que um pouco de paixão sempre haverá de ser útil para o incentivo ao trabalho em prol da continuidade da vida.



50. Julgamos que a tendência apocalíptica não seja a linha principal desta obra. Ou estaremos equivocados?

R. Está cristalizado no inconsciente coletivo dos habitantes da Terra que haverá um fim para tudo. Decorre tal intuição do fato de existir concretamente a morte individual. Mas muita gente se aproveitou, no passado, o que prossegue no presente, desse fenômeno psicológico das massas, para extrair vantagens pessoais através da venda das idéias e das prebendas da salvação, quer no seio das religiões oficiais, quer na intimidade dos cultos reservados. Não estamos interessados em impressionar os espíritos para fazer render a pregação que vimos realizando. O que nos importa é tornar cada leitor e cada pessoa a ele vinculada, por processos variados de influência, perfeitamente cônscios da realidade da vida material e da existência espiritual. Não queremos vender o nosso texto, para financiarmos a benemerência de nenhum editor ou casa espírita. Não é esse o nosso escopo. A responsabilidade da divulgação não nos cabe. Aliás, seria estranho que nos interessássemos pelas iniciativas particulares. O que nos afeta, sobremaneira, é a conscientização da humanidade para os fatores da evolução necessária para se passar de uma esfera a outra, no sentido da melhoria constante dos espíritos. Não trabalhamos por nós e por nosso crescimento. Para tanto, bastar-nos-ia trabalho equivalente ao dos socorristas familiares. O fato de virmos expor problemas de caráter mais humano que espírita faz com que nos arrisquemos a persuadir algumas almas menos evoluídas de que devem abandonar a doutrina, para formas menos onerosas, menos sacrificiais, menos elaboradas de religação com o poder divino. É risco que sabemos existir. Entretanto, não nos tornaremos apocalípticos, no que tem tal tese de malversação das diretrizes evangélicas estabelecidas por Jesus a partir das leis do amor e do perdão. Apenas para encerrar, sugerimos que se estudem os textos do Apocalipse, em confronto com as visões de final dos tempos do Antigo Testamento, para surpreender o quanto devem os textos do evangelista João, atribuídos à influência mediúnica do espírito de Jesus, aos pensamentos equivocados dos vários profetas hebreus.



51. Para alcançarmos a graça de superior atendimento, aqui no plano etéreo, haveremos de orar sozinhos ou em conjunto? A prece resultante da expressão melódica dos coros atingirá o objetivo da concessão dos benefícios rogados? As manifestações artísticas, produzidas sob o influxo de apurada técnica de transformação da matéria bruta em objetos em que se depositam os ideais mais profundos do amor, da solidariedade, da benevolência, do perdão, do arrependimento, da fé, da confiança, da esperança e de todas as demais formulações emotivas dos sentimentos, são veículos apropriados para se transformarem em solicitações absolutamente coerentes com as necessidades psíquicas da própria entidade ou dos companheiros em passagens infelizes?

R. Ficou-nos bastante claro que a intenção da pergunta é avançar sobre a materialização dos desejos humanos ou espirituais, de forma a concentrar em estrutura perceptível pelo sensório, todos os reflexos íntimos da compreensão do que seja a criatura e dos deveres para com o Criador. Mas a questão pode apresentar desenvolvimentos capciosos, para o intento dos leitores de inferir que os do etéreo estejam propugnando que os que vierem a observar os dons artísticos superiores impregnados na obra tenham as mesmas reações, identificando-se com as aspirações evolutivas dos autores, compositores, pintores, escultores, poetas, coreógrafos e demais cultivadores das artes como representação idealizada dos valores a que se atribui o status da superioridade, tendo em vista a mediocridade da maioria. Indo além, podemos refletir a respeito da tese de que as exteriorizações, quando analisadas do ponto de vista religioso, poderão gerar sentimentos de contrição, de forma a contribuir para que os menos dotados possam ser auxiliados pelos que se dedicaram à confecção dos objetos pelos padrões estéticos em voga. Por pouco, não concluiríamos que os cultos que se realizam segundo rituais formalizados diante das esculturas ou pinturas, através das harmonias dos cânticos e pela forma grandiloqüente dos discursos ou dos textos poéticos, estando o povo imerso em ambiente aromatizado por inebriantes perfumes, reúnem as condições mais propícias para a oferta dos votos de honestidade, de modéstia, de submissão às leis morais, de obediência aos padrões doutrinários, ou seja, iríamos pregar que os espíritas concentrassem esforços em atingir coletivamente com mais facilidade o que Jesus recomendou que se desse no regaço do coração, em secreto.



52. Pela leitura parcial das obras psicografadas, encontramos textos dos irmãos do etéreo que se referem a reuniões em que se elevam cânticos de agradecimento ao Senhor, muitas vezes aplaudidas pelos beneméritos protetores através da materialização das bênçãos, na forma de partículas de luz que descaem do alto sobre as cabeças dos fiéis (se esta for a melhor terminologia para descrever os que se dão para a formulação desses eventos de maneira absolutamente pura). Não foram poucas as passagens que lemos nessas obras em que verdadeiras chuvas de pétalas coloridas ou de flocos de luz imitando neve saudavam os compromissos firmados nas orações recitadas pelos mentores ou elevadas pelo povo em hinos de louvor a Deus. Não podemos afirmar que, nesse caso, estamos diante de eventos espirituais com aspectos de culto externo?

R. Esta é bem uma questão que Kardec não poderia ter apresentado aos seus orientadores espirituais, uma vez que se fundamenta em textos produzidos posteriormente. Então, somos obrigados a não considerar os mensageiros como rigorosamente tão evoluídos como os que forneceram as diretrizes doutrinárias ao Codificador. Por questão de coerência, temos de admitir que as obras psicografadas e aproveitadas para a codificação passaram pelo crivo da razão de Kardec, que se encontrava diretamente sob a influência dos espíritos de luz comandados pelo Espírito de Verdade. Naquele momento, o interesse dos mensageiros estava intimamente preso às informações de caráter superior, ou seja, visavam a divulgar as leis universais e os procedimentos evangelizados, com o escopo de fornecer aos encarnados os meios de evolução espiritual. As obras que trazem conhecimentos relativos às colônias do plano etéreo situam-se em patamar bem mais próximo das realizações humanas, quer dizer, trazem as marcas inconfundíveis de entidades bastante inferiores em relação à grandeza dos mestres de Kardec. Sendo assim, existem, nesses locais de aprendizado e prática das virtudes, muitos pontos em comum com a esfera terrestre, porque a desmaterialização dos espíritos ali residentes não se completou. Estivesse completa e teriam partido para círculos mais adiantados, de onde chegam a nós apenas notícias de bem-aventurança.



53. O desenvolvimento da resposta acima não está a configurar a permissão para que os humanos se deixem contagiar pelos exemplos dos livros, por serem ainda mais grosseiros quanto à natureza da matéria que lhes envolve os perispíritos?

R. Se estão os que nos argúem interessados em forçar resposta que contradiga as recomendações dos instrutores de Kardec, estarão perdendo o seu tempo. Evidentemente, se se considerarem as intenções dos que se agrupam nas igrejas, estaremos em condições de encontrar gente de todo tipo: interesseira, invejosa, orgulhosa, prepotente, imatura, egoísta, maliciosa, megalômana, crente, crédula, fiel, injusta, equilibrada, confiante, caritativa, malvada, arrogante... Dessa forma, o que fizerem à vista do público não será levado em conta como mérito religioso. Antes, a leitura de seu desapego aos valores meramente materiais se fará nas profundezas de suas almas, sem que seja preciso que nenhum benfeitor pessoal se esforce para o efeito, porque cada qual está munido de consciência. Um dia, vem o despertar para a realidade dos desejos mais profundos e o sujeito ou se vê guindado às moradas mais perfeitas do reino de Deus, ou vai conhecer as agruras dos sofrimentos nas trevas de sua defeituosa formação moral. Muitas vezes, para concluir, presenciamos, nos centros espíritas, manifestações coletivas em favor do progresso dos companheiros ou de reiteração dos pedidos de amparo em benefício dos desditosos. Vimos representações teatrais, cantos e preces recitadas pelo povo reunido, apreciamos exposições de pinturas e de esculturas obtidas mediunicamente, ouvimos poesias geradas por espíritos que não se esqueceram de seus dons e julgamos todos esses acontecimentos como perfeitamente enquadrados nos parâmetros da boa vontade e do amor à vida e ao Pai, conforme a capacidade de concentração de cada participante. Talvez, nas casas de benemerência sob os auspícios da doutrina dos espíritos, houvesse menor apelo ao sensório, ao corporal, razão por que nos levamos a dar preferência a tais oferecimentos em prol dos objetivos fixados. Todavia, estas considerações pecam pela superficialidade própria das conclusões de cunho geral. Quem estiver cônscio de que o essencial reside no coração doado ao Senhor e pratica o amor ao próximo, conforme solicitou Jesus, terá a certeza de que não precisará de nenhuma exteriorização dos sentimentos e pensamentos para se saber nas graças de Deus.



54. Podemos inferir, pela lei do progresso, que as realizações artísticas se situam dentro dos padrões das esferas ainda imperfeitas e ali devem ficar por exprimirem fugidios momentos existenciais? Vejam que a nossa preocupação tem repercussões sobre os conceitos que se devem fazer sobre as obras mediúnicas. Por exemplo, este mesmo trabalho, caso se desenvolva em harmonia com os ditames mais ricos das estruturas literárias, estará configurando realidade meramente humana, embora os temas estejam muito próximos da vivência dos espíritos no etéreo.

R. Está claro que todas as manifestações voltadas para os encarnados devem manter contato com os seus próprios meios de comunicação, inclusive dentro das técnicas para a confecção dos objetos de arte. Os temas serão nossos, à proporção que estivermos desejosos de transmitir aos da Terra os ensinamentos que vamos recebendo dos mentores e das experiências. Imaginemos, porque assim querem os que realizam as perguntas, que os expoentes da Pintura se dediquem à elaboração de quadros pelas mãos dos médiuns, o que de fato vem ocorrendo, ora com maior felicidade, ora de maneira absolutamente medíocre. Quer significar que os temas retratados devam conduzir os humanos às paisagens do etéreo, ou que as pessoas devam surgir em sua constituição perispiritual, com trajos adequados para a condição do meio em que residem? Não é exatamente assim, porém, que temos visto ocorrer, tanto que os retratos elegem as fisionomias dos encarnados e as paisagens urbanas ou naturais representam meras reminiscências dos tempos em que os pintores eram vivos. No entanto, por meio da pintura, é possível transmitir a serenidade do semblante absolutamente confiante na misericórdia divina, ou a tranqüilidade do ambiente mais propício para a prática da reflexão filosófica. Podemos, também, através do empenho mais firme dos médiuns, realizar trabalhos mais acurados, mais requintados, mais de acordo com os recursos que desenvolvemos. O espetáculo que se dá através da televisão ou em reuniões mediúnicas está voltado para o impressionar da audiência, o que justifica a rapidez com que se fazem os traços e se preenchem as telas. Mas isso não é o que os próprios artistas entendiam como verdadeira arte, porque se esmeravam em traduzir, no contexto da dialética das formas, os seus pensamentos e valores mais íntimos. Se se dedicarem à transmissão dos estilos antigos, poderão ser reconhecidos, mas fugirão dos padrões que estabeleceram segundo a época em que viveram. Como se arranjarão os atuais expoentes da moderna fórmula de traduzir os anseios mais profundos de suas personalidades, justamente aqueles que realizam instalações únicas, a serem guardadas apenas nas lembranças das pessoas ou nas fotografias sempre enquadradas em duas dimensões, quando o principal vem sendo a projeção no espaço dos elementos da composição? Qual a razão desta digressão? Certamente, estamos colocando o problema da arte no plano das expectativas históricas e culturais do homem terreno. Os gênios do passado, ao aplicarem as antigas técnicas para a configuração de sua situação evolutiva atual, não haverão de ser entendidos pelos encarnados. Se se dispuserem a obras representativas do homem atual, não alcançarão a mesma força expressiva dos elementos factuais e emergentes da realidade transitória da matéria que os vanguardeiros buscam caracterizar, uma vez que a temática é outra. A Kardec foram fornecidas poesias e pinturas, mas com o fito primacial de informar que as habilidades não se perdem com o trespasse. Uns poucos compositores escreveram peças musicais eruditas e populares, encontrando médiuns capazes de captar as harmonias sonoras, segundo a sua linha melódica característica. Talvez a Música possa apresentar maior facilidade de reprodução pelos mortais, mas estaremos nós do etéreo integrados às maneiras que vigem no complexo meio da produção fonográfica com fins de exprimir os valores de que se agradam os de agora? Voltando a este mesmo texto, ainda que consignemos apenas termos e idéias comuns, não é verdade que somos obrigados a transgredir as normas literárias modernas, que elegem justamente a conflagração lingüística como recurso de atração dos leitores? Que fazer? Estimular o pensamento criativo dos que devem gerar os impulsos de confraternização em torno do ideal espírita, para que se utilizem inteligentemente dos recursos do marketing de vendas, para a propagação das teses da existência de outras formas de vida além da morte, da reencarnação, da possibilidade de integração entre os planos através da mediunidade, em suma, fazer com que dependam o menos possível dos guias e orientadores do etéreo no gerenciamento direto dos centros espíritas e demais entidades consagradas ao iluminar das mentes e corações, reservando-lhes um lugar de destaque (e não estamos desejosos de fazer parte desse time de primeira linha) nos momentos preciosos e importantíssimos das meditações, durante as aulas e demais atividades didáticas.



55. Não sabemos se a crítica é válida, mas a extensão do texto acima não irá atrapalhar os leitores, levando-os a suspeitarem de que a fragmentação das idéias promoveria tão-só a compreensão de que são banais e corriqueiras?

R. Segundo o título do livro, estamos tentando ser coerentes com as obras básicas do Espiritismo, onde se encontram dissertações bem mais volumosas que a resposta à questão anterior. Quanto ao fato de se fragmentarem os segmentos dos raciocínios, pode ser método até valioso para a análise de nossas mensagens, conforme hemos insistido. Contudo, que não se corra o risco de se destacarem trechos, isolando-os do contexto, o que os integrará em outro pensamento, podendo adquirir aspectos exatamente contrários ao uso que lhes demos. Esta recomendação é particularmente endereçada aos afoitos que ocupam espaço no jornalismo espírita e que concluem apressadamente, extraindo de obras extensas alguns vislumbres intuitivos dos autores, tornando-os assertivas categóricas, como se a responsabilidade da escrita se fixasse nos escritores e não nos que, ingenuamente ou não, cometeram a imprudência da citação desvinculada do tema da mensagem. Não teria sido precisamente este o interesse do Codificador ao manter alguns textos mais longos, como o produzido pelo médium e astrônomo Camille Flammarion e assinado pelo espírito Galileu, no capítulo sexto de A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo? Ali encontramos pelo menos uma informação completamente equivocada, a que se refere ao aspecto do lado oculto da Lua, porque, não se poderia sequer imaginar, um século e pouco antes, que os homens construiriam de fato aparelhos de navegação aérea; muito menos que iriam pousar no satélite da Terra, explorando não apenas a outra face desse corpo celeste, como ainda os planetas do Sistema Solar. Destacado o trecho, fica clamorosa a imprecisão, a ponto de se desacreditar do mensageiro segundo o raciocínio de que, se não conhece o que está mais próximo, como realiza afirmações sobre todo o universo tangível? Estando os encarnados em condições de efetuar a crítica parcial, também estarão aparelhados para repudiar toda a exposição? Pelo processo da fragmentação, incutir-se-á na mente dos crédulos que o teor do texto está comprometido por inteiro. Contudo, ao tomarmos a mensagem como um todo, como o fez Kardec, desenvolveremos em torno dela um tomo completo de apreciações científicas, para a imersão nele do pensamento religioso apegado ao discurso fantasista e pueril das conclusões superficiais dos textos bíblicos. Eis que cumprimos a obrigação de recomendar a leitura e o estudo de mais um livro de Kardec.



56. Por que, até a presente questão, não se deu importância à seqüência dos assuntos, ou teremos deixado de perceber que existe algum liame subjetivo entre as perguntas?

R. Naturalmente, a preocupação dos que perguntaram não impediu aos que responderam de dar feições muito apropriadas às respostas, com o fito de adequá-las psicologicamente ao espírito do leitor. Desse modo, apenas esta última indagação é que demove o ritmo que vínhamos empreendendo ou, para sermos mais exatos, deixa de lado os temas relativos aos dons de perguntar de Kardec, para se infiltrar no trabalho mesmo que se elabora. Está claro que não gostamos do desvio da atenção para fatores periféricos e que pretendemos ocupar a mente do amigo encarnado com algo proveitoso para sua vida espiritual, sempre em função do que possa aplicar ao campo das atividades gregárias, no cumprimento dos preceitos do amor ao próximo e da caridade, o primeiro de Jesus, o último do Espiritismo.



57. Digamos, para referendar o ponto de vista do grupo que responde, que estamos chegando ao fim da programação, uma vez que a postura evangélica está completamente desenvolvida na obras básicas da Codificação. É isso?

R. É quase isso. A partir de agora vamos dar oportunidade a que o médium elabore as questões e as ofereça de imediato às considerações do etéreo. Que se premuna quanto ao fato de não repetir as que o Codificador elaborou e que se disponha a pensar sobre o que mais de perto lhe afeta a convicção espírita, segundo a ordem dos trabalhos que executa.


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