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Teses_Monologos-->AS PERGUNTAS QUE KARDEC NÃO FEZ — III PARTE -- 24/05/2003 - 10:53 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
Terceira Parte

96. Em Sol nas Almas, André Luís, através da psicografia de Waldo Vieira, assinala como um dos pontos essenciais para os cônjuges: “Compreender que o matrimônio é uma escola e que os cônjuges tudo precisam fazer nos domínios do possível para que não seja modificado o programa trazido à Terra por eles mesmos, na lei da reencarnação, alterando o plano de serviço com separações reconhecidamente desnecessárias.” (Op. cit., p. 37.) Não estará impresso aí tremendo preconceito, uma vez que o matrimônio é visto pelas diferentes sociedades de maneiras muito diversas? Não é verdade que existem culturas onde a poligamia masculina é norma? Não é verdade que a pobreza em certas regiões obriga a mulher a se unir a vários irmãos de mesma família? Como teriam sido os “programas” dessas pessoas? Também não é verdade que erros de aproximação existem, de modo que muitos casamentos ocorrem ao influxo das paixões materiais, sem qualquer vínculo espiritual? Não acontecem enlaces por interesses que se transformam em sólidas uniões? Uma das características do livre-arbítrio não é exercer-se segundo o crescimento espiritual das criaturas, favorecendo as mudanças e alterações, principalmente quando se dá a compreensão dos deveres e obrigações cármicas em relação à sociedade em geral, de modo a forçar o desenlace entre cônjuges que não progrediram de modo uniforme? Quando duas pessoas são viúvas e se unem em matrimônio, estarão cumprindo uma parte insólita do “programa” ou lhes foi permitido reprogramar a vida?

R. A enxurrada de perguntas demonstra a seriedade que se atribui ao tema, particularmente porque a sociedade dita tecnológica, eivada de valores materiais, tornou o uso dos objetos em geral, através do consumo, algo perfeitamente reprogramável, tantos são os artefatos descartáveis. Daqui a estruturar o pensamento do extremamente perecível e substituível para as pessoas é pequenino passo, porque os sentimentos não se cristalizam em função dos bens de caráter durável ou permanente. Casas, automóveis, roupas, utensílios e todo tipo de propriedades são freqüentemente abandonados por outros considerados melhores. Então, por que não aplicar o mesmo princípio para os maridos e esposas? O raciocínio é simplista, mas, quando não existe verdadeiro interesse pelo outro na sociedade matrimonial, ainda que haja filhos a serem emocionalmente educados, os casais se separam, obsidiados embora pelos familiares cujos valores religiosos não se coadunam com a lei civil. Perdura, em algumas faixas da sociedade, certa ojeriza ou repugnância moral pelos abandonados (principalmente pelas abandonadas), em expressiva depreciação pela postura frágil perante a necessidade de enfrentar corajosamente os percalços do casamento provocados pela infidelidade, de sorte que muitos permanecem juntos sem estímulos positivos, aturando-se apenas, numa separação de fato e não de direito. Em suma, são em grande número as possíveis condições de infelicidade dentro do relacionamento conjugal, não cabendo a nós descrever cada uma delas. Sendo assim, não será preferível acatar a informação de que os casais tendem a se formar antes da reencarnação, com todas as carências afetivas a serem saneadas, podendo, à vista das realizações vitais, requisitar dos protetores e benfeitores espirituais ocasional e oportuna reunião no etéreo, para deliberação a respeito do melhor veredicto a respeito do projeto em andamento? Tudo que se fizer por amor, por simpatia, sem ódio, sem intento de desforra, apenas porque se satisfizeram os princípios do relacionamento, qualquer que possa ter sido a causa, mesmo quando as pessoas têm despertado o interesse por outras criaturas, é preciso considerar com muito carinho que a concretização evolutiva está em evidência, sendo da psicologia humana, também, aprender batendo a cabeça, arrependendo-se e reformulando as diretrizes do comportamento. Poderemos ser interpretados como simpáticos à tese do divórcio? Pensamos que não, porque estamos fundamentados nas leis de causa e efeito, de ação e reação, de destruição e de progresso, de amor, justiça e trabalho e demais estatutos que regem o humano proceder. Se as pessoas preservam o princípio da responsabilidade e respondem pelos seus atos, premunindo-se contra os males que sua atuação causaria, podem fazer uso do livre-arbítrio inclusive dentro da sociedade conjugal. Não haverá harmonia e as pessoas se colocarão em campos antagônicos, oferecendo-se como inimigas daí por diante? São muito pobres os que terminam assim, porque vislumbram tão-só o seu próprio ego, completamente esquecidos das promessas de Jesus aos que cumprem os deveres para com os semelhantes, aprendendo a perdoar e a esperar o crescimento moral, sentimental, intelectual e espiritual do outro. Ainda bem que nem sempre a morte separa os casais, porque, verdadeiramente, se respeitam em seu amor quintessenciado, vivendo na terra e no etéreo a ventura de sua união em plenitude de felicidade, o que significa dizer que existem matrimônios que não visam ao resgate de anteriores desfeitas e perjúrios, sendo programados para o semear de amor aos filhos, na constituição de famílias aptas a oferecer a algumas criaturas o melhor lar possível, para a concretização das aspirações evangélicas.



97. Permitam-me insistir neste tema importante dos relacionamentos entre casais. O matrimônio visa à formação da família, como instituição humana (além de social), porque envolve sentimentos e emoções para a organização da vida. A dissolução dos casamentos, entretanto, não se dá, também, pela desestruturação psicossocial estimulada pela excessiva liberdade com que os jovens se iniciam na sexualidade? Os valores materiais condizentes com a filosofia do consumismo não está a fundamentar a fugacidade dos encontros e a mínima duração dos relacionamentos, muitos provisórios, sem a tendência matrimonial, ou seja, sem o desejo de formar grupos familiares? Não se está dando ênfase demasiada ao desempenho dos indivíduos, como se percebe nos empreendimentos femininos para gerar filhos sem os compromissos conjugais, a chamada produção independente?

R. Os jovens aprendem com os mais velhos, sempre, desde que nascem. Em condições ideais de educação, recebendo o carinho, o afeto e o amor dos pais e demais parentela, não se dispersam para o mundo das conveniências e motivações de momento. No entanto, quando são abandonados em prol de dispositivos socioeconômicos a regerem as atividades da família, vão derivando, inativos e inúteis, para a turbulência, a maldade, e o crime. Mas esses fatos não são de hoje: são de todos os tempos, bastando que se perlustrem os episódios históricos para se avolumarem os casos de mesma latitude. Não obstante, temos de admitir que, nos dias de hoje, existe grande quantidade de adolescentes e, mesmo, de jovens no início da maturidade que administram mal as sensações, buscando incrementar ao sortido aparato de fruição dos recursos sensórios as novíssimas conquistas da tecnologia, caso dos sofisticadíssimos aparelhos, por exemplo, de vôo livre ou para a queda de grandes alturas por amarrilho em cordas elásticas, em que se correm riscos calculados, mas sem a segurança da pacífica peregrinação pelos campos e praias. Indo além, muitos outros disputam a primazia do heroísmo em rachas ou pegas sobre quatro ou duas rodas, pelas ruas, sem os dispositivos de resguardo das disputas oficiais, que também não se justificam, a bem pensar, porque muito distantes da natureza orgânica do homem. Perante tais emulações, o sexo passa a apresentar aspecto de incompetência para quantos almejam inscrever seus nomes entre os mais corajosos, os mais aventureiros, os mais incríveis... É esporte de menor risco, ainda que existam meninotas sem conta a embalar filhos, sem sequer entenderem como é que isso acontece. Como estão desenvolvendo-se procedimentos de assistência à maternidade juvenil e como estão divulgando-se de imediato as notícias das tragédias, como há interesse em realizar matérias de cunho sensacional, para a venda de impressos e de tempo na mídia, os fatos vão sendo divulgados, arquivados nos sistemas de memória computadorizada e reprisados, dando a impressão ao povo de que a juventude toda está perdida para as realizações evangélicas, que são as do amor, da compreensão, do perdão, do trabalho, da justiça, da preservação dos bens da saúde, da moradia, do equilíbrio psíquico etc. Se nos ativermos a examinar tão-só os grandes conglomerados populacionais, iremos deduzir, erroneamente, que os crimes e vícios crescem em proporção geométrica. Mas devemos também considerar o que ocorre nas cidades menores, onde a ordem se garante de modo mais eficaz e os cuidados com as crianças passam pelos programas de desenvolvimento personalizado. As nações ditas em desenvolvimento ou de terceiro mundo recebem incrementos populacionais mais significativos a cada ano. Se pensarmos em termos europeus, veremos que existe controle de natalidade mais adequado à manutenção do equilíbrio entre o poder econômico e os empreendimentos sociais. Mas problemas existem por toda a parte e de tal magnitude que exigiriam monografias específicas para tratamento de cada um. Quando se consideram os efeitos nocivos das grandes questões da moderna civilização sobre o desempenho matrimonial, havemos de tomar o cuidado de não nos postarmos do ponto de vista da matéria, que deve ficar restrito às ciências humanas. A cada momento, chegam a nós levas imensas de pessoas que não perfizeram todo o ciclo biológico, despachadas que são de maneira violenta, o que contraria a normalidade natural. Nem por isso, no entanto, oferecem a contrafação da revolta ou do desespero, bastando que avaliem o quanto foram responsáveis, em função das novas oportunidades a serem oferecidas, porque Deus é misericordioso. Banaliza-se a sexualidade, por causa do poder econômico das classes mais abastadas, propagando-se a ideologia pelos vários meios de contaminação cultural. Explica-se, portanto, que as pessoas ajam em decorrência do fato de não necessitarem mais do apoio familiar, capazes que muitos são de se manterem e aos chamados filhos de encomenda ou de proveta. Mas é preciso enfatizar que esse aspecto não é o mais abrangente, se estivermos interessados em generalizar as observações e as conclusões. De resto, os movimentos religiosos também estão prosperando e todos os que se registram como de utilidade pública garantem aos fiéis que a melhor realização de vida é proporcionada pela família, onde as alegrias se gozam em paz e harmonia. Se o noticiário quer chamar a atenção para o excepcional, para escandalizar os espectadores e leitores, está, ipso facto, assegurando que a maioria não reza pela mesma cartilha. Não sejamos nós, os espíritas, a alardear a bandeira da falência da humanidade, por favor, muito embora nos sintamos condoídos e martirizados ao presenciarmos os experimentos sexuais e matrimoniais que não são bem sucedidos.



98. Mantendo o mesmo diapasão, que pensar sobre a crescente oficialização mundial das uniões homossexuais? Caberá, aqui, discutir a disseminação da AIDS?

R. Respeitar o direito de todos os cidadãos é de ordem para quem domina os temas espíritas de superior quilate. Se as pessoas têm propensão para efetuarem seu crescimento no amor ao Pai, pelo amor às pessoas, sem distinção de sexo, nada mais estão fazendo do que manter o princípio do etéreo, onde os espíritos não se separam entre si por característicos desse gênero. O que se deve inquirir é se existe, verdadeiramente, respeito e amor, ou se estão sendo excitados os aspectos imorais concernentes ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, à malformação do caráter por espírito de sutil ou inconsciente represália ao desamor dos pais. Enquanto os governos constituídos vão encarando de maneiras bastante diversas as reivindicações dos homossexuais, havendo quem já legisle favoravelmente e quem, simplesmente, não admita a existência desses desvios dos padrões naturais para a procriação, devem os espíritas vigiar para não incorrerem em discriminações que incidam, dentro dos locais sagrados das reuniões de trabalho pelos irmãos desencarnados (e também para assistência material e doutrinária a muitos infelizes encarnados), em repulsa aos irmãos envoltos nesses halos de vibração menos comuns. Quanto a discutir o terrível flagelo em que vem constituindo-se a AIDS, será oportuno, em alguns aspectos, pois a doença está espraiando-se pela sociedade, desconsiderando os guetos homossexuais, porque os bissexuais a disseminam, como ainda os viciados em cocaína e outras drogas injetáveis, através do uso coletivo das seringas, nas quais o alucinógeno é diluído, eventualmente, em sangue contaminado. Pois bem, não são poucos os casos de extremado desvelo dos companheiros (neste caso o setor masculino é mais atingido) pela manutenção da saúde intelectual e sentimental dos que lhes são mais caros quando atacados pelo mal, que não se importam em compartilhar, pelo pouco valor que dão à vida sem os gozos adicionais a que chamam de adrenalina pura. Mas estes casos não são os mais freqüentes, tendo em vista que os homossexuais mais atingidos pela AIDS o são pela incrível variedade de parceiros. Neste caso, não há como defendê-los quanto ao aspecto da moralidade evangélica, porque não cumprem o preceito básico de amar a Deus pelo amor às criaturas. Trata-se de mero desfraldar de direitos, sem a competente restrição dos deveres. Veja, caro amigo, que nos propomos como observadores dos fenômenos psíquicos e sociais, sem acusações e sem desculpas. Não é assim que se propugna que seja a melhor atitude com base científica? No entanto, existem repercussões que atingem a sociedade organizada, porque os que não se eximem da doença, deixando-se embalar pelos prazeres transitórios do afago de seus egos, causam prejuízos aos que pagam impostos e cumprem as obrigações de cidadãos. Transporte este aspecto para a sociedade espiritual e extraia algumas conclusões concernentes ao que possa afetar o equilíbrio dos grupos formados para amparo mútuo, na expectativa de se receberem as bênçãos do Senhor, ou seja, aos círculos de maior tranqüilidade, paz e felicidade.



99. A instituição do matrimônio não se verá ameaçada mais ainda pela onda dos vícios degradantes que dizima a juventude, caso dos alucinógenos destruidores do sistema nervoso central, a cocaína a puxar a fila?

R. Se as pessoas de bem não assumirem o comando administrativo e continuarem passando o encargo de governar aos traficantes, o povo ficará (como de certa forma já está) sob as forças armadas de quem não tem compromisso com a ordem e o progresso. Aos desencarnados este aspecto não causa mossa, porque sabem os que estudaram as leis cósmicas que todos os procedimentos têm repercussões espirituais, sendo bem acolhidos no etéreo os bons e mal, os perversos e degenerados. Se a vida, como um todo, está ameaçada, é lógico que se estenda a restrição ao bom desempenho para o contrato matrimonial. Se são numerosos os casos de filhos a desbancarem a harmonia do lar e, em menor quantidade, o de maridos e esposas viciados pelas drogas (neste caso, é mais comum encontrarem-se problemas afetos ao consumo de bebidas alcoólicas e de tabaco), não podemos tentar obstar o brilho do sol com a reles peneira de nossas convicções doutrinárias. É preciso estar-se fortemente fundamentado nos conceitos evangélicos, para que se arregacem as mangas e se estimulem os de maior poder para o trabalho ingente de enfrentar os poderosos, no campo aberto da lei e da segurança pública, ou os mais humildes, no regaço das consciências, pela influenciação diuturna da educação, em casa e na escola. Se os noticiários evidenciam o consumo das drogas e denunciam os viciados e seus algozes, não podemos ficar alheios às pressões psíquicas de que somos capazes junto à nossa própria consciência, no interesse coletivo, porque nos cabe preservar a obra do Senhor, ou seja, a vida na Terra em condições de fomentar o progresso espiritual. Cada um deve saber qual é a extensão de sua influência, operando as transformações cabíveis, para que providencie a ampliação da área, seja qual for a atividade com que irá beneficiar os irmãos em dificuldade. Isto faz parte da caridade como alavanca para a salvação.



100. Seja o seguinte trecho de Missionários da Luz:
“Identificando-me a admiração, Alexandre sorriu e disse ao Assistente Josino, com o propósito de fazer-se ouvido por mim:
“— Talvez André não conheça bastante o nosso respeito e gratidão ao aparelho físico terrestre.
“— Em verdade — ajuntei — ignorava, até agora, que o corpo carnal fosse, entre nós, objeto de tamanhos cuidados. Não sabia que a nossa colônia contasse com instituição desse teor [Planejamento de Reencarnações].
“— Como não, meu amigo? — interferiu o Assistente, com inflexão de carinho — o corpo físico na Crosta Planetária representa uma bênção de Nosso Eterno Pai. Constitui primorosa obra da Sabedoria Divina, em cujo aperfeiçoamento incessante temos nós a felicidade de colaborar. Quanto devemos à máquina humana pelos seus milênios de serviço a favor de nossa elevação na vida eterna? Nunca relacionaremos a extensão de semelhante débito.” (Op. cit., p. 162.)
Além do ensinamento do respeito que se deve ter pelo corpo físico, temos para observar que muitos conhecimentos se acrescentaram à obra de Kardec relativamente às colônias do etéreo, através de textos mais ou menos romanceados, mais ou menos fictícios. Dar tais obras aos jovens significará jogar pérolas aos porcos, na expressiva expressão de Jesus, ou poderemos aguardar reflexões ativas para a anotação de que algo existe dentro da matéria que reflete a misericórdia de Deus?

R. Levado por nós ao encontro da obra selecionada para a pergunta, não se fez de rogado o médium e desferiu várias questões ao mesmo tempo, questões que o trazem alerta quanto às mensagens que vem recebendo desta e de outras equipes. Agrada-nos responder, porque se referem ao que Kardec não teve possibilidade de comentar. Primeiro, é preciso ressaltar que os espíritos são capazes de enxergar, quando mais evoluídos, o entremear dos corpúsculos que se constituem na matéria básica do mundo dos encarnados, de forma a reconhecer neles tão-somente energia a conduzir as vibrações que unem os elementos para a formação do tecido existencial correspondente à esfera densa dos humanos. Essa visão sutil, que os aparelhos construídos pela ciência ainda não são capazes de captar, eleva o conceito de matéria, sublimando-a, tornando-a quase espiritual, se tal termo não se constituísse no oposto à impressão dos encarnados. Houve quem supusesse (e não adianta agora correr atrás de nomes e de obras) que a escala periódica dos elementos químicos se estenda, de um lado e de outro, para além dos valores conhecidos, constituindo campos energéticos em que existem os espíritos. Isto seria, apenas para fazer referência às possibilidades de conjeturar, o contrário da conclusão daquelas entidades que vêem a sutileza da matéria como condicionada pela força criativa do Pai, portanto, dentro do plano da espiritualidade. Para uns existem apenas campos magnéticos; para outros a materialidade prepondera. Por esse meio, chegam os espíritos ao máximo de respeito e consideração pela organização material dos corpos humanos e das demais criaturas que vivem sobre a Crosta Planetária, defendendo a idéia de que a destruição da obra divina é sempre crime perante a lei cósmica. Daqui decorre a importância que dão os mensageiros do etéreo à educação da juventude, através das informações que passam mediunicamente, eivadas, muitas vezes, de intuitos dramáticos para a comoção necessária às deliberações que visam às reformas íntimas e ao aprendizado dos valores evangélicos. Ora, os recursos literários estão disponíveis para o romancear das lições, podendo gerar obras de ficção fundamentadas filosoficamente nos dados conseguidos através dos estudos científicos, conforme se pode pressentir em relação aos eventos que levaram o autor espiritual, que se chamou de André Luís, à elaboração de seus textos. Perguntarão muitos por que se dá tanta importância aos métodos de apresentação da realidade etérea, quando seria muito mais plausível demonstrá-la através das técnicas científicas, pela descrição pura e simples das colônias, sem enredo a ampliar o discurso em seus contornos secundários. Para cada pessoa uma reação. Os objetivos podem ser os mesmos, mas a perspectiva cultural dos mensageiros é que estabelece o roteiro que mais de perto traduz a sua perícia de composição literária. Respeitam-se nas colônias tanto o livre-arbítrio dos autores quanto a sua boa vontade em elaborar as peças a serem transmitidas aos encarnados. Agora, entra a consideração final do médium a respeito da leitura pela juventude de tais estruturas retóricas. Eis que se definem os pressupostos educativos, uma vez que o projeto didático, segundo a visão pedagógica mais adequada para cada etapa do crescimento psíquico, é que deverá prever a melhor forma de conduzir os pensamentos e sentimentos para a compreensão da verdade a que Jesus fez referência em suas pregações relativas ao procedimento moral e religioso. Se não se estabelecerem critérios para a formulação curricular da matéria que poderemos denominar de Espiritismo, com as subdivisões imprescindíveis (reencarnação, mediunidade, ciência e religião dos espíritos etc.), do mesmo modo que qualquer ramo do saber humano, também este há de ficar esquecido pela maioria, porque o interesse deve sofrer motivação específica ou quedarão todos os jovens sob a direta influência dos que possuem o poder econômico e a preponderância sobre os mais abrangentes setores da inteligência como força de trabalho, imbuídos apenas das diretrizes do lucro, do conforto e do sucesso material.



101. De Vinha de Luz, extraio o seguinte trecho do comentário de Emmanuel intitulado Esperança:
“Jesus, na condição de Mestre Divino, sabe que os aprendizes nem sempre poderão acertar inteiramente, que os erros são próprios da escola evolutiva e, por isto mesmo, a esperança é um dos cânticos sublimes do seu Evangelho de Amor.” (Op. cit., p. 164.)
Noto que muitas mensagens contêm palavras de incentivo e apoio às pessoas que buscam acertar, tanto que, no entrecho reproduzido, se faz questão de aquilatar a possibilidade das falhas e de oferecer o recurso da esperança. Entretanto, o tônus sentimental desses textos, parece-me, favorecem certo enredamento matreiro dos leitores, justificando-lhes as atitudes menos sábias e repassando para o futuro a tarefa da aprendizagem superior. Estarei certo se concluir pela necessidade de se chamarem os encarnados às falas, desde logo, responsabilizando-os, sempre que se observar que se acomodam aos erros próprios da escola evolutiva? Não será por isto que os textos deste Grupo das Perguntas se apresentam carrancudos e enérgicos, cobrando do leitor maior severidade na aplicação dos preceitos doutrinários?

R. Estando em paz consigo mesmos, os seres de qualquer nível evolutivo conseguem agir em consonância com a verdade que são capazes de intuir, porque partem do princípio de que o que é bom para eles mesmos é o que se recomenda para os irmãos. Esta é reação absolutamente natural, normal, objetiva e esperável. Para tais pessoas, as mensagens terão sempre o condão de despertar-lhes a atenção para pontos que visem à confirmação do bem que venham praticando, de preferência aos astuciosos argumentos para engodo dos protetores, porque se aplicam à elevação de suas almas por meio de preceitos que se resumem e se destacam da própria consciência. Quem está no caminho do bem supremo de proceder segundo as recomendações de Jesus não pára para refletir sobre certos projetos futuros, dado que o presente é de plenitude, conferindo-lhe o halo de santidade que o torna feliz. Se, eventualmente, as criaturas erram, como está na citação, sabem que Jesus está atento para as providências básicas do estímulo através da esperança, companheira da fé e da caridade, entre as virtudes excelsas para quantos pratiquem os preceitos cristãos. Sendo assim, por mais chorosos e melífluos que sejam os textos, jamais incidirão como obra malfazeja no coração dos que buscam acertar. Ao contrário, se alguém lê o que acima se reproduziu com a predisposição de achar apoio para a sua matreirice, não hesitará em transformar as sábias palavras em algo semelhante ao próprio pensamento, reforçando os aspectos da comiseração divina, acreditando piamente que não serão jamais desamparadas, porque atribuem a Deus deveres e obrigações, apequenando-lhe os atributos, segundo a estreita visão humana, deformando as intenções dos mensageiros e transfigurando a metáfora do amor em vilipêndio da expressão. Eis como Kardec, no número de junho de 1860 da Revista Espírita, comentou a informação de um espírito de que são proporcionadas faculdades mediúnicas a pessoas viciosas com o fim de ajudá-las a se corrigirem: “Isto é perfeitamente exato, e, às vezes, vêem-se Espíritos inferiores darem duras lições, em termos pouco medidos; assinalar defeitos, pôr os caprichos em ridículo, com mais ou menos habilidade, conforme as circunstâncias, e por vezes de modo muito espirituoso.” (Op. cit., p. 186.) Ora, sabendo-se que por trás das reprimendas dos inferiores se encontram os bons espíritos a estimularem este tipo de atitude, pode-se concluir que a necessidade de se chamarem tais pessoas às falas é de todo compatível com o trabalho dos socorristas e demais protetores desejosos de ver o progresso dos pupilos. Quanto à derradeira parte da questão, fica por conta dos amigos encarnados decidir a respeito de termos ou não razão em desenvolver os temas da maneira pela qual o vimos fazendo, muito embora não tenhamos em mira ofender nem melindrar ninguém. Nós também temos os nossos instrutores e benfeitores a nos estimularem os bons conselhos...



102. Em Antologia do Mais Além (p. 145), sob o título de Quevedo, publicou Jorge Rizzini um soneto mediúnico atribuído ao espírito de Guerra Junqueiro, em que se analisa a personalidade de um dos mais acirrados desafetos do Espiritismo. Que pensar das informações sem interesse para os encarnados a respeito das atividades das pessoas em outras encarnações? Mesmo que o reflexo da maldade anterior se exerça agora sobre a teoria espírita, não houve exagero em consignar as atividades do inimigo como produto de formação espiritual desvirtuada? Não seria suficiente saber que as pessoas são imperfeitas e que, um dia ou outro, ascenderão moralmente, evangelicamente? Poderíamos conclamar o princípio da caridade para repelir a composição como elaborada com desejos de desforra, apesar de bem constituída (com restrições) do ponto de vista literário e segundo a história conhecida do autor de A Velhice do Padre Eterno? Claro está que aceito o apontamento dos feitos malignos em obras espíritas, como resultantes da lei de causa e efeito, desde que tratadas idealmente, para personagens fictícias, pois o que me choca é a citação da personalidade real. Estaria correto reproduzir o texto que desejo censurado? Não estaria incidindo no mesmo defeito?

R. Não nos parece claro que a intenção do autor espiritual fosse trazer à luz do mundo o conhecimento da pessoa do Padre Quevedo, porque tal informação seria pertinente apenas ao indigitado. Ora, pela atitude de crítico da doutrina espírita, pouca atenção daria o jesuíta ao fato de ser acusado de ter pertencido aos quadros da inquisição espanhola, porquanto a idéia da reencarnação não tem valor perante o seu acervo espiritual. Levar o público a saber quem está atacando o movimento espírita não acrescentaria nada, uma vez que são os argumentos e não os inimigos que importam. Sendo assim, resta a graça das composições, em seu instigar contra os adversários, depreciando-os em aspectos que podem ser reais, mas que não se coadunam com os preceitos da tolerância e do perdão. Além do mais, é justo supor que, a serem verdadeiras as informações, o sacerdote irá sofrer tropeços muito violentos na caminhada a empreender para o resgate dos males contra os irmãos, ainda porque o fazia em nome do Cristo. Quanto à transcrição, recomendamos não se faça, bastando espicaçar o interesse dos estudiosos com a menção bibliográfica, para o que é de rigor a observação de que se deve partir para o conhecimento integral da obra com o coração defeso contra os impulsos de solidariedade ao autor, pela concordância de que se devem criticar os erros e defeitos, nomeando-se os acusados, resguardo que se alcançará através da prece. Fizemos questão de antecipar a reprodução da nota de Kardec na resposta anterior, para demonstrar que os benfeitores espirituais vêem com bons olhos as reprimendas mais acerbas, apesar de não procederem a elas diretamente. Jesus falou em escândalos, ressalvando que os causadores deles não seriam bem-vistos.



103. À vista da resposta anterior, gostaria de que fosse apreciado outro soneto incluído na Antologia do Mais Além, atribuído ao espírito de Auta de Souza, cujo teor está mais para a poética recomendação das virtudes do que para o escarmento. Traz o título Vinde, amigos:

“Quão pouco sabe ainda a alma humana
Sobre as coisas de Deus! E há tantos prantos
Continuamente derramados... Tantos,
Neste planeta onde a aparência engana!

Na mansão suntuosa, soberana,
Com jardins luxuosos, mil encantos,
Às vezes há mais dor e há mais espantos
Do que na escuridão duma choupana...

Desçamos, pois, da torre de marfim,
E enxuguemos as lágrimas, enfim,
Dos que já não conseguem dar um passo...

Vinde, amigos, porque esta é a Verdade:
Se Deus é puro amor, é a Caridade
A chave do Seu Reino além do Espaço!”
(Op. cit., p. 65.)

R. Naturalmente, a impressão sentimental da alma feminina persiste no espírito da autora e sua enunciação doutrinária se dá com o caráter maternal de quem vê as pessoas como carentes de afeto e de auxílio. A realização literária é suficientemente feliz para enlevar as mentes dos leitores ávidos pela comprovação de que todos somos iguais, na fraternidade universal. Mas insinuam-se as distinções materiais, com o prejuízo dos miseráveis, que, pelo sofrimento dos abonados, devem regozijar-se por não lutarem contra elementos tão poderosos. Ora, a aprendizagem das leis deve dar relevo a todos os fatores da constituição dos seres, ou seja, os intelectuais e os sentimentais, em suma. Se o aguilhão da dor se torna o único meio disponível de progresso para os encarnados, haveremos de lamentar que não nos sejam dadas outras oportunidades para a experimentação e a reflexão. Se o caminho da salvação está na virtude excelsa da caridade, também não nos podem falhar outras atividades igualmente generosas, como o desenvolvimento das ciências, para se possibilitar que todos tenham vida longa e pacífica. Não podemos apontar o dedo para as consciências que se sentem pejadas de vergonha, é óbvio. Mas devemos indicar aos indecisos que devam assumir determinadas atitudes perante as prescrições consolidadas no cristianismo cristão. Sugerir que os infelizes das choupanas e dos palácios vão ascender pela divina misericórdia ao reino apenas porque sofrem é muito pouco, pois caracterizar a dor como sintoma das necessidades sempre haverá de ser processo muito mais complexo. Mas estes pensamentos todos não cabem num simples soneto. Aliás, Auta de Souza foi felicíssima em sua composição, dando expressivo relevo às tarefas dos socorristas, exatamente daqueles que se condoem dos irmãos e vão em seu auxílio, sem joeirar sacrifícios. As outras necessidades de superação dos males que chumbam os humanos em seus caminhos de prantos devem encontrar-se nos outros poemas da obra citada. Fique a avaliação ao encargo de quem se abalançar a conferir.



104. Reconheço que, para os nossos corações imperfeitos, a censura imperativa contra o nosso nome seja extremamente rude. Que pensar, por outro lado, das acres recomendações de caráter geral que nos atingem em pontos muitíssimo frágeis de nossa constituição de caráter? Cito o exemplo seguinte, retirado da obra A Vida Humana e o Espírito Imortal, pelo espírito Ramatis, do médium Hercílio Maes: “É razoável que o homem selvagem seja antropófago e delicie-se (sic) com a carne dos próprios companheiros; mas é condenável e incoerente, além de impiedade, quando após distinguir o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio, ainda continue a devorar o animal que é seu irmão inferior.” (Op. cit., p. 112.)

R. Acreditamos que a interrogação do médium se situe mais no texto do que no contexto, porque a acusação contra a humanidade, no que respeita ao abate dos animais, lhe sensibiliza o moral. Mas vamos começar pelo crédito que se deve atribuir ao exame da generalidade, uma vez que a citação de nomes foi condenada por nós. Ao ler, cada pessoa vai analisando o teor da mensagem pelos parâmetros pessoais, obviamente, ou seja, vai tornando particulares as referências. Sendo assim, fica bem mais leve a censura dos hábitos, se considerarmos a espessa muralha de preconceitos que cerca cada mínima idéia que se consagra pelo chamado senso comum. Se a pessoa for capaz de bom senso no exame dos dizeres, é possível que possa dar razão aos impulsos de recriminação dos pregadores do etéreo, como ouvem, sem aparente resmungo, os sermões em que os sacerdotes e os pastores admoestam os maus costumes. Ao contrário, muitos se sentem constrangidos pela consciência e fazem íntimas promessas de melhoria. Eis que os discursos que apelam para o coração e para a mente têm plena possibilidade de atingir os seus objetivos. Não fosse assim e não viríamos nós mesmos incitar à meditação dos temas doutrinários, em seu tríplice aspecto científico, filosófico e religioso. Melindrar-se por ouvir recriminações é postar-se ao lado dos fariseus e doutores da lei acusados pelo Cristo, em muitas manifestações públicas de desagrado pela conduta justamente de quem deveria ser o exemplo vivo das virtudes. Não foram aqueles senhores que perseguiram e crucificaram o Mestre? Quanto ao consumo de alimentos em que se impõe a destruição da vida animal, não desejamos avançar nos conceitos para além dos que se registram em O Livro dos Espíritos. Kardec ocupou-se do tema e os seus orientadores esclareceram-no. Mas devemos ressaltar que, se o homem se priva dos alimentos animais ou outros, como expiação, tal abstenção é meritória, uma vez que, como se lê no item setecentos e vinte e três, “a carne nutre a carne, caso contrário, o homem definha. A lei de conservação atribui ao homem como dever conservar suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Logo, ele tem que se nutrir, conforme o que determina seu organismo.” Ora, se os estudos superiores de nutrição humana apoiarem a iniciativa do vegetarianismo ou do vegetarismo, não devem os humanos furtarem-se ao ensejo de preservar da dor os irmãos irracionais, permitindo-lhes vida biológica útil ao seu progresso. Citar a escala alimentar e situar-se dentro dela é mero artifício de quem não deseja pensar seriamente sobre o assunto, porque se sente confortado em praticar direta ou indiretamente a crueldade da criação específica para o abate. Se era esta a crítica que o médium desejava que fizéssemos, podemos afirmar que é fruto unicamente da coerência com que temos de respeitar a natureza como obra do Senhor, através das leis de conservação, de trabalho, de progresso, de justiça, amor e caridade. Imaginemo-nos internados em unidade de terapia intensiva, obrigados a medicamentos extraídos de órgãos de animais abatidos com a específica finalidade de nos manter vivos. Iremos recusar-nos a eles? Não será preferível continuar vivos e, posteriormente, oferecer os nossos préstimos para a fabricação dos remédios a partir de elementos minerais ou vegetais? Quanto à assertiva em si colhida mais acima, eis como está em O Livro dos Espíritos, pergunta de número seiscentos e trinta e sete: “É culpável o selvagem que cede a seu instinto ao se nutrir de carne humana? —Eu disse que o mal depende da vontade. Muito bem! O homem é mais culpável à medida que ele vai sabendo melhor o que faz.” Segue-se o seguinte comentário de Kardec: “As circunstâncias atribuem ao bem e ao mal uma gravidade relativa. O homem comete amiúde faltas que nem por serem conseqüentes da posição em que o colocou a sociedade são menos repreensíveis; mas a responsabilidade se dá em função dos meios que ele possui de compreender o bem e o mal. Eis como o homem esclarecido que comete uma simples injustiça é mais culpável aos olhos de Deus que o selvagem ignorante que se abandona a seus instintos.”



105. As obras ditadas por Ramatis seguem o roteiro das perguntas e respostas, como este As Perguntas que Kardec Não Fez. Não seria lógico concluir que as questões aqui consignadas apenas repetem palidamente o superior discernimento do médium Hercílio Maes? Nesta oportunidade, sugiro que se comentem as reações dos dirigentes do movimento espírita que não aceitam o estudo das obras de Ramatis em seus centros, o que ocorre na quase totalidade deles.

R. Ainda bem que o nosso médium não cismou de reproduzir as questões dos outros, pura e simplesmente, porque haveríamos de reclamar, tendo em vista que, de um modo ou de outro, foram respondidas, pondo em xeque a argúcia dos leitores. Para tanto, isto é, para as perguntas do outro terem maior discernimento quanto ao campo a ser explorado, devem ter mesmo, porque se referem ao interesse de Ramatis e não ao nosso. Vamos, pois, continuar sistematicamente em nosso roteiro, para chegarmos ao ponto que estabelecemos como padrão de excelência, tendo em vista os atributos de que dispomos. Mas não veja o leitor nenhuma reprovação ao amigo que nos serve, porque, quase sempre (esta, inclusive) as perguntas que elabora se colocam aqui por influência nossa. Não é verdade que, desse modo, temos oportunidade de explicar o que nos traz até esta mesa? Mas deverão os espíritas perder o medo de ler Ramatis? Desde que estejam fortemente amparados pelos conceitos veiculados nas obras de Kardec, não devem pôr em dúvida a sua faculdade de descobrir o que existe de bom e o que existe de mau em tudo que se escreve. Nós mesmos, desde o começo, vimos firmando o princípio de que, para que nossos textos sejam lidos e discutidos, haja, na mentalidade do leitor, o preceito irrefragável de que as noções principais da doutrina estão expressos nas obras da codificação. A partir daí, o que existe é certa atualização de conhecimentos, dadas as informações extraídas pelos humanos das ciências que se aperfeiçoam, como ainda as possibilidades do esmiuçar das revelações do mundo espiritual em que navegamos. A justa medida, pois, nas recomendações dos dirigentes das casas espíritas, deve encontrar-se na ponderação de que, para quem hesita diante dos conceitos emitidos por Kardec e seus orientadores, não se deve obtemperar os conhecimentos por meio do acréscimo das informações de Ramatis. Todavia, nada iremos opor quanto à leitura das obras, porque cada pessoa deve afastar de si o fantasma do flagelo da irreverência, se se atrever somente a refletir sobre os argumentos que lá se encontram. Quem tem firmes os objetivos do amor ao Pai pelo amor aos semelhantes, realizando caritativamente as tarefas da superior generosidade dos corações em que se cristalizaram as virtudes que conduzem ao patamar seguinte da escala evolutiva, não incidirá no preconceito da proibição sem critério, pelo temor de atrair espíritos obsessores para a tentação dos desprecavidos. O trabalho educativo que os centros espíritas desenvolvem devem passar pela prudência curricular. Contudo, sempre existirão adeptos mais acostumados ao exame das idéias, de forma a separar o joio do trigo, seguindo com rigor a lição de Jesus. Todos nós teremos de passar por todas as portas estreitas da compreensão da verdade, espremendo-nos de encontro aos batentes, de maneira que acabam despregando-se os excessos de melindres, que vão ficar do lado de fora. Se estamos, a cada momento, fazendo o leitor observar as falhas que possam ter ocorrido em todos os textos, mesmo os da codificação, falhas que podem residir neles por não apresentarem argumentação cabaz, à vista dos avanços posteriores, seguramente iremos apostar em que a leitura das obras de Ramatis poderão oferecer motivos variados para justíssimas intuições a respeito de pontos em que estamos nós mesmos em dúvida. Mas não concluam, por favor, que estamos recomendando, indiscriminadamente, que Ramatis seja o farol a guiar os navegantes pelas águas do Espiritismo. Trata-se tão-só de postura que busca ser lógica relativamente ao livre-arbítrio a ser preservado para todos os que assumem a responsabilidade de administrar as agremiações fundamentadas em Kardec. Quem não se sentir seguro que não titubeie em impedir seja o que for cujas conseqüências não estejam claras em sua mente; mas que também não hesite em admitir que todas as pessoas têm inteligência para deslindar o que há de certo ou de errado em tudo, ao longo da existência. Haverá sempre a hora da verdade.



106. Em Evolução em Dois Mundos, André Luís, pela mediunidade de Chico Xavier e Waldo Vieira, dentro da temática da alimentação dos encarnados, adverte para as conseqüências no etéreo do demasiado apego às sensações durante a vida. Eis o texto: “Abandonado o envoltório físico na desencarnação, se o psicossoma está profundamente arraigado às sensações terrestres, sobrevém ao Espírito a necessidade inquietante de prosseguir atrelado ao mundo biológico que lhe é familiar, e, quando não a supera ao preço do próprio esforço, no auto-reajustamento, provoca os fenômenos da simbiose psíquica, que o levam a conviver, temporariamente, no halo vital daqueles encarnados com os quais se afine, quando não promove a obsessão espetacular.” (Op., cit., pp. 168-9.) No que tange aos alimentos, a conclusão do leitor será a da prudência ou, à vista do desempenho evangelizado em todos os aspectos de suas atividades, pode esperar melhor sorte junto aos protetores?

R. Antes de responder à questão propriamente dita, é preciso afirmar que existem muitos percalços a serem ultrapassados relativamente às estruturas lexicais que orientam a composição das obras demasiado técnicas. Este aspecto (tratado alhures por nós) tem impedido os dirigentes das casas espíritas de proporcionarem aos freqüentadores de suas sessões de estudos debates a partir da leitura de certos livros considerados excessivamente difíceis, como é o caso de Evolução em Dois Mundos. No entanto, adiantam-se noções ali que não se encontram em Kardec, sem ferir nenhum princípio doutrinário. Há mesmo descrições importantes do que ocorre no etéreo, diferentemente dos fenômenos encontradiços na face do planeta. Vão dizer-nos que cada qual pode efetuar as leituras particularmente. É claro que podem, não obstante, o serviço de atendimento intelectual tem de passar obrigatoriamente pela elucidação das dúvidas que, se geradas em estudo conjunto, vão aproveitar a muito mais adeptos. Como estamos avançando no sentido de propugnar que os centros espíritas também se tornem núcleos educativos de maior exigência escolar, é bom que resguardemos os atuais dirigentes das críticas relativas aos antigos hábitos de apenas oferecerem assistência espiritual aos recém-desencarnados, aos obsessores trazidos para doutrinação, aos necessitados de aconselhamento ético ou de assistência psicológica, como ainda ajuda material, através das feiras da pechincha ou da sopa a distribuir-se para os que procuram a casa ou que se encontram nas ruas. Louvem-se as iniciativas das vendas de livros em praça pública, porém, sem acompanhamento, muitos impulsos se perdem e as leituras vão acumulando-se apenas no sentido do prazer, sem a conseqüente contrapartida da assimilação dos conhecimentos para a melhoria da conduta espírita. Se estamos, aparentemente, discorrendo de forma paralela ao texto transcrito, que se precate o leitor para o fato de que tudo o que faz se reflete no conteúdo espiritual que irá transcender ao decesso, de forma que, como nos assegura André Luís, “se o psicossoma está profundamente arraigado às sensações terrestres, sobrevém ao Espírito a necessidade inquietante de prosseguir atrelado ao mundo biológico que lhe é familiar”. Então, se temos bem estruturado o arcabouço cerebral, vamos utilizá-lo de maneira fértil para a nossa futura estadia no plano da espiritualidade, preparando-nos convenientemente, desde logo, para o enfrentamento dos problemas de adaptação ao ambiente etéreo. Penetrando na pergunta do médium, temos, infelizmente, de dizer que ninguém é manquitola no que respeita ao desenvolvimento espiritual através da prática das virtudes. Se estiver falhando num setor, por exemplo, no da alimentação, é sinal inequívoco de que o mais está a significar que existe, em maior ou menor escala, o grave defeito da hipocrisia, consistente em saber como é que se aplica a lei de causa e efeito, mas fazendo-se de conta que não sabe. Poderá merecer dos protetores e demais benfeitores e amigos socorristas certa deferência, desde que o trabalho produzido tenha sido de proveito para os irmãos em dificuldade, entretanto, tudo o que corresponder às falhas maliciosas do procedimento será cobrado pela consciência, que remeterá o infeliz de volta ao plano em que deixou de executar os programas de ajustamento às leis cósmicas. Se a vida é breve, repete-se ela até que o comportamento mereça o privilégio da ascensão (o que não importa na assertiva de que não haja progresso sem a necessidade das reencarnações).



107. A obra Evolução em Dois Mundos, em sua segunda parte, também foi realizada a partir de perguntas, as quais mereceram exposições tão extensas quanto as que se encontram aqui. Sabendo-se que os ditados se deram durante o decorrer do ano de 1958, podemos imaginar que as mesmas questões provocariam hoje respostas diferentes?

R. O embasamento científico do autor espiritual estava muitos pontos adiante dos ganhos realizados pelos diferentes ramos do saber entre os homens. Mas não poderia imaginar quais seriam os desenvolvimentos técnicos e em quais setores se dariam, de forma que estamos melhor preparados para prestar as informações, segundo o nível de interesse dos estudiosos. Cabe-nos, todavia, observar que o percentual das pessoas capazes de decifrar os dizeres científicos que se registraram naquela obra é mínimo, diante do universo dos analfabetos e semi-alfabetizados, precisando acrescer o enorme contingente dos que não julgam importante conhecer sequer os textos espíritas mais simples. Dentre os aptos ao entendimento, também são poucos os que se interessam pelas obras que consideram excessivamente distantes dos informes dos espíritos que assessoraram Kardec. Gostaríamos de afirmar estar na hora de vir outro codificador, para englobar, em dois ou três livros, a suma dos acrescentamentos destes últimos cento e quarenta anos, o que precisaria ser efetuado por alguém encarnado, com a ajuda imprescindível de espíritos de mesma categoria dos que se apresentaram a Kardec. Enquanto isso, nós, da Escolinha de Evangelização, mais o médium, vamos desenvolvendo o nosso trabalho de análise (com alguma crítica), para expandir, segundo a nossa limitada ilustração, a área de influência mediúnica através das mensagens psicografadas. Quer significar que a literatura espírita esteja necessitada destas páginas? Não está, evidentemente, mas é preciso considerar que toda tentativa honesta há de ser válida, se cair no gosto do público. Pelo menos, haveremos de testar-nos na tarefa rara ou extraordinária de podermos estender-nos por laudas e mais laudas, com integral responsabilidade, para não incidirmos no erro de fazer com que o nosso servidor perca seu tempo. Que esta observação valha, desde já, como agradecimento a quem apanha os ditados, a quem os venha a divulgar e a quem os venha a ler.



108. Ciente de que os amigos que vêm trabalhando nestas mensagens não estão à vontade para os temas inerentes aos espíritos mais adiantados, mesmo assim quero perguntar a respeito da personalidade desse acima citado novo codificador. Como deverá ser ele para impor-se no meio espírita e na sociedade em geral? De que sabedoria deverá estar investido? Se não pode ter em nível de superior dotação a mediunidade, com que autoridade deverá apresentar-se? Virá com a missão estabelecida? Ou já estará entre os mortais? Conhecerá intuitivamente o trabalho a realizar ou será induzido por demonstrações inequívocas dentro da fenomenologia mediúnica, como Kardec o foi?

R. Não poderemos ser taxativos na resposta, porque caberia à administração planetária fixar as características dessa expressiva personagem. Podemos, contudo, fabricar-lhe o perfil psíquico, porque não estamos de todo alheios à expectativa a que mais acima nos referimos. Em todo caso, antes de mais nada, resguarde-se o leitor para não ter como definitivo o que iremos colocar apenas em termos provisórios e muito mais próximos de quem gostaríamos que fosse tal criatura e não da que se concretizará na realidade. Pois bem, não temos conhecimento de que esteja no orbe nenhum ser encarregado de efetuar nova codificação espírita. Caso tivéssemos a certeza do fato, teríamos a obrigação de ir atrás da pessoa para avaliar-lhe o caráter e demais traços espirituais e materiais, de forma a não laborar em erro nas informações. Do ponto de vista moral, achamos que não há que se criar qualquer dúvida quanto a ser a pessoa (homem ou mulher) íntegra, procedendo em todas as situações de maneira o mais correta possível, dentro dos parâmetros evangélicos. Se o fato de mencionarmos a possibilidade de o codificador ser uma codificadora lhe causar desconforto, é preciso que refaça o exame das reações fundamentadas em meros preconceitos. Não é porque estamos acostumados a ver o gênero masculino mais afeito a esse tipo de tarefa que, mediante as conquistas sociais da mulher, não possamos ter no gênero feminino a criatura capacitada para a próxima realização doutrinária de caráter teórico. Isto posto, resta saber em que tipo de genialidade a inteligência dessa pessoa irá especializar-se, ou seja, se irá dedicar-se às ciências exatas ou humanas, de preferência. Julgamos que a imersão científica não propicia a ampliação das áreas de conhecimentos, por causa de verdadeiro sorvedouro tecnológico que exerce poder sobre as aspirações dos estudiosos. Sendo assim, preferimos ver no encarregado das sumas doutrinárias alguém cuja formação desde logo se manifeste favorável à apreciação dos problemas que ameacem a vida, aberto para o conhecimento dos cataclismos provocados pela incompetência dos homens e para a solução mais econômica e humanitária deles. Logo após definir-se pela linha de estudos em que melhor se situe o seu desempenho intelectual, deverá interessar-se por desenvolver os dons filosóficos que se exigem de quem irá debater os temas supremos da vida e da morte. Entretanto, não poderá submergir no ideário de cada pensador, em função do momento histórico em que cada um se projetou, para não ficar preso a esse rico filão de meditações e de realizações de caráter especulativo, o que significa que deve possuir a mente voltada para os sistemas que geram riquezas comunitárias e não individuais. Ao mesmo tempo, irá sobressair-se entre os pares, em todos os eventos de que participar: será o melhor filho e irmão, o melhor aluno, o melhor orador, o melhor escritor, o melhor cidadão, o mais bem dotado de espírito, sem descair para o piegas ou para a profanação dos sentimentos alheios, o trabalhador incansável em dar de si, sem cobrança de altas remunerações em espécie ou em valor social, o mais solícito no emprego de seus sublimes recursos para a felicidade alheia, o mais fiel cumpridor de todas as obrigações e compromissos. Será que a pessoa com tantas qualidades e virtudes não se imporá sobre qualquer sociedade para a qual se volte, em defesa dos legítimos direitos de progresso e aperfeiçoamento? Jesus foi crucificado e Kardec não logrou renome universal. Então, havemos de conter a ambição dentro de certos limites, para não cairmos no logro do messianismo ou do sebastianismo mais ilusório. Se as pessoas são providas de livre-arbítrio, é óbvio que deverão exercê-lo ao seu talante, como neste nosso restrito caso de descrição de imaginária figura que possa levar a cabo o ideal espírita de se fixarem diretrizes mais modernas, segundo o aparato histórico legado por Kardec. À medida que for produzindo e divulgando as obras, também deverá ir promovendo a comoção dos integrantes do movimento espírita, de forma a captar a simpatia dos próceres, os quais, através de seu apoio manifestado por todos os meios, fornecerão credibilidade à figura impoluta do novo codificador. Finalizamos sugerindo que o amigo que nos lê se veja na pele desse orientador e considere a possibilidade de desenvolver-se para assumir o posto com que acenamos. Caso se lhe delimitem os poderes pela falta deste ou daquele atributo, esforce-se por alcançar proficiência no campo em que se caracterizou a falha, porque para alguma coisa deve servir este longo arrazoado.



109. À vista do sucesso da questão anterior, quero insistir na mesma linha e perguntar, se não for muito pretensioso, quais haverão de ser os tópicos das obras da nova codificação. Evidentemente, seria por demais obtuso se não avaliasse os pontos apreciados neste volume como propícios a desenvolvimento mais completo, no entanto, o resumo que aguardo haverá de semear no terreno amanhado pelas questões resolvidas. Ou não?

R. Estamos no vórtice do tufão, onde as forças se exercem de todos os lados, para o sugar das pretensões dos mensageiros. Sabemos que o médium não aceitaria que nos expuséssemos aluninhos da Escolinha, incompetentes e imaturos para definições tão importantes. Na verdade, a exposição que se segue se situa entre os atrevimentos de quem se julga apto à exploração dos ensinos superiores dos mestres, sem a contrapartida da experiência dos mentores das esferas mais elevadas. De qualquer modo, não iremos simplesmente fugir à responsabilidade de resposta condigna, porque o leitor nos merece todo respeito e consideração, tanto que lhe permitimos, desde logo, divergir ou acrescentar, suprimir ou consolidar, sempre de acordo com os próprios anseios de perfeição. Mas vale conjeturar dentro das lindes que os conhecimentos nos circunscrevem. Vamos, pois, sem mais delongas, afirmar que a primeira obra a ser realizada para burilar os informes que se contêm em O Livro dos Espíritos deve eleger a premissa de não rebater qualquer conceito expendido pelos espíritos, limitando-se a comentar os exemplos levantados por Kardec, excursionando pela problemática atual para a fixação da doutrina de maneira mais moderna. Essa primeira hipótese é fundamental para todas as revisões que se efetuarem futuro adentro. Não obstante, não preconizamos que se alterem os textos da codificação, note bem, mas que se redijam outros, paralelos e em constante afinidade com os originais. Se houver, à medida que o tempo corre, certo descompasso quanto à linguagem, as explicações deverão prescrever repetições inteligentes, verdadeiras paráfrases dos textos básicos, para facilitar o domínio das idéias pelos usuários do idioma. No que respeita a O Livro dos Médiuns, pouco há a modificar, a não ser quanto às ponderações judiciosas de Kardec que precisam ser desbastadas no que concerne à insistência dele em fornecer objetos de estudo de fenômenos pouco freqüentes. Por outro lado, como não será bem vista a sugestão de cortes para enxugamento do texto, que se realize uma espécie de extrato de caráter didático, para utilização no processo de desenvolvimento mediúnico elementar. Para a consignação de mais profundas informações, as quais constam de muitas obras psicografadas, será necessário que se prenda o estudioso a bem formulada esquematização, procedendo à comparação dos entrechos sob o mesmo índice catalográfico, o que exigirá paciência e tempo. Talvez, nesse caso, possam os humanos contentar-se com bem formulada bibliografia, da qual se extrairão os principais tópicos, sem discussão ou crítica de valor, apenas como ponto de referência. Não há como não considerar a mediunidade como parente mais pobre dentro da família dos princípios doutrinários, de interesse específico dos que se aproximam das mesas de atendimento dos sofredores ou dos mensageiros. Por favor, não veja menosprezo no último comentário, ou seremos induzidos a sugerir que a visão de quem critica está distorcida, incapaz de perceber que, se não fora pelo médium, não estaríamos aqui. Quanto a O Evangelho Segundo o Espiritismo, poder-se-ia pensar em transferir as noções que constituem os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo de A Gênese, substituir os textos de origem espiritual e, sem deixar de divulgar o livro de Kardec, estabelecer roteiro mais abrangente, além dos aspectos da moralidade prescrita nos Evangelhos de Lucas, João, Marcos e Mateus. A literatura espírita é rica em sugestões de análises dos Atos dos Apóstolos, de modo que também o que ali se encontra pode servir para enriquecimento da codificação, firmando-se o cristianismo nascente como fundamento para as reflexões que deverão infirmar a religião dos espíritas. Que não se toque, porém, nos estudos domésticos da obra, o consagrado Evangelho no Lar, pois o que estamos preconizando é a ampliação deles. Na linha de O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, vamos ficar devendo qualquer iniciativa de roteiro, dado que se trata do livro que mais objetivamente se escreveu, tendo como ponto central o ideário teológico do Catolicismo. Ou se aceita ele como está ou não haverá outro modo de encarar a temática, senão encaminhando o encarnado à leitura das obras mediúnicas de testemunhos do etéreo ainda mais acendradas quanto às descrições de sofrimento e de ventura. Em A Gênese, ou seja, na primeira parte do livro, é que maiores informes se podem extrair da experiência humana, porque se ampara nos elementos científicos apenas em germe ao tempo de Kardec. Desse modo, muito trabalho terá o novel codificador para determinar os tópicos de maior interesse para aproximação das notícias vindas do além. Para ligeira definição deste aspecto, podemos ressaltar que o material deve ser encarado também do ponto de vista espiritual, unificando-se o pensamento pela concepção de Criador e criatura, para forçar que o absoluto se encontre no relativo, o eterno, no perecível, o imutável, no movimento, e assim por diante. É aqui que vamos concordar com quem nos fez as perguntas, assegurando que é sumamente pretensioso que expliquemos a essência universal dos seres, conhecimento final para quem adentra os sagrados campos do Senhor. Sabemos que as observações carecem de profundidade e de extensão, que estamos na superfície dos temas e que muito precisaremos aprender antes de vir ensinar. Que se justifiquem as nossas considerações, porém, pela indução que levamos a efeito de que existem dificuldades de ordem superior para a elaboração da doutrina sobre bases mais modernas, injunções das quais não fugimos, como ainda pleiteamos que ninguém se exima de examinar o Espiritismo de modo crítico, para assimilar os conceitos, estabelecendo com rigor os procedimentos mais condizentes com a realização na íntegra da missão que tem de desempenhar durante a existência carnal. Nem tudo é fácil na vida, mas tudo haverá de ser possível para os de boa vontade.



110. Podem contar os encarnados com manifestações a respeito da nova codificação a pipocar em centros de toda parte, para confirmar-lhe a necessidade, uma vez que a simples menção através de médium que trabalha isolado irá cair no alheamento dos filiados ao movimento espírita? Se o critério da análise metódica e rigorosa da qualidade dos textos é o primeiro no rol da avaliação do valor, Kardec também ressaltou que a quantidade é indício de que existe verdade neles. Ou irão os mesmos irmãos que ditam aqui a outros locais para reforçarem os tópicos de seu maior interesse?

R. Não nos parece que seja nova a idéia de se atualizarem os textos da codificação. Apenas os homens não se sentem fortemente amparados pela espiritualidade, porque temem precipitar-se temerariamente em abismo de orgulho e vaidade, dado que a importância do trabalho exige a abnegação própria dos eleitos. Claro está que o princípio da universalidade das iniciativas de mesmo gênero põe em primeira plana os temas sobre que os do etéreo desejam discorrer ou a verdade intrínseca de seus desenvolvimentos. Se existe a possibilidade de os obsessores se espalharem pelos centros, atuando também junto aos médiuns que trabalham sozinhos ou em seu pequeno círculo familiar, também há a intercessão dos benfeitores de cada casa de amparo evangélico, para os esclarecimentos oportunos e as discussões proveitosas. Para Kardec, o problema não se pôs, porquanto se sentia fortemente orientado, crendo, talvez, que não fosse moralmente correto duvidar das informações que não eram contraditadas pelos protetores. Sendo assim, desenvolveu sua linha de pensamento crítico, formulando os princípios que lhe pareceram infalíveis, além de confiar plenamente em seu próprio bom senso e discernimento. No entanto, não estamos nós categorizados para transmitir conceitos para além dos temas que estudamos, porque não nos cabe a responsabilidade da organização dos códices doutrinários que se consubstanciarão a partir das inspirações superiores. Se os encarregados deste setor galáctico (vamos assim dizer em caráter precário) julgarem por bem disseminar a idéia cuja bandeira fomos convidados a erguer, que ajam segundo as prescrições de seus maiores, o que aguardaremos com paciência e boa vontade, modestamente recolhidos aos nossos corações fiéis às determinações superiores. Não haverão de ser diferentes, esperamos, as atitudes do médium e do leitor, pois não?



111. O Consolador surpreende pela estrutura semelhante a este, pois o Grupo Espírita “Luís Gonzaga”, de Pedro Leopoldo, a que pertencia o médium Francisco Cândido Xavier, e outros espiritistas de diferentes pontos cooperaram no acervo de perguntas que foram organizadas e respondidas pelo espírito de Emmanuel, entre 31 outubro de 1939 e 8 de março de 1940. Naturalmente, decorridos quase sessenta anos, algumas respostas talvez possam ser modificadas, por causa do avanço da civilização, mesmo porque, no dizer do autor espiritual (Op. cit., p. 16.), “somente poderemos cooperar convosco sem a presunção da palavra derradeira”. Sem querer polemizar, dada a assertiva anterior sobre os preconceitos quanto às mulheres, somos obrigados a reproduzir o seguinte trecho: “Se existe feminismo legítimo, esse deve ser o da reeducação da mulher para o lar, nunca para uma ação contraproducente fora dele. É que os problemas femininos não poderão ser solucionados pelos códigos do homem, mas somente à luz generosa e divina do Evangelho.” (Op. cit., p. 48.) Manteriam os autores deste as expressões daquele?

R. Antes de ferir de morte o conceito exposto sobre o feminismo da década de trinta, temos de ressaltar os sublimes méritos de Emmanuel, considerando com ele que “a ciência do mundo, se não deseja continuar no papel de comparsa da tirania e da destruição, tem absoluta necessidade do Espiritismo, cuja finalidade divina é a iluminação dos sentimentos, na sagrada melhoria das características morais do homem”. (Op. cit., p. 19.) Ora, se as respostas haviam de respeitar o mundo psíquico e social das pessoas que indagavam, deviam reforçar os procedimentos mais dignos, o que forçava o conselheiro a que mantivesse as mulheres no lar, para não provocar situações sem saída, porque a realidade não correspondia aos anseios que se criariam em torno do ideal feminista que, mesmo hoje, não se realizou plenamente. Isto posto, insuflar no coração feminino as teses da libertação do jugo masculino poderia representar, tão-só, inoperante afronta ao direito vigente, uma vez que, como a história está a nos mostrar, a conquista de lugar igualitário na sociedade vem obrigando as mulheres a mínimas alterações a cada passo, infiltrando-se mui lentamente no campo de trabalho que se reservou, desde os primos tempos, aos homens, com as conseqüentes e necessárias adaptações aos esquemas de sua organização biomorfológica. Hoje, não manteríamos o texto de Emmanuel, com o devido respeito, mas também não diríamos que o domínio da sociedade passe de vez para as mulheres. Estamos tendentes a aceitar que vão às escolas, aos quartéis, às oficinas, aos escritórios, aos laboratórios, às fábricas, na qualidade de operárias, artesãs e gerentes executivas, mas que saiam, definitivamente, dos lupanares e casas de diversão malsãs. Que entrem nos hospitais e maternidades como médicas, enfermeiras e parturientes, sem contestar o direito dos homens à paternidade, porque cabe a eles relevante papel na criação e educação dos filhos. Deveríamos lembrar Kardec, mas vamos deixar a pesquisa ao encargo do leitor. Unindo agora esta questão à anterior, devemos fazer referência ao critério das opiniões espirituais individualizadas. Será que todos os mentores dos médiuns e dos grupos espíritas pensavam de acordo com os conceitos expendidos por Emmanuel? Será que pensam como nós? Eis que remetemos a responsabilidade da decisão filosófica e sociológica ao leitor, como o fizemos quanto à busca do pensamento kardequiano. Não é verdade que estamos a cavaleiro e que a nossa perspectiva abrange horizonte um pouco mais vasto? Em que sentido? No de avaliar as conseqüências da liberação da vontade, sem o contrapeso dos deveres originados da obrigação de se dar ao semelhante justamente o que se quer para nós mesmos. Para se fixar a melhor diretriz quanto às respostas às questões propostas pelos encarnados, devem os mensageiros do etéreo estar atentos para as reações paralelas, porquanto um termo mal colocado, uma expressão infeliz, uma vibração que não se traduza eficazmente para a linguagem humana podem desencadear reflexões de reforço das intenções preestabelecidas e fomentar, junto ao leitor desprevenido, pensamentos contrários aos que o comunicador desejava imprimir. Leia-se a nota final da obra supracitada, onde se corrige uma falha originada exatamente por “perturbações do método de ‘filtragem mediúnica’, onde o nosso pensamento foi prejudicado”. (Op. cit., p. 219.) Pois a correção foi provocada pelos editores, que, prestando atenção ao mérito da exposição e comparando com as elucidações contidas em O Livro dos Espíritos, impuseram ao correspondente do etéreo que se manifestasse a respeito. Quando tudo o que se faz é feito com zelo, discrição e boa vontade, o resultado sempre haverá de ser o melhor possível, ainda que provisório e inconcludente, porque a verdade absoluta nos iluminará apenas quando adentrarmos o Reino do Senhor, em que pese, agora, o risco de sermos repetitivos.



112. Onde a precipitação deve ceder à prudência? Nas questões adrede preparadas pelo médium, não se sente a vontade do etéreo de prevalecer? Por que deixar o amigo terreno pouco à vontade, ao mesmo tempo que, muitas vezes, não sabe o que perguntar? Embora a presente questão esteja sendo formulada com coerência, não está distante da linha que se vinha imprimindo, no sentido de se reproduzirem trechos em seqüência de assuntos? Agora nos deparamos com uma novidade, qual seja, a de que o indagador não se ajustou previamente e os termos da questão vão brotando no instante mesmo em que escreve. Mas não foi por falta de se preocupar durante todo o dia, havendo mesmo ido à estante e compulsado algumas obras, sem inspiração nem iniciativa, crescendo o temor de chegar até este momento sem nada para perguntar. Foi assim que quiseram os amigos que ocorresse? Esta mesma perquirição é toda mediúnica?

R. Certamente, estamos insistindo junto ao nosso instrumento para reforçar a observação de Emmanuel, reproduzida mais acima, quando falou a respeito de “perturbações do método de ‘filtragem mediúnica’, onde o nosso pensamento foi prejudicado”. Às vezes, a orientação do etéreo se dá, exatamente, ao inverso, provocando, na mente do médium, como se pode perceber na pergunta que originou esta resposta, a suspeita de que é o seu pensamento que está sendo perturbado. Essa sensação sumamente desagradável interessa-nos explicar, para dar seqüência temática ao que vimos expondo, isto é, que os meios de transmissão entre os planos não é perfeito, ainda quando totalmente mecânicos. O fato se deve às formas de constituições corpóreas material e fluídica, porque a maneira de se realizar a compreensão da verdade se diferencia substancialmente. Junto aos encarnados, a necessária comprovação das assertivas pela exemplificação abonatória. Entre os espíritos, o respeito às experiências dos seres sabidamente superiores, uma vez que, entre nós, é facílimo distinguir entre os mais evoluídos e os mais grosseiros, bastando avaliar, quando se domina o recurso, o halo energético que se expande a partir da centelha divina que se situa no âmago de cada criatura. Voltando à vaca-fria (velha e colorida expressão), caberia ao amigo perguntar se a turma que vem para estes ditados é formada predominantemente por espíritos de homens ou de mulheres, segundo a última encarnação ou o conjunto delas. Será preciso explicar de novo que as entidades no etéreo não se caracterizam sexualmente? Pois este grupo, quando se reúne, se dispõe na forma de seres do etéreo, por isso, assexuados. Quando desfazemos o grupo e perambulamos pela colônia, estipulamos a aparência da derradeira romagem terrena, para facilitarmos o reconhecimento da parte de todos os que conosco convivem. Reiteramos o ponto, para que não concluam os leitores, conforme dispusemos no início da pergunta, precipitadamente. Mas a pesquisa levada a efeito pelo médium não foi em vão. Solicitamos, pois, que realize a pergunta que julgou fora de contexto, por favor.



113. Seja o seguinte trecho da obra de Clóvis Tavares, Mediunidade dos Santos: “Através de vasta rede de atividades obsessivas e inspirações malignas, servindo-se da falta de consciência e da invigilância dos homens, realizam (as inteligências tenebrosas) os mais diferentes objetivos do mal, amordaçando consciências, destruindo lares, tumultuando as atividades do bem, destruindo a fé, semeando discórdias e desânimos, preparando simonias e apostasias, lançando o joio no trigal de Cristo. Neste último setor, vemos os tristes resultados na materialização e paganização crescente dos ambientes religiosos de todas as igrejas e crenças, inclusive em nosso campo doutrinário do Espiritismo.” (Op. cit., p. 107.) A pergunta que se faz obrigatória girará ao derredor do fato de o texto não ter origem mediúnica. Sendo assim, por que não insistir no esclarecimento das artimanhas dos obsessores nas obras de deslindamento dos processos de ação e reação, quer no que respeita aos espíritos, quer aos encarnados?

R. Nesta altura das explicações, deve ter ficado claro ao leitor que o jogo da vida e da morte é complexíssimo, envolvendo todos os ramos do saber. Qualquer resposta de caráter aparentemente simples irá oferecer subsídios para a elaboração de sentimentos de resistência, segundo o prisma dos raciocínios estereotipados pelas noções hauridas nas obras da codificação. Seria o mesmo que dizer que essa pergunta Kardec fez, sob os mais diferentes aspectos que a influência deletéria dos infelizes sugeriu. No entanto, ao lermos a literatura mediúnica após Kardec, o que mais se denuncia é a formação dos pensamentos em descompasso com a orientação evangélica. Resta inquirir se é importante vigiar para além da responsabilidade da própria salvação, da própria redenção, tantas são as modalidades de crimes espirituais que se exercem sobre os encarnados. Do jeito que o autor expõe, a impressão que passa é a de que, se não houvesse a participação maligna do etéreo, os homens não cometeriam os deslizes que se constatam no mundo. Eis que a fonte para os comentários se mostra abundante, finalmente. Emmanuel, citado por nós, afirmou que “a ciência do mundo, se não deseja continuar no papel de comparsa da tirania e da destruição, tem absoluta necessidade do Espiritismo”. Aproximando os textos, vemos que a responsabilidade não se dilui, mas se firma nas consciências de todos os que têm suficiente capacidade de discernir entre o bem e o mal. Ora, a prática de qualquer ato está diretamente vinculada ao exercício do livre-arbítrio. A tese estruturalista de que as pessoas não pensam nem falam mas são pensadas e são faladas pelo meio ambiente, devido à educação e demais meios de se impor o coletivo sobre o individual, tem de romper-se em definitivo perante a condição espírita e cristã que enaltece a lei segundo a qual a cada um se dará conforme a obra que tiver construído. Todo este enredamento, meio filosófico, meio sentimental, tem por finalidade desfazer o imbróglio pessimista do autor terreno, para firmar o conceito realista de que o ritmo evolutivo não cessa, conquanto a humanidade veja crescer os crimes em todos os setores da existência carnal. A hora é de união entre todos os que têm a mínima preocupação de superar o estágio da dor, da miséria e do medo, confiando na misericórdia divina, estabelecendo que a justiça dos homens é falha mas a de Deus é perfeita. No entanto, entregar tudo às mãos de Deus, a observar como evoluirão os acontecimentos, será facilitar o trabalho destruidor das falanges do mal dos dois planos, porque, sem obstar o progresso dos horrores, a humanidade irá amargar período muito mais extenso de reencarnações expiatórias, em condições materiais cada vez mais adversas.



114. Outra indagação pertinente ao texto de Clóvis Tavares. Não estará na hora de os espíritos de luz promoverem nova onda de feitos mediúnicos de repercussão física, para que se facilitem os contatos entre os planos, principalmente porque, conforme acusa o autor, “as igrejas e crenças, inclusive em nosso campo doutrinário do Espiritismo” estão materializando e paganizando os ambientes religiosos, quando deveriam constituir-se nos baluartes da espiritualização dos seres humanos?

R. Aplaudimos a questão por permitir-nos que avancemos no aspecto religioso da doutrina espírita. Em primeiro lugar, eis como o autor citado responderia: “Seria bem útil aos detratores do Espiritismo a meditação das revelações e mensagens, obtidas no seio de sua própria Igreja, a respeito das regiões de sofrimento além da morte, dessas regiões que, intensamente inclinados para as interpretações materialistas dos fatos mediúnicos, consideram ‘descrições fantásticas’. Os livros de Santa Teresa de Jesus, as narrativas de Mons. De Ségur, do Cura d’Ars, de Santa Margarida Maria Alacoque, de Santa Brígida de Vadstena, de São Paulo da Cruz, de Santa Clara de Montefalco, o famoso Manuscrito do Purgatório, as visões e descrições dos sofrimentos de além-túmulo feitas por Madame Brault (famosa mística canadense, biografada pelo Padre Louis Bouher), além de muitos outros, são depoimentos que revelam, como o faz o Espiritismo, a existência de regiões de padecimentos, de infelicidade, de tormentos além da vida física.” (Op. cit., pp. 106-7.) Como se nota, a indagação talvez nem merecesse atenção nossa, porque os fenômenos a que alude não incidiram na transformação teórica dos cânones religiosos. Em todo caso, se assim for julgado conveniente, pode ter a certeza de que a administração sideral, sob as ordens de Jesus, irá promover o abalo das resistências fundamentadas no espírito materialista do sacerdócio impregnado dos valores perecíveis, esquecido de que há lutas a serem travadas no âmbito espiritual. A referência ao campo doutrinário do Espiritismo está a provocar-nos a inteligência para que observemos quais eventos motivaram a crítica. Estaria sugerindo que os dirigentes maiores das sociedades e federações se interessam, essencialmente, por editar livros de qualidade duvidosa, no intuito de ganhar dinheiro e não prosélitos, muito menos ainda para a promoção de grau evolutivo dos filiados, satisfazendo-se com a presença física nas reuniões ou com o trabalho gratuito dos centros de atendimento social e psicológico? Será que as promoções de simpósios, conferências, palestras e demais sessões especializadas estabelecem o princípio do culto do personalismo, para a projeção dos administradores profissionais das instituições de assistência aos órfãos, aos idosos, aos portadores de deficiências físicas e mentais, aos doentes e marginalizados? Para onde dirigirmos o nosso poder de conjectura, iremos esbarrar, necessariamente, nos prismas pragmáticos de quem sai à luta pelos irmãos em dificuldade. Neste aspecto, é preciso estabelecer como critério de julgamento que todos estão trabalhando com o máximo de boa vontade e lisura, determinando que sejam circunscritos os casos de corrupção ao âmbito da justiça terrena, para averiguação da verdade através de inquérito policial. Caberia citar Jesus, quando manda deixar que os mortos enterrem os seus mortos... O que vale para os da doutrina espírita deve valer também para os das demais religiões ou cairemos no preconceito odiento de que só o que fazemos nós é que é válido e proveitoso.



115. Não é temerário aproveitar-se dos textos transcritos para realizar apenas críticas? Ou será que nada é de superior qualidade?

R. Mais do que inocente pergunta, a indagação é um desafio. Se dissermos que todos os textos merecem reparos, este nosso haverá de ser tão bem feito que não possa entrosar-se em lista alguma. Ao contrário, se formos capazes de demonstrar a superioridade de algumas obras-primas de inegável valor, haverão de perguntar por que não produzimos algo semelhante.



116. Considero Paulo e Estêvão, de Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, uma dessas obras de máxima importância dentro das letras mediúnicas, podendo ombrear com as mais perfeitas da literatura geral. Por que, ao pensar nesse livro, fui encaminhado para o texto que adiante copio?
“O doutor de Tarso contemplava-o com espanto profundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir:
“— Saulo!... Saulo!... por que me persegues?...
“O moço tarsense não sabia que estava instintivamente de joelhos. Sem poder definir o que se passava, comprimiu o coração numa atitude desesperada. Incoercível sentimento de veneração apossou-se inteiramente dele. Que significava aquilo? De quem o vulto divino que entrevia no painel do firmamento aberto e cuja presença lhe inundava o coração precípite de emoções desconhecidas?
“Enquanto os companheiros cercavam o jovem genuflexo, sem nada ouvirem nem verem, não obstante haverem percebido, a princípio, uma grande luz no alto, Saulo interrogava em voz trêmula e receosa:
“— Quem sois vós, Senhor?
“Aureolado de uma luz balsâmica e num tom de inconcebível doçura, o Senhor respondeu:
“Eu sou Jesus!...” (Op. cit., pp. 197-8.)

R. O episódio da estrada de Damasco é essencial para a compreensão da metamorfose religiosa por que passou Saulo. Ora, o trecho reproduzido, salvo melhor juízo, não desmente as imensas qualidades do autor espiritual. No entanto, a grandiosidade do narrado flui diretamente do tema, do assunto, do conhecimento histórico que se tem da conversão do Apóstolo dos Gentios, erigindo-se a narrativa de maneira muito simples e direta, havendo alguns adjetivos sido aplicados sem nenhuma força expressiva: profundo, inesquecível, incoercível, divino, trêmula, receosa, balsâmica e inconcebível. A que linha literária terrena se prende o fluxo lingüístico que agasalhou tal terminologia? Tal questão remete as reflexões para campos quase insondáveis do etéreo, porque vai obrigar ao desvelamento das intenções do escritor, já que, em não havendo submissão a movimento ou escola, não há fidelidade presumida. Um artista da palavra, nos dias de hoje, em obra de ficção, ainda que recomponha passagens dos Atos dos Apóstolos, elegeria esses mesmos qualificativos ou restritivos? Dificilmente. Ora, se o amigo médium se dispõe a elogiar o livro é porque aceita, acata, reconhece as virtudes idiomáticas em destaque. Mas outras pessoas, com diferentes gostos, podem julgar de muita pretensão imergir nos sentimentos íntimos, nas percepções fugazes ou nas apreciações fugidias de um ser que seria santificado e reverenciado através dos séculos. Outros poderiam reclamar da veracidade das informações, uma vez que, não havendo quem tenha testemunhado os fatos psíquicos para posterior descrição, teriam de se fiar nas declarações do moço tarsense, sendo lídimo levantar a suspeita de que estaria mentindo para sustentar a predisposição em defender a nova doutrina, o que obrigaria Emmanuel a definir os meios pelos quais foi capaz de apreender a realidade subjetiva da personagem. E assim por diante. Poderíamos, até, levantar a hipótese de que o nome Emmanuel estaria escondendo o de Paulo, para conhecer tão bem os episódios todos de vida cheia de peripécias morais, sentimentais e intelectuais. A que nos leva a análise? Simplesmente, a atribuir valores relativos às obras, para que não se enalteçam demasiado as realizações alheias, julgando-as sempre melhores do que as nossas, em adoração que obscurece a capacidade de raciocínio e obstrui a sensibilidade. Se afirmamos que estas ou aquelas produções são meritórias, próprias para nos orientarem os pensamentos, sempre iremos afirmar também que nenhuma é perfeita. Todas, portanto, são dignas da mesma atenção, até que se firmem como paradigmáticas para as reflexões mais importantes quanto ao encaminhamento das ações para a posse dos valores cristãos, com a precípua finalidade de nos propiciarem recursos com que iremos dissipar a névoa da ignorância que nos faz amargar as viagens de idas e vindas improfícuas entre os planos existenciais. Se a virtude não se encontra nos extremos, não vamos apostrofar preconceituosamente, nem enaltecer indiscriminadamente. Para que não se diga que estamos exorbitando as diretrizes que se estabelecem para as composições transmitidas mediunicamente, que considere o leitor o seguinte trecho extraído da obra Rumo às Estrelas, produção de vários espíritos, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco:
“Uma atitude de equilíbrio é sempre a posição ideal.
“Nem o ceticismo prejudicial, por sistema ou por acomodação cultural, como tampouco a crença ingênua por adesão fantasiosa.
“O conhecimento libera o homem da ignorância, estruturando-lhe (sic) emocional e psiquicamente, proporcionando-lhe valores éticos para uma existência digna.
“Por isso, uma crença que não resista ao questionamento da ciência é errônea, mantendo-se por pouco tempo, já que, por falta de fundamentos, se desmorona por si mesma.
“A razão é a condutora do pensamento que se deve apoiar na ciência para conquistar e conduzir a existência humana a seu verdadeiro desiderato, sem comprometer-se com teorias absurdas e concepções fantasiosas, imaginativas. Antonio Ugarte.” (Op. cit., pp. 36-7.)



117. Terão os meus amigos interesse em citar mensagens recebidas por diferentes médiuns, em diferentes ocasiões, sobre diversos temas, alertando a respeito das dificuldades de interpretação ou das propriedades dos textos, para melhor fixarem a atenção do leitor nas composições psicografadas por este médium, como a solicitar que sejam levadas a sério, resguardando, naturalmente, os preceitos da modéstia, da humildade e da boa vontade?

R. Valeria a pena ocupar tanto o tempo de uma pessoa, sem proveito algum? O nosso interesse, fique claro, é o de elucidar todos os pontos que nos parecerem úteis a nós, ao mediador e aos leitores. Sendo assim, é óbvio que temos de enfrentar as comparações, desde sempre, para o que devemos estar preparados, já que as críticas nos alcançarão, inclusive nos aspectos em que nos declaramos claudicantes. Mas tais arremessos não devem ser levados à conta de excessivo rigor. Quem nos vem acompanhando com mínima atenção deve estar ciente de que não postulamos toda a sabedoria, nem deflagramos contra ninguém a virulência de quem se pensa superior. Se deixamos o médium à vontade, foi para que nos atiçasse para temas cujos conteúdos não tínhamos sob inteiro domínio. Entretanto, vimos que o filão era suficientemente extenso para que extraíssemos algum material precioso, indicando alguns terrenos a serem sondados, de acordo com o roteiro que discutimos com o orientador, Professor Jeremias. A organização do livro, pois, está sujeita a revisões e a acréscimos, para o que convidamos o amigo a formular as perguntas que deseje transcrever de outros autores, tomando o cuidado de informar, como sempre, a origem delas. Se quiser, pode fazê-lo no formato pinga-fogo ou através da elaboração de questionários prévios. Eis que abrimos o espaço para a última parte.

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