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Ensaios-->MANUEL VAZ DE CARVALHO, POETA TRANSMONTANO -- 05/09/2018 - 00:15 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


MANUEL VAZ DE CARVALHO(1921 - 2011) - UM POETA TRANSMONTANO PARA SER LIDO E CONHECIDO

João Ferreira


Introdução
Numa estadia em Agunchos, minha terra natal, em 2011, a artista plástica Leonor Vaz de Carvalho, de Alvite, me galardoou com uma prenda especial que nunca vou esquecer. Foi à Casa do Cabo, solar famoso que sua tia Maria de Lourdes herdara das tias fidalgas da aldeia D. Ermelinda e D. Engrácia, onde eu estava hospedado, para me oferecer a segunda edição de "Poemas do Solstício", escritos por seu pai, o advogado e poeta Manuel Vaz de Carvalho que fazia naquele ano de 2011 noventa anos. Eu estava hospedado na Casa do Cerrado, um anexo do complexo habitacional da casa do Cabo, especificamente preparada para receber turistas interessados em passar férias no meio rural, propriedade de D. Maria de Lourdes. Ao ler os primeiros poemas da edição especial que me era oferecida tive a imediata sensação de que estava diante de uma obra de qualidade poética fora do comum. A edição, acompanhada por ilustrações da autoria da própria Leonor Vaz de Carvalho, filha do Poeta, tinha sido preparada com muito esmero e capricho. Ao promoverem esta edição, os filhos quiseram comemorar os 90 anos de idade do pai e os quase oitenta em que ele escrevia poesia. A dedicatória que os filhos incluíram na parte inicial do livro é, em sua essência, um agradecimento pela lição de vida dada pelo pai: "Ao nosso Pai, de quem houvemos o dom de entender a Essência da Vida e de nela revermos, como ele, a nossa alma./Os filhos." Por outro lado, os quadros de Leonor, com a função de ilustrarem o mundo poético de Manuel Vaz de Carvalho, são figurações pictóricas referentes aos poemas relativos ao homem e à terra, à apologia da vida, à memória do pai e da mãe, às origens, paisagens da montanha, campos, jardins e casa doméstica, emoldurada por trepadeiras floridas. Há ainda tons e conjuntos habitacionais rurais e campestres, acrescidos de um típico retrato pintado em que o personagem é uma figura popular nos "chavascais cercãos de Vila Boa", na região de Mirandela. Para rematar, finalmente, um quadro memorável que o pai Doutor Vaz de Carvalho apreciava sobremaneira e a que aludia como "visão de écloga". Este quadro que encerra a ilustração que Leonor faz dos poemas de seu pai, é a expressão objetiva da paz mansa dos campos rememorados de infância à mistura com a figuração conjunta de mata e de montanha, num colorido e detalhe que mostra realisticamente a beleza rural da terra de nascimento do inspirado poeta, extremoso pai, famoso advogado, caçador, tocador de guitarra e declamador.

I
Quem é Manuel Vaz de Carvalho

Conheci, fui amigo e admirador do Doutor Manuel Vaz de Carvalho, que conheci em Agunchos, minha terra natal. Causídico famoso e grandiloquente, admirado em Vila Real e no Norte de Portugal, era um homem franco, educado, bem disposto. Ao mesmo tempo, um homem de "infindável cultura, fecunda imaginação, refinada educação e fino trato, docente e decente, humor numa verdadeira orgia de poesia, muitas vezes em apaixonada e convicta declamação", como o define seu amigo Angelo Sequeira autor do texto de abertura deste volume. "Exímio na arte de tocar guitarra", "homem lúcido", por vezes de "crítica mordaz contra o "desnorte generalizado atual contra a Eurobalbúrdia", apaixonado pela sua terra e "pelas paisagens natais".Sempre o encontrava na Casa do Cabo nas minhas idas a Agunchos, em tempos idos. A esposa dele, D. Teresa Torres Pereira Vaz de Carvalho, era sobrinha de minhas madrinhas D. Ermelinda e D. Engrácia Pereira, da Casa do Cabo e foi minha colega na escola primária de Agunchos dirigida pela Professora D. Ermelinda da Glória Correia.

II

Seu lugar na História da Literatura transmontana

Temos três obras fundamentais que definem o nível da poesia de Manuel Vaz de Carvalho. São elas: Poemas do Solstício. Vila Real: Câmara Municipal, 2000; com segunda edição em Lisboa: Edições Colibri em 2011; Visão Alvânica. Poemas. Lisboa: Edições Colibri, 2006; Poemas do Afélio. Lisboa: Edições Colibri, 2010. Estas três obras definem substancialmente a qualidade e os gêneros da poesia de Vaz de Carvalho e, ao mesmo tempo, a visão e o conceito fino que tem da poesia. Na esperança de que sua obra seja mais lida e conhecida, acreditamos que no decorrer da exposição sobre esta interessante figura literária, possam ser melhor apreendidos e conhecidos aspectos importantes de sua poesia. Uma leitura atenta dos esclarecimentos e pensamentos oferecidos pelas notas e biografias que antecedem alguns dos poemas, revela ao leitor o espírito observador, sensível e culto que caracterizava o poeta. No momento, nossa atenção é dirigida preferencialmente para "Poemas do Solstício", onde há a registrar a voz do amigo Ângelo Sequeira que abre o livro, a qualidade dos poemas que formam a essência da obra, devendo associar-se a este esforço crítico de valorização da figura literária de Vaz de Carvalho a contribuição oferecida pela monografia sobre a paisagem transmontana na poesia de Vaz de Carvalho levada a cabo por Ana Salvador.

III
Destaques literários em "Poemas do Solstício"

Natureza da poesia

Em primeiro lugar convém ler e analisar com interesse e atenção o portal de teoria que o autor nos oferece logo de entrada: “A poesia existe imanente à vida e às coisas. O poeta tem apenas o poder, humano ou divino, de surpreendê-la, captando-a e transformando-a em mensagem. Ele tem, pois, para o ser, de aliar a expressão verbal à música íntima de si próprio”.Acreditamos que um professor universitário de teoria literária não sintetizaria melhor o que podemos entender por teoria e prática poética. A teoria acima condensada, elaborada pelo Poeta Manuel Vaz de Carvalho, mostra que o poeta além de saber construir versos inspirados e sensíveis consegue visionar teoricamente a essência poética e a prática do fazer-poético.Sua teoria é por isso o melhor espelho para os leitores avaliarem a poesia de Manuel Vaz de Carvalho. Ela os habilita a uma melhor leitura analítica e compreensiva dos poemas. E, não só isso. Habilita-os, também, a uma leitura de emoção para que possam mergulhar nos abismos poéticos de Vaz de Carvalho. Se acompanharem o livro, página por página, poderão verificar que os poemas se distribuem por grupos ou blocos temáticos, quase módulos.
O Homem e a Terra
O primeiro bloco contém poemas sobre o homem e a terra. É composto pelos sonetos Império da Pedra, - um soneto cheio de magia telúrica com seu epicentro na paisagem serrana de Lamas d’Olo -, Alvão, Fragão, Fronteiras, Cântico pagão, A velha cerejeira, Exoração, O cosmonauta, e também pelos poemas Terra feita e Terra minha. Interessantíssimas aqui e ali, nos vários blocos, as biografias, as notas e as informações sobre terras, lugares, meio ambiente, casa de Pombeiro, em Cerva, onde nasceu, notas que são crônicas por vezes ou prosas de alta performance como a que precede Cardenhos ou Canção da choça, crônicas ou biografias poéticas de cães e burros, família, episódios de família que o autor nos oferece e que terminam por contar a gênese do poema, como acontece com Fragão: "Um dia, a minha filha Leonor, disse-me esta injúria: "O pai é como um fragão da serra do Alvão. Ninguém o arranca daqui...Corei e confessei:" diz o poeta, que logo em seguida apresenta o poema. [segue-se o poema]. O mesmo se passa com Cântico pagão que é antecedido pela seguinte história: "Cerva, no meu agro de Quintela. Semeada de batatas. Sol a prumo. O senhor Albino, intendente da feitoria, abria o rego e eu tapava. A filha, de azul, "punha" as batatas a compasso. Espessa manta de esterco de curtimenta, a tresandar "às origens". Meio dia. "Ela" chamou da sacada: "Manuel e Senhor Albino, venham, o almoço está na mesa". Arreamos. O Sr. Albino (já dito intendente) ergueu os lombares derreados das setenta translações e, lançando um olhar de bênção às leivas, disse: "Ó senhor Doutor, isto é que vai dar batatas!". Era a profissão de fé fisiocrática. Ainda antes do caldo lavrei em acta:
"Se acreditas na terra que semeias/ E no sol que a fecunda e te alumia/ Se acreditas na vida em que te anseias/ Que morre e que renasce dia-a-dia/ Se bendizes a água e as estrelas/ E o amor que te abrasa e perpetua/ Se te sufoca a angústia de entendê-las/ Da humana condição, que é minha e tua/ Se a tua voz se humilha e emudece/perante o sol esplendente que amanhece/Teus olhos deslumbrados de pagão,/ A paz seja conosco! Solidários/ Cumpriremos iguais nossos fadários/ Eu quero te abraçar - és meu irmão"! (pág. 29).
Mas há outros poemas contando a história da gênese do poema, geralmente colocada estrategicamente para que o leitor a possa ler antes do poema propriamente dito. É o caso de Terra Feita(24), Terra minha(26), Exoração(31), Alvorada de amor(40), 17 de março(52), Cardenhos(59), Canção da choça(62) e outros.

Apologia da Vida

No segundo bloco há os poemas que dizem respeito à Apologia da vida: poemas “oração da manhã”(35) e “alvorada de amor”(40), sonetos Evasão(37), Prenúncio (38), Novo Dia (39), Carta ao meu filho(43), Apelo à vida(44), Hoje(45).

Bloco "A Meu pai e minha mãe"

O terceiro bloco contém os poemas subordinados ao título “A meu pai e minha mãe”. Idolatria é um poema de memória carinhosa, em 7 quadras. Abre a série apontando para "a dúlcida lembrança do místico olhar da mãe" e o soneto Regresso celebra a Casa de Pombeiro onde o poeta nasceu e nela há o domínio da figura materna que enche de lembranças todos os espaços vazios: "Dera tornar a ver-te e que um dia voltasse/ ao perdão do teu colo e que escutasses/ as mágoas que só tu escutar me saberias!" (51). Os poemas 17 de março, Campa rasa, Sonambulismo, Escambo de lágrimas e Casa antiga completam o bloco.

Origens

O quarto bloco é introduzido por um quadro colorido da ilustradora Leonor e adota o nome de Origens. Inclui diálogos com gente do povo e poemas. Cardenhos é um rico testemunho disso. Vale como arquivo de linguagem interiorana, regional e serrana, de hábitos sadios e linguagem pura. O poeta alcança a lonjura e a distância, sem abdicar da representação concreta das "velhas casas da serra abandonadas/ descolmadas sem portas sem janelas/ como caveiras ocas descarnadas/ tugúrios de almas penadas/ onde pernoitam estrelas.../ Quero-vos habitar...mansões antigas/ de desertores de escravos e heróis/ inçadas de codessos e ortigas/onde o tempo parou sem antes nem depois.../ Vós fostes os abrigos milenários / de antigas gerações que padeceram/ os grandes cataclismos planetários/ onde a Vida e a Morte aconteceram[...] (60). Canção da choça é um hino a Cerva, terra natal do Poeta, e a comemoração literária de uma infância feliz (62-63) na casa de Pombeiro, onde nasceu. Transfiguração (65) e Poema da saudade(66) completam o bloco.

Cães e burros

Advogado e caçador, Manuel Vaz de Carvalho mostra no bloco "Cães e burros", uma sensibilidade profunda sabendo associar co preensão profunda da natureza e arte poética. São nove sonetos. Em todos o sujeito poético é o cão. O primeiro, "Cão - O paleolítico" (69), canta assim: "Não desprezes o cão - teu leal amigo"/chama-o de irmão e afaga-lhe o focinho/ não lhe dês cárcere, leva-o é contigo/ alegre a dar ao rabo, a abrir caminho! /Ele vive a adivinhar teus desejos/ ele merece do teu pão e o teu teto/ faz tu por entender o seu dialeto/ só de grunhidos broncos e boquejos!/Ele defende o teu eido e o teu cardenho/ como se fossem dele, a duro cenho/ só em troca de restos e abrigada./ Não o deixes noitar ao léu na lama/ Dá-lhe ninho aos pés da tua cama/ e que ele te acorde a mimos de patada!"

Caça

Na sequência aparece, também em bloco, a temática Caça(81-86), com o subtítulo de Era paleolítica: "Uma caçada em Vila Boa"(81) abre a série. Depois vem "Galáxia"(82) soneto-ata de um acontecimento ocorrido em Fragas de Anta: "vento furioso, acompanhado de granizo pesado e faíscas. O poeta teve de abrigar-se, agachado, "a contra-vento duma anta" e deixou do episódio este canto (82): "Vão em louca farândola exangues folhas mortas/ da última Primavera que passou,/e anda o vento a uivar faminto pelas portas/ apátrida e sem Deus, que sua dor voltou./[...] 82. Depois vem "A da Galinhola"(83). Em "Velhos trastes(86) pede humildemente: "Não me tires as coisas já velhinhas/ que são símbolos mudos do meu ser/ estão gastas acabadas... mas são minhas!/ Quero-as no meu espaço até morrer"[...] 86

Terra Santa

O bloco "Terra Santa", pelo carinho que demonstra pela natureza lembra o culto que Junqueiro nutria pela vida simples dos trabalhadores antigos das aldeias portuguesas em "Os simples". Vaz de Carvalho abre com "terra minha", também publicado em "Visão Alvânica(87-96): "Terra minha que vives no meu canto/ abrigada a antiquíssimas montanhas/ onde repousa o génio humano e santo/ dos ancestrais caídos nas entranhas.../ é composto por quatro poemas.

Lembranças

Antes do epílogo Manuel Vaz de Carvalho forma mais um bloco, o último de seu livro, que intitulou de Lembranças (97) e finalmente Epílogo (111).
IV

Arte Poética. Sensibilidade poética e artística

Poeticamente, os livros de Manuel Vaz de Carvalho são tão ricos que mereceriam uma maior expansão, leitura e estudo.Como avaliação geral não posso deixar de dizer que vejo neles uma especial sensibilidade poética e artística o que lhes confere um tom de alta qualidade. O que mais destacaria nesta poesia é a arte de composição do soneto. O soneto de Vaz de Carvalho está na linha clássica do soneto petrarquiano em decassílabos. Estando na linha de Petrarca, está também na linha de Camões e dos melhores sonetistas portugueses, que vem desde Frei Agostinho da Cruz, Bocage, Antero de Quental, Florbela Espanca e outros. Esta constatação depõe em favor da qualidade poética de nosso vate transmontano.

V
O soneto como matriz poética

O soneto constitui por isso a matriz poética por excelência de Vaz de Carvalho, embora o soneto não esgote sua capacidade poética já que todos os poemas, sonetos ou não, são de alta qualidade, alguns deles memoráveis, de um lirismo profundo. Há poemas como Terra minha, O caminheiro e Reminiscências que têm um tom junqueiriano de lirismo e reminiscência.
Seria para desejar por isso, diante da qualidade, que os críticos de textos literários portugueses, os professores de literatura portuguesa, os autores de antologias literárias nacionais e transmontanas, assim como os jornalistas literários de veículos impressos e veículos da web, prestassem atenção especial a este poeta.

VI
Riqueza vocabular e variedade lexical

Um outro aspecto a ressaltar seria ainda a riqueza, a variedade e a criatividade lexical de inconfundível tom pessoal que marcam seus poemas. Alguns são registros regionais transmontanos. Mas ao lado de termos regionais que mostram a riqueza de linguagem do poeta, temos a diáfana expressão clássica portuguesa, que acompanha seu talento expressivo e criativo. Fizemos uma pequena incursão por outras obras, fomos de Poemas do solstício até Visão alvânica para confirmar este aspecto e ficamos admirados da beleza lexical que encontramos.Na lista dos termos que registramos como palavras de sua criação ou escolha pessoal notamos em “Cantata dos cucos” um belo poema em heptassílbos produzido em homenagem à Ana Mafalda, sua neta: casa sobradada, cantorio, cantaréu, olhos noiteiros. Um levantamento detalhado dos termos lexicais utilizados por Vaz de Carvalho dariam uma ideia mais exata deste aspecto que aqui ressaltamos e que representam um registro regional de grande utilidade para os pesquisadores de glossários e léxicos ou, em muitos casos, uma capacidade criação e originalidade lexical.Damos alguns exemplos misturando nesta riqueza lexical seus textos poéticos e suas notas em prosa, extraídos da obra "Poemas do solstício", paz idílica das leivas 22 volúpias seminais 23 agros fecundados 23 fragão 23 muragalho da vinha 24 rabiça 24 à arreata 24 agitação orgásmica 24 pólenes sensuais 24 tenrais outoniços 24 seivas capitosas 25 dionisíaca glória 25 cincinelas 27 escambo 55, esfolhadas 55 lavradas 55 fato 51 dúlcida lembrança 50 vivência insubstancial 50 catre 49 pego 61 saiméis 61codesso 60 transumância 59 cardenhos 59 pragana 59 pardieiro 59, choça62 fundeiro 62 quinchoso 62 alpendre 62 burel 62 suão(vento) 62 cercão 62 bornal 62 isíaca 111 algar 62 fragada 62 escano 94 tremonha 94 segada 94 esfolhadas 94 quentor 62 64 valhacoiro 63 janelo 63 montado 63 alapado 63 colmilho 63 mezio 64 pousio 64 chibo 64 pampa 64 hidrângea 65 ulmo 65 desdobar 65 niveal 66, chão saibrento 81 povoléu 81 encosta das estevas 81 escorria do cachaço ás grevas 81 chavascais cercãos 81 peso do armental 81 caçoada 81 aganado 90.

VII

Lirismo profundo

Para terminarmos nosso comentário a este livro importaria ainda ressaltar o lirismo profundo e inigualável que existe em poemas como alvorada de amor, por exemplo(40).
VIII
Notável tom telúrico
Outra marca muito forte é o tom telúrico e alvânico da poesia de Vaz de Carvalho. A geografia montanhosa e serrana de Cerva e do Alvão, é terra sua. Faz parte congênita do seu poetar. Com muita habilidade e arte, Vaz de Carvalho soube explorar como ninguém esta alma alvânica que lhe está no sangue e que explode em sua obra. A ajuntar a isto, sua condição de caçador apaixonado leva-o a frequentes incursões pelos montes, vales e serras. Estes percursos proporcionam-lhe surpresas e ensinamentos que sabe reverter em poesia e narrativa poética. Poderíamos dizer que, de maneira paralela ao vidente do Marão Teixeira de Pascoaes, que canta o Marão, Vaz de Carvalho canta o Alvão, serra irmã, igualmente transmontana. Cantando o Alvão, canta sua terra amada, Cerva, em “Terra minha”:"Deixai-me ser menino/ em minha terra moça/ onde o sol tem mais brilho/ e o luar é mais doce."[...] Deixai-me ser menino/ na terra onde nasci"[....] 26. O bloco " Timpeira, Alto das Cruzes" parte importante do livro Visão alvânica, traduz toda a outra parte da inspirada alma de Vaz de Carvalho que não podemos omitir aqui.O soneto "Viver" dá o tom da simbolização profunda do que significou em sua vida a Timpeira, onde viveu tantos anos em família e criou seus filhos. "Como é belo viver! Viver a vida/ao clarear das madrugadas suaves/ ao transpirar da terra amanhecida/ e adormecer ao gárrulo das aves!/ Ver ondear s searas florescentes/ ver ondear os fulvos milheirais/gorgolejar ribeiras e nascentes/ao silêncio sonâmbulo dos pinhais!/ Esquecer o tempo! E numa entrega de alma/ aos remansos edénicos, à calma/ na placidez do apagar do dia.../A vida é uma dádiva divina/ chama da eternidade que ilumina/ a verdade de Deus e da alegria!" (Visão Alvânica, 39).

VII

Ternura e profundidade franciscana

Entre tantos aspectos a destacar na poesia de Vaz de Carvalho torna-se notório, entre os profundos tons que a caracterizam, a confraternização franciscana com a nagureza e com os animais. Poemas como O cão e Oração da manhã têm esta profundidade e irmanação. "Última mensagem do cão", em Poemas do solstício é comovente: "Perdoa ter morrido assim tõ cedo/ eu bem vi teus olhos marejados/ a fitarem os meus embaciados/ no infinito sem luz, já frio e quedo...[...] 77. A ternura exalada do soneto " cão o paleolítico" pode ser avaliado como um paralelo interessante com a narrativa exibida no livrinho Fiorettti sobre o lobo de Gubbio amansado por S. Francisco de Assis. A natural fraternidade de S. Francisco para com a fera consegue vencer a ferocidade do lobo de Gubbio. O soneto de Vaz de Carvalho prtica esta fraternidade: "Não desprezes o cão - teu lealamigo!/ Chama-o de irmão e afaga-lhe o focinho/não lhe dês cárcere, lrv-o é contigo/alegre, a dar ao rabo, s sbrir caminho" (69).Oração da manhã, em "Apologia da vida", coincide com a sensibilidade de Francisco de Assis em “Cântico do irmão sol”. Em Cântico Alvânico Vaz de Carvalho escrevera o soneto “Árvores-minhas irmãs” irmanando-se com a natureza. Nesse e em outros sonetos o Poeta aproxima-se de São Francisco como amante incondicional da Natureza. Com intensidade, mostra-se ainda em “Alvorada de amor”, “Carta ao meu filho” e “Apelo à vida”, um poeta sensitivo que adivinha o pulsar da vida e a grandeza do Universo nas vozes que capta. Estes e outros aspectos latentes nas letras poéticas de Vaz de Carvalho são convidativos para que todo aquele que gosta de poesia e de literatura e, de maneira especial, os professores e críticos literários, leiam e divulguem este poeta transmontano que é um artista da palavra de muita qualidade.

VIII

Florilégio

"Não adies a vida, vive a vida!/No dia de hoje em pleno acontecer!/Cada hora que passa não vivida/ É derrota sem luta - é não viver" (cf. Hoje, PDS 45)

Quero que seja um dia imenso/Aquele do nosso amor! (Cf. Alvorada de amor, PDS 40)
"Acorda meu amor, já nasce o novo dia/Que o sol nos prometeu ouvindo a nossa voz!/ Vem comigo beber as seivas da alegria/ Pelos campos em flor, cingindo as mãos a sós" (Novo dia, PDS 39)
"Sinto-me apaixonado pela vida/pelo sol, pela cor, pelo luar/E sinto em mim a infância redimida/Na harmonia irreal do teu fundente olhar! (cf. Prenúncio, PDS, 38).
"Adeus, adeus, vou-me a viver a vida/ por longes terras onde houver cantares/ acordar mitos de uma fé perdida/ amores proscritos que não soube amar..." (cf. Evasão, PDS, 37)

João Ferreira/Jan Muá
04 de setembro de 2018
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