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Crônicas-->A BÍBLIA SAGRADA E OUTRAS CRÔNICAS -- 03/03/2005 - 04:23 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER













A BÍBLIA SAGRADA




E

OUTRAS CRÔNICAS










Grupo das Pequenas Agruras

Professor Aristides





















ÍNDICE


Apontamentos iniciais ..................................
1. A Bíblia sagrada .......................................
2. A leitura do Alcorão ...................................
3. O livro da natureza ....................................
4. O respeito à vida ......................................
5. As forças naturais e sociais ...........................
6. A ânsia do revide ......................................
7. O sentimento de impotência .............................
8. Dor e prazer ...........................................
9. Santidade ameaçada .....................................
10. A consagração ao trabalho ..............................
11. Perante a eternidade ...................................
12. O poder dos argumentos .................................
13. Removendo o medo .......................................
14. Os últimos dias ........................................
15. A consciência de si mesmo ..............................
16. Estabilidade e equilíbrio ..............................
17. Os exemplos ............................................
18. Romeu ..................................................
19. Lesmar .................................................
20. Manuel .................................................
21. Ana Maria ..............................................
22. Vera ...................................................
23. Gervásio ...............................................
24. Jorge ..................................................
25. Antônio ................................................
26. Adelaide ...............................................
27. Samira .................................................
28. Durval .................................................
29. Euricléia ..............................................
30. Anabela ................................................
31. Lara ...................................................
32. Epitácio ...............................................
33. Felisberto .............................................
Encerramento ...........................................



APONTAMENTOS INICIAIS

Fugiremos do lugar comum das apresentações didáticas? Certamente não. Teremos que demonstrar quem somos e para o que viemos.
Somos alunos da Turma das Pequenas Agruras, sob o comando do Professor Aristides, velho conhecido dos leitores destas páginas.
Viemos para registrar capítulos expressivos de nossas existências, mencionando episódios terrenos e relatando fatos ocorridos no plano da espiritualidade.
Deus nos proteja!
11.09.01.



1. A BÍBLIA SAGRADA

Verberava eu pelas esquinas pela palavra do Senhor.
Se me pedissem agora para reproduzir uma única palestra pública, seria incapaz. No entanto, não preciso abrir o livro dos livros para citar cada trecho, agora mais do que nunca, já que sei de cor o teor exato dos textos primitivos.
Eis a dificuldade: a tradução não corresponderia às cópias que os crentes e católicos seguem. Desta forma, qualquer referência que venha a fazer, vai causar transtornos para o entendimento das passagens, caso se confrontem com as formulações em poder dos humanos.
Mas o que existe para mim é tão diferente do que consignam as edições?
Primeiro, tenho de considerar as dificuldades existentes entre as traduções dos encarnados. Se nem eles são concordes e disputam entre si, cada qual afirmando que a sua cópia é a original, que dizer de alguém que comparece mediunicamente para asseverar que ambos estão errados?
Façamos abstração do fato apenas para solicitar que se admita a hipótese de que fórmulas que se contradizem não podem ambas corresponder à verdade. Neste caso, precisamos demonstrar boa vontade e aceitar um ou outro erro em nossa edição, caso contrário, jamais teremos como evidenciar os pontos em que estamos com a razão.
Volto à questão essencial: há diferenças fundamentais entre a minha versão e as demais?
Evidentemente existem, mas se trata de pontos isolados, uma vez que o grosso dos textos condiz perfeitamente.
Por que, então, tanto cuidado em referir-me às contradições?
Pela simples razão de que não são casuais; constituem transformações ponderáveis na formulação dos pensamentos, sempre no sentido de se adaptarem as passagens para se encaixarem nos postulados religiosos das facções, seitas, credos e demais cismas entre os cultos cristãos.
Como Kardec entra na discussão?
Pela porta da frente, analisando os textos do ponto de vista científico, pondo de lado muitos que contrariam as leis naturais, já que não há como fazer o Sol parar de progredir, pelo menos sob o argumento de que a Terra é que gira.
Entramos por outra senda: as falhas e desconhecimentos de fatos descobertos mais recentemente, haja vista a criação do primeiro homem situar-se ali tão recentemente, quando o estudo dos fósseis demonstra que devemos retroceder no tempo, pelo menos, um milhão de anos.
Suspendo os comentários neste ponto. Quem perfilhar idéias de absoluta submissão à letra, já nem deve estar seguindo este parágrafo. Quem busca o espírito, deve considerar estas observações mais do que simples: simplórias.
Fiquem com Deus!



2. A LEITURA DO ALCORÃO

Perto de um bilhão e meio de seres humanos seguem o Islamismo, cuja origem partiu dos textos de Maomé compilados sob o título de Alcorão.
Para seus fiéis, o respeito ao teor religioso dos escritos gera inúmeras tendências de interpretação, da mesma forma, talvez um pouco menos, do que os que têm o mesmo respeito pelos textos bíblicos do Judaísmo e do Cristianismo.
Como para tudo no mundo, também para essa doutrina os homens adaptaram vários modos de encarar os ensinamentos ali contidos, uma vez que, além de se constituir em códice religioso, também regula os eventos civis e sociais.
A tendência a uniformizar os procedimentos pela leitura das revelações de Alá ao profeta Maomé produz sistemas políticos rígidos, já que o mínimo desvio da letra obriga os governantes a interferir na vida particular dos crentes, segundo padrões educacionais estabelecidos conforme a maior ou menor necessidade de se preservarem os costumes, dado que não se admitem dissidências, que representariam rebeldia e cismas.
Como em todos os tempos e lugares, também os maometanos apresentam facções intolerantes ao extremo, decidindo sobre a vida e a morte das criaturas. Estes assumem o papel de vigilantes da vontade de Deus, arrogando-se direitos de inflexibilidade perante a lei expressa no Alcorão.
Nós nos situamos além desse poder de vida e de morte, podendo observar a vida terrena segundo ponto de vista isento de preconceitos religiosos. Nem poderia ser diferente, à vista de estarmos em constante evolução espiritual.
Dificilmente algum muçulmano irá sequer pôr-se diante desta manifestação, já que suas concepções de vida após a morte não admitem a existência de espíritos que possam, por livre-arbítrio, escolher seu caminho de ascensão ao Reino de Deus.
Mas o que nos trouxe para o tema é algo mais do que simples cotejo de teses religiosas. Viemos para esclarecer que, tal como em relação aos devotos de todas as outras crenças, também os fiéis a Maomé encontram felicidade no além-túmulo, conforme as obras morais que hajam edificado.
A maior dificuldade para eles reside no fato de não serem flexíveis, o que vai causar-lhes profundos desgostos, por não se verem, de repente, nos jardins encantados dos campos do Senhor. Isto quando se reconhecem falecidos, porque a maioria é arrebatada pelas comunidades islâmicas do etéreo, onde desenvolvem existências em tudo e por tudo semelhantes às que levavam quando vivos.
Em Roma, como os romanos, conforme o velho anexim. Precisamos dar a compreender aos leitores espíritas que a salvação, como repetia Kardec, está na prática sincera da caridade. Se o conceito de doação se vincula ao sentimento do amor, eliminado o egoísmo, também se pode conceber que leitura menos pungente do Alcorão leve os seguidores de Maomé a humanizar, sem sectarismo, sua capacidade de admitir que os fiéis de outras religiões também possam merecer o título de filhos de Alá.
Será pedir demais? Talvez, nesta fase da humanidade. Mas como estarão as populações do planeta daqui a trinta milhões de anos? Vamos trabalhar para que haja paz e cada vez mais harmonia entre os homens, que desapareçam os ideais de supremacia, orando para que Deus nos inspire soluções, para que todos possam usufruir as mesmas regalias, cada qual satisfazendo as próprias necessidades, sem prejuízos para ninguém.



3. O LIVRO DA NATUREZA

Muitos, para quem os textos tidos como sagrados não têm valor moral, religioso e mesmo filosófico, preferem simplesmente interagir com a natureza. Como, porém, a inteligência humana ultrapassou as lindes dos conhecimentos atávicos ou circunstanciais, uma vez que as pessoas são capazes de elaborar raciocínios em que das causas extraem efeitos, e vice-versa, os descrentes vasculham os meandros da formação do universo, em busca das razões de existirem como seres conscientes de si mesmos e dos outros.
Tal leitura, como as anteriores, leva a conclusões as mais diversas, podendo os indivíduos simplesmente conceber a natureza como produto de si mesma, gerando o todo como fluxo de conseqüências, ou seja, elaborando suas leis através dos fenômenos; ou ainda entender que existe uma inteligência contingente, que denominam de consciente universal.
O cabedal de conhecimentos extraídos do cosmo através do aparato sensório é primacial para a sobrevivência dos seres vivos, entretanto, a humanidade faz disso um meio de se impor à natureza, às vezes, com objetivos de usufruí-la além dos limites de sua necessidade, o que gera as devastações incontroláveis dos desertos, outras vezes, com o intuito de preservá-la, através do domínio das forças que lhe deram origem, conforme as leis ambientais.
Da mesma forma que os seguidores da Bíblia e do Alcorão, também os ateus atuam dentro de amplo espectro filosófico. Eis do que se nutre a política, a arte de bem governar os povos ou de dominá-los ideologicamente: a organização de um sistema de regras com o fito de submeter o grosso da população à minoria com poder.
Ora, existe um conjunto de nações, portanto, de governos e de políticos. A maioria dos estados admite, presentemente, ascensão dentro da escala social, podendo pessoas incultas, por exemplo, ser guindadas à condição de poder político mediante delegação através do voto. Outras, que apesar de em menor número não são poucas, mantêm no poder a mesma estirpe que consuetudinariamente lá se situa, pelas mais variadas razões, como eugenia, religião, forças armadas etc.
O nosso objetivo é vir demonstrar que a humanidade deve estar aberta para mais de uma forma de constituição dos povos, para entender que as criaturas pertencentes a eles se submetem, bem ou mal, às estruturas políticas consignadas nos textos jurídicos.
Existirá uma única pátria em que as leis naturais se confundam com tais textos? Ou seja, aqueles indivíduos que não seguem os ditames da Bíblia ou do Alcorão ou de algum outro códice religioso primitivo constituem alguma nação inteiramente fundamentada em sua compreensão do universo?
Talvez alguém conheça alguma tribo ainda não alcançada pelas civilizações ocidental ou oriental que não pratique nenhum rito mágico de iniciação social. Nós não conhecemos, ou melhor, nós não reconhecemos nenhuma população humana no orbe terrestre que aja em conformidade ideal com os ditames da natureza, como agem os conglomerados dos irracionais.
Esta longa apreciação vem desaguar em nosso propósito de asseverar que, no campo etéreo mais próximo do círculo dos seres vivos ou residentes no mundo material, as populações mais adiantadas, ou seja, aquelas que evoluíram para o conhecimento espiritual da existência, buscam aperfeiçoar sistemas de entrosamento cármico unicamente fundamentados nas leis naturais que regem o crescimento dos seres no sentido da captação e da aplicação da sabedoria, em prol do desenvolvimento coletivo.
Afirmamos no texto anterior que existem conglomerados de espíritos (vamos chamar aos conglomerados de colônias, à falta de termo correspondente à idéia que corre entre nós) que ainda pensam estar em comunidades terrestres regidas pelos mesmos princípios a que se habituaram quando encarnados. Significa que existam colônias de ateus, sem governo reconhecido, onde impera o caos político?
Antes de afirmar que existem, precisamos fixar o princípio da reunião dos espíritos, e isto está claríssimo no pensamento kardequiano, ou seja, os espíritos se reúnem segundo sua categoria e semelhança. Logo, caracterizados os indivíduos, podemos aventar a hipótese da existência de colônias por eles formadas.
Não estamos afirmando que a realidade abrigue todos os frutos da imaginação dos leitores; estamos afiançando que existe a possibilidade de se formarem colônias de espíritos com características comuns, sem, contudo, identificarem-se plenamente, ou incidiríamos na falha conceptual de que a escala espírita agasalha, em cada patamar, espíritos idênticos. Não, cada etapa evolutiva recebe espíritos que ingressam com características do grupo, como ainda liberam os que se encontram no auge daquelas qualidades, os quais irão formar na etapa seguinte, lá adentrando como os mais atrasados.
Se quiserem inferir que, a grosso modo, prevalecem as leis naturais na formação dos círculos superiores, poderão fazê-lo. No entanto, preparem-se para surpresas ideológicas, já que um dos tópicos de maior importância dessas esferas é o respeito à natureza como obra do Criador.



4. O RESPEITO À VIDA

Partindo-se do princípio de que existe vida após a morte, parece elementar que a luta da humanidade por elevados padrões sociais se justifica, dado que os que passarem para o além-túmulo não sofrerão qualquer prejuízo.
Este raciocínio arrevesado desdiz os mandamentos religiosos da maioria dos credos, onde se registra a obrigação de não matar, isto porque o aumento de riqueza e de conforto de uns se dá sobre o sacrifício de outros. Quem não produz mas possui não passa de parasita dos que trabalham. Segundo o volume das posses de uns poucos, a resultante para os pobres é tornarem-se cada vez mais miseráveis, o que inclui a fome, a peste, a guerra e a morte, conforme os quatro cavaleiros do Apocalipse.
Muitas filosofias pregam o equilíbrio para o bem-estar de todos, mas existem ódios milenares que determinam a exterminação dos inimigos. Também aqui a crença na constituição de colônias específicas no etéreo pode abrigar a idéia de que a linha das reencarnações mantenha tais sentimentos destrutivos.
Nossas explicações devem ser entendidas na justa medida da realidade palpável, jamais como justificação para os atos de perversidade que vem assolando as sociedades humanas através das épocas.
Se afirmamos a necessidade do progresso para a ascensão ao regaço de Deus, temos de conceber os seres evoluídos com qualidades morais superiores, dentre as quais avultam os sentimentos do amor, da justiça e da solidariedade. Ora, como admitir que sejam evoluídos os que ferem, escravizam e matam os semelhantes?
Caso nos resignássemos perante todos os crimes que se perpetram em nome do direito de vingança, estaríamos cumprindo a lei do amor, sem dúvida, mas cumpriríamos a da justiça? A da solidariedade ficaria equivocada, já que nos tornaríamos cúmplices dos assassinos. Resta saber, portanto, se a lei do perdão é irrestrita.
Aqui irá avultar a necessidade que todos temos de defender-nos, caso contrário incidiríamos em profundo desrespeito à vida. Desta forma, as pessoas são passíveis de colocar-se diante de problemas difíceis, provocados por tendências psíquicas naturais, em confronto com deliberações de caráter moral.
Os sistemas de leis e de aplicação delas diferenciam-se muitíssimo de acordo com as diversas nações. O que para uns é lícito, para outros causa ojeriza, como no caso da pena de morte.
Vejam que estamos tratando do respeito à vida e consignamos a existência de códigos jurídicos que determinam a morte, e isto em países que se consideram sob a égide dos ensinamentos de Jesus, de Maomé, de Buda, de Confúcio et alii.
Nos círculos superiores dos espíritos adiantados, repercutirão os crimes cometidos no âmbito do orbe terrestre?
O simples enunciado da questão oferece a resposta correta: como são espíritos adiantados, têm consciência de que os sentimentos que geram o desrespeito à existência carnal estão sendo depurados aos poucos, de sorte que qualquer resquício de mal-estar constituiria reflexo de inferioridade. A contradição é fácil de perceber.
A quem caberá superar o estágio de selvajaria dos que se debatem nesta esfera sanguinária e inconseqüente? Por certo, não caberá aos que se situam muito além, uma vez que estes, com certeza, souberam vencer os sentimentos ruins que possam ter sido seus um dia. Caberá aos que se deixam envolver pelo ódio.
Ainda bem que a maioria dos que sofrem as desditas da perda de familiares e amigos através das armas não nutre o desejo do revide pessoal, acatando as determinações dos tribunais. Ainda bem que existem religiões e filosofias cujos sacerdotes buscam apaziguar os ânimos, posto que tais instituições não alcancem a todos, porque as riquezas não se distribuem de forma equânime.
Estará a humanidade adquirindo a capacidade de tornar a civilização mais pacífica e justa? Não por aqueles que praticam a lei da desforra, uma vez para estes tais atos se caracterizam como perfeitos, nada havendo para aperfeiçoar.



5. AS FORÇAS NATURAIS E SOCIAIS

Todos estamos submetidos ao império da natureza, ainda que sutil ou semimaterial. Eis que somos constituídos de algo.
No entanto, enquanto no universo corpóreo existem agregação e desagregação, conforme o desenvolvimento dos seres vivos, no incorpóreo, o perispírito se mantém em constante aperfeiçoamento, já que são as qualidades morais que lhe determinam a composição.
A dificuldade de entendimento da acima referida assertiva irá desfazer-se no momento em que se compreender que os elementos que se agregam ao corpo espiritual são atraídos pelas energias puramente mentais. Mal comparando, é como acontece quando o ímã exerce poder de atração sobre certos minerais.
Agregado o elemento moral, o correspondente defeito se corrige, dando ao perispírito maior adaptabilidade ao meio fluido em que se situa o espírito. Quanto mais qualidades positivas, maior a capacidade de evoluir, a ponto de, ao adentrar outro ambiente de maior purificação, a vestimenta fica para trás, sendo substituída por outra mais etérea e melhor adaptada às novas necessidades de aperfeiçoamento do círculo evolutivo seguinte.
Estes ensinamentos poderão servir em hora de concentração psíquica, quando o indivíduo se encontra diante de si mesmo para racional apreciação de sua contextura moral, se não durante a presente encarnação, quando estiver na erraticidade. Existe, porém, aspecto prático capaz de sugerir alterações substanciais no modo de vida do leitor que se dispuser a enfrentar desde logo os desafios da melhoria espiritual consciente.
Ei-lo.
A profissão que se exerce segundo a vocação e o espectro das oportunidades deve coadunar-se com a visão filosófica superior dos indivíduos, qualquer que seja sua orientação religiosa.
Simples pedreiros desempenham papel importante, porque erguem os edifícios que agasalham a humanidade. Entretanto, nem todos os prédios podem ser considerados locais de atividades sadias e honestas. Quem constrói para os déspotas e tiranos acaba contribuindo para a disseminação do mal.
Um exemplo bastará para fazer-nos entendidos.
Superar os aspectos negativos do trabalho tido como ganha-pão, evidentemente, irá sacrificar as pessoas e a sociedade; as pessoas, quando acabam despedidas, vendo-se na contingência de arrumar outra ocupação, o que nem sempre se encontra; a sociedade, no caso de não se encontrarem profissionais corruptos, o que levará o poder constituído a sujeitar à força as criaturas, escravizando-as, acabando por se reforçarem os ingredientes punitivos, exterminando-se a quantos não se alcance enjaular.
Qual é mesmo o aspecto prático desta linha de raciocínio?
É o de promover o ajuizamento das condições atuais do segmento da população em que se situe o leitor, abrindo-lhe o espírito à crítica das ofertas para evoluir.
Se o resultado da análise tender para a conclusão de que a força é que mantém o equilíbrio da sociedade, está na hora de atuar junto ao círculo familiar e de amizades, com o fito de corrigir, na medida do possível, os desvios de conduta individual e coletiva que estão sujeitando o livre-arbítrio ao império da injustiça.
Aqui o leque se abre e os acidentes dessa natureza podem ser observados por toda a parte, desde simples impedimento de se locomover à noite e mesmo de dia, até o fato de não haver recursos para a alimentação.
As preces, neste caso, hão de servir para o estímulo à luta e não para a alienação egoísta de quem se acovarda.
A escolha é sua.



6. A ÂNSIA DO REVIDE

Notoriamente, a humanidade mantém o sentimento primitivo do caçador pré-histórico, quer pela disposição do físico, que reage quimicamente despejando adrenalina na circulação sangüínea para estímulo das defesas naturais, quer pelas ondas sociais de virulência contra quem haja agredido indivíduos da congregação.
Esse sentimento é tão poderoso que até após a morte permanece atuando sobre o organismo semimaterial, gerando atitudes e atividades em defesa dos parentes e amigos ainda internados na carne.
Se o leitor está esperando que descrevamos o comportamento dos seres mais evoluídos perante as ameaças que rondam os entes queridos, contente-se em saber que o nível de compreensão das leis naturais e morais que se registra nos círculos imediatos ao que se encontram os espíritos em constante peregrinação entre a erraticidade e o orbe terráqueo é de ordem a confiar cegamente no poder misericordioso de Deus.
Ao contrário dos humanos, que temem pela segurança e integridade dos seus, os seres adiantados, quando muito, agem em prol de todos, buscando influir nas decisões que encampam o revide como norma de conduta nessas circunstâncias. Trata-se de puro apoio moral, sempre descarregados no sentido de facilitar o entendimento das causas que produziram os crimes e os criminosos.
Numa situação extrema de guerra, a frágil ligação intelectual cessa, rompendo-se o vínculo que mantinha a influência positiva dos seres superiores, possibilitando a rudeza quase material dos sentimentos que então se desenvolvem que se amplie muito a área de atuação dos obsessores.
É nessa ocasião que a humanidade passa a admitir a hipótese dos morticínios dos inimigos como forma de se afastar o perigo que representam, desconhecendo, evidentemente, que a luta persiste no círculo em que se refugiam os mortos, agora sem o risco de perecer, mas com o ônus tremendo da incitação indefinida ao ódio.
Determinado o círculo vicioso dos maus sentimentos, as nações adquirem, como característica assinalada, o resguardo insensato dos valores destituídos dos aspectos morais elevados, ainda que se submetam aos ideais de alguma religião.
Sem nos desviar do objetivo primordial da dissertação, podemos extrapolar um pouco para referirmo-nos a um aspecto bastante prejudicial à compreensão do estágio na erraticidade, qual seja, o fato de muitos alegarem que não empunharam as armas que destruíram os inimigos da pátria, muito embora tenham constituído fundos para que as forças se armassem ou tenham trabalhado direta ou indiretamente para manterem a linha de fogo.
As pessoas que adotaram o espiritismo soem acrescentar o poder das vibrações íntimas para a manutenção do magnetismo perverso do desejo de revide ou para a formação de uma onda de fluidos benéficos que atenuariam os efeitos deletérios do ódio. Aliás, sem a mesma concepção mas buscando o mesmo efeito, a humanidade desarmada ora pela intervenção divina, formando correntes imensas em favor da paz.
Desencadeados, porém, os atos de vingança, as atividades meramente espirituais, como acima anotamos, perdem o poder de persuasão moral, instigando ainda mais os contendores o recrudescimento das batalhas e o aumento do número de vítimas.
Resta a passagem do tempo sobre a vanglória dos sucessos militares ou a vergonha das derrotas. Entretanto, o homem possui o dom da memória e, vai dia, vem dia, acabam reflorescendo as antigas querelas.
Não há como, em termos individuais, progredir sem sacrificar o amor-próprio, para o que necessitam as pessoas passar por longo período de meditação sobre a verdadeira natureza dos seres, sua evolução e sua destinação superior.



7. O SENTIMENTO DE IMPOTÊNCIA

Comecemos por nós mesmos.
Quando nos abalançamos a vir ditar estas comunicações, enchemo-nos de entusiasmo, acreditando que poderemos evitar desastres e desgostos no campo da matéria. Isto se dá porque estamos conscientes da perpetuação do espírito, ou seja, do cerne da criatura que viveu na Terra.
Recebemos informações transcendentais quanto ao progresso incessante de adaptabilidade aos ambientes mais desenvolvidos e julgamos que tais informações também podem ter o condão de despertar os encarnados para a prática das virtudes, elevando-lhes o padrão vibratório para ingresso mais rápido nas esferas de maior beatitude.
Sob a orientação preciosa de instrutores experientes, incitamo-nos a redigir os pensamentos sob a tríplice influência da fé, da esperança e da caridade. Concluímos que temos o domínio das causas e das conseqüências dos fatos que prejudicam a humanidade, elaboramos roteiro mais ou menos extenso, discutimos entre nós, submetemos à aprovação dos mestres e, após obtermos o alvará, dispomo-nos a transmitir as mensagens por intermédio de escrevente categorizado.
Quando temos a sorte de sermos ouvidos, como agora, esmeramo-nos no ditado, aproveitando ao máximo o cabedal de conhecimentos do mediador, para que os textos adquiram a fluência e o equilíbrio lingüísticos indispensáveis para terem acesso às mentes e aos corações dos leitores.
Terminada a tarefa, obrigamo-nos a acompanhar a longa peregrinação da obra até que se veja ela diante de certos segmentos capazes de ler e de assimilar os elementos que constituíram o acervo de raciocínios e argumentos dos textos.
Esta fase fica enormemente facilitada quando reconstituímos os históricos das obras dos companheiros que nos antecederam, quer no que respeita aos livros que alcançaram publicação, quer aos que se encontram nos arquivos dos médiuns.
A compreensão de que os nossos textos se tornam muito pouco expressivos perante as obras dos espíritos mais gabaritados não constitui empecilho para mantermos o entusiasmo. Contudo, quando acompanhamos as leituras que se completam, quase sempre começamos a sentir-nos impotentes perante a vontade dos mortais.
Claro está que respeitamos o princípio do livre-arbítrio, sem o que o espírito humano não teria condições de evoluir. Entretanto, o fato de não obtermos qualquer correspondência ao nosso esforço, como se este trabalho fosse de obrigação e se situasse em círculo de sofrimentos, angústias, arrependimentos, remorsos, nos induz a considerar a inutilidade das tentativas de auxiliar os irmãos.
Colocado o tema sob o nosso ponto de vista, resta analisá-lo sob a perspectiva dos encarnados, ou melhor, daqueles que, tendo cabedal de conhecimentos espíritas superiores, não conseguem levar aos necessitados a sua convicção, dado que se esboroa sua iniciativa contra as muralhas da incompreensão e do descrédito.
Quando muito, nós e eles alcançamos demonstrar que as consciências se tranqüilizam quando são tomadas decisões no campo da ajuda material, através da doação de bens e valores, do trabalho manual ou mental para sedimentar atitudes de respeito aos mais próximos, do estudo de alguns tópicos de algumas obras da codificação de Kardec e de outras poucas atividades, como as de ouvir palestras e receber passes ou como as de contribuir para a divulgação dos eventos patrocinados pelas casas espíritas.
Mudanças radicais que abrangeriam as posturas de moralização superior, essas dificilmente atingem o âmago das personalidades, como as decisões que tomamos cá no etéreo nos levam a considerar indignas as reações fundamentadas no sentimento de impotência.
Nós não nos abalamos, portanto, com a tarda repercussão dos textos, pois temos a certeza de que o exercício do livre-arbítrio patrocinará a cada um sua elevação na escala espírita. Tal conclusão melhor se caracteriza quando colocamos no prato das aflições sutis o açodamento da primeira hora, momento em que açulamos o sentimento de impotência, esquecendo-nos de que a misericórdia do Senhor é infinita.



8. DOR E PRAZER

Instintivamente, desde que nasce, a pessoa vai compreendendo o que é bom e o que é mau para si. Aliás, a influência do bem-estar e do mal-estar se verifica durante a gestação.
Imaginemos, para argumentar por absurdo, que possa existir uma criatura que jamais haja sentido um só momento de prazer, vivendo desde sempre de forma dolorosa e angustiada.
Que reação terá quando volver ao plano da espiritualidade?
Evidentemente, sem haver criado nenhuma reação de bem-estar, haverá de continuar sentindo os mesmos sintomas deletérios das coisas e dos acontecimentos. Chegará à pátria espiritual pronta para enfrentar o tormento que os temores lhe estruturaram.
Como poderá tal indivíduo conceber a benemerência alheia, se nunca teve nenhuma sensação de conforto? Se houvesse tido, ao menos uma vez, a satisfação de ver-se amparado ou de amparar, poderia formar o conceito do prazer intelectual. Mas nós lhe tiramos qualquer mínima reação prazerosa.
Eis o absurdo consignado.
Por mais que sofra, a humanidade aprende a conceber o prazer ideal, porque existem reações de satisfação, ainda que meramente conceptuais, por força da capacidade de observação, como no caso de se provar o suco adocicado das frutas, apenas para citar um tosco exemplo.
Muitas religiões pregam o sacrifício das coisas boas, aumentando as sensações emotivas, no sentido de obrigar os fiéis a entender o prazer da superação dos limites carnais. Quando o sacrifício visa à prática do bem ao semelhante, concretiza-se o sentimento da doação, da solidariedade. Sem o objetivo de ajudar a ninguém, o sacrifício busca depurar as virtudes, podendo resultar, contudo, em mera frustração dos desejos naturais, haja vista a castidade imposta por certas religiões aos sacerdotes.
Na outra ponta do absurdo, podemos situar aqueles que jamais experimentaram qualquer dor física ou moral. O raciocínio relativo aos sofredores vai levar-nos pela mesma vereda, obrigando-nos a concluir que, ao chegarem aqui, não terão como compreender que parentes e amigos possam estar em esferas onde o nível de satisfação não seja pleno. Isto quer dizer que não existe a possibilidade de alguém passar pela vida sem refletir um instante sequer a respeito do sofrimento alheio.
A aspiração por ingressar desde logo no reino de Deus, onde as delícias fazem esquecer a própria concepção de mágoa, incide na mesma falha de raciocínio de quem conjeture a inexistência da dor ou do prazer para quem quer que seja.
Resta responder como se equilibram o prazer e a dor nos círculos dos espíritos mais elevados, já que estamos asseverando que não existe um sem a outra.
Não vamos entrar no mérito do que seja a satisfação para os seres mais perfeitos do que nós, porque mesmo os mortais são capazes de conceber a verdadeira natureza das sensações imateriais, atribuindo-lhe os fatores espirituais intrínsecos à realidade em que se encontram imersos. Se não são perfeitos, caso em que estariam com Deus, possuem a consciência cada vez mais lúcida dos defeitos, consciência que lhes denuncia a indisposição a ser sanada.
Cabe uma última questão.
No âmbito da consciência, a compreensão do vício, do erro, da falta, da deficiência, da deformidade não irá absorver completamente a atenção do indivíduo, de forma a torná-lo a mais infeliz das criaturas?
Certamente, quando não consegue ultrapassar as lindes do egoísmo. No entanto, ao dedicarem-se ao auxílio aos irmãos para que vençam as dificuldades, ipso facto, tais seres se enredam nos problemas alheios, olvidando o próprio sofrimento, terminando por superar os elementos da inferioridade quase automaticamente.
É preciso ressaltar que dissemos quase automaticamente, porque, quanto mais progredimos, mais intensamente possuímos o domínio de nós mesmos, mais cumprimos a máxima do conheça-se a si mesmo, fundamento de todas as filosofias puras.
Quando as religiões incluírem esta visão da realidade no rol dos postulados teológicos, darão um passo imenso na direção do bem-estar dos filiados.



9. SANTIDADE AMEAÇADA

Por mais piedoso seja o indivíduo, se não mantiver elevada aspiração espiritual, pode perder o respeito de si mesmo, já que não possui parâmetro de comparação para poder situar-se dentro da escala espírita.
O primeiro raciocínio que faz nesse sentido, ao compreender que o mundo agasalha espíritos que necessitam passar por provações e expiações, é o de considerar-se membro da comunidade, sem estar imune ao assédio das tentações.
Espiritista aplicado, contudo, sabe que pode pertencer ao quadro seleto dos abnegados missionários enviados para esclarecimento e auxílio aos irmãos menos dotados de virtudes. Tal conhecimento, no entanto, não lhe fornece senão uma pista medíocre de que sua superioridade possa ser real, pois, desenvolvida a humildade, não se arrisca a considerar-se acima dos demais.
Falece o trabalhador emérito. Que irá encontrar atrás do véu da morte? Qualquer um poderá responder que será guindado a esferas de maior beatitude, dado que as vibrações do organismo metafísico ou perispírito atraem espíritos de mesma categoria.
Essa é verdade inconteste, todavia, o hábito da benemerência faz que, inconscientemente, permaneça no campo energético dos menos evoluídos, exatamente do mesmo modo como havia imergido na densidade rude da carne.
Se logram os pares comunicar-se, mantendo conversação elucidativa, ainda assim reluta em deixar o campo de atuação, preferindo manter o halo de santidade que se criou e que se firma ainda mais com a consciência do poder de gerar ensinamentos que podem induzir a acerto os infelizes a quem se prende por laços afetivos não correspondidos plenamente.
Até que o sujeito venha a concluir que o labor se extinguiu no âmbito material e que depende exclusivamente de cada qual o ingresso nos círculos mais adiantados, permanece como que obcecado pela dedicação sacrificial.
Eis o caso específico a que alude o título: trata-se da santidade ameaçada. Na verdade, não se caracterizou o avanço na escala espírita; apenas se evidenciou a tendência à melhoria, como quando um bom professor, por exemplo, deseja manter relações perenes com os alunos, no intuito, quase sempre inconsciente, de se manter na posição de mestre, considerando os demais perpétuos discípulos.
Há um momento para o trabalho e outro para a avaliação, esta no duplo sentido de buscar saber se o trabalho foi eficaz e se foi absorvido por quantos estiveram na mira do missionário. É fácil de explicar este ponto de vista, com o exemplo do professor, pois há alunos que aprendem e outros que não, embora o ensino tenha sido o mesmo.
O instrutor se esmerou ao máximo, aplicando os métodos todos que lhe passaram em sua formação profissional. Não obstante, a avaliação do sistema de ensino, à vista da falha relativa a alguns, poderá recomendar-lhe período de reciclagem profissional.
Eis que configuramos a necessidade de todos os que são enviados ao orbe terráqueo em missão, ao volverem ao campo espiritual, se sentirem em débito para com os irmãos que não ascenderam através da experiência carnal.
Existem missionários com tal discernimento?
Após o desenlace vital, a maioria consegue despertar entre os amigos que os recepcionam festivamente. São os que de pronto reconhecem que sua atuação teve méritos e deméritos, colocando-se à disposição dos mentores para reavaliação dos projetos de vida, preparando-se para cumprir as tarefas que lhe forem indicadas pelos superiores, uma vez que sempre existem superiores, por mais adiantados sejam os espíritos. Aliás, quanto mais evoluídos, mais cordatos e obedientes. São os que não sentem ameaçada a santidade que, positivamente, não reconhecem em si mesmos.
Enquanto isso, façamos a nossa parte, confiantes em que Deus é pai de misericórdia e não irá deixar nenhuma das criaturas ao desamparo.



10. A CONSAGRAÇÃO AO TRABALHO

Qualquer que seja o ramo das atividades da pessoa (não importa o ganho nem a extensão do bem a praticar), a necessidade da alma sempre andará muito próxima de não ser atendida, caso haja desleixo ou procrastinação.
Evidentemente, o estímulo externo é importante, contudo, é preciso que haja a consciência do dever cármico vinculado ao exercício da cidadania. Quando a pessoa conhece a profissão e gosta do que faz, não nota os esforços de aperfeiçoamento na área a que atende.
É como ocorre no âmbito da espiritualidade com os seres mais adiantados moralmente. Estes superaram as angústias da indecisão e compreenderam que apenas sua aplicação ao campo do auxílio amorável e inteligente é que lhes proporcionará os elementos com que progredir.
Na matéria, nem sempre é possível estabelecer metas muito elevadas como objetivo final da vida. Nem existe a possibilidade de se exercer a profissão até idade muito avançada, reconhecendo a própria sociedade que as forças diminuem e a capacidade declina, estabelecendo época da vida para a aposentadoria. Entretanto, o hábito de se dedicar ao próximo como conseqüência do aprendizado do amor evangélico, pelo exemplo superno de Jesus, torna o indivíduo predisposto a uma palavra de orientação, um conselho didático, uma abertura de caminho através da indicação de como foram solucionados os problemas que se apresentaram durante seu trajeto vital.
Se, a cada geração, a turbulência carnal aumenta pela degradação dos costumes e pelo avanço indiscriminado da ciência e da tecnologia, sem o correspondente aviso de perigo, também é possível estabelecer parâmetros de comportamento, mediante a contenção que os responsáveis pelos usos e costumes podem impor através das leis e da vigilância para aplicação delas.
Podem dizer que estamos referindo-nos a uma diminuta minoria, nem um por cento da humanidade. Todavia, essas pessoas geram movimentos expressivos de retorno das ações que praticam. Os que têm interesse em que as descobertas e invenções sejam assimiladas pelo grosso do povo logo assumem seu papel de multiplicadores dos bens resultantes, de forma que transformam em necessidade o que, um instante antes, nem passava pela imaginação dos futuros usuários.
Sobre o uso distorcido que se dá dos inventos, já falamos. Resta considerar que o trabalho diuturno deve eleger as formas centradas no bem-estar das congregações naturais de pessoas, proporcionando-lhes o conforto necessário para a ponderação a respeito das supremas leis do universo.
Bem comparando, é como nós do etéreo reflexionamos a respeito dos dizeres mais propensos a se constituir em benefício para os encarnados, executando os textos de modo a facultar aos leitores a mais completa elucidação quanto às conseqüências dos atos no campo espiritual. Para tanto, basta que citemos Jesus e que recomendemos as obras de Kardec.



11. PERANTE A ETERNIDADE

De repente, estava eu perante a eternidade. Foi bem assim: chegava cheio de problemas e me deparei com o tempo sem fim ou com a inexistência dele, o que vem a dar no mesmo. Considerei a humanidade encarnada e só então percebi que é a noção da existência eterna que faz o homem descartar completamente a importância da vida terrena.
Parece contra-senso?
Com certeza preciso explicar que os que assim procedem confiam amplamente na misericórdia divina.
Vou dar o exemplo culminante dos suicidas. Muitos acham que vão encontrar-se no reino de Deus, assim que forem perdoados, tendo em vista imaginarem que seu ato tem explicação lógica e plausível. Não é como pensam os terroristas que fazem do sacrifício da vida um derradeiro ato de heroísmo?
Sob o ponto de vista espírita, evidentemente, terão de refazer todos os raciocínios, de uma forma ou de outra, já que não cabe a nenhuma criatura forjar situação em que se veja o Criador obrigado a submeter sua sacratíssima vontade ao talante dos mortais.
Em todo caso, ainda sob a custódia da doutrina dos espíritos, é válido supor que, pela mesma concepção da misericórdia divina, todos, sem exceção, serão recebidos no seio do Senhor.
O simples fato, contudo, de se deparar com a eternidade não dá aos indivíduos, como não deu a mim, as excelsas qualidades dos espíritos superiores. Apenas torna possível estender para esferas até então desconhecidas a visão que se restringia ao âmbito das realizações puras e simples.
Dado o leque infinito em que se abrem os aspectos individuais, sábio será sempre que o espírito em vias de comunicar-se mediunicamente tenha algo muito específico para transmitir, caso contrário, sua presença junto ao médium se tornará importante apenas para si mesmo, no sentido didático do aprendizado do manuseio dos instrumentos à disposição para o efeito.
Estou referindo-me ao processo em que me empenho para denunciar o momento, em contraposição ao eterno. Neste sentido, é válido observar que o instante de lucidez da absorção do conceito de eternidade nada tem que ver com as informações colhidas nestas mensagens de apoio ao povo encarnado. Aliás, é até muitíssimo justo que se olvide a origem destas palavras, conectando-se ao presente de maneira absoluta, como resultante do desenvolvimento intelectual promovido por este feixe de idéias a repercutir no mais profundo da consciência.



12. O PODER DOS ARGUMENTOS

Digamos, desde logo, que os argumentos decalcados na razão, aqueles que visam a comprovar a verdade, exigem do ouvinte a faculdade de compreender. Dificilmente alguém conseguirá fazer que criaturas cuja idade mental gire em torno dos dois anos cronológicos entendam os princípios científicos de qualquer fenômeno.
Claro está que a inteligência das crianças normais assimila os conhecimentos relativos às necessidades de adaptação ao ambiente, havendo muitas que superam o aprendizado que lhes é oferecido, progredindo por meio das observações pessoais, já que se sentem estimuladas.
Em estado natural, contudo, sabe-se que os indivíduos ficam tão absorvidos pelas atividades da sobrevivência diária que não desenvolvem o raciocínio abstrato.
Em sociedade, será que todas as pessoas têm as mesmas oportunidades de crescimento intelectual? Será que todas são incitadas a raciocinar com liberdade a respeito de tudo? Será que criam o hábito de pesquisa da verdade, independentemente dos preconceitos que as envolvem?
No plano espiritual, quanto mais adiantado o espírito, menos peias existem a impedir-lhe o crescimento progressivo rumo à perfeição. Muitas dessas mesmas entidades, quando encarnadas, se ressentem do peso das circunstâncias e mal se direcionam para a realização dos objetivos primordiais de sua própria encarnação.
Eis que chegamos ao âmago da tese que viemos desenvolver: sem absoluta liberdade de refletir, não se consegue atinar com a verdade, nem quando se está diante dos textos mais elucidativos de Kardec, por exemplo. Aliás, digamo-lo de passagem, até no âmbito do movimento espírita, existem muitos preconceitos, temores e idiossincrasias a determinar a fixação de conceitos não inteiramente prescritos pelo Codificador.
Por tudo isso, optam os responsáveis pela educação dos jovens pelo uso da força, da coerção, da obrigação, do dever, da responsabilidade, sob a diretriz do pior dos argumentos: o de autoridade.
Seja no campo da moral, seja no do conhecimento científico, quando falha a capacidade de explicar ou de entender, ficam os pobres mortais sob a orientação cediça dos que possuem o poder, sejam pais, sejam professores, sejam sacerdotes, sejam quantos mantenham o domínio dos meios de comunicação.
Por isso é que nos atrevemos a redigir mensagens cuja estrutura busca constituir fértil programa do despertar para a reflexão sadia, no sentido da assimilação da verdade, sem subterfúgios e sem artifícios silogísticos.
Talvez muitos se sintam meio perdidos no meio destas intrincadas variações temáticas, todavia, caso se mantenham atentos para quantos sentimentos de frustração possam atrapalhar a livre percepção da verdade, poderão trazer para o campo da espiritualidade hábito de grande valia para a absorção dos elementos primordiais da constituição da esfera existencial em que imergirem.



13. REMOVENDO O MEDO

Quando temos o que perder, falta-nos, muitas vezes, a coragem de enfrentar o destino, principalmente ao nos depararmos com a possibilidade de sofrimento dos que nos são caros.
No etéreo, vencida a fase de adaptação à realidade, podemos ou não assustar-nos com as ameaças que nos fazem. Iremos sempre manter-nos temerosos, se estivermos em débito para com alguém, ou seja, se a nossa consciência nos acusar de estarmos em falta com algum princípio moral.
Assim, se houvermos praticado em vida, para dar um exemplo, a usura, introjectando na personalidade o procedimento vicioso como norma de conduta, vamos permanecer com o mau hábito até que consigamos compreender toda a extensão dos males causados aos semelhantes.
Este raciocínio vale para todos os defeitos.
Se a nossa vida for suficientemente longa para dar-nos oportunidade de reflexão a respeito de todos os acontecimentos que nos envolveram, é provável que levantemos muitas situações em que não agimos rigorosamente dentro dos ditames das leis naturais ou humanas. É quando ocorrem as acusações íntimas e o temor de termos de enfrentar percalços após o desenlace, particularmente se não nos é dado reparar os prejuízos.
Quer dizer que o conhecimento deste tipo de reação psíquica haverá de nos ajudar a vencer o medo?
Ajudar, sim; eliminá-lo, absolutamente não.
Já dissemos que o trabalho é de rigor para o aprendizado das virtudes, ainda que no campo da erraticidade. Ora, sem adquirirmos os hábitos sadios em oposição àqueles a que atribuímos nossos defeitos, não teremos condições de nos promover para a próxima esfera mais adiantada. Deste modo, é compreensível que sintamos ainda forte medo pelas tribulações que imaginamos teremos de enfrentar.
Que tal, agora que estamos meditando a respeito deste ponto, procurarmos caracterizar algum pequenino defeito e sentir-lhe as repercussões possíveis no âmbito dos dramas morais possíveis de nos assoberbar, assim que, na erraticidade, tomarmos consciência da necessidade de nos depurarmos?
Poderíamos citar inúmeras atitudes negativas, contudo, achamos que é preferível deixar para a imaginação das pessoas a análise do próprio procedimento. É como o fiel que busca o confessionário após o chamado exame de consciência.
Resta responder à seguinte questão crucial:
— Se, como resultado da avaliação, chegarmos à descoberta de que não somos capazes mais de reparar os erros relativos aos semelhantes, que nos restará fazer, além de orar para alcançar o perdão dos pecados?
A prece é fundamental, em qualquer circunstância, no entanto, quando existe a possibilidade da ação, mesmo originária do arrependimento, para o efeito da correção íntima, vamos promover o bem, com o fito de nos envolvermos em episódios que vão necessitar da virtude que nos faltou, para a consagração da emenda corretiva.
Enfrentar situações de risco pode vir a ser perigoso, mas, certamente, oferecerá elementos outros para a constatação do aprendizado.
Se acharem que o desenvolvimento deste tema se acha muito distante da realidade, esperem para ver como é que serão instados a agir quando estiverem do lado de cá.



14. OS ÚLTIMOS DIAS

Não há como escapar desta realidade: um dia, a vida chega ao fim.
Se revertermos a expectativa, seremos menos pessimistas e abriremos as portas da eternidade: um dia, adentraremos a espiritualidade.
Contudo, sempre teremos de preparar-nos para enfrentar a passagem obrigatória, para o que nunca é tarde para iniciarmos a campanha da regeneração de tudo quanto considerarmos falho na personalidade, especialmente porque poucos conseguem definir com alguma precisão o momento exato da partida.
Há vários tipos de encerramento da vida: inesperado e rápido, lento e sofrido, anunciado pelas enfermidades, inconsciente ou lúcido, só ou acompanhado, em meio à tragédia, dolorido, durante o sono etc. Qualquer deles, porém, quando estamos despertos e ativos, como neste momento da leitura, pode ser admitido como possível, o que nos leva a considerar a hipótese de que pensar sobre a morte é apenas o primeiro passo para penetrarmos no campo mais vasto das considerações de caráter filosófico e religioso.
Uma vez determinados a aguardar um além-túmulo sob o prisma do Espiritismo, podemos acrescentar às meditações as descrições mediúnicas a respeito da morte, como transe e como recuperação do uso do perispírito.
Se tais observações de cunho prático são importantes, mais ainda o são as de cunho metafísico, pois estas é que constituem o alicerce sobre que iremos edificar a personalidade revigorada pelos ganhos de virtudes, ou depauperada pelas ânsias materiais que permanecerem conosco.
— Este desenvolvimento não está em contradição com o título, uma vez que a preparação do espírito está sendo pleiteada para todo o tempo da vida e não tão-só para os últimos dias?
É que, do ponto de vista de quem enxerga a vida do etéreo, todos os dias podem ser considerados como os últimos. Leva-nos a tal conclusão, principalmente, o fato de não termos a mesma perspectiva, já que não nos espera nenhuma transição que signifique perda. Na erraticidade, o progresso é constante e a aquisição dos bens ou das luzes superiores nos permite esperar que sempre iremos para regiões mais adiantadas, mais felizes e mais gloriosas.
— Posso fazer uma observação, utilizando-me de um axioma ou postulado fundamental do Espiritismo, para oferecer um óbice ao que acima se registrou? Dado que a reencarnação se dá quase obrigatoriamente para o expurgo dos defeitos, não haverá também últimos dias, na espera do momento de regressar ao mundo dos vivos?
Não só existe o mesmo tipo de expectativa como pode apresentar, mutatis mutandi, os mesmos tipos acima referidos em relação à morte do corpo físico. E as recomendações também se ajustam às maravilhas a todos os que vão encarnar, seja em missão, seja para regeneração e aprendizado.
Logo, tudo quanto fizermos para melhorar de um lado se refletirá do outro, facilitando-nos a absorção dos elementos espirituais que nos facultarão o progresso.
Em suma, sempre há espaço para repetir, vamos agir em consonância com as diretrizes evangélicas, sob a luz das orientações codificadas por Kardec. Em termos mais gerais: vamos sempre praticar o bem, ajudando a todos, não prejudicando a ninguém, ainda que tenhamos de burlar certos princípios filosóficos ou religiosos em descompasso com os ensinamentos referidos.



15. A CONSCIÊNCIA DE SI MESMO

Reconhecer a si mesmo como trabalhador da obra do Pai é consignar o princípio religioso. É bem isso que estamos propondo.
Para que o indivíduo adquira a consciência do que é perante a existência, haverá de previamente aceitar-se integrado ao universo, ou seja, terá de compor-se dentro da harmonia da criação, caso contrário jamais dará o devido valor ao fato de pertencer a algo cuja origem esteja muito além de sua impressão de vida material.
Antes de explicar a utilidade destes conceitos, temos a obrigação de oferecer-nos como entidades provenientes da erraticidade. É que, como ponto básico para inteira compreensão da mensagem, temos de exercitar a consciência do que somos. Somos criaturas provenientes da inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas, ou seja, Deus.
Para que pudéssemos reconhecer a nossa condição primordial, necessário foi que passássemos por inúmeras situações de vida ou de existência, segundo participávamos da natureza dos mundos de matéria ou vagávamos pelas esferas dos espíritos.
Para compreensão do que expusemos no parágrafo anterior, basta refletir um pouco a respeito da consciência que têm de si mesmos os seres inferiores da escala animal, para não citarmos os mundos vegetal e mineral.
Quando passarmos a examinar a habilitação da inteligência humana para configurar, em toda a sua extensão, o que significa em função do ambiente em que se insere, com certeza teremos de conceber mentes não totalmente desenvolvidas para a compreensão dos pensamentos abstratos.
— Por que, então, virmos à presença dos seres humanos, trazendo textos a serviço dos intelectos mais cultivados, quando são os mais rústicos que se mantêm no leme das comunidades?
Porque todos iremos passar pelo crivo da conscientização, um dia ou outro. Se formos estimulados por reflexões alheias desinteressadas, poderemos, inclusive, vir a agradecer a boa vontade dos mensageiros, como estes mesmos autores reverenciam a inteligência e a benignidade dos seus instrutores e mentores.
Ora, considerando que acima de todos está a inteligência que nos criou, temos necessariamente de concluir que ninguém, em sã consciência, poderá evoluir sem elevar os pensamentos ao Pai, em preces de agradecimento, de louvor e de solicitação de novas benesses, para empreendimentos cármicos capazes de iluminar-lhe o espírito, a ponto de fazê-lo cada vez mais consciente de si mesmo.
— Como, no dia a dia dos seres vivos, pode revelar-se útil tal conhecimento?
Simplesmente facultando o bom relacionamento entre os homens, eliminando-lhes os preconceitos e dirigindo-lhes as atividades em prol do engrandecimento material e moral de todos.
Não é verdade que viver em paz é a aspiração suprema de todos os seres humanos equilibrados?



16. ESTABILIDADE E EQUILÍBRIO

Terminamos a mensagem anterior perguntando se não é verdade que viver em paz é a aspiração suprema de todos os seres humanos equilibrados.
Não é preciso investigar muito para saber que, nem por ser desequilibrada, muita gente deixa de reivindicar o direito a vida tranqüila de conforto e satisfação.
Não são poucos os fora-da-lei que praticam toda espécie de crimes, almejando conseguir certa estabilidade social, se não para si mesmos, para as famílias.
Na erraticidade, em ambiente de respeito mútuo, tal desequilíbrio se encontra de há muito superado. Não há como argumentar através da pobreza ou da falta de recursos individuais para justificar qualquer ato em desarmonia com as leis do amor e da justiça.
No entanto, é flagrante a desigualdade entre as condições sociais dos encarnados. Existem os que vivem na miséria, em grande número, e os que nababescamente usufruem todas as regalias da civilização.
O saber espiritista haverá de esclarecer a situação díspar através do conjunto de atributos morais contidos nas personalidades, ou seja, por meio do histórico existencial de cada qual se estabelece o roteiro de expiações e de provações a que se submeterão quando encarnados, com vista a obter a oportunidade de sanar os defeitos e de adquirir as virtudes.
Quanto aos que possuem riquezas materiais, sempre há que se supor que existe a necessidade de administrar com sabedoria os bens que lhe foram confiados, caso contrário irão despencar para o mesmo estado miserável dos demais na espiritualidade ou em encarnação subseqüente.
No entanto, os mesmos amigos espíritas aspiram a que a raça humana evolua, eliminando todas as chagas sociais e psíquicas, estabilizando a vida através da distribuição das riquezas, dando a todos a mesma oportunidade de equilibrar-se perante os fatores das perturbações.
Imaginemos que assim se dê dentro de vinte anos. Todos os encarnados vão sentir-se felizes, sempre prontos a pequenos sacrifícios para restabelecer os padrões de bem-estar dos semelhantes colhidos pela tragédia, uma vez que a natureza haverá de constituir sério empecilho para que tudo transcorra como no Éden.
Estamos fixando o prazo de vinte anos porque, se conjeturarmos a passagem de um século inteiro, teremos obviamente de admitir que quase toda a população atual já tenha ultrapassado os umbrais da encarnação. Ora, a prática das virtudes deverá correr por conta dos que sonham estabilizar o mundo, pois não haverá razão para que as mudanças de comportamento sejam preconizadas para quem está chegando com o fito de receber o impacto das acima aludidas provações e expiações.
Chegaremos ao ponto de condenar toda pretensão ao aperfeiçoamento das instituições humanas? Absolutamente, não. Se assim fosse, estaríamos contradizendo a nossa própria condição de mensageiros.
O que desejamos afirmar é que o bem deve ser levado a efeito em todos os campos de atuação dos seres conscientes de que Deus é pai de infinita misericórdia em relação a todos os filhos, sem exceção. Aquela aspiração à estabilidade e ao equilíbrio deve florescer, deitar frutos e sazonar dentro do espírito de cada um de nós, sem que nos empenhemos em responsabilizar os aludidos malfeitores pelos insucessos humanos. Isto estará impregnando-se nas consciências, à medida que cada um for assimilando as noções superiores contidas nos ensinamentos de Jesus.



17. OS EXEMPLOS

Para nós, espíritos na erraticidade, é bem mais fácil de caracterizar como bons os exemplos, uma vez que a categoria dos mentores e instrutores de imediato se evidencia através de presença diferenciada pelas ondas de beatitude, de paz e de benignidade que emitem.
Claro está que, para perceber a superioridade moral desses seres, também devem os discípulos ajustar-se à freqüência dos emissores, o que demanda certa boa vontade quanto à melhoria das próprias vibrações.
Entidades perdidas nas sombras das acusações da consciência ou imersas na volúpia dos desejos de vingança e de maldade não se deixam envolver pelos fluidos benéficos dos socorristas de qualquer nível evolutivo. Para estes, além do muito amor dos que alguma vez lhes compartilharam as existências, também necessitam do sofrimento para resgate dos débitos.
Quando encarnados, os espíritos adquirem grossa camada material que os impede de discernir o passado, o que pode facilitar-lhes a aprendizagem a que almejavam como objetivo de vida. Tal condição, que é vantajosa no caso dos sofredores, favorece, entretanto, que se enredem nos fenômenos mundanos, dando-lhes a impressão de que o momento vale por si mesmo. Eis o que promove os ideais desvinculados da grandeza moral.
Cegos para o bem e para o amor, não conseguem enxergar também os exemplos que os de notável saber lhes fornecem.
Mas existem os que nos alcançaram neste ponto da obra, sinal evidente de que gostariam de achar modelos que possam emulá-los para a efetivação de alguns ganhos, no sentido do aperfeiçoamento das virtudes que possuem.
No que respeita a estas mensagens, cabe, nesta altura, ceder a palavra aos companheiros que prepararam textos pessoais para a apresentação de como cada qual efetuou a transição para a condição atual de discípulos em fase de absorção dos primeiros valores, aqueles que os guindaram do marasmo intelectual e sentimental para a avaliação do estágio possível de realizar-se, por parte dos leitores interessados em desenvolver-se espiritualmente.
Boa sorte a eles!
Como último aviso, devemos acrescentar que temos perfeito conhecimento das dificuldades que enfrentam os humanos para adequar o procedimento às normas evangélicas, o que nos coloca o nível de aspiração bem de acordo com a realidade. Para muitos, porém, as proposições que temos registrado parecem de efetivação remotíssima. Para os que assim pensam, aconselhamos que não coloquem seu objetivo muito acima da condição atual. Pequenos ganhos também são significativos e não causam desânimo.
Resta conceituar o que vem a ser um ganho, pequeno ou grande. Eis a tarefa que lhes estamos propondo.



18. ROMEU

Na verdade, eu não me chamo Romeu, mas desejaria muito tratar aqui do complexo de Romeu.
Vamos remover da cabeça, desde logo, o arquétipo consagrado de pessoa sinceramente apaixonada. É pura ilusão tal trasbordamento de amor, ótimo para fundamentar o romantismo trágico de momento de êxtase estético. Viso muito mais ao indivíduo incapaz de viver a realidade, aquele ser dado à consagração do egoísmo, sem concordar com as obrigações que lhe impõem a sociedade e a natureza.
Não morressem os protagonistas do drama shakespeariano, não teriam vivido juntos e se veriam entregues a um destino comum a muitos humanos. E, se conseguissem fugir — estamos no reino das hipóteses —, teriam de abandonar muitos dos hábitos que a educação lhes havia proporcionado.
Que tal estarmos diante de Romeu carpinteiro ou servente meia-colher e de Julieta a lavar a roupa das pessoas ricas? É inconcebível!
Quem, de verdade, pode atribuir-se destino tão bem delineado, a partir de premissas claramente contrárias ao uso social? Só se estiver pronto para conceber o futuro em descompasso absoluto com o presente de regalias e conforto.
Mas existe o complexo de Romeu. Carregam-no consigo os que, desejosos de submeter o mundo à sua vontade, fogem do ramerrão, adotando a prática da rebeldia, do desafio, da descompostura e do arrojo desmiolado de quem se sente no dever de sobrepor-se aos demais, através da agressividade, provocando guerra sem trégua a todos quantos se atrevam a causar-lhes embaraços à vontade.
Evidentemente, se o sujeito pertencer a classe muito prejudicada pela falta de recursos materiais, irá armar-se para atacar a todos os que possam ceder-lhes o que lhes falta ou constituir-se em obstáculo à conquista.
Será difícil de engolir a expressão complexo de Romeu aplicada aos assassinos e malfeitores? Pois não deveria ser, uma vez que a trágica personagem ataca a todos, considerando valiosa apenas a figura da idolatrada Julieta. Acaba suicidando-se, à vista de supor perdida a criatura da alucinada paixão.
Fica mais fácil de conceber-se com tal complexo indivíduos jovens, com recursos financeiros suficientes para dar-lhes autonomia econômica. São sujeitos que imprimem à face a máscara das conveniências, mas com vida privada consagrada ao culto de secreta personalidade.
Esses não se matam porque agem à discrição. Não poderiam freqüentar o mesmo palco shakespeariano, com certeza porque manteriam a paixão escondida até do objeto dela. Ou realizariam a proeza de trair a pessoa presumivelmente amada, eliminando da convivência de ambos a sinceridade acima aludida.
Não vamos chamar a estes de falsos, de hipócritas. Vamos dizer que se conduzem como autômatos, sob a influência do complexo. Isto irá justificar todas as mazelas e imperfeições? Fazemos votos para que não.
O mesmo se dá relativamente aos textos mal estruturados, atrevidos e sujeitos à crítica de todos. Trata-se de simples provocação, pois, se as obras equilibradas, organizadas conforme os padrões silogísticos do pensamento cartesiano, também promovem arrepios de inconformismo dos leitores menos ortodoxos quanto a aceitar desenvolvimento das idéias pelo prisma da normalidade mental, tanto mais aborrecimentos hão de provocar as que denotam mentes não totalmente formadas, como as daqueles jovens que perderam a vida no palco das ilusões.
Que tal este exercício para começarmos as reflexões não condicionadas pelo saber do senso comum?



19. LESMAR

Muito me preocupei com o estranho nome com que fui batizado. Desde os tempos mais distantes, quando mal dava os primeiros passos, já me lembro de ter sido arreliado por meus irmãos, que elaboravam trocadilhos, todos dando como resultado a lembrança pouco dignificante do pegajoso molusco.
Não vim para refletir sobre o desagradável senão do nome, mas para discorrer a respeito das crises de consciência provocadas por pessoas do relacionamento íntimo, às vezes sem querer, outras, de propósito.
Meus pais, coitados, acharam bonito o nome que tinha sonoridade e lembrava aquele verde profundo avistado das praias nordestinas. Eram ingênuos e jamais admitiram que me pudessem haver causado qualquer problema.
Realmente, afora as brincadeiras pueris, se bem que houvessem perdurado até o último ano escolar, ao término da quarta série do curso primário, nada mais chegou aos ouvidos deles que me vinculasse o nome à alcunha. Contudo, mesmo quando exercia modestamente a profissão de curtumeiro, os colegas jamais deixaram de se divertir com a lentidão com que realizava as tarefas.
Adquiri o vezo da lesma e me fechei dentro da concha do egoísmo.
Repito: do egoísmo.
Cuido para que as coisas que disponho com dificuldade neste texto não reflitam o cunho da personalidade mal formada.
Nesta altura do trabalho, vejo-me totalmente atrapalhado pelo encaminhamento que dei, abrindo a dissertação de forma a sugerir que meus vícios se devem ao mundo exterior. Em absoluto: a recuperação da memória de como era antes da encarnação me fez ver que poderia, através do nome que recebi e das facécias de que fui alvo, ter superado quase completamente o defeito moral. Bastava que tivesse tido o discernimento de averiguar se meu nome não me retratava de verdade, lutando para aceitar a implícita acusação, de forma a fazer prevalecer a verdade sobre a impressão.
Como hão de raciocinar os leitores, evidencio a fórmula que não soube aplicar para a solução do problema, passando para o papel a recomendação de que todos devem desconfiar de que estejam merecendo as crises, no sentido de despertar para a necessidade de correção dos defeitos ou de aperfeiçoamento das virtudes.
Dei meu recadinho e cumpri o dever curricular. Como gostaria que esta composição mexesse com os brios dos amigos encarnados, fazendo que vejam no âmago de si mesmos o sofrimento que deixei entrevisto, para que não venham a senti-lo por imprevidência ou diminuição da importância dos mensageiros endividados.
Rezo pela felicidade de todos e abro-lhes perspectivas de sucesso no empreendimento íntimo de reforma.
Jesus seja por todos nós!



20. MANUEL

Muito me orgulhei em vida pelo fato de ser descendente de portugueses. Vivi no Brasil e me deixei embalar pela manemolência peculiar dos nativos, adaptando-me perfeitamente ao modo de vida deles. Mas era trabalhador, de modo que não me incapacitei totalmente para o progresso material, ainda porque tinha parentela rica a me apoiar as iniciativas comerciais.
Dentre as coisas que realizei de diferente dos que para aqui aportavam, estava o fato de me alistar entre os devotos de Nosso Senhor do Bonfim ao mesmo tempo que visitava regularmente os terreiros para cumprir os compromissos e obrigações que adquirira com os orixás.
Quando perdi filho muito querido, vítima de assalto na via pública, foi que notei que a malandragem estava transformando-se em crime.
Claro está que agora superei as crises de consciência da época, uma vez que me culpava de desleixo por haver-me mancomunado com a parte deteriorada da sociedade. Custou para que eu voltasse a freqüentar a umbanda, assim mesmo buscando centro espírita de gente mais culta, intelectual e endinheirada. Foi ali, no último quartel da vida, que tomei contato com as teorias de Allan Kardec, tendo sido levado a centro espírita por patrícios de melhor escolaridade.
No entanto, o que conheci da doutrina devi às palestras e aos comentários efetuados durante os trabalhos mediúnicos a que comparecia na qualidade de médium psicofônico.
Naturalmente, aguardava pelo dia em que meu filho estaria presente para dar comunicação, o que terminou ocorrendo certa vez, pela voz de outro médium. Na mensagem a mim dirigida, recomendava-me que mantivesse a fé em Deus e em sua bondade, executando os ditames da caridade para com meus semelhantes, na esperança de superar algumas das deficiências morais antigas ou recentemente adquiridas.
Na hora, não entendi direito por que, ao invés de vir falar de si mesmo e de sua condição na erraticidade, me dera uma espécie de sermão, como se fosse ele o pai e não o filho. O máximo que consegui deduzir foi a idéia de que se tratava de espírito muito evoluído, aflito por ver uma pessoa querida a sofrer por ele, após tanto tempo decorrido da tragédia.
Só no etéreo é que vim a compreender que eu estava verdadeiramente necessitado de agir com mais temperança e rigor na consecução das diretrizes cármicas da encarnação.
Essa a informação que passo aos leitores, na crença de que possa servi-los para a extração de alguns ensinamentos, quanto às conclusões meramente parciais, quando não deformadas, dos fatos e das palavras de que tomamos conhecimento. Ainda bem que estou sendo considerado apto para redigir este curto texto, sempre com o auxílio fundamental do grupo que constitui a minha classe nesta Escolinha de Evangelização.



21. ANA MARIA

Rapidamente consegui absorver os ensinamentos destinados a esta turma e passei a monitorar os colegas com maiores dificuldades.
Era eu melhor do que eles?
Certamente, não. Estava mais afeita aos temas evangélicos por ter sido estudiosa da doutrina espírita em vida.
Neste ponto do aprendizado, não posso dizer que esteja mais adiantada quanto aos pontos da matéria do programa, mas alcancei substancial reforço em outras áreas, já que me obriguei a participar, como ouvinte, de outras turmas, sempre que me vi liberada das tarefas desta classe.
Sou eu melhor que os outros?
Absolutamente, não. Estou progredindo mais rapidamente porque me dedico mais; e o faço por haver decidido que os meus problemas de formação moral bem como os débitos que tenho para com muitos seres têm de permanecer em suspenso, até que adquira conhecimento para empreender, junto a pessoal especializado, campanha em prol do benefício dos semelhantes.
Aí serei melhor que os demais?
Com certeza, não. Enquanto estou trilhando certa via menos espinhosa, meus colegas vão coletando o saber prático que me falta, de sorte que, lá na frente, iremos encontrar-nos em condições análogas de desenvolvimento.
Quanto tempo iremos demorar para atingir a encruzilhada?
Sabemos que o tempo aqui não importa, podendo transcorrer mais ou menos depressa que no campo vibratório dos mortais. Contudo, como muitos dos nossos credores se acham encarnados, devemos esforçar-nos para estarmos aptos ao socorrismo ativo dentro dos próximos cinco a sete anos.
Que tipo de assistência daremos aos recém-chegados?
Falo sem experiência, por ouvir dizer. Acredito que precisaremos, primeiro, estudar a cada um, verificando-lhes as necessidades imediatas, induzindo a aceitarem a vida na erraticidade como de maior perfeição que a da Terra. Depois disso, estudado o espectro espiritual, teremos que determinar até que ponto estarão preparados para caminhar sozinhos, o que sempre é preferível quando se tem certo domínio sobre si mesmo. Em caso de afecções graves, em que o sujeito se interna nas trevas, ficamos de mãos atadas. Por isso, é sempre oportuno chegar a ele enquanto preso à matéria, porque poderemos oferecer palavras de conforto e incentivo, como no caso destas mensagens psicografadas.
Quer dizer que um dos meus objetivos está centrado na possibilidade de atingir aqueles seres acima aludidos?
Se fosse possível, seria ótimo. No entanto, basta-nos, por ora, saber que o exercício está alcançando o êxito da transmissão. Leituras posteriores correrão por conta dos méritos da turma, da atualidade e do interesse dos temas que elegemos.
Se estou contente com o trabalho realizado?
Estou, mas estarão os editores e leitores? Vamos colocar tudo nas sábias mãos de Deus.



22. VERA

Gostaria de poder vir informar que, sob a influência do meu nome, adquiri em vida conhecimento profundo da natureza humana, porém, comigo não houve correlação entre nome e formação psíquica.
Fui pessoa de difícil trato social. Nascida paupérrima, sem arrimo intelectual dos progenitores para desenvolver o bom cabedal de inteligência com que a natureza me aquinhoou, notava o rigor com que a sociedade tratava os desafortunados.
Mercê de bem observar as pessoas, terminei empregando-me em empresa de médio porte, onde fui galgando alguns postos de trabalho, a partir da humilde condição de faxineira.
Ajudou-me, evidentemente, o fato de não ser feia, ou melhor, de ser bonita o suficiente para despertar o interesse de três rapazes, aos quais dei trela até que, finalmente, brindei o mais sagaz com o assentimento para o namoro, pelejando por manter-me fiel ao princípio de que ninguém iria aproveitar-se de mim, para depois me largar na rua da amargura.
Traço meu perfil psicológico com certa precisão, entretanto, não posso, para fazer jus ao nome, deixar de mencionar que engravidei antes de me casar. Mas Duílio demonstrou que me amava e me respeitava, assumindo o compromisso matrimonial, tornando-se excelente pai para os nossos três filhos.
Entretanto, a rebeldia que trouxe do berço não me abandonou e me tornei porta-voz do grupo de empregados durante as campanhas de reajuste salarial. Busquei a liberdade de realização e fiquei sob o império dos sindicalistas, que me ensinaram as manhas e artifícios para conduzir os operários à obstinação pela vitória de classe, sem que eu me desse conta de que havia muitos profissionais da greve fomentando as revoltas para obter lucros pessoais.
Tudo bem. Contudo, somente depois de ser despedida por justa causa, através de processo forjado pelos patrões, é que fui perceber que havia sido manipulada de forma vil e sub-reptícia.
Duílio se apurou no emprego mas, à vista das excelentes qualidades profissionais, foi mantido.
Naquela altura da vida, com os filhos entrando na fase da adolescência, os três dando-nos muitas alegrias pela facilidade com que aprendiam as matérias escolares, preferi cuidar da casa, onde podia exercer certa ascendência sobre as mulheres da comunidade.
Em breve, estava sendo arrebanhada pelo conselho do bairro para trabalhar em prol da melhoria das condições de higiene e saúde. Vou cortar a descrição das lutas que empreendemos, porque cairia nas malhas dos feitos materiais. Baste-me dizer que ajudei a comandar a invasão de diversas propriedades, forçando as entidades jurídicas a intervir, muitas vezes com ajuda policial.
Não morri de velhice. Aos quarenta e dois anos, recebi certeiro balázio no baixo ventre, esvaindo-me a vida em meio aos tormentos de revolta de cérebro que sempre bradou por vingança.
Para estar recebendo esta oportunidade de escrever, é justo que se conclua que superei a crise da morte, após muito sofrimento por não estar entendendo como é que, sendo Deus pai de misericórdia, podia permitir que um filho seu passasse por dissabores e desilusões, tendo os recursos para a interpretação correta dos eventos, sem o correspondente poder de atuação sobre os proprietários.
Mas o fato mais surpreendente que ocorreu comigo foi o de que, apesar de tudo, me vi bastante disciplinada para acatar as palavras de conforto e subordinação de certos seres que se apresentaram para resgatar-me das aflições em que jazia.
Valho-me da dissertação para realçar o fato de que não necessitei ingressar nas fileiras de nenhuma instituição espírita ou religiosa para surtir no etéreo em boas condições morais. É que me bati com lealdade em todos os reencontros com os ricos e seus representantes, ao contrário daqueles que almejavam apenas satisfazer a própria ganância.
Quer dizer que as pessoas não necessitam conhecer a doutrina espírita para se situarem em esferas de maior beatitude?
Negativo. O meu exemplo deve servir para levar o leitor à reflexão de que, caso eu tivesse tido a preocupação de conhecer a verdadeira condição dos seres encarnados, talvez não tivesse passado pela terrível fase de sofrimentos no umbral.



23. GERVÁSIO

Geralmente, os mensageiros trazem notícias para comover os leitores, no sentido primordial de torná-los predispostos a acatar as sugestões de mudanças de comportamento para melhor. Quando chegam com crítica ou azedume, tornam a escrita mais pesada e desinteressante, a ponto de não criar atmosfera de empatia (Kardec diria simpatia) capaz de incentivar sequer a leitura, quanto menos a reflexão.
Mas a exaltação das virtudes haverá sempre de condenar, ainda que tacitamente, os vícios e defeitos. Mesmo que solicitemos que Deus abençoe a todos (e somos sinceros e leais ao fazê-lo), ainda haverá quem duvide de ser alcançado pelo sacratíssimo desígnio, já que desconfia de não ser merecedor.
Fui exatamente assim enquanto vivi e até bem pouco tempo aqui na erraticidade.
— O que me fez mudar?
A própria crítica. O próprio azedume.
Queria conseguir esplendores de procedimento e reclamava de tudo, até do esforço para pensar sobre a solução dos problemas meus e alheios, solução necessária para a efetivação moral da boa qualidade em apreço.
Nem orava direito, cansando-me com a concentração nos termos e derivando o pensamento para os fatos corriqueiros da existência, esquecido de dizer as palavras com o real significado delas, descarregando-as, portanto, dos sentimentos que deveriam despertar.
Dou de mim, relato a minha experiência, refiro-me à minha personalidade, mas sei que muitos haverão de julgar que estou utilizando-me de simples artifício para pespegar o pescoção das recriminações subjetivas.
Gostaria de refrear esta enxurrada de pensamentos malsãos, já que nada ganho com a suposição de como será recebida a mensagem, mas me obriga o tema a desenvolver tais tópicos, que dão a impressão do pessimismo.
Ao contrário, é preciso evidenciar que o fato de haver superado o mal-estar moral me sustenta a vontade de prosseguir, para demonstrar que existe total possibilidade de regeneração ou de captação dos valores morais superiores, bastando que a pessoa trabalhe afincada e honestamente em prol do próprio aperfeiçoamento.
Caso se deseje conhecer a doutrina espírita, na esperança de conquistar saber que irá traspassar para o além-túmulo, devem-se ler as obras de Allan Kardec, a começar por O Livro dos Espíritos.
Pergunta obrigatória:
— Não deveria o autor esperar que tal leitura já deva ter sido efetuada por quem esteja dedicando-se a este texto?
Quando recomendo a leitura das obras da codificação espírita, estou entendendo que pode ocorrer que os leitores estejam aqui por acaso ou trazidos por meras circunstâncias implicantes em desaguamento natural, como os afluentes, nos rios principais, lagos, mares ou oceanos.
Uma coisa é certa. Saindo daqui para lá, jamais voltarão, que as águas só descem às nascentes quando o Sol as evapora.



24. JORGE

Raramente em vida me foi dada tanta responsabilidade quanto esta de escrever para os mortais. Valho-me da boa vontade dos companheiros e assumo destemido meu lugar junto ao médium.
Tenho para comigo que as coisas que estão passando-se no mundo atualmente sempre aconteceram em uma ou outra região. Agora, porém, os recursos técnicos à disposição dos meios de comunicação tornam os fatos mais presentes na vida de cada um.
No que concerne aos que estão na erraticidade, no entanto, nada mudou, já que têm consciência dos erros e dos acertos todos aqueles que, por uma razão qualquer, necessitam conhecer os episódios em que estão envolvidos os seres sob sua responsabilidade espiritual.
Mas quem estará apto a efetuar crítica verdadeira, honesta e cabal a respeito dos caminhos e descaminhos da humanidade? Apenas os responsáveis pelos destinos das nações ou pelo desenvolvimento global das criaturas nas esferas contíguas, a material e a espiritual.
— Jesus, pergunto eu, está acompanhando os fatos que põem em perigo a existência de vida no planeta?
Alguém duvida disso?
— Por que, então, não interfere?
Interfere, sim, enviando missionários de luz para influir positivamente sobre as reflexões de seus pupilos, mais ou menos influentes no meio social e político em que atuam.
— Podemos inferir que a maldade, latu sensu, também é insuflada nos ânimos dos que se predispõem a praticá-la?
Não com o mesmo poder que têm os mensageiros de Jesus sobre os bons, mas com surpreendente efeito no ânimo dos perversos.
Acho que não resta muito mais a dizer, a não ser que meu objetivo não é o de levar os leitores a meditar a respeito dos fatos sobre que não conseguem vistoria. É sim o de sugerir que cada qual perceba se sua participação social e política está sendo rigorosamente padronizada pelos conceitos da virtude e pelas leis do amor, do perdão e da justiça.



25. ANTÔNIO

Seguindo na esteira do colega Jorge, venho para exemplificar, através de minha própria vida, como é que me transformei e pude realizar alguns atos em favor do progresso de alguns irmãos.
Antes de citar o meu caso, devo dizer que esta é a história mais corriqueira por estes lados, já que aqui o dever de auxiliar, de ajudar, de socorrer se impregna na consciência de quantos vão aprendendo as mínimas exigências para que o indivíduo seja feliz.
No orbe, muitos se encontram perfeitamente adaptados às condições que a vida lhes estipulou, muito embora pudessem fazer bem mais em prol dos semelhantes. No etéreo, a própria adaptação se condiciona ao bem que se realiza.
Pois eu me achava numa situação de muito conforto, possuindo mais que a grande maioria da população. Soube depois que a minha sorte não estava programada, porém, ocorreram duas tragédias na minha vida, amargando-me a alma, a ponto de pensar em suicídio. Somente fui capaz de vencer a tentação ao reconhecer que meu gesto feriria com mais um golpe muitos outros elementos da família.
Está claro que, ao chegar de volta, me preocupei em saber se a decisão de sustar o ato de destruição me fora sugerida e por quem. Logo se apresentaram os amigos da espiritualidade, que me fizeram recapitular aquelas passagens tenebrosas, para contemplar o que na época me fora vedado, ou seja, as lutas entre forças antagônicas que me puxavam para um e outro lado. Salvou-me a minha tendência a sentir a vida como dádiva de Deus, o que me levava a ser bondoso e caritativo.
Transformei-me no sentido de não perder nenhuma oportunidade de ajudar os semelhantes, ainda que com sacrifícios e certa perda de poder aquisitivo, já que deliberei trabalhar meio período no comércio que mantive, reservando a outra parte do dia para estar junto a uma equipe de médicos e outros profissionais que atendiam aos acidentes na estrada. Eu servi na qualidade de motorista de ambulância.
Sabemos que nossos esforços representam muito pouco perante a profundidade das considerações dos autores consagrados, no entanto, como disse Jorge, não podemos dispensar esta oportunidade valiosíssima de sentir como é que as nossas idéias e sentimentos se evidenciam por meio da mediunidade.
Se não tivermos sido suficientemente claros ou se a nossa contribuição não se constituiu em reforço para a deliberação de melhoria dos leitores, ao menos, então, que fique registrado que estamos concentrados em oração para influir telepaticamente junto aos que têm o poder de debelar os males que estão assediando as almas.



26. ADELAIDE

Recebi uma incumbência agradável: a de me despedir do grupo porque fui aquinhoada com o maior de todos os prêmios. Vou partir com grupo de irmãos socorristas para atender aos apelos de salvação recebidos do fundo das trevas.
Como aprendiz, terei de obedecer às ordens de um dos membros efetivos, o qual corresponde ao instrutor no campo de preparação para soldados. No entanto, em sequer um milímetro, a minha responsabilidade é menor que a de qualquer outro.
Para atingir esta excelsa meta de trabalho espiritual, precisei de mais de trinta anos de treinamento e de estudos, sem nenhum resquício de especialização. Aprendi o básico e vou sair em incursão ainda bem perto da área do umbral em que se situa nossa colônia. Esta primeira experiência visa também a definir a área sobre que irei dedicar-me com mais afinco, numa espécie de residência médica, como as que se dão nas faculdades de Medicina.
— Haverá algum apelo a ser atendido por parte de espíritos infelizes pertencentes ao meu círculo familiar ou de amizades?
Não. Iremos colher irmãos em condições de internamento na ala médica, irmãos com boa visão da condição existencial em que se encontram, apenas ainda não despertos para a necessidade de melhoria no sentido de satisfazerem o princípio do perdão.
— Existem casos de falhas de percepção das reais condições desses espíritos, a ponto de serem devolvidos ao ambiente de sofrimento de que foram resgatados?
Existem uns poucos. O que mais ocorre é de os mais sorrateiros escaparem durante o transporte, quando ainda a caravana se encontra no meio ambiente em que são muito mais fortes as vibrações do mal compatíveis com as dos socorridos.
Nenhum companheiro desta classe irá acompanhar-nos. Entretanto, estou sendo homenageada sem nenhum sentimento de inveja, muito embora seja esta minha façanha o alvo de todos. Recebo congratulações cheias de puras energias, enquanto me fazem prometer que lhes farei completo relatório ao retornar.
Para finalizar, devo referir-me ao fato de que não assimilei completamente os ensinamentos morais, sabendo discorrer sobre todos, sem apresentá-los, contudo, integrados à personalidade. Digo isto para que não se estimule a expectativa de que minha mensagem possa conter instruções de superior quilate, como se fora eu espírito de luz.
Gostaria de receber o título de seareira do amor ou de trabalhadora do bem, da mesma forma que tentei impregnar esta comunicação de simplicidade para emular os leitores.
Aos meus colegas de classe, o meu abraço fraterno. Fiquem com Deus!



27. SAMIRA

Foi muito difícil para mim adaptar-me às regras de procedimento evangélico deste grupo de trabalho escolar. Indisciplinada desde sempre, nas três últimas encarnações resolvi sair do círculo da religião islâmica, cansada das limitações impostas sobre a liberdade individual.
Note-se que as duas primeiras encarnações dessa série vivi como homem, também havendo alternado o sexo anteriormente.
Quer dizer que não progredi durante os últimos séculos?
Poderia ter crescido muito mais espiritualmente, se me tivesse dedicado a realizar o bem, apesar do desconforto do sistema. No entanto, estive muito mais concentrada em mim mesma, desejando esvoaçar livre para sonhar romanticamente, elaborando planos de vida que se constituíam em verdadeiras fugas das tarefas do dia-a-dia.
Não cheguei a perder-me moralmente, fiando-me no meu discernimento quanto às iniciativas junto às pessoas com quem me relacionava. Na qualidade de homem, vivendo no Brasil, resolvi que a constituição de família não poderia depender de amarras ou algemas. Em suma, por influência do hábito enraizado nos tempos da religião maometana, mantive a poligamia como norma. Na qualidade de mulher, presenciei a minha íntima transformação, à vista de ter-me unido a um indivíduo infiel.
Tenho de suspender por aqui o relato dos fatos meramente carnais. Trata-se de história vulgar e sem moralidade.
No etéreo, quando regressei da derradeira peregrinação foi que compreendi que estava cega para o verdadeiro amor. Tinha ao redor pessoas que sinceramente gostavam de mim, nutrindo eu por todas afeto distante, mesclado de desgosto pelas recordações nem sempre gentis. Nos embates naturais dos interesses humanos, qual o pai que não repreende o filho e qual o filho que, a seu tempo, de alguma forma, não revida?
Precisei entender que a minha liberdade representava para muitos o cerceamento das atividades, como ocorreu muitas vezes em que não aceitei as sugestões intuitivas dos protetores.
Em suma, para não estender-me além dos limites impostos para estas comunicações, devo dar relevância à necessidade de o próprio indivíduo impor-se censura, fundamentado nas lições que Jesus disseminou pelo mundo. Uma vez estabelecidos os princípios da caridade e do amor, o mais é trabalhar com empenho pela felicidade dos semelhantes, ainda que sejamos rejeitados, tendo em vista que muitos não se conformam em permanecer honestos.
Última informação: estou reivindicando nova oportunidade no campo material. Se possível, vou querer voltar como mulher para testar-me em sociedade em que o sexo feminino está em franca ascendência social. É prova muito arriscada, porém, espero amadurecer no sentido de fazer prevalecer as virtudes sobre os vícios.
Não é assim que muitas de minhas leitoras se sentem?



28. DURVAL

Meu maior problema quando encarnado era puramente intelectual. A vida transcorreu-me serena e feliz. Tive todas as oportunidades de meditar a respeito do além-túmulo, orando muitas vezes para ser inspirado ou para recordar-me da existência na erraticidade.
Sempre achei que não seria capaz de compreender a verdadeira natureza dos espíritos, mesmo se, didaticamente, me houvessem explicado por via psicográfica. Não era médium nem intuitivo. Li imensa quantidade de obras pertencentes à literatura espírita, entretanto, não aceitei nenhuma orientação filosófica no sentido de imaginar como seria a segunda natureza humana, o chamado duplo etérico.
Sabia que o espírito é alguma coisa, como se diz em O Livro dos Espíritos , e passei a conjeturar se não seria algo como uma energia, uma vibração, um fluido divino, um plasma, sempre esbarrando com os conceitos hauridos da materialidade do universo em que estava imerso. Cheguei a considerar a possibilidade dos campos e das ondas eletromagnéticos e de outros tipos, sem, contudo, fixar um princípio puramente espiritual.
Outra dificuldade foi a de entender o que vinha a ser perispírito ou corpo espiritual. Não que eu não entendesse que se tratava de uma veste sutil adequada ao ambiente da esfera de atuação, podendo conceber diferenças entre os corpos dos felizes e dos sofredores. O que não me entrava na cabeça era a contextura energética dos tecidos fluídicos.
O mais interessante é que me supunha no etéreo, habitando uma colônia espiritual, com aparelhos desenvolvidos a partir dos elementos existenciais correspondentes àquela esfera, mas não via como pudesse vir a conhecer o âmago de mim mesmo enquanto criatura provinda das mãos de Deus.
Caminhei pela física elementar, chegando aos átomos e aos elementos de sua constituição. Passei pela fissão nuclear mas estacionei definitivamente na compreensão do que seria o fulcro da matéria. Mesmo aqui, já entrosado no campo etéreo, com perdão da nomenclatura inexata, ainda trago comigo o sentido da incapacidade de dominar o saber estrutural dos elementos primários que constituem a matéria, bem como dos que participam da formação deste setor da erraticidade a que denominamos de Umbral. Não direi Umbral Exterior para não confundir a mente dos leitores, mas a verdade é que estamos chegando à região limítrofe com a próxima morada.
Isto não significa que não teremos de volver ao orbe terráqueo. Significa apenas que a consciência da hora e do lugar nos possibilita concluir com mais eficácia quais são os itens que deveremos aperfeiçoar para merecer partir para um mundo menos denso.
Não sei se minha dissertação fez algum sentido, no entanto, considerei que seria muitíssimo bom esclarecer que não dominamos todos os conhecimentos, para não dar a impressão de que o poder intelectual dos recém-chegados da peregrinação carnal se sublima e a gente adquire total permeabilidade para a sabedoria.
Finalmente, a minha suspeita de encarnado se confirmou plenamente, porque, tendo a escola recebido a visita de um espírito superior, não compreendi quase nada do que ele nos passou em valiosíssima exposição eivada de termos técnicos. Ficou-nos a sensação do amor que disseminou por todo o auditório e da competência no tratamento dos temas, induzindo-nos a estudar com mais afinco.
Se estou parecendo a alguns possuir cabedal científico de bom quilate, valho-me da oportunidade para sugerir que os estudos das obras básicas do espiritismo se faça no recesso do lar e nos ambientes resguardados dos centros espíritas, sem que jamais haja qualquer resquício de esmorecimento, já que a perspectiva que se abre à medida que se vão aprendendo os conceitos é a de que a compreensão do universo e da criação haverá de reservar-se para esferas muito acima dos nossos círculos intelectuais.
— Quer dizer que os estudos científicos não são concludentes?
Quer dizer que os estudos científicos abrangem o universo material e se satisfazem com isso. Entretanto, os aspectos envolvidos nos campos extra-físicos vão necessitar de novos conhecimentos e de novas metodologias.



29. EURICLÉIA

Recomendaram-me que fosse breve, o que me leva a pensar que confiam em que possua largo saber. Na verdade, sou muito ignorante e só me arrisco a escrever porque sei que sou ajudada, a ponto de não permitirem passar informação descabida ou prejudicial.
Servirei, portanto, como exemplo vivo de que as pessoas analfabetas e incultas, mercê da bondade do coração e do desvelo para com todos os necessitados, também conquistam lugarzinho de boa harmonia para curtir a felicidade do parco progresso que realizaram.
Fui pessoa de cor negra e sempre estive ligada a uma família de brancos que cuidou de mim desde bem pequena. Deram-me condições de viver em paz com meu marido e meus filhos. Na minha posição humilde, entreguei-me de corpo e alma às tarefas domésticas, havendo até doado de meu próprio leite ao filho da patroa.
Hoje em dia não encontro muitos criados com o mesmo espírito de abnegação e sacrifício. Pelas mentes dessas pessoas passa sempre a idéia dos direitos ao lado das obrigações. Não vou recriminar ninguém, contudo, se houver crescimento do ódio e da vontade de desforrar-se das pessoas mais ricas e poderosas, também haverá entreveros de consciência, na hora certa.
Comigo nem todas as coisas foram muito tranqüilas, uma vez que, durante alguns anos, estabeleci comparação entre o que possuíam os meus filhos e os filhos do patrão. Não cheguei a encher-me de inveja, mas devo confessar que me passava pela cabeça a idéia de que Jesus deveria distribuir melhor as coisas boas do mundo.
Claro está que agora sei reconhecer que existem provações de todo tipo, para os miseráveis e para os opulentos. Contudo, naquela época, não deixei de estremecer quando, por ocasião do passamento de um dos filhos do patrão, me surpreendi agradecendo a Deus o fato de não ter sido um filho meu.
Foi aí que me dediquei mais seriamente aos trabalhos de caráter mediúnico, tendo levado a patroa ao centro espírita, a pedido dela, para que pudesse obter comunicação do filho.
Exatamente dez anos depois, coube a mim colher a minha dose de sofrimento com a morte de meu marido, atropelado por veículo na via pública. Senti tanta dor que acabei adoecendo, livrando-me da morte os cuidados médicos patrocinados pelos patrões.
Viúva, acabei juntando-me com outro homem, espírita do mesmo centro, pessoa muito bondosa que soube compreender o meu luto e a minha saudade. Bem que ele quis que deixasse o emprego, mas meu coração não me permitiu sentir o desprazer de ver-me acusada de desconsideração. Dessa forma, somente deixei os patrões após a morte dos dois.
Uma última tristeza fez-me ver que as pessoas agem de acordo com padrões atualizados, uma vez que o herdeiro que ficou com a casa não quis dar emprego à minha filha, preferindo uma criada branca. Mas eu estava bastante curtida no espiritismo para saber que, no etéreo, as coisas se ajustam uma hora ou outra.
É melhor parar por aqui. Reconheço que, se me deixarem à vontade, irei bem longe. Em todo o caso, fique o meu alerta para o dever que se assume com os compromissos sociais e morais: que se cumpra a obrigação com alegria e boa vontade; e que se lute por melhorias para todos, desde que não se encham os corações de ódio ou de soberba.
Em qualquer caso, quando a pessoa se sentir afetada por sentimentos que considere indignos, que abra a porta das preces, solicitando por luz e por amparo espiritual de seus benfeitores.



30. ANABELA

Fui uma cristã consciente de que a vida se prolongaria após a morte. Por isso, assim que pude freqüentar um centro espírita, dediquei-me à mediunidade, recebendo comunicações psicofônicas variadas.
A minha lição mais bonita se conteve numa palestra curta de meu protetor, que me esclareceu que a maior glória das pessoas é dar vida a seres necessitados de encarnação. No entanto, dizia-me ele, ainda mais felizes são os pais que recebem os filhos de volta à erraticidade.
Beirava eu os cinqüenta anos quando recebi tão notável mensagem. Os restantes trinta e dois anos vivi no temor de ver algum de meus sete filhos falecer antes de mim. Tal não ocorreu, de sorte que cada um que chegava me encontrava à sua espera, todos eles com idade avançada e todos lúcidos quanto ao passamento e ao local onde seriam recebidos.
Constatei, assim, que, de fato, a mensagem tinha descrito rigorosamente a augusta felicidade e alegria desses momentos fortemente sentimentais.
Outra idéia que me ocorreu ainda encarnada seria a de me esforçar para participar de alguma equipe de socorristas que recebesse criaturas cedo colhidas no campo da vida, de modo que não tivessem a esperar por elas senão conhecidos de outras encarnações. Pensava que a recepção por pessoas neutras, por assim dizer, ou seja, pessoas cujas vibrações de afeto não passassem de mero exercício do amor universal a que todos temos de aspirar, seria melhor do que se fossem assaltadas por ondas de ódio e malquerença de inimigos antigos ou recentes.
Eis o motivo de estar neste grupo de aprendizes, já que tomei consciência de que, para o efeito visado, necessitava de especialização, dado que a responsabilidade dos socorristas é muito grande, perante a sensação que devem transmitir de que a justiça divina está realizando-se, ainda quando o recém-chegado porta os sonhos não vividos de suas aspirações mundanas.
Aponto também para a minha antiga presunção de que, assim que pudesse, iria comunicar-me com os encarnados para reproduzir a belíssima lição de vida de que fui alvo. Por isso, agradeço muito aos irmãos instrutores e mentores esta oportunidade, na esperança de que venha a ser lida e compreendida por muitos encarnados, máxime pelos que temem não merecer a compaixão dos espíritos que um dia ofenderam.
Se outro não for o objetivo destas comunicações, que, pelo menos, alcancem levar aos humanos um pouco de conforto e de paz, e um enorme alerta para a necessidade de se compreender a existência como um continuum, em que a morte significa apenas momento de transição. E que tenha o condão, também, de manter a esperança de salvação a todos quanto vêm praticando o bem ou comecem a praticá-lo a partir desta notícia.
Este será o próximo fator de felicidade que pretendo vivenciar futuramente.



31. LARA

Ao contrário de Anabela, cheguei cedo deste lado, sem pais para me receberem, não tendo deixado filhos na crosta. Também não me dediquei a aprender nenhuma religião nem me dispus a participar de qualquer voluntariado. Iludi-me com o poderio do intelecto e associei-me a grupo de anarquistas materialistas, junto ao qual busquei obter o sentido mais primitivo da liberdade, como se fosse possível ao homem viver longe de seu grupo natural.
Imaginava-me leão na savana, rei dos animais, ninguém a intimidá-lo, até que faleci vítima de doença contagiosa.
Quero deixar claro que não parti sem sofrimento. Se tivesse sido coerente comigo mesma, teria sabido estabelecer para o mal a configuração do imponderável fruto da vontade, como se fora mais um elemento de liberdade, ao menos do corpo que me oprimia. Ao invés disso, procurei a cura para a moléstia, desesperadamente.
No etéreo, ao ser recebida por grupo de socorristas, predispus-me a segui-los e a atendê-los em tudo. Não que houvesse aprendido a lição, mas porque me veio à recordação as anteriores estrepolias e correrias pela erraticidade. Fiquei com medo, simplesmente.
Ainda agora não me sinto totalmente sossegada, especialmente porque não sei se vou conseguir sugerir que este grupo também aceita criaturas não totalmente pacificadas, mas com alto índice de aprovação por parte dos colegas e professores.
A qualidade que desenvolvi ultimamente para ser agraciada com esta recepção amorável foi a do arrependimento sincero, muito embora isto não signifique que haja rastejado perante os inimigos. É que, se eles não conseguiram perdoar-me, não tiveram desenvolvimento moral capaz de compreender o encadear de causas e efeitos que geraram as desavenças entre nós.
— O que tenho feito em favor deles?
Tenho orado muito e procurado entrar em contato com seus benfeitores, para oferecer a ajuda fluídica de que sou capaz. E também tenho garantido que irei ressarcir todos os débitos através de muito trabalho, quando chegar a hora de estarmos frente a frente.
A mais importante ação que venho praticando, quando tenho oportunidade, é a de amparar espiritualmente as pessoas a quem aqueles seres estão afetivamente ligados. Faço-o apenas para demonstrar boa vontade, embora saiba que tal atitude tem sido levada à conta de malícia e subversão. Enfim, a minha consciência me pede para realizar o máximo possível em favor de todas as criaturas mais necessitadas que eu.
Fiz questão de levantar o problema da má receptividade dos atos de bondade, porque, em discussão com os companheiros, chegamos à conclusão de que o mesmo pode ocorrer em relação a estes textos, segundo a capacidade de interpretação dos humanos com suficiente cabedal para articular leitura crítica dos tópicos aventados.
Houve um ponto em que fui voto vencido, qual seja, o de que opinei que esta pequena obra não iria ser lida por mais de vinte pessoas, ainda que fosse divulgada através de várias páginas na Internet. Crêem os colegas que, uma vez formada uma aura de seriedade em torno das obras da Escolinha de Evangelização, haverá significativo aumento de leitores em busca de conhecimentos e de comentários de caráter espiritista.
Acho que demonstrei o quanto ainda mantenho daquele meu primitivo desejo de liberdade, apesar de controlada e sistemática.



32. EPITÁCIO

Rememorando a minha época de juventude, gozo novamente com as doces e agradáveis leituras que realizava. Foi esta uma das grandes conquistas da romaria terrestre. Aprendi a apreciar a inteligência alheia, ainda que nem sempre inteiramente voltada para as recomendações evangélicas.
Hoje em dia, visito muitos locais em que as pessoas decidem a respeito do que imprimir e divulgar e noto grandes disparates entre os que só aceitam o descalabro e a imoralidade e os que primam por não permitir aos textos qualquer conotação mais apegada à realidade dos infelizes e miseráveis.
Todos se estimulam por ganhar dinheiro, almejando alcançar vendas expressivas e lucros para si mesmos ou para suas empresas, porque têm compromissos para com as pessoas a que atendem. A partir desse princípio, fazem concessões à mediocridade, para dizer o mínimo. Quando se aventuram em empreendimentos mais cultos ou eruditos, dão-se ao cuidado de avaliar o quanto de aceitação popular têm os autores ou os títulos. Especialmente, jamais enveredam pela aplicação de grandes recursos, testando as obras junto a corpos críticos de confiança, aceitando-lhes os conselhos nem sempre abalizados.
Minha atividade de adulto se restringiu à Medicina, de sorte que o período das leituras prazerosas inicialmente se limitou aos tesouros literários dos escritores do século dezenove. Esta delimitação romântica, contudo, não deve ser levada à conta de insuficiência conceptual, porque me obriguei a complementar a formação cultural na velhice, lendo os clássicos e os modernos, devo dizer, com muita satisfação. O que não fiz foi escrever.
Agora, perante este tentâmen fraternal do Grupo das Pequenas Agruras e à vista de algumas considerações pessimistas, atrevo-me a vir expor o meu pensamento, sustentando que nossas páginas não congregarão junto a si significativa quantidade de leitores, ainda que haja editor que se atreva a arriscar suas moedas em tiragem limitada. No entanto, apesar de tudo, arredondo o texto e busco realizar dissertação que pode ajudar a meditação das pessoas preocupadas em servir o melhor que possam aos semelhantes, segundo seu campo de atuação.
Falamos aqui de muitos assuntos, a partir de discussões de caráter filosófico e religioso. Passamos pelas experiências de muitos colegas, todos com características próprias bem definidas. Buscamos não cair no ramerrão dos casos escabrosos e das acusações de consciência. Em suma, não quisemos fazer sensacionalismo com as notícias sempre terríveis do báratro. Também não doiramos a pílula, conforme os textos de tonalidade cor-de-rosa das novelas femininas. Burilamos a realidade, dando-lhe a impressão da verdade, qual seja, a de que os acontecimentos sempre resultam em reflexões e atitudes individuais.
Eis aqui o meu desenvolvimento. Nada de muito profundo nem sagaz, mas, com certeza, absolutamente sincero e atual. Quedo na expectativa dos raciocínios que se promoverão a partir de cada manifestação nossa.
Muito obrigado. Fiquem com Deus nos corações!



33. FELISBERTO

Cabe-me a incumbência de encerrar o ciclo das apresentações pessoais.
O meu simples comunicado se dirige aos amigos que não se habituaram ainda com os escritos de cunho mediúnico. Eu mesmo, durante minha curta existência corpórea, apenas consegui ler três obras dessa espécie, todas muito bem escritas. Todavia, apesar de espiritista convicto, ou por isso mesmo, não dei muita importância aos enredos e observações morais nelas contidos. Preferia trabalhar no centro auxiliando em todas as iniciativas de amparo aos que buscavam por esclarecimento ou por ajuda material.
Lembro-me perfeitamente de um raciocínio que dominou minha mente nos derradeiros anos de vida:
— Que importância tem o fato de a obra ser psicografada, se não trata apenas de temas importantes do ponto de vista da espiritualidade? Se tratar e vier em forma de romance, por certo falseará a realidade da esfera superior, já que a transmissão exata dos fenômenos extra-físicos onerará sobremodo o escrito, tantas haverão de ser as explicações técnicas ou as comparações inevitáveis.
Atualmente, modifiquei um pouco aquele ponto de vista, pelo menos quanto ao fato de que os textos provindos da erraticidade devem merecer certos cuidados teóricos e doutrinários, já que os mensageiros podem conduzir para uma leitura subjetiva e pessoal, orientando os humanos na fixação de suas próprias suposições, sempre no sentido de querer encontrar transformado em notícia seu desejo de superação das dificuldades expostas nas obras básicas quanto à ascensão moral dos indivíduos.
— Qual o remédio mais eficaz para a compreensão das mensagens, caso não se tenha a possibilidade de amplas discussões em grupos de estudos que contem com pessoas mais experientes e mais cultas?
Simplesmente ler várias vezes cada texto, buscando concentrar-se nos pontos que gerarem maiores dúvidas e descrédito. Também, estimular o raciocínio a descobrir a razão psíquica que leva à aceitação imediata das assertivas. Em suma, realizar profundo trabalho de reflexão e análise, em função das modificações que se podem dar no âmbito dos conhecimentos e dos procedimentos.
— Tais providências servem para todos os textos, considerando a existência de verdadeiras aberrações?
Principalmente em relação a estes últimos, uma vez que, uma hora ou outra, seremos instigados a oferecer subsídios críticos para futuros leitores. Aí, é preciso não cair na armadilha dos julgamentos apressados. Se afirmarmos que tal texto é mau, teremos de justificar racionalmente e não sentimentalmente o parecer.
Como acicate final, vejo-me forçado a inquirir se este mesmo texto se apresenta em condições de ser dado a conhecimento público, por seu equilíbrio, pela harmonia das partes, pela oportunidade do tema.
Fiquem nas misericordiosas mãos do Senhor!



ENCERRAMENTO

Da mesma forma que a introdução, vamos encerrar de maneira simples e direta.
Apenas uma observação.
As dissertações iniciais, aparentemente, destoaram dos depoimentos. Entretanto, recomendamos que se leiam umas e outros com redobrada atenção, porque todas as mensagens contêm referências a procedimentos embutidos nas almas que merecem ser investigados a partir de um ponto de referência.
Agradecemos a atenção de todos e pedimos ao Senhor que abençoe os amigos leitores.
Graças a Deus!

Indaiatuba, de 11/09 a 07/11/01.
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