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Contos-->NOTA DE RODAPÉ -- 28/05/2008 - 06:11 (Ivone Carvalho) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
NOTA DE RODAPÉ
(Ivone Carvalho)

Ele saiu cedo de casa. Não quis sua companhia. Alegou necessitar distrair-se um pouco, sentir vontade de pegar o carro sozinho, rodar sem destino, quem sabe ir até a praia, apenas para espairecer. Sequer levou roupa de banho, mas saiu vestido confortavelmente de forma a poder parar onde sentisse vontade.

Passou o dia todo fora, retornando ao lar pouco antes do anoitecer. Chegou com a fisionomia alegre, estava tranqüilo, mas preferiu não conversar. Tomou um café que ela acabara de fazer, acendeu um cigarro e foi para o quarto que usava como escritório, contíguo ao dormitório.

Ela sabia que por algumas horas ele não apareceria, sequer para outro café. Com toda certeza já estaria sentado diante do computador. Jamais escondera sua compulsão por escrever. Aliás, ela era tão somente mais uma das suas grandes admiradoras, pois ele já se tornara um escritor conhecido e até assediado pelas mulheres que se deslumbravam ao ler seus romances e suas poesias.

Era comum ele chegar em casa comentando sobre as pessoas que o abordavam na rua ou nos bares e restaurantes onde se reunia, vez ou outra, com amigos, rogando-lhe que declamasse seus belos poemas românticos.

A diferença, agora, é que ele saíra de casa pela manhã insistindo em não dar qualquer satisfação sobre o seu destino, passar o dia todinho fora de casa e, ao chegar, manter-se calado. Na verdade, sequer olhara para ela! Simplesmente tomou o café e dirigiu-se ao escritório em total silêncio.

Isso tudo a deixou pensativa, realmente intrigada. Analisou, rapidamente, as suas atitudes dos últimos tempos e não se lembrava de nada mais grave para despertar qualquer suspeita de alguma mudança nos sentimentos dele. Concluiu que estava enganada, que não deveria se preocupar e decidiu sentar-se na sala e assistir televisão para dissipar os pensamentos que persistiam em sua cabeça.

Algum tempo depois, muito antes do que ela previa, a porta do escritório se abriu e ele, ainda calado, passou pela sala e se dirigiu para o portão. Surpresa e imaginando que ele fosse sair novamente, olhou pela janela, notando que, com as mãos nos bolsos, estacionara no meio da garagem e contemplava o céu prateado por maravilhosa lua cheia. Tinha um sorriso nos lábios e ela seria capaz de jurar que ele murmurava algumas palavras.

Inquieta e querendo entender o que se passava, ela foi até o escritório e, rapidamente, leu, no computador, o texto que ele acabara de redigir. Era o relato de um dia fora de casa, um passeio à beira da praia, um almoço regado a vinho, uma tarde tranqüila, tudo aparentemente sozinho. Após o texto, uma poesia. Aliás, uma bela poesia! - pensou.

Sentir-se-ia aliviada e até feliz, com o relato que acabara de ler e com o poema que lhe dava a oportunidade de imaginar que havia sido composto para ela, se não fosse a nota de rodapé escrita abaixo da poesia.

- Por que aquela nota? - perguntava-se. O que ele teria querido dizer com aquela observação?

Leu novamente o poema e a nota de rodapé. Não dava para entender! Por que? Qual o significado daquelas palavras? Tornou a ler mais duas ou três vezes, inconformada.

De repente, ouviu a porta da sala se abrindo e disfarçou rapidamente, entrando no quarto ao lado do escritório. Recostou-se na cama, olhando para o nada, sem conseguir tirar da mente aquela nota escrita abaixo da poesia. Sentiu os olhos marejarem. Queria entender!

Ouviu quando ele entrou novamente no escritório, desta vez, sem fechar a porta. Podia ouvir os seus dedos ágeis trabalhando sobre o teclado do micro.

Sem esquecer o que lera, realmente intrigada, decidiu levantar-se pouco depois. Trocou de roupa e penteou os cabelos. Notou a luz do escritório apagada e o computador ainda ligado. Foi procurá-lo. Ele adormecera na rede disposta na varanda.

Ela precisava reler aquele texto, a poesia e a nota de rodapé. Encontrou mais um poema, lindo como sempre. Subiu totalmente a tela, mas foi logo procurando a poesia anterior.

- Inegavelmente, pensava enquanto lia e se embevecia com a sua sensibilidade, ele é um grande poeta!

Mas... e a nota de rodapé? Não estava mais ali! Tinha sido, simplesmente, deletada!

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