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Contos-->QUANDO O AMOR NÃO ACABA -capítulo XXVI -- 02/09/2008 - 18:27 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XXVI

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-- Sabe onde eu quero ir? -- perguntou Diana, no dia seguinte por volta da nove e meia diante do prédio onde dormia e trabalhava.
Lembro-me que ela calçava botas, usava uma saia marrom, uma blusa com detalhes em verde. Ao contrário da noite anterior, estava extremamente sexy, como se procurasse reforçar sua sexualidade, como faz toda fêmea diante do macho, daquele que a transformará num terreno fecundo e frutífero. Aliás, se essa foi sua intenção, mesmo que inconsciente, seus objetivos foram alcançados, pois, ao vê-la vestida assim, desejei-a tanto quanto da primeira vez em Santa Paula, quando sob o efeito do álcool, deixei-me levar pelos instintos. A vontade de tomá-la nos braços, de beijá-la, de arrastá-la para aquele cubículo do outro lado da porta e percorrer seu corpo com minhas mãos e meus lábios quase me fez assemelhar-se àqueles rapazes que mentem para suas namoradas com a única intenção de seduzi-las. Sua pergunta veio a calhar, quando mais eu precisava de algo para despistar a minha atenção.
-- Não. Onde?
-- Sabe onde era a antiga rodoviária?
-- Sei. Antes de ir embora, cheguei a pegar com a minha mãe o ônibus para Santa Paula várias vezes – expliquei, recordando das inúmeras vezes em que ficávamos diante da plataforma a espera do ônibus.
-- Tem uma galeria ali onde tem um barzinho super romântico. Queria ir contigo até lá.
-- Então vamos.
Tomamos o ônibus até a Avenida Rio Branco e descemos no Parque Halfed. Diana queria parar comigo naquele parque, sentar no banco e ficar namorando antes de irmos para o aquele barzinho.
Confesso, querido leitor. Não me entusiasmei muito com idéia de sentar no sob alguma daquelas enormes árvores do parque. Embora este seja um dos encantos de Juiz de Fora, não me recordo de ter parado ali anteriormente. Aliás, quando ai à cidade na infância, era para consultar um médico, ir ao dentista, visitar meus avós ou fazer compras; nunca por lazer. Talvez por isso até então o parque Halfed me tenha sido apenas um local como qualquer outro de Juiz de Fora. Contudo, após aquela noite, passei a vê-lo de uma forma totalmente diferente. Não só por ter passado alguns momentos ali com Diana, mas pela própria beleza do lugar, que só me encantou naquela noite, como teria encantado um turista. Embora também eu não passasse de um turista.
Como o leitor há de recordar, eu procurava não falar muito da minha vida com Diana. Não me sentia confortável falar do meu dia-a-dia, pois era inevitável não lhe contar sobre minha namorada. Embora ela soubesse do meu namoro com a Luciana, falar sobre ela deixava-me extremamente constrangido. Dir-se-ia pedir para alguém falar de seu passado vergonhoso. Eu me sentia como se me desnudasse em público. Todavia, Diana parecia querer saber cada vez mais sobre a minha vida em Santos.
Falei dos estudos e do trabalho, mas até isso me foi penoso, pois a imagem de Fabiana, de como de certa forma fui o responsável por sua morte, pesou-me no coração e o prazer de estar ali com minha amada deu lugar a um desejo cada vez mais crescente de fugir, ir para outro lugar. Talvez por isso, eu a tenha chamado para irmos ao tal barzinho.
-- Aposto como você vai adorar – disse-me ela, enquanto caminhávamos pela calçada da Avenida Rio Branco.
Até o momento não me passara pela cabeça como ela conhecia aquele local. Se era um local onde os namorados costumavam freqüentar, isso quer dizer que ela só poderia ter ido ali acompanhada de algum rapaz? Todavia, antes que ela me esclarecesse, tais dúvidas me assaltaram. “Terá ela ido ali com algum namorado? Trocado carícias, feito juras de amor? Deitado no ombro dele, declarado que o amava? Talvez tenha só passado por ali, ouvido de amigos acerca daquele local, ido com amigos somente. Mas como vou ter certeza? Também, o que importa isso agora? Não faz mais diferença. Além do mais, o que está feito, está feito, não pode ser modificado. O que importa é que ela quis me trazer aqui, quis compartilhar este momento, este local comigo, talvez para relembrar quando eu tiver mais uma vez partido, deixado-a na saudade”, foi o que pensei.
De fato era tal qual Diana dissera. Era um espaço pequeno (aliás, como pareciam ser todos os estabelecimentos naquela galeria), com meia duzia de meses no andar térreo. Contudo, jazia uma escada, cujos degraus levavam para um salão superior. Diana me guiando, fez-me subir por aqueles degraus. Na parte superior pude notar que o espaço, apesar da pouca luz, era mais amplo, com uma maior quantidade de mesas. Aliás, a maioria delas ocupadas.
Encontramos num canto, uma mesa desocupada.
-- Que tal aquela? -- perguntou-me apontando para a mesa.
-- Por mim está ótimo – respondi-lhe.
Sentamos não de frente um para o outro, mas sim lado-a-lado, bem juntos.
Não foi exatamente o local a primeira coisa a me agradar, embora parecesse por demais agradável, e sim o som baixinho da música nas caixas de som. Aliás, havia uma bem acima de nossa cabeça. Reconheci de imediato a canção.
-- Eu já vim aqui tantas vezes que perdi a conta.
-- Você nunca me disse isso ... -- falei.
-- Quantas e quantas vezes eu ficava sentada sozinha nessas mesas enchendo a cara e me desfazendo em lágrimas por tua causa... Não foram poucas em que tive de ser carregada pelos garçons, pois não conseguia me locomover de tão bêbeda – contou ela, em tom desditoso, deixando transparecer em suas palavras uma profunda dor.
Alias, suas palavras tiveram o efeito de um enorme peso atirado sobre minhas costas. O remorso, a sensação horrível de ser o responsável por aquela dor, de estar com uma dívida ainda maior para com ela, uma dívida impagável diga-se de passagem me fez me sentir muito mal naquele instante. Talvez por isso eu tenha chegado ainda mais perto dela, abraçado-a e apertado firmemente sua mão. E foi o que me deu forças para dizer:
-- Você chegou a esse ponto?
-- As vezes eu ficava tão desesperada que pensava até em me matar – continuou, em tom de desabafo, feito alguém que precisa desesperadamente de um ombro amigo para descarregar suas mágoas. -- Mas não chegava a fazer porque no fundo ainda tinha esperanças de que um dia a gente pudesse ficar junto.
-- Que amor! -- Foi o que consegui dizer.
-- Você não pode imaginar o quanto eu sofri por ti. Você quase me levou à loucura... -- Houve uma breve pausa. Porém, tempo suficiente para suas palavras pesarem-me no peito e provocarem aquela sensação horrível de culpa. -- Quantas e quantas vezes eu ficava na janela do meu quarto – continuou -- olhando para as estrelas, pensando em você enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto... -- Nova pausa. Parecia-me que fazer tais confissões era como arrancar-lhe lentamente um punhal do peito. Diana tomou fôlego e então continuou. -- Ficava até quase amanhecer acorda. Não sentia sono e nem via as horas passarem.
Novo silêncio. Apenas o som baixinho de vozes abafado pela canção do grupo inglês Culture Club penetrava-me nos ouvidos. E foi justamente esta canção, que me encantara desde o primeiro momento em que a ouvira, que me deu forças para proferir algumas palavras, como forma de compartilhar aquele sofrimento, embora no fundo acredito que só tenha feito isso por fraqueza, por não suportar a idéia de ter causado tamanha dor em alguém tão querido. Talvez, se eu não fosse um fraco, um ser desprezível, teria ouvido aquelas palavras com dignidade e aceitado sua dor tão somente como lamentações de uma pobre coitada que se iludira facilmente e portanto a culpada pelo seu próprio sofrimento. Mas não, tive de imbuir-me essa culpa, de jogar um fardo nas minhas costas que não era meu e assim ser tomado pela sensação de culpa.
-- No começo eu também sofri muito... -- Foi a minha vez de parar por alguns instantes, como se temesse prosseguir. Contudo, acabei dizendo: -- mas depois conheci a Luciana e as coisas mudaram.
-- Quantas e quantas vezes eu lia e relia as suas cartas. Tão cheias de amor...
Apenas abaixei a cabeça e deixei que Diana terminasse. No entanto, ela também calou-se e um novo silêncio nos envolveu.
-- Engraçado. Todo casal tem a sua música e nós não temos a nossa – declarou ela, como se pensasse alto, provavelmente influenciada pela canção Love is love.
-- É mesmo! Essa música, ela é muito linda. Sabe o que quer dizer Love is Love? -- perguntei após virar o último gole e depositar o copo sobre a mesa.
-- Não! Sei que é alguma coisa relacionado com amor.
-- Amor é amor.
-- Que nem o meu por você – acrescentou.
-- E o meu por você – volvi.
Diana então me encarou em tom séria, pensativa, levou o copo de cerveja à boca e então declarou:
-- No fundo você não me ama de verdade. Quem ama é capaz de tudo pela pessoa amada. Mas você não foi capaz de resistir nem mesmo à distância. Faz suas promessas, mas quando volta para casa deixa tudo para trás. Esquece. Não, você não me ama profundamente. Talvez você nunca tenha me amada de verdade. Talvez tenha só se encantado comigo. Não é isso?
Ah, querido leitor! Como doeram-me no peito aquelas palavras. Talvez se me golpeassem diversas vezes por um longo punhal não teria doido tanto. Faltou pouco para cair aos seus pés e pedir-lhe perdão. Mas até para isso me faltou coragem. Então abaixei a cabeça e, com os olhos lacrimejantes, falei:
-- Não, não... -- menei a cabeça – eu te amei desde o primeiro momento. E te amo ainda. Mas é que...
Diana levou a mão a minha boca e, tapando-a, disse:
-- Não, não diz mais nada... Não piore as coisas com justificativas baratas. Deixe com está. Vamos apenas viver esse momento. Deixe o ontem e o amanhã para lá. O que tiver de ser será. Só Deus sabe o que será da gente. E se for da vontade dEle, a gente vai ficar junto, mas se não for também não adianta a gente querer, pois só Ele pode decidir.
Pensei em refutá-la. Dizer-lhe que Deus não tinha nada com isso, que o nosso destino está nas nossas mãos. E se as vezes deixamos escapar uma chance por entre os dedos foi porque não fomos forte o bastante para segurá-la. Mas isso poderia ofendê-la, poderia magoá-la. Nada pode machucar mais um crente do que atacar suas convicções. O que ela pensaria de mim se lhe dissesse que Deus não existe, que não passa de mais uma invenção humana? Como ela poderia compreender que a necessidade da crença nasceu da necessidade de cultuar os antepassados? Não. Isso seria complicado demais para ela. Não, não... Isso só faria crescer o abismo entre nós. Por isso não lhe falei nada, apenas calei-me. No entanto ficou por um longo tempo presa na garganta a vontade de dizer-lhe.
Nisso, um jovem garçom apareceu perguntando se desejávamos mais alguma coisa. Diana adiantou-se e pediu para trazer mais uma cerveja.
-- Aqui toca cada música – exclamou. -- Olha essa! Também não é linda?
Nesse momento tocava a canção Forever Young do grupo Alphaville.
Concordei. Aliás, por um momento prestei atenção à letra da canção. E a referencia ao desejo de ficar eternamente jovem me fez refletir por alguns instantes. Ah, como eu também queria permanecer eternamente jovem, viver aqueles momentos com Diana por toda a eternidade. Eu não pensava na minha vida em Santos, nos meus pais, em Luciana. Isso tudo parecia não me importar mais. Só aquele momento, aqueles instantes mágicos ao lado daquela mulher que apesar de não ser bela, culta, de não ter atrativos algum conseguia me fazer o homem mais feliz do mundo parecia existir para mim. Só eles, somente eles eu desejava que fossem eternos.
Esvaziamos uma, duas, três... uma meia dúzia de garrafas de cervejas entre um beijo e outro. Confesso nunca ter tomado tanta cerveja assim. Tanto que mais tarde, ao deixarmos o local, minhas pernas pareciam ter perdido as forças e tinha de fazer um esforço enorme para que Diana não notasse o quanto eu estava ébrio.
-- Essa música também não é linda? -- Nesse momento tacava a canção Você é Linda de Caetano Veloso. -- Ela poderia ser a nossa música? -- sugeri enquanto aguardávamos a conta.
-- Não. Eu não sou tão linda assim. Aquela outra, sobre o amor é mais bonita. Aquela vai ser a nossa música. Toda vez que ouvir ela, vou me lembrar de você, de nós dois aqui nesse bar, sentados lado a lado, dos nossos beijos, de suas carícias... Ah, vou lembrar de cada momento...
-- Quer que eu grave numa fita cassete para você?
-- Você faria isso?
-- Claro. Vou gravar todas essas músicas que tocou enquanto estivemos aqui. Tem outras que eu adoro. Vou gravá-las também. Você vai adorar.
-- Só quero ver.
-- Pode esperar – falei
-- A conta, senhor – disse o garçom, entregando-ma.
Paguei-a e lentamente deixamos o local.

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