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Contos-->Dona Virtual -- 17/11/2008 - 11:16 (paulino vergetti neto) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Todo o tempo em que estivemos virtualmente paquerando esteve aquém de um ano. Certo dia ela me pediu que a adicionasse no Orkut. Dizia-se ser uma importante artista plástica em temporada fora do Brasil de aproximadamente quatro anos. Havia se separado do marido e resolvera pousar no Reino Unido, na casa de um filho. A webcam foi o instrumento que nos permitiu pôr olhar sobre olhar. Ela me pareceu ter uns sessenta anos; disse-me que tinha cinqüenta e um. Acreditei: talvez fosse uma possível vida sofrida que ela tivesse cruzado – uma via-crúcis, quem sabe.
– Seus poemas são belos. Ao lê-los, senti um contínuo sentido, um algo mais dentro de mim. Olho sua foto no perfil e ela me passa a certeza de que ainda terei algo com você.
– Que algo?
– Um namoro sério.
– Mas saiba que eu ainda não estou separado. Vivo com minha família sob um mesmo teto e dentro de um forte carinho.
– Deixe tudo isso aí e venha pra cá. A Inglaterra está precisando muito de médicos. Por aqui há um bocado de médicos indianos que não sabem sequer atender-nos. Venha pra cá. Eu cuido de você. Nem precisa trabalhar.
Achei aquilo tudo muito estranho. Uma mulher que me via na NET pela primeiríssima vez e já se comportava desse jeito tão dativa. Pensei com meus botões: há algo errado nisso. Todos os dias conversávamos. Enviei de presente para ela os primeiros cinco livros de minha autoria. Ela leu todos e os adorou. Passou uns quinze dias em contínuos elogios a eles. Pediu mais e mais e mais. Passei quase sete meses enviando semanalmente ao redor de quatro a seis livros. Ela convenceu-me de que eu deveria aceitar ir até sua cidade, nos arredores de Londres e lançar algumas obras lá. Sempre recusei educadamente e agradeci. Alegava falta de cacife para esse enfrentamento.
– Você é o melhor escritor que já li em toda a minha vida.
Desse dia em diante resolveu chamar-me de amorzão, e eu nem sei onde estava que lhe permiti fazê-lo. Tornou-se pegajosa, ciumenta, possessiva. Quando eu a repreendia com mais vigor, ela amansava, desviava o foco das conversas e mudava um pouco.
– Meu amorzão, saia desse Orkut. Há um montão de vagabundas querendo se dar bem com você. Se eu pudesse arrancava-lhes as cabeças. Morro de ciúmes de você com elas. Aquele tópico dos bichos de sua comunidade dá-me nojo. Eu as odeio, aquelas gatinhas vadias. Abandone-as. Fique só comigo. Prometo amá-lo até a morte.
Segundo ela, já teria acertado onde eu iria lançar meus quatro últimos livros. Eu não gastaria nada. Ela estaria fazendo um caixa particular com a venda desses mesmos livros que eu lhes enviava, a trinta libras esterlinas cada. Reclamava-me bastante que poucos pagavam. Alegava que os brasileiros que habitavam sua mesma região eram velhacos.
Certa vez pediu que eu comprasse três caixas de um remédio anti-hipertensivo caríssimo e o enviasse para uma vizinha sua. Fi-lo. Segundo Lécia, ela nunca recebeu o dinheiro de volta. Eu fui o único prejudicado. Deixei pra lá. E tantas outras encomendas enviei a seu pedido, inclusive livros para pessoas suas aqui no Brasil. Vim a saber mais tarde que duas mulheres, das tantas que eu enviei, eram ex-esposas de parentes seus. Esnobava, dizendo estar prestes a casar-se com um médico e escritor brasileiro. Dentro de mim isso não me era qualquer problema. Estava ganhando leitores em potencial. Durante esse quase um ano em que a conheci, enviei umas duas centenas de livros. Foram tantos que ela chegou a fazer com eles doações para bibliotecas públicas. Lucrei alguma coisa com esse seu gesto. Tornei-me de certa forma conhecido para alguns.
Lembro-me como se fosse hoje. Em sua cidade nevava muito. Pela janela e através da webcam, pude presenciar o espetáculo silencioso da natureza. Ela, excitada, no próprio banco onde estava há pouco a teclar, agora apenas tocava-se. Em um cômico e repentino instante, alguém bateu na porta do seu quarto. Ela caiu do banco sentindo a dor da queda e o prazer do orgasmo, tudo ao mesmo tempo. A webcam, por alguns minutos, não pôde mostrar-me a cena final. Dei uma boa gargalhada. Nunca havia presenciado antes qualquer coisa sequer parecida.
– Estou indo passar quinze dias no Brasil. Tenho que ver você apanhar mais algumas dezenas de livros. Pode ser cinqüenta deles? O povo quer comprar e eu não os tenho mais comigo.
– E os do lançamento aí?
– Quem comprou e vier à festa ganhará um autógrafo. Não será recompensador?
Antes de ela vir, resolvi ir mesmo conhecê-la pessoalmente. Não aceitei jamais a passagem que ela havia comprado para mim. Viajei com meus parcos recursos, apesar de sua insistência.
Lá estou eu, em um avião, voando de São Paulo a Londres. Desci no aeroporto de Hithrow. Um inferno. Passei em suas dependências 24 horas. Não consegui o visto de entrada no Reino Unido. Voltei no mesmo vôo. Após vinte e quatro horas de dor, pude ser recebido maravilhosamente pela tripulação da aeronave que me traria de volta ao Brasil. Ela passou uma semana insistindo para falar comigo e eu a evitando. Até seus filhos pediram-me que eu voltasse a conversar com ela. Não comia mais, não tomava banho; essa história de não gostar de tomar banho foi cruel. Poxa!
Noventa dias depois ela desembarcava em Aracaju. Seu filho havia ido de São Paulo direto para o Paraná. Eu já estava no hotel quando o meu celular tocou. Era ela sem dinheiro para pagar o táxi até o hotel. Pedi-lhe que passasse o telefone para o taxista. Combinei com ele que pagaria o valor da corrida à porta do hotel. Aceitou. Eu preferi esperá-la no apartamento. Confesso que estava ansioso, excitado. Deixei cem reais na recepção, com uma das atendentes e subi rápido. Nem lembrei que do aeroporto até o hotel eles demorariam uns trintas minutos.
– Alô, aqui é da portaria. Senhora Lécia Malafaya. Posso deixá-la subir ao setecentos e quinze?
– Pode sim! Permita-lhe, por favor!
Eu estava deitado na cama ampla do hotel; calça comprida, camisa de mangas também compridas e ainda de meias. Levantei-me sem calçar os sapatos assim que ouvi a campainha soar. Era ela. Olhei antes pelo olho mágico.
Abrir a porta para mim não foi tão fácil. No corredor enxerguei um homem com um sorriso nem tão discreto no rosto. Por quê? Já fiquei desconfiado. Quem sabe ela não o teria informado do nosso maluco encontro aqui hoje?
Seis malas imensas. Juro que por alguns minutos acreditei que a mulher havia vindo de vez. Disse: Meu Deus, o que vou fazer? Senti um frio na espinha dorsal. Por isso eu não esperava. Uma mulher pequenina, franzina, com as múltiplas marcas de velhas cirurgias plásticas na face, daquelas que a televisão digital não perdoa e deforma ainda mais.
Sua calça jeans trazia pregada em si alguns quilos de metal – que calça horrível para uma sessentona! A blusa branca trazia o decote até o umbigo. Havia dois seios desfigurados e nada de escondidos – às mostras. Até aí tudo bem! Pensei: trata-se de uma mulher brasileira vaidosa que achou na Europa um palco manso para toda essa sua exibição. Mas que era estranho, sim. E ela resolveu, então, abraçar-me fortemente. O taxista havia posto as malas no corredor de entrada do quarto. Encheu-o todo. Muitas malas!
Quando ela me abraçou, senti um diabólico cheiro absíntico; ia do mau cheiro ao fedor. Lembrei-me da Noruega, seu bacalhau e tantas outras coisas mais. Não sabia se me apartava dela ou se deixava o abraço viver mais alguns minutos. Pelo jeito ela jamais se desgrudaria de mim. Fiquei impaciente. Mas, o beijo na boca, não dei mesmo! Se eu houvesse forçado esconder em minha boca o sabor de sua boca, acho que teria vomitado dentro da boca dela. Em questão de um minuto, pensei: devo armar qualquer coisa, mas fazer amor com essa menina velha, jamais. Olhei para cima e, no meu silêncio apavorador, resolvi pedir ajuda a Deus.
– Amorzão, vou ao banheiro. Faz quarenta e oito horas que não vejo água.
– E nos banheiros dos aeroportos por onde você passou?
– Foi tudo muito rápido.
– Não urinou? Não fez cocô?
– Nem me lembro mais se fiz essas coisas!
Ela trancou-se no banheiro. Fumaça saiu bastante pelos frisos da porta. De vez em quando passava por mim um cheiro discreto de alho. Dizia de mim para mim: será que está preparando algum bife frito para nós? E se o fedor que eu senti fosse de carne estragada? Disse para mim mesmo: eu não comerei!
Quase uma hora depois ela deixou a dependência do banheiro. Ainda enrolada na toalha, acocorou-se ao lado de uma das malas e começou a puxar uns molambos amassados. Eu ainda não sabia do que se tratava. Fiquei receoso. O que seria aquilo?
Agora, após o banho, cheirosinha a flores do campo, vestiu os molambos. Eram camisolas amassadas e puxadas da mala sem nenhum cuidado. Deitou-se do meu lado, pôs uma das pernas sobre o meu corpo, bem em cima do meu divertimento e, para acabar de uma vez por todas qualquer tesão que ainda relutasse em sobreviver, abriu a boca a três centímetros da minha e pediu um beijo muito demorado.
Poxa, demorou muito para eu achar meios de sair do apartamento. Fi-la desistir do beijo por algum tempo. Foi bom. Dormiu e roncou como um gladiador romano. Eu a olhava de longe. O incenso não me permitia ficar por perto. Desci do apartamento e combinei com o gerente:
– Vou deixar tudo pago até a segunda-feira. Inclusive as duas alimentações já que o café da manhã está incluso na diária. Diga-lhe que não virei mais para o hotel, mas que ela se divirta muito em Aracaju.
Retornei para minha cidade no dia seguinte. Na primeira noite dormi noutro hotel, eu e a solidão. Durante a semana ela encheu meu Orkut de depoimentos. Simulou crise nefrética e outras coisas mais.
Ela passou os próximos quinze dias elogiando-me e tentando reaver o amor dela que dizia ela ser nosso. Não conseguiu. A resposta veio em forma de bomba. Invadiu meus perfis do Orkut, as comunidades, usou o seu MSN com os nossos amigos em comum para inverter tudo o que realmente havia acontecido entre nós. Cobrou-me quatro mil libras esterlinas pelos livros que eu lhe vendi. Eu seria agora, então, vendedor e devedor do que era realmente meu.
Madame NET é um caso raro para se estudar. Doutra vez que eu encontrar alguém interessado em mim, juro, a primeira coisa que perguntarei será: você ronca? Gosta de tomar banho? Tem mau hálito? Poxa, que coisa mais desagradável essa que veio acontecer comigo! Dancei e continuo a dançar ainda, só não sei até quando. Internet é ótimo, mas namorar através dela é coisa para quem tem coragem demais, além da conta. Do outro lado dela, todo torto é correto. Todo horrível é belo.
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