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Crônicas-->Licor de carambola -- 27/12/2005 - 11:41 (maria da graça almeida) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Licor de carambola
Maria da Graça Almeida

A benevolência exagerada ia muito além dos arroubos do mau-humor.
Receber visitas era motivo de corre-corre, agitação e de um prazer indescritível. A animação era tamanha que quem não a conhecesse até poderia pensar que estivesse em guerra com os visitantes. Qual o quê! Oferecia-lhes os armários, a geladeira, o fogão e as coisinhas feitas em casa, com o carinho e o cuidado de quem doa com prazer.
Mariella nascera na Itália e por conta do destino chegara, ainda menina, em Pindorama e, apesar da aparência que pouco colaborava, viera a casar-se com o moço mais bonito da cidade.
Experimentara um pouco de cada ofício; sofreu e penou de cansaço, indignação e de saudade... bem, mas isso é outra história.
Fizera de tudo. Primeiro a sorveteria, onde se podia conhecer o melhor dos sorvetes. Ao fechá-la, descansava debruçada sobre o ferro de brasa a alisar o linho branco dos ternos que o marido usaria em inusitadas e repentinas viagens.
Diziam que jogava cartas e o dinheiro rolava entre as mesas de casas suspeitas, enquanto mulheres de unhas longas e vermelhas enroscavam-se em suas pernas. Diziam...Sabe-se lá...
E na pequena e brilhante bacia de alumínio, Mariella, desolada, molhava o pano branco, enroladinho e pá, pá, pá, batia insistente sobre os vincos do tecido. A seguir, soprava o ferro que fumegante devorava todos os sulcos e as pregas das peças.

Depois foi a vez dos permanentes.Havia uma geringonça cheia de prendedores e fiozinhos coloridos num quartinho, nos fundos, onde as mulheres dos sítios dos arredores chegavam de cabelos lisos e saíam com as longas mechas grudadas na cabeça, em minúsculos anéis mal cheirosos.
Eu mesma cheguei a ver a transformação e indignava-me com a coragem de Mariella em executar aquele ato de bravura e com a das infelizes ou felizes que se submetiam às suas mãos.

Enfim, a “frábica de gosmético...” Era assim que dizia, eu achava tão engraçadinho aquele jeito de falar que me vinha vontade de tomá-la ao colo. Não, não pensem com isso, que era frágil. Não. A mulher era uma fortaleza e comandava um bando de irmãos meio desajuizados. E coitados deles se chegassem aos ouvidos dela alguns de seus desvarios...

Na “Frábica”, nem sei na verdade o que ela fazia. Só a via chacoalhando frascos, destampando, misturando cores e o que mais se empenhava era em empacotar lembrancinhas a presentear alguém, para o desgosto de seu genro e sócio, claro. Eu mesma, ainda menina, ganhei várias colônias, desodorantes, batons. É verdade que os aromas não eram agradáveis e os batons tinham um sabor rançoso. Vaidades das quais ela mesma não se servia. Eram os palavrões que exibia nos lábios. Foi de sua boca que ouvi os primeiros: desgraçado, morfético, lazarento.
Também dela foi que ouvi as primeiras maldições, contra os irmãos: que um raio te caia na cabeça e te parta ao meio; quero te ver morto, seco, arreganhado. Coisas assustadoras para os ouvidos infantis. Porém, era tudo da boca pra fora. Enquanto rogava as pragas, sorrateira, colocava um dinheirinho amassado no bolso de um, uma nota dobrada no paletó de outro, um anelzinho de pretenso rubi, no dedo magro de alguma criança pálida.
Se pela boca Mariella destilava fel, pelo coração distribuía açúcar. Dela vi os melhores atos de desprendimento e bondade, ainda que às vezes saíssem às avessas. Quem chegasse à sua casa, não partia sem sacolas e pacotes cheios.

Numa tarde, depois de encaracolar (estou sendo generosa) os cabelos de uma senhora - ainda que insuportável estivesse o cheiro que lhe exalava da cabeça - levou-a para a cozinha.
Instalou-a confortavelmente numa espreguiçadeira que tinha ao lado do fogão de lenha. Correu para o armário em busca de algo para servir. Voltou com uma garrafa de licor e uns biscoitinhos amanteigados.
Sem miséria, colocou o licor num copo de vidro grosso; os biscoitinhos, fartamente, depositou na cestinha de palha. Entregou-os para a cliente, que por sua vez não se fez de rogada. Afinal, um licorzinho artesanal no meio da tarde era muito bem-vindo. O líquido âmbar prometia, os biscoitinhos, então...
Os olhos da dona brilhavam. Sorveu um belo gole, com gosto e vontade.
- Io que fisso -com o palavreado atrapalhado e os vocábulos brigando com uma e outra Língua, Mariella explicava orgulhosa - É liquore de "carrabola".
A mulher, com os olhos arregalados, depois do primeiro trago, ficou estática.
E Mariella insistia:
-Vamu, toma, toma, é gostoso, ma toma com vontade, dona, molha as bulachinha nu cardu.
A cliente, depois do primeiro trago, parecia que fora atacada pelo bicho do sono. Obedecia, mas com uma lentidão irritante.
Eu, que a tudo observava, já estava aflita. Quanto mais demorasse aquele lanchinho, mais tempo eu teria de suportar o cheiro do permanente e pensava, quase perdendo a paciência: ela quer tomar devagar para durar bastante...vai ver nunca provou um licor tão bom!
Por fim esvaziou o copo...Mariella fez menção de enchê-lo novamente. A mulher foi acometida de súbita pressa. Saiu rapidamente, mal se despediu.
Ainda assim, quase correndo, fomos ao portão. De pronto ela ganhou a rua e desapareceu logo na primeira esquina.
Enquanto Mariella voltava para arranjar a cozinha, fui até o fundo do quintal apanhar umas mexericas. Já preparada para esticar o braço, ouvi seus gritos:
- Madonna mia! Que fisso io?
Voltei correndo assustada e encontro-a com as duas mãos sobre a cabeça e os olhos injetados de pavor:
-O que aconteceu? perguntei-lhe assustada.
-Óia aqui, óia aqui -sacudia freneticamente o litro do licor sob meus olhos perplexos;
-O que foi? Insisti.
- Inda mi prigunta? Carculava que fosse o liquore de carabola, ma che! Io dei ólio de cuccina per la poverella...

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