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Contos-->VENUSA -- 09/09/2009 - 20:45 (Carlos Rogério Lima da Mota) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O frio da noite congela. Toda a rua está tomada por folhas e gotículas de chuva. A limusine para em frente a um luxuoso hotel da cidade. Dela desce um homem grisalho, baixo, de barba a fazer, com uma barriga contida pelo cinturão de couro, que se vira ao motorista, dizendo:

– Faça como eu mandei!

O empregado confirma a ordem e fecha a porta do carro. Com passos lentos, o velho cruza a porta giratória, pega o elevador e desaparece, enquanto o motorista se dirige à gerência.

– Pois não, em que posso ajudá-lo? - pergunta o gerente em um terno cinza, com um sorriso largo no rosto, como se estivesse diante de uma dessas estrelas de televisão.

– Venusa! - diz o motorista, com os olhos serenos fixos aos do gerente.

– Venha por aqui! - pede o administrador, com o sorriso engolido pela palavra do motorista.

Ambos se dirigem a uma sala, nos fundos. Lá, o gerente questiona:

– Quem lhe disse sobre isso?

– Sobre Venusa? - insiste o empregado, agora com um olhar pendendo entre o desejo e a inquietude.

O gerente silencia.

– Muitos já me disseram sobre Venusa! Dizem que ela é caliente, exuberante; quem já esteve com ela, diz que pagaria qualquer coisa para tê-la novamente nos braços, ainda que por alguns segundos.

– Então...? - arrisca o gerente.

– ...Nós a queremos!

– Nós??? - assusta-se. Nós quem?

– Na verdade, meu patrão a quer e pagará o preço que disser!

– Mas Venusa não trabalha mais para mim... ela... ela... bem... dizem que ela...

– Doze mil dão?

– CO-COMO? - interpela, curioso, o gerente.

– Doze mil são suficientes por uma noite?

– Não entendi! Doze mil para quê?

– Não se faça de rogado, senhor! Todos nós sabemos da existência de Venusa e de quanto ela é apreciada pelos homens de bom gosto, por isso, faça seu preço... peça o quanto for e meu patrão pagará.

Visivelmente nervoso, o gerente retira um cigarro do bolso da calça e o acende com um isqueiro em cuja embalagem há o coração que simboliza o amor. Ganhei este isqueiro dela - diz ele. Sabe, ela não é mulher para qualquer homem... Para tê-la nos braços, o cavalheiro deve se mostrar tão gentil e belo quanto à deusa que originou o nome dela.

– ...O senhor está se referindo a Vênus, a tal deusa do amor e da beleza? - entrecorta-o o motorista. – Meu patrão tem todas as qualidades necessárias para possui-la por pelo menos uma única noite - diz, roçando os dedos entre si. – Fale: quanto é?

– O senhor está sendo inconveniente! Venusa não está à venda, ela está acima de qualquer produto... Acha mesmo que aceitaria sua oferta? Não conheço sua origem, nem a de seu patrão. Como já lhe disse, Venusa não é para qualquer um. Venusa é apenas para cavalheiros cuja família ostenta um brasão, não para burgueses que se acham donos do mundo só porque possuem meras notas em reais.

– O senhor está chamando meu patrão de burguês? - brada o motorista.

O homem não responde, levanta-se da cadeira e abre a porta, sinalizando o fim da conversa.

– O senhor ainda não respondeu minha pergunta - ele fecha a porta com um empurrão. Responda-me! - exige o chofer.

– Não! Estou apenas dizendo que ele está se portando como um reles mortal ao resolver estabelecer quantia em espécie para possuir a deusa Vênus por uma noite. Venusa não pode ser vendida; ela escolhe seus parceiros.

– Uma Lucíola dos tempos modernos... Interessante! - ironiza o empregado.

– Pois é... - responde, ainda mais satírico.

– Meça suas palavras antes de se dirigir ao meu patrão - berra o subordinado, retirando uma arma da cintura e apontando-a para o queixo do gerente. – Repita o que disse e dormirá com os vermes para sempre. Agora pegue este telefone e chame logo Venusa; se ela não estiver aqui em meia hora, uma bala sairá desse cano e estourará seus miolos.

– Si-sim se-se-senhor!!! - responde o rapaz, com os olhos a saltar da face.

A chuva aumenta, corre o asfalto, entope as bocas de lobo. Um trovão estoura no céu, a energia escasseia, o gerador do hotel é acionado. Depois de muito custo, Venusa é persuadida e resolve dar as caras.

Linda como sempre, ela se dirige ao gerente, que agora está na bancada, à sua espera. Após as instruções iniciais, ela sobe até o 13º andar, onde está o afoito cliente. O motorista acompanha todo o desenrolar dessa história detrás de um dos pilares do hall de entrada. Não há quem não repare a beleza surreal de Venusa, afinal, seus olhos azuis contrastam com o cabelo louro e encaracolado, dando a sensação de que a existência humana é tão fértil e sagaz como a eternidade.

– Por que vocês estão fazendo isso? Venusa nunca fez mal a ninguém; se o fez, ninguém nunca se queixou! Ela é apenas uma garota de programa... Deixem-na em paz! - suplica o gerente, aproximando-se do "capataz".

A campainha toca. O quarto é o 1311. Como a porta não abre, Venusa toca novamente. A porta permanece fechada. Então, a garota roda a maçaneta e entra... Dá dois passos, três, quando avista o senhor de costas. Com os chicletes retirando da boca, vocifera:

– Então me quer? Quantos gostariam de estar no seu lugar? Deixei um programa com um repórter só para lhe atender. Hum! Não gosto de quebrar compromissos!

– Nem se fosse para atender um pedido meu? - diz o homem, virando-se para a garota.

– MEU... MEU DEUS!!! - estremece a garota, vendo seu pai, um general reformado, com os olhos dominados pela cólera.

– Ela é filha dele! - diz o gerente, perplexo, no saguão, ao motorista. E deixou Brasília para estudar aqui. Aliás, como ele soube que ela não estudava, mas se prostituía?

– Ela dormiu com o tio numa dessas baladas... Estava tão embriagada que não o reconheceu. É a tal história: "mentir para quê, se a verdade reluz?".
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