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Erótico-->38. MELHORIA ACENTUADA -- 13/02/2005 - 16:10 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
Teo ficou vários dias indo e vindo do jardim, com a ajuda do amigo. Sentia-se cada vez melhor, à medida que avançava na aprendizagem dos itens consignados na cartilha. Os tempos de reclusão sob os cuidados de Severino iam sendo deixados para trás, de sorte que se livrava das pressões psíquicas causadas pelo mal-estar das lembranças desagradáveis. No entanto, avultavam os problemas decorrentes dos fatos da vida, cada vez mais vista como realização espiritual, onde os aspectos transitórios da matéria se adelgaçavam, se diluíam e, finalmente, se anulavam. Eram os relacionamentos que imperavam dentro de sua mente cada vez mais interessada em descobrir a relação maniqueísta de tudo: o que era o bem de um lado.; o que era o mal de outro, como se tivesse sido ele quem devorara o fruto da árvore proibida. Nesse desempenho vital, imiscuía as presenças humanas, umas mais que as outras, mas todas importantíssimas para o contexto do procedimento evangelizado.
Apoiava-o o libreto, em que se desenvolviam as lições do Cristo, não apenas pelo discurso, como ainda e principalmente pelo exemplo de abnegação, de sacrifício, de renúncia, pelo amor aos seres resultante da compreensão de que todos somos filhos de Deus.
— Se me dessem a decorar os compêndios e os tratados, punha na memória palavra a palavra, que seria capaz de repetir salteado e de trás para a frente. No entanto, coagido pela retórica da pesquisa moral, não consigo me afastar dos acontecimentos a partir do momento em que me dei por gente. Se, aos treze anos, conforme desconfio, engravidei a mocinha, foi por irresponsabilidade compreensível e isso não deve preocupar-me, senão como tendência da personalidade, psicopatia existencial que devo ter mantido das épocas anteriores, o que me faz antever outros terríveis procedimentos a me tirarem o fôlego e a esperança de ter sido melhor, apenas impossibilitado de cumprir os tópicos da lei que me levariam a evoluir em virtude do abrupto corte da vida.
O pequeno poema da estrada não lhe saía da cabeça, não pelo tema ou pela forma, mas pela possibilidade que lhe abria de ter sido poeta em outra encarnação.
— Se estivesse vivo, como no momento me parecia, por certo deveria concluir que era tão-só tentativa de ocupar o cérebro de modo criativo. Agora que sei que me encontrava sem o corpo denso, devo suspeitar de que carrego a regalia de me ter dedicado à beleza dos sentimentos e das emoções, para traduzi-las esteticamente. Se não for assim, como compreender a facilidade com os traços e desenhos, com as cores e as composições dos figurinos? Tenho de reconhecer a forte propensão para o belo, o que deve haver originado de treinamento no campo artístico.
Estabeleceu também paralelo com a modelagem física, no culto da preservação dos ideais hedonistas a partir do narcisismo que o levara a considerar o corpo masculino muito melhor formado que o feminino, especialmente se trabalhado com inteligência, segundo as modernas técnicas.
— Estou a desviar o raciocínio para setores materiais, mas tenho a certeza de que o faço no intuito de me despertar para o entendimento da homossexualidade predominante no caráter. Quando vier a entender melhor quais os nós psicológicos que me prenderam fortemente aos encantos do meu próprio sexo, deverei sentir-me imune aos ataques maciços da consciência, porque poderei vir a sanar as deficiências, sem enredar-me moralmente nas preferências a estes e não àquelas.
Quando expôs com franqueza a Ari as íntimas proposições, percebeu que estava evitando enfrentar os problemas pessoais, os que advieram dos muitos contatos com diferentes rapazes e meninos.
— Não deveria investigar melhor quem eram espiritualmente os que se relacionaram comigo, a fim de caracterizar-lhes os cordéis que os conduziam, marionetes, desde as vidas anteriores?
— Você acha que pecou, que merecia ser castigado, que abusou dos recursos vinculados ao sistema reprodutor, dando-lhes destinação incompatível com os objetivos naturais? É isso?
— Não coloquei dessa forma, mas, se me visse perante seres de superior estratificação moral, sinto que me envergonharia, ao contrário de algumas declarações minhas de público, em rodízios de entrevistas divulgadas pela televisão, nas quais me ufanava (procurando manter a naturalidade) de haver conquistado muitos homens e mulheres, a quem considerava tão responsáveis quanto eu mesmo no desempenho sexual intramuros. Falava desabridamente, julgando que o escândalo que provocasse iria servir para derrubar os tabus sociais. Punha-me na vanguarda do movimento de liberação sexual, chegando a defender a idéia de que a meta da libertinagem daria ao povo condições de maior felicidade, de melhor aproveitamento dos recursos sensórios do organismo. Agora, o pensamento de que muitos não adquiriram os conceitos apesar de terem praticado o que preguei me deixa angustiado. Veja bem: estou declarando que fui ostensivo na manifestação do ideário quase pornográfico…
— Retire o quase.
— Certo. Fui o que deveria chamar de impudente, mas a simples atitude, sem a correlata pregação pública, serviria, neste momento, para as reflexões que levo a efeito. Em suma, quero saber o montante das dívidas para com os que se deixaram influenciar pelas palavras e pelas ações e qual há de ser o roteiro para o resgate de todas.
— Se eu tivesse domínio integral do que me pede, não estaria aqui a ouvi-lo, mas pairaria em regiões de maior pureza. Você quer transformar-me em ser de inefáveis virtudes. Meu caro Teo, pouco mais ou menos, o meu barco está a fazer a mesma quantidade de água. A vantagem que levo é de ter suplantado a pressa da refacção das premissas da primitiva pureza. O que lhe posso dizer é que essas coisas levam milênios ou, no dizer de Kardec, milhares de séculos, para serem supressas definitivamente do caráter. Mas estou contentíssimo por demonstrar-me o quanto tem progredido. A prosseguir neste passo batido, em pouco tempo, irei recomendar que freqüente as aulas de nossa Escolinha de Evangelização, onde receberá orientação adequada ao nível intelectual, para o preparo dos sentimentos com vistas aos encontros com os seres a que fez referência.
— E quanto a Maria, a jovenzinha que engravidei, posso pedir-lhe que projete sua imagem atual?
— Restrinja-se a admitir que sua capacidade de absorção dos deveres paternos está defasado, como estava na própria época do namoro. Não queira ser apenas curioso. Vamos supor que ela tenha engravidado, como lhe disseram, mas não de você. Qual seria sua atitude?
A hipótese pareceu absurda ao aturdido discípulo, que punha nas palavras do instrutor muito mais verdade do que fariam crer a qualquer um. Mesmo assim, atreveu-se:
— Terá sido engravidada por alguém cuja responsabilidade era maior do que a minha?
— A que vem a observação? Quer dividir as despesas morais ou, simplesmente, deseja afastar de si o cálice das amarguras?
A resposta de Teo foi o silêncio.
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