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Erótico-->39.RECUPERANDO A IDENTIDADE -- 13/02/2005 - 16:27 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
Teotônio avançava célere na apreensão dos elementos contidos nas lições do catecismo etéreo. Solidificava os conhecimentos, analisando o próprio espírito e todos os matizes de comportamento da curta e derradeira vida.
— Honestamente, este sistema de absorção dos valores evangélicos limitado a uns poucos anos de existência carnal põe-me em dúvida constante quanto ao que sou desde sempre e em que ponto evolutivo me encontro. Caro Ari, não seria exeqüível propiciar-me a recordação de uns poucos fatos de vidas anteriores?
— Sua observação pressupõe que o bloqueio da memória está sendo provocado por nós outros, porque o mantemos desperto e isento da maldade dos seres vingativos.
— Pelo que pude deduzir das informações truncadas que me passa, parece-me que existem descrições psíquicas ou relatos das venturas e desventuras da minha personalidade no arquivo da instituição.
— Mas isso não quer dizer que tenhamos o dom de impedi-lo de se recordar de nada.
— Como é que sou capaz de minuciar tudo desde o ingresso na carne, até mesmo em idade intra-uterina? Existe obstáculo, com certeza, para a incursão aos feitos de outrora.
— Tal obstáculo, havemos de convir, não tendo origem fora de seu espírito, deve encontrar-se naturalmente…
— Eis a palavra que buscava.
— Não se precipite, por favor!
— Não vou explorar pejorativamente a intuição ou inspiração. Não sei caracterizar precisamente, pois posso estar tendo uma idéia minha como posso estar sendo brindado por alguma entidade que cuida de mim, a partir de plano etérico superior.
— Quer dizer…
— Quer dizer, meu anjo guardião, aquele ser que se considera responsável pelo meu adiantamento nas sendas do Senhor.
— Diga lá!
— A palavra é natureza. Eu me explico: todo espírito guarda dispositivo primitivo que lhe serve para o esquecimento, momentâneo ou não (preciso descobrir), dos fatos mais terríveis provocados por sua maneira de ser. Se estou tendo graves problemas de adaptação à realidade espiritual, quanto mais não teria se descobrisse outras descortesias, outros crimes, outras irresponsabilidades, outros desvios quanto à vida gregária e quanto ao empenho que deveria ter aceitado de desenvolver-me as qualidades, na restrição conseqüente dos maus pendores, dos vícios, das mazelas psíquicas e demais erros de interpretação do que seja agir em consonância com as leis cósmicas, justamente aquelas que me farão ascender em paz aos páramos quintessenciados do reino de Deus?! Quando vocês me impedem até de me aproximar dos seres amados, vivos ou mortos, com certeza para que minhas vibrações deletérias não venham a prejudicá-los, estão fazendo uso do mesmo princípio imanente do esquecimento.
— De onde lhe vêm os recursos retóricos?
— Com certeza, do exercício segundo as prescrições da cartilha vermelha.
— Nada guarda vínculo com os dons e pendores intelectuais?
— Claro que sim. Acredito que certas pessoas não chegam a ter necessidade de tais esclarecimentos, enquanto outras devem arrastar-se, ignaras, pelas trevas exteriores, onde o ranger de dentes das Escrituras…
— Muito bem colocado. Mas diga-me quais são as intuições ou inspirações que lhe estão definindo os primeiros traços da personalidade herdados da condição existencial anterior à encarnação?
— Acredito piamente que devo ter exercido o métier que assegura aos poetas o contato com os mistérios do espírito no campo da sensibilidade, aquele devaneio que transfigura a realidade e erige a beleza como o modelo exponencial do viver.
— E que isso tem de ver com os ensinos de Jesus?
— Eis perquirição que seria bem mais adequada, caso tivesse conhecimento exato de como me apliquei no desempenho das virtudes poéticas, o que me obrigaria a pesquisar, de maneira prática…
— Não estaria o amigo desejoso de penetrar através das fissuras do bem e do mal que a contextura da psique, por conclusão lógica ou psicológica, científica ou filosófica, devem estar apresentando? Ou estaria sugerindo que baníssemos da República, como o fez Platão, a poesia e os seus cultores?
— Refletindo a fundo, não devo temer nenhuma das proposições, caso contrário estaria pondo eu mesmo aqueles obstáculos que chamei de naturais à revelação da verdade. Todo conhecimento integrado ao extenso volume do saber que me cabe neste minifúndio haverá de somar para o efeito da melhoria de meu ser.
— Mesmo se você descobrir aspectos de terrível configuração moral?
— Ainda assim, porque me sinto fortalecido e amparado.
— Prepare-se para o enfrentamento de você mesmo.
Teo sentiu forte tremor mas manteve-se firme em sua decisão:
— Estou preparado.
— Vamos ter de sair deste edifício. Em outro prédio, encontram-se as câmaras de restauração da identidade. Não se assuste com o aparato técnico, com os fios, com as paredes e portas maciças, com as luzes e instrumentação dos monitores externos, com os odores e a fumaça do pequeno recinto em que será encerrado. Tudo se mantém sob rigoroso controle de equipe especializadíssima, especialmente treinada para a tarefa. O que não lhe posso prometer é que seja você a mesma pessoa que irá sair da experiência.
— Existem casos de fracassos e de desilusões?
— Nenhum que não tenha sido convenientemente tratado, em tempo mais ou menos longo, segundo as dificuldades dos que se haviam convencido de que estavam seguros das reações, para a imersão em minúscula fase do crescimento espiritual fundamentado em diferentes contextos existenciais. Se conseguir manter os elementos acrescidos no recente período de aprendizagem, irá efetuar a crítica construtiva de si mesmo.
— Como acha que reagirei?
— Meu ponto de vista não merece consideração. Em todo caso, devo dizer que, quaisquer venham a ser os percalços sentimentais, você reúne condições intelectuais para a compreensão de tudo que lhe for despertado por indução vibratória. Se não estiver absolutamente propenso ao entendimento, a sua memória, naturalmente (como você mencionou), irá refugar os estímulos.
Enquanto conversavam, adentraram pelo outro prédio, perpassando por diversas salas ocupadas por estranhas aparelhagens, até que ingressaram em minúsculo compartimento, onde havia um leito e diversos botões ao alcance de quem se deitasse. Do lado de fora, pessoas vestidas de branco (seriam médicos ou apenas técnicos?) assinalaram a Ari que poderiam atender ao figurinista.
— Agora deve relaxar. Não se esqueça de que nada irá acontecer nesta câmara. Pense como alguém prestes a ser hipnotizado, sabendo de antemão que irá viver uma vida de mentira, embora as impressões e as sensações possam parecer exaustivamente reais, como são as lembranças recentes. Espere que a lâmpada verde se acenda e acione o botão vermelho. É só isso. O resto vai ficar por nossa conta. Boa sorte!
— Muito obrigado, amigo!
— Fique com Deus!
Uma hora depois, Teo era levado sem sentidos de volta ao hospital. Todos os registros indicavam que a recuperação era de esperar-se sem problemas. Ari constatara que a penúltima encarnação estava disponível na memória. Vingara a experiência.
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