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Erótico-->40. DESPERTAR -- 13/02/2005 - 16:30 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
Realmente, quando Teo recobrou os sentidos, estava visivelmente mudado. A espontaneidade das perguntas e a naturalidade das respostas haviam cedido para carranca de suspeitoso contraste em relação aos demais seres internados na casa de saúde.
Ari percebeu o novo semblante do discípulo e se calou, a ver até onde a influência das recentes descobertas poderiam afetar o interesse pelo conhecimento científico da realidade.
— Caríssimo mentor, estou arrasado com o que me foi dado observar nos tempos anteriores. Penso que lhes tenha dado especial cuidado, para o aviventar da consciência.
— Se isso lhe puder servir de consolo, saiba que não fizemos nada demais. Apenas o transportamos para cá e lhe demos a atenção normal que se dedica a todos os que se sentem debilitados emocionalmente. Cuidados maiores tivemos quando chegou do mundo exterior.
— Eu me senti, contudo, muito pior, como se estivesse carregando o mundo às costas.
— Mera impressão causada pelas sensações de desconforto moral.
— Tem você conhecimento dos fatos relativos à minha vida anterior e aos eventos que concorreram para a última passagem terrestre?
— Não me estimulei a saber especificamente o que fez para derrear tão fortemente. Imagino, pelo que tenho visto freqüentemente, que os ganhos morais de lá para cá fizeram com que fosse capaz de analisar com propriedade quais os interesses íntimos que desencadearam as ações que levou a cabo. Quanto aos episódios que lhe provocaram tão dolorosas reações, não me provocam nenhuma curiosidade. Estavam no esquecimento e podiam ser intuídos. Você achou que precisava comprovar que, de fato, era menos desenvolvido. Teve a sua oportunidade. É só. Agora é enfrentar os débitos, caracterizando-os o melhor possível para o trabalho de resgate.
— Quero saber se todas as pessoas têm o privilégio de conhecer os meios para a superação das dificuldades. Calculo que sim, porque Deus é pai de infinita misericórdia, mas o que me atiça é se a formulação encontrada para mim é a mesma, por exemplo, do meu assassino, aquele irmão que acionou o gatilho.
— Cada pessoa irá trilhar o caminho que se coaduna com o nível de desenvolvimento espiritual do momento. Talvez não lhe interesse mais saber que, em épocas mais pregressas, você esteve metido em outras trapalhadas, com certeza bem mais pungentes. Entretanto, se tiver paz, poderá, em tempo oportuno, ir descerrando todo o passado, de forma a perceber como é que vem resolvendo os problemas da personalidade.
— Você fala como se eu estivesse prestes a me integrar no sacrossanto ambiente socorrista da colônia.
— Sem dúvida. Aliás, só está aqui porque os superiores o julgaram apto para sofrer o noviciado evangélico. Após diversos cursos, cujos roteiros lhe serão apresentados em breve, será colocado em grupo de atendimento de pessoas carentes, de acordo com os dotes espirituais mais pronunciados na personalidade.
— Que devo fazer com o conhecimento de quem são os meus pais, a minha irmã, os avós e sobrinhos, os tios e primos e demais parentela?
— Não é verdade que a maioria o estima com sentimento arraigado desde outros contatos existenciais?
— A surpresa foi encontrar quem tenha aceitado partilhar de minha companhia na carne, sob a égide do sacrifício.
— Da sua parte, os antigos ódios prevalecem ou julga que tenha feito valer o mesmo perdão estendido aos que o despojaram da vestimenta material?
— Qual é a vibração que emito e que você, bom amigo, tem condições de avaliar?
— A pergunta que fiz não é retórica. O que observo é que está muito concentrado nos problemas, a ponto de impedir-me o livre trânsito em sua mente. Tanto isso poderá estar ocorrendo por sentimentos de caráter negativo quanto positivo.
— Pensei que lhe fosse meu espírito um livro aberto.
— Engana-se quando supõe que seja eu tão perspicaz.
— O que o impede de ser?
— Estou, vamos assim dizer, na primeira linha de atendimento. Deixo-me, facilmente, envolver nas nuanças emotivas dos assistidos. Imagine um ser de elevados poderes, espírito de luz, alguém cuja responsabilidade se estende por diversos povos, um administrador sideral. Terá ele de se preocupar se algum dos bilhões de seres está passando por fase de depressão e tristeza? Não. E por quê? Porque conhece todas as causas e todas as conseqüências, todos os remédios e todos os delíquios.
— Estou entendendo perfeitamente. Sinto que o instrutor está desejoso de me fazer sentir melhor, partilhando dos efervescentes mistérios da psique arruinada.
— Não tire conclusões precipitadas. Estabeleça, como critério de ação, a vontade de adquirir, o mais cedo possível, o domínio de si mesmo, em função da ajuda aos semelhantes. Faça como não fez o rico que não vendeu as propriedades e não seguiu o Cristo. Despoje-se de todos os dramas e fortaleça o ânimo para as crises que advirão ao se defrontar com as acusações e invectivas dos seres cujo vínculo com você foi revelado. Esteja convicto de que todos devem passar por igual aprendizado, de sorte que a responsabilidade evolutiva depende apenas de cada um. O que podemos fazer é incentivar a resolução dos problemas e a aquisição das virtudes.
— Vamos supor que me revolte e deserte para além das muralhas da colônia. Você está afirmando que não irá merecer nenhuma represália dos dirigentes, embora possa sentir-se magoado por não haver encontrado os recursos mais adequados para me convencer a melhorar. É isso?
— Se me sentir magoado, poderei retardar o aprendizado dos elementos socorristas que me faltam. Deliberaria estudar as razões da dissensão e perseguiria o objetivo de vê-lo de novo sob os cuidados desta casa. E nada faria sozinho, mas com o pessoal que comigo atua, porque nada neste setor depende do exercício individual do socorrismo.
— Devo concluir, por força das lições que sub-repticiamente me fornece, que sou por demais individualista…
— Não foi esse o maior mal evidenciado pela regressão da memória?
— E quando, após milênios trabalhando com grupo coeso e amoroso, estiver apto a ingressar na esfera seguinte, terei de abandonar os companheiros? Não terei criado laços sentimentais inúteis? Não me sentirei frustrado por trabalhar apenas para o meu próprio progresso?
— Reflita sobre isso.
Teo imergiu profundamente nos raciocínios. Não demorou a observar:
— Deixarei para trás amigos virtuosos e me encontrarei com outros ainda mais excelentes. Poderei auxiliar os menos perfeitos, da mesma forma que estou recebendo ajuda neste ambiente amorável. A reunião final se dará na perfeição do Senhor.
— Preencha esta ficha de inscrição, após ler todos os itens do catálogo de cursos. Escolha o que julgar o mais conveniente. A partir de amanhã, vida nova.
— Não será este requerimento mera formalidade para me provar que a escolha não foi a mais feliz?
— Com certeza, mas dará ao encarregado de recebê-lo condições para abrir o diálogo das expectativas. Seja o mais rigoroso possível na opção, como está sendo arguto na percepção da finalidade do requerimento.
Teotônio se sentiu, de novo, reintegrado a si mesmo. Deixava para trás as preocupações meramente formais. Dava-se inteiramente ao futuro naquela casa de atendimento evangélico. Transformava o passado de imperfeições em painel de fundo no palco em que deveria atuar. Abraçou longamente o amigo e instrutor, desta feita sem lágrimas, e agradeceu ao Pai, sem traduzir em palavras, o beneplácito do descortino espiritual.

Indaiatuba, de 01.12. 95 a 02.02.96.
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