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Erótico-->AS LEMBRANÇAS DE MURILO -- 16/02/2005 - 15:38 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER












AS LEMBRANÇAS DE

MURILO






GRUPO DAS EMPRESAS SURPREENDENTES


REDATORES: RICARDO, HONÓRIO E JOSÉ



“Nós vivemos, nós pensamos, nós agimos: eis o que é positivo.; nós morremos, isto não é menos certo. Mas, deixando a Terra, para onde vamos? Em que nos transformamos? Estaremos melhor ou pior? Seremos ou não seremos? Ser ou não ser: tal é a alternativa.; é para sempre ou para nunca mais.; é tudo ou nada: ou nós viveremos eternamente, ou tudo estará acabado em definitivo. Sobre isso é muito importante pensar.”
Allan Kardec (O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Cap. I, item 1.)





Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE


Introducing our message ....................................
1. Sintomas da perfeição ......................................
2. Um dia agitado .............................................
3. A bênção do Espiritismo ....................................
4. A misericórdia de Deus é infinita ..........................
5. Luta íntima ................................................
6. Márcia .....................................................
7. Magnitude absoluta .........................................
8. Minhas fontes bibliográficas ...............................
9. Reencarnação e progresso ...................................
10. Limpando as gavetas ........................................
11. Meu pai e minha mãe ........................................
12. Uma gaveta trancada ........................................
13. Cuido de mim ...............................................
14. O sentido do perdão ........................................
15. Agarrando o touro pelos cornos .............................
16. O iceberg derrete ..........................................
17. O passado só vale enquanto presente ........................
18. Criando coragem ............................................
19. A palestra .................................................
20. Troco de centro e de vida ..................................
21. Dois anos depois ...........................................
22. Rosália reaparece ..........................................
23. Onde estão os espíritos de luz? ............................
24. Um dia livre ...............................................
25. Surpresas quase desagradáveis ..............................
26. Maria ......................................................
27. Um pequerrucho na lista das coisas boas ....................
28. ...E Deus dispõe ...........................................

ADENDA

I. Meu marido na realidade .....................................
II. Surpresas no computador ....................................
III. Minha conversão ...........................................
IV. As lágrimas de Ana .........................................
V. Murilo se manifesta .........................................
VI. As editoras respondem ......................................

Posfácio .......................................................



INTRODUCING OUR MESSAGE

Devemos anotar de início que não temos a pretensão de escrever nada que não possa ser imediatamente decifrado pelo nosso mediador encarnado, dado que tem de ser de seu controle o inteiro teor das mensagens, caso contrário, iremos ficar sumamente atrapalhados com o fato de nós mesmos não estarmos a par da própria escritura, já que não nos cabe ditar e avaliar o sistema de tradução, ou melhor, se a resultante do influxo energético do etéreo esteja adequadamente transposto para o humano linguajar.
É ao médium que cabe ir corrigindo as falhas de datilografia, de ortografia e outras de maior sutileza, apesar de nossa velocidade estar no ápice de nossa capacidade de transmissão pela transformação em ondas das vibrações que produzimos segundo o aparato, vamos dizer assim, da nossa fisiologia perispiritual. Como adequamos a freqüência ao receptor, vai ele captando a mensagem mais ou menos a contento.
Não terá esta apresentação muito de tradicional, porque começa com a apresentação de problemas e não através da descrição pura e simples dos objetivos da turma, qual o gênero escolhido para as manifestações diárias, quem é o transmissor, quantos são os elementos da turma e qual o seu vigor espiritual, dentro dos parâmetros estabelecidos pela escala espírita e dimensionados inúmeras vezes pelas turmas que nos antecederam.
Surgem na mente do médium algumas idéias como que o reflexo de antigos pensamentos ou intuições, a configurar situações dramáticas para o humano desempenho nesta esfera de agruras e lágrimas, como sói acontecer aos que têm maior sensibilidade e se preocupam com o bem-estar e a felicidade dos semelhantes. Tais eflúvios energéticos, não bem caracterizados em relação ao que está sendo captado, à medida que vai ele escrevendo, meio sem saber qual o destino de cada frase e até mesmo o enquadramento de cada palavra ou expressão em seu contexto primário, hão de, finalmente, resultar em indiscutível progresso na prática ou no exercício mediúnico, totalmente dentro das possibilidades doutrinárias de espíritos contidos nas linhas demarcadas em rija programação pelos professores responsáveis pela classe que se avizinha desta mesa e pelos mentores que definem os limites dos textos para conhecimento dos encarnados, sem referência ao fato de que talvez quedem num arquivo anônimo de computador.
Fomos estimulados a fomentar, inicialmente, a sadia curiosidade do escrevente, para que se doe de modo integral — como tem feito até aqui — ao trabalho de apanhar tudo quanto lhe chegue à mente ou que consiga conceber como produto de formulação inteligente e conseqüente de entidades interessadas no duplo aspecto de todo exercício mediúnico: a educação dos que se comunicam e a elucidação dos vários problemas surgidos nas sessões de estudos doutrinários.
Alguns sentirão em nossas palavras o intuito maligno de se promover alguma espécie de cisão no movimento espírita, porque, forçosamente, haverá quem aplauda as soluções que propusermos, enquanto outros, pondo o pé atrás, não vêem qualquer importância nas novas mensagens, pois possuem arsenal de conceitos amplamente desenvolvidos através da categoria de um codificador que uniu às qualidades de pedagogo, a faculdade de filósofo não alienado da realidade, tanto que trouxe para a vida comum dos mortais muitas idéias formuladas a partir das informações daquela constelação de espíritos de primeira grandeza sob o comando do Espírito de Verdade.
Se, porém, se conformarem os leitores com a motivação da nossa própria necessidade, que relevem as muitas puerilidades e que almejem decifrar os temas que, por falta de recursos intelectuais ou por sobejo de reações emotivas, se inscreverem entre os misteriosos, os dúbios, os nebulosos, não se coadunando com as regras da boa composição e com os padrões da mais rigorosa lógica.
Juvenal é o mestre.; das Empresas Surpreendentes, o grupo.; Ricardo, Honório e José, os redatores, que um só não está dando conta de redigir os textos a contento da classe, porque se teme destruir o elã impresso pelo médium à sua contribuição.
Quanto à natureza dos escritos, fique para o primeiro capítulo a introdução do tema.



1. SINTOMAS DA PERFEIÇÃO

Recebi o seu recado numa sexta-feira à tarde, quase à noitinha. Não dava mais tempo de providenciar a minha ida ao banco para a retirada da quantia necessária para resgate de sua dívida com os traficantes.
Evidentemente, não tolerariam receber um cheque, que lhes traria algumas complicações imediatas. Precisavam de dinheiro vivo, porque os negócios são assim que são feitos no submundo do crime.
Anulei a possibilidade de que algo pudesse ocorrer de mau para o meu filho, mas, assim mesmo, envidei alguns esforços junto ao telefone, até que encontrei um amigo comerciante que não havia depositado a féria do dia e que se prontificou a trocar o meu cheque.
Antes de sair, telefonei para o meu filho e lhe expliquei que o dinheiro estava sendo providenciado. Que esperassem umas duas ou três horas, no máximo.
— Pai, eles estão impacientes. Querem o dinheiro em meia hora. Por favor, estou refém dessa quantia...
Desligou ou desligaram e não mais ouvi a voz dele na vida.
Quando a polícia me chamou para reconhecer o corpo, ainda estava com o dinheiro no bolso, uns míseros três mil reais, valor da vida do meu rebento de vinte e três anos. Não deu sequer para um enterro condigno do nome de meus ancestrais, maculado pela primeira vez.
A mãe nem ficou sabendo do assassinato. Dois meses depois, apareceu com um lenço aos olhos, perguntando, perguntando, perguntando, com ares de quem me responsabilizava, embora não o fizesse diretamente por respeitar meus sentimentos, que sabia abalados profundamente.
Levou alguns pertences miúdos que encontrou numa gaveta. As roupas já haviam sido doadas e alguns objetos de maior valor também. Comigo ficou o relógio, que fiz questão de acertar com a hora em que recebi o maldito telefonema, deixando-o desprovido de bateria, para não alterar o horário.
No centro espírita, o pessoal passou a me ver com olhos diferentes. Antes, lastimavam que tivesse ficado sozinho, abandonado pela esposa, devendo cuidar de um rapaz sabidamente desequilibrado. Agora, as vistas eram como que a sombra que se carrega atrás de si, que a gente sabe que lá estão e com que não se importa quando se encontram à nossa frente.
Os meus amigos médiuns perguntaram-me se me interessava por um contato especial, glória das comunicações pessoais dos seres melhor dotados de energias e virtudes, consolo divino aos que necessitam arrefecer o desespero, pela via perigosa das notícias que terminam por ser a apoteose de uma existência e que mais não deveriam significar do que um contato comum entre duas existências de distintas naturezas.
Sabia das dificuldades que meu filho acharia no etéreo, tão poucos gestos tivera em favor dos semelhantes que pudessem caracterizar-se como de verdadeiro amor fraterno. Ao contrário, até a cominação da pena de morte de que foi alvo, de certo ponto de vista da lealdade entre os homens, poderia justificar-se, uma vez que lesara os fornecedores, esperando sair-se bem num negócio de mais amplas proporções. Em suma, não era flor que se cheirasse e eu não nutria ilusões a respeito de ter recebido qualquer tratamento energético capaz de despertá-lo para um exame de consciência lúcido, quanto à determinação de uma visão do futuro que contivesse algo como que o perdão aos seus algozes.
Estou dispondo as palavras de forma muito condizentes com uma alma confiante na justiça e na misericórdia de Deus, porque esses acontecimentos já repousam em minha memória.
Ontem, recebi, durante a sessão em que doutrinamos obsessores, a visita de meu filho ou de alguém que falava em nome dele, agradecendo-me as preces que nunca lhe deixei faltar, afirmando que havia recebido ajuda de meu pai e que estava tendo a assistência de uma equipe de médicos ou algo assim, porque precisar não sabia de quem se tratava.
Graças a Deus!
Estou impregnando nesta página de meu diário um pouquinho de louvor ao Pai pela graça que me concedeu, podendo afirmar, porque sei que o único leitor destas frases serei eu mesmo, que, se me for dada inspiração, irei, agora que se completou um mês depois de minha aposentadoria, prosseguir redigindo outras notícias como a de hoje, quem sabe terminando, dentro de alguns anos, por constituir-se num volume digno de ir ao prelo.
Eis que, finalmente, esclareço o título, porque, se não contiverem estes dizeres alguns sintomas de perfeição , não terão valido a tinta nem as lágrimas que derramei.



2. UM DIA AGITADO

Depois que escrevi meu primeiro texto, anotado num caderno de brochura, fiquei com muita vontade de rasgar a folha e jogar no lixo. Mas consegui refrear o impulso, jurando para mim mesmo que iria descobrir o que realmente havia registrado que não me deixou satisfeito.
Foi assim que reli a página uma dezena de vezes e me enchi de idéias para refazer quase tudo. Mas também me determinei a não mexer no conteúdo, embora não tenha firmado na mente que deveria manter aquele formato. Houve, entretanto, algo que, se não corrigir logo, ou, ao menos comentar, vai entristecer-me.
Trata-se do trecho em que fiz constar que meu nome havia sido maculado pela primeira vez. Em seguida, citei o fato de minha mulher, a mãe do morto, me haver abandonado, o que, evidentemente estaria a sugerir algum ato de traição, de desentendimento, de orgulho ou egoísmo de um ou de outro.
Em tempo, outra falha absurda reside no fato de não haver dito o nome dos seres envolvidos na trama, falha que corrijo agora, dizendo que meu filho portava o nome de Augusto, aquela mulher é Ana e eu sou Murilo.
Não pretendo estender-me na análise psicológica de Ana, mas a verdade é que é mulher de decisões definitivas, não demorando para levar a cabo os seus intentos.
Nosso casamento se deu após alguns meses de namoro (namoro mesmo), ela engravidou, deu à luz e um ano depois partia, deixando-me a cuidar do nenê, que nem havia completado dois meses.
Nós éramos jovens? Nem tanto: vinte e cinco, eu.; vinte e dois, ela. Ambos sem gosto um pelo outro, que a nossa língua batia nos dentes com excessiva força e constância.
Por mim, enfrentaria a barra, conforme sempre pensei, atribuindo a Ana o insucesso do relacionamento. Mas talvez mude de opinião, com a perspectiva de mais de trinta anos de vida separada, recordando-me dos nossos diálogos, que teimo em não reproduzir, embora saiba da necessidade deles para que os escritos narrativos obtenham sucesso junto ao público.
Não é que não me lembre de como expressava as minhas idéias.; é que a transposição crua das discussões para o papel me põe de sobreaviso quanto a fomentar a criação de formas-pensamentos pelo espírito dos leitores, induzindo-os a mentalizar cenas que podem repercutir no etéreo, chamariz certo para irmãos menos felizes.
No entanto, tenho de assinalar que, sempre que Ana se abespinhava, lá ia eu fazer certas contas e não perdoava a sua incontinência em dias de tensão pré-menstrual. Acendia-lhe a justa necessidade de revide, porque era de sua personalidade não levar desaforo para fora casa.
Ao contrário, um dia deixou-os todos lá e partiu, o nenê muito pequeno.
Por incrível que pareça, ao levar Augusto ao pediatra e ao pô-lo a par de a mãe tê-lo abandonado comigo, ainda tive de ouvir que, provavelmente, era um problema de tensão pós-parto, e lá ia eu contabilizando as reações femininas na coluna dos fenômenos psicossomáticos, sem saber naqueles dias que era essa a nomenclatura mais adequada para a contaminação da mente ou do comportamento através dos desequilíbrios orgânicos mais naturais.
Deixo o texto neste ponto, quanto às memórias que registrei no primeiro capítulo, para aventar a hipótese espírita que hoje conheço de que, na verdade, não tínhamos sido feitos um para o outro, a não ser para a geração de um filho que, estou quase certo, concordamos durante o sono, que deveria ser de minha inteira responsabilidade.
Imaginem o que sofri quando alcancei elaborar essa teoria, após dois anos de idas e vindas às conferências, palestras e aulas evangélicas que se ministravam no centro espírita que ainda agora freqüento.
Escrevo e já desconfio de que os conceitos vão acumulando-se sem explicações definidas, como se eu os respeitasse na qualidade de dogmas, de verdades inflexíveis, de postulados definitivos. Se ocorrer o mesmo de novo, ou seja, se me vir em palpos de aranha, por sentir que o que escrevo vai continuar pesando-me na consciência, ou melhor, se inferir que não terei como dar continuidade à narrativa de minhas reminiscências com um pouquinho de lógica, acho que perderei o pejo de arrancar as folhas, para escrever tudo de novo.
Olho no relógio e constato que faz menos de meia hora que estou passando para o papel o que vou chamar de meus sentimentos, uma vez que, pelas leituras que possuo, não posso considerar este texto de alto gabarito. Valho-me dessa experiência para manter o caderno intacto, porque sei que as explosões emocionais podem significar que não desejo aplicar-me um pouco mais neste desforço de revelar-me a mim mesmo.
Rasgar e incinerar haveria de ser o mesmo que pagar a conta do psicanalista sem se deitar no divã. Penso assim: se não der certo, pelo menos a tentativa terá valido para demonstrar as causas do fracasso, aliviando-me as angústias das futuras frustrações.
Com certeza, se eu mostrar estes dizeres aos meus amigos médiuns, irão dizer que existe algum encosto a me desorientar o ato de pensar e de escrever.
Hoje não quero ir mais além, que os gorgomilos de certas idéias começam a me fazer coçar as pontas das orelhas.



3. A BÊNÇÃO DO ESPIRITISMO

Passei por momentos de depressão após ler o que escrevi mais acima. Mas foi a primeira impressão, porque logo apliquei ao texto os princípios doutrinários e pude avaliar que toda a tragédia de minha vida não cabia num dedalzinho de dedo mínimo.
É que, vejam bem, o Espiritismo traz todas as consolações para os males da mente e muitas para os males do corpo.
Foi por pensar que qualquer sofrimento atual iria alcançar-me onde me encontrasse no etéreo que me condicionei a prosseguir nesta tarefa de compor as minhas memórias. Quero crer que já posso afirmar que se trata mais de um diário, porque nenhum acontecimento passado deixará de decalcar seu rastro, suas pegadas, nesta trilha empoeirada que vou ter de perpassar até o final dos dias ou até o final de minha lucidez intelectual, ou, o que seria mais uma pedra no meu caminho, até que reúna algumas páginas dignas de produzir, no meio espírita, algum arrepio, algum calafrio, alguma emoção de bom teor moral, com o fito de se tornar didaticamente uma obra de mensagens para a auto-ajuda dos leitores, como muitíssimas que conheço e que me emocionaram, em épocas de despautério e de desilusão.
Mas o sistema do comentário está ajustando-se às maravilhas a este enfronhar-me na consciência, tanto que não posso pôr à margem o pensamento desequilibrado da última página, qual seja, o trechinho em que fiz referência à possibilidade dos encontros durante o sono, quando se assumem responsabilidades que não se declaram como tais, enquanto não se contratam os compromissos que são assentes pela vontade manifestada no momento da vigília.
Reclamei de que as idéias se atropelavam meio sem nexo, porque expostas sem critério e sem plano definido. Mas esse é o recurso mais propício a me causar os naturais transtornos de quem está a surpreender-se consigo mesmo.
Bem. Vou levando o meu escrito numa incrível rapidez, porque me parece estar sendo influenciado pelos meus guias espirituais, inspirado, portanto, crente de que tudo quanto registre poderá, em tempo oportuno, merecer correções, acréscimos ou aquela queima universal a que já me referi e que deverá esquecer-se (como espero), se alguém estiver com um volume na mão a abanar desconsolado a cabeça, arrependido já por haver caído nas esparrelas da aquisição e da leitura.

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Não existe invenção mais talentosa do que a linha pontilhada. Deixa o tempo em suspenso e me permite divagar com a pena aérea, por uma hora, uma semana ou até um ano. De qualquer modo, me oferece a condição de volver para diante do papel, para dar continuidade temática à composição.
Desta feita, a paralisação não durou mais do que dez minutos, tempo suficiente para observar que me desviava do objetivo principal de elucidar meu pensamento quanto à influência do Espiritismo sobre o meu ânimo e sobre a minha consistência vital ou espiritual.
É que foram tantos os ensinamentos que absorvi que, no momento de expender algum conceito meu, temo por contrariar algum ponto oculto nos refolhos da memória.
Vou aos fatos.
Quando imaginei que Augusto fora o produto de um conluio na espiritualidade, responsabilizando-se Ana pela concepção, pela gestação e pelo parto, cabendo-me a criação, a educação e a orientação para as experiências da vida, não me foi possível quedar impassível perante a falência de minhas atribuições, pois, como já narrei, meu filho terminou em muito maus lençóis.
Foram anos de muita dor e de um quase desespero, que só não me levaram a algum hospital psiquiátrico porque, como deixei delineado, o Espiritismo me ajudou. Na verdade, apenas após a comunicação de que Augusto se encontrava em condições de se reconhecer e de, portanto, considerar a perda da oportunidade de viver que lhe demos, que me tranqüilizei e pude despertar interesse em assinalar as passagens que iam acumulando-se na minha mente, desejosas de se ver transladadas para o papel.
Agora vêm as considerações filosóficas pessoais, pobres intuições que deverão merecer profundas transformações futuras, pela amostragem do desconforto que pensamentos mais simplórios me provocaram. Em todo caso, adotado o sistema do registro para posterior avaliação, aqui vão elas.
Eu não acho que Ana tenha concordado em dar à luz o espírito de Augusto. A idéia de conciliação de objetivos em estágio de sonambulismo pode ser maravilhosa do ponto de vista da transcendentalidade do organismo perispirítico, justamente quando cumpre a função de elucidar a doutrina e permitir que as pessoas justifiquem muitos atos diferenciados que praticam no cotidiano de suas existências. É muito bonito e provoca justificado orgulho conceber que merecemos a simpatia de seres mais evoluídos que tenham presidido reuniões no etéreo em que se combinam atos de benemerência, seja por amor a outros seres, seja para se implementarem situações em que seremos testados, após as quais, em havendo vitória sobre o egoísmo ou sobre os vícios arraigados em nossa personalidade, evoluímos um pouco.
Entretanto, não tenho como aceitar o fato de a mãe, por uma lucubração acima do plano intelectual, em momento em que todo o sentimento está unido às forças de decisão da vontade humana, ainda mais sob a influência de seres mais poderosos, aflitos por darem a primazia do fado à vontade de Deus, tenha deliberado ajudar apenas parcialmente aquele ser que iria abandonar pouco depois.
Não é verdade que essas idéias ou essas emoções perpassaram pelo espírito do amigo leitor, julgando que, se o Espiritismo dava agasalho a princípio tão pobre em seu caráter moral, não deveria merecer a atenção desta leitura?

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Li e reli, durante as últimas duas semanas, o inteiro teor das expressões acima transcritas. Achei que estavam dignas de figurar como produto de minha modéstia. Mas não me agradei da superficialidade do texto. Por isso, demorei para retornar para este encerramento. É que fui atrás da bibliografia correspondente, tendo encontrado vários conceitos que reafirmavam a minha condição de comentarista. Satisfaço-me, provisoriamente, mas fique bem claro que, se não for capaz de entender esse ponto com mais proficiência, é certo que terei surpresas ao regressar ao plano da espiritualidade e for capaz de analisar com correção os acontecimentos que rodearam a época do entendimento entre nós três.
Não estará correto deixar algo em aberto para um futuro de muito pouco provável confirmação. Mas aqui apelo para o Espiritismo, que me assevera que poderei complementar as minhas memórias (agora, sim — e não mais diário) por via mediúnica. Fique o registro. Quem sabe terei a honra de comprovar mais essa hipótese espírita!



4. A MISERICÓRDIA DE DEUS É INFINITA

Em primeiro lugar, devo dizer que sempre inicio os meus capítulos escrevendo o título. Isto significa que pode ocorrer de me desviar do meu intuito preliminar. Ora, como não desejo riscar o meu livro, se o tema desenvolvido não vier a condizer com o rótulo, tenham paciência os meus fantasmas de leitores e relevem a falha, por favor.
Todo o parágrafo acima veio para dar-me respaldo quanto ao desenvolvimento não corresponder de forma alguma à grandiosidade da misericórdia de Deus, porque a pequenez do redator não terá como fazer refletir, nos míseros dizeres, completamente, o sentimento de que me senti dominado estes dias, porque meditei profundamente, tendo chegado à conclusão de que toda a minha vida deveria ser passada a limpo, o que não pretendo fazer em simples texto de apagado mérito.
O contraste é oportuno para a formulação do meu desejo de exprimir um grave agradecimento pelos momentos de felicidade que preponderaram sobre os de desgraça, não tanto pelo fato de ter realmente motivos de comemoração, mas porque a alienação moral dos fatores de risco de minha existência me fizeram pairar meio na inconsciência dos dramas de que deveria tomar conhecimento, que havia vidas ao meu derredor a exigirem de mim maior atenção e compenetração quanto aos deveres que terminei por não cumprir.
Tento acrescentar fatos sobre fatos, porque me peguei muito triste pelo exame a que me obriguei do texto anterior. Na verdade, quando levantei a hipótese de que o Espiritismo poderia ser mais explícito em suas assertivas doutrinárias, em seus preceitos e teses, fugia exatamente da compreensão de que o estabelecimento da verdade particular de minha psique não se confrontava objetivamente com os preceitos da filosofia impressa por Kardec ao contexto das informações colhidas diretamente dos espíritos de luz, que vieram para transmitir aos homens as noções elementares de como se registram as leis universais, segundo a mentalidade humana capaz de absorvê-las.
No fundo, fui sendo conduzido, raciocínio a raciocínio, à percepção de que não me apresentava não só como não sendo dono da verdade como ainda bastante distante de saber tudo o que se encontrava impresso na codificação espírita, apesar de haver efetuado várias leituras de cada obra, mesmo quando enfrentei inúmeras dificuldades para entender alguns pensamentos contidos em A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, título que faço questão de reproduzir por inteiro, porque as segunda e terceira partes da obra me parecem até mais importantes do que a primeira.
Bem que avisei que poderia divagar, sem perfazer a ordenação do frontispício. Em que tudo o que venho escrevendo satisfaz a premissa de ser a misericórdia de Deus infinita?
É que eu mesmo não sou capaz de me perdoar, pondo, inclusive, na cabeça, a presciência de que os leitores também não irão estar convencidos de que deverão fazê-lo, a não ser se pensarem ou se sentirem que deverão prestar a mim o dever universal do amor ao próximo.
Dei uma longa volta em todo o circuito e terminei exatamente onde queria começar, isto é, falando que Augusto jamais representou para mim o filho que desejaria ter tido. Talvez essa repulsão se deva ao fato de eu haver atribuído subjetivamente à sua existência a perda da companhia de Ana. Quer dizer que olhava para a criança e me lembrava dos momentos felizes que passei com a mãe. Apesar disso, ao invés de me alegrar com a lembrança, jogava intuitivamente naquele frágil ser a responsabilidade das nossas desavenças, como, mais tarde, iria justificar, através do Espiritismo, a necessidade de expiação de minha alma conturbada, tendo de cuidar do fedelho.

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Não pude prosseguir ontem naquela linha de sofisticação racional imprópria para o meu parco conhecimento dos meandros da intelectualidade superior.
Penso que deveria ter explicado, desde logo, que, embora não seja estranho às letras, jamais dei vazão às produções de meu próprio cabedal nem como resultado de trabalho de investigação a respeito de qualquer ramo do conhecimento humano. Freqüentei uma faculdade onde recebi o diploma de professor de língua pátria. Quero que notem que estou procurando terminologia passível de escrever-se em iniciais minúsculas, para o que tenho muita desenvoltura, uma vez que a minha profissão da vida toda foi a de linotipista, tendo passado a digitador, sempre contrabalançando as minhas horas de trabalho na oficina com as funções de revisor de fundo de escritório.
Alguém mais arguto já deve estar percebendo nas entrelinhas o porquê não desejo riscar nem alterar nada do que vou escrevendo. Saberá esse amigo que vou colocando bem devagar as palavras nas folhas? Pois deverá ficar surpreso ao lhe fazer recordar de que já mencionei o fato de vir escrevendo com extraordinária rapidez, o que mais acima deixei assinalado. Demoro para pensar ou para sentir os temas que pretendo desenvolver. Entretanto, diante do papel, deixo escorrer as palavras em enxurradas de idéias, tanto que me atrevi, sem nenhum medo de errar, a dizer que o entrecho não iria corresponder à idéia expressa no letreiro lá de cima.
Pois bem, trabalhando cerca de dez a doze horas por noite, precisei deixar Augusto aos cuidados de uma pessoa responsável. Creio que podem os amigos adivinhar que arrumei outra mulher com quem compartilhar a vida. Mas sobre isso não vou escrever agora, porque perdi o impulso, recordando-me de que deveria terminar o tópico justificando a expressão sob o dossel da qual venho redigindo.
Não é verdade que se pode perceber certo equilíbrio mental em dissonância com os relatos extraídos da memória? A que devo isso? À misericórdia de Deus, que é infinita.
Então, para justificar que recebi a bênção do Espiritismo, o que não deixei muito evidente no capítulo anterior, devo dizer-lhes que as manifestações por via mediúnica de Augusto tendem a me isentar quase completamente da responsabilidade de não tê-lo feito mais cônscio dos deveres e obrigações da própria vida como dádiva de Deus.
Claro está que dou meu desconto à sua boa vontade, pensando que irei tê-lo como anjo guardião, como preceptor, como guia ou mentor, assim que me desligar desta carne, que respeito sem veneração, que agradeço ao Senhor por se ter apresentado bem ajustada ao hábitat muitas vezes inconveniente para os seres humanos e da qual me desligarei sem saudade, quando chegar a minha hora.
Venço a tentação de encerrar com um Graças a Deus!, fórmula sacratíssima que se deve preservar das tantas vibrações do meu acendrado egoísmo, não fora esta obra um memorial...
Em seu lugar, fiquem as reticências.



5. LUTA ÍNTIMA

Surpreendo-me muitas vezes pensando em que não deveria exprimir nenhum pensamento por escrito. Tenho medo de que, em dando certo a minha dissertação e em sendo publicada, vá transtornar a mente de algum desavisado leitor que, esperando uma obra singela a respeito da doutrina espírita, apanhe este maçudo emaranhado de preocupações meio sem nexo e sem lugar.
Está claro que até a advertência acima poderá concorrer para tornar a obra menos indicada para aquele tipo de ingenuidade, restando ao editor a tarefa, com que freqüentemente me deparei durante a minha vida profissional, de abrir os devidos parênteses. Entretanto, não se trata dos meros aspectos formais que me fazem imaginar se não seria útil a interrupção dos escritos.; trata-se dos desarranjos mentais que vêm provocando a mim mesmo.
Eis o contra-senso elevado à categoria de obra didática, na expressão mais lídima do racionalismo insosso de quem está apenas com medo de prosseguir.
— Coragem, Murilo!
Ouço a voz da consciência como que a me impulsionar de encontro ao meu passado, para que não tropece no futuro.
A verdade é que dizer que Augusto me representou uma espécie de antagonista é não dizer as coisas nem pela metade. E o pior ocorreu depois que me integrei como associado ativo do Centro Espírita “Louvor ao Pai”, onde até hoje me encontro, após haver percorrido todos os postos da diretoria, exercendo agora honrosa função junto ao Conselho Fiscal, título honorífico e absolutamente inócuo, pois nós três apenas assinamos o que o Diretor Contábil nos passa, depois de receber do Tesoureiro todos os documentos preparados.
Quando meu filho estava com uns dez ou doze anos (não parei nem vou parar para fazer contas), foi que Márcia me trouxe, em sua companhia, para o humilde local das reuniões evangélicas, sob as luzes de Kardec. Márcia não se apegou ao rapazote, porque sempre foi muito agressivo para com ela.
Quanto a mim, Augusto nunca se indispôs, acatando a minha autoridade em silêncio, como a pensar com seus botões que eu era um pobre infeliz, abandonado pela esposa, que me obrigou a uma separação com pagamento de pensão e tudo, passando de um companheiro a outro, como se bebe água. Isto há de ser o máximo que me aventurarei a falar de Ana com resquícios de menosprezo. E o faço com muita dor no coração, não apenas porque jamais me conformei por ter ela ido embora, como por saber que todas as minhas vibrações adversas terão de receber a contrapartida da benevolência, no justo limite da compreensão de que todos temos direito ao nosso livre-arbítrio para aplicá-lo com sabedoria, na confecção de nossa existência corpórea e espiritual.
— Mas Ana não soube fazer uso de sua liberdade!...
Isto não pode pesar um tiquinho que seja na balança de minhas ponderações, porque o máximo que posso exigir de mim é integral apoio a todas as pessoas que se relacionarem comigo durante a eternidade.
Falei de Ana apenas para preparar as considerações que desejo expender a respeito da minha estranha avaliação a respeito dos liames cármicos que me prendem ao meu filho.
Não dá para resumir o que senti durante todos estes anos, desde que me vi rejeitando-o ainda bebê. Mas houve momentos também de alegria, momentos de arrependimento em que me vi acompanhando-o aos estádios de futebol, às pizzarias, até que o perdi para os bailes das discotecas e não sei que outras maneiras têm os jovens de se drogarem, a partir da alienação completa de seu momento vital pela alucinação sonora dos grupos metaleiros.
Mas, quando comecei a estudar as diretrizes doutrinárias, iludi-me com a idéia de que recebera em casa um antigo inimigo de outras encarnações, algum rival no leito de Ana, cuja atitude de rejeição do próprio filho terminou por se transformar de tensão pós-parto em...
Hesito em categorizar a atitude da mãe em relação ao filho, apesar de apenas demonstrar um pensamento antigo (que mais era um sentimento), porque me volta aquele estremecimento de fixar no papel um determinado instante para perpetuá-lo pela reprodução das leituras,
Em todo caso, resguardando-me por um pai-nosso, que oferecerei em seguida aos irmãos que sofrem nas Trevas ou no Umbral, devo dizer que cheguei a imaginar que Ana houvesse abandonado o filho porque teve a intuição de que iria reviver os sofrimentos de outrora.
Eis que acabo de dizer indiretamente qual a suspeita que me cresceu no coração relativamente ao meu próprio sentimento em relação a ele. É que o Espiritismo, que eu não sabia aplicar com sabedoria aos meus reflexos emotivos quanto às pessoas em geral ou de meu convívio, me levou a considerar Augusto como aquela pedra em que se tropeça, o meu motivo de escândalo, o inimigo de todos os tempos a quem deveria ter dado toda a minha assistência e acabei por perdê-lo, apesar de, até o fim de seus dias, eu haver passado mais de dez anos estudando a doutrina espírita.

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Refleti bastante após a prece que repeti várias vezes, porque me surpreendia com o pensamento pairando muito longe dos divinos dizeres de Jesus. Cheguei à conclusão de que toda a minha atual preocupação é irrelevante. Ao contrário, a leitura deste meu texto poderá servir de aviso justamente àqueles leitores ainda não totalmente enfronhados nos meandros de uma consciência pejada de culpas invisíveis, porquanto nem o estatuto do confessionário existe no seio do movimento espírita.
Por falta de um sacerdote obrigado ao exercício gratuito da caridade psicanalítica, atribuí tacitamente a responsabilidade a minha segunda esposa, mas este episódio me furto de revelar agora, porquanto não contei ainda as peripécias do meu segundo consórcio matrimonial.
Finalizo, porém, adiantando que as suspeitas, que ia caracterizando como intuições anímicas ou inspirações mediúnicas, agora as classifico entre os preconceitos espíritas, graças ao meu bom guia, o qual se dignou instruir-me em reuniões de mediunidade psicofônica por mim presididas.



6. MÁRCIA

Mais jovem que eu quinze anos, era apenas u’a mocinha quando nos casamos. Era menor de idade mas não precisei da permissão dos pais por duas razões: primeiro, não nos casamos no civil e muito menos no religioso.; segundo, ela era órfã de pai e mãe, desaparecidos num desastre de barcaça em plagas amazônicas. Ela sempre me descreveu o naufrágio com todos os termos regionais, mas, como estou mantendo este meu nível sociolingüístico de padrão culto (talvez com aspirações de ser lido também em Portugal), faço questão de neutralizar as descrições, ainda porque nenhum adendo significativo acrescentaria à história de nossa vida.
Vão pensar que não me casei porque não oficializara a separação de Ana através do desquite. Pois se enganarão os que assim pensarem. Tranquei o contrato esponsalício com a primeira mulher na forma da lei, tanto que mantive o pagamento da pensão durante muitos anos, até que, por piedade de mim ou por julgar que me estivesse sufocando financeiramente (e estava), ela me dispensou, de papel passado.

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Pequena pausa para refletir sobre como reagirão os leitores, por afirmar que lhes vou trazer informações sobre o segundo matrimônio e prossigo a desfiar lamúrias relativas ao primeiro.
Errarão também os que suspeitarem de que Márcia se colocou na minha vida como regra-três (substituto que ocupa lugar no banco de reservas para eventual participação na peleja).
Em verdade, em verdade lhes afirmo (valha-me o estilo bíblico) que Márcia chegou para me fazer esquecer da outra quase inteiramente, não fora a despesa mensal que me obrigava a dedicar alguns minutos de minha atenção a Ana.
Também não nos casamos na Igreja, Márcia e eu, porque os padres me considerariam bígamo e porque a cara consorte já estabelecia como padrão de procedimento moral os preceitos doutrinários espíritas, para cuja filosofia não cabem os aparatos de cunho religioso, as cerimônias de culto externo nem nada que não seja apenas o reflexo da intenção santificada pelas virtudes evangélicas da modéstia, da mansidão, da prudência, da simplicidade e da humildade.
Bem que estou tentado a suspender de novo a pena para refletir a respeito de alguns impulsos que estão a me inspirar quanto a comentários a respeito dessa prescrição do Espiritismo. É que me vêm à memória alguns elogios contidos em obras do segundo escalão bibliográfico espiritista, muitas mediúnicas, que enaltecem os momentos de exposição pública dos nubentes, quando são recepcionados em festa pelas palavras de incentivo e pelos fluxos vigorosos de energia positiva da parte das pessoas e dos espíritos que os querem bem.
Neste caso, eu diria que uma reunião de congraçamento íntimo dos familiares e dos principais amigos, isenta de qualquer caráter religioso, sem véus e grinaldas e sem promessas solenes e aparatosas, sem troca de alianças, mas com alguns brindes, com discursos entre maliciosos e sentimentais, com lágrimas de felicidade e prolfaças oportunas, até que estabeleceria um momento de sincera alegria muito propício para algumas orações em ação de graças, para solicitar a Deus saúde e manutenção do amor e da amizade e para enaltecer o bem da vida e da existência.

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Nova interrupção, mas agora para meditar num modo de justificar a dissertação doutrinária, o que não me será difícil, porque, enquanto relatava o que de mais conveniente deveria existir no enlace matrimonial como informação social aos membros das comunidades familiares dos dois seres, ia simplesmente reproduzindo o casamento tal qual imaginou Márcia, tendo realizado tudo exatamente conforme os passos acima.
Notem que coloquei todo o efeito da reunião festiva como de responsabilidade de minha nova esposa, porque o degas aqui (termo de minha gíria antiga, que quer dizer sujeito pretensamente importante) não queria aceitar nada daquilo, pela esfrega das anteriores núpcias. Haveria algo como que certa vergonha, certo pudor, certa tonalidade de humilhação pelo fracasso antigo? A desculpa que dei à época de que Augusto não iria aplaudir o evento se derruiu, porque foi dele a manifestação mais emocionante de apoio e de irrestrita solidariedade à minha pessoa, embora, como já anunciei, reprovasse terminantemente a figura adolescente de minha nova esposa.
Sobre essa aproximação das idades entre madrasta e enteado muito pensei, de modo que não cabe aqui nenhuma linha pontilhada. Apenas, não posso adentrar muito profundamente no tema, porque me propus a falar a respeito de Márcia.
Sendo assim, posso dizer que era do tipo mignon, ou seja, delicado, gracioso, gentil, ao contrário de Ana, que era alta e corpulenta.; de tez bem escura (Ana é loura de olhos azuis), e de sorriso nem sempre aberto mas preponderante (já se sabe que Ana vivia casmurra, de cenho fechado).

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Tenho certeza de que Márcia, de onde se encontra lá no etéreo, me acompanha a descrição de sua personalidade, perdoando-me a incapacidade de me concentrar em sua figura adorada, porque sabe que preciso mesclar a este seu retrato outras emoções menos abrangentes, menos intensas e menos agudas, caso contrário, a só recordação de sua pessoinha (mistura de pessoa e de minha) irá comover-me a ponto de me sufocar o intento de escrever, diluindo em lágrimas a tinta da caneta.
Passo o informe àqueles que, sabichões inveterados, estavam vendo mais Ana do que Márcia no quadro de minhas reminiscências.
Voltarei algum dia. Prometo.



7. MAGNITUDE ABSOLUTA

Conduzo o pensamento para as regiões mais elevadas que a minha imaginação consegue conceber, lá onde deverão estar as criaturas mais evoluídas, desde os santos homens que se elevaram em virtudes, até aqueles seres de outras eternidades (se não for demasiada ousadia inferir que o eterno nada tem de ver com o tempo nem com o espaço), oriundos de moradas em que a peregrinação ao Criador se faz por outros meios, uns mais rápidos e decisivos e outros mais demorados e infelizes.
Essa distinção entre os mundos me prende o pensamento, porque a intuição que tive diz respeito ao fato de que muitas existências devem amarrar-se durante tempos imemoriais nos percalços das personalidades renitentes no mal, enquanto outras perpassam por crises mais agudas, mais pungentes, mais sérias e, por isso mesmo, mais aptas a favorecer um progresso mais rápido.
A explicação não me deixa contente, porque excessivamente teórica. Se pudesse exemplificar, talvez merecesse mais crédito e talvez firmasse melhor a minha idéia, quem sabe fixando um ponto doutrinário ainda não totalmente entendido ou completamente estudado por mim mesmo.
Quero crer que Augusto tenha sofrido muito. Tendo recebido ajuda e sendo grave o seu estágio, pôde perceber que não estava avançando no caminho da felicidade. As coisas que lhe pareceram gozos de intenso prazer na Terra, agora representavam um verdadeiro inferno de loucura, não tanto porque estaria incapaz de reproduzir os ingredientes físico-químicos que o alienavam da realidade, mas porque avaliou o seu desempenho, tendo descoberto que nada significou para o progresso do espírito, bastando comparar como veio para o plano material e como dele saiu. Foi assim que, após uns poucos anos — mesmo que tivesse sido um século, que figura haveria de fazer diante dos milênios que esperam por nós para atingirmos aquele estágio de perfeição a que a minha imaginação estava conduzindo-me? —, após alguns anos, como dizia, Augusto pôde controlar os seus impulsos deletérios, que resultavam em penosa situação psíquica (tal como se vê nas clínicas de desintoxicação que agasalham os viciados de todas as espécies), para conseguir proceder em harmonia com as diretrizes elementares do comportamento voltado para o amor ao próximo, enquanto não se é suficientemente evoluído para atingir a meta primordial do amor ao Pai, acima de todas as coisas.
Por outro lado, vejo Ana a bater a cabeça, de relacionamento em relacionamento, sem levar avante um plano definido em prol das pessoas carentes (nem ao menos foi induzida a prestar auxílio, se não físico, ao menos moral, ao filho que terminou sendo assassinado). Vai ela amealhando momentos em que se julga dona de si mesma e, portanto, tendo a ilusão de que põe o cabresto nas outras pessoas, aproveitando-lhes o que têm de melhor, exaurindo-lhes os eflúvios da simpatia e da amizade, comburindo os sentimentos em paixões desenfreadas, deixando sempre para depois a reflexão mais importante de que existe uma vida após a morte, que deve ser prevenida através de atos de bondade e de resignação — às vezes mesmo, de sacrifícios e de abnegação — e que sempre se há de saber que as outras pessoas são as nossas irmãs no Senhor e que merecem compartilhar efetivamente de nossos momentos de felicidade. Explico-me um pouco melhor: é que, unindo-se de caso pensado por uns poucos meses aos parceiros de momento, não dá a estes condições de julgarem que a pessoa que puseram sob seu teto espiritual não lhes dá a devida consideração e os passará para trás, assim que de sua aventura não puder mais extrair o sumo das novidades e o ritmo descompassado de um coração que não se preocupa com mais ninguém. Chego a duvidar de que Ana haja, verdadeiramente, sofrido algo na vida, pelo pouco de importância que atribuiu à morte trágica do filho. Por outro lado, examinando o que se espera das criaturas para sua evolução, noto que existem muitos conceitos abstratos, que acima expus, na formulação das qualidades que lhe faltam. Ora, se Ana faz o que bem entende e não deseja dedicar-se a decifrar o emaranhado filosófico que a própria existência põe perante os olhos de todos os seres pensantes, vai ter de fazê-lo mais tarde, quem sabe no etéreo, quem sabe numa fieira de encarnações cada vez mais sofridas, porque irá muito aos poucos compreendendo que deve pedir menos conforto para obter mais entendimento, ou melhor, mais luz espiritual.

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Márcia jamais se apresentou junto a nossa mesa mediúnica nem transmitiu qualquer comunicação particular que chegasse ao meu conhecimento. Se, pelo menos, alguém viesse falar em nome dela ou a respeito dela, poderia eu ter mais certeza do que nestes dois últimos dias passei a refletir.
Li e reli a primeira parte do capítulo e julguei tudo muito conforme à minha capacidade de entendimento das questões doutrinárias espíritas. Aí me surgiu o problema que passo a expor.
Considerando que Márcia teve o seu quinhão bastante forte de dor e de sofrimento, pela perda dos pais em circunstâncias muito ruins para a formação de sua personalidade.; considerando que soube vencer todos os dramas psicológicos inerentes à falta de uma abençoada educação que sói acontecer quando são os pais amorosos e dignos.; considerando que teve oportunidade de trabalhar denodadamente pela felicidade de muitas outras pessoas, quer no âmbito familiar, quer no centros espíritas que freqüentou, levada pelos parentes que a criaram (onde recebeu diversas mensagens de seus pais, sempre no sentido de estimulá-la ao bem e às obras de caridade, por amor, conforme as prescrições de Jesus).; considerando que leu todos os textos da codificação kardeciana com verdadeira vontade de assimilar os conhecimentos ali sedimentados, acrescentando outras leituras nobres de autores falecidos e outras tantas de gente viva, sem uma única palavra de crítica a nenhum deles, sempre louvando os seus raciocínios através de citações oportunas.; considerando que morreu sem uma só palavra recriminatória quanto à sua sorte ou quanto a qualquer pessoa que a tivesse, de qualquer modo, ofendido, como no caso de Augusto, a quem dedicou a derradeira prece, já nos estertores da morte.; penso ter o direito de concluir que Márcia, minha querida menina e esposa, minha luz nesta Terra, meu fanal de doces esperanças de um futuro esplendoroso em alguma colônia a meio caminho entre o Umbral e a esfera subseqüente, rumo à perfeição, esteja no gozo das delícias de outra morada de muito maior felicidade, preparando o nosso novo lar, sob o modelo deste que aqui me deixou, mas sem o engaste tremendo de uma carcassa que me proporciona cada vez menos os estremecimentos sensórios que costumam manter empolgadas as pessoas jovens. Pois bem, Márcia, afora o problema da comprovação, seria a minha estrela-guia para a confirmação de que, quanto maior a espiritualização já em vida, maior o empuxo evolutivo em qualquer esfera para onde a gente se transfira após a morte.
Claro está que não pretendo ter escrito nenhuma novidade. Mas o que me trouxe até este ponto do trabalho foi um sentimento de plenitude moral, como se já estivesse preparado para adentrar os portais da última morada, aquele reino de que nos falam todas as escrituras, em todas os idiomas. Nem mesmo os comentários que realizei quanto às três pessoas aludidas me obstaram a euforia de me ver avançando celeremente no rumo da compreensão. Não se trata do benefício do conhecimento.; mas no gozo de saber que sempre haverá um dia, uma vez, uma vibração, uma energia, uma eternidade, em suma, em que todos os pesos serão aliviados, em que todas as dúvidas serão sanadas, em que todos os mistérios serão revelados, em que todos os amores serão unidos...



8. MINHAS FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Gostaria tanto de que houvesse nem que fosse um único leitor interessado em discutir o texto que vou elaborando! No entanto, temo que irei ficar a debater comigo mesmo até o momento de pôr fogo em todas estas manifestações egoístas e aparatosas, porque muitíssimo pretensiosas, perante a humildade que deveria possuir, para adentrar serenamente naquele mundo de paz.
Fazendo de conta que estou em um grupo muito seleto de atentos ouvintes e que, no mínimo, poderei ser lido por algum examinador de editora a quem vier a solicitar publicação, praia onde me banhei durante muitos anos ao sol dos desesperos inócuos dos autores inéditos e anônimos (pelo menos essa dor de consciência não irei carrear para o etéreo, quando daqui me despedir, o que acredito não vá demorar), vou dar certo cunho literário à minha escritura, no que tange às rigorosas normas das citações das obras que me deram amparo para a elaboração dos temas técnicos.
Neste ponto, fraquejo, eu, linotipista, datilógrafo e revisor, a quem coube, muitas vezes, a agradável tarefa de diagramar os textos, sempre, é claro, de acordo com as normas da empresa onde permaneci os trinta e cinco anos obrigatórios para a aposentadoria, porque sinto que, no manuscrito, tais atividades quedarão esquecidas e sem utilidade.
Um suposto leitor, amigo meu de muitos anos, acostumado com as máquinas atuais acopladas a computador, irá perguntar-me por que é que não adquiri ainda esse moderno meio de escrever, produzindo resultado mais completo e satisfatório, desde o momento em que se dê o primeiro passo imediato de revisão.
Aí é que está a ironia. Quem foi que disse que em meu lar não possuo um belo aparelho, ligado a uma rápida impressora? Pois nem posso valer-me do velho refrão de que em casa de ferreiro...
Mude-se a questão e respondo.
Não quero colocar-me definitivamente diante da tela do monitor, para não ceder ao desejo de aperfeiçoar tudo o que faço neste campo novíssimo da composição pessoal. Quem sabe, se terminar algo que possa assemelhar-se a uma obra, tenha a confirmação de que irão colocar-me na linha das apreciações editoriais e então poderei ajustar-me à mesa das soluções pragmáticas.
Fiz a referência ao procedimento antiquado do registro manual das mensagens para levantar outro problema, este muitíssimo mais sério e importante: não tenho índice bibliográfico para dispor nem em notas de rodapé, nem ao final da obra, porque tenho feito cerrada questão de ir levantando os problemas atinentes à minha existência, ainda que me recorde perfeitamente dos textos lidos a que me poderia ter aferrado, de maneira extremamente lúdica, diante dos estímulos que as palavras vão provocando no mundo de recordações de que se constitui este cérebro de velho.
Aquele mesmo amigo e leitor irá sorrir, quem sabe a par de que minha idade é inferior à dele.; ele, lépido e formoso, conquistando quanta garota bonita lhe dê oportunidade a convívio amoroso, além, é óbvio, de freqüentar um clube social, para os bailes de toda semana, e uma academia, para a malhação física de cada dia.
Quem está acompanhando-me (se Deus quiser, assim haverá de ser), deve estar notando que as idéias que disponho no papel tendem a me conduzirem ao final dos meus dias, como se tudo já tivesse realizado e me encontrasse sem perspectivas, sem mulher amada, sem filho promissor, sem encantos doutrinários, sem recursos intelectuais junto a possíveis empresários que me dariam algum trabalho para exercitar-me em casa e para complementar os parcos dividendos que o sistema previdenciário do país vem destinando-me.
Aqui surpreendo de novo, porque tenho um bico bastante rendoso, que me ocupa boa parte dos dias junto àquele computador, além de possuir recursos para me deixar sempre com boa disposição física, de acordo com as medidas do padrão de cinqüentão enxuto.
— Quer dizer que o amigo é sério por efeito das desgraças da vida?
Que sério coisa nenhuma! Sou o que mais faz pilhérias no “Louvor ao Pai”, sempre no seio da comunidade a realizar palestras, a prestar auxílio em todos os setores das atividades filantrópicas, o que significa dizer: no campo prático do atendimento às necessidades materiais, como também na doutrinação oportuna dos sofredores que baixam para as elucidações evangélicas, através dos dotes mediúnicos dos companheiros.
— Cáspite! Com tantas atribuições, ficar a lamuriar-se durante estas horas de introjeção nos arcanos psíquicos, em busca de supostas culpas, para possível catarse ainda em vida, não será desperdiçar um tempo que melhor aplicado seria, caso se desse o alienado escritor a outro quefazer útil para si mesmo ou para o próximo, ainda que estendesse por mais algum tempo o seu lazer, só ou acompanhado?
Passo em branco pela ironia quanto a não apresentar a minha obra nenhum interesse e pelo que possa ter a sugestão de erótico (no mau sentido) e vou direto ao assunto.
Não é verdade que afirmei, ao apagar (ou acender?) das luzes do capítulo anterior, que estava como que em estado de graça, aliviado da sobrecarga carnal, como a usufruir de muitas regalias morais, embalado pela fantasia purificada pela doutrina espírita, que nos faz sonhar com a glória do Pai, após vencer os vícios e defeitos, os quais somos capazes de caracterizar e de minimizar perante as acusações da consciência, essas, sim, capazes de transtornar o sujeito, pondo-o em pé de guerra consigo mesmo, com o seu passado infeliz e com o negrume de seu futuro?!...
Aí é que o carro pega. Ou não pega.
Se esta atividade de escrevente me faz envergar a camisa da seleção dos intelectuais, também me atira de encontro à responsabilidade de ser absolutamente verídico em relação a todas as opiniões e a todas as reminiscências. Foi por isso que embatuquei diante da necessidade de ser sincero quanto às indicações bibliográficas, porque, verdade verdadeira, não me recordo direito dos trechos específicos que me ocorrem de memória, no deslizar da pena.
Sei que deverei suplantar esse problema, pensando seriamente em elaborar texto legitimamente meu, que denuncie a formulação como de meu estilo inconfundível, apto ao esquadrinhar metódico da crítica de fontes — e agora vou reconhecendo algumas destas idéias nas aulas da faculdade de letras, cujos bancos lustrei muitíssimo precariamente na mocidade.
Para bom entendedor, meia palavra basta!
Venço a tentação de troçar e vou direto ao ponto (mais uma vez), afirmando que muitos dos dizeres que fui aspergindo pelas linhas e entrelinhas de todos os textos estão a merecer de meu íntimo fortes considerações, que não ouso despejar nesta página, porque quis retratar-me em foto de corpo inteiro, fixando, nesta gravura, um instantâneo de vida que jamais se repetirá.
Reintroduzo, assim, a temática das reencarnações, agora sob prisma diferente, porque pretendo asseverar que não existem novas oportunidades para antigos espíritos. Se isto lhe soar, bom amigo e leitor, como agressão explícita aos dizeres de Allan Kardec e, por tabela, uma ofensa aos espíritos de escol que lhe trouxeram as diretrizes doutrinárias que tão bem codificou, não se abespinhe desde logo, porque poderei não ir muito longe nas conclusões pessoais, nem ser tão surpreendente quanto esta manifestação preliminar possa sugerir.
Em todo caso, o tema está a merecer um tópico especial, quem sabe até, se tiver sorte, com a revelação intuitiva de alguma encarnação exemplificativa dentro de minha própria evolução espiritual. Ou seja, vamos conversar um pouco a respeito da regressão da memória de caráter multiexistencial.



9. REENCARNAÇÃO E PROGRESSO

Tendo anunciado qual o tema de que trataria em seguida, obriguei-me a refletir e a pesquisar, de modo que permaneci quase um mês distante deste caderno. Isto também não está querendo dizer que o que se vai ler é o supra-sumo da doutrina, sob enfoque mais moderno e rigoroso.
Em primeiro lugar, para grande surpresa minha, encontrei muitos autores que, discordando do fato da reencarnação, admitiam a possibilidade, no que se mostraram absolutamente incoerentes. Se existe um princípio cuja averiguação empírica é impossível de fazer-se, a teoria deve prevalecer, de forma que aceitar a idéia da reencarnação é admiti-la na realidade.
Em segundo lugar, muitos acatam a espiritualidade como morada dos seres humanos que viveram na Terra, sua influência sobre os mortais, o poder das comunicações mediúnicas, mas refutam, na prática, o fato em si, inviabilizando a volta ao corpo carnal, através do raciocínio de que, uma vez envolvidos pelas energias do campo denso da matéria, nem que por algumas horas apenas após a concepção, mesmo que frutos de abortos, os espíritos já adquiriram completa experiência e são capazes de reconhecer, em toda a plenitude e em toda a extensão, o fenômeno inerente a esse processo existencial.
Em terceiro lugar, existem os que generalizam as existências corpóreas, aceitando que o mesmo espírito que hoje vive em corpo terreno, amanhã poderá estar num outro selenita, jupiteriano, saturnino, solar, ou seja, que, tendo em vista o poder de adaptação dos espíritos a todo tipo de perispírito, ainda que sofram, em esferas destinadas a irmãos menos evoluídos, a própria inclusão no invólucro espiritual correspondente, podem sempre aproveitar a misericórdia dessa divina lei para exercerem seus ministérios de amor, paz e caridade. São os que mais denodadamente acatam a tese de que Jesus, ser perfeito na qualidade de pessoa humana, embora habitante de regiões para nós insuspeitas, tanta é a sua glória espiritual, possa ter descido à Terra “para nos salvar”.
Em quarto lugar, há os que, como Kardec, têm por princípio que a reencarnação é o procedimento mais adequado para favorecer o crescimento das boas qualidades morais, porque é especialmente adequada para a correspondência entre causa e efeito, lei magna do progresso. Encontrei vários textos em que os amigos da espiritualidade forneceram mensagens de apoio a esta teoria, correndo mais ou menos à boca pequena nos meios espíritas que muitos espíritos conhecidos hoje são os mesmos que envergaram outras vestimentas materiais, sob nomes igualmente conhecidos. O próprio Professor Rivail adotou o nome de guerra de Allan Kardec, informado mediunicamente de que foi esse o seu apelido numa encarnação que teve entre os antigos gauleses, quando teria exercido um ministério glorioso.
Em quinto lugar, encontrei apoio para a minha assertiva do final do capítulo anterior de que não existem novas oportunidades para antigos espíritos. Embora tenha deixado claro que poderia testemunhar ter eu mesmo sido apaniguado por outra existência terrena, de propósito, tornei obscura a passagem, para despertar o seu interesse, caro leitor e amigo.
Como disse que o mistério não podia ser muito forte, explico-me desde já: não existem novas oportunidades para antigos espíritos, porque os espíritos são sempre novos. Ao considerar-se que o espírito que reencarna é o mesmo que deixou o ambiente terrestre anteriormente, concorda-se tacitamente que, no etéreo, não há nenhuma mudança ou alteração possível, que o perispírito não possa regenerar-se, nem que haja centros de tratamento e de estudos, como se o tônus existencial da criatura se mantivesse absolutamente paralisado.
Abro parênteses para referir um fato que me parece insólito e de difícil entendimento, tanto que as informações dos amigos espirituais a Kardec foram apenas parciais, deixando muita coisa para depois, quando o desenvolvimento intelectual e científico da humanidade tivesse condição de absorver tais ensinamentos. Trata-se dos espíritos dos animais (ou almas, ou focos de energia, ou estágio latente da divina centelha, segundo seja a tendência da linha filosófica mais espiritualista ou mais materialista) que não formam colônias mas se perfilam em extensas colunas, constantemente voltando ao domínio das vibrações animais terrenas, de acordo com o aparato fluídico de que sejam constituídos, sob a batuta de certas entidades cujas características espirituais não se definem com precisão (alguns dizem que são elementais ou seres votados para os cuidados com a natureza).
Ainda dentro dos parênteses, quase me perdi para a concepção de um universo multifacetado ou pluriexistencial, qual seja o de que, em existindo seres invisíveis aos nossos olhos para os quais o nosso universo tangível, se meditassem a respeito, seria mera conjetura, também poderia ocorrer de nós mesmos estarmos presos a essa correspondência de grandeza, em relação a outros seres para os quais seríamos invisíveis, e assim por diante, num encadear infinito, conforme a tese elementar de que o universo é infinito, porque criado por Deus, dentre cujos atributos situamos o de infinito. A conseqüência irretorquível dessa postura filosófica de principiante é a de que, como a molécula que não tem recursos para situar o todo em seu pensamento, nós, seres humanos bem como os espíritos que nos cercam, também não teríamos, o que poria por terra qualquer eventual descoberta da verdade, já que a comprovação seria tão-só quimérica.
Quando incluí os espíritos entre os que desconheceriam a extensão do todo existencial, resolvi o problema em parte, porque me obriguei a dimensionar de forma diferente a realidade que envolve esses seres, o que é o mesmo que dizer que eles conhecem mais do que nós temos a possibilidade de conhecer. Aplicando o mesmo raciocínio do crescimento dos volumes que me atrapalhou, tenho de reconhecer que, quanto mais os espíritos evoluem, mais irão abrangendo por seu intelecto, ou que outro nome se possa atribuir à parte pensante dessas centelhas em constante busca da perfeição, mais vão assimilando a verdade da constituição das esferas, mundos, moradas, reinos, círculos, planos ou quantas denominações existam para as várias camadas energéticas, cada qual com sua natureza própria.
Esta linha de pensamento acabou por me fornecer a pista para a solução de outro enigma a que minhas pesquisas me conduziram. Trata-se da necessária perda energética, conforme teses que vão merecendo cada vez mais o reconhecimento do mundo científico, as quais, conforme li algures, derivam da concepção eisteiniana do universo. Se existe perda de qualquer elemento material (em oposição a espiritual), o fato repercute na mente como a transposição do ser em não-ser, quer dizer, aquilo que é, num dado momento, no seguinte, já não é. Isto nos leva a supor que o contrário possa ocorrer de forma natural, ou seja, o que não é passa a ser, o que corresponde ao fenômeno da criação, que, em tal caso, não seria mais por um ato do Verbo divino, mas por um processo natural decorrente, não discuto, daquele mesmo impulso criador inicial ou eterno, que aqui os conceitos se entrelaçam para o meu desespero. Eis que despertei para uma idéia de superior envergadura, qual seja, a de que o que se perde aqui, se recupera noutra dimensão, cuja materialidade seria mais sutil, mas sempre existente. De qualquer forma, a recuperação pela mesma fonte, ou seja, a transposição da perda ou da condensação de fluidos energéticos da esfera contígua, para eles transformação de ser em não-ser, seria o equilíbrio das forças de cada mundo. (Complicado, não?)
Todas essas considerações me trouxeram para diante desta página com um cálculo difícil de realizar, qual seja, o de que, se existem cerca de trinta bilhões de espíritos ao derredor da Terra (espíritos capazes de se vestirem de trajos humanos, o que afasta de minhas contas as miríades de forças correspondentes aos animais), em não havendo mais do que cinco ou seis bilhões de seres encarnados, ou, por outra, não tendo os recursos naturais do globo capacidade de agasalhar nem a metade dos espíritos desejosos de volver ao plano terrestre, a dificuldade dos que se privam da reencarnação cresce de proporção, se considerarmos tão importante para o progresso espiritual as migrações por estes recantos que muitos chamam de orbe de provas e expiações, mas que também pode ser de deleites e missões.
Considerando que o mesmo problema deve existir em cada corpo físico que se mantém em equilíbrio no cosmos (tábula rasa para o fator físico da constituição de corpos de idêntica natureza que os terrenos residentes nas outras plagas de mesma forma energética), mesmo porque, se viajarmos para outros planetas, jamais chegaremos a algum cujas condições se assemelhem às da Terra, para nos fornecer agasalho e nos preservar a vida, quantos seriam os espíritos necessitados de reencarnação?
Acho que estaria na hora de demonstrar que tal ou qual fulano ou sicrano que deixou sua marca na história da humanidade fui eu mesmo. Contudo, felizmente, não me deram os meus guias indicações averiguáveis de que eu tenha passado anteriormente por aqui. Fico devendo.
Mas tenho tempo para referendar o felizmente. É que, pela lei do progresso, qualquer indivíduo que se prestasse como membro de minha retaguarda carnal iria, necessariamente, demonstrar uma ou mais características de inferioridade de minha pessoa e, como diz sabiamente a Bíblia, a cada dia baste o mal desse dia.



10. LIMPANDO AS GAVETAS

Quando o Murilo diz que faz, faz mesmo!
Li muitas vezes a página anterior.
Terei sido eu mesmo quem escreveu tudo aquilo? Chego a pensar que fui ajudado por algum espírito fanfarrão (amigo, mas fanfarrão), que me tomou de intermediário para pensamentos tão complexos.
Claro está que precisei de um mês inteiro para pesquisar, ou melhor, para ler algumas obras, selecionando os capítulos que serviriam para questionar o problema da reencarnação e, por via de conseqüência, tudo o que respeitasse à lembrança das vidas passadas. No entanto, escrevi de um jato, como se tivesse tido o cuidado de organizar cada passagem, cada idéia, dispondo tudo de forma a concatenar para a finalidade específica.
De qualquer modo, vou deixar do mesmo jeitinho que fiz, porque me parece que melhor do que isso não vai ficar.
Então, volto o meu pensamento para alguns fatos particulares do passado, para ver se lhes extraio o grau de importância, em função do desenrolar de minha existência terrena.
O que mais me impressiona é que as gavetas estavam cheias, quase não podendo abri-las, entravadas por muitos objetos acumulados. Mal acabava de pôr tudo ao rés da abertura, puxava a gaveta e, surpresa, lá encontrava uns poucos papéis com alguns escritos apagados.
Querem saber o que significa isso? É que o passado vai se tornando cada vez mais insignificante, quando o futuro se engrandece em perspectivas de realizações plenas de harmonia e de felicidade.
Mas é preciso volver ao tema mais premente de minha emotividade, qual seja, o problema insolúvel em relação a Ana. Augusto me quer bem e vem demonstrando isso, iniludivelmente. Márcia deve estar em esfera quintessenciada pela bondade maravilhosa com que soube tratar todas as pessoas e todos os animais, o que, ao que me parece, é o maior mérito que pode alcançar qualquer pessoa na Terra, principalmente se tiver sofrido perdas que poderia considerar injustas, às quais não só perdoou como também esqueceu. Tanto suplico pela assistência de minha menina que me firma no pensamento que ela não poderia estar melhor.
Resta Ana.
Outro dia, passou pelo centro espírita. Procurou por mim. Eu exultei. Pensei que, finalmente, queria filiar-se a ele na qualidade de ouvinte, pelo menos, porque precisar de nós, só no aspecto de aprender a servir aos encarnados e desencarnados, porque dinheiro não lhe falta. Mas faltava uma serviçal. Não teve dúvida: procurou-me para que indicasse uma das nossas assistidas, honesta e de bons costumes, para dar-lhe o encargo de limpar e de prover a casa de mantimentos e demais artigos que se usam normalmente num lar de três pessoas. Está casada e tem um enteado. Queria alguém de confiança.
Estávamos no recinto sagrado, onde, como bem sei, existem muitos irmãos benfeitores do plano espiritual para nos amparar nos delíquios emocionais. Só por isso, com toda a certeza, foi que não a pus para fora. Logo me veio à lembrança que me haviam solicitado uma indicação de casa de família, uma senhora distinta, cujo marido fora mandado embora do emprego, nestes tempos difíceis.
O que imaginei naquele mesmo instante? Que os guias, mediante o problema de nossa irmã carente, tangeram alguém que necessitava de ajudante na direção correta de quem poderia aproximar as partes. Estaria, portanto, o seu redator sendo auxiliado na prática do ato de benemerência, que poderia se transformar em bônus para o meu ativo na espiritualidade, desde que me agradasse do serviço.
Mas fiquei aborrecido com o estremeção moral que a decepção quanto à minha expectativa promoveu em mim. Achei que não deveria reagir com os nervos à flor da pele, mas serenamente, partindo do princípio de que poderia ter tido a feliz idéia de explanar, ainda que ligeiramente, para Ana, a respeito da boa vontade, da resignação e de tantas outras virtudes que uma pessoa simples como aquela senhora fora capaz de assimilar, a partir de algumas lições que ouviu no centro.
Em casa, peguei o caderno e tentei escrever aquele episódio. Foi-me impossível, especialmente quando percebi que perdera excelente oportunidade de me informar como ia a minha ex-esposa quanto ao ideal do Espiritismo, ao qual estava dando algum valor pela escolha que fez de uma pessoa ligada a ele.
No entanto, o que mais me ressumbrava diante dos olhos era a fantasmagoria de sua cupidez, mulher insensível e interesseira, que não estava pensando senão em si mesma...
Paro por aqui, porque prometi que não iria resvalar para o campo das acusações, campo em que me ficará bem mais fácil vibrar negativamente.

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Fiquei quinze dias vivendo sob a impressão do texto acima. Dei-lhe por título a informação de que estaria pondo para fora todos os problemas terrenos, para poder adentrar o etéreo sem recordações ruins, porque tudo que é bom não se arquiva na memória mas fica indelevelmente registrado no coração.
Não querendo fazer uso de expressão de caráter meramente romântico, preciso esclarecer que vou refletir a respeito do que se pode ou se deve apagar da memória e do que não se consegue ou não se deseja, por diferentes razões.
Resumindo, porque não pretendo escrever nenhum tratado, devo dizer que gostaria muito de ter uma conversa franca com Ana, no plano espiritual, durante o sono, com os nossos respectivos orientadores, talvez com a presença de espíritos evoluídos no sentido técnico ou fenomênico de realizar demonstrações de episódios do passado, para resolvermos em definitivo as nossas pendências, caracterizando as responsabilidades, estabelecendo os critérios ou as formas de resgate dos débitos que se evidenciarem, para que, sem que haja nenhum fato traumatizante, pudéssemos nos dispensar da memória um do outro, permitindo que, no futuro, dentro dos azares dos encontros fortuitos ou mesmo programados, tivéssemos ensejo de estabelecer vínculos fundamentados naquele amor que Jesus propugnou como o mais indicado para a salvação das almas dos pecadores.
Então fiquei pensando que, talvez, ela aja de modo a me contrariar, porque sabe, melhor do que eu, quais as ofensas que...
Sou obrigado a interromper, porque estou com sono e não quero perder nenhuma oportunidade para aquele encontro.



11. MEU PAI E MINHA MÃE

De repente me apertou a saudade dos meus pais. Minha mãe partiu primeiro, bem cedo ainda, dando oportunidade ao velho de contrair novas núpcias, momento em que nos afastamos um do outro, mais por minha causa do que dele.
Vamos nos situar historicamente, para que bem eu possa fazer valer as informações que desejo assinalar.
Estava, aproximadamente com uns trinta ou trinta e dois anos quando minha mãe desencarnou. Vivia ainda sozinho com Augusto, sem Ana e sem Márcia. Minha mãe sempre foi muito amorosa para comigo, mas não aceitou muito bem a vinda de meu filho e pior o recebeu na qualidade de avó. O menino era muito rebelde e os primos muito dóceis. Daí as preferências da velha.
Se me disserem que essa não é a norma, que as avós, em geral, preferem os que dão mais trabalho, tenho de acrescentar a hipótese desairosa de que a origem do meu menino deve ter pesado na balança.
Mas como aqui me posto diante de mim, devo ser completamente verdadeiro, o que me obriga a dizer que o arredio era eu mesmo, que me coloquei na posição de ovelha negra e tudo via com olhos de frustrado, de amesquinhado da sorte, de repelido pela esposa legítima, carregando um peso enorme na cabeça, cheia de problemas, como já descrevi acima.
Vim para dizer de minha saudade de mamãe, Dona Paula, mulher forte na juventude, de repente às voltas com um câncer maligno de mama, numa época em que os exames se demoravam a fazer, pelo recato natural das mulheres que julgavam atraiçoar o marido caso desnudassem os seios em consultório médico, até mesmo em se tratando de pessoa do sexo feminino.
Márcia também morreu corroída por essa espécie de enfermidade, mas o câncer dela não teve jeito, porque deu nos ossos e foi rapidíssimo, sem conseguir, porém, torná-la feia, pelo tratamento radiativo e químico e pela extrema magreza que lhe assaltou o organismo.
Mamãe passava os dias deitada, no final, também só pele e ossos, lamentando o sofrimento sem forças de chorar, mas não por outra razão que não fossem as dores fortíssimas que obrigavam a doses maciças de morfina, terminando os dias absolutamente viciada.
Se não fosse pela misericórdia divina, iria suspeitar de que entrou no etéreo completamente alienada, sem nenhum domínio sobre si mesma. Para isto me serve a tese espírita, porque me assegura que as pessoas, no estágio do tratamento em que ela passou para lá, vão ser recebidas pelas mãos hábeis dos terapeutas de hospital especializado, porque não consigo encontrar no procedimento de mamãe outro defeito que não seja o de haver rejeitado um dos netos.
Estranhamente, nem dela nem de papai jamais obtive mensagens mediúnicas.
Meu pai, João Antônio, era um homem estranho. Eu e meus irmãos (sou o caçula) recebemos dele os agrados da primeira infância. Era só estarmos aptos ao primeiro pontapé na bola e ele nos punha de escanteio, com perdão da má figura.
Sempre desconfiei de que mantinha relacionamentos amorosos extraconjugais, conquanto em nenhum momento ouvisse de mamãe a mínima reclamação. Parecia haver um acordo tácito entre ambos, em que a mulher, dona de casa, a chamada mater familiae, preservava a fachada de fidelidade do marido, dando-lhe cobertura para todas as aventuras fora de casa.
Como o desenvolvimento social mudou de fisionomia o relacionamento dos casais, hoje em dia valendo tudo em matéria de abertura sexual, o meu parecer adquire sentido verdadeiramente histórico. Se isso redundou em minha mente num processo cultural para acendrar os meus preconceitos, é o que valeria a pena pesquisar. Como não estou fazendo outra coisa, dou de barato que, tendo em vista a minha condição de possível retrato de meu pai, não tive tempo para saber exatamente se agiria como ele em relação a Ana. Quanto a Márcia, não pensei um instante sequer em que a trairia, pondo de lado a confessa atração que jamais neguei pela antiga esposa.

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Em verdade, em verdade...
Adotada esta forma de confessionário em que ficam registrados os impulsos do momento, como se fossem o resultado de longas meditações e de não tão profundas conclusões, assumem as palavras um papel de significado muito maior do que gostaria de atribuir a elas.
Desejei revelar que senti saudade de meus pais. É uma verdade. No entanto, nesse sentimento de ausência, de carência, de desejo de companhia, revelando-me que a nossa convivência não se resumiu nos afagos dos primeiros tempos, mas também nos atritos da adolescência e nos ímpetos de liberdade de ser adulto, percebi que a minha psique flutua sobre o mar encapelado da vida, como um barquinho levado pelas correntes marinhas, segundo incontrolável postulado sentimental que solicita da vontade submissão e permissividade.
Refleti sobre o que venho expondo neste tópico. Se a caracterização dos pensamentos não está precisa, atribua-se o fato à minha pouca experiência no campo da criatividade literária ou descritiva. Então, vou tentar novamente.
Quando senti saudade dos velhos foi como que a minha condição emocional se transferisse para um tempo em que me era imprescindível obter deles a segurança de uma vida concreta, em que cada coisa ocupava, nesse universo, um lugar definido por eles mesmos. A minha cama, a minha roupa, os meus livros etc. Posto que tudo fosse herdado dos mais velhos, enquanto estava sob meu uso, era meu. Eis como encarava, evidentemente sem dar nomes aos bois, os meus próprios pais. Era o meu pai. Era a minha mãe. Foi dessas pessoas que me lembrei no momento das doces recordações.
Passado o transe psíquico, diante da necessidade de pensar a respeito, deu no que acima escrevi, algo totalmente degenerado em matéria de bem-querer, mais parecendo que era eu um crítico sardônico de duas entidades tão importantes para a minha vida, mas deslocadas para o fundo de uma das gavetas.
Ocorreu-me que o meu sentimento em relação ao primeiro momento de retrocesso emocional se deve ao fato de estar agora carente ou inseguro. Foi essa necessidade que vim tentar curar nestas páginas. A revelação não me pega de surpresa, já que venho encasquetando na cachola que toda esta experiência não se daria se Márcia estivesse hoje comigo.
Por outro lado, também me afigura como deprimente este alheamento em relação aos meus pais, numa confirmação do refrão conhecido de que longe dos olhos, longe do coração.

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E a coerência, Murilo?
Escrevi o ditado popular e me paralisei completamente. Não é que Márcia me parece cada vez mais dentro do coração?
Voltei apenas para dizer isso e também para sugerir que cada pessoa (se pudesse, eu o proclamaria ao universo) pense seriamente nos progenitores, justamente aquelas criaturas do Senhor que, por um tempo maior ou menor, estiveram a nos embalar, a nos assegurar que a vida é boa, que Deus é pai de misericórdia, que Jesus é a luz do mundo. Vejam se não estão sendo injustos em relação a eles, porque, acredito, quem se abalançou até este trecho deve ser pessoa em idade capaz de avaliar o que se esconde por detrás de minhas expressões até certo ponto inadequadas, mas muito expressivas no que concerne a não me poupar um vocabulário digno, para formular o melhor possível que sempre é bom estar preparado para o reencontro com os velhos na esfera espiritual, quando se definirão as coordenadas do entrelaçamento das existências.
Se perguntássemos a Jesus, talvez respondesse academicamente que devemos honrar pai e mãe, mantendo em vigor a lei mosaica.; mas, depois, diria também que ele não veio para juntar mas para separar os filhos dos pais etc.
Isto tudo só transparece como sem sentido quando pomos, em forma de raciocínios, as citações deslocadas do seu contexto e mal adequadas para a comprovação da tese.; quando desejamos externar simples clarões que ocorrem a partir de informes conscienciais incompletos.
Neste ponto final, lembro-me da revolta de Augusto contra a mãe pelo abandono de toda a vida.

Para não me esquecer (imaginem se isso seria possível) tive notícias de Ana através de Dona Letícia, a empregada. Há conclusões importantes a serem extraídas dos novos eventos.



12. UMA GAVETA TRANCADA

Penso que não abrirei uma de minhas gavetas. Se abrir, talvez lá não encontre mais nada. A verdade, porém, é que as minhas manifestações de benquerença não se revelam que tais, todas, sem exceção, transformadas em líquido e certo interesse egoísta, por algo que me pudesse favorecer a prepotência, segundo alguns tópicos de felicidade em diversos campos das atividades.
Eis que os amores, a partir da conceituação que tentei estabelecer em relação aos sentimentos que nutro por meus pais, também se vão deslustrando pelo tempo, única luz forte a brilhar o que dedico a Márcia, eivado de muita admiração e agradecimento.
Quem comigo trata no dia-a-dia profissional ou social não percebe nenhuma dessas íntimas tendências, porque mascaro fortemente as frustrações, não deixando transparecer indício nenhum delas. Claro está que, entre as pessoas de meu convívio, não há nenhuma criatura genial ou superdotada intelectualmente que se dedique à análise dos sintomas dos problemas psicológicos. Pelas leituras que pratiquei e pelos programas culturais de televisão a que assisto, tomei conhecimento de que é impossível deixar de demonstrar exteriormente o que se passa no interior da pessoa, desde gestos quase imperceptíveis de desagrado, por exemplo, até rugas ou pequenos vincos na pele pelo hábito de contração de determinados músculos, em função de reações inconscientes, como ocorre com o sistema autônomo, o qual bem poucas pessoas conseguem dominar.
Se eu fosse materialista, contudo, iria rir do fato de haver quem tenha o cuidado de examinar-me a personalidade, a menos que seja algum atilado vendedor com interesse em me conduzir por sua senda de consumo. Digo isto numa altura da vida em que os olhos femininos podem perscrutar-me por inteiro para aproximações amorosas ou que tais, porque me sinto vacinado contra os males das uniões que só podem redundar em tristeza e melancolia, dado que a separação é sempre aquilo com que se pode contar com certeza.
Dentre os olhares feminis que surpreendo a observar-me, nenhum me despertou para a possibilidade de qualquer coisa além de conversa formal dentro do ambiente de trabalho ou de aplicação evangélica.
Mas eu me considero espiritualista, ou melhor, espiritista, de sorte que devo imergir nos postulados da doutrina a ver se a tal gaveta haverá de permanecer trancada para sempre, fadada aos cupins e ao fogo. Aqui, se a porca não torcer o rabo para as minhas pretensões de ocultação desse cadáver sentimental, é porque pratiquei algum sério golpe de prestidigitação silogística nos preceitos que conheço e que ensino, o que é muito pior.
Deixando as figuras de lado, declaro, solenemente, que, se a gaveta se abre para os meus guias e benfeitores espirituais, é porque são xeretas e o fazem à revelia de minha predisposição ao resguardo daquilo que possa significar um pejo, perante todas as entidades que gostariam de encontrar em mim um ser um pouquinho mais lúcido e melhor preparado para subir o próximo degrau da escada espírita (eu sei que deveria dizer: conquistar mais um grau na escala espírita).
Deixem-me justificar todo o entrecho anterior através de uma razão que julgo bastante ponderável, qual seja, o fato de estar convencendo-me, à medida que os capítulos estão sendo escritos, que vai doer muito fundo em mim a incineração deste caderno, porque estou pressentindo que possa estar desenvolvendo temas em campo novo para os irmãos espíritas, no mínimo para envolvê-los no mesmo sistema de exame de consciência, em não havendo confessores gratuitos ou psicanalistas mercenários ao alcance da mão ou do bolso.
Indo um pouco além, tangido pela fé raciocinada conforme à pregação de Kardec, mesmo que nem todo álbum de recordações ou diário ou compêndio de memórias caia nas mãos de quem esteja apto a obter de sua leitura algum proveito pessoal, sempre haveremos de lucrar ao escrever, porque tudo haverá de ficar expresso na memória mais profunda, demonstração inequívoca aos responsáveis pela nossa admissão em algum logradouro menos triste no etéreo de que nos interessamos em conhecer um pouco melhor a nós mesmos (um viva a Sócrates!), com o fito iniludível de estabelecer critérios para a supressão das dificuldades, substituindo-as pelas virtudes correspondentes.
O que não sei neste instante é se terei coragem de manter estas análises tão depreciativas, conquanto verdadeiras, caso venha a receber um convite qualquer para a divulgação dos textos. Pela minha vasta experiência, sei muito bem que raríssimas foram as obras dadas a lume que não sofreram alterações contundentes por imposição dos editores. Quem sabe um bom revisor (porque dispenso os serviços desses jovens copydeskistas — com perdão do péssimo neologismo profissional) possa, olhando a obra de outro ponto de vista, sugerir-me mudanças enriquecedoras, inclusive no sentido de me despertar para novos problemas ou soluções.

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Pus uma pedra sobre a página anterior, porque a releitura apenas me indicou que fiquei na periferia do assunto e isso não pode resultar em nada útil sequer para mim mesmo.
Então me decidi a procurar a chave do enigma.
Após experimentar várias, encontrei uma que girou na fechadura, destrancando-a, aparentemente. Que se conteria dentro daquela gaveta? Não tive coragem de vasculhar-lhe os guardados. Talvez um dia o faça. Por quê? Se tivesse uma resposta clara ou mais ou menos encaminhada no sentido da verdade, com toda a certeza não sentiria tanto medo perante esse mistério.
Às vezes, imagino que a questão, para ser resolvida, irá exigir o conhecimento de minha linha existencial anterior a esta encarnação. Não obstante, o que está a me iludir é o oásis de felicidade em que tenho espairecido, depois de aplicar aos meus inúmeros sofrimentos morais os lenimentos da doutrina de Kardec. É o que me tem sustentado o constante sorriso junto aos companheiros, sorriso que estou ficando desconfiado de que tem nuanças de um amarelo crônico.
Densas e negras nuvens (sem parodiar Camões) se avizinham, temerosas e carregadas, daquele meu barquinho à deriva nos mares encapelados etc.



13. CUIDO DE MIM

Tenho tido a precaução de não me aventurar muito longe das costas de meu território emocional. É que não pretendo criar fantasmas com que me haver ainda durante esta fase derradeira da vida. Pode parecer excesso de zelo evangélico, mas a verdade é que a felicidade meio alienada que gozo neste oásis tem de ser útil para alguma coisa, no mínimo no que concerne a um equilíbrio mental para conseguir realizar todas as minhas tarefas com prestimosa compreensão do alcance da bondade e da caridade, enquanto for capaz de vigiar as palavras e os correspondentes conceitos, para garantir aos meus semelhantes, desempenho muito próximo, ou melhor, cada vez mais de acordo com as diretrizes de Jesus.
Também preciso estar atento ao expor os preceitos da doutrina espírita, mas não só nas palestras em que sou instado sempre a falar a respeito de dois temas principais: mediunidade e reencarnação. Gostaria de ser versado em História do Espiritismo.; para isso, porém, necessitaria compreender melhor o porquê das manifestações dos principais filósofos, segundo as respostas que deveram ter proporcionado à sociedade de sua época. Nesse sentido, também minha cultura deixa a desejar no que se refere ao tempo de Kardec, incapaz que tenho sido de ler na íntegra todos os volumes da Revista Espírita, que tenho em minha estante e da qual lanço mão quase sempre através da orientação do índice remissivo, para fundamentar uma ou outra citação.
Quero crer que os dois parágrafos acima restauram a seriedade de alguns capítulos em que dei ênfase a aspectos teóricos da doutrina, seriedade comprometida quando procuro narrar ou descrever os fatos ou as reações psíquicas, respectivamente. Não que me considere melhor quando escrevo dissertações, mas me sinto melhor, porque as imprecisões temáticas sempre podem ser objeto de melhoria intelectual, através de estudo detido e meditado, com o correspondente apoio bibliográfico. Como, entretanto, as minhas exposições (as reuniões de estudo nem preciso mencionar) partem de simples anotações, que vou alinhavando segundo percebo maior ou menor interesse da platéia (dom de que não me orgulho, porque sempre me critiquei essa maleabilidade meio maliciosa para direcionar a palestra no sentido do contentamento do auditório), não se refletem, a não ser indiretamente, nos temas que translado para este caderno íntimo.

Dona Letícia comparece sempre às reuniões públicas e privadas, se bem que ultimamente tenha falhado, com certeza pelas atribuições junto ao lar de Ana. Em várias ocasiões, tivemos ensejo de trocar algumas palavras, ela agradecida pelo meu interesse em colocá-la num emprego.; eu a ver se saíam naturais informações a respeito do que via e ouvia na casa da patroa.
Para não me comprometer, jamais lhe instiguei a língua, que desatasse em revelações. Esperava pela oportunidade de informação casual, pois chuchar esses assuntos escabrosos sempre tive a certeza de que redundaria em peso para a consciência.
Mas aconteceu que tive de ouvir uma longa descrição de como se dá o relacionamento entre as três pessoas daquela família. Está claro que selecionarei alguns tópicos relevantes, principalmente aqueles que enfatizam os aspectos positivos. Os negativos guardo para os momentos em que faço as orações, pedindo especial atenção dos guias e benfeitores espirituais para o auxílio oportuno, no sentido de que sejam vencidos os desajustes, para a maior harmonia possível entre aqueles seres.
Letícia contou-me que o marido de Ana é pessoa muito boa e compreensível, abonada, tanto que o salário dela está na faixa mais elevada dentre os que se pagam às empregadas domésticas, sem especial qualificação. Disse-me que Ana a trata muito bem, deixando quase toda a responsabilidade da administração da limpeza e da comida ao seu encargo. Aliás, tem ela duas ajudantes, entre as quais divide os serviços.
Perguntei-lhe se essa liberdade era vigiada de perto e Letícia me respondeu que não, que presta contas ao homem, porque Ana não pára muito em casa, saindo muito bem arrumada, contribuindo para as realizações sociais de cunho beneficente, sempre pronta a atender o telefone, sempre solícita a receber algumas senhoras distintas, em reuniões bastante sóbrias, em que as bebidas são apenas alguns refrigerantes e um ou outro aperitivo, segundo ficam para o jantar ou não. Mas essas ocasiões são pouco freqüentes, saindo Ana muito mais do que recebendo.
O que me deixou inicialmente surpreso (para não dizer bestificado) foi a descrição do enteado, menino de doze anos, que sofre de paralisia cerebral e de quem Ana cuida com verdadeiro desvelo, com a ajuda de duas enfermeiras especializadas, essas, sim, fiscalizadas bem de perto, constantemente solicitadas para serviços extraordinários. A bem da verdade, Letícia deixou muito claro que Ana só não está em casa quando vê que a criança está bem e que sua presença não é necessária.
Outro dado importante que me passou Letícia foi quando me revelou que Ana havia cursado, durante todo um ano, as aulas sobre como cuidar do enfermo, tendo feito um longo estágio em hospital com uma ala inteira para aquele tipo de doença, hospital que merece dela um dia por mês de dedicação integral, na qualidade de voluntária. Nesse dia, o garoto vai junto, mais uma das enfermeiras, pois ali ele encontra certo companheirismo e atividades apropriadas para ganhar um pouco que seja em discernimento de sua própria condição.
Não conheço quase nada desse assunto, mas faço questão de assinalar que, sob o ponto de vista espírita, enteado e madrasta estão crescendo rapidamente, de modo a superar possíveis falhas de caráter. Ele, pela injunção cármica de uma encarnação de sofrimento, porque, se estou lembrado das lições de Kardec, a inteligência do rapazinho é bem capaz de discernir a sua inferioridade orgânica, sendo-lhe esta vida prova bastante considerável. Ela, por operar radical mudança em seu caráter de libertária, obrigando-se a vida empenhada no bem, ainda que se enfeite, porque rica, e usufrua, porque bem relacionada.
Agora uma cogitação imprescindível.
Se venho escrevendo tanto a meu respeito, fatores psicológicos de cuja realidade, extensão e profundidade as pessoas de meu mais íntimo relacionamento jamais terão condição sequer de desconfiar, como é que vou atrever-me a penetrar no coração, ou melhor, na psique de minha ex-esposa, para explorar possível série de conjecturas, em plano meramente especulativo?
Abri a gaveta fatídica só um pouquinho, tendo aparecido a ponta de um lenço de seda. Com cuidado, fui puxando-o para fora e nele encontrei a inscrição seguinte:
Você, Murilo, deve precaver-se em relação ao julgamento das pessoas. Se trabalhar cada vez mais interessado na felicidade alheia, sem bisbilhotar a vida de ninguém, irá perceber em breve que até os seus dramas particulares quedarão esquecidos em páginas amarelecidas, não tanto pelo tempo decorrido, mais pelo desempenho evangelizado.
Não preciso dizer que deixei escorregar pelas faces algumas lágrimas em agradecimento pela legítima inspiração que só pode ter-me sido oferecida por Augusto, o único da família que se dignou estabelecer correspondência do etéreo comigo.
Neste instante, escrevo com absoluto domínio de minhas emoções, imposição que me fiz, para demonstrar que algo deve sobrar de positivo nestas considerações, porque estou cada vez mais convicto de que poderão ser úteis um dia.

Para encerrar, preciso deixar registrado que não tenho qualquer dom de mediunidade flagrante, dessas que fazem as pessoas escreverem, falarem, ouvirem, verem, pintarem, comporem e algumas outras mais raras, como a da pneumatografia ou escrita direta, sem o concurso físico do médium, a qual (vou inventar) é a que se tem desenvolvido junto aos grupos que lidam com a chamada transcomunicação, ou seja, o apanhado de mensagens da outra esfera através de instrumentos acústicos ou de vídeo.
Acho que calhou muito bem este encerramento com um assunto técnico, a afastar-me o pensamento das preocupações com os meus eflúvios sentimentais fundamentado em vibrações de mau calibre.
E aquelas nuvens negras pejadas de promessas de tempestades e furacões? Tal como Josué ao Sol, conforme se registrou na Bíblia, creio tê-las feito parar um pouco seu avanço catastrófico. Não é essa a impressão de meus amigos leitores?...



14. O SENTIDO DO PERDÃO

Tanto falei de Ana que pode parecer que o título se refira mais uma vez ao abandono do filho e de mim mesmo. Mas desta vez o problema é menos subjetivo, porque se trata dos assassinos de meu Augusto.
No primeiro momento em que corri atrás do dinheiro do resgate, foi como se um vento de forte turbulência me fizesse flanar, pequena folha, sem saber exatamente o que fazer. Mas tudo deu no que se sabe e enterrei o meu pobre filho com algum aparato, acompanhado do povo amigo do “Louvor ao Pai”. Mas essas são águas passadas.
No entanto, preciso sempre será pôr-me perante o complexo problema de como encarar a responsabilidade quanto ao evento trágico. Em qualquer fato de sangue, cada pessoa fica a se perguntar como foi que contribuiu para tal desfecho. Conheço um sujeito que ficou muito impressionado quando se suicidou um vizinho, pessoa distante da comunidade, que não dava resquício de notícia de que poderia encerrar a vida pelas próprias mãos, sabendo-se que não tinha vícios nem transpareciam reclamações familiares contra ele. Mas um belo dia enforcou-se. Aí, o sujeito me procurou para saber como é que o espírito do vizinho estava, querendo por toda a força uma opinião post-mortem a respeito de quais atitudes poderia ter tomado para evitar a tragédia final. Conversamos longamente e essa pessoa começou a enumerar uma série de festas, de comemorações, de simples reuniões entre amigos, para as quais poderia ter convidado o outro e não o fez. E daí para a frente até o ponto de afirmar que deveria ter saído mais vezes até o portão para conversarem, achando que, se tivesse inventado meios oportunos, teria evitado o ato de loucura.
O longo exemplo parece deslocado, mas a verdade é que, se se multiplicar por dez ou mais essa preocupação, se obterá uma idéia aproximada de tudo o que se passou em minha mente por aqueles tempos.
Isso de um lado, porque, do outro, havia as acusações contra a imprudência de Augusto, o fato de não ter sido criado pela mãe, as más companhias desde a infância e, finalmente, no ápice da escala das culpas, os próprios criminosos.
Não obstante haver perdido o filho, na balança moral de minha subjetividade (o que vou escrever nunca disse a ninguém), os pratos da vida e da morte se equilibravam, talvez pela suspeita de que o fim deveria ser aquele mesmo, talvez pelo alívio das minhas preocupações, que se transformavam a partir de um objeto (ou sujeito) externo até alcançar o bulício de uma dor de consciência.
Passei quase um ano correndo atrás de elucidar cada passo de Augusto naquele dia fatídico, buscando evidenciar em que momento me havia fugido a oportunidade de salvá-lo. Aqueles míseros três mil reais, se mos houvesse pedido antes de cair nas garras dos facínoras (caracterização esta que sou obrigado a fazer, buscando desconectar dela qualquer acepção pejada de mau humor ou de vibrações deletérias), talvez nem lhos tivesse dado, mas aí saberia que agi positivamente no sentido de jogá-lo desarmado contra os inimigos. Contudo, pasmem, houve um tempo em que preferia que assim tivesse sido, para não ficar aéreo relativamente à minha atuação inócua no episódio.
Mas esse ano foi também de um transtorno moral acentuado, porque desejava empenhar-me junto às autoridades policiais para desvendarem os poucos mistérios que cercavam aquela morte, e me segurava, muitas vezes por influência de Márcia, oferecendo ao Pai o direito de vingança, procurando convencer-me de que a justiça eterna é imprescritível.
Durante vários anos, a figura do perdão aos desafetos do acaso não passou de retórica, de convenção evangélica, de reforço ideológico, de pregação doutrinária, seja o que for que se designe como algo que não vinha do coração, que não entendia pela inteligência, que só julgava sub-repticiamente como de necessidade para evoluir no aspecto moral, sem dispor todos os pontos em seus devidos lugares. Se me pedissem para discorrer a respeito (devo dizer que o fiz e tive a ousadia de citar-me como exemplo para o poder cármico do perdão — já vou voltar a este assunto), teria asseverado ao público que Jesus, se não tivesse sido por outra qualquer informação de sua magnitude espiritual, deveria ser colocado como o ser humano mais perfeito apenas por pedir o perdão de Deus para seus algozes, a escarnecerem dele ainda naquele mesmo instante.
Aliás, o Nazareno, ao ser colocado no altar dos supremos espíritos de luz, causa uma espécie de rebeldia emocional imperceptível, porque, ao sabermos de toda a sua força energética, parece-nos que os sacrifícios do encarnar, da opressão da matéria e do decesso doloroso, não poderiam ter provocado nele um sofrimento autêntico, porque absolutamente consciente de que ascenderia aos páramos da bem-aventurança (o que prometeu, inclusive, ao ladrão crucificado à direita). Do mesmo modo, ao tomarmos ciência, pela análise dos textos espíritas, que sabia o Divino Pastor que os resultados de sua pregação só teriam efeito pela divulgação através dos Evangelhos e que precisaria confirmar tudo através do Espiritismo, a Terceira Revelação, ficamos a duvidar da necessidade de sua vinda na qualidade de Redentor em carne e osso.
Dou o parágrafo anterior como amostra da perturbação psíquica da época.
Cumprindo a promessa, retorno ao tema do poder do perdão, para afirmar que a minha atitude em relação aos assassinos ainda me faz nutrir contra eles a ojeriza de quem acha que, no mínimo, a lei do progresso irá estabelecer a necessidade de resgate dos sofrimentos disseminados nos corações punidos emocionalmente através de um ato brutal, quando a gente espera de Jesus a mansidão de um revide cármico que possibilite o conhecimento exato dos crimes, para se correlacionarem a eles os respectivos castigos.
Em outras palavras, acredito muito pouco no perdão incondicional, a partir das teses hauridas das leis de causa e efeito e de ação e reação.
Terei mudado o meu modo de pensar, ou melhor, de sentir?
Sim, profundamente, a partir da primeira mensagem de Augusto, na qual sequer cita os que lhe tiraram a vida. Fala das lutas que travou contra a contaminação do perispírito pelas drogas.; menciona o trabalho incansável do guardião e de outros devotados enfermeiros (socorristas, conforme o termo que ele mesmo emprega).; orienta os pensamentos dos que se perdem na ilusão de que muitas batalhas não se travarão apenas por estarem engajados nas fileiras espíritas.; sonha com o dia em que merecerá nova oportunidade terrena, conforme programação cujas linhas gerais nos comunica.; e dá muito consolo e esperança para os que não obtêm noticiário do etéreo sobre os entes queridos.
Mesmo sabendo da pouca importância que a vítima atribuiu ao desarme de sua encarnação, durante alguns anos ainda me entretive com pensamentos tendentes para a lei de talião. As mensagens se repetiram e me propiciaram condições de reflexão sobre a possibilidade de desvincular do agredido os carmas dos agressores, aceitando quase completamente que a gente sempre procura realizar o que melhor nos parece, o que pode redundar em malefícios. A superação das crises decorre da compreensão de quanto são justas todas as leis, por nos encaminharem à perfeição, algumas, no limiar de nossa capacidade de agüentar o peso do fardo.; outras, facultando-nos os pensamentos concernentes aos atributos de Deus, o que nos conduz ao entendimento de que a responsabilidade é inteira nossa, nos sofrimentos e nas alegrias.

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Hoje é o terceiro dia depois de ter escrito o capítulo acima. Li e reli, mas não desejo efetuar nenhuma correção. Acho que está tudo nele bem concentrado. Os amigos leitores é que devem esmiuçar as suas falhas, deles mesmos e dos meus dizeres, para chegarem a conclusões positivas e válidas a serem aplicadas ao seu dia-a-dia. Se julgarem que estou sendo pretensioso ou presunçoso, aliviem a sobrecarga de seus sentimentos, elevando ao Pai uma prece pelos sofredores, quando, por certo, acharão o caminho de meu coração.



15. AGARRANDO O TOURO PELOS CORNOS

Fui convidado para realizar uma palestra em outro centro, por pessoa que julgou que meus dotes de orador seriam suficientes para encantar o seu pobre auditório. Recusei-me, porque suspeitei de que um estranho haveria de causar problema muito sério ao falar sobre mediunidade para pessoas absolutamente simples.
Devo esclarecer que não me negaria a ali comparecer para outros fins, inclusive os de ajudar a assar as pizzas ou a fritar as batatinhas, que não nego fogo a qualquer obra manual, seja de que espécie for.
Por que, então, não aceitei o convite?
Quem parar para pensar, um segundo que seja, haverá de entender logo que os meus dizeres são por demais complicados, esmerando-me ao máximo para ocupar a mente de meu leitor de forma o mais sadia possível, com conceitos precisos, segundo a terminologia mais coerente com os ensinos de Kardec.
Ora, expor assunto por demais técnico de modo a transmitir lições de proveito iria exigir, no mínimo, duas horas de exposição. Em minhas apresentações habituais, acostumei o auditório a me ouvir entre quarenta e cinqüenta minutos, notando que, a partir do décimo quinto, o povo começa a se impacientar, momento em que pego o pião na unha, dizendo uns gracejos pertinentes ao tema, adrede preparados para o efeito da ocasião. Para isso tenho traquejo e conheço a oportunidade de introduzir a facécia.
Tempo houve em que pensei que estaria sendo conduzido pela espiritualidade, por intermédio de algum mentor ou guia da casa. Expus mesmo a intuição ao espírito de luz que um dia dirigiu uma de minhas sessões, na qualidade de doutrinador emérito, e ele me respondeu que vinha acompanhando o meu desempenho e que tudo quanto eu dizia provinha de minha própria capacidade de organizar e manifestar. Também fez referência ao fato de que sempre existem entidades capazes de dar sustentação fluídica ao orador, desde que este esteja atento ao fato de que deve superar a vaidade pela realização de algo que possa receber elogio.
Por exemplo, há determinados momentos em que me surpreendo a tecer eu mesmo comentários bastante favoráveis aos textos que vou elaborando neste meu dia-a-dia de escritor diarista de memórias. Por isso, constantemente, volto-me para a crítica mais rigorosa e desço a lenha nas dificuldades de verbalização, inclusive nos defeitos graves dos pensamentos.
Ainda bem que tenho formação na área de Letras, tendo estudado meu tanto de teoria literária, o suficiente para saber que o melhor crítico de sua própria produção não é o autor mas o público, que nem sempre está coadjuvado pela crítica especializada. Por outro lado, antes que me digam algo neste sentido, vou afirmar que há livros e quanta outra espécie de arte que mereceriam esquecimento mas se encontram no ápice do sucesso, enquanto muita produção de melhor nível queda em absoluto segundo plano, quando não cai no ostracismo da opinião. Em todo caso, não deixa de ser válido o conceito segundo o qual não pode o próprio autor expender idéias de valor em relação ao que produz.
Se aceitasse, pois, o convite e lá fosse com meu palavreado difícil, com certeza (refleti bastante sobre este assunto) iria causar no público certa ojeriza pela matéria e não por mim mesmo, porque a minha experiência me informaria o exato momento de suspender o entrecho teórico ou de parar definitivamente a palestra.
Está faltando dizer como é que resolveria o caso, se pudesse contribuir positivamente para ensinar mediunidade para quem não está afeito ao raciocinar lógico do codificador. Levaria o povo a freqüentar a escola tradicional, para que aprendesse a ler e a escrever, com o fito, evidentemente, de fazê-lo culto da cultura consuetudinária, na linha dos feitos intelectuais da nação e de toda a civilização ocidental.
Ainda bem que não estou diante de muita gente que me daria exemplos claríssimos de pessoas dotadas de poder mediúnico acentuado, cuja deficiência, no campo a que acima aludi, é notória. Não faltaria quem me viesse falar do nosso queridíssimo Chico Xavier, asseverando que tenha cursado, no máximo, o antigo grupo escolar, mal chegando à quarta série primária.
Reconheço que a minha tese é falha quanto às pessoas com pendores naturais para a mediunidade de muitos tipos diferentes. No entanto, a palestra espraia pensamentos por cérebros e corações os mais variados, quase sempre para quem tem como progredir, não direi no sentido de desenvolver dotes mediúnicos, mas no interesse de sólido conhecimento das teses espíritas, para poderem dar o exato valor aos trabalhos que se realizam junto às mesas mediúnicas, sabendo, mais ou menos de maneira competente, como é que os espíritos fazem para comunicar-nos as suas mensagens ou manifestarem os seus sentimentos.
Para obter êxito perante auditório de pessoas mais simples, teria de partir da explicação do fenômeno das mesas girantes, se possível com projeções de slides, quando não com demonstrações ao vivo, para o que necessitaria de bons médiuns de efeitos físicos e da boa vontade de alguns espíritos superiores, para tomarem conta dos trabalhadores do etéreo de faixa vibratória mais baixa, nem sempre afeitos à obediência aos padrões evangélicos por que se deve pautar o serviço mediúnico de divulgação.

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Disse e reafirmo que não sou médium desenvolvido e que não trabalho na casa espírita nesse setor. Mas nem por isso deixo de privar da companhia de bons espíritos, que me aconselham, por meio de pensamentos intuitivos, a me conter nos limites de meus conhecimentos, não me aventurando a atravessar os matagais dos silogismos fundamentados em premissas desconhecidas, através de picadas que não consigo abrir sem afiado facão.
Sendo assim, tendo percebido que ia divagando a respeito do impulso de recusa da generosa oferta, parei para julgar se não se emaranhavam os meus sentimentos no cipoal das dores de consciência ou de amor-próprio ferido. Dores de consciência, explico, oriundas do fato de que poderia ter feito, ao menos, uma tentativa, pondo o povo ao corrente de que existem dificuldades iniciais a serem transpostas para a imersão nos preceitos doutrinários mais complexos. Amor-próprio ferido, porque me atribuí excessivo valor, quando deveria com humildade reconhecer que a visita ao novo centro, a audição da palestra de algum companheiro mais entrosado com aquele ambiente e o conseqüente adiamento da resposta definitiva me teriam deixado mais satisfeito comigo mesmo, naquilo que entendo como de dever e de direito, ambos os conceitos amalgamados, porque todo aquele que se sabe superior em algum aspecto, deve ter, em contrapartida, desenvolvido o senso crítico em relação ao universo de conhecimentos que lhe faltam.
Não sei se manterei este capítulo das recordações recentes, caso organize os textos para publicação. Em todo caso, descrevi os problemas do modo mais objetivo que pude, aguardando que a consciência ou o inconsciente (eis que também aqui se me misturam os conceitos) venha a revelar-me claramente que o fato não foi único (quase escrevo escoteiro) mas que se trata da ponta do iceberg a indicar, por baixo da linha da água, uma geleira descomunal.
Onde estão o touro e os cornos?
Talvez eu mude o título, oportunamente.



16. O ICEBERG DERRETE

Não pus todas as cartas sobre a mesa no capítulo anterior. Sabia o que me deixava aflito mas desejei perceber até que ponto arrastaria melodramaticamente a explicação tal qual se configura em meu cérebro e em meu sentimento.
Para os bons entendedores deve ter ficado clara a defecção psíquica, porque, tanto me estendi a respeito das razões de não ter feito bem em recusar o convite para a palestra, que devo ter posto desconfiado mesmo o leitor mais simplório, aquele que espera que todas as informações sejam dadas de maneira convencional, como se uma obra de exame das reações psicológicas, morais e espirituais, fosse o mesmo que um tratado em que todos os tópicos são expostos com precisão científica, dentro dos padrões de classificação inerente à matéria desenvolvida.
Antes de fazer a declaração de fé jurada de que a minha compreensão se dava de forma absolutamente clara quanto ao problema que se escondia sob a linha d’água dos conceitos que expendi, preciso dizer que meditei a respeito e que cheguei à conclusão de que irei reatar as conversações com o amigo do outro centro e aceitar expor algo a respeito de mediunidade, tomando, é claro, as precauções que assinalei.
O que me levou a rejeitar a generosa oferta de prestação de serviço comunitário muitíssimo relevante foi, sem mais nem menos, um preconceito tolo que trouxe desde os tempos da infância, qual seja, o de considerar as pessoas pobres, e aqui incluo principalmente os aspectos relativos à baixa escolaridade e ao fraco desempenho intelectual, como sendo inferiores a mim. Não passa, portanto, de expressão de orgulho, de vaidade e de egoísmo, as três pedras de tropeço mais poderosas para impedir o progresso humano.
Quando era menor, havia um outro fator de desprezo íntimo àquelas criaturas menos apaniguadas pela fortuna material: era o forçado descuido higiênico e o conseqüente desmazelo relativo à roupa do corpo. Via um remendo ou mancha e logo suspeitava de que a pessoa trazia a personalidade eivada de defeitos, inclusive resultantes da prática de atos atentatórios ao bom convívio social.
Ao adentrar a faculdade, impei-me de injustificado orgulho, crente de pertencer a u’a minoria significativa, jamais conferindo a oportunidade de estudar ao conjunto das forças produtivas, que, através de seu trabalho e de sua contribuição ao tesouro, mantinham a instituição, porque era de graça que cursava uma escola pública.
Ao me instalar em emprego em que me defrontava com as idéias alheias, mais se acentuou a ojeriza pelos menos dotados de bens de toda espécie, julgando que, por esforçar-me para sobreviver com certas facilidades, os que não conseguiam fazê-lo eram indignos de consideração.
Fique evidenciado que o mais grosso dessa massa gélida derreteu quando me predispus a freqüentar o “Louvor ao Pai”, onde me acostumei a conversar com muitas pessoas de todo simples e desprovidas daqueles recursos a que fiz referência. Acontece que, naquele ambiente, fui perlustrando, lentamente, todas as funções e respectivas responsabilidades, de sorte que fazer frente a todo tipo de público não era mais do que obrigação, se me quisesse bem aceito pela comunidade.
Então, a antiga postura contrária à universalidade do espírito fraternal renasceu naquele instante bendito (assim o vejo, porque estou tendo oportunidade de operacionalizar uma resposta espírita de bom gabarito), e pude oferecer a mim mesmo, sem contestação, a prova de que muito de verniz havia a esconder os defeitos da madeira.
Agora o aspecto mais sutil.
Essa atitude meio inconsciente, que aflorou de uma vez por todas (graças dou ao Pai e aos meus amados guias por estar escrevendo estas páginas), não deve circunscrever-se aos pobres, aos sujos, aos incultos, mas deve extrapolar as lindes dos círculos das pessoas pertencentes a uma outra realidade, para abranger também os consangüíneos e os afins, o que torna a reflexão muitíssimo mais grave e pejada de problemas, justamente na área mais importante para a ascensão à esfera subseqüente dentro da escala espírita.
Falei de meus pais e, de passagem, de meus irmãos.; citei minhas esposas e dei ênfase toda especial ao meu filho. Se incluísse meus tios, meus primos, meus sobrinhos e quantas pessoas se anexaram ao grupo maior da família, iriam ocupar lugares sem destaque, à sombra que se estendia atrás de mim etc. e tal. Pois bem, o fato de ter afiançado que a saudade vai sendo apagada com a passagem do tempo (se estão lembrados, inicialmente excluí Márcia desse time), com certeza será porque sempre fiz valer a minha pessoa sobre a necessidade dos relacionamentos verdadeiramente produtivos do ponto de vista evangélico.
Gostaria de poder afirmar o contrário, ou, ao menos, que, naquela gaveta que mal abri, nada mais se encontra de tão terrível. Sei que não é assim e que outros embates terei de travar com a minha consciência, para o que tenho buscado dedicar-me com afinco ao auxílio individual de quantas pessoas nos procuram no centro.
Mas prometo, isto sim, não desesperar jamais. Quero manter-me lúcido o bastante para firmar os princípios para superação dos problemas com base nos preceitos de Kardec, sob a luz dos ensinamentos do Cristo. Caso contrário, acrescentaria a tanta inferioridade mais aquela de não confiar na infinita misericórdia do Senhor.
Falei muitíssimo de mim mesmo. Agora me desperto para a possibilidade de ser lido. Então, registro uma palavrinha de utilidade para quem esteja neste mesmo barco, ameaçado por um iceberg que não leva em conta Titanic algum. Se os meus amigos se dispuserem a elaborar um álbum de recordações, mesmo que sem tanta palavra diferente nem tanta figura literária, quem sabe terminem por se encontrarem consigo mesmos, num momento em que seja possível ainda resgatar em vida alguns débitos de passado não muito condigno.
Estou vendo que várias portas se abrem para as minhas considerações, mas não voltarei a escrever antes de ter informações a respeito de como decorrem as atividades no outro centro espírita. Assinalo que o nome dele é “Mensageiros da Espiritualidade Superior”, que julguei um tanto empolado ou inadequado para um bairro tão miserável. Mas, como estou em fase de criticar-me a fundo, talvez não tenha percebido não apenas a intenção apostólica de quem atribuiu tal nome à casa espírita, como também as reações que desperta junto às pessoas que a procuram.
Enquanto isso, vou assando as massas e descascando as batatinhas. Desejei ser fino, referindo-me a tarefas preliminares ao cozimento das pizzas e à fritura das batatas, mas acordei a tempo de perceber que seria bobagem, mais tarde, inquirir das pessoas se haviam compreendido a minha intenção. Vou sovar a massa e a plantar as batatas, sem me conter a uma citação protocolar da conhecida frase machadiana: Ao vencedor as batatas...
Terá este sorriso a mesma coloração a que alhures fiz referência?



17. O PASSADO SÓ VALE ENQUANTO PRESENTE

Não vou cumprir o prometido porque tive algumas idéias desde ontem tais que, se não puser no papel, poderei deixar de obter futuras fontes de reflexão bastante promissoras.
Não é que me veio à mente que todas as pessoas são o resumo de uma vida anterior (ou várias, segundo a tese espírita), servindo a experiência para que se evitem novos erros no mesmo campo, havendo até a possibilidade de se extrapolarem os conceitos para outras áreas de atividades, a chamada transferência psíquica, que aprendi nas aulas de Psicologia da Aprendizagem.
Vou logo ao ponto primacial que envolve o meu problema relativamente ao esquecimento das pessoas, apagando-se aos poucos a saudade emocional. Deixei entrever que estava ficando preocupado pelo fato de amar cada vez menos as pessoas mais importantes. Então me ocorreu que deveria haver uma lei cósmica para isso, porque, para todos os seres vivos, sempre existe a necessidade da sobrevivência, o que se encontra na doutrina sob o nome de lei da conservação, imbricada na lei de destruição.
Mas para os encarnados não poderia ser de outro modo, caso contrário, se as pessoas se apegassem demasiado à ausência dos seres amados, acabariam enlouquecendo ou suicidando-se, fatos que a literatura vem explorando desde os primórdios dos relatos orais e que se repetem diariamente na sociedade, quando sobeja desespero e falta equilíbrio.
Com esse pensamento a ruminar, deitei-me e tive um sonho verdadeiramente espantoso. Só não vou contá-lo porque apresentou alguns detalhes muito pouco edificantes, e não me parece consistente, em termos de vibração, rememorar o que não pode gerar senão ondas de baixa freqüência a ferir e a atrair os seres de categoria espiritual inferior.
Resumindo, estava no meio da mata e me deparei com um animal selvagem refastelando-se numa presa fresca. Estremeci não tanto pelo pavor de me constituir em sua próxima vítima, mas porque me ocorreu que a alegria de um era o sofrimento do outro e a tristeza de muitos.
Vejo que o resumo ficou muito chocho. Paciência! Não vou voltar atrás da deliberação de não provocar efeitos colaterais desastrosos.
Volto ao ponto inicial, para afirmar que deve existir uma lei do esquecimento, para preservação da integridade mental ou psíquica dos indivíduos. Atenuam-se os sentimentos e pensa-se que o amor diminuiu. Balela! Pura balela! Abrem-se, ao contrário, as portas para novos relacionamentos, para acréscimos de amor ao acervo do coração, como o que se dá aos pais de progênie numerosa, sempre recebendo novas almas para convívio e para a aplicação ou renovação dos votos de benemerência que devem ter sido feitos no etéreo.
Vão dizer-me que há famílias de grande prole, principalmente nas regiões mais atrasadas e miseráveis, onde o mais comum é a morte da criançada, sem qualquer ônus consciencial para os pais. Mas essa é uma situação circunstancial. Deve haver entrelaçados muitos carmas carentes desse tipo de prova. Se a gente pudesse compreender tudo o que se passa no mundo, não se teria mais necessidade de para aqui voltar.
Então, por que é que Augusto me parece ainda junto a mim, como se tivesse partido ainda ontem? É porque me escreve mensagens esclarecedoras, que me dão sossego e me fazem meditar a respeito das ações mundanas. Márcia foi uma criatura ímpar, que conduzi pela vida até seu desfecho, apagando-se a vela ao sopro de um suspirar de muito amor. Ana não consigo esquecer, porque está de corpo presente. Aposto que, se tivesse morrido, acenderia em mim certo desejo de reencontrá-la no etéreo, para orientá-la na qualidade de missionário ou protetor, porque doutrino nas sessões do centro. Meus pais me dão a certeza de que vivem sua existência independentemente de meu amor, dele não dependendo para nenhum feito sentimental, tantas foram as criaturas com as quais se envolveram e tão diferenciadas foram as nossas vivências carnais, ênfase para tudo que o Espiritismo me ofereceu em vantagem de suas quiméricas ilusões católicas.
Não sei se estou fazendo valer esta página meio improvisada para, como disse, futuras reflexões. A verdade é que estou fixando este presente, tornando-o sempre presente, porque as leituras têm o condão de transformar o passado em nova perspectiva de aplicação mental sobre os temas consignados. Esta fórmula não é a melhor, porque, se a gente evolui (e disso trago em mim completa comprovação, desde que me apliquei aos estudos religiosos), a página fica estagnada e passa a fazer, dessa forma, parte do passado e não um acicate para o presente.
Sem querer ser muito perspicaz, posso dizer que nem toda a gente se situa num mesmo grau de acuidade espiritual. O que estou escrevendo, se esquecer, será relembrado. Se houver evoluído, queimo a folha e reescrevo o tema, segundo o ponto de vista mais recente, ou seja, atualizo-me quanto às novas perspectivas que se abrirão para novas idéias. Eis que ponho à mostra mais um aspecto avançado de minhas lucubrações filosóficas, não pelo que valem pela novidade, porque devo estar muito aquém dos principais pensadores e filósofos, dentro e fora da seara espírita, mas porque renasço das cinzas qual fênix egípcia a me propiciar um contágio de esperança assaz forte, para aventurar-me a asseverar que, no etéreo, o esquecimento se desfará, como o gelo do iceberg, porque lá o calor dos relacionamentos amorosos não deverá estar preso à necessidade corpórea de renovação das aspirações da vida.

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Dois dias atrás, voltei para quebrar uma promessa. Achei que fiz muito bem, porque o tema sobre o qual discorri merece muita atenção e cabe numa obra de memórias.
O que me ativou de novo a pena foi o fato de que julgava que as vibrações poderiam ser deletérias para quem as emite e para quem as recebe. É uma verdade comezinha. Contudo, não há fugir de que o inconsciente ou o consciente sufocado, independentemente da vontade, está a interagir com o ambiente espiritual dos indivíduos, o que só pode fazer energeticamente, ou seja, por meio da emissão de correntes elétricas, magnéticas ou fluídicas, que mais não são do que vibrações. Ora, se existem no cérebro funções autônomas como existem no corpo, então não adianta muito a estreita vigilância da mente que se organiza para evitar algo sobre o que não possui domínio algum. Isto significa que as vibrações, sejam benéficas, sejam maléficas, saem em busca da concretização de efeitos no campo dos relacionamentos físicos ou espirituais.
Por outro lado, se me dispuser a falar a respeito do que me traz com tanto medo, como no sonho, cujos aspectos mais tenebrosos omiti, caso o faça com o cuidado de não melindrar ninguém (no caso dos leitores, este problema é seriíssimo), talvez até abra um canal de comunicação com determinados seres elevados, capazes de me trazer orientação precisa, para a eliminação das causas, o que mais importa nos problemas afetos à necessidade de respeitar os irmãos.
Ainda não me decidi de vez a relatar os meus dramas em toda a sua extensão. Autorizam-me, porém, os textos elaborados a reconhecer que estou deveras interessado em produzir algo de muita importância para o meu desenvolvimento espiritual. Se devo passar por alguma crise, valham-me os meus guias e protetores, pois neles deposito integral confiança.
Vou pensar um pouco mais a respeito.



18. CRIANDO CORAGEM

Falei que Augusto descaiu para os crimes, mas não disse tudo. Falei que foi assassinado por traficantes, tendo deixado em suspenso o real motivo, dando a entender que ele havia buscado passá-los para trás, num negócio qualquer envolvendo compra e venda de drogas.
Com o resultado, entretanto, das comunicações que me passou, numa clara evidência de que está bem, o que me restou foi a só recordação dos momentos bons da infância, outros da adolescência, até que houve o rompimento definitivo de nosso sagrado relacionamento.
O que prova isto? Prova que os seres humanos vencem as suas dificuldades, seja neste plano, seja no além-túmulo, sempre sob o manto protetor de Jesus, porque a misericórdia do Pai é infinita.
Eis que me atrevi a falar diretamente a respeito da vida tumultuada daquela criatura, tendo eu contribuído em boa parte para que tal acontecesse, principalmente porque não soube ter com ele os cuidados que seu caso de abandono pela mãe prescrevia.
À vista, porém, de seu incondicional perdão, todos os pensamentos ruins que dediquei a ele deveriam quedar esquecidos, mas, ao abrir um pouco mais daquela fresta da gaveta dos graves problemas, deparei-me com um dos grandes, qual seja, o de que quem não perdoou fui eu, em primeiro lugar a ele, por tudo quanto de decepção me causou.; depois a mim mesmo, porque não soube controlar o meu desejo de vê-lo imerso nas trevas, que era o lugar que julgava ser o mais apropriado para recebê-lo.
Se não disser tudo agora, como é que vou solicitar ajuda das entidades mais capazes de fazê-lo?
Então, com o coração na mão, devo revelar que foram fortes ciúmes que me abalaram a consciência até que a morte o levou.
Disse que Márcia era pouco mais velha que ele, não se dando bem os dois, apesar dos esforços da minha menina. Mas não disse tudo. Os desvelos dela para com ele, a comparação obrigatória de uma vida de mais de treze anos juntos, a juventude dele a aflorar, a minha maturidade a desvanecer, me levaram a suspeitas graves da intimidade entre os dois, embora, fique isto definitivamente esclarecido, jamais surpreendi um gesto que fosse que demonstrasse de um ou de outro algum carinho ou afeto desregrado. Antes, foram inúmeras as ofensas que Augusto fez a Márcia, conforme já denunciei.
Mas o fato foi que o meu desempenho amoroso decaiu, amofinado pelas desconfianças, muito mais interessado em descobrir que estava certo em minhas suspeitas do que em saber a verdade. Também jamais agredi verbalmente a nenhum dos dois, nem os acusei de nada. Tudo se restringiu ao fundo de minha alma ou consciência, estando quase certo de que aqueles cornos de um capítulo anterior eu os segurava, porque era esse o sentimento que mantinha em relação a Ana.
Gato escaldado etc.
Mas tal como quanto às pizzas e às batatinhas, também aqui devo retroceder no tempo para contar como foi que conheci Márcia.

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Precisei parar para tomar fôlego e organizar melhor as idéias. Não me será fácil, de certo modo, sugerir que menti em relação à minha adorada criança. Mas afirmo de fé jurada que toda palavra que escrevi sobre ela é o retrato mais fiel da verdade. Então, o que se vai ler em seguida sirva apenas como medida de meu drama íntimo e de toda a extensão dos problemas que terei de remeter ao fundo daquelas gavetas em que os papéis amarelecem e depois se queimam.
Durante bastante tempo, havendo-me Ana deixado só com Augusto, punha o menino nas mãos de alguma pessoa da família, que para isso servem os irmãos e cunhados, e ia desafogar os instintos fisiológicos numa casa de tolerância não distante da região onde morava.
Vejam que estou tremendo por desafiar os padrões dos escritos espíritas, levando os meus leitores a um antro de perdição. Mas foi ali que descobri Márcia e de onde a trouxe para minha casa.
Agora cabe dizer também que a mocinha lá se encontrava tangida pela necessidade, porque perdera os pais e nenhum outro recurso havia no lugar de onde proveio senão esse mesmo para conseguir sobreviver.
Quando a encontrei, não tinha nenhum vício, mas também não conhecia nada relativo ao nível social a que eu pertencia, a chamada classe média ou pequena burguesia. Tive, como na história de Pigmalião do autor irlandês Bernard Shaw, uma ação positiva em sua educação, diferenciando-me do outro por iniciar pela lubricidade, aprendendo a respeitá-la em sua pureza mental, fazendo abstração de tudo que pudesse incidir em moralidade.
Foi ela, contudo, muito agradecida por quanto mimo lhe fazia, quem buscou elevar-se moralmente, tendo tido a felicidade de buscar uma religião onde não precisasse oferecer o seu testemunho de pecado, nem se ajoelhar perante homem algum, para a humilhação definitiva perante a sociedade.
Voltou a estudar e deslanchou, jamais me deixando ficar sem carinho e sem cuidados. Tanto a idolatrei que me pus eu de joelhos perante aquela figura de santinha, acompanhando-a ao “Louvor ao Pai”, para uma trajetória de conquistas espirituais significativas.

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Eis que o quadro de minha vida familiar de certa época está mais do que pintado. Não pretendo acrescentar nenhuma pincelada para realçar nenhuma cor, nem delinear melhor as figuras, para destacá-las do fundo de minha consciência. O que está feito, está feito.
As últimas reticências foram preenchidas, ponto a ponto, por orações, como se desfiasse as contas de um rosário por entre os dedos. Alguns deles estão úmidos, mas estas lágrimas não contam, porque significam muito pouco para quem deseja compreender as causas para eliminar os efeitos.
Fico a considerar certas informações anteriores a respeito do adiantamento espiritual de Márcia e não vejo como não enfatizá-las, porque percorro a história de nossa vida conjugal e nada encontro que a desabone. Ao contrário, católico, iria propô-la à beatificação.
Eis que assumo a responsabilidade total deste relato não muito caritativo para com os meus leitores menos apegados ao episódico, na esperança de que saibam entender que a vida não se concentra dentro das paredes sagradas do templo espírita, mas o que se pratica aqui fora é que realmente tem importância, porque demonstra que as lições que ali se ensinam foram assimiladas e estão sendo colocadas a serviço do próximo.
Quanto a não ter recebido nenhuma mensagem de Márcia, a anterior conclusão de que deve estar em patamar de eleição não modifiquei, mas aguardo ansiosamente que Augusto me passe notícias que me confirmem as luzes que atribuo a ela.
Mais um tópico relativo à minha inferioridade quanto à debilidade que apresento em amar as pessoas incondicionalmente. Tem sido muito difícil para mim (nesse aspecto, em lugar de esvaziar as gavetas, ainda ali tenho colocado outros problemas), superar a crise de ciúme, mesmo nesta circunstância especial de que ambos os suspeitos partiram para o outro mundo. É que estou constantemente julgando perfeitamente possível que Augusto e Márcia se tenham encontrado definitivamente, entrosando-se em seus níveis de avanço espiritual, o que me parece bastante razoável que ocorra, tendo em vista que se dedicara ela em vida a trazer de volta ao seio familiar aquele que acabou nas mãos dos facínoras.
Um derradeiro pensamento para encerrar esta página, a mais infeliz de quantas tenho escrito.
Se, num período de um mês, no máximo, não me julgar melhor condicionado a enfrentar esta dor, que não tive oportunidade, por absoluta falta de recursos literários, de delimitar na composição, conquanto tenha tido a felicidade de trabalhar intensamente, o que me mantém a mente ocupada, rasgo esta folha e não deixo ninguém ficar sabendo de nada disto.
Quer dizer que, uma vez descrito o drama, já estou aguardando desfecho sublime e maravilhoso? Não. Na verdade, acho mais certa a hipótese da incineração. Em todo caso, sem que isto se constitua num desafio aos meus protetores e aos guias do centro espírita, sempre poderão prestar-me auxílio ao nível das ações dos espíritos de luz, se me trouxerem uma palavra de conforto, porque vou sentir que estou amparado neste empreendimento pessoal e íntimo.
Isso será realmente necessário? Claro que não, mas afagos de mãe e de pai nunca fizeram mal a ninguém.



19. A PALESTRA

Se trouxesse para este caderno todas as exposições que tenho proferido no “Louvor ao Pai”, não haveria lugar para mais nada. Contudo, tendo ficado em débito relativamente ao “Mensageiros da Espiritualidade Superior”, venho para cumprir a obrigação.
Desde o título já anuncio que dei a palestra. Mas não é tudo. Fui tão bem agasalhado, o povo se sentiu tão honrado, que me vi na obrigação de aceitar participar do rodízio de expositores. O interessante foi que todos os cuidados que desejava antecipar para o serviço se derruíram, porque foi na minha primeira visita que me vi diante do auditório com mais de duzentas pessoas, anunciado como orador emérito do centro de tal bairro etc. e tal.
Falei sobre mediunidade. Citei os primórdios de Kardec e vim até a figura ímpar de Chico Xavier. Minha exposição durou exatos noventa minutos, sem que tivesse notado enfado no público. Como as crianças estavam impedidas de permanecer, mesmo porque ocupariam lugares dos adultos, o silêncio só era entrecortado pelos risos que eu provocava, a princípio pelo temor de enfastiar os ouvintes, depois com naturalidade, porque me encontrei absolutamente à vontade.
Para ser sincero para com o auditório, citei algumas passagens do Codificador, quando muito admirado ficou ao descobrir na França, em diferentes cidades, que havia centros espíritas fundados e administrados por trabalhadores sem escolaridade, cuja argúcia doutrinária ultrapassou de muito a expectativa do Mestre. Fiz referência à minha atitude preconceituosa, pedi desculpas e reconheci-me totalmente equivocado.
Não contentes só com a exposição, muitos ficaram, formando uma espécie de fila, para se aproximarem com perguntas pertinentes ao tema e outras de caráter geral. Foram muitos os que quiseram saber que livros publiquei, estando dispostos a adquiri-los. Quanto vale a simpatia do orador! Recomendei-lhes autores de nomeada e tive a grata surpresa de obter muitas respostas que aplaudiam as minhas indicações, tendo em vista que os leitores também se agradaram desses textos. Quão mais importante é a experiência junto ao povo do que as lucubrações teóricas sem nenhum fundamento na verdade!
Outro dado valiosíssimo a ser levado em conta foi o fato de que lá o povo não se deixa seduzir por outros atrativos. No dia das lições da tribuna, o centro fez questão de abolir a sessão de passes magnéticos, dando ao tema e ao respectivo expositor o poder de exercer fascínio sobre os aficionados. Fui obrigado a reconhecer que a sala estava cheia e que os presentes para lá tinham sido levados por inteligente divulgação do evento. Pela reação favorável, para a próxima palestra terei de esmerar-me ainda mais, crente, não obstante, de que, se falhar, terei o apoio da grande maioria, pessoas muito simpáticas, que me pareceram conhecer a doutrina de maneira bem fundamentada.
Comigo estavam vários companheiros do “meu” centro, alguns tão admirados quanto eu. No dia seguinte, discutimos o que observamos de bom e de ruim, não havendo um único item pertencente ao segundo quesito.

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Fiquei devendo a mim mesmo um desenvolvimento um pouco melhor a respeito da tese segundo a qual as pessoas se sentem culpadas por atitudes em determinadas épocas da vida, cujo conjunto de circunstâncias quase obrigava àquele tipo de reação. Mudadas as características de lugar, tempo e personalidades envolvidas nos dramas, ficam na memória os perjúrios praticados contra as leis de Deus e as universais consignadas em O Livro dos Espíritos. Daí a concluir que teremos de resgatar essas dívidas é um pequeno passo, os quais damos sob alguns conceitos doutrinários mal digeridos.
Não é verdade que, aos vinte, vinte e cinco anos de idade, estamos bem longe de proceder com sabedoria? Erramos, eis tudo, tangidos pelo caráter intempestivo dos jovens. Se tivermos um pouquinho de discernimento e de equilíbrio psíquico, uma hora ou outra acabamos por reconhecer a causa do defeito moral que nos levou à prática do erro e nos corrigimos, definitivamente.
O pensamento acima me induz a considerar que Augusto não teve oportunidade de redenção durante a vida, de forma que não poderia sofrer nas trevas todo o peso da responsabilidade que teria de arcar, caso prosseguisse praticando os mesmos males até a idade de cinqüenta anos. Acho que o exemplo é extraordinariamente esclarecedor.
Então, fico a cismar a respeito do ciúme, quase diria próprio de Otelo, com a diferença de que a minha Desdêmona não chegou a se sentir castigada pelo meu vil sentimento. Nem houve Iago a fomentar ódio à figura imaculada do meu Cássio, inocente quanto ao crime que lhe imputava, mas a se constituir em vilão na trama da realidade, punido exemplarmente com a pena de morte...
Deixei-me empolgar pelo conhecimento erudito de uma peça de Shakespeare, popularizada atualmente pela cinematografia, na versão operística de Verdi. Empolgado, expendi um conceito perigosíssimo, qual seja o da pena de morte, como solução para os crimes. Entendo-me no que digo. Quem aplicou aquela pena de morte não foi um tribunal terrestre, nem as leis deverão dar guarida a esse extremo de brutalidade penal. Foi uma conjugação de poderes exercidos aleatoriamente, sem responsabilidade, e que terão de Deus a correspondente aplicação das restrições naturais ao livre-arbítrio mal conduzido.
Gostaria de enfeixar o capítulo extraindo uma única conclusão dos dois tópicos, ou seja, de minha maravilhada recepção no outro centro espírita e da sensação de impotência da recuperação vital, quando se trata de evoluir no sentido de não mais praticar certos erros, não havendo mais a mesma conjugação de circunstâncias, para desfazer o malfeito, substituindo por uma ação benemérita e doutrinariamente saudável.
Parece-me que nos dois casos precipitei conclusões. Quanto a Márcia e Augusto, o sofrimento foi todo meu e, se alguma atitude tomei que repercutiu em nossos relacionamentos, somente esta investigação sobre o passado poderá expor-me ao consciente. Quanto ao povo do outro centro, tive o prazer de me ver refletir, tomando uma nova posição, alijando-me do preconceito, reconhecendo que estava errado e, finalmente, comprovando que estive à beira da falência.; mas consegui dar a volta por cima.
Não sei se vou dizer alguma asnice, mas a verdade é que não vejo a hora de deixar a minha carcaça no cemitério, para poder conferir se tantas intuições a respeito de minha vida se confirmam, onde errei e como deverei agir para superar as deficiências de caráter.

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Acho que foi asnice mesmo. Se chegar a outro resultado, volto ao tema.



20. TROCO DE CENTRO E DE VIDA

Este deveria ser um livro de memórias, tanto que desejava dar-lhe o título de Memorial de Pesadelos e Reflexões. No entanto, são tantas as intervenções dos acontecimentos atuais que o transformei em diário, para o qual estou interessando-me pelo título de O Que Devo Levar Deste Mundo ou ainda A Herança de Minha Alma.
Voltei, nestes últimos três meses, exatas doze vezes ao centro da periferia, dedicando ao “Louvor ao Pai” míseras seis visitas protocolares, chamado para aferição das contas e assinatura de papéis. É claro que não me furtei às duas palestras que me couberam pela escala das terças-feiras, mas repeti nelas o que havia dito nas exposições mais extensas do “Mensageiros da Espiritualidade Superior”. Tudo fiz com muitíssimo boa vontade mas senti que o entusiasmo arreou bastante, tornando-se a rotina uma batida estrada para a mesmice das reações sonolentas de quem aguarda a sessão de passes magnéticos.
Empenhei-me um pouco no sentido de abolir essa parte das reuniões das terças, mas fui voto vencido, porque, argumentaram-me, seria preciso convencer o público a mudar seus hábitos de doze anos, tempo este durante o qual me dei à função da oratória. Em suma, instintivamente ampliei os quarenta minutos para sessenta e notei que boa parte do auditório consultava insistentemente os relógios, como a me indicar que estava na hora de encerrar, justamente quando mais acesa ia a atenção dos amigos da outra casa espírita.
Faço estas observações em cima da hora mas não pretendo concluir que os daqui sejam melhores ou piores que os de lá. Somos todos pessoas carentes de estímulos espirituais e necessitadas de nos sentirmos reconhecidos pelo esforço que despendemos. Os da nova casa, talvez por se sentirem eleitos por uma criatura melhor dotada (pobre de mim!), tenham demonstrado um interesse que os do antigo centro tornaram o seu feijão-com-arroz.
Mas entre as freqüentadoras do “Mensageiros”, uma senhora particularmente me vem dedicando especial atenção, pessoa dotada de muita sensibilidade, que me provoca as confissões de viúvo, tendo-se demonstrada condoída mui particularmente por haver eu perdido meu filho para o vício, entusiasmando-se com a leitura das mensagens dele. Soube da morte de Márcia e de tudo que me representou, porque desejei pô-la a par de outros sentimentos, os amorosos, na expectativa de que esfriasse os seus desvelos para comigo, para lhe frustrar um envolvimento afetivo exclusivista.
Foi quando me contou a respeito de sua própria viuvez e da existência de três filhos casados e de três netos, um de cada filho, todos morando nas vizinhanças de sua residência. Aliás, sozinha no lar, é visitada constantemente pelos filhos, a maior parte das vezes em companhia das famílias, em festivas reuniões aos domingos.
Foi num desses dias que conheci a todos eles, tendo comparecido ao almoço familiar, com o intuito declarado de saber como reagiríamos todos nós, uns à vista dos outros. Disse-me Rosália, eis o nome da senhora, que pretendia, também ela, auscultar os semblantes de cada familiar, a ver se descobria aprovação ou reprovação pela possibilidade de novo envolvimento conjugal.
Falou-me sem medir as palavras, acrescentando que (vejam que coisa!), se não fosse comigo, haveria de ser com outro homem, porque a vida solitária estava por demais triste, ainda que muitíssimo bem relacionada no círculo espírita, porque espraiava as suas contribuições de palestrante, de professora de cursos práticos e teóricos e de médium escrevente (com uma obra de mensagens espirituais publicada), inclusive nutrindo amizades até no âmbito federativo.

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Ontem, seis meses depois de haver escrito a página acima, pedi Rosália em casamento. Ela assentiu e combinamos a festa de núpcias para daqui a um mês.
Acho que, se não vier a ser surpreendido com novidades muitíssimo fortes no novo campo de vida que se abriu para mim, vai ser difícil vir confidenciar ao papel os movimentos mais íntimos de minha alma. Sendo assim, para não perder esta oportunidade, devo afirmar, sem medo de que Rosália leia esta mensagem para o além, de que tenho Márcia como a minha estrela-guia, aquela criatura que ficará comigo, caso sinta o mesmo amor por mim.
Quero também ressaltar que não penso em Rosália como a minha companheira da eternidade, minha alma gêmea, não só porque acredito que o defunto marido deve ocupar esse lugar no âmago dos sentimentos dela, como também, conheço os textos em que Kardec trata desse tema, rejeitando essa possibilidade de exclusivismo amoroso.
Mas não vou fechar o caderno definitivamente. Vou pensar muito em mostrá-lo a Rosália, para com ela discutir os pontos polêmicos dos desenvolvimentos teóricos que empreendi, dada a sua experiência bem mais vasta e fundamentada que a minha na doutrina espírita.
É bom também fazer referência ao fato de que não saio daqui molhando o papel com lágrimas de saudade ou de nostalgia pelos tempos em que fui feliz com Ana e com Márcia. Também não posso dizer adeus a Augusto, porque o nosso relacionamento jamais esperei que fluísse destas minhas considerações, uma vez que com ele converso a cada prece que elevo ao Pai, recebendo constantes e renovadas mensagens de carinho e apoio espiritual.



21. DOIS ANOS DEPOIS

Pensei que jamais voltaria a escrever neste caderno. Rosália partiu para o além e me considerei viúvo pela terceira vez. Na verdade, o nosso casamento não foi aquelas maravilhas. Após um relacionamento apaixonado, durante três meses de lua-de-mel, começamos a tratar-nos de modo quase incompreensível, dadas as comparações com os defuntos parceiros.
Conservei o hábito de menosprezar as minhas próprias atitudes, mas desta vez não vou poder fazê-lo, porque tudo quanto disser será a mais pura expressão da realidade, principalmente no que respeita ao fato de que, por me haver casado com uma santa, não teria como aturar u’a mulher de carne e osso, voluntariosa e inteligente.
Deixem-me explicar a conjugação desses dois atributos. Com ser inteligente, não bastaria para me afastar, porque Márcia o era no mais alto grau, mas me oferecia a compensação de carinhoso amor, de profundo respeito e de eterna gratidão. Mas o que esta não se impunha pela fortaleza de uma personalidade marcante, a outra esbanjava em talentos de caráter, sempre prontíssima a me dizer que homens como eu encontraria (houve um dia que me confidenciou que encontrara deveras anteriormente ao nosso matrimônio) em qualquer lugar.
Mas fui levando como podia, desencorajado completamente a oferecer-lhe à vista estas já meio amarelecidas páginas (das quais devo dizer que senti muita saudade). Fui levando, acumulando funções caseiras com outras tantas tarefas nos dois centros espíritas, ligando-me à união federativa do estado, pombo correio da consorte, sempre instado a realizar todas as correções em seus textos, tanto que publicou mais cinco obras nesse curto espaço de tempo, porque fez dar-me no que tenho de mais profissional: a digitação, a correção e a adaptação dos textos à linguagem usual na imprensa e na literatura espírita.
Ainda bem que, perante a minha ação crítica, sou condescendente e não me policio com tanto rigor, abrindo-me a possibilidade de consignar uma escritura ao meu próprio estilo.
Um dia, revelou-se um aneurisma cerebral e ela partiu sem muito sofrimento e sem dar trabalho à parentela.
Ao pé do caixão, todos derramamos lágrimas sinceras, as minhas voltadas para o reconhecimento de seu poder mental e de seu domínio sobre os sentimentos.; as dos filhos e netos, dedicadas quase certamente à companhia nos domingos e feriados e ao inquebrantável desejo dela de auxiliá-los em tudo e por tudo, jamais deixando de ter a palavra correta para cada situação problemática. Outra qualidade inexcedível de seu caráter era a força da verdade que decorria de tudo quanto fazia, sendo-lhe impossível colocar panos quentes em qualquer situação melindrosa.
Estou há um mês hesitante, tendo ensaiado diversas vezes este discurso, cujo principal objetivo é ser único, sem ser evasivo ou bronco. Isto significa que, uma vez formulada a narrativa deste último período de minha vida, não desejaria retornar a ele nem para o elogio das virtudes, nem para a crítica dos defeitos.
Este texto deveria iniciar pelo título: Colocando uma pedra em cima. Mas como aprendi a ser prudente, porque tomei diversas vezes daquela água que prometi deixar repousando na talha, também agora não vou fazer promessas vãs.
Desde que faleceu Rosália, não mais me encontrei com os meus enteados, apesar de não ter sequer resquício de nenhuma espécie de melindre, que o nosso relacionamento sempre foi o mais cordato e respeitoso possível. Mas, se disser que não sinto saudade das crianças, minto, que era com quem melhor me relacionava, quem sabe pela ingenuidade e inocência delas e por não correr eu risco algum de ver rejeitada nenhuma de minhas opiniões.
Eis a perspectiva que me estava faltando para justificar o fato de não ter aberto este caderno diante de Rosália. É que a danada não perdia vaza para a crítica perfeita de todos os pareceres que eu emitia sobre qualquer tema doutrinário. Inclusive, após quatro ou cinco palestras a que ela assistiu, umas num, outras noutro centro, dei cabo de minha carreira de expositor, para não me ver mais coberto de increpações por ousadia demasiada perante os elementos correntes entre os próceres intelectuais do movimento espírita.
Fi-lo com dor no coração mas cônscio de que, se tivesse razão para não fazê-lo, prosseguiria independentemente das críticas de que era alvo. Cada vez que Rosália, com sua entonação característica, me chamava: “Murilo, precisamos conversar...”, eu tremia na base doutrinária, porque sabia que vinha chumbo do grosso.
Deus me livre, pois, sequer de imaginar o que diria ela a respeito de todos os meus desenvolvimentos nestas folhas em que tudo parece mais o repositório das intuições preliminares que devem ter passado pela mente de Kardec, antes de sua obra de codificação, pela orientação superna dos espíritos de luz.
Mas Rosália partiu e o primeiro impulso que tive foi a de reatar este meu vínculo comigo mesmo, fórmula ideal de preparação para a minha vez de ultrapassar os umbrais da morte.
Rosália, minha amiga, Deus a receba em seu seio de glória, pela mão luminosa do pai de seus filhos. Assim seja!

Vou precisar de um tempinho para restabelecer o hábito de escrevente sem leitor, ou melhor, de muitos leitores ideais ou, como dizem modernamente, virtuais.

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Notei, ao analisar o texto que de um jato pus no papel, dois fatos primaciais:
1. Deixei transparecer nuanças de profundo desprezo pela maneira de ser de Rosália, como se tudo o que escrevi estivesse sob o signo da ironia. Devo revelar que não me passou pela cabeça exatamente esse sentimento. Isto é o que há de mais grave, porque reconheço a existência do desagrado íntimo em relação aos tempos em que convivi com ela. Pelas fórmulas antigas, se não estou enganado, deveria agora temer por uma temporada a maior nas Trevas, para resignar-me à sorte que me foi destinada, para a compreensão de que as pessoas todas devem receber de nosso coração o afeto mais incondicional.
Neste ponto, perpassa-me pela mente o pensamento de que o precipitado fui eu mesmo, que desejei oficializar os nossos vínculos afetivos, quando poderíamos ter mantido um róseo período de amizade mais chegada, despedindo-nos, sem rancores, sem susceptibilidades feridas, sem compromissos no etéreo de resgate dos sentimentos (ou vibrações) em descompasso com a harmonia que deveríamos estabelecer, tendo em vista o dom de perfeição de que somos informados.
Eis que, neste ponto, pareço defender o amor livre ou, na pior das hipóteses, o pluralismo conjugal ou a poligamia. Nada seria mais injusto para comigo, porque assumi o matrimônio e não tive, em momento algum, o desejo concreto de separação. Agüentei as pontas, como meu coração me determina escrever.
Agora é minha consciência que ergue a voz que tento sufocar, sem sucesso. Ela me diz: “Murilo, e se você, levado por estes últimos tempos de leito partilhado, estabelecer que as tais amizades coloridas são de qualquer modo úteis para o seu equilíbrio fisiológico?...” Aí, deverei volver a esta página e refazer os elementos das premissas, para argumentar diferentemente.
Brincadeira!
É que me envergonhei de haver redigido tão prontamente as idéias que, tais ligeiras abelhinhas, zuniam ao derredor de minha vontade insuspeita de elaborar um texto mais longo e também bastante promissor. Nutria a esperança assaz subjetiva de volver a este bazar de idéias e conceitos, longe do olhar inquisidor da megera indomada (valha-me a referência canhestra ao texto shakespeariano). Este é como um refúgio de minha alma e me pareceu estar bem evidenciado no texto acima.
2. Não é verdade que estou parecendo mais velho, ou melhor, mais velhaco, e que a convivência com Rosália me amadureceu em certos aspectos, como se tivesse realizado estágio num convento, na qualidade de enclausurado, tonsurado, afligido pelas tremendas penitências de severo confessor, recluso na cela apenas para sair com o objetivo do trabalho comunitário de hortelão, cozinheiro, despenseiro e copista?
Acho melhor parar por aqui, senão arquivo este texto direto no cesto ao pé da escrivaninha. Aliás, faz tanto tempo que não manuscrevo, que me dá ganas de colocar tudo na tela do computador. Então, diria: desarquivo este texto, deletando-o, ou mando para a lixeira...



22. ROSÁLIA REAPARECE

Enquanto fiquei a lucubrar alguns temas sobre que escrever particularmente, Rosália apareceu, dois meses após o seu decesso, para trazer uma primeira mensagem, através de psicografia. Eu não estava presente à sessão, mas fui citado duas vezes, conforme mais adiante transcrevo.
Antes de mais nada, é preciso cercar de cuidados a identidade do espírito que se comunicou, como sendo mesmo o de minha última esposa. O médium nos conhecia mas não nos era íntimo, porque ao “Louvor ao Pai” Rosália foi muito poucas vezes. As informações de praxe, como nome da parentela, locais e datas, corresponderam integralmente. Quanto a mim, a citação de “Guto”, como chamávamos em casa ao Augusto, não me surpreendeu, porque não conheço um que não seja assim chamado. Entretanto, de qualquer modo, o nosso médium ignorava o apelido familiar.
O que me deixou bastante satisfeito foi o fato de Rosália conhecer o texto que empreendi no capítulo anterior, sem demonstrar azedume ou sequer um mínimo laivo de ressentimento. Ao contrário, como se poderá ler no trecho seguinte, que copio na íntegra, até me pediu desculpas por me haver usado como de sua propriedade, desconsiderando a minha precisão destes momentos de isolamento e de exame da realidade objetiva.
Eis a referência:
“Ao meu querido Murilo, deposito a seus pés uma rosa colhida no jardim da residência que me abriga, como demonstração de nosso amor maduro, talvez extemporâneo, mas de grande proveito para minhas reflexões atuais. Sei que ele precisava de uma esposa menos aferrada aos projetos teóricos e menos dedicada aos trabalhos práticos, porque eu o punha ao meu dispor vinte e quatro horas por dia. Que esta rosa ideal (ou virtual) tenha o odor de um pedido de perdão. Um beijo e um abraço bem apertado, em nome de Jesus.”
Quando li pela primeira vez o texto, ainda trazia um ranço de má vontade em relação ao fato de o médium ter dado passagem a essa comunicação que me parecia apócrifa, dado que faz muito pouco tempo que Rosália desencarnou. Estava tão envolvido emocionalmente que nem notei as semelhanças sutis entre os dizeres delas e os meus. Mas, apenas para citar, aquela retificação parentética do virtual foi definitiva.
Hoje estou aceitando a mensagem como original, ou seja, dela mesmo, embora me haja passado pela idéia que bem poderia ter sido elaborada por um espírito, a seu mando, para o efeito da reconciliação. Isto tenho ensinado no centro, nas aulas a respeito do fenômeno mediúnico, de maneira que estou bem a par do que escreveu a respeito o nosso Codificador.
Mas que importância terá esse fato, se a mistificação vem do plano espiritual e não visa senão trazer muito conforto às almas aflitas pela perda de um ente querido? De qualquer modo, fico atento para a possibilidade de haver alguma conotação sutil no texto, preparada para me desviar do exame mais ponderado pelo intelecto, insinuando algum argumento que possa iludir-me nas conclusões. Foi pensando assim que elevei meu pensamento ao Senhor e orei com muita devoção, pedindo por Rosália e por todos os seus amigos da espiritualidade, agradecido e comovido.
O segundo trecho é o seguinte:
“Para o meu Murilo, tenho a informar que Márcia não se encontra nos círculos familiares dos ascendentes do meu gentil consorte, devendo freqüentar, portanto, a esfera em que convivem os parentes dela. Fique em paz, no entanto, porque, se ela habitasse alguma região inferior, teria sido bem mais fácil localizar-lhe o paradeiro. O meu ex-marido veio ao meu encontro no dia em que faleci, mas hoje estamos separados, porque está preparando-se para reencarnar. Sobre isto, não posso acrescentar mais nada, para não fomentar idéias supersticiosas ou preconceituosas, como ocorre tão constantemente quando se suspeita que o filho de fulano seja o espírito de sicrano. Guto é uma criatura maravilhosa, lutando ainda para superar certos problemas da última encarnação, mas isso ele mesmo tem repetido em suas comunicações.”
Acostumado a corrigir os defeitos de redação de Rosália, pus mais ou menos em ordem os trechos copiados, apesar de o médium ser muito bom no registro gramatical dos ditados.
O que me deixou mais envergonhado no texto foi Rosália haver citado Márcia, primeira referência mediúnica de minha menina. Mas tremi na base, como diria coloquialmente de maneira muito expressiva, ao ver que transparecia a possibilidade de Márcia não freqüentar um círculo mais elevado. Aliás, a declaração de que, se estivesse num campo energético inferior, Rosália saberia, não me pôs o coração sossegado.
O mínimo que pensei foi que Márcia, inteirada de minha verdadeira personalidade, ausentou-se, não me permitindo conhecer o seu adiantamento, qualquer que seja, para me facultar perene formulação de superior parecer a seu respeito. Ou não me queria ver decepcionado, ou desejava haurir de minhas preces por mais largo tempo. De qualquer modo, é opinião que desmerece de meus antigos sentimentos.

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Vinte dias se passaram e eis que nova mensagem nos chega de Rosália, desta vez inteiramente dedicada à personalidade de Márcia.
Tão graves foram as informações, que me ponho absolutamente pasmado diante de mim mesmo e de tudo quanto pensei a respeito da mulher que foi minha esposa por muitos anos.
São tão desencontradas as informações com as sugestões que captei de meu inconsciente, que me recuso a aceitar as palavras do texto mediúnico como de orientação sadia para um ser vivente necessitado de melhorar o seu desempenho em certas áreas do espírito.
Tanto pus na cabeça que Rosália exercera em vida um papel de obsessora, que não na vejo hoje de modo diferente, conquanto tudo o que me escreveu esteja absolutamente conforme à lógica das formulações e reações psíquicas daquela criatura que julgava de eleição.

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Escrevi tanta coisa neste caderno de que me arrependo agora que, antes do que prosseguir, estou melhor preparado para começar tudo de novo, utilizando-me do computador, passando a limpo algo que mereça aproveitado e despejando para longe dos olhos alheios os desenvolvimentos menos edificantes, aqueles mais aptos a despertar mórbida curiosidade do que a implantar nas mentes a necessidade de legítimo raciocínio espírita.
Vim para este desenvolvimento preparado para não ter surpresas temáticas, tanto assim que o argumento contrário está na ponta da língua, qual seja, tudo quanto considerei a respeito de registrar os problemas para não me esquecer de lhes dar solução adequada, propondo-me a equacionar cada circunstância psicológica perante a argúcia dos raciocínios objetivos, diretos e autênticos, de um escrito formal e definitivo.
Quanto a Márcia, entretanto, vai demorar muito tempo até que me acostume à idéia de que está muito feliz na companhia de um ser muito querido de outras encarnações, o qual precisava (tanto quanto eu, segundo Rosália) aprender a liberar sua alma gêmea (com perdão da expressão condenada por Kardec) para outros amores, em condições cármicas de indiscutível coerção material.
De acordo com Rosália, portanto, Márcia encarnou com a missão de ensinar a duas entidades que o amor evangélico não anda de mãos dadas com o amor dos encarnados, senão durante uma passagem muito rápida pelo orbe. Para as conclusões de caráter moral, remeto os meus leitores a Kardec, sem citações nem indicações bibliográficas. Corra a incursão como uma aventura doutrinária de muito boa perspectiva de aprendizagem.
Rosália ainda comentou que Márcia não poderia fornecer de moto proprio estas informações, impedida por seu bem-querer por mim e o seu respeito à minha tranqüilidade moral.
Muito a medo, assinalo que estou no aguardo, agora mais que nunca, de que algum espírito protetor de minha própria família venha confirmar os dizeres a que acima aludi. Afinal de contas, não foi Kardec quem disse que as notícias do etéreo precisam ser repetidas por diversos médiuns, em vários locais, para serem aceitas como verdadeiras?



23. ONDE ESTÃO OS ESPÍRITOS DE LUZ?

Desde que tenho reproduzido trechos de mensagens psicografadas, está se assentando em minha mente a idéia de que a mediunidade não serve mais senão para trazer consolo, luz e paz para os corações aflitos. Quando se trata de textos de caráter científico, filosófico ou outro a exigir que o espírito tenha conhecimentos de ponta no ramo escolhido, os conceitos vão ficando cada vez mais difíceis de aceitar, dado que os médiuns não seguem especializando-se, para o que necessitariam, eles mesmos, de serem capazes de redigir de próprio punho os textos mais sérios e objetivos.
Não sei se traduzi com exatidão todo o meu pensamento, mas a verdade é que, no âmbito da moralidade superior ou da moral vigente em nossa sociedade, quanto se diga, apenas se copia ou se repete, mais ou menos criativamente, as obras antigas, para não se dizer que tudo já se encontre nos Evangelhos, justamente nas palavras de Jesus, ou nos comentários de Kardec, o que não nos permite abertura para novas expressões, dentro das leis declaradas, comentadas e elucidadas.
Quando leio obras recentes de cunho eminentemente erudito, com terminologia apropriada aos tempos modernos, parece-me ouvir Kardec falando com outro sotaque. Tudo o que encontro na imprensa não vale a pena, do ponto de vista dos ganhos primários em termos de doutrina pura. São recomendações, o mais das vezes pueris ou inocentes, como se a pregação que ali se faz se endereçasse exatamente aos próprios autores, eles, sim, carentes de estudar e de se aperfeiçoar.
Claro está que obras existem que nos trazem imenso prazer, escritas de molde a criar uma espécie de aura de satisfação íntima, porque nos revelam a nós mesmos, dizendo o que diríamos se melhor apetrechados de cultura e de inteligência. Mas mensagens geniais, daquelas que Kardec arrebanhou e transcreveu nas obras da codificação, essas são raríssimas.
Digo tudo isto para justificar um pouco melhor a minha insistência em que as mensagens que me foram dirigidas pelos amigos da espiritualidade, além de serem muitíssimo particulares e específicas, também pecam por me darem a oportunidade de duvidar da própria categoria superior dos espíritos. Sendo assim, justifico a pergunta do título: onde estão os espíritos de luz?

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Dei-me um tempo para refletir sobre as linhas acima, o que me fez concluir por um certo queixume natural de quem trabalhou boa parte da vida em centros espíritas, sem jamais me deparar com mensagens de superior qualidade, dessas que, uma vez publicadas, causam arrepio na medula aos crentes e colocam a pulga atrás da orelha aos incrédulos.
Dentre outros gêneros, um que jamais se produziu em minha presença foi uma peça poética de elevado teor literário. Alguns médiuns principiantes arriscaram-se a fazer versinhos, pobres versinhos, sem métrica e sem rima, apenas com alguns sons a ecoar aqui e ali. Bem comparando, é como ocorre em certas sessões de pintura mediúnica, onde os borrões são assinados por nomes de respeito artístico.
Quer dizer que não se manifestaram verdadeiramente os artistas que assinaram os quadros ou os poemas? Talvez até sejam os próprios que tenham comparecido, mas não encontraram instrumentos categorizados para servi-los a contento.
Sei que existem médiuns muito bem dotados em todas essas áreas, com obras que evidenciam o talento dos autores espirituais, como existem médiuns de cura que praticam proveitosa medicina. Poderia relacionar vários aqui, a partir, só para dar um exemplo, das poesias que se concentraram no livro O Parnaso de Além-Túmulo, pela pena privilegiada de Chico Xavier. Mas já se passaram mais de sessenta anos e não nos demos conta do inteiro valor desses textos.
Se algo pode ser increpado a mim pelas considerações acima, antecipo-me e digo que estou a revelar claramente forte pessimismo de caráter pessoal, porque estou achando que os espíritos superiores estão fugindo do meu círculo de atuação, porque não me entreguei completamente à prática das virtudes e está translúcida em Kardec a informação de que os bons espíritos fogem das pessoas que não agem bem, e nesse agir bem incluo a própria maneira de pensar.
O mais próximo que cheguei da composição de algo de bom nível foi através de programas de televisão, ainda assim tendo ouvido muitos comentários fora de propósito, com forte ambigüidade quanto à crença dos próprios redatores e produtores, como se tudo não passe de mera programação da mídia interessada em captar audiência que justifique os altos preços que se cobram aos patrocinadores.

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Não venho para retificar nenhuma das opiniões acima emitidas. Valho-me, contudo, deste tempo de reflexão cujo direito me dei para reafirmar a minha vontade de receber, em sessão por mim presidida, algo que contenha inequívoco sinal de superioridade do mensageiro.
De qualquer modo, tenho de me desculpar perante os guias e orientadores do centro espírita, bem como os que me beneficiam com sua proteção especial, como no caso de Rosália, que se aprestou de modo tão gostoso a me brindar com informações que, no meu íntimo e nestas páginas, desejei receber.
E quero tornar o meu sentimento absolutamente transparente, no sentido de que não me queixo das reuniões mediúnicas, dos mensageiros nem dos espíritos infelizes que nos são trazidos para que os doutrinemos (vocábulo assaz pretensioso, que gostaria de evitar), nem estou pondo em dúvida a boa vontade e os conhecimentos elevados de tantos que nos trouxeram palavras de incentivo e recomendações de cautela. Não se trata propriamente de refugar estes anos dedicados ao espiritismo tal qual se pratica na maioria das casas kardecistas. Trata-se de algo que trouxesse emulação para toda e qualquer superação de pontos doutrinários mais sutis, mais problemáticos, mais polêmicos.
Explico-me, para que não pairem dúvidas, principalmente porque escrevo em velocidade acima de minhas qualidades à flor da pele, como se estivesse redigindo diretamente através das vibrações de meu espírito, sem passagem obrigatória pela organização mental do perispírito, nem pelas reações físico-químicas de meu cérebro material.
É que o Espiritismo adentrou em caminho bifurcado: ou tangencia muito próximo das crenças intuitivas de certos cultos místicos de cunho supersticioso, ou abole completamente os elementos lúdicos das inteligências ímpares, para obstar qualquer estímulo que possa representar algo novo em matéria doutrinária.
Agora que já ofendi meio mundo, acredito que esta será a primeira página que o meu futuro editor determinará que seja extraída, com certeza através do argumento de que extrapola o conteúdo memorialista e de que nada acrescenta à narrativa que, mais ou menos, se fundamentou nos problemas de minha vida amorosa ou emocional.
Para mim, todavia, representa um movimento novo do intelecto, sob a influência poderosa de nova constituição sentimental, a partir da necessidade de escrever algo mais sério, mais concreto e mais positivo, dentro das possibilidades críticas do meu espírito. Dito de outra forma, devo esta postura menos lamuriosa e menos glamourosa ao caráter enérgico (para não dizer viril ou másculo, o que seria uma injustiça para quem me enviou uma rosa) de Rosália (aproximação sutil — dela, não minha), que soube colocar os pingos nos is, ensinando a agir com maior desenvoltura no campo da análise dos problemas.
Agora posso responder à pergunta.
Os espíritos de luz estão ao nosso redor, auxiliando-nos sem esmorecimento e com o máximo de boa vontade e de inteligência. Se não sabemos reconhecer a sua atuação emérita em todos os setores das atividades humanas é porque nos falta este sentido de meditação mais ou menos transcendental ao derredor de nossa personalidade eterna, aquela que iremos desnudar no etéreo, quando a consciência solicitar de nós que nos filiemos às hostes do Senhor.

Em tempo. Eis um soneto que um dos médiuns da minha mesa psicografou hoje, não sabendo assinar o nome do poeta:

Realidade penosa

Em vão, eu me estimulo p’ra poesia,
Que poucos sabem ler nas entrelinhas:
As almas quase sempre estão sozinhas
No estudo da consciência em harmonia.

Por isso, não pretendo ver carinhas
Franzindo as sobrancelhas neste dia,
Que as rimas que fizer ninguém faria
Apenas p’ra dizer que foram minhas.

Bem sei que a seriedade é de rigor
Na paz deste ambiente tão sagrado,
O que me obriga a vir, neste compor,

A dar bem mais de mim, do que me agrado,
Elogiando o povo com amor,
Pedindo que me ponham do seu lado...



24. UM DIA LIVRE

Desde há muito tempo não tenho tido uma horinha que seja para mim. Não que esteja verdadeiramente precisando, mas às vezes penso em como seria bom se pudesse assistir sossegado a uma partida de futebol no campo ou no estádio.
Passar férias faz muitos anos que não consigo, sempre adiando por compromissos prementes de toda espécie. Elogio-me bastante por ser um trabalhador responsável, mas também gostaria de espairecer a mente, com certeza para volver com outro ânimo para as tarefas de cada dia. Sei que os profissionais da área de medicina do trabalho exigem que os operários e os executivos se afastem anualmente do serviço, até para efeito da higiene mental, da limpeza das cracas que o relacionamento humano faz acumular na psique oprimida, o que vejo divulgar-se com o nome de estresse.
No que tange a estas manifestações íntimas, considero-as sagradas e jamais nenhuma me causou transtorno tão grande que me visse constrangido a desistir delas. Na verdade, neste caso, volto ao papel quando me apetece. Às vezes, é o contrário que sucede, ou seja, tenho tempo e assunto, estou com a mente livre de preocupações, mas procuro fazer outra qualquer coisa, como a me inteirar de que exerço, ao menos aqui, o meu poder de livre-arbítrio.
Também nos dois centros em que atuo mais empenhadamente, todo ano procedemos a duas suspensões dos trabalhos, acompanhando as férias escolares. Entretanto, o setor das palestras não se interrompe, de modo que, além dos dias costumeiros em que apresento as minhas exposições, outros se acrescentam a pedido dos irmãos expositores que têm filhos em idade de exigir passeios e viagens.
Abri uma brecha para dizer que tenho comparecido a outras sedes espíritas para repetir algumas palestras que foram consideradas pelos amigos como plausíveis e capazes de manter a atenção do público por um período sempre variável de tempo. Na maioria das casas, sou bem recebido e me pedem para voltar. Em outras, fico na berlinda e acabo sendo esquecido, sem saber exatamente o motivo da rejeição. Mas a vida é assim mesmo. Quem sabe, no dia da apresentação, eu não estivesse particularmente inclinado a raciocínios elaborados em função do nível das dificuldades que sou capaz de detectar junto ao público, tendo falado muito difícil ou fácil demais, tendo expendido idéias minhas, sem estabelecer direito seu nexo com os conteúdos kardecistas e assim por diante.
Chego, então, ao ponto essencial desta mensagem (se houver quem leia, deve estar pensando que adquiri a certeza de que irei chegar a publicar algum volume destas memórias.)
Em primeiro lugar, devo deixar enfatizado que os temas mais sérios deveriam extrair-se dos desenvolvimentos anteriores, para o que estou bastante desleixado, porque, assim que abro o caderno nas páginas escritas, logo me vem o desejo de fechá-lo. Por isso é que me lembrei da necessidade de descanso. No caso, o descanso é dos temas, que não alcançaram melhores desenvolvimentos, porque estou percebendo que a minha capacidade está delimitada pelas extremidades conceituais dos textos escritos.
Em segundo lugar, toda vez que busco tornar a composição menos prepotente, assinalando o que disse este ou aquele autor de respeito, fico como a julgar-me superiormente entrosado nos assuntos, como se fosse naturalíssimo deixar que meus pensamentos flanem à vontade, numa desenfreada imaginação de quanto processo de restauração perispiritual estarei em condições de enfrentar e vencer, no regresso obrigatório ao plano da espiritualidade.
Desde que descobri que Márcia não está preparando-se para seguir comigo no etéreo, venho idealizando algumas respostas muito “coerentes”, para poder ajustar-me àquela horrível frustração. Foi aí que me peguei pensando em que os liames sentimentais não podem ser o reflexo da benquerença entre as pessoas, porque estaria completamente perdida a autonomia ou a individualidade dos processos decisórios, em função dos avanços evolutivos de cada um, ainda que se aceite o princípio de que a humanidade caminha como um conjunto para as esferas superiores.
Preciso adentrar um ponto não totalmente infenso de riscos em relação à pudicícia de muitos leitores espíritas, desabituados a meditar a respeito da problemática sexual. Em todo caso, preciso dizer que as minhas mulheres não se deram apenas a mim, havendo obtido prazer em outros relacionamentos carnais, o que me obriga a suspender a tese de que o casamento seja sagrado como instituição definitiva, mas que deve ser encarado em seu aspecto evolutivo, segundo a humanidade vai transformando-se, para podermos agasalhar, ainda encarnados, a idéia de que homens e mulheres valem, no sentido do merecimento para o progresso, enquanto assumem e cumprem os compromissos.
Eis o sentido macabro das aludidas férias ou ao descanso a que acima fiz referência. Não que esteja defendendo a instituição das chamadas férias conjugais nem mesmo estou julgando da moralidade das pessoas que fazem do sexo um atributo orgânico, sem intercorrência moral, psicológica, religiosa ou espiritual. Quero estabelecer como padrão da matéria a sinceridade, a honestidade, a fraternidade, a amizade, como vínculos humanos mais fortes, mais ponderáveis, até mesmo mais necessários, do que aquele produzido pelo amor, principalmente quando a carne está queimando de paixão.

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Ontem estive conversando longamente com Ana. Observei-lhe as rugas e fiquei absorto na expectativa de descobrir quais sofrimentos as teriam causado.
Falamos de nossas vidas, como bons amigos. Na verdade, ela procurava demonstrar o quanto eu devia a Márcia pela felicidade de tantos anos de convivência pacífica, deixando bastante claro que com ela eu não teria tido a mesma paz. Com certeza, teria ficado muito longe de aprender a doutrina espírita.
Perguntei-lhe a respeito de suas concepções religiosas e ela me afirmou que estava ainda incrédula quanto aos fenômenos espíritas que Dona Letícia, desde que se empregou em seu lar, vem, de quando em vez, inoculando em sua mente, por força de cuidar do enteado também nesse aspecto.
A conversa derivou para a existência das vidas aparentemente perdidas das pessoas incapazes e fui cada vez mais mergulhando nos conceitos, tanto que me tornei cansativo, o que só percebi quando Ana se despediu, de repente, sem ter feito aquele pedido de desculpas, aquele rogo de perdão que eu aguardava até com certa ansiedade. Tudo para dizer-lhe que a compreendia, que as coisas da juventude a maturidade explica e justifica, que eu não me estou tornando velho à toa, mas que tenho aprendido muito com as tragédias da vida, as minhas e as alheias, além de me haver acostumado a enfrentar tanto crime e tanto horror dentro dos noticiários.

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Penso que eu tenha equilibrado este tópico, dando um pouco de descanso aos amigos leitores, oferecendo-lhes algo para refletir, diminuindo a extensão para não ser tão desagradável, sem grandes ou profundas críticas a ninguém, nem mesmo me expondo como um pobre coitado e infeliz, porque não sei ir mais longe do que já fui.
Encerro pondo tudo nas mãos de Deus, fazendo votos para que outras poesias sejam ditadas para os meus irmãos médiuns, para que eles se habituem à linguagem literária e possam receber peças um pouquinho melhores do que a anterior.
De qualquer modo, preciso reproduzir os dois últimos versos, ou não ficarei satisfeito com o meu proceder de hoje:
Elogiando o povo com amor,
Pedindo que me ponham do seu lado...



25. SURPRESAS QUASE DESAGRADÁVEIS

Desenvolvi o tema das férias e sabem o que me aconteceu de fato? Caí doente, precisando de internação. A minha saúde sempre foi à prova de qualquer surto epidêmico de que espécie fosse, rompendo orgulhoso por entre todas as gripes. De repente, sem aviso que pudesse caracterizá-la em definitivo, eis que se me instala insidiosa pneumonia que arruinou meu sistema imunológico. Foi por pouco que não dei com as dez, arrumando as malas para ir bater um papinho um pouco antecipado com o pessoal do além.
Interessante foi a estadia no leito hospitalar, onde me mantiveram sedado por um curto período, enquanto recebia doses maciças de antibióticos. A bem da verdade, poderia ter sido tratado em casa, caso tivesse uma esposa que se ocupasse de mim. Nesse caso, é quase certo que não cairia tão prostrado. Mas, hipóteses à parte, não desejei dar trabalho a nenhum parente, e fiz valer os meus direitos dentro do plano médico que pago desde há muitos anos e que jamais utilizara.
Convalescente, conferi os valores consignados em minha conta de poupança e percebi que me poderia dar ao luxo de uma ligeira temporada em Campos do Jordão, satisfazendo, principalmente, o desejo de me afastar de todas as atividades, conforme descrito no capítulo anterior.
Cansei-me da monotonia do lugar e, estando bem melhor (curado estava mas isso não justificaria a permanência em férias), lá fui em excursão pelas cidades do Nordeste, resolvendo perder o pacote turístico, para me deixar ficar em hotel de segunda categoria numa praia de Natal.
Nada ocorreu de significativo, a ponto de merecer referido com relevo. Apenas me diverti fisicamente, materialmente, deixando de lado todas as leituras doutrinárias, todas as sessões mediúnicas, todas as reuniões públicas e privadas dos centros espíritas, esquecido de que as atividades do movimento kardecista crescem por todo o país. Meti-me no meio do povo, suei, dancei, bebi e comi à farta, tomei banho de mar, emagreci e tostei-me, jamais preocupado em rejuvenescer-me, dando-me conta do arfar das caminhadas e das petecas amigas dos hóspedes do hotel.
Pareceu-me recuperar a infância, sem os atropelos das obrigações.
Caso único a constar, um belo dia, dei de cara na rua com um sujeito mal-encarado que exigiu os meus pertences, sob o amparo de uma arma de fogo. Resisti ao desejo de lhe fazer um sermão e dei-lhe tudo o que queria, inclusive a carteira com todos os documentos, sem lamúrias e sem tremores.
Senti que se abalou o, como direi, salteador, bandido, facínora, malandro, amigo do alheio?... Seja como for, no dia seguinte, ao ir dar queixa do roubo, recomendaram-me passar por diversas repartições, para ver se os meus documentos teriam sido achados, porque nem sempre os meliantes são tão despojados de sentimentos que sacrificam as vítimas com o acréscimo das preocupações da restauração da papelada oficial. De fato, dois dias depois, recebi no hotel um envelope com todos os meus pertences de caráter oficial e uma nota escrita em mau português, agradecendo-me por haver procedido com muita calma, afirmando que o dinheiro que me fora surrupiado iria servir para alimentar uma família faminta.
Corri à Delegacia para ver se poderia retirar a queixa, mesmo porque a quantia que perdera era apenas a que me recomendava o bom senso carregar naqueles passeios, não muito para vir a me fazer falta, nem pouco para pôr o delinqüente zangado. Lá riram de mim ou da situação, porque aquele bilhete não era mais do que a marca registrada do larápio, indo engrossar o volume da pasta de outros tantos que também foram enviados com a mesma intenção.
Pelo teor diferente do fato, devem os argutos leitores estar concluindo que deverei estar imaginando quais efeitos morais devo extrair dessa viagem, para tornar compatível este capítulo com o nível de reflexão dos demais.
Na verdade, o principal não se deu onde mas quando, ou seja, os lugares por onde passei não contaram, mas o tempo, sim, pois os três meses afastado das tarefas habituais acabaram representando um ônus que jamais teria imaginado, sem essa experiência. É que perdi quase de todo o desejo de continuar as atividades junto aos centros espíritas, crendo preferível dedicar as minhas últimas energias, ou melhor, os recursos que me restam nesta minha “terceira idade”, para começar de novo um lar, sem rompantes de entusiasmo, sem admirações intempestivas, sem perspectivas de realizações por idealismo, pragmaticamente, economicamente, positivamente.
Nada de arrumar uma paixão juvenil (Ana), nada de me dar a extremos de amor (Márcia), nada de me ver o eleito de um intelecto (Rosália), nem precisava de uma empregada (Letícia) que me cuidasse da carcaça e seus petrechos materiais. Mas precisava de uma dona de casa, alguém para cozinhar, lavar, limpar etc., que também desejasse sair em viagens curtas ou longas, dividindo os gastos, que os meus ganhos me prescreviam um arrefecimento nesse ímpeto das retiradas bancárias.
Querem saber se tive saudade de Dona Paula? Lembram-se do nome de minha mãe? Pois tive mesmo, porque meus compromissos filiais eram limitados, em comparação aos que teria de firmar com essa pessoa que entraria em minha vida.
A argúcia dos leitores que estão imaginando que já tenho em mira uma pessoa que me satisfaça os princípios que venho estabelecendo irá frustrar-se desta feita, porque apenas estou utilizando-me racionalmente do direito de registrar outro tipo de meditação neste caderno.

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Nem sei por que coloquei o pontilhado acima, uma vez que estou dando seqüência ao texto sem solução de continuidade. Mas fique ele a dividir o capítulo por assunto.
No hospital, recebi diversas visitas de amigos e parentes. Mas não estava em condições de estabelecer contato, de modo que não pude sentir deveras as reações emocionadas ou não das pessoas. Tive até a intuição de voltar a me internar sem doença, apenas para esse efeito. Pura tolice, ainda mais que por escrito.
Como saí de viagem sem pedir a opinião de ninguém, aliás, o único endereço que deixei foi o de Campos do Jordão, não recebi correspondência nem emiti, que o meu alheamento do passado queria integral.
Ao saberem que tinha voltado há uma semana, sem ter dado notícia, logo vários companheiros me procuraram, cheirando algo de diferente a ser conferido junto ao espírita embalsamado. Falei-lhes de dar um tempo, de voltar meu interesse para novos estudos, de escrever algo meu, que precisava reciclar-me, que não pensassem em obsessão e que dessem um jeito de cobrir ainda a minha ausência com os palestrantes de plantão.
Satisfeitos não ficaram mas me prometeram que, em havendo algo importante, eles me comunicariam. Não sei não.
Esta derradeira semana me mostrou um aspecto novo que havia ficado debaixo das bases sólidas de meu edifício espírita: o sentido da obrigação, como se dá por efeito da promessa do castigo eternal para quem não freqüenta a missa aos domingos. Fiquei inquieto toda vez que se repetia o horário em que me aprontava para ir ao centro. Era como se estivesse faltando algo.
Ainda não pensei muito a respeito, mas a primeira idéia que fiz sobre a necessidade criada de participar dos trabalhos gerais de uma casa espírita foi a de que esse hábito, uma vez incrustado na personalidade espiritual dos indivíduos, há de representar uma dificuldade após a morte, porque o sujeito estará à procura de satisfazer um desejo inoculado em sua mente, sem ter a possibilidade de atender a ele. Trabalhar pelos irmãos necessitados de coisas ou de noções é o que se deve ter em vista.; integrar-se num grupo de assistência é muito salutar.; querer transformar essas virtudes em costume é o objetivo mais forte que se possa ter em vista na vida.; concentrar todos esses aspectos num mecanismo de vaivém com horário e com normas é que está parecendo-me perigoso.
Por hoje, vou ficando por aqui, prometendo voltar a este caderno sempre que algo significativo se demonstre dentro de minha alma. Com certeza, se trouxer para casa uma quarta esposa, ou companheira, ou concubina, ou amante, ou namorada, sempre alguém que respeitarei com todo o meu poder de resistência afetiva (expressão esta um tanto ou quanto dúbia), não deixarei de escrever as minhas reflexões. Quase dizia que eram para os meus netos lerem, o que quer dizer que estou com saudade dos pequerruchos da família de Rosália.
Tudo isto é muito bom! Agradeço, pois, a Deus o fato de saber regrar com harmonia a minha vida, sob as vistas sérias e os conselhos enérgicos de meus guias espirituais, cuja presença sinto o tempo todo.



26. MARIA

Honro a minha nova companheira com o título desta mensagem, embora ela abra mão de compreender tudo quanto aqui haja escrito nestes últimos anos. Não que seja analfabeta. Ao contrário, lê muito bem e tem estudado bastante. É que não se integra no movimento espírita e, por isso, ainda não se deixou afetar das teorias mais complexas do kardecismo.
Pretendo eu expor-lhe em minúcias a doutrina? Verdadeiramente, não. Conheci Maria num momento de extrema debilidade emocional, tendo perdido um de meus queridos irmãos num acidente de carro. Ele estava sozinho, felizmente, porque havia convidado os filhos e nenhum aceitara sair junto.
Em meio ao velório, surgiu Maria a consolar os presentes, em nome de Deus, numa atividade que, depois fiquei sabendo, é própria dos “carismáticos” católicos, que se informam das crenças religiosas dos parentes enlutados e adentram o recinto com muito respeito, cooperando com o oficiante religioso encarregado da cerimônia fúnebre.
Marquei-lhe o rosto e a profunda convicção de que estava exercendo ministério de muita compaixão pela dor alheia. Foi, porém, na missa de sétimo dia que travamos a primeira conversação, tendo marcado um novo encontro para a missa do domingo seguinte, à qual compareci no único interesse de saber mais a respeito daquela pessoa exuberante em sua fé que, em outros tempos, eu diria irracional, mas que hoje apelido de “sem peias de preconceitos ou de dogmas”, porque fruto apenas do desejo de ver os irmãos confortados.
Fiz o teste — por que não? — e convidei-a a uma reunião pública num centro espírita por mim ainda desconhecido. Ela me acompanhou interessada em aprender como é que os espíritas realizam a sua solenidade comunitária mais importante, decepcionando-se, conforme me disse, tendo em vista a completa ausência de aparatos e símbolos. Achou o “sermão” muito ruim, sem ênfase nos tópicos mais significativos da pregação da moral, mas aplaudiu a modéstia com que a exposição foi dita e recebida pelo auditório disciplinado, muito mais do que na nave principal dos templos católicos.
Quando lhe pedi para examinar os pontos mais polêmicos da fala do irmão expositor, recusou-se, porque, segundo assinalou com veemência, iria tão-somente expender opiniões grosseiras, sem nenhuma base nos conhecimentos que armazenara durante toda uma vida dedicada aos irmãos e sobrinhos, somente agora, aos cinqüenta e poucos, voltada para as coisas da religião, na qual se engajara com fervor, participando de quanta novena, trezena, procissão e demais cerimônias litúrgicas não conflitassem com seu horário de professora primária aposentada, regente de classe ainda, porque viciada no magistério (talvez por ser solteira desde a infância).
Faz cinco meses que a conheci e três que nos casamos no civil, que Ana está ainda a me impedir de freqüentar os altares na qualidade de nubente. Em todo caso, em cerimônia particular, o padre veio, por solicitação de Maria, orar por nossa união, reconhecendo, já sem os paramentos, que se deveria dar oportunidade eclesiástica a quem estava sem recursos de alcançar a bula papal de separação de pessoas desde há muito sem vínculo de qualquer natureza. Comentou, baixando o tom da voz, que este novo casal não pleitearia filhos naturais, que a noiva passara da fase fértil.
Quero aproveitar esta oportunidade que vai tornando-se mais rara, embora esteja escrevendo na sala, enquanto a minha caríssima consorte se entretém em acompanhar a novela na televisão, ao mesmo tempo que dispara duas agulhas de tricô a confeccionar uma bela blusa de lã para mim, quero aproveitar, como dizia, para dizer que Maria era tudo quanto descrevi no “capítulo” anterior, com um simples acréscimo que aprovei plenamente: ela se utiliza de ajudante para dar conta de todos os serviços domésticos, só não tendo tirado as sujeiras arcaicas porque eu providenciei, em tempo hábil, que a casa fosse totalmente limpa, asseada e higienizada por profissionais especializados.
Por outro lado, coopero intensamente com todos os centros espíritas que me convidam para festas e outros eventos de arrecadação de fundos. Deixei as mesas mediúnicas para pessoal mais habilitado e sem tantos mistérios canônicos e doutrinários no bestunto. Falar ao público somente na condição de apresentador das solenidades e das festividades, eximindo-me dos discursos relativos às teses kardecistas. Devo avisar que, em todas as oportunidades, tive Maria ao meu lado, a qual me incentiva a retornar ao quadro dos diretores, para o que me ponho em guarda, que não desejo volver ao plano das responsabilidades e das exigências comunitárias.
Não passa uma semana que não saímos à procura de pessoas carentes, durante a noite, porque nos integramos num grupo que não exige dos participantes qualquer vínculo religioso específico, havendo protestantes, umbandistas, católicos, kardecistas, materialistas, curiosos e eventuais, homens e mulheres de todas as idades, todos reunidos em nome da Sociedade de Amigos do Bairro, cujo presidente se recusou a candidatar-se a vereador e não permite que ninguém compareça com intuitos políticos.
Aquela promessa de me enviar algo que se destinasse a mim feita pelos amigos do centro foi deveras cumprida, tendo recebido ao todo cinco mensagens mediúnicas, três de Augusto, uma de Rosália e outra de Márcia, esta última regozijando-se pelo fato de eu haver encontrado paz junto a uma companheira que não exige de mim senão atenção, fidelidade e algum carinho.
Para dizer com toda a sinceridade, fiquei um pouco perturbado (por falta de uma expressão mais conforme ao meu real sentimento), porque tudo se confirmava de vez em relação às informações que Rosália me havia transmitido. Melhor assim, que os vivos cuidam dos vivos e os espíritos, dos espíritos. O futuro a Deus pertence...
Vou deixar bem barato o texto acima, que me daria motivo para estender-me por várias laudas no início destas memórias.
Estamos de viagem marcada para o Nordeste, assim que se iniciarem as férias escolares. Consultada a respeito de viajarmos na baixa estação, Maria me asseverou que não faria questão nenhuma de deixar os alunos nas mãos de outra professora, desde que eu não me importasse em perder uns meses de seu salário suplementar. Vamos viajar na alta temporada.
Na falta de considerações filosóficas de peso, vou encerrar este dia sem muitas reflexões contundentes, além do fato de saber que muitos leitores espíritas devem estar surpresos com a guinada que dei na minha vida, como se não mais me importasse com a salvação de minha alma. Então eu me obrigo a referendar o dístico mais precioso do Espiritismo, dizendo que fora da caridade não há salvação. Se alguém quiser substituí-lo por este outro: fora do Espiritismo não há salvação, escreva-me, pois terei imenso prazer em indicar a bibliografia correspondente à refutação do próprio Kardec a esta indevida pressuposição.



27. UM PEQUERRUCHO NA LISTA DAS COISAS BOAS

Vou dizer desde logo que não pretendo escrever mais nada neste caderno, almejando que esta seja a minha derradeira página.
Encontramos, Maria e eu, com que nos entretermos nos próximos quinze ou vinte anos (Deus queira que seja mais!), na figura graciosa de um menininho que adotamos.
A inocência das crianças é o que há de mais sublime e de generoso que Deus soube criar no universo.
Maria deixou as aulas, bastando-lhe os proventos da aposentadoria. Eu aumentei um pouco o serviço particular que presto às editoras, mas reduzi drasticamente a contribuição que dava gratuitamente aos centros espíritas. Hoje em dia, compareço a uma ou outra reunião pública para efeito de engrossar o número dos que recepcionam os oradores de nomeada que se convidam ou os médiuns poderosos que passam pelas nossas plagas. Mas freqüentar as sessões mediúnicas ou as reuniões de estudo, isto deixei definitivamente para trás, embora tenha recomendado a muita gente que vou conhecendo, nos diferentes pontos de encontro forçado por esta ou aquela razão, até mesmo nas filas dos supermercados ou dos guichês dos bancos, que resolvam os seus problemas de caráter espiritual nas casas espíritas.
Também não me animei mais com a possível publicação de algo como este livro de memórias, resultante (aí vai o jargão epistolar mais bronco, mas que aqui cai como uma luva) de tão mal traçadas linhas. No começo de minhas anotações, conduzia a pena com o máximo cuidado, tentando dar a cada frase o sentido profundo da meditação que levara a cabo durante muitas noites de insônia ou de completa ausência de necessidade de dormir. Acordava tarde pela manhã e não me importava se deixava algo pendente, conquanto todos os meus prazos, durante toda a minha vida, se tenham cumprido rigorosamente, mesmo quando enlutado pela morte de Augusto, de Márcia e de Rosália.
Outro dia, visitei os escritos antigos e não me vi ali retratado absolutamente. Pareceu-me encontrar uma pessoa completamente estranha, destituída de vida material, como se tudo se resumisse em um encontro de sombras, ainda que os temas se revestissem de máxima importância doutrinária. O que escrevi está escrito, mas hoje não sei se assinaria embaixo. Também não vou incinerar nenhuma folha, deixando para a posteridade o encargo mais que certo de fazê-lo sem ler e sem consideração. Paciência! De qualquer modo, não considero que tenha perdido meu precioso tempo. Ao contrário, foram horas sacratíssimas de desvelo intelectual, numa base de reencontro emotivo com o passado, com poderosos reflexos no presente.
Considerando que me está dando comichões de desenvolver os aspectos teóricos destas considerações fundamentadas na minha objetividade de agora, posso assegurar que o que me trouxe nestes anos todos com a vela acesa da escrituração íntima foi o desejo de apagá-la para sempre, eliminando, com o passado que se desvaneceria, um futuro de problemas no campo etéreo, pelo medo de haver fracassado irremissivelmente perante os compromissos cármicos obrigatórios para todos os que reencarnam e se revestem da sabedoria inerente à doutrina de Kardec.
Osmar é um primor de obra orgânica e mental. Queria-o para filho de minha carne, como desejei tanto a Augusto, cujo nome escolhi dentre os que melhor pudessem expressar a minha vontade de criar um filho de força e poder em todos os aspectos da vida. Não foi possível pela injunção de circunstâncias de que exauri todas as causas que a minha curta capacidade teve a audácia de investigar, como se fora possível conhecer os desígnios de Deus.
Noto que, ao escrever, deixo que me envolvam as idéias de última hora. Começo a falar a respeito do pequerrucho que entrou no rol das coisas boas de nossas vidas e me deparo a examinar o passado, exatamente um minuto depois de haver assegurado que nunca mais o faria.
Para matar a curiosidade dos leitores fantasmas, porque pode ser que algum espírito perdido na erraticidade esteja acompanhando o meu escrito, sem se interessar deveras pelos acontecimentos da vida real, os quais pecam pela lerdeza de sua contextura factícia, mas propenso intelectual ou sentimentalmente para saber quais as soluções que a mente inventa para dar sentido a eles, devo afirmar que, nestes últimos seis meses, desde que redigi o tópico imediatamente anterior, não saímos de férias, nem sequer demos as sortidas noturnas para o auxílio aos irmãos da miséria.
Foi só escrever que o padre que nos havia trazido as suas bênçãos católicas extraordinárias falou aos nossos ouvidos sobre filhos que a natureza não nos daria mais, surgiu a oportunidade da adoção.
Neste século das descobertas e invenções genéticas, em que avós dão à luz netos e em que as mulheres alugam os úteros para filhos que não são seus, não nos havia passado pela imaginação (será?) criar filhos nossos ou de outrem. Mas um produto recém-saído do ventre materno, necessitado de pais de carne e osso, porque a miséria da infeliz progenitora a destinara à desencarnação no parto, sem que houvesse pai que buscasse o rebento fruto de sua insânia erótica, para dizer o menos, sem parentela conhecida nem teste de DNA que valesse perante a justiça dos homens para a responsabilidade social...
Não vou dar seqüência ao parágrafo anterior. Consigno neste que o acaso (algures discuti este tópico) nos designou para a paternidade de empréstimo, sentindo-nos profundamente honrados com tal deferência.
Para encerrar, preciso dar relevo ao fato de que todas as minhas páginas se encheram de duas tendências subjetivas de valor filosófico: o fato da vida e a ocorrência da morte. O mais são períodos intermediários sem cor, sem entusiasmo real pela existência, sem angústia verdadeira pela dor em que mergulhei muitas vezes. Ainda bem que este treino deverá surtir bons efeitos no período em que vagar pelo negrume do Umbral, idéia agora mais do que nunca integrada em minha maneira de ver o desleixo de minhas atitudes perante a vida.
Lendo cada linha, cada frase (o que estou cada vez menos alcançando realizar), observo um certo fundo de melancolia que se traduz em graça deletéria, como se todas as ocorrências de minha vida estivessem ali apenas para o meu exercício filosófico e doutrinário. Não será esta seriedade de hoje um bom motivo para não correr de novo nenhum risco de me engraçar pelas facécias de cunho literário, que julgava de nível superior, mas que simplesmente desandaram em argumentação inócua e pretensiosa, perante tantas páginas do mais profundo amor pelas criaturas e pelo Criador que lemos na obras espíritas?
Se der certo com Osmar, apesar de termos tão pouco tempo pela frente, acredito que nos aventuraremos a chamar para a família pelo menos mais um ou dois pequerruchos, com que ocupar sabiamente as nossas vidas.
Deus nos abençoe!



28. ...E DEUS DISPÕE

Quando comecei a escrever as minhas “memórias”, tive a intuição de que não iriam terminar bem, porque as lembranças de final de vida só podem conduzir ao derradeiro texto, o da despedida. Mas enfrentei esse desafio, cônscio de que tanta fé, tanta esperança e tanta caridade se intercalariam nos conceitos que implementaria, que a última página seria de extrema felicidade perante o desenlace honroso de uma vida coroada de muito sacrifício destinado ao bem, pela benemerência que dedicava aos semelhantes.
Graças a Deus, está sendo algo bastante próximo disso, apesar de me haver desviado do objetivo original, terminando por anular quase os desígnios de repensar certos pontos do espiritismo aplicado à vida prática de alguém que se dedicou com muito afinco ao movimento kardecista de caráter oficial.
Por que voltei?
Estou em tratamento químico, três anos após a “mensagem” anterior, agora que Osmar se tornou o principezinho da casa, tiranete de nossos corações mais de avós do que de pais, a suspirar pelas facécias inteligentes e pelas tiradas oportunas de cada instante de alegria, nesta avalanche de aprendizado que sói dignificar a infância das criaturas bem dotadas, principalmente porque profundamente amadas.
Cresceu-me um tumor no estômago, que extraí em cirurgia considerada indispensável, cujo exame se configurou o pior possível para a minha perspectiva de vida. A tristeza que sinto neste instante não é por mim mesmo, que sempre acreditei que algo assim ocorreria uma hora ou outra, porque ninguém, ao que me consta, tenha ficado para semente. A tristeza é por Maria e também por Osmar, porque, não tendo sido prognosticado um tempo de vida superior a seis meses, irá esquecer-se de seu pai de empréstimo, nem que lhe deixe meu álbum de fotografias ou alguns vídeos dos tempos em que me apresentava mais robusto.
Por isso, lembrei-me deste caderno e dos desenvolvimentos íntimos de minha consciência de pessoa, ou melhor, de ser humano, de alguém de carne e osso e com sangue nas veias, embora o mais que tenha registrado são vapores, névoas ou neblinas de pensamentos extremamente sutis quanto ao seu valor (dúbio valor) reflexivo ou as considerações nem sempre gentis a respeito das pessoas que comigo conviveram nestes meus sessenta e poucos anos de idade.
Por outro lado, se aspirar a que meu filho leia estas composições, deverei pedir a Maria que as resguarde dos cupins e outros insetos devoradores de papel e de idéias, deixando consignado em meu testamento (isto aqui só vale como força de expressão) que deverá custear uma edição particular de uns quinhentos exemplares, deixando alguns reservados numa caixa bancária, com a recomendação inequívoca de que somente o meu Osmar possa abri-la, após os vinte e um anos de idade.
Não sei se por fraqueza da doença ou do tratamento, ou porque tenho “guardado o leito”, o que me torna um ser absolutamente translúcido, ainda mais porque os meus alimentos não passam de umas gosmas e uns líquidos sem gosto e sem prazer, vou salpicando um pouco de tempero nestas linhas que se prenunciam amargas para o meu querido leitorzinho.
Mas eu quero vê-lo homem de espírito arguto, capaz de entender os mistérios da existência que consignei nestas páginas. E quando digo que quero vê-lo (em negrito, por favor), estou aspirando a uma estadia bastante razoável de paz e tranqüilidade no etéreo, até a idade a que me referi, o que não significa que, se puder, não me mantenha ao lado dele e de Maria, se esta aceitar-me como “protetor”, e não estabelecer que eu não passe de “obsessor”, que é como a maioria dos defuntos maridos deve parecer às viúvas mais fáceis de consolar.

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Eu não queria ter interrompido, mas obrigou-me um desfalecimento, com certeza originado no esforço que apliquei naquele arranque que representou um longo texto e que agora nem tenho mais capacidade de reler e muito menos de corrigir. Vou recomendar os serviços de um copydeskista letrado, para ajeitar o que não me for possível deixar bem redigido neste final.
Neste meio tempo, Maria leu o pequeno volume que resultará da impressão dos textos e me trouxe algumas considerações de muita perspicácia editorial.
Antes, porém, de referir quais pontos foram por ela tocados, devo mencionar que senti extraordinário prazer em que alguém além de mim haja vasculhado as minhas memórias. Tempo houve em que pensava que haveria uma verdadeira invasão de privacidade (um viva ao anglicismo vitando!), se os meus escritos caíssem em mãos quaisquer que não me respeitassem os sentimentos. Agora, estou até considerando muito bom que caiam sob as vistas de rigorosos críticos, que saibam realizar um juízo de valor ponderado, segundo todos os pontos de vistas, porque, uma vez levado para junto de meus ancestrais (valha-me ainda uma vez o eufemismo), terei com certeza discernimento para saber quanta verdade existirá nas observações e como poderei extrair delas ensinamentos úteis para o meu adiantamento espiritual.
Não fosse pela debilidade corpórea, não estaria volvendo a este plano de realizações puramente mentais. Então, devo agradecer ao Senhor estar ainda dominando o meu cérebro, o que pretendo aproveitar enquanto houver luz nos meus olhos suficiente para redigir sobre alguns tópicos que julgar relevantes.

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A primeira sugestão de Maria foi quanto a deixar tudo como está, muito embora haja sublinhado muitas passagens para as quais se declarou incapacitada de julgamento e de compreensão. Atribuiu-se a falha e me isentou de culpa. Boa mulher!
Também desejou manifestar a opinião de que os gastos com uma edição particular iriam incidir na retirada de parte da poupança destinada à educação de Osmar, já que (com os olhos marejados foi que prosseguiu) a pensão que receberia não corresponderia ao que venho ganhando atualmente. Para não me desrespeitar a vontade, afiançou-me que tomaria duas providências sérias e conducentes a manter a minha vontade intocada. Iria mandar digitar tudo, imprimindo alguns volumes e encadernando-os, ao mesmo tempo que resguardaria o arquivo em cópias através de disquetes e, se possível, em CD. Por outro lado, contataria os editores que eu relacionasse e outros que lhe fossem indicados mais tarde, até exaurir as possibilidades de editoração, distribuição e venda a granel ou a varejo de uma impressão ainda que não muito grande (falou em três mil exemplares).

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Não me vejo em condições de abrir novos “capítulos”.; por isso devo preparar uma página que será a última, em que pretendo expressar ao Senhor o meu agradecimento pela existência, levando um preito de gratidão a Jesus, um abraço afetuoso a Kardec, e um aperto de mão a todos os meus amigos desta e da outra esfera.





ADENDA




I. — MEU MARIDO NA REALIDADE

Poucos homens se poderiam apontar como mais extrovertidos e dados à caridade e ao amor do próximo.
Murilo se fez apaixonado por mim desde a primeira hora em que conversamos de modo íntimo a respeito dos problemas da existência.
Ouso acrescentar outros traços à pintura tão minuciosa de sua personalidade, porque não desejo que meu filho Osmar nem qualquer outra pessoa pense que, por se apresentar tão reflexivo nestas páginas, não tivesse o dom de analisar a realidade e de se situar nela de molde a pôr todas as pessoas de seu relacionamento à vontade.
Era um homem boníssimo, paciente, leal e altruísta.; alguém em que se podia confiar plenamente.
Para poder afirmar quão querido era, percorri todos os ambientes que freqüentou e apanhei as opiniões de pessoas de todas as categorias sociais. Houve unanimidade, principalmente para ressaltar sua capacidade de deixar as pessoas abrirem os corações, onde inoculava o bálsamo mais puro do evangelho do Cristo.
Neste aspecto, é preciso dar ênfase à alegria contagiante de seu perene sorriso, mesmo durante a fase terminal da doença.
Depois que redigiu a última página, sentiu forte repelão no peito e teve fulminante síncope cardíaca. Sofreu muito, tendo sido obrigado a conviver com a dor por meio de fortes analgésicos. Mas jamais se queixou, limitando-se a apertar a minha mão nos momentos mais agudos das crises.
Esta minha participação visa a esclarecer algumas idéias que ficaram como sinais de que, nos últimos tempos, ele se havia afastado do movimento espírita, o que digo de pronto que é apenas uma impressão que a leitura promove, pois repete várias vezes que abandonara esta ou aquela atividade.
A exigência destas explicações é minha, porque estou com a certeza de que haverá leitores para este trabalho íntimo de reconstrução moral e intelectual de uma vida dedicada ao kardecismo. Acho que valerá a pena conhecer como é que repercutem num espírito de escol as idéias sedimentadas durante muitas décadas de estudo e de pregação.
Deus me ajude!



II. — AS SURPRESAS DO COMPUTADOR

Dez dias após o falecimento, uma das editoras que haviam encomendado trabalhos de digitação enviou-me ofício, solicitando permissão para que seu funcionário viesse vasculhar os arquivos do computador para copiar o que haveria de pronto que pudesse ser aproveitado.
Aceitei que se fizesse a busca e o rapaz foi tão gentil que se prontificou a me mostrar tudo o que estava arquivado na memória da máquina.
Bem que eu desejava encontrar o caderno ali transcrito, mas nem uma só mensagem se reproduzia. Entretanto, com meticulosidade de monge beneditino, estavam ali cerca de quinhentos arquivos resultantes do trabalho de mais de vinte anos de profissão.
Trezentas obras eram de originais que se reproduziram em edições, quase sempre o produto de rigoroso garimpo de falhas de todo tipo, inclusive com anotações preliminares aos editores e aos autores sobre as alterações que ele recomendava.
Em destaque, as cinco obras publicadas por Rosália, eivadas de observações pessoais de Murilo, cuja comparação com os textos publicados revelou que foram aproveitadas quase completamente.
Sobre essa parte profissional, nada tenho que possa trazer algum adendo importante à compreensão de sua personalidade, a não ser que nos causou profunda admiração pela brilhante estrutura.
O que mais nos chamou a atenção foi outra sessão, a que se destinou ao exame de obras espíritas em seus originais encaminhados por diversas editoras e também diretamente por autores, alguns destes fazendo sucesso no mundo das publicações.
Ficou-nos a impressão de que as obras que vieram manuscritas mereceram digitação “inteligente”, porque se apresentaram em uma única via. Outros textos se duplicavam em boxes justapostos, de sorte que se viam as correções pelo cotejo dos parágrafos. Além disso, inúmeros comentários pontilhavam os desenvolvimentos, os quais, somando-se ao final, resultavam em crítica nem sempre favorável à editoração.
Pelas datas apostas ao início e ao final de cada obra, soubemos que esta fase de sua atuação espírita se iniciou alguns meses depois do matrimônio com Rosália e jamais se interrompeu, a última data assinalando para um período posterior à sua volta do hospital, depois da operação.
Quero, portanto, que os leitores cheguem à conclusão de que a suspensão de suas idas às casas espíritas não significou em absoluto afastamento da doutrina, muito menos alheamento da teoria e da prática. Ao contrário, estabeleceu um roteiro de muito maior significado para a sua realização no campo dos preceitos doutrinários.
Neste ponto, parodiando a sua maneira de escrever, posso levantar a suspeita de que, por respeito a mim e às minhas convicções religiosas, é que se manteve afastado fisicamente das tarefas e dos tarefeiros da seara espírita.



III. — MINHA CONVERSÃO

Na verdade, a minha tendência religiosa, como bem descreveu Murilo, é para as cerimônias e solenidades cheias de aparato e de magnificência. Ainda agora, quando freqüento as sessões privadas no Centro “Louvor ao Pai”, sinto que os espíritos que ali comparecem trazem a saudade dos tempos em que as grandes festas lhes exaltavam os sentidos, inebriando-os de felicidade, ainda que material. Se a existência determina que todos nós sejamos solidários, nada mais justo que nos reunamos nos momentos de maior ventura para congraçamento.
Aqui na Terra, os festejos exigem que haja um brinde, para o paladar, para o olfato, para os olhos e assim por diante. No etéreo, se houver correspondência entre as possibilidades corpóreas dos perispíritos, então não se pode deixar de entender que as luzes, as cores, os brilhos, os cânticos dos corais e as orquestrações, no mínimo, venham para provocar um deslumbramento feérico de imenso poder de envolvimento dos bons, dada a compreensão de que Deus é pai de misericórdia e agasalha em seu manto de amor a todas as criaturas, facultando às que agem de acordo com as leis cósmicas a abertura de seu reino de paz e bem-aventurança.
Para essa suprema alegria, devem concorrer todos os meios de expressão dos sentimentos amorosos universalistas, o que nos obriga a admitir que, para a comunidade dos bons, algo exista semelhante ou análogo aos cultos em que os seres humanos buscam demonstrar todo o seu carinho e respeito ao Criador.
Colocada a restrição que faço à simplicidade das casas espíritas, aceito todas as reuniões festivas, as peças teatrais, os cantos e também os momentos de recolhimento espiritual, quando a congregação ouve em silêncio a prece em louvor a Deus, quase sempre a se encerrar pela maravilhosa oração de Jesus.
O que me levou a considerar a hipótese kardecista como aceitável foi uma frase solta de Murilo, que calou fundo em minha consciência. Disse ele, citando e parafraseando os evangelhos, que Jesus, ao ser recriminado por adentrar certos lares de pessoas desqualificadas socialmente, respondeu que ao médico cabe curar os doentes onde estiverem. Por isso, acrescentava meu marido, jamais se recusara a ir a qualquer manifestação de culto religioso em qualquer seita ou igreja, porque se sentia bem em absorver as vibrações saudáveis e em facilitar a alguma entidade perturbada que o acompanhasse ao centro espírita para receber o auxílio dos irmãos encarnados ou não.
Tivera ele a intenção de me conduzir ao modesto templo kardecista? Pelo que escreveu, não. Então, confirmou-se a minha expectativa de que, se demônios existissem, não eram eles que dominavam a alma de meu consorte. Disse-lhe o que pensava e ele estendeu um pouco mais o raciocínio, afirmando-me que os demônios, pela própria concepção dos católicos e mesmo dos protestantes em geral, não passavam de anjos degenerados e infelizes, precisando de esclarecimento para voltarem ao estágio primitivo em que foram criados, porque (eis o fulcro da questão) Deus não poderia criar o que quer que fosse contrário à sua própria natureza.
Quis argumentar com o livre-arbítrio, mas calei-me, pretendendo deixar para mais tarde as considerações de caráter doutrinário, porque não me sentia segura perante alguém que passara mais de quarenta anos refletindo a respeito dessas teses sublimes oriundas dos ensinamentos dos antigos e filtradas pelo cientificismo de Allan Kardec. Mas Murilo, como se tivesse lido o meu pensamento, completou a explicação, dizendo que o livre-arbítrio era um artifício da criação para atribuir responsabilidade às criaturas e que, no reino de Deus, não haverá nenhuma possibilidade de emprego dessa lei natural, já que a vontade dos bem-aventurados haverá de confundir-se com a vontade de Deus, ou não haverá felicidade nem perfeição, o que implica, finalizou, em que não há nenhuma dicotomia mas uniformidade.
Posso assegurar que, na hora, apenas consegui gravar as palavras, sem perceber direito o sentido. Mas as leituras subseqüentes me fizeram entender todos os conceitos.
Quer dizer que abandonei a igreja católica? Absolutamente. Vou à missa e continuo trabalhando em prol dos infelizes em todos os eventos programados pelos carismáticos. Apenas, dei à minha fé um caráter ecumênico, relevando os defeitos de todos os cultos, buscando absorver o que de melhor existe em cada um.



IV. — AS LÁGRIMAS DE ANA

Eu não podia dar a lume este apanhado de recordações íntimas, sem a anuência, pelo menos, das pessoas vivas citadas. Pensei muito a respeito das biografias não autorizadas e das autobiografias que prejudicam outras pessoas e cheguei à conclusão de que muito pouco têm de verdadeiramente cristão, açulando a mórbida curiosidade da opinião pública contra a memória das personagens.
Pela tese espírita, o prejuízo transcende a camada social, afeta a psique dos indivíduos e lhes atinge o âmago espiritual, podendo significar um peso desnecessário, pelas ondas de baixas vibrações que se descarregam contra as pessoas visadas. Talvez haja um pouco de exagero nestas considerações, uma vez que cada qual deve suportar a carga das faltas que cometeu e não o ônus dos prejuízos provocados pela irresponsabilidade dos mesquinhos. Em todo o caso, para que incitar a malevolência e a má vontade?
Procurei Ana, ou melhor, para falar toda a verdade, foi ela quem veio a minha casa, interessada em conhecer o caderno sobre que lhe falara na missa de sétimo dia.
Ela não quis esperar o texto datilografado (naquele momento, estava providenciando essa fase da publicação), e me pediu para deixá-la sossegada diante das citações de seu nome.
Saí por uma hora e, quando voltei, encontrei-a a enxugar seu pranto, comovida por algo que não me passava pela cabeça que pudesse estar ali registrado.
Se eu fosse boa em diálogos, escreveria a conversa tal qual se deu. Deixo apenas o resumo que foi aprovado por minha companheira de Espiritismo, porque hoje Ana freqüenta também um centro perto de sua casa. Com ela, vão o marido e o enteado. Contente está Letícia, que acredita que tenha contribuído bastante para isso. Aliás, li para esta as passagens em que foi citada por Murilo e ela me autorizou, impada de justo orgulho, que o texto se mantivesse.
Pois bem, Ana me autorizou a dizer que as suas lágrimas se deram porque Murilo a poupou de uma série de acusações que poderia ter realizado, uma vez que a causa primeira de Augusto se ter deixado contagiar pelo vício das drogas se deveu a tê-las consumido desde o ventre materno. Também quanto ao fato de ter tido inúmeros amantes, não se opôs ao relato, afiançando que foi uma fase de sua vida completamente superada. Argumentei que isso poderia prejudicá-la, mas deu-me uma razão no mínimo ponderada. Disse que deveria deixar tudo como se registrou, acrescentando que as pessoas podem suplantar os vícios e corrigir os defeitos de todos os tipos, pela ação dos ingredientes divinos que estão no fundo de todos os seres. Era, como afirmou, uma sensação muito gostosa saber que estava contribuindo para estimular a fé e a esperança, caso algum leitor chegasse até este adendo trazendo ainda idéias cépticas ou pessimistas a respeito da existência como obra do Senhor.

Permitam-me uma consideração pessoal.
Eu acho que, se Ana não tivesse abandonado o lar de Murilo e se tivesse tomado outra deliberação relativamente ao seu destino, eu não estaria redigindo hoje este tópico. Eis como é que as coisas se entrelaçam, segundo as características cármicas de cada encarnado. Murilo, com certeza, iria bem mais fundo nestas observações.



V. — MURILO SE MANIFESTA

Três meses após o decesso, Murilo, espontaneamente, se apresentou junto à mesa mediúnica e ofereceu a seguinte comunicação:

Meus estimados irmãos, fraternidade querida do “Louvor ao Pai”, Jesus esteja com todos os meus amigos, nesta hora bendita em que os guias da casa se ativam, para que os trabalhos atinjam os objetivos a que todos se determinam, quer pela orientação dos espíritos infelizes, quer pelo acréscimo de convicção de todos os que ainda não se convenceram no íntimo de que servem a uma comunidade espiritual de socorristas.
Leitor assíduo das obras de Allan Kardec, o nosso Codificador emérito, sei quais são as questões que se gostariam de propor a quem tão cedo se apresenta após a morte para lhes falar das coisas dos vivos. Sendo assim, proponho-me a efetuar rápida descrição da passagem de uma à outra vida, situando-me no etéreo, para dar-lhes o estímulo necessário para seus empreendimentos virtuosos.
Meu desprendimento foi rápido. Não bastasse estar com o relato de minha vida fresco na memória por vir escrevendo parte dos seus acontecimentos, ainda meu cérebro se viu num esfuziante momento de recordação de todos os fatos importantes, muitos dos quais completamente esquecidos, por não me interessar por eles ou por rejeitá-los inconscientemente. Em todo o caso, fiquei contente com o resultado, porque percebi que os feitos de boa qualidade são ressaltados, quando a gente, na verdade, tende a deixá-los abafados pelas lembranças que mais nos preocupam. O saldo, se quiserem saber, foi positivo, especialmente porque as minhas horas dedicadas ao movimento espírita, em função da divulgação da doutrina e do atendimento das pessoas com problemas de todas as espécies, foram tidas como de benemerência e como tal levadas em conta para arrefecer certas ondas de baixa vibração que eu suspeitava que poderiam prejudicar a reaquisição da lucidez.
Hoje, sem sequer imaginar o que seja a perfeição, posso considerar-me feliz, porque extasio-me com as paisagens etéreas, reconhecido ao Pai pela sacratíssima misericórdia que me fez saber que a última encarnação é que me orientou neste sentido a vista, revelando-me, como num painel sem relevo, as dificuldades anteriores de minha personalidade. Sei que nem todos os pontos estão elucidados, mas a proposta de investigação feita pelos meus mestres nesta Escolinha de Evangelização, que estou freqüentando, inclui o auxílio de poderosa equipe de socorristas, entidades experientes totalmente aparelhadas para auxiliar-me em caso de desfalecimento.
Pedem-me para ir direto ao ponto, porque o meu médium está ficando cansado e não pretendo deixar para outra oportunidade o que vim dizer.
Peço a Maria que não se aborreça se o meu livrinho de reflexões sobre alguns apontamentos de minha vida nada signifique perante a extensa biblioteca das obras espíritas. Acho, porém, que toda contribuição deve merecer um olhar condescendente, principalmente quando houve honestidade e enorme desejo de compreensão dos fatos à luz do Espiritismo. Mas, se o conjunto da obra não despertar o interesse dos editores, ao menos que sirva para que alguns amigos se entretenham em observar as suas próprias tendências psíquicas, colocando-se no lugar do autor.
Quanto a Osmar, já não mantenho o ponto de vista expresso numa das páginas, porque sei que a vida é dele e será ele o inteiro responsável por seu progresso espiritual. Talvez até estivesse eu iludido quanto ao valor de minhas observações, como se a educação de meu filho pudesse dever algo a uns escritos que se tornarão antigos quando ele tiver maturidade suficiente para estabelecer crítica serena e construtiva a respeito das ponderações que amealhei.
Sei que Ana e Letícia aprovaram o que sobre elas escrevi. Peço-lhes perdão se algo ficou não totalmente favorável ao reconhecimento de seus méritos. Quanto às pessoas do lado de cá da existência, obtive alvará de todas elas: Augusto, Márcia, Rosália, Dona Paula e Seu João Antônio (meu pai).
Como a publicação está em suas mãos, querida amiga Maria, se quiser, esteja à vontade para cortar o que não tiver calhado bem na descrição de sua personalidade amorável.
Um beijo a Osmar. Devo dizer que, quando estiver crescido, poderá entender que a minha pessoa estará com a responsabilidade de acompanhá-lo na qualidade de protetor. Nada disso. Ele está muitíssimo bem resguardado, por seres de sua ancestralidade, que muito o amam e torcem para que sua peregrinação terrena seja proveitosa.
Que Jesus seja benigno com todos nós, enviando-nos eflúvios de seu amor, em vibrações de muita paz e felicidade.
Graças a Deus!

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Essa longa mensagem, diferenciada dentre as que apanha costumeiramente o médium de que se serviu Murilo, causou um rebuliço na casa espírita. Não apenas o médium mas ninguém mais sabia de nenhum dos tópicos assinalados referentes ao livro de memórias. A curiosidade foi muito aguçada, muitos desejosos de saber se seu nome tinha sido citado e quais as impressões do amigo de tantas aventuras doutrinárias a respeito de tudo quanto ali se produzia em favor da caridade.
Prometi-lhes fazer algumas cópias caseiras, na impressora do computador, com duas condições primordiais: a de que me ressarcissem das despesas (contas que prestei rigorosamente para saberem que o preço que lhes cobrei é o de custo) e a de que se obrigariam a uma página de apreciações a respeito do texto, com o propósito de fundamentar a minha convicção sobre uma edição em livro.
Estes acontecimentos se deram há cinco meses e tudo se cumpriu de acordo, conquanto eu tenha recebido apenas duas críticas favoráveis à divulgação integral do texto. As demais foram evasivas ou meramente protocolares, sem observações que se pudessem considerar consistentes em relação às colocações de nítido caráter filosófico do autor.
Em todo o caso, aguardo as respostas de vários editores a quem enviei cópias encadernadas e cuidadosamente digitadas pelo amigo que me revelou os segredos dos arquivos do micro.
Caso venha a receber apoio para uma edição, acrescentarei estas minhas observações, porque o texto que enviei foi até o pontilhado acima.



VI. — AS EDITORAS RESPONDEM

Logo obtive algumas análises muitíssimo gentis de várias editoras, especialmente daquelas para quem Murilo trabalhou de graça por anos a fio.
Em resumo, para não me estender em algo que me parece deficitário no ambiente espírita e que não me valeria ponto algum nesta minha aspiração de publicar a modesta contribuição pessoal de meu marido, o que me disseram é que o texto não possui muitos atrativos para os leitores acostumados à aquisição das obras espíritas.
Em primeiro lugar, disseram-me, o autor não tem nome conhecido, o que os faria arriscar uma campanha de marketing, sem nenhuma perspectiva de que a propaganda consiga promover o texto (ainda mais que o escritor só pode aparecer através de terceiros), dado que os problemas doutrinários, por demasiado profundos, refogem à média cultural do público, não correspondendo, por outro lado, aos anseios dos críticos, que não se aventurariam a aconselhar a aquisição de uma obra meio reclusa em problemas de interesse meramente individual. Sem cerimônia, dois deles sugeriram que os capítulos teóricos fossem supressos, como se todas as reflexões não tivessem o cunho da aplicação dos preceitos kardecistas à vida positiva e real das pessoas.
Em segundo lugar, fizeram-me ver que os tópicos concernentes às memórias propriamente ditas, aqueles episódios em que existe narrativa ou ação, se encontram não apenas pouco desenvolvidos, como sem relevo para a dramaticidade, em função das repercussões psíquicas sobre o autobiografado, perdendo-se o enredo no que teria de mais lúdico, de mais próximo, portanto, do dia-a-dia dos leitores, cujas vidas estão eivadas de problemas que os fariam identificar-se com as personagens. Para estes eu teria a argumentar que o ponto a distinguir é a poderosa influência da teoria espírita, principalmente como filosofia e religião, a exaltar os preceitos cristãos mais importantes, no caso, o perdão como o carro-chefe, a arrastar o amor, a amizade, a esperança, a fé e a caridade.
Para não dar a impressão de que estou a defender uma escrituração com graves defeitos, tendo em vista que foi escrita ao correr da pena, sem revisões oportunas, porque não terei eu mesma condições de empreender quaisquer correções, vou dizer que a idéia menos ferina das editoras foi a de uma que se propôs a uma tiragem pequena, cujos custos eu ou uma entidade espírita cobríssemos. Essa editora providenciaria, pelos preços de mercado, a distribuição da obra, sem prometer-me, contudo, que a venda iria realizar-se, colocando-se, na mesma linha das anteriores, inteiramente descrente no sucesso de público.
Fiquei a imaginar quanto autor se viu incentivado por Murilo, o qual jamais, em exame nenhum de qualquer obra, deixou de demonstrar os pontos positivos, discriminando o melhor possível o que os autores deveriam explorar para darem condições de divulgação aos seus trabalhos. Encontrei diversos livros que voltaram modificados e que receberam o nihil obstat do amável censor.
Acho que me precipitei um pouco nesta apreciação, com certeza movida pela decepção e íntima fúria por não ver reconhecido um texto que me provocou tantos arrepios e me incentivou para a pesquisa de inúmeros tópicos doutrinários, encaminhando-me para leituras de obras consagradas, cujos desenvolvimentos, muitas vezes, estão até aquém da lucidez do pensamento de Murilo. Enfim, restam ainda duas editoras mas, pela amostragem das demais, não me dão aquele sentido otimista que deveria manter acesa a minha esperança. Então, fico a reconhecer que Murilo tem toda razão quando afirma que “se o conjunto da obra não despertar o interesse dos editores, ao menos que sirva para que alguns amigos se entretenham em observar as suas próprias tendências psíquicas, colocando-se no lugar do autor.” Como isto já está concluído, que o grande público aguarde por um autor que preencha os requisitos que sustentam a linha editorial das empresas.

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Como havia previsto, a obra foi recusada pelas duas últimas editoras. Paciência! O mais interessante é que me passaram a idéia de que nem ler leram, porque havia folhas coladas que assim se mantiveram, tendo a resposta sido dada em impresso de computador, claramente adaptado para a devolução da obra em apreço. Melhor assim, porque não correram o risco das mentiras protocolares de quem não deseja comprometer a sua opinião. Afinal de contas, é justo admitir-se que a programação das novas obras esteja antecipada de dois anos...

Antes de concluir definitivamente, vou deixar assinalado que, enquanto esta peça, que considero literária, não for para o prelo, irei juntando uma a uma todas as mensagens que Murilo houver por bem transmitir.
Nada melhor do que terminar com uma palavra dirigida ao Senhor. Então transcrevo:
“Que Jesus seja benigno com todos nós, enviando-nos eflúvios de seu amor, em vibrações de muita paz e felicidade.
“Graças a Deus!”



POSFÁCIO

Coube-me a sagrada tarefa de encerrar o texto que meus pais redigiram.
Há dezessete anos este opúsculo repousava recolhido nos arquivos e backups aqui de casa, tendo desaparecido todas as cópias que mamãe sempre mencionava que iria me deixar ler quando eu tivesse maturidade.
Li uma boa parte do que meu pai escreveu e fiquei emocionado quando vi que ele pensou muito em mim, como se eu pudesse um dia aproveitar-me de seu trabalho e de sua laboriosa conscientização espírita.
Vou providenciar uma publicação particular em homenagem a eles e para configurar um respeito imenso pelas pessoas dos dois.
Pretendo recuperar todo o dinheiro aplicado mas de um modo criativo, ou seja, vou enviar pelo correio uma cópia para cada centro espírita do país, dedicando o livro à biblioteca, sem condição de pagamento, mas com o débito da leitura.
Caso a pessoa gostar do que leu, deverá, se puder, enviar o valor correspondente ao preço de capa para o endereço do Centro Espírita “Mensageiros da Espiritualidade Superior”, sabendo que o que exceder aos gastos será aplicado em obras de benemerência pelo Departamento Social.
Lamento apenas que a saudosa Dona Maria não tenha cumprido a promessa de acrescentar as mensagens mediúnicas do Sr. Murilo, com certeza porque não disseram respeito a este livro de memórias.
Sei que deveria colocar como prefácio o que estou registrando no fim, mas é porque não pretendo pôr em destaque as dificuldades inerentes a uma obra que recebeu tantos desestímulos, embora mamãe sempre me fizesse ver que havia encontrado pessoas que se deliciaram emocional e intelectualmente com a agilidade mental de papai e com a capacidade que desenvolveu de entender os traumas existenciais.
Desejo encerrar agradecendo ao meu professor de Português a gentileza de sua contribuição para esta minha modesta página, bem como ao incentivo que tenho recebido de meus primos e de todos os colegas do Centro Espírita “Louvor ao Pai”, que é onde estou desenvolvendo a minha capacidade de dirigente, responsável que sou pelos jovens que ali se congregam.
Deus nos abençoe esta iniciativa e alongue um olhar de profundo amor a todos os nossos leitores.
Muito obrigado!
Osmar.


Indaiatuba, de 25.05 a 10.07.98.
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