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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->LIVRO: "DEUS, A FERIDA E A PERIFERIA" -- 06/10/2015 - 02:24 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos






DEUS, A FERIDA E A PERIFERIA

ou

“Na casa do senhor há muitas moradas, pombos e varais”

Autor: Paulo Fontenelle de Araujo









“Mas esse cheiro sobre o altar-mor, será Deus ou a ferrugem noturna das catedrais.”
PFA










Este livro não é uma obra de autoajuda.

A fé religiosa é outra coisa.

Ele também não questiona tendências sexuais.

Mas a ferida a suturar talvez seja muito grande.

E todas as periferias são iguais.






A história de Ezequiel Pereira, que em três meses perdeu a noiva, a religião e o emprego.

Então chegaram os enviados.

A inspiração para a pesquisa surgiu do incidente ocorrido no ônibus Centro/Cidade Ademar. Eu queria dormir e dava um jeito de segurar a minha cabeça, quando os quatro adolescentes de braços compridos e pistolas pequenas, anunciaram o assalto. Roubaram em todos os assentos. Levaram a grana de gente pobre, relógios, documentos e por pouco não extraíram a orelha esquerda de uma loira por causa dos seus brincos.
Quem se importa com assalto às duas da madrugada de uma segunda-feira? Nem me sacaram dinheiro, pois eu vinha secando a carteira desde sexta-feira e assinara as últimas folhas do talão de cheques para pagar o frango a passarinho que comi e o vinho barato que bebi.
“Sangue de boi” não é nome de vinho. Mais adequado estaria o nome em placa de açougue, cardápio de churrascaria, galpão de abatedouro de boi, porco e macaco.
Eu trazia comigo somente a grana da condução e a aliança do meu noivado com Marina. Entreguei tudo assim que o alinhamento do assalto alcançou-me.
Fiquei no lucro. O roubo aliviou-me do encargo de finalizar aquele anel, livrar-me do símbolo de um amor rompido. O meu dedo anelar direito já se atrofiava pelo uso indevido da peça. Era ouro. Fez parte de mim. Podem levar!
Os meliantes saíram desejando:

- A paz do Senhor aos irmãos da Cidade Ademar!

Estranhos arrebatamentos saem dos corações dos homens. A paz de Deus não poderia chegar a um lugar tão longe quanto o bairro da Cidade Ademar.

Mais tarde, após vomitar o vinho e meditar sobre a inconsequência do assalto, compreendi que a benção dos adolescentes mostrara um fenômeno ainda não identificado: se eles, moradores da periferia, acreditavam em Deus daquela forma fervorosa, sem que aparentemente lhes viessem às consciências o roubo e a ameaça perpetrada aos passageiros; então o tipo de fé religiosa nos confins da cidade deveria ser algo diferente. Talvez aquele Deus rotineiro, representado por seu filho com a coroa de espinhos, tenha trocado sua área de atuação para os confins de São Paulo. Distante do olhar do governo, das igrejas, dos cardeais e pastores evangélicos; o Todo- Poderoso seria, em nossa periferia, uma entidade alheia ao que se conhece dos seus ensinamentos. Uma onipotência pura e amoral.
O fim do assalto sinalizara a sua existência.
Escrevi esta teoria e cheguei a desenvolvê-la. Deus era uma força aterradora que, desprezando os dogmas de uma religião tradicional, confluiu com a energia das beiradas dessa metrópole para se tornar efetiva pelo menos ali. A paisagem bombardeada dos extremos de nossa cidade, revelaria para mim que Deus era agora uma potência diferente. Manifestou-se no longínquo, nas divisas. Escorreu sobre os telhados e os barrancos.
O subúrbio de São Paulo seria o novo altar do pai celestial.
E às seis e quarenta da manhã, decidi desbravar as lonjuras, trafegar nos ônibus da CMTC, apreciar as caçapas, entrar nos labirintos, nas vielas e conversar com aquele freguês solitário dentro de um bar. O mundo precisava instruir-se sobre a nova condição e o esconderijo da entidade que é o princípio de tudo. E precisava identificar quem são os seus atuais seguidores.
Examinei o meu extrato bancário. Mantive um bom valor no positivo. Sobrara grana da rescisão e do Fundo de Garantia e supermercado não era problema. Eu e papai fritávamos ovos.

Percebi que tinha condições financeiras para a peregrinação àquela terra santa.




LONGOS DELÍRIOS.

Um profeta em formação.

Após a decisão dormi até o final da tarde. Dormi como um porco, mas isso não comprometeu o sublime que me aguardava. Acordei quando papai gritou gol. A tevê transmitia um jogo do campeonato nacional.
Os gritos roucos do velho esburacaram as paredes da sala. Ele quer pintá-las. Quer também consertar a calha, trocar o espelho do banheiro, instalar um varal no teto... Papai quer muitas coisas.
Completei vinte e três anos no mês passado. Nasci dia 20 de maio de 1962 e nunca me emprenhei em algo magnífico. Aos oito anos acreditei que seria aviador. Passei a infância na expectativa da profissão e muitas horas de voo somaram-se em minha cabeça. Não deu. E até acreditei que estava destinado ao estático, ao chão de um escritório e tão cravado finquei-me que, nos últimos quatro anos, entreguei minha alma ao Banco BBDC – agência Aeroporto.
O BBDC passou. Fincou-se em uma dimensão execrável do meu cérebro. Passou, mas tenho agora a obrigação de considerar a verdade dos lugares onde estive, como forma de evidenciar o contraste com o mundo que esta exploração à periferia me levará.
Naquela época, além das hostes bancárias, liguei-me também de forma subalterna à Igreja Evangélica “Deus é sabor”.”.
Marina fez parte desse mundo. Ela era evangélica e da mesma igreja. Cursara Enfermagem naquela faculdade. Não me recordo o nome. Trabalhava na UTI pediátrica do Instituto Dante Pazanesse. Decorou o nome de muito remédio.
Marina parecia tão crente. Hoje compreendo que ela se caracterizava exatamente pelo desvio do discurso evangélico. Certas atitudes suas significavam um deslocamento da moral imposta por todas as igrejas. No entanto, ela aceitou o gosto da igreja do Senhor a ser degustado.
A enfermeira Marina, quando lhe informavam: “Tal criança do quarto 200 não sobreviverá!” Ela saía de perto do paciente. Nem olhava, nem falava, nem acariciava o rosto da vítima. Executava somente os procedimentos mínimos referentes a sua área profissional. Ela dizia que não queria se apegar e sofrer pela morte da pequena criatura. Eu implicava. “Você tem que se apegar, tem que se apegar, porque o que sobra a estas crianças são essas derradeiras manifestações de carinho. Tua indiferença vai contra as leis do Altíssimo Poderoso. Jesus, seu único filho, beijou as feridas dos leprosos”. E ela respondia: “Feridas devem ter um gosto horrível”.
Eu tinha ao lado de Marina, um sonho de prosperidade material e espiritual que seria o resultado de uma vida plena em Cristo.
E eu delirava para confirmar expectativas. Cada cristão que potencializar a sua fé - que se aprofundar nessa aventura transcendental de crer sem provas - se tornará um ser superior, superlativo, super-cristão e receberá, pelas leis da contrapartida divina, uma fortuna digna do seu esforço.
O fato é que hoje eu soube o quanto esta mentalidade abjeta, que saía dos meus poros, afastaria de mim até criancinhas condenadas à morte.



O sangue de um cristão

Marina obrigou-me a pensar materialmente. Ela foi o ponto fraco do super-herói cristão. A pedra radioativa que por um breve período esteve em minhas mãos.
Ela tinha olhos tão verdes. Queria conhecer a Disneylândia.
O namoro completou vinte e quatro meses e ainda me lembro da festa da igreja, quando a vi pela primeira vez. Naquele dia imaginei o quanto Marina seria a totalização da mulher perfeita e desejei que o meu amor viesse intenso, arrebatador, extravagante.
Ah, seu perfume adocicado fixou-se em minhas roupas. Quero dominar aquela fragrância. Tirá-la da minha mente. O cheiro do amor é um ente rebelde. Livre de controle, ele anda pelas narinas. O perfume de Marina tem braços e pernas.
Lembro-me do seu tênis lilás e do formato de suas pernas dobradas na poltrona da casa dos pais. Está fincado em meu cérebro a sua mania de deixar no copo a medida exata de dois centímetro do suco que acabara de tomar.
Afligiu-me o primeiro encontro. Marina quis suco de laranja. Pedi. Ela bebeu lentamente e parou naqueles dois centímetros. Esperei quarenta minutos para o arremate da bebida. Desisti e solicitei a conta. Depois soube que o ato fora somente etiqueta. A mãe a ensinara que em certos ambientes e ocasiões, não se pode sorver o suco até o talo, chupar ar pelo canudinho. Nos relacionamentos também é educado não abandonar o homem ao bagaço. Sugar-lhe o sangue. Por isso bebi aquele vinho ordinário. Eu sou o boi.
É cansativo tentar esquecer as camadas e camadas de sorrisos que desgastaram os meus dentes durante nosso tempo de paixão.







Depois de Cristo

No BBDC eu recepcionava clientes e - na condição de funcionário de terceira classe - peregrinei no deserto do piso de mármore do hall de entrada; joguei pérolas aos porcos ao ensiná-los a operacionalizar os caixas eletrônicos.
Ensinei porque me entregava às palavras do Senhor, porque guardava a Bíblia em meu armário – lia um Salmo antes da jornada laboral – e todo dia procurava conservar-me íntegro perante a face redentora de Cristo e do gerente Sr. Matias.





















O surto

Perdi o emprego porque empurrei um velho (se bem que ninguém viu a agressão). O subgerente, por exemplo, achou que eu tentara roubar o ancião. Na verdade, ele já pretendia me demitir e aquela acusação veio bem a calhar. Mas eu não roubei ninguém. Eu apenas empurrei um cliente carcomido, conhecido na agência como o “coitado do Sr. Anselmo”. Ninguém viu. E ataquei porque ele me acusou de tentar roubar a poupança da sua ex- mulher.
O homem se confundia nos comandos do caixa-eletrônico. Eu o orientava: “Digite a senha, senhor Anselmo. Passe o cartão novamente”. E no instante da saída do dinheiro, ele se distraiu e a grana caiu no chão. Eu ainda me debrucei para apanhar a quantia que ele viu, viu cair e, de repente, o decrépito desce a sua ira contra mim. Insulta-me. Avança em minha direção. Xinga-me de ladrãozinho, de gatuno, de trombadinha! Por causa da calúnia, dei um basta àquela minha vida ordinária e era tão ordinária que - mais por isso do que pelo insulto - empurrei o macróbio dentro do templo das altas finanças. Ele bateu as costas no caixa eletrônico, enfiou a bengala entre duas máquinas, quebrou o cajado e caiu como uma fruta madura.
Quando a bengala partiu, ouvi um estalo. Pensei que fosse algum osso. Idosos quebram fácil.
No meio da confusão chegou o carro blindado com o malote de dinheiro. Quatro seguranças entraram na agência e passaram pelo ancião que tentava segurar as paredes. Reparei que a cor do malote e a cor das calças do senhor Anselmo eram idênticas. Dois seguranças ameaçaram ajudá-lo, mas, adestrados por algum treinamento delirante, enquanto encostavam também engatilhavam as armas. O gesto intimidou o velho que começou a gritar. Gritou e o guarda da agência fechou o acesso ao banco. Gritou e os clientes compareceram ao local. Pensaram que fosse um assalto. Acho que não entenderam também os seguranças, a cor do malote e a bengala quebrada no meio do saguão.
Pediram calma ao sr. Anselmo, que parou de gritar. A bengala foi o motivo da queda. Trouxeram um copo de água. O sujeito bebeu devagar e repetia um nome. Chamava a mulher falecida. E foi chamando e saindo. Uma funcionária o amparou.
“Coitado do Sr. Anselmo”. Ele saiu e eu entrei na sala da faxina.
O empurrão, a coincidência da chegada do carro-forte, os estalos reunidos sinalizaram o fim daquele emprego. No final aprendi que não se mexe em dinheiro ou porque ele surgirá em forma de velho ou porque o seu uso talvez seja o verdadeiro “falar em línguas”. Línguas estranhas na boca do caixa.
Os tempos do banco foram pedaços de corpos. Os pescoços mal grudavam as cabeças. Tudo era instantâneo e um dia eu acreditei que a paciência existia como uma virtude.
















O método

A prospecção religiosa das “quebradas” de São Paulo será decorrente somente do meu testemunho. Registrarei o que pairar e sei que vislumbrarei o Espírito Santo, desta vez sem dogmas, preleções, sem lenços para enxugar a boca dos pastores ou a testa dos padres, sem praga de gafanhotos, curas e visões proféticas.
Observarei as pessoas pelo avesso. Atuarei de forma diferente dos pastores da igreja “Deus é sabor”. Religiosos querem ser o espelho da multidão. Eu ficarei atrás. Examinarei a plateia sem selecionar a idade, condição social ou religião que cada ouvinte professa.
Deus independe de conceitos e formatos. Manifesta-se. Gera um tipo de calor. Juntam-se pai, mãe, filhos e todos se abraçam. O calor familiar seria uma representação divina? Não sei. O abraço não aconteceu aqui. Se apertou na periferia.
Ah, conversarei com homens que vieram de suas cidades para trabalhar e jogam futebol antes do almoço no pátio das construções. Isto é essencial. O futebol dos homens, o sonho, a ferrugem das marmitas são essenciais.
Conversarei também com as domésticas dos bairros chiques. Ouvirei o borracheiro, o vendedor de biscoito, entrarei nas barbearias instaladas em pequenas garagens.
Saberei que o Ente Supremo não circula a cidade e nem interrompe os semáforos. Este seria o Criador das patroas? As patroas desprezam o mundo das empregadas e nem desconfiam que o Altíssimo desceu muito longe. Ele talvez esteja em uma selva de barracos e casas frágeis.
As histórias da periferia jorraram e terei a juventude para traduzi-las e revelar através delas o divino, a sintonia, o essencial, o remédio.
A periferia de São Paulo seria uma estação de rádio AM que anuncia às cinco da manhã, a marca de um poderoso xarope.
O estudo mostrará que as inscrições nas portas dos Jardins da Babilônia foram alteradas. As inscrições estão em portas do Jardim Macedônia.



























A origem

Moro no bairro de Aeroporto junto com o meu pai. O nome dele é João Batista e seu rosto tornou-se um cofre com muitos dentes guardados. Ele não sorri, apenas balança a cabeça. Seu lado mais visível passa por um cuidado exagerado com o tamanho das unhas das mãos e pés. Diariamente as corta e lixa. Unha comprida é coisa de macaco.
























Alimentos

Na periferia eu posso fingir. Tenho que entrar naquela esfera. Passar-me por bêbado, vendedor de Bíblia, chaveiro, pastor evangélico, fotógrafo. Tudo para saber se a destruição de Sodoma não importa mais ou que a mulher de Ló deixou de ser uma construção de sal.
Fingimentos religiosos que surgirem serão apenas estratégias de investigação e isso porque já extirpei de mim a devoção dedicada a Igreja Evangélica da Redenção Divina “
Deus é sabor”.
Durante os dois anos e meio de igreja neo-pentecostal, decorei partes inteiras da Bíblia. Li os Salmos. Os atos dos Apóstolos assombraram minha mente. Eu me aconcheguei fervorosamente ao “Big Templo” por toda a vida - mas era por toda a vida mesmo - até o dia em que algo me importunou. Eu jamais sentira a presença do Criador. O que percebera de mais contundente durante aqueles cultos, fora um azedo em minha boca e uma náusea que os ruídos orgânicos dos microfones, as vibrações das caixas de som, sempre me provocavam.
A voz do Bispo Rodrigo então se tornou um baque metálico em meu estômago: “Irmãos! Irmãos! Irmãos! Vocês não acreditam? Deus é vitamina. Ele é o alimento. Irmãos, o escudo da fé custa caro e os dardos inflamados do maligno são vendidos na bacia das almas”.
O Bispo Rodrigo sabia convencer.
Durante os cultos os iniciantes tremiam. “Eis o poder de Jesus! Sinta a onda profunda do bem estar. Ele está em cada quadrante do salão”.
Eu não percebia a presença de Jesus e só mergulhei em ambiguidades insolúveis. Acreditava em Jeová por uma osmose que ainda não compreendi. Carregava alguns dogmas da religião Católica e por mim passavam sintomas da religião espírita.
O Onipotente que surgia nas aclamações daquela igreja parecia o resultado de uma venda pública, as marteladas finais de um leilão.
Defenestrei-me daquela igreja. Faz três meses. Sai logo após o fim do meu noivado com Marina.
























Uma análise

Agora me sinto um filho de Deus sem regularidade. Sou um relógio quebrado e julgo estar dentro do suficiente. Sumiu tudo o que estudei no curso de pastores. Era e não era sagrado. Era e não era sagrado. Era e não era sagrado. Nem era um relógio.
O desvendamento do Altíssimo nas baixadas da cidade foi a boa ideia. Nos bairros do Capão Redondo, Grajaú, Jardim Ângela, Campo Limpo, onde o excesso - principalmente o excesso criminal – tornou-se a medida de todas as coisas, talvez o onipotente esteja presente. Mais provocativo, no extremo, quase nutritivo.
Estas relações com o inusitado permanecerão dentro de mim.
Ah, entrarei na periferia e descreverei o mundo, os odores, os bichos. Comparecerei aos batizados ao ar livre. Verei jogos de dominós dentro dos bares. Assistirei velórios. O Criador certamente tropeça em tudo e o dia do juízo final ainda não aconteceu porque ele nem aprendeu os macetes da sinuca.
Descobrir Deus será o meu sacrifício.
(Desde que sai da igreja e desde que Marina me deixou, sinto que a minha vida perdeu a utilidade. Não quero pensar. Aquela utilidade não era boa. A engrenagem desmantelava-se. O jogo de rodas dentadas triturava o meu cérebro).






A aparição

Chega-me a visão do profeta que em Ramá ouviu uma voz e grande pranto, no entanto estou tranquilo, estarei do outro lado.
Examino o guia de ruas: páginas e páginas de nomes desconhecidos sobre riscos brancos e amarelos. O rio Tietê é a mancha prolongada e azul.
O Ser Universal não poderia ser aquele azedo da Igreja. Eu não o sentia porque ele está dentro do mapa. Circula por São Paulo. Chupa o picolé de gelo doce dos botecos.





















Antigos jejuns

A imagem de Marina me incomoda. Quero descarregá-la da minha vida. Nada pode ser resolvido se pendências amorosas pesam em seus ombros.
Ela era minha noiva. Morava perto da agência do BBDC. Eu a conheci na festa da igreja.
Durante algum tempo eu fui bancário, evangélico ardente e o noivo crente em Marina e tão noivo que cedi aos prazeres do seu sexo aberto.
Duas vezes por semana, logo após o fim do meu expediente bancário, eu corria para encontrá-la na casa dos pais.
Os pais nunca estavam.
Revirávamos a cama cor de rosa. Mal lavávamos as mãos. Naquele dia ela me esperava despida e eu trazia, preso em meu corpo, o maldito jalego do BBDC.
Marina era direta, mas fingia não saber beijar. Queria que eu notasse a inexperiência, revelada em sua língua endurecida durante os beijos.
A inexperiência amorosa é uma técnica complicada. Para utilizá-la é preciso encontrar, no meio da mecânica do corpo, o seu ponto morto, a manivela sem óleo.
Eu e Marina tínhamos que ser rápidos, ejaculação precoce com janela aberta. Eu dizia que a amava, ela respondia que me adorava.
Que sutil afirmação. Quem adora não ama. É mais um entusiasmo que exige a posse. Você adora um vaso de porcelana, adora sapatos. Certos doces são adoráveis.
Eu me sentia pronto para o desafio. Abrir as pernas de Marina no tempo perfeito. Deixar os calcanhares sobre os meus ombros. Levantar o seu corpo. Beijar os seios. Eu não decorava a sequência. Não havia senhas.
Os encontros amorosos com a minha ex-noiva eram uma potência dentro da minha fé. Aquela força me enganava e me impulsionava rumo à igreja. Não me sentia em pecado.
Marina me chamava de “baby”. Lera em um romance a expressão. Usava olhando-me o rosto.
Eva provavelmente usava a alcunha para Adão: “Baby, diga serpente”.
Hoje percebo (mesmo não seguindo os preceitos do amor a ser consumido somente na madrugada após o casamento: fato que mantém o homem em sua condição de filho querido do Senhor) o quanto acreditava que nosso amor valeria o buquê. Não valia como não valeu eu ter sido evangélico de cumprir horário, realizar as atividades convocadas pelos chefes da igreja, ler com atenção os comunicados e pagar os dízimos, rigorosamente entregues dentro do espírito de que era preciso dar para receber.
Marina era um dos pilares sobre o qual eu me sustentei. Amparei-me sobre a igreja, um projeto de família e o Banco. A ordem poderia ser invertida ou haver um só pilar. A igreja era o banco. A família era o banco. O banco era Marina.












Os músculos

Um dia a mãe de Marina reclamou de pelos miúdos espalhados no colchão e inquiriu a filha:

- Que pelos são estes? Esse cheiro de suor aqui na cama?
Marina riu e puxou o lençol. Está mal lavado.
Ela ria da mãe, da quantidade de pentelhos e eu emagrecia sem jantar. Tanto suor por semana, tanto acasalamento de bicho, impedia-me de comer o “x-miséria” no “fast-food” perto da agência. Minha subnutrição chegou, desceu-me branca e anêmica. Eu não tinha uma mãe que reparasse a debilidade.
Logo após a minha separação, no rastro da cruz, percebi os quinze quilos fora do meu corpo.
Quinze quilos perdidos e uma vida amorosa extinta antes de criar seu próprio “Cântico dos cânticos”.
Meus músculos são insuficientes para a expedição. Entrarei em processo de engorda. Nada mais de jejum. Costelas não saltarão diante do olhar dos filisteus.













Versículos refrigerados

Dentro de poucas semanas o divino será detectado por mim em um lugar onde acreditam que ele jamais brotou. Eu serei a verdadeira testemunha de Jeová e tão envolvido estarei na percepção quanto estive embrulhado durante o meu noivado com Marina.
Às vezes me julgo louco e nessa hora chega-me a voz ininterrupta do Bispo Rodrigo que afirmava: “Qualquer um que me diga: ‘Você é louco!’, será réu no fogo do inferno!”
O mundo está cheio de réus e algumas conexões com o Deus bíblico não me foram interrompidas. Eu tenho firme em meu coração, afetado pela igreja do Bispo, passagens do Novo Testamento e isso refrigera a minha alma como se a Bíblia fosse um... um refrigerador.















Fogos de artifício

A igreja parecia inconsequente e falsa.
Eu sei. “Então, Deus falou à multidão e aos seus discípulos: “Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam e esticam as orlas dos seus mantos. (Bíblia Sagrada, Mateus 23.1 a 5)”.
Havia luminárias fixadas nas paredes que se assemelhavam a archotes acessos. Certa noite a luminária perto do palco pifou. “A igreja está necessitada de fogo” – disse o Bispo Rodrigo e cada orador, que tomava a palavra e dirigia o culto, apontava a lâmpada quebrada. “O fogo do Criador acaba de sair deste recinto!”
E os fiéis batiam as cabeças nas Bíblias.
Eu escrevo: “Os doutores da Lei e os fariseus instalaramse na cátedra de Moisés. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam e esticam as orlas dos seus mantos. (Bíblia Sagrada, Mateus 23.1 a 5)”. Esta conexão não me abandonará.






Trovões e chuviscos

Ouço um som tonitruante. Não é o Alento de Israel que se mostra sobre uma montanha. O estrondo vem do sofá que papai empurrou. Decerto o controle remoto caiu atrás do móvel.
Papai mantém o controle remoto perto de si. Tornou- se indeciso quanto aos canais de televisão. Assiste simultaneamente a reprise do futebol, a algum programa de auditório e se a programação estiver bem chata, assistirá aos chuviscos dos canais fora do ar.
Faço o sinal da cruz, do pai, filho e Espírito Santo. Há um ritmo no início de qualquer prece. Estou mais interessado nos chuviscos. Eles atravessarão a minha alma.
Espero tanto agora. Caminhar em lugares inacessíveis. Passo um pano sobre os livros de fé e autoajuda que empilhei na escrivaninha. Examino-os. Reparo os retratos antigos. A família esteve reunida nesta festa. Perdi a data e o motivo do encontro familiar. Tão necessárias são fotos antigas. Funcionam como obras de autoajuda, mas precisam estar devidamente datadas.













Pela espada não me reconhecerão

Alguém poderia avaliar que o meu projeto não é operacional sem o auxílio da Igreja. Tenho que desmenti-lo. Posso realizar muito sem ela. Qualquer comentário, qualquer pesquisa. Não careço mais de seus grupos de estudo dos Evangelhos, nem os encontros de jovens. Posso esquecer o curso para Pastor em que me matriculei. Abstrair as alegorias criadas pelo Bispo. Desconsiderar a força da comunidade, os fiéis, o culto. Não subir no palco e engrossar a voz.
Marina agora é tão inútil quanto a igreja, no entanto, ela já foi determinante, substancial, direta, operacional.
Ela descobrira ou imaginara as posições mais adequadas para o amor. Como aumentar o prazer. Era uma estrategista.
Marina trabalhava no hospital dentro do esquema doze horas de trabalho por trinta e seis de prazer. Nas manhãs de folga comparecia a igreja com as bênçãos do Bispo Rodrigo. Nosso contato sexual ocorria após o meu horário no BBDC. Duas vezes por semana eram sagrados.
A noiva de outrora se tornou a espada que cortou a orelha do servo do Sumo Sacerdote. Eu vivia na expectativa. Orelha pronta para o corte. Costelas prontas para a criação daquela mulher.
“Os ímpios morrerão pela espada. Esta profecia destina-se aos corações que têm fome e sede de justiça”. Frase do pastor Samuel.



O dedo

Defini o percurso. Alguns bairros da zona sul nesta primeira investida. Escolhi Jabaquara, Cidade Ademar, Pedreira, Cidade Dutra, Grajaú, Parelheiros. As avenidas principais são servidas pelo sistema de transporte público.
Percorrerei cada limite da cidade. Não quero que o Altíssimo seja detectado por amostragem. Imaginar que se o onipotente atua em Parelheiros, terá idêntico padrão na Barra Funda. O Onipotente pode ter soluções caseiras. Usar dedos diferentes em distintos grotões de São Paulo.
















O poderoso de segunda a sexta

Nos meus tempos de BBDC e crente submisso ao discurso da igreja “ Deus é sabor”, eu realmente ansiava por uma longa e próspera carreira bancária. No entanto, eu não aceitei a vaga de Caixa que me ofereceram. Sabia o quanto era dispersivo e um Caixa é o meu contrário. Ele é um ente concentrado. Sabe o valor do ouro.
O ouro vale mais do que o templo. Este cálculo eu pressentia. Não o praticava em sua plenitude e por isso caminhei na viela que seguia do cordial ao submisso.
No banco acomodei-me ao setor de atendimento, ou melhor, canalização das cabeças para abertura de contas, organização da entrada, orientação sobre o uso do caixa eletrônico, distribuição de envelopes e antena das reclamações gerais.
Ajeitei-me no BBDC, embora pensasse em alguma progressão funcional, um cargo de confiança. Isso terminou no incidente com a velha bengala.













Os efeitos alimentícios do abandono.

São vinte e uma horas e trinta minutos. Noite de quarta feira. Na periferia as pessoas narrarão as suas vidas. Alguém confessará que deixou a mulher e filhos no estado do Maranhão. Quis trabalhar aqui e mandar dinheiro. Jeová não seria este esforço? O esforço do abandono que alimenta crianças.
























Placas de adoração

Tantos homens mudam de cidade com a ideia de uma vida melhor. Mais tarde buscam a família. Já os vi. Parecem avestruzes. Longos pescoços na rodoviária de São Paulo. Cabeças a levantar caminhos. Tive vontade de avisar: o teu lugar, amigo, é do outro lado da cidade. Siga as placas, reze para se redimir dos seus pecados e, ao desembarcar no subúrbio, saiba que os esgotos a céu aberto, os gatos, as gambiarras que roubam energia elétrica são a parte mais sutil do seu novo lar.





















Primeira constante

Muitas vezes sinto uma presença. Não é a manifestação de anjos ou demônios. Um transe e chegam-me ondas hertzianas de dor. Dores tão constantes. Passei a chamá-las de “vibrantes”.


























Segunda constante

Refletir direito será a meta daqui para frente. A memória será exigida sob pena do autoflagelo de um banho gelado. Irei considerar a minha criação Católica Apostólica Romana. Trago a ideia da virgindade de Maria. Acredito que em algum lugar os seres maculados podem ser restituídos ao estado do muito virgem, do muito intacto. A vida retorna após a morte. Morre uma criança. A mesma criança regressa à mãe em outra gravidez. “Ele tem um nariz diferente, o cabelo é mais claro... Este menino não é aquele que morreu no ano passado?”
A vida após a morte está pregada ao mundo. Eis o verdadeiro felcro. Ambos não se separam, mas talvez na periferia tudo tenha uma existência própria e respire na sua vez. A natureza do lugar e o espírito das coisas devem aparelhar vidas em constante disparo. A morte por epidemia é uma esquina ensolarada.
Tanta contundência, tantas cenas cotidianas expondo vidas que decerto estão relacionadas ao Criador. Elas refletem o novíssimo espectro do Todo-Poderoso, a força que pode estar concentrada em um lugar chamado “Morro do Piolho” na divisa com Diadema.

Esta é a periferia de São Paulo, atrás do Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, muito além do Vale de Kidron.






A comparação

Quem sabe a verdade do ser e do não ser? A imagem de São Benedito é uma garrafa de Coca-Cola. Ambos negros, vejoos agora sobre o balcão de um bar na Vila Joaniza.


























Tenho um irmão de fé.

Penso em algo metafísico e examino o pênis. Tenho investido muito tempo nessa vistoria, quase uma operação. Posso chamá-lo de membro. Jamais falhou e nada em mim doía.
Meu corpo dói agora. Vibrantes. Pisaram sobre o meu peito e isso impede a fluidez da corrente sanguínea. Sinto dor e frio. O coração é um monstro de gelo. Fricciono as mãos. Tento aquecer a pele e procuro o secador de cabelos deixado por mamãe. Lanço um jato quente direto na friúra. Não sinto melhorar. Apenas ouço o “zoom”.
Dias destes fui ao médico do convênio. Ali aprendi que coração não dói. Insisti e o médico solicitou-me um eletrocardiograma. Sem alterações.
Aproximo o pênis da luz do abajur sobre a cômoda. Meu corpo está gasto. Aquele amor por Marina mordia-me o ombro. Esfregava-se em mim. Raspava. Raspou tanto que me arrasou.
Ela despencou em mim na época da igreja, das orações desabaladas, profecias nas entrelinhas da Bíblia, da interpretação de trechos herméticos. Germinou na minha fase de bancário, quando eu acreditava nas benções que viriam das contas correntes com saldo positivo, dos depósitos e aplicações em papéis de renda milagrosa.
A dor passou. Os “vibrantes” saíram. Este carnaval de derrames vai acabar.






Os braços.

Marina tem vinte e cinco anos e os seus cabelos castanhos, o rosto triangular e anguloso resplandecia nos olhos dos infiéis. Tornara-se a pirâmide no meio do deserto. Melhor seria dizer, Marina parecia a esfinge com o nariz intacto.
Ela segurou os meus braços na cama. As patas sobre o deserto do meu corpo. Esta imagem revelou-se pouco antes do fim.






















Papai é cercado por hienas.

Papai bate na porta, reclama do chuveiro ligado. Olha o racionamento. A água vai acabar na cidade. Eu sei. Vi o repórter percorrer as várzeas da represa Billings em um veículo anfíbio.
O ônibus anfíbio Eldorado/Largo São Francisco ladeia a represa pela Estrada do Alvarenga.
Papai saiu depressa e agora grita gol: dois a zero para a sua noite.
Eu e papai não vivemos na mesma frequência. Em uma conversa sempre alguma resposta não corresponde à pergunta formulada. A tentativa de explicação cria outra dúvida que derruba a primeira questão e provoca um segundo, um terceiro problema também não compreendido. Neste padrão o diálogo prossegue até desistirmos.
Mamãe arbitrava as minhas pendências com papai. Sua ausência obriga-me a ter muita paciência, porque não posso abandoná-lo no meio do mundo, ao lado de hienas de risos aloucados.
Ela saiu desta casa o ano passado. Não gosto de falar do assunto, embora não possa me negar a discorrer sobre miudezas. Lembrar-me daquele dia, quando ela me acariciou os cabelos. Não era carinho, apenas queria saber da sua Bíblia.
Elvira é o nome de mamãe e, se fossem buscar a sua atuação materna como modelo; tortuosos seriam os caminhos até a santificação das mães. Santa Elvira, outro longo processo de beatificação dentro da igreja católica.





O redentor assiste à ira dos discípulos.

Eu me decidi também em relação à Beatriz. Resolvi desconsiderar sua existência. Em minha temporada como bancário eu me inibia com a sua presença, a secretária do setor de cobranças. De manhã não saudava os colegas e ordenava tonitruante: “Ezequiel, passe este fax!” A ordem atravessara a madrugada. E foram muitas madrugadas entre o último e o primeiro cliente.
Não suportava o subgerente Armando, que aterrorizava os funcionários. Exigia metas absurdas para legitimar a sua presença no cargo. Não o tolerava porque aquela brutalidade também pretendia ocultar sua homossexualidade. E ocultava tão eficazmente, que mesmo ele devia acreditar que não era um homossexual. Por isso aquela mulher visitava a agência. Ele dizia ser sua noiva. A noiva era a garantia. “Que ninguém a cobiçasse”.
Eu saquei bem a impostura do sujeito. Graças à falsa dramaticidade dos chefes da igreja, aprendi a detectar as estratégias de palco. Não era qualquer farsa que me enganaria.
Um dia o subgerente Armando implicou com os dois faxineiros durante a limpeza da agência. Eles brincavam com uma bola de papel. O chute a gol acertou a mesa do subgerente que chegou junto. Perguntou quem jogara o papel. Era um futebolzinho – disseram os serviçais. Futebolzinho! Porque vocês não chutam a própria merda.
O Sr. Armando navegava nessas corredeiras. Não perdoava o vacilo: o mínimo tempo perdido no banheiro; mais de dois copinhos de café após o almoço; três bocejos durante o expediente.
Os faxineiros eram adolescentes e sumiram da agência. A idade não justificou. A bola de papel perturbara o fechamento diário da agência: instante em que o subgerente harmonizava-se com o divino, o fundador do banco, os acionistas desencarnados e purificava-se pelas juras de amor aos papéis de grande liquidez.
As trinta moedas de Judas podiam estar em qualquer gaveta.
A brutalidade do subgerente não era exceção na agência. Destacava-se porque era a mais intensa entre muitos funcionários que se odiavam e, no entanto, a despeito do pecado da ira, almejavam obter um cargo redentor a ser concedido pelas mãos do gerente.
Seres em danação e suas transgressões cometidas efetivamente dentro do capital. Não suportava tais existências rasteiras, mas não percebia a condição paradoxal em que me encontrava. Eu também clamava pela benção do gerente, Sr. Matias. Que ele me visse atender a clientela, priorizar o acesso dos idosos aos caixas-eletrônicos, carimbar papéis, agradecer o dia inteiro para no fim do expediente ouvir: “ Filho, você comeu o pão que o diabo amassou”.
A agressão ao velho foi o meu único equívoco funcional.














Outro trabalho sobre pressão

Estou excitado porque imaginei agora o corpo nu de Beatriz. Seus ombros eram perfeitos. Meu pênis – esquecido do prazer que Marina lhe propiciava - se ergue, respira, toma fôlego, pede espaço, a vitória e, de súbito, fracassa e desiste. Ah, o pênis, sempre um órgão disciplinador, compreendeu a falta de vazão. Das mulheres do setor de cobranças não fluirá um rio de prazer. Estou sem saída.
Por isso quero edificar minha casa sobre a rocha, quebrar os cedros do Líbano. Curar a salivação dos velhinhos.
O Bispo Rodrigo nem isso impedia: que os velhinhos salivassem em frente ao Criador.
















O Egito.

Meu pai pigarreia na sala. Seu time marca outro gol. Se o clube ganhar o campeonato, a vomição será de alegria. Papai está subindo as escadas. Vai bater na porta outra vez.
O velho reclama do chuveiro. Abro a porta e grito que chuveiro é esse que o senhor escuta. Ele não prossegue e entra no quarto. É intervalo no futebol. Pergunta se eu procurei emprego e eu lhe conto sobre o assalto no ônibus.
Papai logo volta a remoer a lembrança da ex-mulher. Ela o traíra. Ela foi roubada por outro homem. É difícil identificar o motivo do fim de seu casamento. O namoro vinha da adolescência e, de repente, roubaram sua casa e levaram a dona. Ela era uma perdida e o desprezara.
Do casamento de meus pais, passo à fuga dos judeus do Egito. Não havia Egito que justificasse a fuga da ex-dona dessa casa.
Papai sofre com a perda. Eu não ligo mais. Identifico em minha mãe, três mulheres diferentes. Tipos congelados no menor tabernáculo do meu cérebro. A enfermeira está em extinção. A beata é a mais miserável. A adúltera tem olhos enormes. Geralmente tento não encontrar à última. Eu aprendi, conhecerás o fruto pela árvore.
Acho que o homem do sofá padece porque ama a adúltera e sempre a encontra. Corrompida até na hora dos gols: “Puta! Puta que pariu! Puta que te pariu!”
Papai quis saber sobre o resultado do roubo. Levaram algum do teu fundo de garantia? Não, eu depositara o dinheiro.

Papai trabalhou como mecânico de aviões da Varig. Aposentou-se cedo. Queria ter sido piloto. Tinha este voo infantil na cabeça, no entanto, estourou-lhe o medo do fracasso e ele desistiu do plano assim que se casou com mamãe.
Creio que por isso papai guarda rancor da ex-mulher. Ela quando saiu daqui, voou alto, nas asas da concupiscência.

“Cuidado com as asas da concupiscência!” Esta era uma das frases preferidas do Bispo Rodrigo.
























Os sócios

Elvira fugiu daqui com um antigo chefe da igreja “ Deus é sabor”. O nome de guerra do pastor era Jonas. O cara logo se associou à Igreja “Renova Jerusalém” e mudaram- se para São José dos Campos. Ouvi dizer que ele fundaria outra igreja naquela cidade e compraria um posto de gasolina.
Não me recordo os nomes das igrejas. Denominações são importantes quando se cria um empreendimento religioso. E que criem bancos da fé e abarrotem os altares com o mel dos vespeiros. Eu não ligo mais.






















As bocas

O jogo recomeça. Papai sai do quarto no apito do juiz e eu penso o quanto Sara obedecia a Abraão. Chamava-lhe de Senhor. Isto tem implicações. Meu pai não era o senhor da casa. Trocou algumas lâmpadas. Consertou o motor da máquina de lavar. Nunca se incomodou muito com as atividades religiosas de mamãe. Uma vez discursou. Disse o que eu queria ouvir e ainda não percebia.

- Não quero saber dessa gente de igreja crente por aqui. Não gosto! Quem te levou para esse lugar? A vizinha aí do lado? A mulher é doida! Reza em casa. A salvação está em qualquer lugar. Não gosto desses crentes aqui. Você aliciou até o Ezequiel. O menino era corintiano.

Eu acrescentaria. O Eterno é mais pesado do que o ar e não poderia sobrevoar a boca dos pastores.












Uma experiência em catacumbas.

Iniciarei a peregrinação em paz. Tenho que esquecer o senil que cutucou o meu ombro, me acusou de roubo. Disse ladrãozinho no diminutivo que humilha. Não tive culpa se o empurrão estava no piloto automático.
Naquela hora, enquanto eu meditava na saleta da faxina, apareceu o subgerente em crise. Sabia o que tinha ocorrido: eu tentara roubar o velho. Avisou-me da dispensa sumária. Justa causa sem direito.
Então ameacei. Acusei o seu flerte com o Sandro, do setor de cartões de crédito. Disse que eu e a copeira havíamos percebidos os suspiros entre os dois e se eu não sair daqui com a grana que era minha, iria contar a história pra tua noiva, o gerente, pra cada cliente do banco.
É claro que eu não ameacei com esta firmeza. Gaguejei e soprei. No entanto a intimidação acertou. Sábio é o homem que conhece a fraqueza do vizinho. Ele sabe, o Altíssimo ama os que usam o punhal das palavras.
O pederasta olhou-me para morder os lábios. Ele conduziria a dispensa pelo Departamento Pessoal do BBDC e que eu não retornasse mais ali. Assim efetivamos um acordo de cavalheiros. Saímos ganhando. Recebi o Fundo de Garantia com os quarenta por cento, as verbas rescisórias, o seguro-desemprego e o Sr. Armando obteve lá suas garantias.
Minha vida agora será a antítese da minha vivência nas cavidades bancárias. Esquecerei os diálogos com funcionários do BBDC. Pouco vou usar daquilo na cosmogonia da periferia. Serei direto, perigoso e integral.



Cristãos do Primeiro Século.

Marina volta-me à mente. Eu a imobilizei na cama e captei, com divina emoção, a ansiedade dos seus seios. Ela levantou as pernas, puxou-me para um beijo sensual. O resto do produto é confuso. Recapitulo outros detalhes: seu corpo dentro do espelho do quarto. O perfume dos cabelos emanava do reflexo.
Marcou-me o dia em que ela finalmente esqueceu-se de fingir inexperiência e lambeu-me o pescoço e pediu-me que eu soltasse obscenidades, gritasse o tamanho das suas pernas, a chamasse de potranca, de cavala, de vadia. E ria porque era gostoso ser tão Madalena, tão Madalena.
Na ocasião nós dois entramos em um grupo de jovens da Igreja: “Cristãos do Primeiro Século”. Eu até brinquei. “O que diriam os cristãos do segundo século diante dessa sua preferência sexual?” Marina riu.















Dores


Sinto uma dor aguda no braço esquerdo. Não sei se realizo outro eletrocardiograma. A dor se alastra em meu corpo. Sinto a praga de gafanhotos que chega. Eles saíram das páginas da Bíblia. O meu braço esquerdo se transforma em mármore e eu tenho tanto a elaborar. Vibrar em lugares inóspitos.
Entro no banho. Relaxo quando percebo que essas dores são as ruínas de muralhas, restos de ideias e desejos que me cercavam. Elas me endurecem em alguns pontos, mas são apenas monturos.




















O arroto do peixe.

Saio do banho. O jogo de futebol termina. Papai vem me avisar e verificar o chuveiro ligado. Pergunto o placar e a autoria dos gols (o suficiente para afasta-lo do meu canto). Ele desce as escadas e arrota cerveja. Mamãe odiava arrotos. Não houve ocasião em que ela não tenha manifestado o seu desagrado. Papai pedia desculpas e arrotava durante as desculpas.
A mulher deixou a nossa casa e um bilhete comunicou que decidira assim porque sua paixão por outro homem era uma paixão por um homem abençoado por Jesus. Ela já estava no alémmundo. Tinha quarenta e dois anos. Parecia uma mulher de trinta.
Logo que soube o nome do amante, papai observou:
- Jonas, engolido por uma baleia e expelido vivo, após três dias.
Se ela quis alguém vomitado por uma baleia, porque antes repudiava os arrotos do marido?
Eu estava na mesma igreja e não reparei o cetáceo, o vômito e a sedução.
Papai gasta parte da sua aposentadoria com prostitutas. Eu não ligo para sua tara geriátrica. A separação consumou-se o ano passado. Ela não quis nada, nem a casa, nem o carro e eu continuei na igreja junto com Marina. Não percebi que me olhavam como se lessem em mim a parábola do fariseu e o publicano e papai não fosse nenhum dos dois: nem o fariseu que se exalta, jejua e paga os dízimos; nem o publicano que se humilhou e foi exaltado. (Lucas 18:14).




Tentações e empréstimos

Iniciarei minha jornada peregrinando do Terminal do Largo Treze de Maio até Diadema. Seguirei a Avenida Interlagos. Descerei em algum ponto e caminharei por dentro dos quarteirões. Muitas quadras. Esquecerei o trajeto da volta.
Estarei perdido, mas o demônio não me encontrará. Ele me conhece e sabe que jamais observei o saldo na conta corrente alheia e não cometi o pecado da ira ao visualizar a extensão dos extratos diários impressos pelos caixas do BBDC.
Tuas promessas não servem por aqui, Príncipe das Trevas. Procure um cliente especial em outra região.



















Primeiras revelações.

Justificarei minha peregrinação à periferia com uma máquina fotográfica. Irei me apresentar como fotógrafo de um grande jornal e clicarei. A foto será parte de um painel sobre a cidade, que é santa de Santa Delirante. São Paulo é o nome de guerra.
A máquina era de Marina. Ela me vendeu com lucro, mas é uma boa câmera. Mecanismo profissional. A mãe lhe trouxe do Paraguai. No dia em que a conheci naquela festa da igreja, ela experimentava as possibilidades dos flashes. Manuseava a lente como se manuseasse um pênis. Olhou para mim e clicou.



















A praia australiana

Papai desliga a tevê. Escuto o clique. Estou aqui agora. Espero. Papai subirá as escadas, abrirá a porta do meu quarto e repetirá que isto não são horas de ninguém ficar acordado. Não quero um zumbi aqui. Está bem?
Faço o sinal da cruz, do Pai, Filho e Espírito Santo. Chuviscos.
Passo a madrugada acordado. Ando pelo corredor. Vou e volto. Deito na cama. Olho o teto. Levanto. Deixo as luzes sempre acessas. O banheiro à esquerda, o quarto de papai à direita. No final, bem em frente, fica a mesa do telefone. A decoração do móvel continua sendo aquela idealizada pela outrora dona da casa. Vejo duas pequenas velas douradas no formato de árvores de natal e o porta-retratos com minha foto no jardim da infância. Atrás, na parede, o calendário com o mês da praia australiana. Papai não alterou a foto. Os seus últimos trinta dias de casamento permanecerão incólumes. A família continuará ali. O telefone guardará as digitais da antiga dona.
Durante os últimos dois meses do casamento de meu pai, ele decidiu que sempre aos domingos almoçaríamos fora. Mamãe recusou de início por causa dos compromissos com a igreja, mas como eu pedi muito ela acabou concordando.
Foram passeios bem interessantes, apesar das discussões dos dois. Discutiram a vida inteira e atrás da cortina. Por causa do tempo e do vento. Apenas papai imaginava um final feliz para o seu casamento. Um dia parou naquela loja de móveis e disse que sua mãe vai gostar tanto dessa poltrona de couro. Couro não esquenta no verão.
Alguns restaurantes eram distantes. Conhecemos o joelho de porco alemão, o taco mexicano, o frango xadrez chinês, duas cantinas italianas e um dia chegamos ao último mês do calendário.
Desembarcamos na praia australiana.
Naquele mês, Elvira entrou em outra arca e atirou sua aliança contra o mundo.
Lembro-me do Salmo 50 versículo 16: Ao ímpio, contudo, Deus diz: “Por que razão tu recitas meus preceitos e tens em tua boca as palavras de minha aliança, visto que detestas minha disciplina e desprezas minhas palavras”.
Posto-me em frente ao espelho do banheiro. Chego perto. Ali está o peregrino, o desmemoriado. Ele me fez esquecer os almoços com meus pais.
Os dois sempre discutiam. Os dois brigavam enquanto eu gritava. Ouvi-los era muito perigoso.
Um dia brigaram porque papai trouxe um imã de geladeira com a figura de São Jorge e mamãe não gostou.
















Toda repetição será condenada

A periferia é um mundo que se abre e a dúvida que se apresenta é esta: “Qual a feição suburbana do Criador?”

Qual a razão de estar me repetindo tanto? Pareço uma copiadora. Copio o comportamento do bispo Rodrigo durante o culto. Tiro xerox da sua calibrada fé. Devo agir. Sair da agitação e da oratória.






















Respiração.

Tenho que eliminar a ansiedade que contrai nesses últimos meses. Respiro agora. Imagino que desenrolo um longo carretel de lã branca. Puxo lentamente o fio e sustento em minha mão esquerda a delicadeza e porosidade do novelo. Observo a firmeza da cor. A operação não acabara tão cedo. Trabalharei muitos dias aqui. Respiro agora e inverto o sentido, passo a enrolar a lã. Este é o meu objetivo: envolver os fios como se fosse confeccionar um ninho de nuvens. Devagar. Respiro. Não posso me apressar.
Ah, o ninho se desfaz e estamos em um sol morno. Quero um café. Procuro o coador. Aqueço a água. Ouço o som fino e extenso de uma gaita. É o amolador de facas. O homem passa com os seus penduricalhos. Ninguém quer amolar facas. Porque ninguém aparece para amolar as facas? Permaneço no descontrole.

















Lombadas germinam.

Entro as seis da manhã no ônibus 175T – Tremembé Jabaquara. Os bancos do coletivo cheiram a jasmim. Alguém passou a madrugada na faxina. Os delírios e a insônia não são exclusividade dos seres rastejantes iguais a mim. Isto acabará.
Agora dormirei corretamente.
Desço na Estação Jabaquara do Metrô. Ando pela região. Entro na primeira lanchonete. Peço o café que não coei e um pão na chapa. Fico no balcão. Observo o despertar do primeiro comércio ambulante. Na minha frente, pregados em um plástico azul claro, enfileiram-se imãs de geladeiras, pregadores de roupa coloridos e relógios de brinquedo.
Sai do bar. Fui um imã. Soube me desprender do metal fixado em minha cabeça.
Perambulo pela região. As pessoas passam com o rosto endurecido pela manhã sem sol. Entro em uma padaria. Sinto sono. Meus cotovelos gelam sobre o balcão e peço outro café. Cinco homens conversam na mesa lateral em frente ao balcão de frios. Não há pressa em seus gestos. Eles estão no contrafluxo. Voltarão para casa.
O funcionário entrega-me o café e reparo na parede do estabelecimento, um quadro com a reprodução da “Santa Ceia” de Salvador Dali. Entendo o raciocínio do pintor. Ele afirma os dois polos do universo. Cada manifestação possui o seu contrário. O corpo contraria o espírito. A água se opõe a terra. O pão da pintura, ele dividiu em duas partes iguais. A própria mesa da ceia foi cortada ao meio e flutua. Jesus mostra o rosto enquanto os apóstolos escondem as cabeças. Procuro mais detalhes e de certa forma a pintura prossegue pelas paredes da padaria. Ali abriram um pequeno acesso para a cozinha, por onde o cozinheiro entrega os lanches solicitados. Fotografo o misto quente dividido em dois. Fotografo o churrasquinho e a mão do cozinheiro. Ele fuma e despeja os sanduíches segurando um cigarro. O misto-quente que aquele adolescente mastiga, carrega uma cobertura de nicotina e fumaça.
Aqui não é a periferia que procuro. Este bairro é óleo de segunda. Meu quarto é mais interessante.
Saio da padaria e profetizo que os mansos iguais ao meu pai herdarão a terra e nela habitarão ainda que sem esposas, sem os grãos fartos da colheita do matrimônio.
Chego a minha casa no início da tarde e ouço a apneia de papai. Ele dorme no sofá enquanto a tevê transmite um programa culinário. A apresentadora prepara um bolo de chocolate enfeitado por cerejas. A mulher usa um batom mais vermelho do que as frutinhas do bolo. Sua boca é uma cereja e por isso algo me aflige na apneia de papai. Acordo-o. Ele reclama pelo sono interrompido e diz que está com muitas dores. Senta no sofá e estica as pernas até ouvir o estalo. Peço que durma mais um pouco, sem agitações.
Às vezes papai cai da cama por causa de um sonho recorrente. Ele está no comando de um voo, segura o manche da aeronave e entra em contato com a torre de controle. Informa sua posição. Aterrissagem em quinze minutos. A torre autoriza o pouso quando, de súbito, uma turbulência interrompe a viagem, derruba o mundo e papai é cuspido da cabine de comando. Sai pela janela e cai. Traz na queda o manche e travesseiros.
Assisto o primeiro noticiário da noite. Os repórteres avisam que em certa região do Jardim Primavera existem postes no meio das ruas. Os automóveis fazem a curva e são destruídos pelo concreto em movimento.
Os postes andam em São Paulo, sobem ladeiras, enfrentam caminhões. Acumulam uma ira muito acima da carga elétrica que transmitem. Isso é um achado da energia divina que procuro.
Na periferia encontram-se também lombadas fora do padrão recomendado pelo Departamento de Trânsito. Lombadas imensas como tartarugas pré-históricas enterradas. Isto é outro detalhe do sobrenatural que imagino existir.
A igreja “Deus é sabor” é um chão liso. Um dia, porém, teve ares de uma planície sem fim. Não sei como eles plantaram, colheram o trigo, o milho e cimentaram o terreno.





















O início

Escrevo a introdução do primeiro capitulo do meu relato. Início: “Aqui em São Paulo, não se conhecem as rotas de peregrinação, embora se noticie que a leste, o limite seja a Cidade Tiradentes, terra de outra Judá, de outros semitas, absolutamente perdidos de Deus. A oeste, com Osasco, contam peregrinos alienados para sempre. Ao norte, com Mairiporã, ouço falar sobre desovas de santos martirizados, cemitérios clandestinos e perdições. Mas, ao sul, em um recanto de um bairro inóspito chamado Engenheiro Marsilac, avista-se o mar e, sobre o mar, a estrela, brilhante tal qual a estrela do oriente”.
Acho promissora a introdução, depois me irrito. Penso em escrever um evangelho segundo Judas Escariotes.

















Lâmpadas

Saio finalmente rumo à outra face da terra. O guia risca a Divisa da cidade de Diadema com São Paulo. O ônibus segue a avenida Kennedy e desço perto de Diadema. Meu relógio marca quatro da tarde.
Agora não seguirei mais os ponteiros da civilização, aquela que procura registros em cartões de ponto. Seguirei os meus instintos.
Percorro a avenida, entro em ruas estreitas e vislumbro longos terrenos baldios. Muitas casas foram demolidas. Esgotos a céu aberto criam sulcos esverdeados no calçamento. Prossigo a vistoria. O muro de um dos terrenos abre-se para uma viela que se liga a rua paralela. Os moradores usam o caminho e economizam duas quadras. Já é noite. Deparo-me com vagalumes.
A lembrança que eu tenho de vaga-lumes é muito antiga. Quando eu tinha nove anos, em 1971 vi alguns pirilampos em uma chácara na cidade de Itapecerica. Decerto aqueles vagalumes estão aqui. Foram transportados até essa divisa de São Paulo, acessada por vielas de tempo, espaço e esgoto.
Retorno à avenida. Um ônibus estaciona. Passageiros descem do veículo com pacotes, casacos e crianças. Caminham lentamente. Alguns riem. Outros querem dividir uma cerveja com os amigos.
Se eu tivesse nascido em outro lugar, levado outra vida. Teria sido outra pessoa? Não. Então o que justifica a condenação divina pelos pecados que praticamos se não temos responsabilidade pela nossa existência casual?
E nossa alma? Ela depende dessa vida acidental que despencou sobre nós ou seria uma substância intangível que carregamos? Temos várias almas ou não temos nenhuma? Passar fome revigora nossa alma? O sexo na abundância dos peixes enfraquece a nossa carne?
Volto aos vaga-lumes. Vagalumes são o que são. Nada é aleatório em sua condição. Nesta lógica estes insetos possuem uma alma maior do que a minha. Eles brilham agora e pronto. Aqui e ali.
Que uma rã colossal solte a língua e engula esses vagalumes. Eu estalarei os ossos e continuarei vivo. Sei que estou vivo.
Chego enfim à periferia da cidade.






















Pregos

O ônibus roda vazio. Passo ao lado da agência do BBDC em que trabalhei. O prédio me assombra com os holofotes que iluminam o jardim. Três dias após a agressão ao idoso retornei ao Banco e a Beatriz das cobranças perguntou-me porque eu pedira demissão. Não entendi e nem quis responder. Sentia-me fora dos limites de influência e respeito hierárquico.
Beatriz tinha um cargo comissionado e por isso, pela função que ostentava, queria eu bebesse fel e permanecesse acastelado naquela bigorna de vida até o meu último suspiro.
Deixei a prancheta no armário. Sempre carimbei papel de estacionamento, ensinei a puxar extratos e o macróbio que empurrei chamou-me de ladrão por duzentas moedas. A ofensa foi uma maldade. Apliquei um bom corretivo. Não sou o bom ladrão, o São Dimas dos bancários.















A recordação de presentes e a baba de louco.

Amanhã é dia dos namorados. Ano passado eu e Marina trocamos presentes. Ela me deu uma camisa e eu lhe trouxe um vaso de orquídeas.



























Entro no banho quente.

A traição amorosa deixa o corpo miseravelmente frio. Aquela noite em que me separei de Marina coincidiu com o nosso aniversário de namoro e noivado. Quis presenteá-la com uma carteira de couro. A mais cara da loja. O presente captava a essência de Marina e guardaria moedas.
Marina nem guardava segredos. Segredos para cristãos do primeiro século são tão insignificantes quanto centavos de troco.
Lembro-me que me dirigi a sua casa na Vila Mascote com o carro de papai e ela não me esperava. Era tão marcante a data. Ela não poderia ter esquecido. Aniversários de início de namoro, noivado, bodas de ouro, bodas de raios de sol e brócolis devem ser comemorados e comemorações entram na totalização dos valores daqueles que se amam. O cérebro é um porta-joias.
Marina me recebeu apertada. Comprimia-se em um vestido azul que deixava o seu colo à mostra. A ponta dos seios delineava-se sob o tecido e ela puxava as laterais. O vestido era tão elegante que seria mais útil em outra ocasião: um casamento, uma formatura. Até perguntei:

- Que lindo vestido! Isso é para nós?

Marina não respondeu, mas percebi que o gesto de puxar as laterais do vestido, ajeitar tantas vezes os seios, acertar o caimento, terminou por vulgarizar a peça. Marina ganhou ares de dançarina de boate em zona do meretrício.
Vi uma prostituta vampira. Cortesã de primeiro dia e agora eu sei. Faz três meses.
Ela estava sem jeito. O salto alto, a bolsa pequena. Marina não me esperava. Entrou calada e nem passou meia-hora, perto da avenida Ibirapuera, comunicou-me formalmente que o meu presente viria dali há dois dias. Surpreendi-me com a afirmação e respondi não estar ali por causa de merda de presente.

-Que tipo de mercenário você pensa que sou?

Logo após ter dito aquilo parei o carro no semáforo e soltei um palavrão no amarelo. Ela entrou em uma conversa desconexa. Falou sobre a falta de tempo. Os compromissos da igreja influíam nos trabalhos da Faculdade.
Parei em outro semáforo. Ela se calou. Abriu a carteira que eu lhe dera, apalpou-a, examinou o porta-moedas, enfiou o dedo anelar no receptáculo vazio e decidiu no verde que não devíamos mais nos encontrar.
Jeová poderia utilizar os faróis vermelhos para as más notícias.
No momento em que Marina me dispensou, mirei o seu rosto sem entendê-lo. A separação de amantes é uma cirurgia complexa.
Fiz a manobra e retornei em silêncio à sua casa. Estacionei e perguntei se ela queria terminar a droga do noivado. Ela confirmou. Não me amava mais. Não me queria. Eu não fui o homem que ela esperava. Chegara ao limite. O relacionamento não rendeu.
Faltou dizer que o amor tinha perdido a validade, estragara-se à noite, entupira-se, exalara o cheiro desagradável de sexo mal lavado e após tantas desventuras, nossos dentes surgiram tortos, os olhares perderam-se em rugas, os corpos secaram e feneceram tal qual a relva verde dos campos.
Desloquei minha cabeça para fora do carro. Respirei fundo. Reparei que papai não trocara o pisca esquerdo. Alguém o quebrara. Decerto foram moleques. E até a lataria do automóvel não estava em um dia normal e brilhava de forma obscena.
Gostaria que Marina soubesse naquele momento, o quanto era pornográfica a existência do mundo.
Quis dar o troco. Soltei uma frase grosseira. Pedi a carteira de volta. Marina entregou-a com displicência, sem fechar o porta-moedas. O que eu faria agora com uma carteira feminina dentro do meu guarda-roupa? Gritei:

- Você nunca me amou! Quero o anel do noivado de volta!

A restituição do anel tinha a simbologia da perda do ouro. Forçaria a mulher a encarar o prejuízo.
Marina não usava a aliança. Esquecera-a sobre a cômoda. Não havia saída.
Soltei-me de vez:

- Você tem outro! Aposto que nem estava me esperando.
Você tem outro para ejacular na tua cara.

Ela abriu a porta e correu até o portão sem conseguir abrir.
Fui atrás, corri de forma pesada, sentindo-me suplicante.
Eu buscava a explicação, a reconsideração do rompimento, um pedido de desculpas, uma declaração de amor. Fiquei ali. Marina estava apreensiva. Estendia o braço esquerdo contra o meu peito. Mão fechada.
Meu olhar tornara-se coxo e esmolava o reatamento. Esmolava a penúria de uma chance.
Alguém lançou aviões de papel do alto de um prédio vizinho. Os aviões desceram devagar, planaram. Conclui que bombas cairiam dos artefatos.
E aquela que poderia ser a minha sogra chegou à janela.
Perguntou o que estava acontecendo. Ouvira gritos. “Nada!” Ficamos em silêncio. Minha respiração era um motor de caminhão.
Marina cortou-me e, por fim, usou a expressão que eu jamais imaginei ouvir de sua boca:

- Sai daqui, cara! Você está com o diabo no corpo!

O diabo no corpo? O diabo no corpo? “Este corpo não te pertence!” – diziam os pastores exorcistas. O jargão evangélico usado contra mim e logo contra mim, tão ajustado às expectativas da igreja, tão dentro da linha do tempo cristã. Não me contive. Sai e não olhei para trás.
Por pouco não arrombei a porta de casa. Encontrei papai folheando uma revista de aeronáutica e contei-lhe o episódio. Ele definiu a situação da forma esperada:

- Era uma puta, meu filho.
-Isso é bem típico do senhor. A putaria é a medida de tudo. - Eu não tenho medida para nada. Eu não estou aqui para
medir ou pesar... não sou açougueiro.

Preferi ficar em meu quarto. A clareza de papai me perturbou e ainda me perturba.
Amanhã é a festa dos namorados. Acabo de imaginar uma outra Marina. O seu rosto suave paira sobre um cenário nublado. Ela pisca os olhos. Estou deitado em sua cama de solteira. Minha noiva olha-me compreensiva, saída do banho, estende as mãos. As paredes giram, despenco e trago na queda, a traição e os travesseiros.
É inevitável não sentir a náusea que me obriga a muitas conclusões. Meu corpo foi carne barata entregue ao prazer dos fiéis de um “fast-food” evangélico.
Marina tornou-se uma combinação do sujo com o limpo, do ferro velho com o aço inoxidável. Sua casa era uma mistura de leite de vaca e talheres enferrujados. Eu me oxidei. Vinte e três anos naquele portão. Quarenta naquele instante. A velhice de súbito.
Mal reparei que nos últimos dois meses, o namoro estava diferente. Somente nos víamos aos sábados.



















O mugido da santa

Desço após o banho. Papai varre o chão da cozinha. Desde que perdeu a esposa adquiriu a mania de limpeza. O seu ímpeto higiênico irrita agora. Não posso vislumbrar aquela vassoura no meio de tantas situações problematizadas dentro de mim. Contar os pecadores de parte desta cidade. Contagem, ato de narrar. Narrar pecadores, soltar suas histórias, soltar seus erros, soltar peixes na correnteza do meu relato, encontrar o Altíssimo no meio dessa rede.
Estou sozinho na empreitada, somente eu desconfio do Onipotente que se recicla como uma panela de ferro encontrada em um aterro sanitário.
Semana passada aproximei-me da casa de Marina. Vi um homem na sala de estar. Era o novo namorado. Ela desistira de mim sem considerar que, em nosso noivado, havia contundentes e simbólicos planos de amor que poderiam, pelo menos, conservar uma saudade, uma meditação que durasse mais do que três meses.
Escondi-me atrás da figueira da esquina e Marina ajeitou o cabelo. Riu. Parecia saber da minha vigília e do quanto o seu sorriso desprezava a minha existência e a existência de qualquer outro pecador que lhe rogasse atenção.
Ah, que linda a estampa, o gestual de Deusa. Assim a vi e isso doeu. O meu estômago acusou um remoinho, uma ferida, fisgada de úlcera que provoca medo. Medo do boi antes do abate.
Meus músculos perdiam força.
Tive vontade de gritar. Gritar Marina. Soltá-la de mim. Ela que naquele momento surgia tão isenta de vícios, tão elegante, até dissimulada. Eu quis sair dali e correr. Não antes do grito:
- Vaca!


A mitologia da pedra.

Chego. Quis que a antiga pedreira de Santo Amaro fosse o marco introdutório da minha missão. Dizem que ali se encontra uma grande pedra.
A pedreira é o ponto final do ônibus no qual embarco, apesar da placa do lotação indicar como destino um lugar chamado Eldorado.
Desço na rua Prof. Cardoso de Melo Neto. Não vejo ninguém. Sigo o asfalto, a estrada de terra e contorno o muro da pedreira vazia. No mapa de São Paulo, o lugar é um branco e de fato seria somente um branco não fosse o morro. Avisto-o ao fundo. Um morro escuro e isolado no meio de um terreno. Uma grande pedra como disseram, arruinada pela produção de seixos. Tiraram um pedaço com dinamites. As pessoas reclamaram dos estouros e desativaram a pedreira. Uma criança diria tratar-se de um meteoro. Sim, um corpo gerado no espaço sideral que se afundou na terra e determinou-se a cumprir sua órbita estúpida.
Atravessar o planeta.
Subo a rua porque o correto é subir. Julgo que ao redor daquele terreno existirá uma ousadia, um atrevimento que mudará o que sei sobre os homens e sobre o Altíssimo.
A subida é íngreme. Estamos em junho. O sexto mês do ano. Muitos dias vividos inutilmente. Quero zerar o cérebro. Procurar desígnios divinos exige o absoluto, exige estar pronto para tudo não sendo nada.
Ultrapasso a primeira divisa de São Paulo. A cidade de Diadema começa logo ali. Subo. Em determinado momento, visualizo a represa Billings. Peregrino até o extremo do habitável, onde mato, barranco e linhas de formigas se repetem. No fim do rastro encontro uma casa bem simples, branca, esquemática, com tranqueiras acumuladas sobre o terreno. Conto quatro privadas, uma carroça emborcada, cinco calotas e surpreendo-me. Justamente do quintal daquela casa, a represa surge deslumbrante. O sol vermelho do fim da tarde brilha somente neste ponto do mundo. O ponto das privadas.
O visual vale a foto. São cinco da tarde. A dona da casa recolhe roupas no varal e ao seu lado, dentro de um caixote, um bebê mexe os braços.
Pergunto a mulher se posso fotografar a represa. Ali a vista é muito bonita. A mulher permite. Tiro a foto. A imagem será um presente para Marina que se transformou no próprio barranco e esconde-se atrás da vegetação que despenca dali.
Digo que sou fotógrafo de um jornal importante. Invento o nome do tabloide. Procuro lugares que mostrem a beleza oculta de São Paulo.
A mulher grunhe, ali nem é São Paulo. É Diadema.

- O senhor quer café? – oferece enquanto coloca o caixote do filho dentro da casa. Aceito e entro. Quero conversar. Sento em um sofá e pergunto:

- É seu filho? Qual a idade?

- O Enerson fez seis meses.

Mal ouço a resposta. Percebo as inúmeras cataporas no corpo do menino. Desconcerto-me.
O cheiro do café se espalha e o barraco diminui o tamanho. Apenas um quarto dividido por largas cortinas de fios de plástico. Já as vi em bares. Parecem espaguetes.
Recebo o café para observar os poucos móveis e objetos. O liquidificador azul celeste destoa do amarelo reinante.A geladeira redonda parece congelar a boneca de cabelos platinados que jogaram sobre a cama.
Paro de admirar o local quando detecto os maribondos. Na mesa pousam três. Enormes colibris escuros. Alguns escalam a porta da frente. Outros dominam a maçaneta. Estou dentro do ninho. Eles aterrissam em minha perna. Dois examinam a bolsa. Afugento-os. Eles voltam. Um grupo dominou a geladeira. Os maiores capturaram o fogão. Descem sobre o bebê. Pulam na fralda. Na janela um esquadrão parece marchar pelas patentes.

- A senhora não se preocupa com o ferrão desses maribondos?

A mulher responde que eles não mexem com gente, só aparecem por causa da represa.
Aviso-lhe que eles poderiam fazer mal. Passar uma doença ao seu filho. Criar um ninho do tamanho do morro.

- Ah, não passam não... – a mulher ri.

A displicência me impressiona e chego a rogar para que ela chame a vigilância sanitária, os bombeiros, a guarda-civil. Resolvo fechar a boca. Temo que os insetos descubram a fragilidade da minha língua.

- Eles não mordem – ela conclui.

Saio da casa. O que vi ali dentro? Um descalabro ambiental e somente isso. Tranquilizo-me. Não estou dentro de uma praga bíblica.
Encosto-me ao tanque de roupas. Os furúnculos no corpo da criança podem ser alergia ao calor ou alguma doença bixiguenta própria da idade e da condição social daquela família. A providência não castigou aquela mãe.
Por que sempre os insetos atuam em alguma justiça divina? Se eu acreditar nessa hipótese não poderia estar ali. O Criador se confirmaria na sucessão de pragas que os chefes da igreja anunciavam e eles estariam certos.
Olho a represa e penso no mar da Galileia. O Mar da Galileia agora é esta represa. Fotografo um pôr do sol igual ao primeiro dia da criação e respiro.
A dona da casa despeja uma bacia com Cândida perto de mim. Ela pergunta se eu não quero mais café. Já afugentara as muriçocas. Respondo que não. Agradeço a hospitalidade e desço dos meus barrancos mentais. Quero sair.
O sol e a represa cheiram a água sanitária.












Corpos de papel

Chego em casa e papai dorme sobre o sofá. O peso do seu corpo afundou a espuma do móvel. Papai se estira. A barriga aponta para as paredes como um canhão. Ele se vira e chama pela ex-mulher. Seus sonhos tornaram-se uma calamidade. Sem perceber ele joga longe uma revista da Força Aérea Brasileira. Novamente aviões de papel, novamente um esquadrão de maribondos. Preferia que papai trouxesse alguma revista de mulher pelada. Apreciasse a fuselagem do corpo feminino.






















Com este símbolo vencerei.

De manhã, sigo até o Aeroporto de Congonhas. Acredito que os buscam o Criador merecem o pouso de aviões autênticos. Há um bar no saguão principal. Encontro uma mesa atrás de uma coluna e peço cerveja. Meu relógio marca onze da manhã. Bebo até as duas. Os copos quebram as minhas ideias de perscrutar a periferia. Saio e me posto no meio do saguão. Examino a abóbada que ali imita o céu. Azul, azul até me enjoar. Penso em chorar. Quem se importa? Em aeroportos e rodoviárias comportamentos bizarros são tolerados. Quem se importa? Em Congonhas constata-se que o mundo é transitório.
Não me sai da cabeça o sorriso de Marina. Um dia ela disse: “Não pensar em Deus às vezes não é pecado. Ele permite que você seja feliz sem a sua interferência.”
Quase compreendi o que ela tentava afirmar. Fiquei na beirada. Cogitei diversas hipóteses, nenhuma me convenceu. Não compreendi e estou aqui vivo.
Ando pelo aeroporto. Reparo os balcões, o despacho das bagagens. Visualizo a pista de pouso e noto a desolação do concreto que some no horizonte. Subo ao restaurante. Dali vejo aeronaves que passeiam pela pista. São templos evangélicos. Ajudam a manter a crença no insustentável.
A salvação - dizem os estudiosos - se produz mediante a fé, obediência, imersão em nuvens e no oxigênio das cabines pressurizadas pelo Todo-Poderoso.
Saio em busca de paz.




O desafio

Encolho-me nos assentos de dois ônibus. Sinto frio. Chego novamente ao Eldorado (estranho batizarem um lugar ermo com o nome da lendária terra do ouro). Desta vez entro na pedreira vazia, gigantesca, rejeitada. Percorro a estrada que atravessa o terreno. Poucas árvores. O lugar ficou surdo após as dinamites. Paro em frente ao que restou da montanha. Avisto o paredão enorme.
Chego perto.
As explosões formaram figuras em baixo relevo nessa parede. Elas esculpiram uma casa, barco, um homem sobre um cavalo. Que interessante. Dom Quixote trota dentro da pedra. Executa um movimento que não é descabelado, senão concentrado. Trota com perfeição para o mundo admirar. Aposto que ninguém o viu. Visualizar a imagem depende da hora, das sombras, do observador, sua imaginação, fé no inusitado, tristeza, conhecimento dos personagens de Cervantes, moinhos, Dulcineia e prostitutas.
Observo as narinas do cavalo. Elas saltam da pedra. O bafejo do quadrúpede é uma golfada mineral. Imagino que em noites de lua cheia, a figura se destaca do morro, se posta no meio da estrada e desafia os passantes: “O Senhor é o rei eterno. Cantai a glória de seu nome ou tua cabeça rolará”.
Minha cabeça rolaria. Minha cabeça rolaria triste. Procuro o Altíssimo neste instante com a ansiedade de quem quer usar as mãos com os dedos amputados.






O cavaleiro

A Pedreira se liga a vielas com poucos barracos. Estas quebradas são muito semelhantes. No futuro uma favela explodirá aqui. No futuro a miséria será a dinamite desta pedreira.
Caminho pelo terreno até escurecer. Não sei onde estou. No primeiro anexo do purgatório passeiam espaventos e viralatas. Mas não me desespero. Imagino que Jesus também caminhara em paragens estilhaçadas e por isso estou aqui.
Sigo uma trilha em talvez chegue à Estrada do Alvarenga. É noite. Aparecem vultos, mulheres de tetas volumosas e casinhas brancas. As mulheres resmungam. Não traduzo o dialeto primitivo. Outras mulheres puxam crianças pelos braços. Três velhas passam tossindo. Estou no meio de um quilombo. Abro todos os sentidos e ouço o som de um galope. O trote vem distante, vem chegando perto. Não me viro para o inefável e o cavalo do galope estanca ao meu lado trazendo um homem gordo. Tão gordo que a sua barriga puxa os botões da camisa. O cavaleiro pergunta o meu nome. Repito a história do fotógrafo, afirmo estar perdido. Procuro a Estrada do Alvarenga.
O sujeito ri e aponta o passagem à esquerda. Devo seguir até uma guarita, pegar a rua dos Espadartes até o fim que dará na Alvarenga.
A gentileza do cavaleiro me comove. Pedras podem ser caridosas. Sigo pela ruela indicada. Viro-me e reparo o gesto inusitado. O homem me acena.

Ah, do alto do seu pangaré (era somente um pangaré) o cavaleiro me acena. Eu aceito o gesto para amarrá-lo à história da minha vida. Quis ser insistente e perfeccionista. Estranhamente buscava tais qualidades. Antigamente, após ouvir os sermões dos pastores da igreja Deus é sabor, acreditava que o Todo-Poderoso seria a fusão entre o Banco e a igreja. Não creio mais naquela idealização. Todavia, estou aqui, ignorante do que eu fui e ainda espero um aceno do Criador.




























Primeira avaliação

Eu tenho a necessidade de buscar alguma coerência. Procuro o Onipotente atrás do formigamento que a brutalidade daquele lugar é capaz de gerar.
Despenco para casa e papai conta o dinheiro em sua carteira.

- O senhor jantou?

Ele se desconcentra e respira com dificuldade. Reclama da falta de dinheiro.

- Se você abrir a geladeira tem macarrão.

- Não quero comer macarrão hoje. Parecem cortinas de botecos.

Papai não escuta o que digo. Ele conta o seu dinheiro. Mais tarde contará os espaguetes congelados.












Primeiras conexões

Às três e meia da tarde saio do meu quarto com dor nas costas. Dormi no chão. Almoço as sobras do macarrão de ontem. Enrolo as tiras na colher. Mastigo as cortinas da casa dos maribondos. Recordo os insetos em marcha, sinto o gosto do azeite.























O primeiro bar

Tantos delírios apenas me empurram de volta à peregrinação. Entro no ônibus rumo ao Eldorado. Ah, no terceiro dia a Pedreira se abrirá. Jeová sairá enfim. Ele esteve dentro da pedra, irmãos. Ele não queria se quebrar.
O dia esfriou. Um vento gelado entra pelas janelas emperradas do lotação. Carrego um casaco. Visto-o e aperto as mãos. As janelas estão abertas, minhas costas doem, minha respiração também emperra e concluo que hoje não posso ver a pedra, que é escura e grave e antiga. Com esta dor aguda na coluna seria um sacrilégio. Não prossigo até a pedreira. Voltarei amanhã.
Desço na Avenida Interlagos, perto da avenida Yervant Kissijakian. Percorro a avenida até a praça da Vila Joaniza e o meu relógio marca dezoito horas. O comércio fecha para a escuridão que chega. Paro em um bar e tomo café. Examino as frituras. São muito instrutivos os botequins com os seus torresmos fossilizados. Fotografo os dinossauros. O local esvazia os clientes. Nada a pensar agora. Sinto o encosto da cadeira e miro os desenhos dos azulejos. Exageraram nos losangos.
Na parede atrás do balcão, grudaram a estampa de uma mulher seminua. Ela oferece a cerveja “Pantanal” de Mato Grosso. A mulher abre a boca e segura a garrafa. Qual será o amor que aquele sorriso propõe? Hoje é tão natural vender os dentes. Em outra época isso não seria possível. Outra era, antes da criação da minissaia, da boca esperando beijo, dos pássaros que limpam a mandíbula dos peixes-boi.
Bato uma foto e peço a cerveja Pantanal. Sinto um gosto de barro. Engarrafaram o Pantanal de Mato-Grosso. Minha língua estala jacarés. Saio. Subo três quadras e deparo-me com um palco e o início da festa junina de Santo Antônio.

A festa

Montaram barracas de doces, carnes, pastéis. Crianças ensaiam quadrilhas e mães aplaudem. No palco, quatro adolescentes cantam uma marchinha inaudível. Cinco mulheres assistem o show. É uma enorme plateia de mulheres.
Reparo o palco. É bem sólido. Uma estrutura incompatível com a delicadeza do santo. O tablado deve aguentar multidões. Provavelmente a construção serviu para algum comício político e foi deixado ali aos cuidados da comunidade. “Podem tomar conta dos troncos”.
Tento disfarçar a minha condição de intruso. Peço um espeto de frango em uma barraca. Converso com o dono. Acho que é o dono da barraca, somente ele abana o carvão em brasa. O homem garante vender muito em festas juninas. Tira o troco de um verão. As pessoas não comem muito no verão. Tem o natal que sai uma coisinha ou outra, mas o bom são as festas de São João.
Peço outro churrasco e passo na farinha. Coloco pimenta. A pimenta me acende. Anoitece um cheiro de arroz úmido.
Muita gente chega ao balcão e o homem não pode mais conversar comigo. Encosto-me em um muro. As apresentações musicais finalmente terminam e luzes roxas iluminam o palco. Estou bêbado. Sento-me e pernas pisam dinossauros soltos pelo chão.
Estou completamente embriagado. Sei disso porque todas as garrafas brilham. Elas formam um rastro na calçada. Levanto-me. Sigo a trilha. Os vasilhames chegam a um boteco de paredes embaçadas. Fotografo o embaçado. Um homem barbudo, de camiseta branca sai do bar e esbarra na porta. Reparo o rasgo na camiseta que lhe fura o ombro. O sujeito também tem um rasgo na barba. Ele empaca na entrada, solta um pelo amor de Deus e me encontra. Seu olhar cai sobre mim. Quer saber se eu não sou o filho caçula do seu João, borracheiro. Respondo-lhe que não, meu pai é mecânico de aviões, eu moro no Jardim Aeroporto.
Ele examina a máquina fotográfica. Levanta o queixo. Desconfia do clique luminoso que sairá dali, mas puxa duas banquetas e convida-me a sentar perto do bar. Pedimos a cerveja “Pantanal”. O cara revela-me que também adora aviões. Trabalhou na Infraero em 1978 e 1979. Hoje trabalha na construção civil e faz outros bicos. Depois me olha melindrado.

- Você não parece da polícia.

Explico-lhe que trabalhava em um jornal, que me deram a incumbência de fotografar a cidade. Captar o ambiente. A característica única de cada bairro. Dali e da Vila Prudente, Penha, Santana... Qualquer lugar. Da Água Rasa até a represa.
O barbudo acredita. A câmara concede credibilidade à história.
Não quero falar sobre o meu projeto de prospecção. Dizer que acredito que a fé dessas pessoas, as marchinhas daquela festa junina podem evitar miasmas espirituais que se espalhariam por São Paulo.
Ele me cutuca e quer que eu reavalie a minha tarefa.

- Olhe os tijolos, as casas mal acabadas. Laje sobre laje. Casa de filho construída em cima da casa do pai.

Tomo um gole da cerveja e o som de alguns pandeiros arranham a minha língua.
Parte do povo some. Entraram na igreja. Fotografo a igreja. Estou embriagado. Viro-me para cinco homens que sentam ao nosso lado. Os pobres-diabos cantam a história de outro pobre-diabo que mesmo alertado sobre a perfídia da ex-mulher, mantém a perdida presa ao peito.
Os traídos estão bem vivos. Espalham-se pelo mundo. A ausência da mulher os fortalece. O gosto da traição é o ato da criação que experimentam.
O barbudo me oferece mais bebida e convida-me para ver sua casa. Acho que pretende ser mais enfático quanto à pobreza do lugar. É só pobreza. Fica perto, no fim da ladeira.
Desço a ladeira, entro em um terreno, desvio-me de varais que sustentam lençóis brancos e tapam a visão. Um vizinho solta rojões. Chego à casa que é uma sala de terra batida com cerca de trinta metros quadrados, sem janelas e sem fios de macarrão. O banheiro é lá fora.

- Aqui dormem catorze. Quatro homens, quatro mulheres, duas crianças maiorzinhas e quatro bebês. Também tem um cachorro.

Esfrego os olhos para não me constranger. Observo e relaciono os cacarecos. A família possui seis colchões de solteiro. Agora estão empilhados. Encostaram o berço do outro lado. Colocaram a televisão sobre quatro listas telefônicas. Não vi fogão e geladeira. Também não vi o cachorro e as crianças, mas três ventiladores coloridos e um espelho pregado na parede decoram o local. O isopor com mantimentos está sem tampa.
O Altíssimo que procuro não está neste recinto. Não se esconde embaixo dos colchões. O espelho da parede somente reflete a miséria em pedaços coloridos.
O cachorro não deve ocupar um espaço.
O discurso do barbudo - uma verdadeira missa sobre a penúria - termina e retorno à festa. Os rojões não param. Continuo a beber e as marchinhas tornam-se mais audíveis. Fiz bem em deixar de ser cristão de igreja e tornar-me puro através da busca do Todo-Poderoso que se deixou cair ao relento.
O dono dos colchões continua ao meu lado.
Você tirou alguma foto?
- Sim, fotografei os ventiladores.
Um mendigo bêbado surge dos fundos. Bitucas de cigarro cheiram vira-latas. Fotografo o bêbado. Fotografo as bitucas. Entro na igreja e a sala de oferendas concede-me a humildade de pernas e braços de plástico que se assemelham a outras pernas e braços, salvos por alguma promessa. São membros e membros amontoados em uma pequena sala. Passam a impressão de uma mal acabada incineração de corpos humanos.
Uma mulher recebe moedas na porta da igreja e vislumbrando a mendiga, pesa-me a farsa que eu perpetrava no BBDC. Sempre que possível, deveria convencer clientes a contratar empréstimos. Nessa persuasão eu falava mal do governo, da inflação, do peso do pão francês. Do meu salário eu reclamava muito. Dizia, porém, ter a vida organizada. Um empréstimo acerta a vida ali na hora. E as pessoas que geralmente eram pobres e precisavam de dinheiro, aceitavam o crédito fácil sem perceber os juros embutidos.
Fui um Judas. As trinta moedas giraram em minha cabeça. Dei as mãos para gente que enganei. Falei Jesus nos protegerá.
Desprezei idosos que me concederam uma esmola de sua atenção. Tirei o leite de crianças.
Alguém chama o tal barbudo. Ele pede que eu o aguarde. Não espero. Fujo do festejo e perambulo pelo bairro. Descubro outra comemoração em uma escola e uma terceira distante meia--hora de caminhada. A primeira quermesse era a principal, embora todas pareçam brotar de um único papel crepom.
Vários idosos participam do bingo. Uma mulher repete números e o prêmio são quatro latas de marrom glacê e goiabada.






























Pequenos abutres avaliam a presa.

Volto à primeira quermesse e bebo até segurar postes. Agarro um dos mais inchados. Encosto-me. Ao meu lado dois meninos, treze anos, jogam pedras em uma garagem e conversam. Ouço o diálogo, ouço e parece que engulo os maribondos daquela casa em Diadema.

- Oh, cara, se tu quer comer a mina, tem que gastar dinheiro! afirma um dos meninos.

- Eu não quero gastar grana com piranha.

- Não é piranha, cara. É mulher! E tem que mostrar a grana.
Ver que ela viu. Fazer volume da carteira na bunda não adianta.

Os dois têm o sentido da ostentação e da luxúria. Teorizam sobre a extorsão sexual. Tornaram-se aves de rapina. Avaliam carcaças sobre a planície.
Sinto-me deslocado. Perdi muito mais do que pensava sobre as mudanças do mundo. Alterações que incluíram esses dois meninos. E se alguém os ouvisse agora, tão prescritivos quanto certos crentes, anunciaria a criação da nova igreja do “Deus na livre necessidade orgástica dos pivetes”.

Um dos moleques mete a mão nas calças. Diz que vai embora. Puxa a pipa vermelha que carrega. É uma criança. Enrola a rabiola do brinquedo. Examina a folha de seda. Calça o chinelinho. Eu também sou muito pequeno. Trabalhei no banco BBDC. Entrei na comunidade evangélica e não assinei apólices de seguro de vida. Agora minha vida não pode mais ser restituída.
Marina se escancara de vez. O romance não deu certo e o moleque descobriu a razão. A minha busca pela transcendência descobriu que aquele amor tinha a lógica financeira da igreja “ Deus é sabor”.
Recordo-me de uma frase da Bíblia: “As sombras cobrem a sua sombra, os salgueiros da torrente o rodearão”

























Anjos da periferia.

São duas da manhã. Quero dormir em casa. Papai não me empresta mais o carro. Pego um ônibus madrugador que atravessa o viaduto da Avenida Cupecê, sobe a Washington Luís, e vira à direita na rua Tamoios. Estou em casa. Papai assiste uma luta de boxe pela tevê. Tiro o filme da máquina e anoto o que vi em um caderno. Os meninos da festa, catorze pessoas e um cachorro dormem em um casulo.
Tomo banho. Não tenho coragem de lavar os meus cabelos. Não se lava o cabelo com a miséria na cabeça. O shampoo e o condicionador removeriam alguma verdade impregnada nos fios. Aquele barbudo antes de mostrar-me a casa, afirmou que eu era boa pessoa, visualizara em mim uma auréola azul.

- Muitos aqui no bairro também enxergam essa luz.

Alguém na periferia acredita ter a medida da fé.













Pecadores guardam os domingos.

Mal dormi. Acordo às nove da manhã. Tomo café com bolachas. É sábado. O tempo frio desocupa a cidade. A beleza das ruas desertas é tocante. Nota-se o asfalto roxo. Dias roxos me trazem lembranças e começo a acreditar que um dia as cores da minha primeira infância vencerão a tristeza. Deus não será mais a máquina que conheço e funcionou durante muitos anos em minha vida.
Sigo até o ponto de ônibus em frente à favela do aeroporto. Entro no veículo e outro passageiro sai. O homem despede-se do motorista. Vai chegar tarde no trabalho.
Neste fim de semana não tenho o direito de perscrutar nenhuma parte do subúrbio. Volto para dormir e durmo. Atravesso o sábado, acordo às três da tarde de domingo. Acordo gordo, o sono alimenta e a palavra do Senhor chegará aos homens que tem sede de justiça.
Papai não está na sala. Se existe algo sagrado em papai é seu respeito pelos domingos em frente à tevê. Procuro-o em seu quarto. Ele está sentado na ponta da cama e cheira um saco plástico. Não entendo a cena, por instantes, tento enquadrar o seu comportamento. É uma tentativa de suicídio? Está no rol das tentativas de suicídio possíveis? Ninguém morre por afundar o rosto em um saco plástico. Chego mais perto e chuto a lata de cola de sapateiro.

- Papai! O que é isto? O senhor não é moleque.

- Não me incomode!

- Acho que eu vou chamar o juizado de menores.

- Não me incomode! O sapato descolou e eu decidi colar a cabeça.

Papai ri. Ele sabe que aquilo é vício de pivetes. Mas como posso condená-lo? Não vejo diferenças entre delírios. As sensações de prazer pela inalação da cola de sapateiro já chegaram as narinas dos santos e pastores.
Papai volta a rir. Parece que um espírito intruso quer invadir o seu corpo. Aliás, por pouco este duende não se manifesta. Papai chega à janela e solta um arroto.

- Leve esta merda daqui.

Peguei a lata. Olho a gosma e penso em cheirar também. No impulso lembro da Marina e aquela gosma torna-se a lembrança de um jato de esperma sobre as suas costas. No dia havia uma grande toalha debaixo da cama. O esperma chegou ao cabelo e grudou em seu braço esquerdo. Marina disse que esperma tinha cheiro de cândida. Não quis verificar. Também não quis saber quais os elementos comparativos ela tinha para confirmar a cândida no nariz. Jogo a lembrança no lixo.
Fecho o espírito dentro da lata.









Pecadores do primeiro século

A segunda-feira chegou junto com um furúnculo no polegar direito. Marina sai pelos poros. O meu sistema imunológico quer expulsar o corpo invasor. Resolvo cobrar satisfações. Imagino o discurso. “Marina, ninguém é dono de ninguém, mas eu merecia o dobro”. Vou até a sua casa. Fico escondido atrás da figueira e espero sua saída. Ela gosta de passear quando está de folga. Vai a padaria comprar sorvete. Volta lambendo um picolé de uva. Nunca o morde.
Ela não aparece. Está nublado hoje. Não faz sentido chupar gelo colorido.
Eu me perco em elucubrações e quase não percebo a chegada do seu novo namorado, o mesmo que eu flagrara em sua casa outro dia. Ele atravessa o portão. Reparo que são duas horas da tarde.
O que é um hábito consolidado? Não importam os horários ou quem está agregado a sua vida. O que vale são os pelos, o sarro, os lençóis.
Ela fecha a janela do quarto. Faz parte o ritual. Os vizinhos desconfiam. Ela não se incomoda. Imagino a contínua felicidade de Marina em enganar a expectativa dos pais. Antes eu julgava tão excitante. Agora me sobe este ódio. Corro até um telefone público, ligo para a sua casa. Ela atende. Solta um “Alô!” cansado. Procuro ser irônico: “ Interrompi algo?” E ameaço:

- Olha, telefonei para o trabalho da tua mãe e avisei que você não está sozinha. Ela vem conferir a denúncia e quer atirar a primeira pedra.

Marina solta um “Ah!” e, em cinco minutos, assisto o seu amante mal abotoado fugir da casa. Ele olha a vizinhança. Está me procurando. Marina abre a janela e manda um beijo.
Interrompi seu coito matutino, suas trinta e seis horas de prazer.
O comportamento de Marina me dói. A traição atravanca a minha goela. Sinto a perfídia, a espinha de peixe e percorro as estreitas gargantas do mal.






















O aborto

Terça-feira e quero esquecer Marina. Desejo produzir muito sem essa mulher.
Comprei dois filmes de vinte e quatro poses. Saio com a máquina fotográfica. Pego outro ônibus que desce a avenida Kennedy. Estou do outro lado da região em que me diverti na sexta. Desço da lotação em um ponto movimentado. São duas de uma tarde quente. Entro na primeira ruela e desta vez fotografo apenas as casas pintadas. Escolho os melhores ângulos. Descubro uma casa de cor lilás. Na periferia, aqui e ali surgem construções de cores exóticas. Passo em frente a um fusca sem as rodas. A carcaça do automóvel é sustentada por paralelepípedos. O que pretende o dono com aquela ferrugem? Tiro uma foto de frente. Quero mostrar a humilhação do veículo diante dos vizinhos. É um pedaço de carro como tudo aqui são pedaços dos bairros ricos.
Algumas mulheres descobrem a câmera e fazem pose. Pedem que eu as fotografe. Querem saber o preço. Se eu revelava na hora. Não! Elas riem. Eu fotografo e saio. Volto à peregrinação e não presencio nada de extraordinário. Clico aleatoriamente. Quem sabe não surpreendo meninos com recheadas carteiras na bunda.
Ando três quadras. Viro à esquerda. Fotografo Kombi sustentando telhado. Portão preso por arame. Caixa- d`água aberta para a chuva. Tudo são admiráveis arranjos.
Sigo duas quadras e estranho uma rua. Ela parece uma rampa. Não vejo uma continuidade ou muro. A rua despenca. Tão abrupta que imagino um abismo. Se fosse um rio, eu estaria próximo a queda-d`água, porém não há água ali, apenas uma falha seca, o declive quase na condição vertical, o início de uma ladeira pedregosa que abre a cratera que agora vislumbro. Um amplo buraco. Lunar.
Quem poderia criar um local tão incompreensível? Mais do que uma cratera é uma imensa espiral. As curvas da espiral são as ruas sem calçamento. Imagino também uma fenda de vulcão, inativo há tantos séculos, construíram casas em suas encostas.
Eu visualizo daqui o sobrado amarelo que passarei daqui a meia-hora, após percorrer estas beiradas e chegar ao ponto fixo da espiral, ao centro do Vesúvio, o portal através do qual a lava retornará um dia.
Fotografo. É um funil. Quero a imagem que melhor defina o lugar. Aquilo é uma espiral, saca-rolhas, casca de caracol, boca banguela.
Tiro a foto e desço. Impossível se perder. Todas as portas estão abertas por causa do calor. Mulheres conversam debruçadas sobre os muros. Outras deixaram cadeiras em frente aos portões. As mulheres aguardam um vento que não chega. E não chegará. Ele passa por cima. Aqui é um forno. Imagino o verão e crianças desidratadas socorridas nos postos de saúde.
No meio da descida, um velho de barba branca sai de sua casa e quer saber se eu era da prefeitura. Não utilizo este pretexto. Digo que sou recenseador do governo brasileiro. Minha função é fotografar e contar as casas. Tirar fotos para os arquivos federais. No ano 2050 conhecerão a periferia de São Paulo graças as minhas fotos. O sujeito arruma a gola da camisa. Penteia os cabelos com a mão esquerda. Alisa a barba. Bem amarela na altura da boca. O gestual demonstra o seu orgulho por ser finalmente objeto de pesquisa do governo. Por isso afirma solene:

- Pode tirar a foto.

Fotografo e o velho inspira-se e afirma que este presidente, o Sarney, é um bom governo. Ele é a árvore de uma raiz muito boa: do Sr. Tancredo Neves.

O homem fala do Tancredo. “Morreu para deixar um sucessor, um herdeiro valente, um continuador de suas obras”.
Desconverso e pergunto sobre a sua vida.

- O senhor mora aqui sozinho?

O homem é viúvo. A mulher morreu no ano passado. Eu lamento o ocorrido e para atenuar lembrança que despertei, afirmo que perder a esposa é muito triste.
O viúvo abre a boca e acena com a cabeça. Sim é triste. Depois examina o jardim da casa, onde um ajuntamento de flores vermelhas e encardidas decerto lhe trazem alguma recordação. Examino o seu rosto. Os fios da barba, espalhados no rosto, espetam a casa, o jardim, o muro. Concluo que deixar a barba secar daquele jeito foi o cumprimento de uma promessa. Um pedido de força para não perder a cabeça.
O homem diz que trabalha como marceneiro. Mostra-me um armário perto da porta. Tinha uma marcenaria maior em outra casa. Comprou antes de separar-se da mulher e vendeu logo que ela morreu, no ano passado, mas já estavam separados. Conta que o casamento durou sete anos e não tiveram filhos. Os filhos foram o motivo do fim do casamento. Ela não lhe dera um herdeiro. Ele queria. Ela dizia o mesmo e quanto mais falava em gravidez mais a gravidez sumia. Ele fez um exame, mas não apareceu nada. Achou que fosse um defeito da idade. Casou com cinquenta e quatro anos, que não é mais idade para ser pai. O exame deu negativo.
Ele me pergunta o nome. Não quer ser tão íntimo de um desconhecido. O seu nome é Waldemar.
O marceneiro continua. Quando saiu o exame a mulher, vinte anos mais nova, veio com uma história de que, antes de conhecê-lo, engravidou de um namorado lá em Salvador. Ela não quis a criança e nunca explicou o motivo. O certo é que pagou pelo aborto. O namorado não pagou nada. Uma amiga emprestou o dinheiro e as duas foram parar na porta do dentista, que não era dentista. Minha mulher sentiu muita dor. O dentista raspou tudo o que o dinheiro da amiga pagou. Ela estava no terceiro mês.
Waldemar senta em uma cadeira. Coça novamente a barba. Demora a confessar que na hora da história do aborto ficou com pena da ex-companheira até se lembrar dos anos de casado, do exame de esperma, de achar que tinha câncer no saco. O passado da esposa explicava tudo e o passado lhe deu um ódio porque ele sabia, quando uma mulher engravida é porque gosta do homem. Gosta do cheiro. Mulher tem um nariz que só Deus conhece. Ele pensou muito nisso. O corpo funcionou com o outro, não funciona comigo. E ficara dois dias medindo a traição, o prazer que a companheira teve com pai do aborto e a ideia de ter feito tantos planos para um filho que não viria e um dia veio de um estranho.
Waldemar termina dizendo que por ciúme, expulsou a esposa da casa. Não bateu na sua cara porque não era covarde. Ela pegou a mala e saiu de cabeça baixa. Levou seis meses e ela morreu de câncer do peito. E quando ele soube do falecimento e também durante o velório, ficou com pena e raiva de novo, porque mal ela saíra naquele dia e ele descobriu que ela era a sua vida e queria tê-la de volta de qualquer jeito, mesmo sem filho, com apenas um seio que o tumor levara, mas não sabia como pedir.
O viúvo despejou a história. Eu não quis prolongar o assunto. A sua culpa era enorme. Nenhum homem merece esta madeira, que não se pode lixar e você lixa.
Elogiei o armário da sala. O senhor é um bom marceneiro e saio dali. Fique com Jesus.
Desejo que o Todo-Poderoso permaneça com o viúvo, se bem que eu tenha dúvidas. A ajuda divina aos homens apaixonados pela ex- mulher é uma intervenção sem data marcada, principalmente se a ex- mulher estiver morta.
Retorno meio atordoado. Ainda pude ver o velho puxando um cigarro do bolso. Por isso a barba amarelada. A fumaça do cigarro queimava os pelos do rosto.
Paro em um bar e compro um chiclete. Quero afastar o mau hálito. Não encontrei sinais divinos aqui, embora haja um desejo de cola de sapateiro no ar.



















O rei Davi morto

Pego um ônibus novo que desce a avenida Cupecê. Quero retornar à casa do barbudo da primeira festa de Santo Antônio a pretexto de fotografar sua casa. Eu também preciso contar-lhe a minha desgraça amorosa.
Chego às quatro da tarde. A casa é um toco pontudo em uma esquina, perto de um bar com duas mesinhas. Foi fácil achar. Toco a campainha e ninguém atende. Bato palmas na casa vizinha. Uma mulher abre a porta. Pergunto sobre o vizinho. Digo não saber o nome. Conheci sábado na festa junina. A mulher lamenta.

- É o Matias que o senhor procura. Ele morreu. Assassinaram o homem no domingo. Ele e mais dois. Acho que foi a polícia. Disseram que era traficante. Também poderia não ser. Quem sabe de cada um é Jesus.

A mulher aponta a esquina, onde a tragédia aconteceu. Eu poderia ver a marca do sangue dos coitados. Os três chagados. A família estava no velório. Demorou pra liberar o corpo.
Ora, que absurdo. Não sei se a mulher disse “chegados” ou “chagados”.
Vou até o local da chacina e vislumbro a mancha de sangue. Uma criança contorna o borrão com a ponta de um tijolo. Vejo um carro de reportagem estacionado e viram os corpos na televisão. Considero o inusitado. O nome dele era Matias e dormia no chão com catorze pessoas. Talvez nove fossem mulheres. Ele era o rei Davi da Vila Joaniza. Morreu traficante. Deixou muito espaço, mas o cachorro deve dormir em cima das crianças.
Senti muito por aquela morte. As pessoas passam e consolam uma das viúvas que acabara de chegar.
O que causou a tragédia? Pondero sobre a minha vinda até ali: um estudo sobre o subúrbio, o desvendamento desta parte da cidade até o sacrifício de alguém. Um homem que eu conheci. Juntos bebemos muita cerveja ruim e ouvimos homens batucando. Ele não devia ter me exibido a sua morte. Isso faz o pensamento ricochetear na incerteza outra vez. Igual ao dia em que sai da igreja. Minha intenção era outra e agora o desvendamento do Deus que eu pretendia achar tornou-se a progressão de uma fuga, uma doença mental.
Saio. Pego o ônibus. Encosto o rosto na janela. Desço no Aeroporto de Congonhas. O teto azul do saguão principal imita a abóbada celeste. O céu está ao meu alcance. Sim assimilei a evolução das forças que me regem. A exploração terminou é certo e o Altíssimo não estava nas beiradas da cidade, ou melhor, estava porque quis que eu vivenciasse a procura. Isto é o melhor que consigo saber de sua natureza: Deus como impulso. Sim, este ímpeto me ajudará a cumprir a justiça que esteve latente em meu peito, desde o empurrão perpetradocontra aquele idoso no BBDC. Um desejo por integridade (minha arma entre tantas espadas) que corta o ar e faz escorrer sangue.
Sinto agora, neste momento, o esvaziamento que provocarei. O murro que darei naqueles que emprestam a fundo perdido, nos que banalizam a penúria humana: gerentes de banco, pastores evangélicos que se profissionalizaram, mulheres em um cargo de confiança.
Assim levarei a minha vida daqui para frente. Caminharei por uma vereda onde o retorno é impossível e lembrarei sempre que o exame topográfico da periferia de São Paulo transformou-se em um exame topográfico de minha consciência enfim acionada. Devo mostrá-la vigorosamente aos errantes que conheço.
Durante a madrugada sonho com jacarés em cima de um armário.

A eliminação do infiel.

Mudo de projeto e mudo bem. Saio da Vila Joaniza com o sangue de inocentes na cabeça. Subo e desço barrancos. Meu braço feriu-se no cerol de uma pipa. É isso. O assalto, a pedreira, os maribondos, aquela vertigem na escuridão do bairro, o cavaleiro, a boca pornográfica dos meninos no final da festa, a barba queimada do viúvo, o sangue circulado por um tijolo. Eles me indicaram o caminho. Alguém precisa ir em frente, perpetrar uma ação insignificante e contundente.
Penso logo no subgerente Armando. Ele será o primeiro a ser justiçado. Conheço a rotina bancária. Sei a hora da sua saída. Irei com o carro de papai.



















O credor

Hoje é sexta-feira, 19 de junho, o subgerente vem trabalhar de automóvel e deixa o estacionamento às sete horas da noite dirigindo um Santana azul. Sigo o automóvel e lembro-me do profeta Isaías: “O seu tempo está próximo a vir e os seus dias não se alongarão”. O funcionário modelo do BBDC mora no centro, em um apartamento perto da rua Augusta. Ele estaciona em frente ao prédio, fecha o automóvel e entra depressa no edifício. Carrega uma pasta. Quero entrar. Posso fingir ser funcionário do banco.
Minhas divagações não demoram muito. O infiel volta, entra no carro e sai. Eu o sigo. Ele liga o farol alto e circula muitos quarteirões. Após meia-hora, abre a porta do Santana para um adolescente de boné e jaqueta branca. Não se cumprimentam. Não estranho. A proximidade ao parque Trianon dá-me a certeza da façanha. Ele procura garotos de programas nas sextas-feiras, antes de sair com a noiva aos sábados.
A hipocrisia não deve ser tolerada. A simulação é um pecado capital, até em sociedades que relativizam os pecados. Recordo-me da inocente noiva do subgerente, visitando-o na agência. Loira tesuda, vibrante, óculos escuros, ombros reluzentes e um aspecto de Deusa dos bancários. Carimbava comigo o tíquete do estacionamento. Agradecia destacando o meu nome.
Suas coxas seriam tão bem vindas se ela as carimbasse em meu corpo. Infelizmente o seu casamento já estava marcado: luade-mel em Aruba, sem conhecer a inclinação homossexual do noivo.
O Alessandro dos “cartões de crédito” é o segundo na fila dos traídos.
O subgerente dispensa o garoto do Trianon após duas horas. Um táxi vem apanhá-lo e o adolescente sai pela garagem do prédio. Tenho a revelação do que poderia ser corrigido. Vou até a portaria e identifico-me. Sou o amigo do Sr. Armando que acabou de sair. Esqueci minha carteira no apartamento. Eu poderia subir.

- Apartamento 52? Esqueci o andar. Que cabeça!

Pergunto o número para o funcionário da guarita.

- Não é o 83?
- Isso... obrigado.

Porteiro mais ingênuo.

No hall do edifício concluo que ou os maus inclinar-se-ão perante os bons ou estes últimos serão condenados ao fosso dos elevadores do mundo.
Quantas almas não foram jogadas nas profundezas desse prédio? Posso escutar os gritos. Eles deslizam pelos cabos que seguram esta cabine.
Desço no andar e o apartamento está aberto. Entro e o algoz do BBDC aparece de roupão. Sai da cozinha e mal completa o espanto:

- O que é você... aqui?
- O que é você aqui? Que frase idiota!

Empurro o subgerente contra a parede, ele bate a nuca e abre os olhos.

- Você não recebeu o que tinha direito? – pergunta-me entre assustado e suplicante.

- Levanta, infiel. Você vai aprender a tratar melhor os teus funcionários – ordenei e desta vez com a voz mais firme que encontrei.

O subgerente poderia reagir, no entanto, a situação o desconcerta. Seus braços escorregam pelos móveis com a flacidez de um polvo morto.

Pergunto se a noiva sabia da pederastia. Não espero a resposta e chuto a sua perna. O cara despenca de vez e começa a chorar.

- Você sangrará, Dr. Armando.

Arrasto-o até a cozinha e encontro um ambiente aconchegante. Gosto da fileira de temperos exóticos na prateleira sobre a pia. Puxo o fio do liquidificador e amarro os braços do sujeito. Ele grita um socorro tímido e diz que sim, merece.
A fragilidade do bancário me traz uma tristeza. Afasto-a. Não titubeio. Procuro uma faca nas gavetas. Encontro. Lâmina bem grossa, cabo preto, afiada. Um punhal.
Punhal é o melhor nome para este instrumento purificador. Puxo o roupão da vítima. Testo o corte da faca em sua nádega esquerda. Um risco pequeno. O subgerente grita. Posso sacrifica-lo ali, torná-lo um bezerro sagrado. Tantas tarefas estúpidas naquele banco. Muitas vezes eu recolhia o cafezinho de sua mesa. Serviço de copeira e eu sonhava em progredir na vida. Estudar Economia ou Administração.
Finco o punhal na mesa. Surpreende-me o sangue que escorre da bunda do torturado. O dragão da agência Aeroporto está ali, prostrado. Não solta mais fogo. Não mostra mais os dentes.
De súbito, baixa-me a certeza de que aquela profilaxia não se completaria. Em São Paulo, nas noites de sexta-feira, o batismo não soluciona a ulceração do pecado e, afinal de contas, algo em mim não herdará o paraíso. Puxo o cabelo do maníaco e digo:

- Droga, embora eu saiba que o salário do pecador é a morte e que tu tens um enorme crédito. Não levantarei a serpente sobre ti. Não repetirei o gesto de Moisés. Você ainda nem perdoou os seus devedores.

A minha vítima chora e repete:

- Sim, sim obrigado. Eu sei de tudo... Aceito. Aceito agora.

O pecador está em outra.

Molho uma toalha que encontrei na lavanderia e jogo sobre o ferimento. O subgerente endurece o corpo e chora. Molha o chão da cozinha com a saliva que lhe escorre da boca. Dirijo-me à sala de estar. Sento-me no sofá e retorno aos momentos de reflexão durante os cultos na igreja saborosa. Meditávamos sobre os desígnios do Criador. Um dos pastores afirmava: “Examinem a luz delicada que está sob o teto do templo. A luz é Jesus, amigo dos homens, amigo de vocês que agora sofrem”.
Quantas recordações funestas.
Levanto-me e piso em dois preservativos usados. Cacos do delírio humano. Entro em contato com a portaria. Informo que o sr. Armando, o morador do apartamento 83, passou mal. Peço que subam.

Ajuda todos merecem. Penso em trocar a toalha suja de sangue, mas não quero me comprometer com um gesto de piedade. Desço pela escada de incêndio, saio do prédio e misturo-me aos transeuntes noturnos. Quanta gente passa por aqui. Tipos sombrios. Caminham pelo meio dos carros. Não utilizam a faixa para pedestres. Este gesto denota uma confusão mental, um oportunismo melancólico. Procuram uma saída pelo bueiro. Homens capazes de qualquer ignorância.






















Outras Madalenas

Percorro a rua Augusta. Chego à zona do meretrício. O monte de Vênus eleva-se dentro das casas noturnas. O relógio marca onze e cinco da noite. Entro em uma boate de nome “Sino’s Love”. O porteiro de gravata preta me informa as regras e o preço da “massagem”. Não ouço a tabela. Penetro o local. Encontro um enorme salão coberto por tapetes roxos. De um lado o balcão das bebidas, cujas luzes mal iluminam o recinto e do outro cerca de quinze prostitutas sentadas sobre o sofá estreito que contorna o estabelecimento.
Muitas garrafas de whisky foram organizadas nas prateleiras do bar. As garrafas estão bem iluminadas. As mulheres estão escondidas. O sofá é uma péssima prateleira.
O Bar-man oferece-me uma pequena porção de amendoim. Cortesia do puteiro. Encosto-me no balcão e examino as prostitutas. Duas conversam com os clientes. O lugar está vazio. Outras duas fumam. As demais conversam entre si e uma delas come um espetinho de carne. Está sentada no canto do sofá com um prato de farinha apoiado nas pernas. Um homem sai do banheiro.
A mulher deixa cair farinha no queixo, passa a mão na boca e ajeita o cabelo. Chupa o polegar esquerdo e segura o espeto com a mão direita. Olha rapidamente o esmalte das unhas. Gordura de carne bovina estraga o trabalho da manicure.
O apetite da piranha é uma incógnita: quem confiará naquela boca para um sexo oral. A prostituta termina o espeto e diz: “Vou escovar os dentes”. Profetizo: “Ainda hoje um pênis incauto sairá daquela boca cheirando a menta”.
Pergunto ao bar-man o nome da mulher. Seu nome é Priscila. Obviamente é o nome de guerra. Priscila do Espeto, concluo. O apelido excita-me e os amendoins salgam-me a língua. Nem sabem torrar essas porcarias. Carvão não é afrodisíaco. Engulo a porção. Peço um refrigerante e, porque pedi algo tão destoante do ambiente, reflito: “O que planejo nesta casa de tolerância? Aqui eu não posso condenar o subgerente que, aliás, dispensou testemunhas”.
A mulher espeto retorna da escovação. Senta, olha para mim e sorri. Retribuo o gesto. Resolvo chamá-la. Ela se levanta e a gerência informa. “Priscila, o seu marido chegou”. Ela levanta os olhos fingindo surpresa e sai apressada.
Imagino estar diante de um tipo raro de fetiche. O marido prostitui a própria mulher para em um dia incerto procurá-la na zona. Fingir que é um cliente qualquer, entrar na fila de espera. Especular o preço, o nome e a idade da profissional. Nasceu em São Paulo. Gosta dessa vida de mulher perdida?
O bar-man me explica não se tratar do verdadeiro marido, mas um cliente tão constante e fiel, que a prostituta gosta de tratá-lo desta forma. Era o marido.
Desisto do sexo. Peço um copo de água. Saio do local. Mentalizo a boca da puta, os maridos do mundo e que a salvação da minha alma passou pelo sal dos prostíbulos.










A árvore da felicidade

Segunda-feira. Decido visitar a agência do BBDC onde trabalhei. Entro e cumprimento o novo jalego. Passo a porta giratória, o balcão dos caixas e chego à mesa do sr. Armando que agora despacha relatórios e senta meio de lado. Eu me aproximo sem cerimônias hierárquicas. Sento na poltrona dos clientes e pergunto-lhe se o corte cicatrizara. Ele não responde. Fica me olhando, paralisado e confessa que compreendera a verdade. Agradece-me emocionado.
Saio do banco. Jeová mostrou a Ló o quão pura é a violência bem encaminhada. Meu ato no apartamento do pederasta teve o impacto do cajado de um pastor sobre a cabeça da ovelha desgarrada. Isso parece correto, embora eu não me sinta tão bem. Por que entrei no apartamento daquele homem? Por que fui tão violento? Eu não sou violento, embora agora tenha uma vontade de rir por não saber quantos pontos juntaram as pregas da bunda do subgerente.
O número de pontos é comprovação da obra que perpetrei. Perto da saída assusto-me com um chamado. A secretária do Setor de cobrança, a Beatriz, vem falar comigo e revela que sentiu a minha falta. Ela se abana com uma pasta vermelha e nem está frio. É um lance de escape, um gestual do mágico que quer distrair a atenção da plateia:

- Você está trabalhando, Ezequiel?

Digo que estou procurando. Ela me informa que soube do caso da bengala que derrubou o sr. Anselmo, que foram injustos comigo e convida-me para visitar a sua casa. Visitar a casa da Beatriz. Aceito porque não soube formular uma negativa razoável e além disso, o movimento da mulher foi surpreendente demais, ágil demais e ela ainda carrega um pesado rei na barriga. Anoto o endereço. Ela sugere na quarta. Morava sozinha. Antes morava com uma irmã que hoje vive na cidade de Americana. Tinha que cuidar dos nossos pais. Eles são muito velhinhos.
Surpreendo-me quando Beatriz afirma: “Você que é cristão sabe que, honrarás o teu pai e a tua mãe”.
Saio com a coincidência. Quem diria... a magrela. Nem falava comigo e sabe das minhas inclinações cristãs. Aquele paradoxo me provoca uma comichão. Era a antiga vontade de transar. Quanto tempo ela não se revelava e tão forte agora. A Beatriz do Espeto. Quanta carne. Quanta carne nós comeríamos antes do amor?



















O Sumo – Sacerdote

Chego às nove da noite ao apartamento de Beatriz. Ela abre a porta, convida-me para entrar, beija-me formalmente e pede que eu sente no sofá. Diz ainda que separou uma taça de vinho. Está na geladeira, porque vinho quente é um horror. Ela usa uma camisa que lhe estende os ombros. Soltou os cabelos e isso combina. O queixo está mais empinado por causa do salto alto, mas ela treme a boca. Poderia mascar um chiclete e disfarçar.
Os machos e os santos católicos possuem o instinto do felino. Cheiram a vítima a quilômetros e percebem no meio da manada, a zebra mais propicia à captura.
Um santo me diz: “Você faz bem em investir. Essa mulher vale a mordida”.
Ela usa uma camisa branca e saia de brim azul marinho. Quando sento no sofá, percebo que estou diante de uma colegial abandonada. A imagem é boa. Posso desenvolver o exato sentimento cristão de amor ao próximo que se relacionará com minha ânsia em ter relações carnais com aquela bancária. Na minha época de jalego no BBDC, nunca pensei em profaná-la. Agora os juros são outros, a inflação galopante sumiu e estamos diante da fome.
Ela traz o vinho e revela:

- Eu sei jogar tarô! Conhece? Você não sabe o quanto o tarô pode mostrar.

Ela tira um baralho do bolso da calça, distribui algumas cartas coloridas sobre a mesa da sala e revela o meu arcano determinante. Você é o Mago.

É uma brincadeira.

Ela me mostra a imagem do Enforcado, a Roda da Fortuna.
Ensina-me que as cartas nem sempre representam o que estampam. É uma linguagem cifrada. O enforcado pode não ser uma carta negativa e a sorte sugerida pela Roda da Fortuna depende do momento. O segredo da leitura pede um pouco de intuição feminina.

Examino as estampas e pergunto:

- E você, qual o seu personagem: a Sacerdotisa dentro da Torre?

A sacerdotisa me olha desconfiada. Joga uma carta em meu rosto e solta a língua:

- Louco!

Pego a carta do “louco”. Levanto o rosto e Beatriz examina a minha boca. Este é um toque que conheço, a mulher quando encontra os lábios de um homem, também o escolhe como o predador. Dali a pouco ela será verdadeiramente a presa devorada, a carne que exposta ao relento, não será profanada pelas aves de rapina.

Beatriz não foge a regra. Olha a minha boca e acaricia o meu rosto. Não me contenho e beijo-lhe. Ela corresponde e caímos no chão. O gosto do beijo arranca o seu corpo da agência do BBDC, pulveriza a funcionária com dedicação exclusiva à instituição.
- Possua a tua sacerdotisa! – ela diz.

Tiro-lhe a camisa. Ela pede para apagar a luz da sala. Viro-lhe o corpo, arranco a saia.

- Apaga a luz! - ela pede novamente.

Aquela fêmea, tantas vezes visualizada atrás de uma mesa, agora é minha. Clientes saíam com cartões de crédito, sem conhecer a face daquela vagina e eu conhecerei. Beijo-lhe as costas. Ela pede que eu apague a luz um pouquinho. Aperto-lhe as coxas. Tanta excitação que eu posso abandonar a minha fé, o projeto de vingar os humildes. Serei um São Jorge que penetra a donzela. Amarei desesperadamente. Marina se tornaria uma ilusão. Ouço um grito:

- Apaga a luz, amor!

Prossigo nas carícias, completamente extasiado. A ponto de perder-me em um lago cristalino de prazer, sugar a luz divina da fé, soltar vibrantes que agora dizem sim.
A mulher se levanta, desgruda-se de mim, apaga a luz e decide:

- É melhor você ir embora!

Eu fico atônito. Você não apagou a luz. Tento argumentar. Ela não aceita e saio do apartamento. Fujo. Não entendo. Não sou capaz de racionalizar sobre a desfeita. Lembro-me da luz da agência. Apagar a luz da casa seria um modo de evitar a visão do antigo escriturário de terceira classe? Não entendo. A luz mostrava o seu corpo. É isso. Ela sentia vergonha do próprio corpo, dos seios pequenos? Eu não me importava. Subitamente baixa-me um incômodo por ter machucado o Sr. Armando. Ele não era diferente de Beatriz. Cada um vivia dentro de uma ansiedade imensa.
























O caminho para o calvário

Separo-me da minha quase amante. Volto para casa. Durmo pouco. Acordo e percebo que preciso voltar à Pedreira. Pego o lotação. Entro novamente no terreno. Desço um barranco e chego ao morro. O sol bate forte e não delimito na pedra, o cavaleiro do outro dia. Profetizo: “No futuro erguerão aqui uma favela. Ninguém terá culpa pela imponência da pedra”.
Deito-me sobre o terreno e repito “Aleluia, senhor!” Fecho os olhos, durmo por quinze minutos. Sou a pedra. Levanto-me, sigo a trilha que contorna o terreno. “Carregue este lápide, Ezequiel”. Sigo. Ninguém na vigilância. Escalo o barranco. Um avião sobrevoa a região. Volta-me a vergonha de Beatriz, a debilidade revelada, a brancura do corpo. De que modo ela assimilará a experiência que teve comigo. Um dia gostará de si, independente da claridade masculina que ela julga existir?
Volto à Estrada do Alvarenga. Aceno para o ônibus. Entro. O ônibus segue, contorna a represa, passa sobre um trecho poluído e o poluente me devolve ao assassinato da Vila Joaniza e ao meu ataque contra aquele cliente senil, ao ataque bem diante aos consagrados caixas eletrônicos. Devolve-me à barriga de papai, que incha pela lembrança da ex-mulher e isso me angustia como se esta lembrança fosse uma areia quente que grudasse em meu corpo. Ela gruda porque caminhei e caminho em um longo deserto.
Os primeiros passageiros entram no ônibus. Homens muito mal lavados.
Cumprirei o meu destino vingador? Não sei. Minha próxima obrigação será espancar o novo marido de Elvira, o Pastor Jonas. Não sei. No meio da viagem sobe ao ônibus um homem de terno verde musgo e gravata vinho. Essa combinação não é natural. Ao ver a mistura daquelas cores percebo o desconcerto do mundo, uma desarmonia que deita abaixo todas as forças humanas. E nessa hora, decido pela vingança. Devo supliciar o tal Jonas. Obriga-lo a engolir o Novo Testamento que desta vez será a espada da justiça divina.
























O leite alucinógeno das vacas sagradas

Imagino decepar Jonas e dessa vez sem riscos na bunda. Deito. Sonho com crianças e outros pacotes. Sonho com as catacumbas do corpo de Marina. Os seus pecados deixarão marcas indeléveis em sua alma. Sonho com a peregrinação de Jesus. Ele sendo testado pelo demônio em um deserto ruidoso, de areias estereofônicas. Termino a noite imaginando estar deitado sobre o corpo de uma mulher de tetas gigantes e concluo que, no fim de uma longa jornada, eu me servirei do leite que sairá de suas mamas. Aquela será a vaca escolhida.
Os meus sonhos tornaram-se a carnavalização fim do mundo.


















O Divino de óculos escuros

Ligo para a matriz da igreja “Renova Jerusalém” administrada por Jonas. O homem mora em São José dos Campos. A ideia daquela odisseia vingadora revigora-me como o se eu fosse um maribondo diante do início do verão. Sexta – feira viajarei rumo a São José. Tenho o local da igreja. Tenho o horário dos cultos. Tenho o endereço e a vítima. A vítima se chama Jonas. O verdadeiro nome eu não sei. Jonas é o nome artístico.
Chego a São José. Observo a cidade e escolho um hotel rasteiro do centro. A ira do Senhor começara em um pulgueiro.
No dia seguinte procuro a casa do açoite. Escolho uma interessante, perto da igreja. Dois dias de negociação e alugo o imóvel por um mês. Digo aos proprietários que sou estudante de Engenharia contratado por uma empresa de aviação americana. Prefiro aquela casa porque é bem localizada. Pago adiantado e eles não pedem mais explicações. Trinta dias. Estão acostumados com estudantes. Pego as chaves. Acerto o primeiro mês. Está no contrato. Informei os meus dados pessoais sem medo. Trouxe até um comprovante de residência e passo o telefone de São Paulo. Se ligarem, papai não atenderá. Ele odeia telefones. Tudo muito fácil.
Examino o imóvel. No quintal dos fundos vislumbro um abacateiro sem frutos. Lembra uma lápide. A árvore faz divisa com o terreno de um japonês. Ele está conversando com vizinhos.
Deve ser aposentado e todo aposentado é meio surdo.
A residência é perfeita. Térrea, antiga, espaçosa, cheia de portas. A sala está à direita de quem entra. A janela principal encontra-se mais ao fundo. Não é possível vê-la ao entrar. Acesso à cozinha através da sala de estar. Em frente de quem entra impõe-se um longo corredor, que acessa os três quartos. Tenho dois banheiros. Os cômodos são visualmente, sonoramente e até olfativamente independentes. Posso criar uma família de suínos no quarto dos fundos e as visitas, sentadas na sala, não sentirão o fedor do toucinho. O mau cheiro passará por orifícios que abriram no alto das paredes.
(Esses orifícios, permitem que gritos possam ser ouvidos pelo vizinho japonês. Ele não deve ser surdo. Tomarei cuidado).
Examino os poucos móveis. Gosto do tapete de borracha azul que atravessa o corredor principal. Isto facilita o deslocamento de um corpo molhado, um peixe-boi.
O local não tinha como ser mais perfeito
Sei o que vou fazer: sequestrar Jonas e improvisar. Tentarei ser criativo.
Daqui ouço o discurso maçante pelo alto-falante. É outro pregador. Não é brasileiro ou, quem sabe, queira forçar um sotaque porque a língua estranha concede credibilidade a igreja: o falante não sofreu em seu mundo e ainda assim crê. O discurso gera a persuasão.
Saio e passo em frente à igreja. Apesar do português ruim, o estrangeiro utiliza da ladainha que sempre ouvi nas pregações em São Paulo. Repetições invocando o poder do Criador. “Ele fala diretamente para o seu coração. Ninguém deve desistir e você que é descrente sabe, se não for pelo amor, será pela dor”.
Entro e sento nas últimas fileiras. Que espaçoso é o templo! Informaram caber quinhentas pessoas! Homens de aspecto humilde com seus ternos de tergal e gravatas de cores berrantes. Agora os quinhentos abaixam a cabeça.
O pregador realmente é americano. Chama-se Robert. Robert comunica que o culto será filmado, que a dor passou e convida Jonas a prosseguir o culto.
É perceptível o revezamento entre ambos porque a retórica permanece inalterada: “Se não for por amor, será pela dor”.
Sei que a dor não deve ser invocada para amaldiçoar quem não tem fé.
O americano antes de passar o bastão a Jonas finaliza: “O crente jamais será um alvo, a granada não será detonada. O inimigo não cuspirá em seu rosto. Uma vez conheci um soldado que lutou na 2ª guerra mundial contra os alemães. Ele me contou que, uma noite, parou diante do inimigo com apenas pente de balas em sua metralhadora. Não podia eliminar sequer um soldado do outro lado. Então ele orou para Jesus. Pediu que o livrasse daquela aflição, que abrisse o céu e levasse os amigos do mal que o açoitavam e aconteceu o que um general americano disse que jamais vira em uma guerra: a tropa de alemães pisou em seu próprio campo minado. Cometeram um erro, um gol contra, como vocês dizem aqui no Brasil. Isso prova: se não for amor, será pela dor”.
Jonas segue a cartilha. O discurso é previsível, a gesticulação é intensa. Ele levanta a Bíblia contra a luz, fecha os olhos, pede que se afastem dali os dragões do mal e fecha a Bíblia contra o peito. Sairá um coelho do Novo-Testamento. Que talento!
Olho a reação do público e finalmente a localizo. Elvira está na primeira fileira. Ela, que sempre terá trinta anos.
Saio da igreja e sigo direto até o hipermercado que descobri. Compro uma corrente, cinco coleiras, fita crepe, uma arma de brinquedo, uma caixa de sabão em pó, quatro caixas de sucrilhos, dois colchonetes, cinco litros de água mineral e uma corda. A lista é longa.
Maior lista será aquela das igrejas do mundo: “Igreja do Deus vivo primitivo”, “Igreja de Jesus morto e renascido na favela”; “Igreja de Jesus no meio dos bichos”; “Igreja dos cornos vivos e santificados”; “Igreja de Cristo contabilizado em Fundo de Reserva”; “Igreja de Santo Antônio dos Caixas; “Igreja do Criador em Teto de Zinco de Paraisópolis”. .
Rondo a casa de Jonas. Conto quatro carros na garagem, dois cachorros e placas de aviso sobre a fúria dos cães. Imagino um jeito de entrar e sequestra-lo. Não poderá ser aqui. Cachorros são ótimas testemunhas. Talvez Jonas os obrigue a presenciar os cultos e recolher os dízimos.
O quarteirão é lotado por casas suntuosas. Quanto contraste com os esgotos a céu aberto da Vila Joaniza.
Quero identificar a cor do semblante de Jonas. Estudar aquele rosto. Saber por que a esperança dos homens não entra em sua alma.
Um dia alguém mencionou que ele se formara em Contabilidade antes de ouvir o chamado do Senhor. Elaborava declarações de renda até que em um momento de iluminação decidiu: agora as declarações seriam para Jesus. Isso faz pensar. Quais declarações seriam as fraudulentas?
Volto à igreja domingo. São nove cultos por semana. Jonas está em cena novamente. Discorre sobre a diminuição do dízimo. Tenta argumentar que desde menino observava os homens. É bom observar os homens. Eles bebem e pingam no chão a parte que oferecem ao santo. O dízimo deveria ter esta espontaneidade, a espontaneidade da pinga no chão. Jonas usa metáforas de alto teor alcoólico.
Alugo um carro e estaciono perto de sua casa. O pastor tem uma vida ativa e sem rotina. Elvira o segue de forma submissa. Ela e mais cinco mulheres. Persigo a criatura por duas semanas e noto que geralmente almoça sozinho. O relógio marca quinze horas. Vejo Jonas sair de uma agência do BBDC e nem sei o que sinto. Ele conversa com um funcionário. Talvez seja o próprio gerente, que agora se arrasta e talvez esteja oferecendo a sua alma à foice do Todo Poderoso ou mesmo fingindo a credulidade que Jonas encontra em seus cultos. A cena me arrasa. Anseio pela hora em que eu o enfrentarei. Estarei na boca. Cuspindo fogo sobre o lobo.
Papai agora cozinha a sua omelete com tomate. Impossível resgatar a antiga esposa. A biografia e os lucros do rival são incomparáveis.
Apesar de evitar qualquer encontro com mamãe, ela me vê sentado no fundo do templo. Sai correndo e abraça-me na “paz do senhor” . Diz que esta feliz por me ter ali, naquele lugar lindo. Sabia que eu escutaria o chamado. Aquela igreja é diferente.
Ela não me vê desde meados do ano passado e agora fala em chamados.
Elvira diz que eu não acreditaria na sua revelação. Alguns perceberam e ninguém confessa. Jonas, o pastor Jonas, tem uma missão que é maior do que o mundo. Uma missão divina. Ganhar o mundo pela beleza. Em 1987 chegarão aos Estados Unidos. Disse que eu deveria vê-lo. Estender a mão. Cheirar os seus dedos cor de rosa.
Mamãe perdeu o senso de ridículo. Não obstante, a sua aparência é de uma jovialidade autêntica. Percebo tanta alegria. Uma daquelas alegrias que soltam o corpo no espaço, após um longo e relaxante banho morno. Mamãe está feliz como a mulher do comercial de shampoo que corre em uma planície verdejante e avança contra a câmera. Elvira vive agora dentro de uma tevê, enquadrada na tela magnética em que se tornou a pregação de Jonas. O sujeito é um livro de oferta de cremes faciais. Talvez isso seja a beleza que Elvira comentara.

- Você irá conhecê-lo! - ela me puxa e caminhamos pelos salões da igreja. Entramos na sala particular de Jonas. Ele conversa ao telefone. Reparo o escritório. Destaca-se uma mesa admirável perto da janela. O objeto basilar da decoração é uma Bíblia sobre um púlpito de mármore.
Jonas provavelmente ensaia ali os sermões. Decerto variações do “Sermão da pinga do santo”.

- Pastor Jonas. Este é o meu filho Ezequiel.

O cara me olha desconfiado. Faz perguntas e eu respondo objetivamente. Jonas permanece na defesa e levanta-se. É um homem alto, de cabelos grisalhos. Possui de perto um olhar pequeno, de animal acossado.
É evidente que ele não queria estar ali, no imponderável, com o filho de uma de suas mulheres. Qual a coreografia poderia usar?
Olho para mamãe. Seu olhos penetram aquele homem. Verifico em seu rosto uma admiração tão sensível, tão delicada, totalmente dedicada àquela divindade que concluo: “Não posso torturar um semideus”.
De repente, Jonas descobre a dança e coloca sua mão em meu ombro. Afirma esperar que a minha fé continue a frutificar e lembrou-se de mim em São Paulo, nos seus primeiros tempos de igreja.

- Aqui é muito mais bonito. Você conhece o nosso jardim?

A conclusão fixou-se em mim: “ Não posso sangrar a fonte de prazer espiritual de mamãe”.
Jonas chama a copeira. Ordena que me sirva suco de laranja e as pipocas que sobraram da festa das crianças. Pede licença e sai. Não sem antes aproveitar a ocasião.

- Volte outro dia e se você quiser, souber enfrentar, eu prometo... você chegará ao extraordinário.

Elvira segue o sujeito que some pelos corredores. Após dez minutos retorna. Permanece aparvalhada. Pede que eu volte à noite durante o culto. Iniciarão uma nova campanha para finalizar a construção da igreja em Natal, no Rio Grande do Norte. “ Seu pai vai bem?”
Não quero que ela saiba do estado nauseabundo em que se encontra papai, mas quase pergunto, porque esse pastor a levou tão longe. Por pouco confesso que eu me senti ridículo por ser filho da mulher casada. Aquela que se apaixonou por um pastor de igreja evangélica, que saiu de casa, abandonou o marido. Ninguém acreditou na sua fuga, mas todos me desprezaram ou pela minha responsabilidade na multiplicação desses peixes ou pela condição de vítima de uma tragédia funesta.
Um funcionário quer fechar a sala. Saio do local. Não sem antes perceber. Em um canto do escritório, Jonas acumula muitos pacotes de comida para cachorros.











O remoinho

Minha covardia mostrou-se de forma nítida, não obstante, quando a vítima é um semideus é possível relativizar a fraqueza.
Analiso as consequências de outra invasão igual àquela que perpetrara contra o subgerente.
Jogo a corda fora. Corda de enforcado. Com ela eu levantaria o tubarão sobre o tombadilho do navio. Cortaria suas barbatanas e as exportaria ao Japão. Suas peixarias venderiam as nadadeiras do bicho como ingrediente de sopa afrodisíaca. Eu o obrigaria a chamar por sua mãezinha. Que rogasse o perdão à velha pelo constantes crimes de estelionato diante dos fiéis.
Não vale a pena. Nunca valeu a pena. Jonas ostentaria o sofrimento sobre o palco. Deixaria a comunidade maravilhada ante o suplício do seu líder. O meu ato de vingança, poderia representar mais prestígio para aquela igreja. Novos fiéis a levantar os braços, em sintonia com o absoluto. Até posso ver o
seu retorno ao púlpito, afirmando que vira o rosto da maldade, o demônio o desafiara em sua fé e ela agora volta ainda mais protegida.
Pensei em outra alternativa que saciasse o meu desejo pela moralização do mundo: jogar bolas de carne com laxante aos cachorros. Os bichos cagariam viadutos. Iriam defecar até a inauguração da igreja em Natal. Poderia também implantar um escorpião na bolsa de mamãe. Refleti de forma sincera. Não sabia onde encontrar o bicho. Procuraria no mato, na Pedreira, em aterros sanitários. Fui obrigado a desistir. Mães, não obstante os próprios ferrões, encontram-se em um altar inexpugnável.
Volto sem me despedir de Elvira. Ela parecia feliz. Muito mais feliz do que quando vivia com papai.
Não me assombro mais. A felicidade exige certa carga de estupidez do afortunado.
Lembro-me da felicidade de um bancário chamado César. O apelido era “agulha”. Ele me contou, logo após a morte do pai, que sua mãe estava muito triste, que chorava como uma criança pela perda do marido. Depois o “agulha” riu. Espantou-me a reação. Percebi que ele ficara feliz com a fragilidade da mãe e o falecimento do pai. Ele se tornara em uma só tacada, o domador e o homem da casa. Definiu-se assim ao conversar comigo e muitas vezes, quando vinham lhe dar os pêsames dizia: “ Devo tomar conta de tudo, cuidar de todos, cuidar da minha mãe. Afinal eu sou o homem da casa”. César tinha dezessete anos, percebera o seu novíssimo papel e estava feliz porque era um estúpido.
O primogênito varão de uma casa pisa forte.Tem o direito de sujar o chão com os sapatos. Tem o direito de esperar pela saída do pai: incestos surgirão no alvorecer.
Chego e papai assiste aos chuviscos da tevê. Ainda se prega na cruz das indefinições. Um casamento fracassado com a mulher errada será sempre o programa que lhe sobrará.
Papai não localizou ainda o alvo da perda. A mosca. Esta percepção eu também não conheço. Separei-me de Marina e em algum momento eu sou o fracassado. Decido vê-la como um bom ladrão.










Pregos

Apanho Marina às onze da noite quando ela retorna do trabalho. Vem ajeitando os cabelos. Repetiu o gesto durante cinquenta metros. Chego por trás e grito:

-Marina!!
- Que susto!

Marina reclama do susto, embora eu tenha a impressão de que ela me esperava. Ajeita novamente os cabelos e pergunta:

- Ah! Como vai?
- Com o diabo no corpo. Vai querer ver?

Ela pisca os olhos lentamente. Eu sou previsível, incômodo, sensível e abobalhado.
Quero ter uma atitude inusitada. Toco-lhe os seios. Passo os polegares sobre os mamilos. Ela permite a bolinação. Meu gesto não lhe perturba. Marina sabe que sua passividade compromete o meu raciocínio.

- Estes seios não mais te pertencem.
- Nossa! Que frase mais bíblica. Não me pertencem por ordem de quem? Do teu novo homem? Outro cristão do primeiro século? Que hora ele costuma te pegar? Antes do culto?
-Quanto ressentimento. Não é da sua conta.

Começo a soltar bobagens:

-Vocês andam transando entre as crianças do hospital?

Ela afirma que cansara de esperar minha maturidade. De que adiantou todos aqueles livros? Você leu demais, Ezequiel. E sua nova relação era bem mais sadia do aquela em que vivíamos.

- Sadia? É nome de mortadela - respondo.

Ela tenta me ofender intimando-me a vestir novamente o jalego do Banco. Digo que ela não me machuca mais. Aparecera ali só com a ideia de transar. Repetir o que fazíamos. Lá no quintal da sua casa ou na garagem, atrás dos cachorros. Eu poderia esquecer o passado. Usar uma máscara de palhaço e passar a língua na mortadela.

Marina examina o meu rosto como se olhasse para um relógio. Procura os ponteiros e solta:

- Eu estou com outra pessoa... mais evoluída.

Ela examina o meu queixo e encontra o ponteiro dos segundos

- Se você quiser, posso te masturbar.
- Uma ejaculação? – pergunto.
- Claro...tua ejaculação.

Eu tinha certeza de que ela me acertaria. Tento segurar-lhe a mão direita. Ela se antecipa e agarra a ponta de meu cinto. Quer abrir-me as calças. “Vem aqui atrás do muro”. Ela imagina a sinfonia que é capaz de criar. Eu desvio, seguro a mão da punheta e aperto. Aperto porque foi por esta compressão que eu cheguei aqui. Torço-lhe os dedos. Até sentir apenas as minhas unhas e o seu anel de compromisso.
Marina não solta um grito de dor. Jogo o seu braço longe.

- Volta para a tua vida, amiga.

Tenho uma vontade de cuspir quando estou perto de casa. Cuspo. Vontade de chutar os postes. Chuto. Chuto. Um poste, vários muros. Entro em um remoinho. Minha existência gira sobre um ponto fixo. Quantos filhos de Deus levam uma vida igual? Não está na Bíblia. No meu caso, o giro do peão estabilizou-se na eterna perda e por isso acredito que o Criador esteve naquele assalto que eu sofrera. Ele tornou emblemática a perda do meu anel de noivado.
Decido-me pelo mais óbvio: entrar no ônibus
Centro/Cidade Ademar e promover um ato realmente abençoado: outro roubo a mão armada. Jesus e seus anjos estarão soltos no ar do lotação. Sim. Tantos delírios e a resposta admite-se simples: pegar o fim do primeiro assalto e transformá-lo em uma obra magnífica de risco e sacrifício. Minha fé estaria justificada. Ao contrário da adoração evangélica, existe uma fé que precisa ser legitimada por algum feito magnífico.
Decido e organizo. Usarei uma arma de brinquedo. Continuarei a aventura dos adolescentes. Entrarei no tabernáculo sobre rodas e, ostentando a arma de brinquedo, proclamarei bem alto:

- Que o amor de Cristo chegue aos irmãos da Cidade Ademar! Isto é um assalto!

O esmolento

Sento-me no banco mais recuado do ônibus. Transpiro. Abro a janela. Tento não esquecer a frase inicial da cerimônia. Espero o melhor momento. O impulso. O assalto acontecerá em segundos. Estou a um passo. A quantidade de passageiros permite uma boa dinâmica.
O ônibus estanca e atrapalha minha concentração. O motorista cumprimenta alguém. É um mendigo velho e aleijado que entra no veículo para esmolar.
O mendigo estanca no fim do corredor e aguarda o equilíbrio do corpo. Examino o intruso. Noto um inchaço em sua perna que triplica o tamanho do joelho. Ele deixa o tumor bem exposto. Que tirem o proveito que quiserem, que olhem o abscesso. Alguns passageiros procuram moedas em seus bolsos. No entanto, percebo, a parte mais assombrosa do corpo do mendigo é o rosto cheio e bronzeado que esbanja saúde. “ Lá vem outra figura messiânica!”
O homem estala a língua antes de soltar o sorriso. Um sorriso imenso, de rei dos palhaços. Depois estica a mão para os passageiros. Eles prontamente retiram as esmolas e o santo agradece:

- Deus abençoe o senhor! A família do senhor! E tudo de bom! Deus abençoe a senhora! A família da senhora! E tudo de bom!

É uma benção aquilo, uma frase lapidar e o mendigo a pronuncia com a voz grossa e impostada, destaca cada palavra. É tão impactante que os passageiros se obrigam a pagar pela graça oferecida.
A rogação do pedinte se espalha e sai pelas janelas. Agora cada espectador pagante desse ônibus saberá que tudo de bom virá e o mundo tem esse conhecimento.
Os desejos de um homem sofredor costumam ter grandes asas.
Tento calcular a feira do mendigo. É enorme. Se me fosse exigido cumprir alguma meta para angariar dízimos, jamais chegaria ao nível quantitativo que provavelmente este homem alcança em um dia de esmola.
O assalto torna-se inútil. O tumor deste mendigo é o complemento de fé iniciada pelos os assaltantes da Cidade Ademar. O mendigo é a sequência.
É difícil criar estratégias e objetivos divinos. A vontade de transcender possuirá poucos cavalos de força se a inteligência e o sacrifício não funcionarem. Olho o mendigo e o admiro. Serviu-se da inteligência e criou uma benção que sintetizou os anseios humanos. Elaborou um estilo de mendicância. Aperfeiçoou. Escolheu as melhores linhas de transporte público com gente pobre e temente a Deus. Entra, abençoa e merecidamente recebe, não obstante, deve manter aquele cancro na perna. Missão sacrificante e arriscada. Por isso, o tumor contínuo tornou-se a sua obra diante do Altíssimo.
Ah, o altíssimo sabe: apenas os banqueiros nunca perdem e nem se expõem a sacrifícios ridículos.
Preciso ser mais propositivo. Construir castelos não é fácil.
Sempre percebo que outros chegaram antes.
Mexo a perna. Volta-me a ideia inicial, a meta delirante de achar Deus na periferia. O Criador dos pacotes de biscoito água e sal. Uma mulher sentada perto de mim, oferece um biscoito ao pedinte.
Fotografo o mendigo que anuncia para a Cidade Ademar:
- Deus abençoe a senhora! A família da senhora! E tudo de bom!

O homem chega e lhe entrego a maior nota que carrego na carteira.

- Deus abençoe o senhor! A família do senhor! E tudo de bom!

O mendigo recolhe o dinheiro, abaixa-se, vê a arma de brinquedo, arregala os olhos e afirma:

- Já é bom, Batman!

Não entendi o alcance da frase do mendigo.

Apressadamente o pedinte desce do ônibus. E, tal qual os assaltantes daquele dia, deseja aos passageiros que a paz do céu permaneça no coração dos senhores. Vejo ali o papa João Paulo II.











A lista dos pecados

Estou em casa. Guardo a arma. Durmo cedo e por alguma razão, acordo sem nenhum desânimo. Isso acontece.
Creio que a experiência com o mendigo ajudou-me. Rápido. Senti-me um Batman. Se eu me transformasse em um morcego de catedral seria feliz? Não sei. Desço para preparar o café. A tristeza volta, a tristeza vai, a tristeza retorna. Penso na minha peregrinação pela periferia. Isso me conforta.
Tenho que voltar ao ponto das privadas, divisa com Diadema. Quem acreditará que vislumbrar privadas pode ser o início de uma realização.



















Diferenças

Antes as coisas pareciam ter um fim em si mesmas. Um beijo na boca de Marina era um extrato bancário de 15 dias. Algo funcional, um alívio rápido.
Somente uma mente delirante poderia erotizar o caixa eletrônico do BBDC. De fato eu não tirava Marina da cabeça.
Não delire agora, Ezequiel. Não sem tentar caminhar sobre as águas da represa de Guarapiranga e, antes de afogar-se, anunciar que mais poderosos são os pés flutuantes de Jesus.




















O Deus de segunda a sexta

Hoje é sexta-feira. Acordo com comichões pelo corpo. Considero o meu objetivo inicial: buscar o divino na periferia. É isso. Sempre soube e agora levarei para os confins do mundo minha experiência de vingador, tratador de cães, testemunha.
Posso me considerar a antena parabólica do milagroso. Esta qualificação é mais reconfortante.
Subo no ônibus Centro - Vila Joaniza e cumprirei as minhas obrigações. Sei dos caminhos da cidade. Pegar um ônibus, chegar ao fim da linha, entrar em outro coletivo. Ir até o ponto final desse segundo trajeto e repetir a operação. Viajar para alcançar lugar algum. Tão distante que os passageiros se conhecem desde crianças e, a despeito desse fato, não me envergonharei por ser o rosto estranho.
Entro no ônibus Jardim Miriam e sigo. Examino os postes e as nuvens. A sensação de escape é tão forte que desço no ponto seguinte. Estou outra vez na avenida Yervant Kissajikian.
Peregrino pelo lugar. Viro em ruas estreitas, subo ladeiras e finalmente percebo: só há mulheres e crianças nos lugares por onde passei. Sim, o contrassenso é significativo. Em regiões de famílias carentes, apenas os homens trabalham. As mulheres não compõem a renda familiar. Cuidam dos rebentos em casa e não percebo qualquer brutalidade no ar. Os homens levam sua truculência aos empregos. Os adolescentes e pré-adolescentes talvez estejam nas escolas ou talvez trabalhem nas biroscas do bairro. Certamente perambulam longe como gatos vadios. Mas aqui longe da avenida, as mulheres se ajuntam aos filhos pequenos e o mundo se acalma. São três horas e vinte minutos da tarde. É possível sentir a placidez do horário. Um silêncio e crianças miúdas penduram seus umbigos nos portões.
Sem dúvida, a paz. A paz da mulher que ousa manter intacta a sua ninhada e isso apesar da simplicidade, do provisório, da vida em casas mal construídas. Contar os pregadores de roupa e estender ao relento as roupas molhadas da família.
O tal Matias percebeu apenas o lado mal acabado desse lugar, que é tão mal acabado quanto o resto do mundo e isso não é o que importa.
Sinto muita simpatia pela serenidade que assisto.
Encontro uma Igreja “Assembleia de Deus” fechada e percebo: fui levado a acreditar que a “Missão de cada crente” é acreditar e dividir a graça do Senhor com outras pessoas. No entanto, se determinado lugar for a materialização dessa graça, algo a ser mantido, defendido e não distribuído. Se este lugar tiver a pequena validade do segunda a sexta, o horário comercial, quando a grande massa de gente impura não estiver ali. Não seria melhor não dividir graça alguma, abençoar o silêncio e manter o segredo.
Caminho mais para dentro do bairro. Até um ponto em que só posso retornar se confiar na memória. Naquela esquina destaca-se uma casa de paredes verdes. Fotografo outra casa, o muro foi decorado por cacos de ladrilhos coloridos e do quintal reparo as roseiras. O jardim é bonito, embora o dono cultive ao lado um aglomerado de pneus carecas. A ausência de calçamento prevalece na região. O mato sai pelas frestas. Inúmeros vira-latas se cheiram. Alguns moram atrás daquele portão de lanças. Os vira-latas presos são pontos de referência.
Uma criança passa por mim coçando o ânus através da calça. Conto mais quatro vielas sem saída e viro à esquerda. Estou em outra trilha, o caminho para Damasco sem placas, às quatro e cinco da tarde de um dia de sol.
Não me sinto perdido.
Continuo a passar apenas por mulheres e crianças.
Às quatro e quinze, duas mães conversam no portão. Uma constata: “ A neném está em dia com as vacinas”.
Um dia procurei o Altíssimo no belo, no permanente, na virilidade. Se eu voltar muitas quadras, chegar à avenida, verei as oficinas mecânicas dos varões e isso será o início de um rastro de solidez rumo ao centro da cidade, onde homens e mulheres ferinos trabalham em escritórios, lojas de departamentos e bombas de gasolina.
O Altíssimo não está no centro do mundo. Sinto-o nesta “bocada” e isso apesar da miséria, das crianças coçarem o ânus por causa de vermes.
Isso foi a referência máxima que encontrei para o esconderijo de Jeová.


















A árvore

Empolgo-me. O onipotente está naquela pipa no céu.
Distante cinquenta metros. Ciscando.
Eu não encontrei árvores na região. Não percebi isso em minha peregrinação inicial. Vi somente arbustos, mas Jeová fez brotar do solo as plantas que eram o alimento do homem e havia também a árvore da vida no meio do jardim do Éden. A árvore do conhecimento do que era bom e do que era mau.
Procuro e a única árvore da minha caminhada está em uma minúscula praça. Não é a macieira da Bíblia, nem uma figueira tombada pelo patrimônio ambiental nem o eucalipto de quarenta metros. A árvore que agora possuo não alcança os fios elétricos do poste. Ordinária na altura e indecisa na cor da folhagem. Produziu camadas de folhas que variam do amarelo, do verde claro, do verde escuro e o pulgão branqueou as folhas mais baixas.
A árvore não é um cedro que imaginam existir no Paraíso, porque o reino do Criador é o avesso. Do avesso virá a certeza e, por isso, um camelo sempre passará através das agulhas.
A árvore cria uma pequena sombra. A mínima pretensão pode ter a máxima eficácia. Esta conclusão pode provar o inusitado.
Os primeiros homens voltam para casa. Eles passam e não reparam a macieira, que é a igreja verdadeira. A igreja da redenção divina “Deus foi uma árvore”.
O brilho do óbvio cega os incautos e os inocentes permanecerão inocentes, enquanto for o desejo do Senhor.
Fui cego e inocente. Eu poderia lamber o corpo de Marina. Dizem que a maior vingança e o maior perdão é o esquecimento. Não funcionou comigo. Diante dessa árvore, posso ter percepções gustativas. Se eu estivesse com Marina, lamberia o seu corpo.
Cachorro que sou, lamberia também a minha pata ferida.




























Os meninos

Deito ao lado da árvore e durmo. Acordo com um chute.

- Para de chutar o cara! – grita um menino meio aloirado, pele encardida, de aspecto franzino. Impossível apontar a idade, quiçá doze anos.

- O cara tá vivo! - alerta o chutador, que puxa a bola e segura um inexplicável cabo de vassoura.

- Tu não sabe? Eles desovam na represa. Não vê o
Edílson?
- Que Edílson?
- O cara que viu... lá...as cinco caveira, os cinco cara
morto...
- Espanta daqui! – digo e quase não percebo a conexão que estabeleci entre os meninos e insetos.

Os insetos saem. Aprecio o diálogo dos moleques. Eles apontaram a maior anomalia destes bairros: bandidos que matam bandidos. Polícia que mata bandidos. Bandidos que jogam corpos de bandidos na represa. Polícia que espera a vez e também descarregar a sua carga de defuntos. Os pobres-diabos encalham nas margens do lago até serem descobertos por crianças.
Sei da aposta entre os meninos: quem achará o maior número de mortos flutuantes.
Acordo finalmente. É noite e outro menino se aproxima.

- Me arranja a máquina, moço.
- O que você quer com ela? Câmera não é brinquedo de criança. Sabe mexer com uma, moleque? – questiono bestamente.

O menino não responde. Por aqui meninos de doze anos não perdem tempo com perguntas retóricas.

- Quanta custa?
- Posso tirar uma foto sua? – indago inutilmente.

O menino endurece, levanta o pescoço, olha para o lado. Percebe alguma ameaça e antes de correr, ordena:

- Deixa a máquina aí!




















Churrascos

Nesse instante eu me ligo. Anoiteceu e o suor dos que massacram chegou finalmente. Homens de calças sujas abrem os portões. Alguns são pesados. Os mais jovens são os mais pesados.
Eles sugam as luzes no instante em que chegam.
Perdi a sensação da presença divina. Não posso prosseguir o meu périplo investigativo.
Olho para a árvore. Disfarçou-se. Agora é um tronco solitário no subúrbio. Estou sozinho.
Fotografo a árvore e saio. Passo por dois maridos já de chinelos. Eles acendem uma pequena churrasqueira e tomam cerveja. Uma mulher de lenço amarelo pregado na cabeça traz no colo uma criança. Não quero analisar os churrascos dos homens.
O Bispo Rodrigo exclamaria: “Não ameace o carvão do próximo”. “O carvão é a oração da pedra”. “ O carvão é filho da luz. A escuridão são os outros”. “A brasa iluminada fornece a carne iluminada”.













A lógica do mercador

As pequenas vendas baixam as portas. Vendinhas comercializam o que chega. Vendem bananas e cigarros. Recordei-me da conversa com um dos fiéis da igreja “Deus é sabor”, quando eu ainda estava inserido na hierarquia religiosa da Igreja. Ele me contou que fizera uma longa sondagem. Quis conhecer uma empreitada realmente lucrativa. Averiguou muito e piedosamente: abrir uma lotérica, estacionamento, lava-rápido, mecânica de autos, borracharia, puteiro, aluguel de barraco em favela, Chegara à conclusão que nada poderia render mais dinheiro do que um armazém de secos e molhados nos cafundós da cidade, fora das redes dos maiores supermercados.
O autor da tese era um empreendedor. Descobriu-se na religião. E por seus próprios méritos fora convidado a assumir um anexo da Igreja: o templo do Jardim Ângela.
O Todo-Poderoso ama com mais intensidade os seres empreendedores, apenas eles têm a existência efetiva. Para o resto do mundo ele concede apenas a constatação: “Há um tempo para nascer, outro para morrer”. Isso é muito pouco.











O suco

Passo pelas catacumbas da região. Não é horário para fotografias.
No trajeto trombo com um casal. A mulher, sentada sobre o capô de um carro, abraça o namorado com as pernas. Escuto:
- Eu adoro Fanta Uva! Tem gosto de festa!
- Você vai ver o que é festa mais tarde – ameaça o sujeito.
- Olha que eu não sou Soda limonada.
- Mas é foda, amor.
O homem normalmente tem as oportunidades sexuais na ponta da língua. Aquele homem dirá que turbinaram o seu desejo. Não pensará em anjos. Não se achará o escolhido. Só saberá que Fanta Uva comprada em boteco tem gosto de festa.
Outra frase que parece ter saído da máquina de coca-cola da igreja
“Deus é sabor”: “se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana”.
O Criador não é máquina de refrigerantes. A esta hora da noite poderia ser um ônibus.
Chego finalmente à avenida Yervant e enquanto procuro um ponto de ônibus, a conversa de duas mulheres confunde o sentido da minha peregrinação:
- Você viu ontem de madrugada, batendo nas janelas, pareciam morcegos.

Outros morcegos chegaram antes. Quero sair deste lugar. O Altíssimo definitivamente não está aqui. O número de churrascos é enorme, o cheiro da carne dissipa a glória do senhor e as cervejas e Coca-Colas afogarão o próximo fim de semana.

A represa

Hoje é sábado, quero ver a cara da represa “Billings”. Olho o mapa. Decido pela represa de Guarapiranga, que é mais acessível.
Chego e ando pela avenida que margeia a Guarapiranga. Não descubro os tais cadáveres boiando. Não deve ser fácil encontrá-los. Talvez se aproximem dessas margens em horários muito precisos. Talvez apareçam com a lua. O único fato realmente chocante que presencio são as inúmeras placas rogando aos visitantes: “NÃO ENTRE DE CUECA NA REPRESA”.
Sento em um banco. As horas passam e o sol se esgota no reservatório. Tão bonito. Perco o ar e desconcentro-me. Percebo que estou ao lado de um bar fechado. Na janela, do estabelecimento grudaram um adesivo com a palavra “Mustang”. Mustang é nome de cavalo.
Permaneço sentado no banco de pedra perto de um cavalo. Se eu criasse cavalos poderia ser feliz.
Quis recordar o título do filme que assisti no ano passado. Galopo um pouco mais e vejo o ônibus “674A Jardim Horizonte Azul – Metrô Praça da Árvore”. Paro no ponto e espero o próximo.










Uma decisão

Eu posso sair da periferia e visitar o Jóquei Clube de São Paulo. Assistir a apresentação dos cavalos. Certos cavalos correm apenas com a língua presa. Quem teve a ideia era um filósofo, um profundo conhecedor de equinos e homens. Imagino o desejo dos puros-sangues buscando a língua durante a corrida. Um órgão similar do corpo humano é o pênis. O pênis é um músculo, cujas contrações determinam nossos movimentos. O dinheiro é um pênis.






















Corpos sem pecado.


Domingo besta que se deita em minha cama. Anoitece e decido ver corpo de mulher. Vou ao prostíbulo que entrei há poucas semanas. Sou recepcionado pela discussão de duas prostitutas:

- Não quero saber! Vamos ser puta, mas vamos ser honesta.

Pensei que a honestidade fosse uma obra divina, que não fizesse parte do cotidiano das meretrizes. Também pensei que uma filha de Deus não pode servir a dois senhores.
Procuro a mulher que cobicei da primeira vez. Ela está disponível. Sento-me ao lado. Pergunto o nome “Agora é Marylin”. Informo que estou pronto.
Entramos em um quarto minúsculo. Uma luz no teto foca o centro da cama. Os empresários do ramo talvez pensem: você não deve perder nenhuma contração muscular da mulher. Você ficara satisfeito.
Eu aceito o desafio. Jogo-me sobre o colchão. É um corpo de fêmea, concluo. Estou ativo, embora saiba que ela não terá qualquer êxtase.
Nestes termos falam os crentes. Outros dizem ao clímax, ao prazer supremo, ao deleite. Crentes não pronunciam “gozar” , ejacular ou “cheguei ao orgasmo”.
A mulher tira a saia. Tira toda a roupa e fica de quatro na cama. Mexe os cabelos. Ela tatuou duas borboletas em seu braço esquerdo. A imagem me excita e arranco a minha roupa. Mergulho na cama. O dormitório vai se colorindo. Em um espelho fixado na lateral do quarto, vislumbro o perfil daquela fruta. Puxo as suas costas contra o meu peito e aperto os seus seios. Soltaram outras duas borboletas no braço direito. Beijo-lhe o pescoço. Ela acaricia a minha nuca com os braços virados. Parece abrir as asas. Os seios sobem, as borboletas chegam perto de meu rosto. Desço as minhas mãos até as suas coxas e deitamos na cama. Quanto tempo eu não sinto o contato de pele feminina. O toque é tão bom, embora não haja beijos na boca, nem declarações amorosas, mas uma evolução para desejos que se esfregam em meu rosto e querem confessar à prostituta o quanto eu estava feliz, que fazia muitos meses e eu necessitava soltar algum nome de mulher no espaço mal cheiroso daquele quarto. A mulher se antecipa.
- Você já gozou, amor?
- Gozei.
- Então tá!
A mulher sai do meu alcance, puxa um travesseiro, levanta os cabelos e se deita. Pergunto novamente o seu nome e se está tudo bem.

- Tirando o que tá mau, o resto tá bem.

A mulher reclama do calor. Anda quente. Trabalhar no calor não é bom. Homem não quer mulher suada.

- Você gostou? – pergunto pedindo uma análise da minha atuação.
- Você é que tem que gostar, amor.
- Sim . Eu é que tenho que gostar. Pergunto a razão daquele nome. Não era Priscila? Marylin tava disponível e ela pegara.
- Os homens lembram-se dela e se lembrarão de mim Posso mudar o penteado.

Na hora cogitei que muitos travestis gostam desse nome: Marylin. Examino o seu rosto. A boca pequena e o nariz arrebitado são parecidos aos da Marylin americana.
Os travestis dessa zona de meretrício devem adorá-la. A mulher entra no banheiro e deixa a porta aberta. Liga o chuveiro. Toma um banho rápido, o que significa lavar apenas a própria vagina. Vejo um espelho comprido na parede do banheiro e concebo uma perfeita utilidade para a peça. As prostitutas podem contar suas estrias antes do próximo cliente. Marylin examina as pernas.

- Eu não costumo vir aqui.
- Eu percebi. Você está meio triste.
Digo que ando deprimido. Não ligue. É normal. Ela continua:

- Aqui também é normal. Quer dizer...eu só estou nessa casa porque quero pagar uma dívida. Lá na minha cidade eu disse viro puta, mas pago esta dívida.
-Normal? – pergunto.
- Semana passada um policial entrou aqui e quis transar segurando o revólver.
- Normal?
- Claro que não! Claro que não! Posso esfregar qualquer coisa na cara, menos um trinta e oito.
- Problema.
Converso com a mulher mais por educação do que por interesse. Poderiam esfregar um canhão no seu rosto que eu não ligaria.

- É difícil sofrer na paixão, não é? – ela me pergunta.

Eu me espanto com a constatação da prostituta. Pergunto se é tão evidente que eu estava na merda.

- Claro! A praga do amor desliga as pessoas... o rosto delas. Em vocês homens fica na cara...
-Você não tem jeito de garota de programa.
-Tenho sim. Tenho cara de puta.

Listo mentalmente outros sinônimos para puta. Encontro muitos. Tem a piranha, vaca, dadeira, dama da noite, cortesã, decaída, meretriz, mulher-dama, mulher-da-vida, prostituta, Madalena, quenga, perdida, rapariga.

- Eu gosto de rapariga. – responde a mulher como se escutasse a lista que eu elaborava.

Confesso que eu gostava muito da rapariga que ela via na minha cara.

- Eu sei. No fim fica a carcaça. O amor morre na carcaça, querido.

A conclusão bastou-me. Conto a minha angústia. O ricochetear pelas quinas da cidade. Eu nem sabia bem o porquê do meu comportamento.

- Você teve que sofrer. Desta vez.

Aquela conclusão me abala. Ela tenta explicar que os homens não sabem conviver com a falta de controle. Pensam que escolheram a mulher certa. A mulher decide. Decidiu pelo chute. “Olha, ela poderia estar certa e se estivesse errada, não era a tua mulher¨.
Ela estava certa. Alguns acontecimentos consumados. Sai do puteiro. Agradeci a atenção. Marylin ri.
- Eu é que tenho que agradecer, amor. Volte outras vezes.

Lembro-me da frase de papai ao anunciar minha separação de Marina. “Era uma puta!” No entanto, foi uma delas, verdadeiramente do ramo, consagrada, a pessoa que mais me ajudou.
É muito difícil resolver os estereótipos. Encontrar um equilíbrio entre as perdidas e as mulheres de família. Não sei, mas tenho a impressão de que a prostituta ajudou-me
Eu poderia ter acrescentado uma gratificação, um couvert” artístico.
Ela me pediu para voltar. Não voltarei. Não posso alterar a boa impressão. Quebrar o vaso de porcelana: a imagem da mulher que compreendeu a minha dor. E isso depois de vê-la em plena atuação profissional, se defendendo.
Pude encaminhar certas ideias. Não as formei em um conjunto único. Volto para casa e ao abrir a porta e caminhar até o banheiro para lavar o rosto do erótico; salta-me o episódio da Beatriz do BBDC. Seus peitos pequenos agora me perturbam. Visualizo enormes glândulas mamárias. Dizem que os homens gostam de seios enormes porque são mais receptivos. Ora, nenhuma mulher é uma vaca. Recordo-me das deduções da puta. Ela tinha razão. Preciso gostar primeiro. Minhas necessidades amorosas, financeiras, sexuais, digestivas também importam.
Posso imaginar que alguns santos morreram sifilíticos.
Posso até imaginar o Evangelho segundo São Barnabé.
Eu me aceitarei em minha condição de apócrifo.
Quantas dissecações mentais. Elas não me abandonam.




























Conflitos

Preparo uma omelete. Papai e eu vivemos na omelete. Almoço omelete com chocolate. É uma mistura sem sentido, tal qual carne com biscoito, tomate com açúcar. Fome sem descarga.
Se Deus não tem coerência, a incoerência não pode ser divinizada. A figura do altíssimo está em um limbo. Entre o tudo e o nada, sem contato. E sua falta de contato não possui qualquer onipotência. No entanto, se ele escolheu conservar-se pela falta de substância; manter-se intacto graças ao desejo do cristão em buscar e buscar o sublime; se ele decidiu permanecer apenas no preparo de si é porque sabe que sua consistência poderia ser descoberta. Deus não quer tornar-se um almoço.
O Fundo de Garantia está no fim. E o que obtive de mais forte foi sentir que o tempo passa, que a senilidade humana existe como potência e que um velho, um pecador antigo, é um ser que se define pelo crescimento das orelhas, pelo tamanho dos narizes e pelos disparo falho de inúmeros projéteis contra um grande alvo, contra uma mosca gigantesca.
Percebi também a hipocrisia da cruz. Por que o símbolo do divino em uma peça que facilitou o extermínio de tantos condenados? E se Jesus tivesse sido enforcado? Se Cristo pedisse a Pedro que fincasse um punhal em seu coração ou, mais amorosamente, que o ato do sacrifício fosse realizado pelas Madalenas que o seguiam. Qual seria a marca cristã? O coração com um vazio no centro? A fórmula matemática que buscasse a relatividade de uma ação ao quadrado sem a reação de Jesus.
Bastava um peixe.



A estrela

Decido ligar para Beatriz. Não! Vou visita-la em seu apartamento. Dizer que compreendo as luzes apagadas, que compreendo o seu medo e que um abraço é o primeiro momento da entrega amorosa. Ela não precisava temer tanto a exposição dos seus pequenos seios. Direi finalmente que estou aberto para o amor e que repetirei este desejo todos os dias até ela finalmente acreditar.
A enorme importância que Beatriz concede aos seios é o rosário que os católicos deixam perto da Bíblia. Eles querem que o terço dê forma ao incompreensível, ao contato de Deus com os homens, mas não é por ali. Rosários e seios não alcançam muitas vitórias.
Estou com muito sono e começo a delirar. Quero dormir.

















Outros conflitos

Não durmo. Outras imagens rondam e ameaçam a minha cabeça. Os riscos das chibatadas nas costas de Jesus poderiam ser símbolos cristãos. Poderia ser um prego. Três pregos. Três estrelas.
Os fenômenos trágicos da natureza também não representam o Divino. Eu tinha medo do ronco do liquidificador aos sete anos. Ria nervoso. Um dia quando levantaram a tampa e vi o redemoinho de uma bananada, meus olhos quase caíram. Achei o liquidificador uma força sobrenatural, um tufão divino. Não era nada. Eu apenas desconhecia a engenhoca. Hoje eu sei que um maremoto pode vitimar meio mundo, mas é certo que ali há uma tampa a ser aberta, uma tomada ou algo que explique a mistura.
O Criador existe pela constatação da ideia de processo? Alguém inventou o processo, que é essencial: o crescimento de um bebê no útero da mãe; o mal que se misturou a dor até parir a consistência do bem. Isto explica o fato de toda religião carecer do sofrimento para o consolo. No entanto, se o bem deve a sua fenomenologia ao mal, então Deus, manipulador do Bem, não soube controlar a adversidade que determinou o ser humano ou então não criou o homem a sua imagem e semelhança. Não existe.
O Todo-Poderoso teria que controlar o processo, a máquina do mundo, o absoluto humano se realizaria dentro da condição única de ausência do ato imperfeito. No entanto a imperfeição existe.
Eu tenho que fugir. O Criador pode existir pela reinvenção da ideia de fuga.
Beatriz sai do trabalho às oito da noite. Não quero sumir da sua vida.
Um contato

Espero Beatriz na esquina da sua casa. São dez da noite. Não poderia ter escolhido lugar e horário piores. Pareço um guarda noturno.
Um nevoeiro desce junto com uma chuva fina. O vento mais forte e a luzes do lugar transformam a chuva e a névoa em um cobertor de pontos brilhantes. Encosto-me ao muro. Apertome na jaqueta. Beatriz passa do outro lado da rua. Conheço o seu casaco de camurça marrom. Ela me viu, decerto, achou que eu fosse um gatuno e correu.






















Perdida

Beatriz entra em sua casa e fecha a porta. Que tentativa mais ridícula. Eu não poderia ter parado. Este é um comportamento de um religioso embriagado. E logo com a única mulher que pude retirar do mundo e que se contorceu para mim.
Quero bater em sua porta. Ser simplesmente um macaco. Dizem que os chipanzés não desistem nunca.
Chego em casa e tento escrever para Beatriz. Tenho que escrever antes para Marina. Perdoa-la. Ah, Marina não precisa de meu perdão, ela sabe que se todo ser humano foi gerado no pecado e ela não pretende fazer nada.
Apenas a mais fraca, a bancária, abriria o meu amor. Eu não a via no banco, porque as pessoas criam diversos espectros para si. A Beatriz do BBDC era mais resistente e constante. No entanto, havia uma outra, ela poderia ser vista em um dia de sol, em uma alameda do parque Ibirapuera. Ela viria com um short verde e um tênis branco de corrida. Eu comentaria sua jovialidade, a boa forma, a beleza do pequeno pé. Esta Beatriz eu nunca encontrei no trabalho. Mas eu estava lá, ela diria. Estava naquele porta-retrato. Eu sorria ao lado da minha mãe. Segurava o meu afilhado. Tinha sobre a minha mesa um pequeno vaso amarelo com duas margaridas de plástico.







Abduzido

Volto a pensar no Pai Celestial e nas sensações que experimentamos quando nos unimos a outra pessoa. Tenho poucas razões para crer que Deus se importa com a divindade do amor e na sua permanência. O Altíssimo estaria mais próximo do ciúme. O ciúme não requer provas. Sempre será ostensivo em sua perfeição doentia e sobreviverá ao fim do amor. O ciúme é um elefante enterrado durante a noite, no meio da avenida 23 de maio.
Quero estar fora da lógica, do nexo. Beijar mulheres e examinar figos abertos. Nas infecções urinárias, tomo um remédio chamado Imosec e urino verde. O vento passa por mim procurando janelas. As rosas que cheiro cospem abelhas. Sinto que em minha cabeça formaram-se enormes placas tectônicas. Elas se abrem. Subo nas asas de anjos excretados por tubarões. Pescarei folhas no meio da floresta. Desocuparei enfim, a caixa de achados e perdidos.
Sei que minha presença neste mundo não é significante. Sou filho único. Minha mãe é uma das mil esposas de um negociante religioso, vendedor de Bíblias, atacadista dos frutos da fé. Meu pai entrou em simbiose com o sofá da sala. Tenho uma tia distante. Ninguém notaria o meu desaparecimento. E se notassem, diriam que a traição amorosa causou o sumiço e não era a primeira vez. Não concluirão mais nada. Papai sabe que estou no ritmo dos dias. Quero viajar eternamente por um túnel escuro ou sair e segurar a bandeira da vitória.






A viagem

São Paulo é o centro. As cidades litorâneas são a periferia. Decido visitar o litoral. Qualquer lugar. Na mochila, levo uma calça, uma camisa e duas cuecas.
Vou à rodoviária do Jabaquara. Examino o painel das empresas, lugares e horários. Decido-me por São Vicente. A primeira cidade do país, o ovo do Brasil. Compro uma passagem. Entro no ônibus. Durmo meia-hora. Acordo e vejo um ipê amarelo no meio do verde escuro da mata atlântica. Ainda que eu desça do ônibus, nunca percorrerei o matagal fechado. Não suportaria o frio da Serra do mar. Assim tenho certeza que nunca tocarei o tronco daquele ipê. Não pisarei as flores caídas. E ainda que o imponderável permitisse uma empreitada até o local, quando eu chegasse não seria mais a árvore que avistei. A floresta se renova tal qual a pele de certos répteis. No entanto, eu localizei o ipê. Amarelo. Único. Não pisarei as flores caídas. Não pisarei na lua, mas vi e pisei na calçada do sobrado amarelo daquela cratera na periferia. Agora o ipê é um ponto. Desaparece.
São Vicente surge às quatro da tarde. O mar está ali. Piso na areia. Deixo a água bater em minhas pernas. Chuto a areia. Meu chute não modifica a praia. Pensarei no que procuro aqui.
Ando pelo calçadão. Vislumbro o teleférico vazio e constante. Prossigo o passeio até o alto do morro da Ilha Porchat onde construíram um restaurante. Peço uma caipirinha e casquinhas de siri. Anoitece. Daqui vislumbro as cidades de Santos e São Vicente. Elas acendem as luzes. A iluminação diferencia as cidades. Santos utiliza luzes amarelas e São Vicente, luzes brancas.
Posso visitar o porto de Santos. Ver o carregamento dos navios. Conhecer as putas da região. Neste instante as prostitutas são casquinhas de siri. Posso entrar na catedral da cidade.
Nos arredores de um porto, os paralelepípedos das ruas parecem avisar que as prostitutas aguardam a tara de todos habitantes da cidade. O cansaço aqui é uma permanência.
A cidade de Santos é dividida por canais. Entre os canais sucedem as praias. Eu não reparo a numeração dos canais e desconheço o nome das praias. Ando pelo orla e chego em uma praça onde arrumaram um vagão de bonde e uma estátua de motorneiro. É a homenagem da cidade a este tipo de transporte. A estátua do motorneiro é toda pintada. Na parte representa os antigos uniformes esverdearam a pedra. Mas também coloriram o quepe, os olhos e o bigode da estátua.
Uma família chega perto da instalação. Examinam o vagão. Tiram fotos. O casal e seus dois filhos. Uma menina pré-adolescente e um bebê de colo. Mãe e filha sobem na mureta do canal e são fotografadas de mãos dadas. O pai segura o filho ao lado do motorneiro. A mulher fotografa as três esculturas.















O olhar

A família se retira. Examino melhor o motorneiro de pedra. Alguém aceitou ser o modelo daquela estátua. Um dia o motorneiro não foi pedra. Talvez tenha sido uma fotografia amarelada. Terminou aqui totalmente desconhecido. O percurso inverso é possível. O boneco mantém o silêncio. Chegando perto pode ser gente novamente. Nesse instante pode ser gente. Chego perto. O motorneiro de pedra olha o indefinido e estanca. Volta a observar e o que vê retorna. Ele está dentro de um dilema. Tornou-se um tipo de cadáver atormentado por uma questão que o mantém de olhos abertos. O mundo possui um valor que justificasse a sua saída da pedra? O motorneiro não me responde, mas o instante em que o encarei, a pedra, o micro - segundo, se junta ao momento daquela família que fotografou o bonde. Este último momento se une a luminária da avenida, à buzina de um automóvel, à mulher que puxa as cortinas da sua janela e a ventania que levanta os cabelos daquela adolescente. O meu exame captura também o homem que ajeita a antena e o menino que reclama do gosto da alface enquanto um velho entra em seu apartamento sem usar a chave porque esqueceu a porta aberta.
As imagens se juntam: a buzina do automóvel é acionada quando a mulher abre as janelas. O vento passa. O ancião ajeita a roupa do menino para um outro jogar a alface pela janela. O reflexo da luminária esmaga a lataria dos automóveis. Uma Mulher cospe no pai. Tudo são alfaces no meio das avenidas.
Alguém morre neste instante. O médico dirige-se ao pai e avisa “Seu filho morreu” e o pai questiona: “Morreu! De que forma? O que vocês vão fazer agora? Ele morreu e continua a morre. Ali sobre a maca.”


Se Deus for algum troço seria isto? A multiplicação do instante. Aqui e ali. O baque do que acontece. O guarda-chuva no fundo da piscina. O agora que envolveu a todos. Nem antes, nem nunca.

Isto é o mais próximo que cheguei da frase: “Livrai-nos de todo o mal, amém!”

























O emprego

Se eu puder considerar tenho a interpretação de uma frase da Bíblia. Volto para casa. Desço na estação Jabaquara e um fedor de óleo diesel esvazia a rodoviária.
Tenho também um sonho. Passeio em uma floresta e circundo um lago. Mergulho e caminho no fundo do lago. Respiro. Sinto que respiro no meio dos peixes. Acordo e os dias passam.
Segunda–feira e procuro um emprego. O mundo está igual e respiro. Preencho uma ficha em uma companhia aérea. O Departamento Pessoal me chama para uma entrevista. “ Sua experiência em lidar com o público é interessante”. Passo nos testes. Espero alguns dias e assinam a minha carteira. Empregado Celetista novamente. Informo a papai sobre o novo trabalho. Ele fica satisfeito:

- Ah! Que bom, filho.
- Fui contratado pela Varig. Meu trabalho é agente de bagagens. Despacho as bagagens.

Digo que tenho alguns privilégios. Nas minhas férias teria direito a duas passagens aéreas. Nós poderíamos viajar e tem uma moça do banco, a Beatriz. Eu estou interessado. Agente de bagagens não é tão importante quanto um mecânico de aviões, mas é um emprego.

- Claro filho, a Varig é a maior empresa.

No final da conversa, confesso algo que descobri:

- Papai... o senhor não vai entender. Eu não sei explicar.
Eu tinha que perdoar alguém... e perdoei o senhor.

Papai não entende e ri. Não sabe que o perdão consumou- se como a única obra que realizei para Deus em muito tempo. Pelo menos um perdão. Um gesto bestamente justificável.



Antes um retorno

Começo no emprego na segunda. Daqui a dois dias. Tenho este sábado de expectativa. Pego o ônibus Jardim Mirian. Quero me despedir. Chego para me despedir. Levo a câmera. Percorro a avenida Yervant. Ela é tão comprida. Acho que termina em lugar nenhum.
Não me dei conta na hora. Passei por dezenas de caixas d`água expostas ao relento e tênis pendurados na fiação dos postes. Reparei a profusão de portões de ferro fechados por correntes enferrujadas. Poderia ter fotografado. Agora está muito escuro. Esta miséria silenciosa tem um segredo, por isso é tão atraente. Onze horas da noite. Retorno à árvore sagrada. O povo dorme. No quintal de uma casa alguém pendurou gaiolas vazias. Soltaram os passarinhos. Neste momento escuto um grito.
O grito não vem de um lugar determinado. Um grito somente. Paro de sonhar. Você não queria isto? Ser o espectador de um esconderijo noturno criado pelos irmãos da Vila Joaniza? Alguém me puxa pelo ombro, um homem de terno bege esburacado, arregala os olhos e pergunta:

- Você não é o filho caçula do seu João, o borracheiro?

Saio correndo. Desço o barranco. Paro. Entro em uma viela à esquerda. Quem era o sujeito? Alguém que se confundiu. Eu era o filho caçula do seu João, o borracheiro. Melhor não explicar a intenção das fotografias. Mas não entendi o grito. E aquela escuridão?
O lugar em que finalmente chego é um buraco de luz. Estou perdido. Vejo longe um jumento branco. O animal carrega duas crianças sobre o lombo.
Tento justificar a imagem. É somente um jumento passeando. Nada de extraordinário. Gatos não se reproduzem de madrugada?
O quadrúpede vira-se para mim com os seus olhos de cego e penso: “Siga o cheiro”.
Siga o cheiro. Sigo um cheiro de vela. Ele preenche o ambiente. Mais forte à esquerda. Passo por um muro de tijolos aparentes e o que cheira é uma capelinha cercada por um jardim de flores amarelas. A grama reflete a luz de luminárias presas à pequena torre. O local se diferencia da pobreza da região.
Entro e ali está o cheiro. Velas rodeiam o corpo da adolescente. Era uma adolescente. Suicídio. Dez pessoas examinam a morta. Outras pessoas estão sentadas nos bancos. Um homem calvo alisa a própria nuca repetidamente. Mal conversam. Não choram, não estranham a minha presença.
O corpo da adolescente está deitado sobre uma mesa.
Alguém questiona a demora do IML. O rabecão levará a menina?
Não é preciso o atestado de óbito? Quem cuida disso? – indagam.
Acho que é o padrinho.
O veículo chega e manobra no jardim. Avança, recua, bate a traseira nos degraus do prédio e estaciona em frente à capela.
Os funcionários do IML trazem uma banheira de plástico branco, estreita, comprida e encardida. Ali depositam o cadáver da garota. Ela usa um short azul e sutiã. Suicidou-se com pouca roupa. Ouço as explicações:

- Jogou-se?
- Morreu?
- Morreu caindo tão baixo?
- Bateu a cabeça.

Outros funcionários estacionam melhor o veículo e abrem as portas do IML. O IML estava dentro da viatura. Um espaço para seis banheiras. Cinco estão preenchidas. A banheira da menina, a gaveta da morta, entrará no encaixe inferior direito.A morte se organiza dentro de mim.
Observo as gavetas brancas, os receptáculos e os pés dos defuntos. Tiraram as meias. Não é possível definir o sexo dos mortos pelo exame dos dedos. Aparentam serem pés de homens. O resto nem quero saber? Se tinham braços, cabeças. Conto cinco gavetas brancas, dez pés, cinquenta dedos. Juntaram dois pés femininos para a lotação.
Os amigos e parentes saem da capela. Identifico a mãe. A única que chorava.
Sento em um banco da capela. Gostaria de rezar pela menina. Ninguém pode corromper a própria vida em sua continuidade inexorável rumo à velhice do corpo. Os suicidas desafiam a natureza, as leis do céu e dos homens...a pulsação geral do mundo, a descarga.
Acho que a menina não quis desafiar ninguém. Sinto não ter sido isso. Havia outro objetivo em seu suicídio. Nessa lonjura de mundo Deus se encontra em um nível vibratório diferente da vibração do planeta. Não percebem, é logo aqui, onde ele se manifesta intensamente. A menina quis alcança-lo de um modo obtuso. Confundiu-se. Suicídios não sintonizam o Onipotente.
Eu não vivo aqui e, por isso, o sismo do altíssimo deslocame, trepida o meu corpo sem me prejudicar. Somente eu sei que nas escadarias, nos becos impregnados de lodo, ele se torna mais perceptível.
Examino o altar. O manto branco que o cobria era liso e brilhante. A igreja católica realmente não dispensa a seda e o gesso das imagens dos santos.
Abro a porta da capela, saio. Já amanheceu e o bairro não existe mais. Restou somente uma ampla várzea rodeada por vinte casebres e atrás de cada casebre uma pequena horta.
Dois meninos magricelas correm e trazem um fedor de esterco. O cheiro do bairro há cem anos.
Vejo um homem sacrificando um porco. Faz um século que ele tenta matar o animal a pauladas. Ao lado do algoz, um menino assiste o flagelo. “Este bicho não morre!” O homem comenta. “Não morre por causa da pena deste moleque! Ele sente dó e não tira os olhos”.
O homem enfia um facão na garganta do suíno. “Não sabe matar”. Comenta outro homem. O sangue escorre pela lama do chiqueiro. A ferida se esgarça. O porco grita.
Ontem escutei o mesmo grito. Humano.
Estão sacrificando um homem não um porco. E há cem anos ele se esforça para que sua existência prevaleça. O algoz enfia o facão. O metal novamente atravessa a garganta do animal. O homem guincha e grita. Grita. Aqui. Nesta periferia.










 


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