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Erótico-->NOSSO DESPERTAR NA ESPIRITUALIDADE -- 03/03/2005 - 03:53 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER













Nosso
Despertar
na
Espiritualidade









Turma do Professor Olavo









































ÍNDICE

Saudade ..................................................... 3
1. A hora da morte ............................................. 4
2. A temperatura moral ......................................... 5
3. Intuições ................................................... 6
4. O labirinto ................................................. 7
5. A escrita na areia .......................................... 8
6. O grupo ..................................................... 9
7. Noite ....................................................... 10
8. As regras ................................................... 12
9. Jônatas ..................................................... 14
10. Causas entrelaçadas ......................................... 15
11. Plauto ...................................................... 16
12. Rapsódia de fé .............................................. 17
13. Visitantes ilustres ......................................... 19
14. O mendigo ................................................... 20
15. Perplexidade ................................................ 21
16. A surpresa .................................................. 22
17. Consenso .................................................... 23
18. Hélia ....................................................... 25
19. Clotilde .................................................... 26
20. Anabela ..................................................... 27
21. Janice ...................................................... 27
22. Dorotéia .................................................... 28
23. Agitação .................................................... 29
24. Flávia ...................................................... 30
25. Excursão .................................................... 31
26. Derradeiros comentários ..................................... 33

Adenda

1. Bruno ....................................................... 35
2. Atanásio .................................................... 36
3. Claudinei ................................................... 36
4. Daniel ...................................................... 37
5. Alípio ...................................................... 38
6. Henrique .................................................... 39
7. Temístocles ................................................. 40
8. Fábio ....................................................... 41
9. Pós-escrito ..................................................42

















SAUDADE

As sensações carnais, logo que transpomos o umbral da morte, causam-nos a impressão de que tudo nos falta. Até dominarmos de novo o aparato perispirítico é como se tivéssemos sofrido várias amputações. No entanto, a força do pensamento vai orientando a captura dos mecanismos enferrujados e nós despertamos para a existência incorpórea revigorados e plenos de saúde espiritual.
Quem tiver uns laivos de conhecimento espírita vai contestar a assertiva acima, alinhando inumeráveis relatos de sofrimentos alienantes, a ponto de os indivíduos passarem de uma encarnação a outra sem terem sequer tido um mínimo daquela impressão de falta de um corpo denso e material.
Essas pessoas vão obrigar-nos a refazer o texto? Absolutamente não. Todos haverão de concordar com o fato de que as entidades que não controlam o corpo espiritual não poderão refazer habilidade que jamais possuíram. Estes seres mais atrasados, contudo, somente no etéreo é que alcançarão movimentar-se como espíritos desencarnados, executando, com liberdade de ação, as atividades concernentes àquele ambiente.
Interessa-nos o momento em que se dá, de relance, a conscientização de que existe a necessidade de conquistar um dos itens evolutivos mais importantes. Nessa hora, é comum assaltar-nos o sentimento da perda, porque ainda não compreendemos toda a extensão do ganho que estamos em vias de realizar. É assim que se enraíza, nos meandros mais recônditos dos seres, indefinível sensação de saudade.
Quando o espírito se sente cercado pelos que amou em vida, não se deixa perturbar. Mas estes são os que conseguiram expurgar grande parte do egoísmo desenvolvido através do apego aos recursos materiais, depositando, nos companheiros que o amparam, integral confiança. Os que não conseguem visualizar mais do que o estado de desamparo orgânico, caem em profunda prostração, demorando muito mais para entender como se organizam as energias de que dispõem para efetuar a supra-referida conquista.
— Quer dizer, perguntarão, que sentir saudade é próprio dos seres inferiores? Estranha assertiva essa perante o tom poético que envolve o conceito de tal sentimento, como se o saudoso revivesse os momentos de felicidade, ainda que em pranto!
De fato, quando desperta para a realidade do etéreo, o espírito tem de portar consigo a fé, a confiança inabalável de que está adentrando em um mundo mais perfeito, onde todas as emoções de caráter positivo se intensificarão, não havendo mais lugar para lamúrias. Quem acreditar em que vai merecer a atenção dos irmãos mais adiantados, eliminará todos os aspectos negativos que traz do passado terreno, mesmo quando se recorda de que os entes queridos devem estar passando por dificuldades.
É assim que se criam a esperança e a coragem de enfrentar e superar as deficiências pessoais. Quem traz a compreensão das leis de amor, de progresso e de justiça, adquire uma serenidade de pensamento que o leva a sempre proceder visando ao aperfeiçoamento das virtudes. E essas leis obrigam a que desapareça a sensação de perda, de falta, de ausência, de saudade.

Valha-nos o presente argumento como introdução ao texto que se lerá a seguir.
Turma do Professor Olavo.





















1. A HORA DA MORTE

Quando Pedro exalou o último suspiro, teria ainda alguns minutos até perder a consciência corpórea. Foram minutos muito próximos de uma eternidade medida, tanto que pôde reconstituir, como por encanto, toda a sua vida, desde o primeiro vagido ao adentrar a atmosfera, até a derradeira impressão de esvaziamento do vaso pela retirada de todo o líquido fluídico constituinte do perispírito.
Toda a recordação se fez acompanhar por extenso cortejo de sentimentos, mágoas da primeira infância, furores da juventude, inquietação da maturidade, resignação, finalmente, da senectude. Se domínio ainda exercesse sobre o invólucro físico, teria expressado mudanças fisionômicas de extraordinária mobilidade. Se houvesse reações fisiológicas, sentiria calores, acompanhados de estremecimentos e arrepios. No entanto, ao findar o escabroso desfile, ao qual não faltaram recordações de gozos e de bem-estares físicos e morais, apenas lhe sobrou indefinível necessidade de compreensão.
Realizada a recapitulação histórica dos sentimentos, muito mais do que de eventos e sensações, atribulou-se dentro de confusa visão de si mesmo, na qual não sentia Pedro, não menos do que Antônio ou João. Havia íntima sugestão de que poderia responder por Alice, mas essa idéia não se fixava com nitidez.
Tentou organizar os pensamentos, estabelecendo como princípio, desde logo, o fato de que havia morrido. Essa noção fizera questão de deixar impregnada na consciência, quer pela idade avançada, quer pela pertinaz e letal enfermidade de que se vira acometido. Contudo, não sentia nenhuma reação material ou semimaterial, não tinha tato, nem visão, nem olfato, nem audição, nem era capaz de perceber qualquer resquício do gosto dos remédios que lhe vinham sendo introduzidos no organismo.
“Bendito espiritismo, porque me trouxe o conhecimento desta hora de transição. Se eu ficar quieto, orando ao Senhor em agradecimento por me achar neste estado de abstenção de desejos, com certeza merecerei ser agasalhado pelos espíritos amigos que por mim velam e que se encontram trabalhando em favor do meu restabelecimento.”
Pensou em orar mas, à vista da idéia de que teria feito por merecer especial atenção, principiou a reconstituir todos os atos que lhe pareciam significar iniludível demonstração de benemerência e caridade. Sentia, com isso, justificado prazer, concentrando-se nas pessoas que se beneficiaram com sua generosidade. Vieram-lhe à memória os atos infantis, vivos ainda após a última atividade do inconsciente.
Fazendo contraponto no âmbito dos pensamentos, não perdia de vista a iminência do despertar para a realidade transcendental. Nesse estado de excitação eufórica, perpassou todos os dias da vida, ressaltando cada mínima consideração em favor dos semelhantes.
Perdeu a noção da hora, esquecendo-se de que havia um tempo a escoar, não se importando com nada além desse restaurar de sensações agradáveis. Ao chegar à observação que fizera à enfermeira que lhe ministrou a derradeira dose de medicamento, observação que se resumira a grunhido que pretendia ser amável agradecimento, pesou-lhe na mente a desconfiança de que bem poderiam existir fatos, ainda em maior número, que pudessem representar atos contrários às normas da civilidade, pequeninas ofensas contra companheiros de folguedos, por exemplo, quando as desculpas avultaram no sentido de atribuir as falhas à meninice sem juízo e sem critério.
Sobrou-lhe a indagação a respeito do que havia prevalecido e tal foi o interesse que demonstrou que começou a enumerar de novo todos os atos bons, contrapondo-os aos maus, dia após dia. Com facilidade, computava ambas as atitudes, somando cada benefício ou malefício à coluna correspondente. Ao lado, numa terceira coluna, assinalava com xis toda vez que conseguia explicação lógica ou plausível para os defeitos. Era como se estivesse escrevendo numa folha de papel, sendo capaz de reformular as apreciações, toda vez que lhe vinha à cabeça uma intuição melhor que a anterior. Na verdade, havia um xis para cada ato mau.
O que mais o intrigou é que nem sempre havia a possibilidade de fazer corresponder um atitude boa à má, de sorte que a coluna das piores ações ia avolumando-se bem mais. Dessa forma, todo o êxtase que sentira na primeira reconstituição se fundia ao mal-estar da necessidade de encontrar justificativas e explicações.
Tentou interromper o levantamento, mas a sensação de que precisava aguardar o momento de ser resgatado daquele torpor, levava-o irresistivelmente a prosseguir. Quando o prazer das boas ações se fundamentava na premissa da consciência do conhecimento da necessidade de praticar o bem por força das leis morais, aí é que era inútil buscar as razões dos erros, das injustiças e das agressões, ainda que praticados no âmago da personalidade, como simples pensamentos, sem nenhuma exteriorização consciente.
“Terei capacidade para examinar as sutis demonstrações dessas atitudes de menosprezo pelos seres que me rodeavam?”
Perguntou e imediatamente se criou uma espécie de espelho onde se refletiam, como em tela de cinema, as cenas que rememorava, ficando seu rosto em absoluto primeiro plano, escondendo as demais personagens do drama. No início, as expressões que observava não tinham significado algum, ou melhor, repetiam as palavras que foram ditas naquelas circunstâncias. Aos poucos, porém, a figura se calava mas a fisionomia ia traduzindo os sentimentos, de sorte que a crítica que estava estabelecendo ao procedimento em descompasso com as noções dos deveres guardadas no intelecto se intensificou.
Imperceptivelmente, houve um crescendo da expectativa de se ver perante os guias espirituais, até que toda aquela modorra inicial, aquele impulso da inércia dado pela idéia de que a morte lhe havia sido leve terminou por constituir-se em ânsia incontrolável de superar a fase das recordações.
Quando foi capaz de justificar o conceito de que não merecia a pretendida atenção, desmaiou, perdendo completamente o domínio sobre si mesmo. Mas as idéias revoluteavam em seu eu-profundo, mesclando-se com recordações de outros tempos e de outras vidas. Acordaria depois de reconhecer que havia integrado ao ser noções mais lúcidas do bem e do mal.



2. A TEMPERATURA MORAL

Raiava o sol, quando Pedro despertou. Espreguiçou-se, distendendo os músculos, para sentir aquele bem-estar de corpo sadio preparando-se para a agitação diária.
Foi ao buscar os óculos sobre o criado-mudo que percebeu que já não se encontrava em casa. Sentiu as reações do organismo como há muitos anos não fazia, refeito dos achaques da velhice, o que o levou a considerar que, no etéreo, as sensações eram mais plenas e prazerosas.
Ergueu os braços ainda deitado, desconfiado de que as rugas tivessem desaparecido do dorso das mãos. Na verdade, foi incapaz de visualizar os membros, com a vista enevoada por luminosidade esbranquiçada e distante, como quando se vê uma lâmpada no fundo do nevoeiro.
Aproximou as mãos dos olhos para esfregá-los mas o movimento não teve a correspondente sensação nem nas mãos nem no rosto. Virou de lado na cama, acompanhando mentalmente todos os esforços para colocar-se na nova postura, obtendo a impressão de que conseguira realizar tão simples ação. No entanto, percebeu que não encontrava resistência alguma debaixo de si, como se estivesse estendido sobre nuvens.
Que sol era aquele que via ainda quando voltado para baixo ou com os olhos tapados pelas mãos? A interrogação se deu muito a medo, como se fosse um desafio existencial ao poder divino. A lembrança de Deus trouxe-lhe de volta a necessidade da prece. Aí, encurtou os dizeres, resumindo os sentimentos no duplo sentido do agradecimento e do rogo:
“Senhor, eu sei que não prestei a atenção devida aos ensinamentos que recebi. Contudo, estando a me sentir bem neste momento, sem dor física ou moral, agradeço-lhe esta agradável sensação de plenitude e peço-lhe que não me permita, de novo, enveredar pelas péssimas realizações do passado.”
Atinou que já não havia espelho em que se mirar e ficou intrigado com o fato de haver visto todas as mudanças fisionômicas com total nitidez. Refletiu um pouco, recordando-se das obras mediúnicas que lera, logo concluindo que todos os efeitos visuais se haviam construído dentro da mente.
“Se permanecer neste estado por muito mais tempo, vou acabar descrendo das informações que os espíritos passaram aos encarnados. No entanto, só tenho a agradecer-lhes as manifestações solidárias, uma vez que, sem elas, muito provavelmente, minha aflição teria sido bem pior. Se estou lembrado, disseram eles que a recomposição da figura perispiritual era demorada e exigia poderoso esforço de concentração. Talvez não tenha acreditado no que li, já que teimava em pensar que não haveria nenhuma necessidade de os espíritos se mostrarem uns aos outros conformes à aparência terrena. Sempre imaginei o corpo espiritual como facho energético, uns com mais, outros com menos luminosidade. Mas também julgava que os pensamentos não se armariam segundo construções sintáticas ou frásicas do contexto lingüístico habitual e estou aqui a elaborar os pensamentos segundo princípios e normas do português. Preciso reagir contra o marasmo em que permaneci não sei por quanto tempo, começando a exercitar-me, conforme a tendência à contextura que for assimilando.”
Como não sentia dor alguma, começou a bater imaginárias palmas, crendo que acabaria por dar forma às mãos e braços. De fato, logo percebeu que forças se criavam no íntimo do organismo, agitando algo dentro de si, como se a formação do corpo dependesse de um ato consciente. Recordou-se de que os fetos na Terra iam crescendo independentemente da vontade e, por comparação, tentou elaborar mentalmente todo o processo de desenvolvimento das criaturas.
Conquanto não avançasse no sentido de recompor o aparato sensório, começou a perceber que se delineavam horizontes, como se estivesse perdido em meio às brumas da manhã, no campo, havendo grandes massas escuras mais baixas, cedendo àquela luz mais ao alto o predomínio de sua atenção.
“Sempre soube que os espíritos se apresentavam aos olhos humanos como figuras típicas da região. Um artesão traria sua ferramenta.; um lavrador, a charrua.; a costureira, a linha e a agulha. São exemplos clássicos. Será que terei como criar um livro, uma peça de artesanato, um instrumento musical? Será que ainda em verei vestido com trajes esportivos, como no tempo em que jogava futebol?”
As perguntas não corresponderam a nenhuma resposta tangível. Entretanto, levaram-no a pensar nos companheiros e nos adversários das partidas, recompondo todo o prazer das disputas, o cansaço das pelejas, o ardor ou o desânimo dos resultados. Não se dedicou a estabelecer parâmetros morais. Queria reviver, com toda a intensidade, aquelas correrias, aqueles saltos, aqueles tombos.; queria recolher do solo a umidade e o odor dos gramados ou a sensação do areal que tornava mais pesada a locomoção. Principalmente, queria sentir nos pés o peso da bola, arremessada com força contra o arco adversário. Queria ver estufarem-se as redes e ouvir o clamor da torcida.
De repente, sentiu-se no meio da multidão que se regozijava com o gol da sua equipe. Pulava de alegria com os demais, cantando o hino do clube, lançando impropérios contra o juiz, excitando os demais com palavras estimulantes de profunda alegria.
Houve um momento que, ao saltar, caiu de mau jeito, torcendo o tornozelo, sentindo profunda dor como se tivesse esmigalhado os músculos e afundado o calcanhar. Sentou-se no cimento frio e rústico, apalpando a parte ferida, dando-se conta de que nada daquilo poderia ser real.
“Como estou morto, acho que simples sopro vai restabelecer a parte lesionada, afastando totalmente esta impressão de dor.”
Convicto de que encontrara a solução, assoprou e logo percebeu que o efeito fora exatamente o que esperara. Mas a descoberta levou-o a desinteressar-se pela partida, pelos jogadores e torcedores, pelo estádio. Queria ver-se longe dali, explorando ainda a condição de falecido e a incapacidade de montar o corpo fluídico.
Voltou à semi-escuridão, perplexo com a incrível experiência de há pouco. Era o mistério que tinha para resolver.



3. INTUIÇÕES

Pedro considerou a possibilidade de estar sendo monitorado pelos protetores, sem que lhe dessem ensejo a que os visse, uma vez que não teria meios de compreender o significado das aparições. Poderia atrapalhar-se com a luminosidade, ofuscando a inteligência, queimando os neurônios da memória mais recente.
Refletiu a respeito das perdas e das dificuldades e ficou sem compreender como é que desandara a pensar sobre fatos hipotéticos, quando trazia vívida memória das leituras segundo as quais as pessoas cordatas, empenhadas em praticar o bem, inteligentes e dóceis para com as orientações dos dirigentes das casas espíritas, trabalhadoras na seara caritativa junto ao departamento de assistência social, eram recebidas em festa pelos parentes e amigos que as antecederam na jornada para o além.
Refez a longa lista dos fatos menores, cotejou com a impressão de que havia melhorado muito em relação às vidas anteriores, porque o contrário seria impossível, e chegou à conclusão de que não estava permitindo-se ouvir os conselhos dos amigos da espiritualidade.
“Vou estabelecer diálogo comigo mesmo, opondo a cada idéia algo contrário ou diferente, como se recebesse advertência de alguém mais adiantado no aspecto espiritual. Neste caso específico, quem haverá de dizer que terei sido eu mesmo quem irá sugerir um novo pensamento? Toda intuição talvez se perca em emaranhado de raciocínios, enredando-me muito mais no desejo de vencer este momento de obscurantismo. E se, de repente, se fizer a luz e eu chegar a entender as verdadeiras razões de não estar irmanando-me com os companheiros a quem amei e amo? Realmente, esta é a primeira vez que me refiro aos outros como pessoas de mesma estatura moral que eu. Terá sido Jesus mesmo quem determinou que se amassem os semelhantes como a si mesmo? Que entendo eu de amor?”
Nesse ponto da meditação, evocou todos os seres que lhe mereceram afeição: avós, pais, irmãos, esposas, filhos, namoradas, colegas de escola e de profissão, amigos do esporte, do centro espírita, das reuniões sociais, chefes, subalternos e demais pessoas mais distantes a quem admirava pelo talento ou pelas realizações, como os autores de livros, os grandes médiuns, os compositores, os artistas...
“Acho que preciso definir melhor o que seja amar. Para tanto, fica mais fácil de considerar o amor das pessoas por mim. Como minha mãe me recebeu no ventre? Pelo número de filhos que teve, em sendo eu o sétimo dos treze, com certeza fui uma cria da ninhada. Gostava de mim como dos demais. Talvez o mais velho tenha sido recebido com maior carinho. Talvez o caçula tenha tido grau de proteção mais elevado...”
Interrompeu a linha do pensamento com a clara percepção de que estava emitindo conceitos sob efeito do ciúme, da inveja ou do desgosto de ter sido amamentado e acarinhado tão-só entre uma gestação e outra.
“Não posso ser injusto para com meus velhos. Sem posses, até que fizeram muito por mim e por meus irmãos. Talvez, se eu tivesse sido o mais velho, precisasse trabalhar mais cedo para ajudar nas despesas. Sendo um dos intermediários, aproveitou-me o sacrifício dos demais, tanto que pude estudar, formar-me, dedicar-me a uma profissão liberal, a ponto de, finalmente, ganhando como advogado, ter como dedicar-me às artes, enquanto ajudava na criação e na educação dos mais novos.”
Não atinava, contudo, com as possíveis observações que pretendia perceber advindas dos mentores de sua restauração perispirítica.
“Devo estar puxando as brasas para a minha sardinha. Sempre que penso nos possíveis defeitos desta linha de raciocínio, logo surge uma desculpa, uma consideração de cunho elogioso, inclusive no que respeita à vestimenta com que vou cobrindo as idéias, já que meu linguajar exprime exatamente a tendência à correção, como um dos elementos da coerência, da integridade, da perfeição relativa da personalidade. Não abro mão de imprimir certo cunho de honestidade aos dizeres, que, de resto, não consigo emitir através do sistema fonológico de que deverei estar dotado agora, nem consigo ouvir, que não existe neste espaço nenhuma reverberação de qualquer som. No campo de futebol...”
De repente, pôs-se a analisar o conjunto das pessoas entre as quais se encontrara. Havia um quê de diferente nelas, como se estivessem reagindo em descompasso com os fatos que guardara na memória. As roupas, os gestos, as bandeiras, outros artefatos, muitas expressões não repercutiam junto ao acervo de seus conhecimentos básicos.
“Será que estive realmente num estádio de futebol entre encarnados? Ou será que, nesta esfera, também existem locais em que se reúnem as entidades com os mesmos hábitos de quando eram vivos?”
Perguntou mas não alcançou resposta. Desejou volver àquele mesmo local, mas não sentiu nenhum empuxo que o carregasse para lá. Sentiu-se amarrado, atado, preso, engaiolado. O pé que machucara já não mais existia. Falar, cantar, saltar, bater palmas, assoprar, tudo se perdera de novo.
“Que fiz agora para estacionar?”
Foi quando sentiu uma resposta como que provinda do exterior:
“Você não está enfrentando os problemas. Prometa que irá melhorar o procedimento e terá diante de si os socorristas que irão tirá-lo da situação de penúria existencial.”
“Por que deverei prometer tal coisa?”
“Por que você não é perfeito!”
Desejou responder que ninguém é perfeito, mas preferiu resguardar-se prudentemente, meditando sobre qual a melhor fórmula para realizar a promessa solicitada.



4. O LABIRINTO

Lembrou-se Pedro de que era corrente entre os amigos espíritas a concepção de que o mundo espiritual contíguo ao dos encarnados se criava a partir da força do pensamento. Era como se o pensamento se constituísse de energia capaz de atuar sobre a matéria da região, a que davam o nome de fluido (muitos pronunciavam fluído, o que o irritava sobremaneira). Sendo assim, cada qual teria o condão de construir o próprio ambiente.
Pedro achava que tal idéia tinha fundamento, quando se tratava de explicar que muitos permaneciam internados em cavernas cavadas na densidade da atmosfera trevosa. Também concordara, certa vez, com que o conjunto das vibrações harmonizadas dos seres mais adiantados era bem capaz de criar realidade mais elaborada, verdadeiras colônias, onde podiam dispor de jardins, de passeios e alamedas, de edifícios, de instrumentos variados, de objetos de arte, em suma, de tudo quanto necessitassem para dar conforto, assistência e tratamento aos doentes que para lá eram encaminhados nas caravanas de socorristas, ou seja, por magotes de seres treinados para dar assistência e primeiros socorros às entidades em condições de aceitar as próprias dores e sofrimentos.
Não demorou para imaginar que sua condição mental traria por conseqüência ambígua construção, dado que era bem capaz de caracterizar os atos em que praticara o bem, definindo com exatidão as virtudes que se envolviam nas ações. Também era muito preciso em reconhecer os erros, pelo menos os mais grosseiros, atribuindo a si mesmo defeitos de que se arrependera em tempo hábil, distribuindo com generosidade o tempo livre, agasalhando pessoas aflitas, atendendo doentes, aconselhando desiludidos, instruindo interessados na doutrina espírita, alimentando famintos, cobrindo desnudos e visitando presos nas penitenciárias.
“Não posso deixar de considerar certa hipocrisia em dispor os pensamentos segundo as palavras que se registraram nos evangelhos como tendo sido ditas por Jesus, como também, na época, agi em consonância a elas com o intuito de jamais vir a ser acusado de não haver atendido ao apelo do Cristo. Assim sendo, eu acho que, se me der ao trabalho de caminhar, ou melhor, de me deslocar neste mundo em que estou imerso, vou esbarrar sempre em paredes e desvãos, verdadeiro labirinto, única...”
Ia por aí nos raciocínios, quando percebeu que esbarrara numa parede, como se estivesse despertando o sentido da visão, já que logo reconheceu uma sebe formada por vegetais entrelaçados. Ato contínuo, estendeu os braços e agarrou uns ramos salientes, sacudindo-os com força, a ver se se desfaziam ou se abriam passagem. Para sua surpresa, a escuridão foi desfazendo-se ao derredor, de sorte que pôde ver-se dentro de três paredes, havendo abertura lateral por onde podia passar. Olhou para cima, mas ali se achava ainda a névoa esbranquiçada, atrás da qual a luz voltara a definir-se.
Pensava estar deitado num leito de macio colchão, entretanto, viu-se de pé, sem móvel algum no quadrilátero.
“Eis que acabo de construir o meu labirinto. Tenho a certeza de que entrarei por imensos ou intrincados corredores, ficando, sem fio de Ariadne, a regressar eternamente ao ponto de partida. Mas, se fui capaz de montar uma realidade tangível, também devo criar um carretel bem grande, com linha suficiente para desenrolar até a saída. Toda vez que me deparasse com o fio, eu desviaria para outra abertura, evitando andar em círculos.”
Imediatamente, pegou a ponta do grosso barbante que se enrolava em enorme maçaroca e prendeu-a ao ramo saliente. Notou que as mãos eram saudáveis e lisas, com veias e ranhuras bem definidas. Percebeu que o nó ficara bem firme e que o esforço que aplicara fora o correspondente à utilização de musculatura rija nos braços e peitorais. Abaixou-se para erguer o novelo, notando que as pernas estavam obedecendo como nos bons tempos da juventude.
“Graças a Deus, a sensação de existir sem ter em que fundamentar a organização do ser de que me sinto possuidor está desaparecendo. Com certeza, tal como regressei do campo de futebol, também desta condição de eremita ou peregrino irei volver para o fundo da consciência. Para evitar que haja decepção, talvez o melhor que possa fazer será ir avançando devagar, marcando cada passagem, corredor ou portal com um pensamento edificante, como os que lia nas obras mediúnicas de advertência para a prática do bem fundamentada no amor. Será que conseguirei criar folhas de papel, caneta e demais petrechos com que fixar os avisos nas paredes?”
O máximo que conseguiu foi um estilete de madeira, percebendo imediatamente que poderia escrever na areia do solo. Recordou-se do episódio em que Jesus evitou a dilapidação da adúltera, especialmente por sempre se ter deixado impressionar pelo fato de Jesus ter ficado a escrever no chão, enquanto os acontecimentos se desenvolviam de forma tão dramática.
“É verdade: quem se julgar isento de culpa que atire a primeira pedra.”
Com esse pensamento, Pedro começou a peregrinação pelos meandros do labirinto, como se tivesse ouvido a recriminação de Jesus e se afastasse do ponto em que estivera prestes a ser apedrejado.



5. A ESCRITA NA AREIA

“Vou começar com um comentário a respeito do isolamento.”
Pedro abaixou-se e escreveu: Está só o indivíduo quando não consegue conversar consigo mesmo.
A frase levou-o a considerar a hipótese de que iria permanecer para sempre naquele desvão do espaço e do tempo.
Escreveu no compartimento seguinte: O tempo possui a propriedade de existir somente enquanto o indivíduo tem força para trabalhar.
Meditou a respeito da extensão da eternidade e, caminhando para o espaço seguinte, escreveu: Jesus prometeu aos homens que todos se reuniriam a ele no reino do Pai.
Sentou-se no chão e pôs-se preocupado com o teor dos textos:
“Eu havia imaginado, ou melhor, havia planejado escrever frases que dignificassem a existência dos bons e dos justos, frases lidas nas obras de superior moralidade. Veio-me à lembrança a exortação de Jesus aos apedrejadores da adúltera. Talvez fosse essa a inspiração inicial, o exemplo a ser seguido. Será que Jesus prometeu mesmo que todos, no final dos tempos, ou seja, durante a eternidade da perfeição de cada um, quando ninguém mais tiver de trabalhar por ninguém, porque época haverá em que todos terão de tudo, conforme a justiça e a misericórdia de Deus, será que Jesus prometeu mesmo que todos se encontrariam no Paraíso? Se não prometeu em vida, deve ter prometido para algum povo mais adiantado da galáxia, para os espíritos eleitos, para os apóstolos de seu evangelho universal, porque não se tem como pensar em que isto não venha a suceder, já que o tempo é infinito, enquanto houver trabalho, mas deixa de existir, quando a perfeição houver englobado a existência.”
Pedro se havia deixado levar, como refletiu, à matroca, largando o timão para seguir ao sabor dos ventos sutis dos pensamentos livres, intimorato, como a desafiar qualquer impulso menos impregnado de teses espíritas. Chegado ao conceito de perfeição, percebeu que navegara ao largo, não sendo capaz de enxergar as costas em que situara seu porto seguro. Singrou, contudo, na direção que julgou a mais propícia:
“Nas terras dos seres perfeitos, todos se reconhecerão como iguais. Não haverá o desejo de um que não corresponda ao do outro, ou melhor, não havendo necessidade de nada, não haverá desejo algum. Liberto-me do impulso de jogar âncora e afirmo a hipótese muito plausível de que não haverá mais que um ser, criaturas e criador confundidos no princípio primário inteligente.”
Sentiu que fora longe demais:
“Estou à deriva e ainda considero que meu mapa de navegação esteja sendo corretamente atendido. Daqui a pouco, estarei afirmando que o ato da criação haverá de repetir-se pela eternidade, não por força de provir do Ser Supremo, mas pelo tédio da existência sem parâmetros. Pelo menos, o ato de criar...”
Nesse ponto surgiu-lhe no fundo da consciência a obstinada lição de seu mestre de teologia, que distinguia criar de crear, criação de creação, criatura de creatura — exagero de perfeccionismo para não confundir-se a ação divina com a ação humana.
Perdeu a linha das reflexões e passou a estimular o cérebro no sentido de recuperar todo o discurso. Para surpresa sua, reiniciou as considerações e desenvolveu-as exatamente da mesma forma e com os mesmos dizeres anteriores, sendo capaz de prosseguir o pensamento que deixara em suspenso:
“Pelo menos, o ato de criar agita bastante o marasmo da contingência do gozo paradisíaco.”
Escreveu a última frase no solo, desenrolou mais um pouco do novelo e adentrou no saguão que se abriu à sua frente. Na obscuridade, conseguiu perceber a existência de inúmeras portas fechadas.
“Neste novo ambiente, o registro que devo deixar deve ser definitivo. Deveras, o gozo paradisíaco do texto anterior foi excrescência do desejo de desafiar a verdade, uma vez que me sinto muito pequeno para deduções filosóficas e religiosas de amplitude universal. Trata-se de vertente contaminada que irá causar-me mal-estar, caso continue a saciar minha sede ali. É preciso ser sério o mais possível, pois pode ser a superficialidade das considerações que esteja a me propor a permanência neste local ermo e escuro. Eis que se caracteriza para mim o Umbral dos textos de André Luís, eu que me considerava suficientemente hábil para escapar das armadilhas dos lugares-comuns.”
Sentou-se no chão e encostou a cabeça nos joelhos, joeirando as idéias a ver se alguma não se deixava passar pelas malhas de sua retórica contundente. Sentiu como que um peso nas costas, uma dor profunda na espinha, tanto que deitou encolhido, buscando aliviar-se através da posição fetal.
Antes de cair em pranto, ainda refletiu:
“Que tanto tenho de manter-me ereto, sem o mínimo de flexão da espinha, como se tudo devesse curvar-se perante minha autoridade?!...”
Quando ergueu a cabeça, finalmente, deu de cara com o sorriso amável da benfeitora que lhe estendia os braços para erguê-lo. Aí é que o pranto jorrou bem mais abundante. Ele havia quebrado a cerviz.



6. O GRUPO

Assim que Pedro terminou a leitura do texto em que narrava as peripécias do desenlace e o primeiro encontro com Plácida, a benfeitora, os colegas emudeceram, permanecendo calados por longo tempo. Mas o ar não se encheu de constrangimento. Ao contrário, cada um emitia vibrações de profundo apreço, respeito e admiração pela obra do ilustre membro da pequena confraria.
Plácida não quis perturbar as reflexões e manteve-se em silêncio. Pedro, emocionado ainda pelas recordações que descrevera, alheou-se do círculo energético que o agasalhava, imaginando-se diante dos leitores terrenos, objetivo a ser alcançado através da mediunidade.
Enfim, timidamente, Olívia observou:
— Vocês me perdoem, mas preciso esclarecer um ponto que julgo fundamental e que não encontrei no relato: quanto tempo medido pelos parâmetros terrestres se passou desde a falecimento até o despertar?
Precisou repetir a questão para que Pedro tomasse conhecimento dela. Finalmente, este respondeu:
— Tal aspecto é realmente essencial, ou não vamos estimular ninguém a praticar a caridade nos moldes das casas espíritas, tendo em vista um sufoco prolongado, como dei a impressão de haver sucedido. Na verdade, desde que terminei a recapitulação final dos acontecimentos de minha vida até abrir os olhos para a augusta visão de Plácida, não se passaram mais do que quinze dias. Para mim, que não me concentrava no mundo exterior mas me deixava embaraçar pelos pensamentos mais tolos de desempenho que considerava superior, parecia que o tempo havia parado, completamente. Cada instante representado pelos segundos marcados nos mecanismos cronológicos terrenos parecia não passar. De resto, eu me desinteressei dos sucessos terrestres.
— Já que estamos no tópico dos esclarecimentos, interveio Jônatas, gostaria de saber por que o estádio de futebol sofreu modificações, tendo em vista a sua recordação deles, já que tão pouco tempo decorreu desde a morte?
— Morri com mais de oitenta. Fazia mais de trinta que não comparecia aos estádios e cerca de dezessete que não assistia às partidas através da televisão. Quando me levaram para o estádio, atualizaram a realidade, evidentemente.
Jônatas insistiu:
— Você esteve lá de fato ou criaram uma fantasia em sua imaginação?
— Estive lá, sim. Só notei, porém, aquele absurdo quando tive a impressão de haver torcido o pé.
— Foi você ou foi Plácida quem realizou a proeza dessa pretensa contusão?
— Penso que foram os mesmos que me transportaram, mas não vejo a importância disso.
Jônatas alimentou um pouco mais a discussão:
— Se estamos pleiteando enviar o texto resultante das explorações etéreas ao público encarnado, devemos cercar todas as dúvidas que se suscitarão no espírito do leitor.
Plácida interveio:
— Então, que tal estenografarmos as reuniões e, após expurgar-lhes os trechos incompreensíveis para a mente humana, incluí-los na composição final?
Reinaldo, que estava encarregado da parte escrita, concordou:
— Pela amostragem do nosso amigo Pedro, se conservarmos apenas as descrições dos momentos de transição, das angústias e sofrimentos, das dúvidas e discussões íntimas, acabaremos por não obter permissão para aproximarmo-nos de nenhuma mesa mediúnica.
Olívia, que gostava de colocar os pingos nos is, não perdeu a oportunidade:
— Entretanto, caros amigos, nós sabemos que o colorido, ou melhor, a atmosfera tétrica dos mergulhos no inconsciente e toda a influência perniciosa que muitos de nós sofremos ficará prejudicada, caso os relatos se mesclarem com nossas observações. Concordo com que amenizemos o tom trágico das desditas no negrume das culpas e incompreensões, mas não podemos fazer crer aos encarnados que sempre irão deparar-se com problemas meramente formais, intelectuais, morais e quejandos. Por exemplo, o termo quejando, nós sabemos que significa: que tem a mesma natureza, que possui o mesmo formato ou modelo. Como suspeitamos que o leitor possa não entender ou desagradar-se da fórmula vetusta ou antiga, vale explicar, sem substituir a expressão por outra. Não sei se fui totalmente clara.
Pedro intercedeu em favor da amiga:
— Você está desejando manter o clima o mais possível próximo da realidade vivida por todos nós. Aceita a transcrição das deliberações mas não abre mão da veracidade das situações de dor. Quer realizar obra naturalista por excelência. Contudo, tenho a um reparo com o qual sei que todos irão concordar. Caso a descrição contenha entrechos em que os termos raiem pelo baixo calão, vamos ter de suprimi-los, perdendo o vigor da condição dos seres naquele momento de extrema dramaticidade. Neste caso, proponho que o narrador tome a palavra e os diálogos cedam a vez.
Plauto, que se mantivera atento, participou pela primeira vez:
— Estava pensando nas peças de meu homônimo, que estão eivadas de termos pejorativos. Mas, através deles, o dramaturgo latino extraía graça e provocava o riso. Não sendo este o nosso objetivo, acredito que a solução de Pedro seja a ideal.
Plácida considerou que os vários tópicos tinham sido expostos com propriedade e propôs:
— Que seja Olívia a próxima a ler o que escreveu.



7. NOITE

Estive desesperada logo que me achei no etéreo. Recolhi as lágrimas dos meus parentes como sendo o tributo maior da dor que lhes causei, principalmente porque foi por culpa minha o desenlace cruel. Minha mãe ainda acalentava sonhos para mim, em futuro de glórias na televisão, quando lhe abortei as fantasias, em overdose de cocaína.
Não pretendia matar-me mas me pareceu que, inconscientemente, era o que desejava. Tenho ouvido dizer que os vícios não passam de doenças, no entanto, fui criada em um lar cheio de carinho.
Pretendia dizer que foi pela má influência de companheiros pouco escrupulosos, mas, se eu não tivesse culpa em cartório, não teria ficado quinze anos, e não quinze dias, perambulando nas trevas.
— Olívia, dizia-me meu pai, cuidado com esses estranhos desejos. Seu organismo é perecível como o de todo o mundo. Você não vai agüentar muito tempo.
Eu não ouvia e me deixava contaminar pelos prazeres baratos do pó. Entretanto, as palavras de meu pai serviram para o mea-culpa terrível do tardio arrependimento.
Regulando os meus dizeres pelo medo de que esteja sendo por demais simplória, imaginando que os leitores possam achar que todos vencemos no etéreo as dificuldades que trazemos da encarnação, devo prevenir que o sofrimento é maiúsculo, é aterrorizante, é pior do que uma estadia no inferno que a religião me pintou quando criança e que não adiantou muito para refrear-me as atitudes de pecado.
Imergi num sono profundo e, de repente, revi todos os episódios de minha vida. Compreendo agora que estava moribunda e que já não havia mais volta, apesar de, no momento, deliciar-me com todas as doses que ia repetindo na companhia de seres como eu. Num instante, estava desesperada porque não encontrava meios de sentir os pulmões se inflarem com o oxigênio que me faltava.
Havia transpassado o umbral da morte mas ignorava completamente o fato. Queria acordar e não sentia como recobrar a consciência do mundo exterior. Debatia-me em pensamento e não via nada ao derredor. Ouvia soluços longínquos, que agora sei que eram as manifestações dos que choravam por mim. Maior não foi o atropelo, só agora posso afirmá-lo, porque jamais ofereci a droga para mais ninguém. Bastava-me a crise que provocara no meu organismo.
Quando pude enxergar de novo com os olhos do perispírito, vi-me ao lado do meu cadáver. Tentei reingressar nele porque me via preso a ele por uma corrente energética que nos deixavam presos um ao outro. Demorei para perceber que era o contrário que deveria tentar, ou seja, puxar ou arrebentar o cordão que nos algemava. A visão tétrica da decomposição do corpo foi meu primeiro castigo real.

Olívia suspendeu a leitura e fez uma observação ao grupo:
— Lutei por fazer que os relatos não fossem alterados. Ao ler e cotejar com o de Pedro, porém, noto que a minha descrição moral está carente de terminologia mais técnica, de conceitos mais precisos. Depois de seis anos de tratamento aqui na colônia, eu já deveria ter mais desenvoltura. Sinto como que a minha escrita esteja afetada ainda pela zonzeira dos primeiros tempos, já que não consigo concatenar os pensamentos com o mesmo rigor do meu colega. Será que deverei continuar o relato daquela fase noturna de meu descontrole?
Foi Reinaldo quem respondeu:
— Nada mais plausível para o efeito que almejamos que os seus dizeres retratem sua confusão mental daquela época. É claro que a narração é de hoje, mas o seu problema, eu creio, foi ter começado o texto em primeira pessoa, isto é, revestindo-se como a própria personagem. A vantagem do Pedro foi que ele se tomou como terceira pessoa.
— Não seria melhor que eu refizesse tudo?
Plácida solicitou-lhe que prestasse atenção e repetiu-lhe, palavra por palavra, tudo quanto escrevera. Ao término, perguntou-lhe:
— Você não acha que foi bastante expressiva e clara na descrição de sua mente perturbada? Se você ainda vai fazer referência aos dramas dessa profunda noite em que se perdeu, acho que vamos obter texto bastante esclarecedor para os que, no mundo dos encarnados, julgam que seu desleixo orgânico não traz nenhuma conseqüência futura.
Olívia esclareceu:
— A bem da verdade, escrevi apenas mais três linhas, pretendendo submeter o primeiro episódio à consideração dos amigos, com o fito de criar coragem para a continuação.
Plauto encorajou-a:
— Nós estamos aqui para ajudarmo-nos mutuamente. Não se esqueça jamais disso. Vença essa sua timidez. Se precisar de mim, estou às ordens.
— Obrigada. Querem que eu leia o restante?
Todos fingiram uma atitude de grande interesse, levando-a a sorrir. Então terminou:

Todos os meus sentidos me obrigavam ao mais tenebroso desespero. Tocava aquelas carnes putrefatas, sentia-lhe os odores nauseabundos, a linfa asquerosa penetrava pela boca, ouvia os gritos e lamentos que eu mesma emitia e aquela visão repugnante não tinha como desfazer.



8. AS REGRAS

Reunido o grupo, Olívia não trazia sequer uma página com que entreter os companheiros. Desejosa de justificar-se, ponderou:
— Bem sei que ninguém está brincando e que é total a seriedade de quem nos orienta. Contudo, meus amigos, mesmo sabendo que as expressões de dor ou de felicidade emitidas constituirão exemplos para os leitores encarnados, eu não me atrevi a redigir a história da minha errática viagem pela vergonha.
Eram fortes as vibrações emotivas, de sorte que todos puderam avaliar que os dizeres provinham de profundas reflexões. Ninguém se atreveu a perguntar as razões que fundamentavam a atitude, evidentemente por pressuporem que seriam esclarecidas na seqüência.
Olívia, realmente, se revoltava contra si mesma e se preparava para calar o restante do discurso que trouxera preparado, quando se surpreendeu a fazer uma questão aos colegas:
— Vocês não acham um risco muito grande exarar pareceres negativos a respeito de pessoas que se encontram, muitas delas, em condições de ler as mensagens psicografadas?
Novamente, abstiveram-se todos de emitir opinião, aguardando que todo o pensamento subjacente viesse à tona. Por influência de Plácida, no entanto, solidarizaram-se com os sentimentos da amiga, acarinhando-a com afagos mentais da mais profunda e terna compreensão. Mas ninguém disse nada.
A mocinha recebeu o impacto das ações de respeito e conforto, agilizando a necessidade de expor as preocupações que redundaram naquele desusado desrespeito às regras de trabalho do grupo. Então, abriu as comportas e inundou os corações dos ouvintes com um dilúvio de dúvidas e considerações:
— Pois bem, entendo que tenho de substituir a página da descrição que me solicitaram por equivalente exposição de igual teor prepositivo. A verdade é que analisei a inteira extensão de minha inferioridade e cheguei à conclusão de que, por melhor me saia na instigação da curiosidade, sempre restará aos leitores a impressão de que uma viciada ou ex-viciada, uma pecadora, enfim, não terá qualquer autoridade perante a consciência de que estão dotados quanto à realidade das próprias vidas. Querem saber mais? A idéia de me furtar à responsabilidade desta narrativa sobreveio da necessidade de evitar as armadilhas sutis dos sentimentos difusos espalhados pelo texto, assim como o eco dos termos em –idade está pesando sobre os dizeres, desejo intrínseco de perfeição que se choca violentamente contra a realização em andamento. Em suma, queridos irmãozinhos, ponho-me na condição daquele soldado encarregado de colocar a coroa de espinhos na cabeça de Jesus e que se feriu ao fazê-lo, lançando imprecação contra a sorte, sem notar o sofrimento do Nazareno e sem perceber que por ele foi curado na hora, estancando-se a pequena hemorragia por força da paixão amorosa que se expandia do nobre espírito. Mais tarde, recordando-se dos eventos do dia, o pobre desejou examinar o corte no dedo, não encontrando nenhum sinal dele. Lembrou-se também de que recebera na cabeça uma pancada que haviam destinado ao Senhor, justamente com a vara que lhe dava a dignidade ultrajante da condição de rei dos judeus. Viu-se no final da procissão, incapacitado de açoitar o miserável prisioneiro, afastando, isso sim, os que desejavam terminar com ele apedrejando-o, esquecidos de que a autoridade ali era a romana e que o dia não era propício para a aplicação da pena da lei hebraica. Ninguém havia que poderia compreender o sentimento de vergonha que lhe assomou a personalidade, consciente afinal de que fora alvo do perdão do Mestre, que perecera no madeiro infamante. Muitos anos depois, lendo o evangelho que relatava a vida, a paixão e a morte de Jesus, entendeu que o seu drama pessoal era tão minúsculo que, mesmo que tivessem dele tomado conhecimento os seguidores das idéias do Cristo, não mereceria jamais constar do roteiro dos fatos relevantes ali assinalados. Eis como senti a minha exposição.
Reinaldo, que tomara nota de tudo, foi quem primeiro se manifestou:
— Ainda bem que decidimos gravar as reuniões. Poderemos, assim, reproduzir todas as palavras de Olívia, tais quais, não precisando comentar-lhes o teor sublime da humildade contingente. Se me permitirem um ligeiro reparo, vejam se não tenho razão ao afirmar que ela não deveria apoquentar-se por imaginar que feriria susceptibilidades, dado que quem for capaz de melindrar-se por julgar-se necessitado, à vista dos relatos, de vestir a carapuça, também deve ser capaz de exercer sobre si mesmo a vigilância solicitada por Jesus quanto aos defeitos de procedimento. Então, alerto para que ela considere a minha sugestão de que os melindrados se vejam na situação embaraçosa de cumprir o segundo tópico da recomendação a que aludo, qual seja, o da prece compungida, reconhecendo que devem muitíssimo às obras dos evangelistas, sem as quais o pensamento do Cristo não subsistiria, pelo menos envolto nas crisálidas da história e nas fraldas da imagética religiosa. Ora, se o conhecimento dos fatos tristes não elude a necessidade do procedimento digno pautado pelas virtudes, o mesmo haverá de dar-se em relação às nossas pobres mensagens, ainda mais porque não deixaremos de assinalar que provêm de entidades endividadas e sujeitas a graves constrangimentos perante a acusação de que se vêem alvo da parte das consciências. O mais que eu poderia acrescentar talvez viesse a provocar-lhes nos corações a justa revolta contra o fato de eu açambarcar a palavra.
Reinaldo esperava que as derradeiras observações provocassem um sorriso de alívio após tão pesadas ponderações. Entretanto, manteve a expectativa por certo tempo até vê-la de todo frustrada, uma vez que os parceiros mergulharam em ambos os discursos, desejosos de absorver-lhes os elementos mais preciosos, já que o tônus das expressões raiava com a mesma luz das lições emanadas dos mentores mais preeminentes da colônia.
Depois de algum tempo, Pedro se manifestou:
— O que Olívia vem propor-nos é uma alteração dos objetivos do trabalho. Tínhamos em mira levar ao conhecimento dos encarnados algumas experiências na transição da vida para a morte. Agora estamos diante da inoperância desses relatos, dado que, por melhor que alcancemos descrever a incursão de cada qual no mundo das sombras e o conseqüente empenho em nos livrarmos das amarras que nos prendem aos débitos e defeitos, nenhum proveito tirarão os leitores. Pelo que entendi, lucro muito melhor extrairão da obra, caso envidemos esforços no sentido de propor soluções para os problemas morais de cada caso. Quanto a mim, se for este o entendimento de todos, concordo plenamente, desde que se mantenham as páginas iniciais por mim redigidas.
Plácida sentiu-se na obrigação de intervir:
— Na qualidade de orientadora do grupo, devo adverti-los de que o sistema aprovado prevê que registremos todas as discussões, o que não impede que se mantenham incólumes os episódios relativos a cada trespasse.
Olívia pediu a palavra e externou sua opinião:
— Na verdade, não tive a intenção de subverter a ordem dos trabalhos. Mas acredito, como corolário do que disse antes, que dois tipos de reações indesejáveis poderão ser alcançados, conforme a configuração mental de quem ler estes escritos. Caso o indivíduo seja uma pessoa amável e cumpridora das obrigações e compromissos assumidos perante a consciência e as coletividades espiritual e material de que faz parte, poderá imaginar que o sofrimento do Pedro tenha sido um absurdo, mediante todo o esforço que fez para desempenhar com desembaraço as tarefas espiritistas do centro. Esse elemento poderá ficar sem estímulo para continuar trabalhando.
Pedro, devidamente autorizado, aparteou:
— Deixei claro que os problemas eram meus, os defeitos eram meus, as crises eram minhas e as conseqüências funestas do comportamento obtuso não tinham como não existir, sendo eu egoísta, impositivo, truculento e até mal-intencionado.
Plauto imediatamente desaprovou:
— Não exagere, querido amigo.
Pedro revidou:
— Posso estar dando a impressão de exagerar, mas o exame a que procedi da personalidade me levou a tais conclusões. Tais manchas ainda as carrego comigo, muito embora estejam, a cada dia, a cada reflexão, a cada mea culpa, tornando-se desafios mais bem caracterizados, aguardando por situações em que me veja testado, pondo à prova as virtudes correspondentes que devo desenvolver.
Olívia não quis perder a deixa:
— É sobre isto que desejava estender-me mais, isto é, sobre a necessidade do entendimento de quais sejam os defeitos, as soluções e as provações necessárias para purgá-los. Se nos limitarmos a imprimir os sintomas de nossa ruína, ergueremos um monturo de graves circunstâncias negativas, dando a impressão de que as atividades que realizamos todas se voltam para a expiação voraz das almas pejadas de culpa. Se me permitirem prosseguir com o segundo grupo de leitores...
Jônatas fez as honras da casa:
— Por favor, querida, sinta-se à vontade.
— Obrigada. Pois eu queria levantar a hipótese da pouco provável leitura do texto por pessoas altamente necessitadas de reformas, tais quais, facínoras, ladrões, assassinos, perjuros da fé pública, ímprobos e outros criminosos de que abunda o planeta. Estes, ao contrário dos moralmente bem dotados, iriam concluir que, em não havendo tempo definido no etéreo, por mais que tenham a impressão de abandono e sofrimento, bastará manter a placidez para alcançar vencer as dificuldades, como ficou mais ou menos subentendido na descrição do Pedro, ressalvada a tempo, o que vem ao encontro de minhas idéias. Precisaria, permitam-me sugerir, que analisássemos as terríveis condições de inferioridade dos que chegam com débitos vultosos, as impressões dolorosíssimas de um sofrimento quase dantesco, a falta de noção de que pertencem ao plano da espiritualidade, persistindo todas as sensações físicas, com o acréscimo na impotência até para os mais furiosos, os que obtêm comandar legiões de espíritos maldosos da mais baixa categoria. É preciso que fique bem esclarecido o fato de que os ganhos advêm do trabalho que tem de ser exercido contra os vícios de procedimento, o que não se consegue através de subterfúgios, de malícia nem de intercessão de entidades mais adiantadas.
Reinaldo, na qualidade de redator, mais uma vez chamou a atenção para o resultado de seu mister:
— Pois muito bem, caros amigos, Olívia tem toda a razão em ponderar que a prudência deve pautar as atividades. Para que não fique suspeitosa de que não vamos atendê-la, transcrevi toda a sua longa participação e pretendo, se não for voto vencido, mantê-la tal qual no corpo da obra a ser ditada aos mortais.
Plácida, que desejava mostrar o quanto satisfeita estava com o desempenho dos alunos, não perdeu a oportunidade para elogiá-los:
— Muito bem, caros senhores. Penso que não estamos desviando-nos de nosso objetivo primordial que é o de esclarecer os encarnados. Se vamos fazê-lo através de relatos individuais ou de discussões, não importa. O principal é que realizemos uma obra que possa despertar o interesse daqueles que vierem a compulsá-la.; mais ainda, uma obra que gere uma reação de caráter positivo, no sentido de promover em todos, sem exceção, a deliberação de que devem melhorar-se, conforme contínua pregação dos textos mediúnicos desde Allan Kardec. Vou adiantar-lhes outro aspecto inerente ao discurso de Olívia. Ela não disse especificamente, mas deixou nas entrelinhas que não vamos atingir o cerne da vontade dos leitores implantando-lhes no coração o medo da punição, do castigo. Deus é pai de misericórdia, portanto, para cada um dará, na hora certa, o impulso que levará ao expurgo dos defeitos e à aquisição das virtudes. Se Olívia não quiser prosseguir narrando as peripécias ruins de sua estada nas regiões abissais, peço a todos que tragam as redações prontas para a próxima sessão de estudos. Decidiremos então o que fazer.



9. JÔNATAS

Foi como se estivesse no bucho da baleia. Todavia, o meu desespero se estendeu por bem mais de três dias. Recuperando a consciência após a indefectível rememoração de todos os acontecimentos da vida, senti-me penetrado de um sentimento misto de espanto e de dor. Não que algo estivesse doendo em mim, fisicamente. Em absoluto. Mas a noção de que não estava entre os anjos do Senhor fizera-me acreditar que seria tragado pelas chamas infernais.
Clamava por socorro, entretanto, só ouvia gritos semelhantes aos meus. Fiquei com medo de esbarrar em seres monstruosos, gosmentos, escorregadios, serpentes que me tragariam após espremer-me. De fato, passei a ser pressionado, como se fosse um caqui maduro dentro do punho fechado de poderoso hércules. Estava virando suco, simplesmente.
Durante mais de três anos, cada um equivalente a um dia dos do profeta bíblico, atormentei-me, sem compreender o porquê de tanto sofrimento. Acusava o Senhor de injustiça. Eis tudo.
Depois que este Jônatas foi expulso do ventre do maravilhoso mamífero, ainda iria penar por várias décadas, deixando cair minhas lágrimas pelas estradas empoeiradas, ressequido eu mesmo por dentro. Aí é que pude considerar-me culpado dos crimes que me eram imputados pelas vozes horripilantes que gritavam aos meus ouvidos.
No entanto, a minha vida fora bastante pacífica. Fui mero funcionário público, inexpressivo contínuo com responsabilidades de escrituração. É bem verdade que deixava que os processos se amontoassem e que só dava andamento aos que eram estimulados por propinas, mas essa era uma realidade comum a todos os da repartição. Nasci ali e ali aprendi a respirar aquele ar fétido da corrupção. Achava tudo muito natural e jamais me ocorreu que estivesse causando qualquer problema aos semelhantes.
Tanto me integrara àquele ambiente safado que nem uma vez sequer considerei que devesse confessar ao sacerdote, achando-me absolutamente limpo para receber a hóstia consagrada.
Nestas minhas andanças atuais, revigorado após me haver esclarecido do quanto de mal praticara contra a humanidade, como um todo, e aos familiares, em particular, por lhes haver corrompido a moral, não escondendo jamais que as quantias extraordinárias que trazia comigo tinham vindo deste ou daquele ricaço interessado em ver seus processos caminhar, nestas peregrinações tenho visto, como de passagem citou a nossa Olívia, que os métodos se aperfeiçoaram e que a naturalidade das ações criminosas se sedimenta nas almas, o que é pior, promovendo reação de falsa segurança, como se tais débitos jamais irão ser cobrados.
Como foi que alcancei compreender o ato de justiça que me excluíra do mundo dos felizes? Simplesmente, fui arrastado para o seio de comunidade espiritual de entidades de mesma extensão vibratória, gente que buscava apoio na consideração dos semelhantes. Ali as querelas cresciam à medida que uns acusavam os outros de se haverem constituído em seus mestres de falcatruas, impedidos que estavam de encontrar a senda que os conduziria à terra da promissão das diferentes seitas religiosas. Como não viam saída, após tomarem conhecimento da malícia de cada um, familiarizavam-se e envolviam-se em questões de dinheiro ou de valores, como se um estivesse furtando o outro.
A pior crise se dava exatamente quando um daqueles que iam tornando-se antipáticos era chamado, como se o fruto das desavenças fosse o prêmio ao opróbrio dos que se viam apaniguados por se terem feito simpáticos aos seres que se dignavam vir resgatá-los. Aí cresciam os impropérios e imprecações contra o ato digno da repulsa dos que se sentiam ofendidos e relegados às profundezas das cavernas.
Na minha vez, fui acusado de haver chantageado, através de lágrimas, os que vieram buscar-me. Antes de ser soerguido, pisotearam-me à vontade, acreditando eu que era justa a punição que me infligiam. No entanto, não fiz menção alguma de arrastar comigo alguém com quem me irmanara no sofrimento. Havia vários parceiros de trabalho, asseclas dos tempos de encarnados. A nenhum estendi o braço, aplicando-me com todo o empenho à configuração de que errara e de que me arrependera. Tivesse tido a mínima intenção de salvar mais alguém e não teria ficado na erraticidade por mais duas décadas, agora sozinho e tremendamente infeliz. curtindo a mágoa de haver proporcionado aos filhos as lições que aprenderam e que testemunhei sendo aplicadas rigorosamente, em total compatibilidade com a mentalidade que lhes formara.
Aos poucos, vendo que não progredia por ficar a arrancar-me os cabelos, decidi que estava na hora de propor-me atitude positiva e pleiteei, em prece imprecisa e interesseira, que me fosse oferecida a oportunidade de explicar em um centro espírita, através de um médium, qual seria o destino das pessoas que agem de forma gananciosa e egoísta.
Eis como, de repente, me vi conduzido a esta colônia, matriculado no meu primeiro curso de recuperação de objetivos, conforme se historiava em minha regressão para além do último nascimento na Terra.
Penso que a luta para integrar-me neste novo ambiente de paz e de trabalho deva ficar para ser comentada depois. Apenas vou fazer ligeira referência ao fato de que, nem por estar sob a proteção vigilante de entidades muito superiores a mim, deixei de sentir os horrores das descobertas de quão terríveis danos havia causado. Foi quando percebi que, no etéreo, agi durante muito tempo como obsessor de pessoas que se davam aos mesmos destrambelhos a que eu me dera.
Tenho dito, ou melhor, escrito.



10. CAUSAS ENTRELAÇADAS

Mal terminou Jônatas a leitura, já Olívia lhe propunha uma questão:
— Caro amigo, teve a sua vida, segundo a descrição que se acaba de ouvir, apenas um princípio errado ou você omitiu outros fatos igualmente pouco enobrecedores? Pergunto-lhe porque tenho para comigo que um defeito, ou se reflete, ou constitui o reflexo de uma postura moral deficiente. Por exemplo, foi você um bom filho, um bom esposo, um bom colega de serviço, uma pessoa afável e caridosa? Terá causado problemas somente a seus filhos ou também aborreceu outros familiares e outras pessoas fora do círculo doméstico?
Jônatas refletiu bastante, criando até certa expectativa no grupo quanto à resposta que daria, uma vez que se evidenciava que a alusão a outros problemas imbricaria em ser o texto parcial e incompleto.
Finalmente, arriscou o questionado a iniciar a resposta através de uma pergunta retórica:
— Olívia, não é verdade que você não disse tudo o que está pensando? Digo isto porque me parece que enfatizei por demais a característica do egoísmo, centralizando o discurso em sua faceta mais genérica, quando deveria expor um pouco mais do dia-a-dia em que laborava, enquanto vivo, em constantes falhas de procedimento, ofendendo ou agredindo as pessoas ao derredor. Então, devo afirmar-lhe que eu era considerado um bon vivant, expressão corrente na época. Todos me perdoavam as fraquezas, porquanto pedia desculpas, prometia não repetir as proezas desagradáveis e me esmerava por cultivar a boa vontade dos outros. Saía a farrear na companhia dos boêmios do círculo, voltava tarde da noite para casa, muitas vezes meio embriagado, jamais, entretanto, refutando os doestos da censura da esposa. Hoje em dia, eu diria que sempre fiquei na minha. Sendo assim, penso que a sua questão vise a levar-me a considerar o quanto de prejuízo causei a mim mesmo, provocando o mal-estar alheio, já que ninguém poderia apontar-me como exemplo a seguir. Aceito a censura implícita de que não fui completamente sincero na exposição dos males que me prenderam na escuridão por tanto tempo. Mas, se vocês todos lerem de novo o texto, vão perceber que não me eximi de culpa. Ao contrário, não atenuei a negritude de minha alma nem a extensão do sofrimento. Será que o acréscimo destas explicações irá justificar o relato?
Novamente caiu respeitoso silêncio sobre todo o grupo. Plácida aguardou com muita paciência que mais alguém se manifestasse, desejosa de ver os discípulos avançarem por si mesmos na análise e na crítica da obra que estavam montando.
Foi Plauto quem aduziu:
— Perlustrando o mesmo caminho da colega, poderei observar, ainda, que faltou acrescentar alguns indícios de como foram as vidas anteriores, para que o leitor possa estabelecer cadeia de causa e efeito, com o fito de concluir, de maneira o mais lógica possível, quais os ganhos ou avanços reais obtidos em uma encarnação que não foi de todo malévola.
De imediato, Pedro acrescentou:
— Eu gostaria de dizer que nem todos possuem facilidade de exprimir ou de concatenar acontecimentos. Cada qual chegou até aqui por via única e pessoal. Quanto mais proveito se extraia da vida, melhor desempenho verbal, maior prontidão da inteligência, mais profunda visão das ocorrências existenciais. Eis a razão de estarmos reunidos, ou seja, cada um deve apoiar os demais justamente em suas deficiências. Pelo que entendi, Jônatas não desenvolveu ultimamente a faculdade de escrever, muito embora tenha excelente desempenho lógico. Com certeza, está simplesmente enferrujado, se posso utilizar linguagem figurada, porquanto tenho a certeza de que, em vida anterior, deve ter sido professor, advogado, jornalista ou algo parecido.
Desta feita, Jônatas respondeu de imediato:
— Bem que eu gostaria de recordar-me dos acontecimentos antigos envolto por outros corpos, porque, assim, teria a noção exata do quanto melhorei. Como ainda minha memória não se abriu para esse passado, penso que não tenha prestado para nada, merecendo estar em círculo de amigos e parentes bem compreensivos, dando-me a oportunidade de sentir, de alguma forma, o significado do perdão. Desenvolvendo o tema, posso imaginar que, em vidas pregressas, fui o carrasco daquelas criaturas, provocando-lhes a ira, sem perdão. Voltamos, após sofrermos as desditas do Umbral, para aprendermos juntos.; eu, atenuando a maldade.; eles, sentindo-se menos agredidos. Tudo, então, não passaria de aprendizado, muito embora o meu excessivo egoísmo me tenha iludido, julgando-me a mim mesmo com muito maior rigor do que deveria, vendo apenas os pontos negativos, sem prestar nenhuma atenção nos possíveis aspectos positivos. Será que agora conseguimos entrelaçar as causas e efeitos?
Reinaldo foi quem fez o registro seguinte:
— Posso afiançar que demos um passo bem grande no sentido de orientar o pensamento dos encarnados. Pelo que posso deduzir da reprodução do diálogo, ao menos há de ficar claro que não levamos a mal as suspeitas que se levantam contra nós, já que compreendemos com naturalidade que estamos aqui para aprender, em primeiro lugar, e para demonstrar como isso se dá de maneira sistemática. Não queiramos elucidar todos os pontos nesta sessão. Todavia, asseguro-lhes, meus queridos, que, no decorrer dos próximos debates, teremos oportunidade de levantar outros temas de igual interesse.
Todos se deram as mãos e elevaram os pensamentos ao Senhor, numa prece coletiva sem palavras.
Plácida encerrou os trabalhos elogiando a equipe, determinando para a próxima reunião a leitura de mais um relato verídico. Trouxessem os escritos preparados.



11. PLAUTO

Meu pai, Virgílio, encontrou sua Lupércia, que deu à luz aos gêmeos univitelinos Terêncio e Plauto.
Pode parecer estranho que eu inicie a narrativa de meu trespasse para a espiritualidade com os nomes dessas personagens. Espero vir a justificar o fato.
Quando aqui cheguei de regresso de atormentada vida de desregramentos, procurei por meus pais e meu irmão, que me haviam antecedido. Estava, portanto, consciente de que morrera. Contudo, vinha com o pensamento fixo de que os encontraria logo, atolados em alguma poça barrenta de ódio e rancor.
Eis que se definia para mim a característica essencial daquelas personalidades, porque a nossa vida havia virado um balaio de gatos, cada qual acusando os demais disto e mais aquilo, questiúnculas menores de aproveitamento das ocasiões de rapinagem material que exercíamos uns contra os outros.
Claro que perpassaram pela minha memória todos os lances da vida e que tive oportunidade de meditar a respeito de cada um deles, sem eleger nada em particular que me deixasse, mais que os outros, revoltado contra ninguém. Eu havia permanecido encarnado por mais de vinte anos depois da morte de meus pais e mais de quinze, de meu irmão. Como não havia outros herdeiros, fiquei com todos os bens, que não eram poucos.
Por mais de cinco anos, gozei a vida até que me vi entrevado na cama, vítima de aneurisma cerebral, totalmente dependente dos cuidados médicos que esgotaram todos os meus recursos. Isto significa que, por dez anos, sofri em vida, perpassando na mente todos os episódios que me feriram ou em que feri os demais.
Azedei-me no começo, mas, depois, fui abrandando as críticas, até chegar a compreender que era do nosso feitio latino agir de maneira intempestiva e zangada. A bem da verdade, senti saudade do meu pessoal, única família que tive.
Ao etéreo já cheguei com todos os termos do arrependimento e da necessidade de obter perdão de cada um deles. Para minha surpresa, por mais que os buscasse, jamais os encontrei. De início, supus que houvessem tornado ao mundo dos mortais. Foi quando fiquei bom tempo assediando os primos, cujos filhos bem poderiam ser a reencarnação aludida. Inutilmente busquei por eles, tendo gastado muito tempo nisso.
É bom que saibam que estava sozinho. Não me enturmei nem fui perseguido. Não descaí para as profundezas do báratro nem ascendi às regiões dos bem-aventurados. Errava por muitos lugares, não me deixando atrair por nenhuma colônia, sem me interessar também pelos fatos humanos. Alheei-me completamente, como que dementado por idéia fixa.
Recordava-me vagamente dos avós e de outros consangüíneos, porém, não me via preso a eles por qualquer laço afetivo. Por nenhum momento, ocorreu-me pensar no que havia acontecido, quer antes de me encarnar, quer em peregrinações terrenas anteriores. Por isso, fiquei atônito quando, de repente, após vários anos na erraticidade, chegaram-se a mim algumas criaturas esquisitas, acusando-me de desleixo quanto a compromissos que com elas havia assumido, coisa de que não me recordava absolutamente.
Pedi-lhes o mais serenamente que pude que me relatassem o que se havia passado entre nós, entretanto, não foram capazes de me esclarecer um único ponto. Roguei-lhes que me perdoassem e, para demonstrar minha boa vontade, passei a orar por aquelas entidades sempre que me lembrava delas. Não preciso dizer que, já na primeira oração, se afastaram, deixando-me em paz. Tais preces me fizeram recordar os antigos parceiros terrenos, de forma que lhes dediquei também algumas, solicitando, fato inédito, que fossem assistidos por espíritos de luz.
Como por encanto, surgiu-me no cérebro a idéia, ou antes, a intuição de que o meu sofrimento carnal significara espécie de purgação dos males que praticara. Purificara-me parcialmente ainda em vida, por isso — compreendi-o naquele instante — é que não achara os meus pobres familiares: deveriam estar em condições análogas às minhas quando preso ao leito.
Em suma, para não mais aborrecer os leitores com a minha miséria moral, cheguei à conclusão de que deveria cuidar de mim, crescendo em virtudes, o que me facultaria maior facilidade de realizar o objetivo. Apresentei-me a esta colônia e fui admitido como aluno. Este é meu primeiro grupo de trabalho, estranha proteção, porque não desenvolvi conhecimentos superiores de doutrina espírita nem me dei a qualquer religião.
Atualmente, o que me tem preocupado sobremodo é a descoberta do porquê ter sido gerado na companhia de outro ser, com quem não combinei desde cedo. Pelo que tenho sentido, foi decisão tomada em conjunto por todos nós quatro, com certeza pela necessidade de vencermos ojerizas antigas e ódios incrustados nas almas.
Sempre que penso nisso, julgo-me muito mal, como se me atribuísse um valor superior aos deles, já que os imagino sofrendo em algum canto desta imensidão. Aí me concentro em prece e requeiro do Senhor que os alivie e me proteja, para não cair de novo nessa tentação.
Se não alcancei explicar proficientemente o parágrafo inicial, poderão questionar-me os amigos. Talvez vocês me auxiliem na resolução dos mistérios das desavenças e dos desencontros.
Muito obrigado.



12. RAPSÓDIA DE FÉ

Foi Olívia quem deu início aos debates, concentrando-se no lirismo imanente à exposição que acabava de ouvir:
— Tenho para mim que o nosso irmão Plauto é um poeta. Ele não vive a realidade tal qual, mas cria um universo particular, imergindo nele totalmente, sem dar oportunidade a que nada lhe penetre na intimidade do ser.
Todos se entreolhavam assustados, sem atinar aonde iria chegar a companheira. Diante dos olhares interrogativos, esclareceu ela:
— Aposto que cada um de nós possui uma ou mais pessoas especiais, a quem nos ligamos afetivamente no mundo ou na erraticidade. É o que o vulgo chama de amor e eu considero amizade. Ouvimos um relato em que quatro indivíduos se desentenderam pela vida afora. Não houve referência a nenhuma mulher que lhe conquistasse o coração e que lhe desse filhos. Aliás, houve referência a certas entidades que lhe cobravam antigos compromissos, provavelmente seres que tinham como certa a reencarnação sob a paternidade do nosso companheiro. Mas esta é mera suposição. Depois, Plauto ficou durante largos anos a errar no etéreo, sem preocupar-se com mais ninguém, a não ser com o sentimento de culpa a gerar arrependimento. Procurou pelos parentes para restabelecer os vínculos afetivos? Não. Queria encontrá-los para demonstrar-lhes sua superioridade, de que é réu confesso. Reafirmo a assertiva de que ele esteve divagando fora da realidade. Com certeza, nesta altura da programação que está seguindo, consiga já relacionar-se conosco, acatando-nos as idiossincrasias e observando o nosso desempenho, a ver se se dá conta de algo que lhe possa servir como roteiro ou como objetivo. Se desejarem argüir-me quanto à manifestação, antecipo que estou sendo agressiva de propósito e um tanto incompreensível, porque, ao alcunhá-lo de poeta, talvez esteja ofendendo estas caras personalidades que tanto se esforçam por nos ensinar, por meio do êxtase estético.
Foi Plácida quem interveio:
— Espanta-me o desabafo de nossa parceira. Parece-me que está a exercer grau de vigilância consciencial de certa forma avançado e perigoso. Gostaria de ver o grupo discutindo a atitude dela, pondo às claras o que me pareceu ter ficado nas sombras.
Foi Plauto quem tentou entender a colega:
— Penso que Olívia esteja sugerindo que a minha dissertação não foi completamente honesta. Não que ela esteja acusando-me de desonestidade. Mas está, evidentemente, demonstrando que não desejei expor-me totalmente à crítica do grupo e dos leitores encarnados. Pelo que entendi das discussões relativas aos demais textos, eu deveria estender-me na descrição dos casos particulares, ao menos como exemplificação. Será isso?
Antes que Olívia pudesse falar, Reinaldo observou:
— Na qualidade de redator, estou achando muito esquisita a participação de nossa amiga, principalmente no que respeita à concatenação das idéias, uma vez que não senti como é que se pode considerar Plauto um poeta e, ao mesmo tempo, afirmar que é insensível, já que lhe falta o principal elo que une os seres inteligentes: o amor. Mesmo se considerarmos os textos épicos, aqueles que descrevem a saga dos povos como coletividades, sempre haveremos de achar trechos em que o herói elege uma amante, mulher idealizada ou não, ser de carne e osso ou deusa olímpica, para oferecer-lhe sacrifícios e a própria existência. Acho que não preciso citar exemplos. Sendo assim, fica difícil de distinguir na personalidade de Plauto, caso o consideremos um eremita, um ser só e isolado da realidade, uma característica sequer dos verdadeiros rapsodos.
Mediante a nova situação mental criada pelo companheiro, Olívia se recolheu, à espera de que os demais desenvolvessem o tema. Não custou para Jônatas se apresentar:
— Devo considerar este conjunto de apreciações deveras esquisito. Refletindo sobre a minha própria existência, devo considerar-me o oposto do poeta, já que tive esposa e filhos, mas não lhes dei aquele afeto sobrenatural que me permitisse trazer para cá a fé de reencontrá-los, formando ou reformulando a família nestas paragens. Lembrando-me da narrativa de Pedro, ele também deve estar na mesma contingência, já que teve mais de uma esposa e filhos com cada uma delas. Nem por isso consta que resida na companhia deles, muito embora deva eu admitir que foi quem menos vagou perdido dentro da consciência. Olívia mesmo não citou nenhuma parceria sentimental, conquanto se demonstrasse profundamente abatida por haver causado muita tristeza aos parentes. Isto me leva a considerar, salvo se o discurso de Reinaldo for diferente, que fomos reunidos por causa dessa característica de cada um de nós.
De imediato, Reinaldo confirmou:
— Podem crer que estou na mesma situação.
Prosseguiu Jônatas:
— Então — vão perdoar-me —, todo o nosso esforço em elaborar a obra que será transmitida aos mortais irá esbarrar na dificuldade primordial de não servirmos de exemplo, nem ao menos no aspecto negativo, já que bem pouca gente em condições de ler e de entender o texto também estará isolada ou mergulhada em egoísmo. Desculpem-me o pessimismo, mas gostaria que refletissem melhor a respeito da comunicação resultante destas reuniões, para que se previnam os leitores encarnados quanto à necessidade de se manter o coração batendo em consonância com outros corações, harmonia que os unirá em torno de objetivo de vida comum, objetivo que redundará em efetivo crescimento sentimental, eliminando-se expressivamente os aspectos egoístas das personalidades. Não sei se estou interpretando convenientemente o que ficou nas entrelinhas do discurso de nossa Olívia, mas posso assegurar-lhes que meu maior desejo neste instante é ver o nosso trabalho sendo compreendido, verdadeira rapsódia de fé, pela consideração de que poderão os mortais extrair dele algum proveito. De qualquer modo, complementando a história de minha vida, este resultado, tacanho e limitado, sem dúvida, é tudo que consigo alcançar neste momento em que me deixo envolver por alguns frêmitos de esperança evolutiva.
Olívia desejou realizar mais algumas ponderações:
— Pois bem, não é verdade que eu desejasse, respondendo a Plauto, que ele enveredasse pelas narrativas dos casos em que se comprovassem as assertivas teóricas. Desejava, sim, e ainda desejo, que se abram perspectivas aos encarnados para que reflitam sobre as próprias atitudes, deduzindo quais exprimem sentimentos ruins, egoístas, fundamentados em orgulho, em vaidade, em preguiça, em prepotência, em luxúria, em ira, em todas as formas de pecar contra as virtudes, que se vêem impedidas de progredir na alma de cada qual. Como estamos cientes de que os nossos dizeres irão reproduzir-se tais quais os pronunciamos, aproveito o ensejo para rogar que os que vierem a topar com esta manifestação consigam ver além das palavras e façam como Jônatas, que soube entender-me as entrelinhas.
Todos se voltaram para Plácida, ansiosos por ouvir apreciações que não se carregassem de acrimônia. Esta, contudo, ofereceu apenas alguns laivos de estímulo:
— Percebo que todos gostariam de ser elogiados, já que criaram uma situação difícil e agora estão pensando que souberam sair-se bem dela. Aceito que a discussão figure no volume a ser enviado aos encarnados, todavia, peço que meditem mais a respeito das virtudes, já que estamos preenchendo o nosso tempo visando a caracterizar os defeitos. Quanto a estarem reunidos pela tendência comum ao isolamento, não tenham dúvida de que esse foi um dos critérios dos mentores. Mas não se preocupem com isso, porque o currículo prevê que as amizades que se criem nos cursos devam prosseguir fora da sala de aula, o que me autoriza a informar-lhes que serão separados quando forem matricular-se em outras matérias. Amanhã ouviremos Reinaldo.



13. VISITANTES ILUSTRES

Quando os alunos chegaram, deram com diversos mentores da colônia conversando animadamente com Plácida: Maciel, o principal, João, Olavo, Marta, Homero, Frederico, Odete e outros.
Timidamente, o grupo tomou os assentos ao redor da mesa, enquanto olhavam cismados para tão venerandas criaturas.
Fez-se silêncio e Maciel respondeu à curiosidade dos alunos:
— Cá viemos chamados pelo interesse em demonstrar profunda admiração pela seriedade com que estão empenhando-se os amigos em dar prosseguimento ao projeto de elaboração do texto a ser conduzido aos mortais. Posto haja certa indecisão quanto à repercussão junto aos leitores, no mais o elenco desta pequena peça dramática está desempenhando seu papel a contento, dando dignidade e imprimindo afeto ao trabalho, desejosos todos de acertar. Sirvam estas palavras de apoio e incentivo, o suficiente para dar-lhes segurança e novo ânimo.
Após todos cumprimentarem um a um, saíram debatendo episódios dos próprios desenlaces, todos alegres, sem nenhum constrangimento pelas referências a situações extremamente difíceis.
Assim que desapareceram do campo de visão dos espantados alunos, Plácida assumiu o posto de líder da pequena assembléia e expôs seus sentimentos:
— Aqui estiveram os responsáveis maiores pelo bom andamento dos trabalhos na Escolinha de Evangelização. Vieram para o efeito que alcançaram, qual seja, o de colocá-los mais à vontade perante a manufatura do texto que será entregue aos encarnados, via mediunidade escrita. Não preciso consultá-los para saber que vocês estão maravilhados, porquanto já perceberam que o projeto acaba de merecer aprovação tal qual foi concebido e está sendo redigido. O mais importante é que tal fato não veio aumentar a responsabilidade do grupo, já que justamente este aspecto é o que foi enaltecido. Alguém deseja manifestar-se?
Todos ergueram os braços. Plácida deu primazia a Olívia, que assim se expressou:
— Plácida, eu acho que falo pelo grupo, quando digo que nos sentimos muito honrados com a visita e, mais ainda, com as referências positivas ao que vimos fazendo. No entanto, faltando apenas Reinaldo para contar sua experiência, não vejo como levar avante o projeto a ponto de transformá-lo numa obra extensa o suficiente para fazer figura entre as muitas que se produziram e se transmitiram psicograficamente. Penso que devamos ater-nos à expansão temática necessária para encorpar o trabalho.
Plauto emendou:
— De fato, estamos achando muito pouco o que já escrevemos para estarmos sendo aprovados. Suponho que o incentivo recebido contenha em germe a idéia de que estamos sendo incumbidos de algo importante, no âmbito das realizações da colônia. Como frisamos na derradeira reunião, todos os relatos se pautam linearmente, segundo características comuns. Entretanto, senti que entre os mentores existirão aqueles que se dignarão atender-nos, se lhes pleitearmos entrevista com o escopo de enriquecer a nossa agora não tão modesta contribuição.
Todos aplaudiram a iniciativa, já contando com a aprovação da instrutora. Esta, contudo, conteve os arroubos, explicando:
— A idéia é boa, mas, de certa forma, estaremos rompendo os limites que determinamos para o trabalho. Por outro lado, poderemos não estar preparados para situações que envolvam companheiros bem mais adiantados, uma vez que nosso círculo de idéias deverá ampliar-se e nosso discernimento, amadurecer. Proponho que levemos até o fim o projeto inicial, para depois, à vista dos resultados, estudar novos desenvolvimentos.
Foi como um balde de água fria no entusiasmo que se formara. Todavia, Reinaldo repôs as coisas nos eixos e deu forma ao pensamento de Plácida, lendo a página que trouxera redigida.



14. O MENDIGO

Só me dei conta de haver morrido cerca de dez anos depois. Certo dia, senti fortes dores no ombro e fui internado, tendo ouvido expressões de alguma afobação, como “estamos perdendo o paciente”, “a pressão está muito elevada”, “é preciso entubá-lo”, “vamos abrir o peito e massagear o coração”.
Enquanto faziam efeito os anestésicos, sonhei com todo o meu passado, de frente para trás, vendo-me nas mais diversas situações no lar, no escritório, na tribuna forense, na rua etc.
Casara-me aos quarenta com viúva de mais de cinqüenta, a qual me antecedeu nesta última caminhada. Não tivemos, obviamente, filhos, muito embora considerasse os dois enteados verdadeiras jóias, tão afeitos a mim ficaram.
Depois de me enternecer nos braços de meus pais, cheguei a rever a primeira lembrança da mais tenra idade. Não me dei conta, entretanto, de que se tratava da preparação para o enfrentar da nova condição e me indispus contra o destino, julgando que não estava na hora de deixar o invólucro material. É que eu era materialista e jamais me interessara por investigar como seria o outro lado, caso existisse um. Nem mesmo quando faleceu minha esposa, fiquei abalado. Sempre agi com extrema naturalidade, em todas as circunstâncias de vida e de morte.
Revoltado, vendo-me sozinho no leito hospitalar, fugi, ficando a perambular pelas ruas, sem recordar-me jamais do endereço de casa. Também, não tinha nenhum desejo de voltar para lá, porquanto vivia isolado desde que falecera a esposa. O pior de tudo é que era já septuagenário e não me considerava velho.
Passei a mendigar para sobreviver, pedinte sempre bem sucedido, porque havia pessoas de bom coração que me forneciam de tudo que necessitasse. Encontrei um albergue que me agasalhava à noite, de forma que a minha sobrevida se tornara muito mansa e tranqüila. Nem os cães me atacavam, nem a polícia vinha em meu encalço, nem os peralvilhos me incomodavam, nem jamais me vi nas mãos de certos arruaceiros que costumam atear fogo nos indigentes.
Tomava banho no albergue, onde me forneciam mudas de roupas asseadas. Ali fui constatando que meu rosto se encovava e assumia ares cadavéricos. Era assim que ia medindo o tempo, já que não notava na paisagem urbana qualquer transformação. Muitas vezes, tinha a impressão de que tudo sucedia de novo, da mesma forma, à minha volta. Atribuía a sensação à velhice, dizendo-me já com oitenta, depois com noventa e, finalmente, com cem.
De repente, me vi sendo carregado de novo para o hospital, escutei as mesmas expressões e depositei minha alma nas mãos da natureza, descrente de que iria prosseguir existindo. Curiosamente, mantive a consciência da personalidade e me foi permitido observar o cadáver que jazia sobre a maca, no centro cirúrgico.
Agora eu sei que se deu uma recomposição da memória. No momento, porém, a descoberta de que existia além da matéria me maravilhou e fiquei perplexo, abstraído dos eventos ao derredor, sem nenhuma vontade de abandonar aquele refúgio sereno.
A compreensão de que vagara pelo espaço por uma década só mais tarde iria adquirir. No entanto, como não me vi mais cercado por nenhuma criatura, ocorreu-me que deveria procurar minha esposa, a qual, tinha a certeza, alimentava por mim algum sentimento de fraternidade, já que nunca trocáramos juras de amor, tendo-lhe ouvido constantemente a confissão de que se apaixonara pelo primeiro marido e que me aceitara, para não ter de ficar sozinha ou pajeada por alguma nora.
Foi pensar nela e logo me apareceu, dizendo-se ocupadíssima, referindo-se ao fato de que eu estava muito bem, que cuidara de mim nos últimos tempos, o que me pareceu estranho, e que ficaria afastada por bom tempo, porque estava tendo muito mais trabalho com a fantasmagórica figura do marido anterior.
Foi quando conheci Plácida, que se ofereceu, junto à administração do nosocômio da colônia, para encaminhar o meu despertar.
Eis tudo.



15. PERPLEXIDADE

Assim que Reinaldo terminou a leitura, caiu sobre o grupo um silêncio preocupado. Já estavam os alunos adquirindo a faculdade de reconhecer as vibrações menos sutis da mentes em comunhão de pensamentos e sentimentos, de modo que a equipe, reunida em função de um trabalho comum, foi bem capaz de entender que todos estavam eivados de apreensão.
Apenas Reinaldo não entendeu muito bem a razão do fato, inquirindo de Plácida uma explicação, sem, contudo, enunciar a pergunta.
— Meus caros, apressou-se a mentora a esclarecer, sei bem que é geral a preocupação a respeito da importância dos relatos, já que nenhum exemplo edificante de feliz reentrada no etéreo se deu. Querem discutir isso ao invés de comentar o texto de Reinaldo?
Pedro sentiu-se autorizado pelos demais e expôs algumas idéias que trouxera meditadas:
— Façamos o seguinte: vamos procurar pessoas que foram recebidas com festas e pedir-lhes que relatem, sob seu ponto de vista, a alegria de regressar ao seio dos familiares e amigos, sem o peso das recordações funestas, sem a necessidade de restaurar vínculos quebrados ou de reparar erros cometidos contra quem quer que seja. Antes de sugerir nomes, queria saber se a minha proposta merece ser aprovada.
Não se falaram por certo lapso de tempo, ao cabo do qual Olívia se manifestou:
— Como ninguém se opôs, parece que a idéia está aprovada. Então, eu proponho que a primeira entidade a ser consultada seja Maciel, nosso querido chefe.
Plácida se sentiu na obrigação de esclarecer:
— Má escolha, querida. A história de Maciel é a mais conhecida da colônia. Há muito tempo que ele se encarnou pela última vez e é notório que teve de passar cerca de trezentos anos nas cavernas profundas de sua consciência. De resto, todos os mentores, instrutores, professores e demais responsáveis pelos departamentos deixaram suas experiências registradas no Setor de Identificação, para que as diversas turmas, com diferentes interesses, pudessem consultar os arquivos sem perturbar o andamento das obras da administração.
Plauto arriscou uma pergunta que lhe pareceu impertinente:
— Desculpe-me, Plácida, mas, se existem tais relatos, por que este grupo simplesmente não foi encaminhado a ele para escolha das experiências mais completas e curiosas de passagem de uma realidade a outra? Certamente, obteríamos relatos com informações de maior interesse para os leitores a quem estamos destinando o opúsculo.
Plácida conclamou os demais:
— Quem responde por mim?
Jônatas, que se mantivera quieto, analisando atentamente as reações dos colegas, se apresentou:
— Não gosto da expressão, mas devo utilizá-la agora: eu acho, eu penso, eu suponho, eu imagino que nos faltariam elementos da realidade que vivenciamos. Poderíamos encontrar maravilhosas redações ou até exposições de vídeo, entretanto, jamais iríamos transferir para nossa alma as mesmas sensações que experimentamos ao nos desnudar perante este público selecionado, dado que todos estamos numa faixa de mesma ou quase a mesma vibração. Por outro lado, pensando naqueles destinatários de nossos escritos, talvez o objetivo tenha sido exatamente o de demonstrar-lhes o que podem esperar para si, caso se identifiquem conosco. Pessoas compenetradas de seu valor moral e de seu adiantamento espiritual, com certeza, irão saber que sua recepção no etéreo irá ser muito alegre e festiva. Pessoas flagrantemente inferiores, facínoras, assassinos, ladrões e demais aproveitadores dos bens alheios, não se deixarão envolver por qualquer tipo de relato, uma vez que experiências pessoais não se transferem. Estes vão ter de experimentar na própria pele os látegos de sua consciência. Quero entender que a nós foi outorgada missão espinhosa, não tanto pelo valor do texto a ser mediunizado, que também deve ser muitíssimo bem cuidado, mas por corresponder ao primeiro ensinamento que devemos assimilar para sempre, qual seja, o de que todos somos responsáveis, seja em que medida for, pelos atos que praticamos. Desde logo devo advertir que tal responsabilidade não se concentra essencialmente no interesse em agradar as pessoas, porém, no gerar de harmonia íntima capaz de conduzir pensamentos e emoções no sentido de se captarem, assimilarem e aplicarem os princípios superiores das leis universais. Quero agradecer o apoio telepático que recebi de Plácida e as ondas de simpatia de todos os colegas, o que me permitiu elaborar ato oratório que me seria impossível de realizar sozinho.
Reinaldo, de todos o menos envolvido pelas preocupações, tomou a palavra para expressar os sentimentos:
— Vejo que existe forte descrença em que iremos conseguir algo de boa presença para levar aos encarnados. Como venho redigindo as partes da obra, posso afiançar-lhes que, por pior que seja, sempre haverá de encontrar pessoas que se agradarão do tema e dos pontos de vista através dos quais foi abordado. Por isso, entendendo que sempre haverá de ser muito bom aumentar a esperança dos leitores em serem recebidos com alegria pelos entes amados, proponho-lhes que, consultados os responsáveis pelo currículo, saiamos a campo para testemunhar desenlaces em que as personagens cumpram esse desiderato.
De pronto, recebeu ampla e irrestrita solidariedade. Nenhum dos outros colocou nenhum óbice e todos esperaram ansiosos pela orientação de Plácida, que não hesitou:
— Muito bem, meus caros, vou levar ao conhecimento de meu instrutor, Professor Olavo, a sua reivindicação. Na próxima sessão, terão uma resposta bem fundamentada.



16. A SURPRESA

Quando a turminha chegou para a sessão seguinte, fazendo planos para as pesquisas e entrevistas, encontrou a sala tomada inteiramente por outros alunos. De resto, a manifestação de surpresa se via em todos os semblantes.
Assumiu a presidência dos trabalhos o Professor Olavo, postando-se ao lado dele oito instrutores, dentre os quais Plácida.
Eis a curta palestra de enunciação de objetivos:
— Prezadíssimos irmãos, vocês hoje estão integrando-se na turma selecionada para o currículo de que deram conta. São oito equipes de cinco elementos, o que perfaz classe regular de quarenta alunos, conforme as diretrizes metodológicas da colônia. Cada grupo desenvolveu as suas próprias experiências de translado da vida material para a espiritualidade, de forma que existem oito textos para serem examinados, criticados, refeitos, postos de lado ou aprovados, escolhendo-se os de sua preferência para a psicografia. Como todos chegaram a conclusões semelhantes, os comentários merecerão apreciação ligeira, elegendo-se os que estiverem mais de acordo com o interesse de todos. Recomendo que haja leitura dos textos, procedendo ao rodízio dos rascunhos, cada grupo atribuindo notas de cinco a dez aos diferentes relatos individuais. Devem também, à vista da desenvoltura dos redatores, estabelecer um critério qualquer para nomear um ou mais para a confecção final da obra coletiva. Se não houver nenhuma dúvida, deixo-os na companhia de meus assessores.
Realmente, ninguém levantou o braço, embora muitos houvessem guardado as perguntas para os instrutores.
Assim que Olavo deixou o recinto, levantou-se um murmúrio geral, como sói ocorrer quando a classe fica abandonada a si mesma. De fato, muitos fizeram contato de grupo a grupo, admirados de encontrarem amigos em sua classe.
Na turma de Plácida, Olívia foi a primeira a debandar, juntando-se a outras formas femininas dos demais grupos. Tendo realizado a contagem, perceberam que estavam em flagrante inferioridade numérica: eram apenas doze.
Pedro e Plauto reuniram-se com conhecidos de outras reuniões, trocando idéias a respeito do andamento dos trabalhos comuns.
Essa fase de convívio social durou alguns minutos até que foi dada ordem para se reagruparem.
Plácida assumiu a direção de sua turma, recebendo o primeiro calhamaço redigido pela equipe próxima.
— Quem deseja efetuar a leitura?
Olívia logo se manifestou:
— Proponho que cada um leia um relato. Quanto a mim, gostaria de ler os da ala feminina.
À vista do assentimento geral, começaram as leituras, crescendo a curiosidade, especialmente no sentido de se caracterizarem as novidades.
Após Jônatas terminar o primeiro texto, logo Reinaldo observou:
— Se o tom geral for esse, vamos aborrecer-nos de tanto ouvir as mesmas histórias. Eu não encontrei nada de novo na narrativa ou descrição psicológica do nosso irmão, mesmo porque as experiências dele têm muito a ver com as minhas. Sendo assim, como nós conhecemos bastante bem os nossos relatos, fixemo-nos em adaptá-los à personalidade de cada um de nós, o que, parece-me, irá facilitar o trabalho.
Plauto, de posse do segundo texto, perguntou:
— Posso ir adiante?
Tacitamente, recebeu o apoio de todos, dando início à leitura, à qual imprimiu uma empolgação dramatizada pela entonação, tentativa bem sucedida de prender a atenção dos demais.
Ao terminar, observou:
— Eu acho que este se parece muito com Pedro, mas com muito maior concisão. Entre os dois, voto pelo nosso companheiro.
Plácida lembrou ao grupo:
— Vocês atribuíram notas aos textos?
Jônatas esclareceu:
— Eu pensei em deixar as notas para o final das leituras. Assim, poderemos comparar as várias apresentações para não termos de alterar os conceitos posteriormente, se bem que, acredito, mudar antes de passar para a classe seja sempre possível e até plausível.
Plácida interrogou os discípulos:
— Vocês não gostariam de dar notas particulares para, depois, discutirem as discrepâncias? Não seria bom começarem pelos textos que escreveram?
Olívia foi quem respondeu:
— Concordo com o método, mas aconselho que se dê liberdade para o autor de não atribuir nota ao próprio trabalho. Haveria certo constrangimento, ao menos para mim.
Pedro encerrou o debate:
— Vamos começar comigo e seguir a ordem das apresentações.
Rapidamente, todos anotaram suas notas e, ao comando de Plácida, mostraram aos demais. A Pedro, todos deram nota dez.
Quanto a Olívia, a média foi oito. Como Reinaldo havia atribuído nove e Plauto, sete, precisaram, rapidamente, expor seus pontos de vista, cada qual defendendo o critério utilizado. Quando ambos concordaram em mudar para oito, Plácida advertiu:
— Serão quarenta relatos. Precisamos terminar todas as leituras nesta sessão. Deixei que apresentassem suas razões neste caso, para estabelecer e firmar o sistema de avaliação. Somente irei permitir novas discussões, caso as notas divergirem muito, de seis para nove, por exemplo. De acordo?
Demonstrando espírito de solidariedade, a partir daí, os que deram notas ligeiramente superiores ou inferiores, logo se ajustaram pela média, o que abreviou bastante o tempo gasto.
Eis as médias dos demais: Jônatas, nove.; Plauto, seis.; Reinaldo, sete.
Feita a média ponderada da equipe, concluíram que o grupo merecia um conceito médio, ou seja, oito.
Ao chegarem a tal resultado, Plácida interveio:
— Não se esqueçam de que os textos se acham enriquecidos pelas discussões e apreciações que vocês intercalaram. Nesse caso, vou dar também a minha nota para o grupo: dez, sem favor nenhum.
O restante da sessão foi gasto na leitura e na atribuição de notas, mas ao final, estavam todos tão cansados, que resolveram os instrutores esperar pela próxima reunião dos grupos para efetuar-se o cotejo dos resultados.



17. CONSENSO

De volta do período de descanso, reuniu-se a classe sob a orientação do Professor Olavo, que trouxe os resultados das avaliações estatisticamente elaborados:
— Perdoem-me os entendidos, mas vou preferir enunciar as médias ponderadas, sem fazer uso da nomenclatura específica. Quero crer que falar em desvio padrão, em correção sociométrica e quejandas técnicas para estabelecer a curva dos resultados dentro da tabela da normalidade estatística, seja um meio de complicar a transmissão psicográfica aos encarnados. Então, informo-lhes que a nota resultante do trabalho globalizado foi oito, dentro da escala de cinco a dez, conforme estabelecido. O grupo dos instrutores também chegou ao mesmo resultado, segundo as próprias avaliações. A importância desse número haverá de determinar os passos seguintes do trabalho. Tais passos, porém, devem ser levantados e discutidos pelas equipes com os respectivos orientadores, para, depois, serem levados à assembléia, que os apreciará e sobre os quais decidirá. Reúnam-se, portanto, para deliberar.
Assim que se viram envolvidos pelo clima da amizade que se formara durante o curso dos eventos, os membros do grupo de Plácida estavam curiosos para saber como é que os seus relatos tinham sido vistos pelos demais. Foi Olívia quem fez a pergunta crucial:
— Pelo levantamento que realizamos de nossas avaliações, o projeto que elaboramos correspondeu à média atribuída a todos os grupos. Ora muito bem, teremos nós incorrido em alguma discrepância em relação a esta ou aquela equipe? Como é que as demais equipes viram o nosso trabalho? Pergunto para conhecer a repercussão dos textos, já como antevisão de como será recebido pelos mortais.
Plácida ergueu a mão, pedindo a palavra:
— Entendi-lhe a súplica, querida. De acordo com os pareceres dos instrutores, não vamos precisar ajustar nenhum conceito. Certos grupos terão de discutir algumas discrepâncias, em função das opiniões alheias. Mas é de pouca expressividade esse exercício. O que me deixou muito satisfeita foi saber que cada um de vocês recebeu de cada grupo a mesma nota que vocês mesmos se atribuíram. Querem agora discutir a importância desses números, de acordo com a proposta de Olavo?
Pedro estava demonstrando muito mais preocupação que os demais, por isso lhe foi passada a palavra:
— Estou ficando muito aflito, disse ele. Se as notas se repetiram, como a nota máxima foi dada apenas ao meu relato, quer dizer que ninguém mais atingiu tal ápice?
Ninguém ousou comentar. Mesmo Plácida não se deu pressa em fazê-lo, incitando mentalmente os demais para que alguém espontaneamente deliberasse trazer explicação que confortasse o amigo.
Depois de algum tempo, Plauto falou:
— Acho que devo participar, já que me considero fora da lista dos escolhidos, por estar entre os de menor nota. Penso que Pedro não deve orgulhar-se por haver escrito a melhor narrativa. Deve ficar alegre por ter aproveitado, melhor que todos nós, a derradeira passagem pela carne. Veja bem, estou falando em termos absolutos, em adiantamento espiritual como etapa do crescimento evolutivo, porque todos nós, relativamente ao que éramos, tiramos o máximo de proveito possível das encarnações, inclusive a nossa infeliz Olívia, que trouxe as mais severas dores e revezes. Outro motivo de alegria para ele há de ser o fato de ser digno exemplo para todos, inclusive quanto ao sentimento da humildade. Isto tudo, entendo eu, vai gerar, não direi um grau superior de responsabilidade, mas a convicção de que os encargos que lhe serão dados crescerão em importância, como no caso em pauta de ter ele de aceitar o destaque de abrir a obra.
As palavras caíam muito sérias na consciência de cada um. Jônatas, que refletia sobre determinado aspecto resultante das apreciações de Plauto, pediu a palavra:
— Vejam, meus caros, que aquele que recebeu o pior conceito está apto a integrar a turma dos comentaristas. Caso a sua redação seja expurgada do conjunto, nem por isso a sua participação haverá de ficar de fora. Proponho, portanto, que a tese levantada por Plácida seja levada a plenário. Caso não se lembrem, a nossa veneranda mestra, sem favor nenhum, deu a todos nós a nota máxima.
Desta feita, o grupo sentiu-se mais leve e fagueiro, notando o tom brincalhão com que Jônatas fez a respeitável proposta.
Reinaldo ergueu o braço. Precisava opinar:
— Falo na qualidade de redator. De que valerá aos leitores encarnados o relato apenas dos mais capacitados? É como se medíssemos os espíritos pela estatura dos que vivenciaram os cânones doutrinários espíritas. Entretanto, devemos pressupor que teremos leitores de todos os matizes religiosos, culturais, morais, filosóficos etc. Nesse sentido, é muitíssimo mais importante para eles que se mirem nos exemplos que correspondam às suas personalidades, como nós mesmos fizemos quando da leitura dos textos alheios. Não estou querendo dizer que as nossas redações é que devam ser escolhidas, mas aquelas que são mais condizentes com as experiências de vida dos que nos irão ler.
Plácida, que se mantivera em contato telepático com os demais instrutores, tendo recebido deles a informação que correspondia ao ponto de vista de cada grupo, tomando a palavra, esclareceu:
— Saibam que todos os grupos aprovaram a idéia aqui exposta. Mais ainda: houve consenso quanto a eleger a nossa turma como a que irá organizar a obra. Todos concordam em que o trabalho de vocês é o que responde melhor aos objetivos do curso. Querem que o texto permaneça exatamente como está, com o acréscimo das discussões do dia de hoje, que deverão ser levadas ao conhecimento de todos para aprovação. Além disso, desejam apontar outros relatos para enriquecimento do quadro geral das passagens para o etéreo. Finalmente, vão submeter ao Professor Olavo a idéia das pesquisas e dos testemunhos de seres mais e menos adiantados e felizes.
Quando Plácida terminou, estava a classe toda voltada para ela. Com o fito de apoiar e de incentivar o grupo, os colegas e instrutores emitiram ondas de muita admiração e respeito, como, na esfera terrestre, as pessoas costumam aplaudir o que lhes agrada.
Pedro pediu a palavra para agradecer:
— Prezados colegas, sinto-me na obrigação de reconhecer-lhes a sabedoria e a astúcia. Considero que o nosso grupo, realmente, fez um excelente trabalho, merecedor do destaque que vocês lhe deram. No entanto, não pensem que vão descansar em paz. Para que haja mais equilíbrio nas tarefas, exijo que os instrutores de cada equipe estabeleçam o roteiro para a escolha das redações complementares. Também quero que todos nos assistam quanto à correção do texto, seja no sentido dos conceitos epistemológicos, seja no do apuro estilístico e gramatical. Também no que diz respeito ao trabalho de campo, ou seja, a ida da turma para presenciar e reportar os diferentes traslados para o etéreo, solicito que mereçamos ser convidados e conduzidos, uma vez que estaremos muito mais ocupados que quaisquer outros.
Um gaiato da platéia observou:
— Estou entendendo por que o nosso confrade se empenhou em realizar o melhor relato. Agora não quer fazer mais nada...
Sorridente, Pedro fez uma mesura de agradecimento, promovendo o riso da classe. Foi com muita alegria que todos voltaram a trabalhar nos seus grupos.



18. HÉLIA

Nasci e morri analfabeta. Foi sob o signo da ignorância de tantas coisas que passei toda a romagem terrena. Não fui boa nem má. Pelo menos era assim que me julgava. Morri de um ataque do coração, com a idade de sessenta e um anos. Depois fiquei sabendo que tivera a doença de Chagas.
Aprendi a escrever aqui no etéreo mas ainda preciso da ajuda do descodificador de linguagem para escrever meu texto. De qualquer modo, consigo saber o que está escrito com certa facilidade, não precisando mais do leitor eletrônico. Estas explicações, eu acho muito necessárias para esclarecer os leitores encarnados. Aliás, eu não estou estimulando ninguém a permanecer analfabeto, principalmente as mulheres do campo, pelos fatos que adiante contarei. O que pretendo é que saibam que o Pai estende seu braço misericordioso para todos, amparando as pessoas de boa vontade e de vida piedosa.
Eu tive algum conhecimento de doutrina espírita, muito embora jamais deixasse de ir à missa, de confessar e de comungar. Até a extrema-unção recebi. No centro, sentava-me à mesa dos médiuns e jamais deixei de dar comunicação, que era como a gente falava.
Pelo que estou dizendo, pode parecer que não caí nas trevas quando aqui cheguei. Aconteceu que eu queria encontrar meu falecido marido, porque achava que ele devia estar em condição muito ruim pelas comunicações dele recebidas no centro. Na verdade, queria testemunhar o sofrimento dele, porque ele me causou muitos problemas, como traições, reclusão em casa, miserabilidade, cuidados tremendos com os filhos, que eram doze, nenhum prazer, porque não podia ir aos bailes aonde ele ia e encontrava as mulheres.
Não pensem que ainda estou com raiva dele. Não estou mais. Se estou dizendo tudo isso é porque quero deixar claro que mereci vagar pela erraticidade pelos treze anos seguintes ao de minha morte.
Aqui na colônia faz doze anos que estou, aprendendo e servindo, trabalhando com o máximo de prazer, porque sou muito bem considerada e respeitada, tanto que a minha aparência rejuvenesceu, assim como minha mentalidade.
Peço desculpas por não vir com palavras de grandes esperanças, como as que eu ouvia dos dirigentes do centro, onde costumavam dizer que as pessoas muito boas eram festejadas quando do regresso e logo encaminhadas para círculos de luz. Mas posso afirmar que, se conseguirem vencer, como eu, essa dúzia de anos, até compreenderem o que foi que as arremessou no caos das idéias contraditórias, que foi o meu maior castigo, então vão achar que tiraram o grande prêmio e que a sua vida teve muita virtude.
Não posso encerrar esta digressão, sem agradecer a Deus por todo o carinho que tenho recebido dos irmãos desta colônia e por ter, ultimamente, encontrado o meu marido, coitado, emaranhado num cipoal de culpas e de arrependimentos. Tenho pedido por ele e insisto, mesmo que se passe muito tempo até que venham a ler esta página, que orem por ele, porque acho que vai ficar preso ali por muito tempo ainda.
Quanto aos meus filhos, alguns estão comigo e outros estão em suas famílias. De vez em quando, recebo de um ou de outro alguma vibração amorosa, o que me conforta a alma. Pena que eles não tenham as noções da vida após a morte, eles mesmos até mais ignorantes do que eu. Enfim, se encarnaram pobres, sem caírem numa vida de crimes, ainda terão oportunidade para crescer espiritualmente, bastando que tratem bem das pessoas com quem se relacionam.
Muito obrigado a todos.
Depois que li esta redação para o meu grupo, quiseram fazer muitas perguntas, mas eu impus uma condição: que as minhas respostas não fossem levadas ao conhecimento das pessoas encarnadas, porque sou muito simples e tenho ouvido textos muito mais cultos, inteligentes e completos. Espero que me entendam.



19. CLOTILDE

Quando aqui cheguei, ouvia ainda os gritos de minha mãe, chamando pelo meu nome, desesperada. Sofri um acidente estúpido de moto, diante de toda a família. Simplesmente, fui atropelada.
Tinha dezenove anos e toda a vida me sorria, amando e sendo amada. Mais ainda, era querida de todos e a todos correspondia em afeto e carinho. Foi o que chamei de uma judiação.
Todos os meus ligeiros desatinos imputei à conta das tropelias juvenis, pois os adolescentes precisam impor-se aos adultos para adquirirem sua liberdade. Era completamente pura, sem ser ingênua, contudo. Sendo assim, não esperei nada de ninguém e terminei, sem correrias pela erraticidade, integrada a um grupo de jovens, ou seja, de pessoas que faleceram em idade mais ou menos igual à minha, grupo que se aprimorava em dar assistência a tantos que estavam morrendo em tenra idade.
Para dizer a verdade, nem senti o transtorno da passagem. Não fosse pelos gritos de minha mãe, meu coração não teria estremecido nem um pouco.
Não vim dizer isto aos companheiros para que estimulem os pais que perdem filhos de maneira tão trágica quanto a minha a se conformarem de imediato, como se a vida se restabelecesse das feridas morais pelo influxo das idéias filosóficas ou religiosas. É de todo compreensível que as pessoas sofram com a perda dos entes queridos. O que devem repudiar é a demonstração exagerada da dor, como se a própria misericórdia divina estivesse sendo posta em xeque.
Minha mãe não acreditava em espíritos e jamais eu a ouvi dizer que as pessoas, ao morrer, iam ficar vagando pelo espaço. Tinha a convicção inabalável de que era impossível aos mortais conhecer o destino dos que morrem. Compareceu às missas que a família mandou rezar para meu conforto espiritual, entretanto, penetrando na esfera de suas vibrações emocionais, apenas senti um misto de revolta contra a sorte e um amor desesperançado, como se eu tivesse desaparecido para sempre. Não havia fé no poder de Deus.
Eis o que mais me atormentou, tendo precisado do auxílio dos companheiros, eu que me esforçava por confortar os recém-chegados. Foi o sentimento de frustração por não alcançar levar ao conhecimento dos parentes que estava bem que me abriu esta vaga nesta turma, principalmente porque, desde logo, me explicaram que o trabalho principal seria uma comunicação bem ampla e definida a respeito do encontro com a morte e as conseqüências primeiras do procedimento em vida.
Vou ficar devendo as explicações relativas ao fato de eu haver merecido passar pela supra-referida aflição. Todo o processo de causa e efeito, contudo, já se encontra devidamente assinalado no transcurso das anteriores narrativas e discussões.
Centrei a minha contribuição numa palavra de esperança a ser transmitida aos encarnados. Evidentemente, o primitivo texto que compus precisou de reformas, para que se eliminassem os plangentes queixumes quanto ao fato da impotência do contato mais direto com meus familiares. Eis o proveito maior que extraí desta convivência: criei confiança nos métodos mediúnicos e passei a estudar melhor todo o processo. Quem sabe, se não minha mãe, outras pessoas envolvidas por tragédias semelhantes possam equilibrar-se emocionalmente mais depressa, capacitando-se a compreender que sempre haverá a felicidade do reencontro.
Como tópico derradeiro, tenho a incumbência de dizer que, em breve, me será possibilitado conhecer a história de minha existência pregressa, o que não me assusta muito, porque, por pior que eu tenha procedido, a paz de hoje está a indicar que tenho progredido satisfatoriamente. Depois disso, haverei de matricular-me em outros cursos para aprender um pouco mais a respeito do universo e de suas leis.
A pergunta mais importante que me fizeram diz respeito ao meu trabalho de socorrista, se continua ou não. Diminuí a participação, porém, melhorei bastante a qualidade dos conselhos que venho ministrando, inclusive incentivando muitos companheiros a que encontrem uma colônia onde possam aperfeiçoar-se em seu ministério de amor e compaixão, principalmente tendo em vista que muitos o fazem movidos por autopiedade.
Agradeço e abraço a todos os que lerem o meu humilde trabalho. Fiquem na paz do Senhor!

20. ANABELA

Estacionei nas trevas por mais de vinte anos, contados pelos parâmetros dos encarnados. Como superei as minhas principais dificuldades, encontro-me preparada para enfrentar novos ensinamentos e novos ministérios de paz e amor.
Tenho ouvido as narrativas dos companheiros, todas muito tristes por causa dos sofrimentos que sentem ou que causaram. Eu também tive os meus problemas muito sérios, no entanto, não gostaria de falar a respeito deles. Sei que estamos relatando casos parecidos com os dos leitores e das leitoras, para que criem coragem e aceitem os desafios da vida e da morte, mas peço que me perdoem por não servir de exemplo.
Sobre o que virei então explanar? Sobre a necessidade de efetuar o quanto antes os desígnios impressos nas leis de Deus, cumprindo rigorosamente as obrigações morais superiores, auxiliando o próximo e aprendendo o máximo possível, em todos os ramos do conhecimento, porque conhecimento não ocupa lugar e sempre irá dar um impulso muito grande em nosso desenvolvimento espiritual.
Sinto que não trago novidade alguma. Entretanto, só o fato de estar sendo ouvida e lida, já significa um passo muito importante rumo aos ganhos e benefícios de uma existência pautada pelo ritmo das esferas mais elevadas.
Não fui espírita e ainda agora tenho dificuldade para aprender as noções mais elementares de cunho filosófico. Na qualidade de trabalhadora da indústria têxtil, estou tramando ou urdindo a minha tese da maneira mais prática que me seja exeqüível, contando ainda com a ajuda dos colegas, para a utilização de certos termos cujo significado eles vão explicando-me. Como, então, a que menos cultura possui seja aquela que vem com mais ênfase instruir os leitores quanto à necessidade de se esmerarem no aprendizado e na aplicação das leis?
Pedi para que me perdoassem por não demonstrar os meus defeitos. Deixo, contudo, a amostra de um dos maiores, qual seja, o desejo de mandar nos outros, sem jamais permitir que mandassem em mim. É a história do faça o que eu digo e não faça o que eu faço. Acho que este é um indício bastante claro do porquê permaneci por tanto tempo no catre da consciência.
Afora o fato de haver provocado quatro abortos.
Se estou sendo muito rude, se estou agredindo as minhas irmãs encarnadas que tenham realizado a mesma indigna proeza, peço-lhes que me relevem a crueza da própria realidade.
É claro que justifiquei cada ação contra os fetos, crendo-me no meu direito de não dar à luz criaturas que não estavam sendo desejadas por mim. Devem estar querendo saber se fui perseguida, quando aqui cheguei, pelos espíritos cuja reencarnação impedi. Claro que não. Eles foram instruídos para aceitarem o curto período de sofrimento e se tornaram até protetores meus, já que entenderam o quão ignorante eu era. Entretanto, a minha consciência me acusou e foi aí que fiquei prostrada nas trevas.
Antes de encerrar, devo dizer-lhes que eu também dizia que iria superar os problemas, porque era uma mulher forte e independente. Pior para mim ser tão forte, porque todo o meu poder recaiu sobre a minha própria estrutura psíquica.
Relembrando o primeiro parágrafo que escrevi, agora deixei indelével a confissão de que não estou tão preparada quanto afirmei, para enfrentar novos ensinamentos e novos ministérios de paz e amor. Esta consciência da verdade não vai bastar-me para livrar-me de novas experiências terrenas, talvez na pele feminina e com renovadas provações no campo da maternidade.
O que me deixa tranqüila é o fato de estar preparando-me para criar uma espécie de escudo, uma censura intelectual contra os sentimentos egoístas e de puro usufruto dos prazeres mundanos.



21. JANICE

Distratei o compromisso conjugal, unilateralmente. Creio que este fato não seja incomum, porém, como me comprometera perante a sociedade e a religião a respeitá-lo, fui acossada em vida e após a morte. O pior é que quem me acusava com maior severidade era a minha própria consciência, muito embora fizesse todo o esforço para refutar cada argumento, como se tivesse razão em defender minha liberdade.
Tenho encontrado muitos espíritos de mulheres que viveram em promiscuidade e não me deparo quase nunca com o mesmo grau de culpabilidade que senti. Outros que viveram como homens até se ufanam das conquistas que efetuaram, sem responsabilizarem-se por qualquer prejuízo emocional que tenham provocado nas pessoas cujas expectativas de felicidade frustraram.
Somente depois de muita correria é que atinei que o motivo de me sentir tão mal não era o fato da traição em si mesma, mas a impressão de que estava gozando com comer do fruto proibido. Se não fosse proibido, eu acho que não teria nenhuma graça.
Durante largo tempo, comparei-me às mulheres que profissionalizaram o uso do sexo, havendo acreditado que não era digna de respeito e consideração. No entanto, fui mãe carinhosa, irmã afetuosa, filha respeitosa e membro ativo da comunidade, sempre pondo-me à disposição das entidades beneficentes para o voluntariado abnegado e solícito. Pois até estes aspectos altamente positivos transformei em pecados, acusando-me de me esconder debaixo de pele de cordeiro.
Afligi-me principalmente por ficar na expectativa de ser guindada a melhores condições no etéreo, sem esforçar-me por entender que o perdão que de Deus aguardava tinha, necessariamente, de fluir de minha própria pessoa. Digo isto com certo temor, porque podem pensar as leitoras que tudo quanto fazem no campo do sexo seja de somenos importância no capítulo dos avanços espirituais, podendo pôr de lado todas as conseqüências morais, através de postura de compreensão de que tudo nesse campo seja natural.
Há de ser natural, sim, para os seres inferiores, os animais, cujo procedimento é regido pelos instintos. Se o homem e a mulher aspiram a evoluir em sutileza intelectual, sentimental, espiritual, para merecerem partir para esferas de maior felicidade, têm que entender que todos os seus atos devem cercar-se de cuidados para não causarem prejuízos aos semelhantes, o que irá crescendo à medida que forem desenvolvendo cada vez mais as habilidades mentais. Em suma, para dizer o óbvio, trata-se da aquisição da consciência da repercussão de todas as vibrações, o que se alcançará se todos os nossos pensamentos e atos se pautarem pelas virtudes essenciais do amor, da fraternidade, da solidariedade, do respeito à criatura, pelo dever de adoração ao Criador.
Estou neste ponto das lições que recebo. Acho que terei de incorporar os conceitos em minha maneira de ser. Por isso, peço que me desculpem o relato meio capadócio e disfarçado intento de pregar sermão. Eu é que estou a merecer tal puxão de orelha. Em todo o caso, fiz o melhor que pude para não desvirtuar o texto, que acho que refletiu, com alguma precisão, a minha personalidade. Espero melhorar o estilo em breve.
Felicidades a todos e um abraço especialíssimo às mulheres que souberem entender-me, identificando-se comigo.



22. DOROTÉIA

Esta é a quinta e definitiva redação que componho, finalmente aprovada pelos companheiros do grupo. Nas anteriores, discorri a respeito da existência terrena, sem esconder a saudade que sentia das sensações mornas de vida pacata e completamente realizada.
Não sei como deixar de dizer que vivi cinqüenta e cinco anos na fé protestante, terminando por morte natural, sem nenhum sofrimento. Pelo menos, foi assim que me encontrei deste outro lado, sem notar nenhuma transição.
Aqui chegando, fui recebida por grupo de pessoas que reproduziam a vida comunitária da minha religião, de sorte que a importância de haver reingressado no etéreo ficou em absoluto segundo plano.
Do mesmo modo que tinha de tudo na vida, já que meu marido era pessoa do comércio, dono de supermercado, abastado e cumpridor dos deveres para com Deus e seus ministros, jamais deixando de contribuir com o dízimo, aqui eu exercia atividades correlatas, cuidando da família com extremado zelo e boa vontade.
Nessa penumbra de consciência, passei cerca de vinte e cinco anos, sem reclamar e sem reivindicar.
Mas as pessoas eram requisitadas pelos pastores e demais autoridades religiosas, de sorte que, aos poucos, fui ficando cada vez mais sozinha dentro da pequena célula familiar. Não havia nascimentos e isto favoreceu o raciocínio na direção de que nem tudo era exatamente igual à vida na Terra.
Assim, surgiu a dúvida de que estava aguardando ser chamada para ingressar no reino do Senhor.
Sempre fui cordata e amigável. Neste caso, porém, recusei-me a compartilhar os sentimentos da coletividade, rebelando-me contra a pacífica e inalterável condição existencial na colônia. Desejei saber mais e fui obrigada a calar-me. Não queriam que fomentasse clima de revolta ou de insatisfação.
Quando me vi fora daquele círculo energético, em pleno isolamento, passei a refletir seriamente nas causas que me levaram a sublevar-me contra os princípios que sempre estabeleceram a minha conduta. Não foi fácil de entender que a revolta se centrava no fato de que, deste lado do mistério, eu não possuía as mesmas regalias da vida mundana. Atinei com a paciência e a resignação das mulheres mais pobres, porque aqui lhes era dado muito maior conforto do que lá. Conforto e consideração.
Mudei o teor das preces, solicitando especialmente do Senhor que me desse inteligência para entender a criação. Este era para mim um defeito inconcebível, qual seja, o de haver restringido as atividades intelectuais a um plano muito rasteiro e material. Cheguei à conclusão de que possuía fé religiosa de alto cunho interesseiro e pragmático.
Tenho a convicção de que, diferentemente dos textos anteriores, o meu testemunho não vá ser aproveitado por quem mais necessita destas reflexões. É que as leitoras encarnadas, para se achegarem a esta obra, hão de ter uma liberdade de pensamento que jamais tive. Aliás, foi com imensa dificuldade que adquiri este traquejo redacional. Não fosse pela contribuição dos colegas e dos instrutores, ainda estaria soletrando as palavras na velha Bíblia.
Creio que a pergunta que irão fazer-me os encarnados diga respeito à superação do desejo de volver ao plano carnal para usufruto das mesmas regalias, em nova peregrinação inócua para o intelecto. Verdadeiramente, tenho orado bastante, para que não ocorra outra experiência igual. Mas isto não quer dizer que eu tenha condenado a minha vida. Foram muitas as habilidades que adquiri no trato com as pessoas, principalmente desprendendo-me de parte substancial dos bens que possuíamos, sem nunca reclamar de nada, sem sequer supervisionar a aplicação deles por parte dos ministros.
Pode parecer sofrível esta narrativa, não tanto pelos aspectos de estrutura e desempenho lingüístico, mas por apresentar o tema a pequenez da mediocridade insossa de quem não alargou os próprios horizontes. Mas esta sou eu mesma, melhorada, é claro, depois que me matriculei neste curso.
Possa o Pai inspirar reações mais oportunas nos cérebros obtusos de tantos seres humanos sobrecarregados de preconceitos religiosos fundamentados em desejos de perpetuação da felicidade material. Com certeza, muitos encontrarão percalços bem piores do que os meus, como foi o caso de meu marido, que se revoltou ao perceber que não havia sido admitido no seio de Deus.
Muito obrigado pela atenção. Fiquem no regaço amorável de Jesus!



23. AGITAÇÃO

Quando Olívia se preparava para ler a próxima narrativa, Plauto pediu a palavra:
— Quero crer que tenhamos definido o propósito geral da obra. Acrescentar mais casos, penso eu, será castigar demasiadamente os leitores, principalmente do sexo feminino, que são bem capazes de inferir o quanto de bem ou de mal vêm praticando na vida, para criar saudável expectativa de boa recepção no etéreo, ou para reconstruir o procedimento, segundo bases morais mais sólidas.
Pedro interveio:
— Concordo plenamente, mesmo assim, caso levemos outros casos bem caracterizados psicologicamente, teremos a certeza de não haver esquecido os colegas de classe.
Jônatas interpôs-se:
— Pois eu não tenho a mesma convicção, uma vez que o volume da obra também deve influir na decisão de adquirir o livro ou de lê-lo. Claro está que, se ultrapassarmos as seiscentas páginas neste diapasão, ninguém haverá que agüente a chatice dos textos. No entanto, pelos meus cálculos, até agora não produzimos mais do que uma centena de páginas, o que daria uma idéia bem pobre de nossos recursos.
Olívia não se conteve:
— Aplaudo os cuidados de todos. Quanto a mim, não vejo por que não dar curso ao projeto inicial, já que estamos falando seriamente a respeito de temas do mais alto interesse das pessoas encarnadas. Por menor que venha a ser a repercussão do opúsculo, sempre teremos o proveito de haver executado um estudo em prol da melhoria das pessoas, quaisquer que sejam suas condições evolutivas. Não me interessa se existirão mais ou menos leitores. O que considero importante é terminar o que começamos, sem que nos esqueçamos de que também nós, durante a realização do trabalho, tivemos momentos de euforia e de depressão. Sendo assim, tenho a certeza de que, ao final do ditado ao médium, estaremos reivindicando uma formatura festiva, já que nenhum de nós foi recepcionado com a alegria e a descontração própria dos seres mais abonados moralmente.
Reinaldo aplaudiu:
— Eu lhes asseguro que estava faltando este tipo de interrupção dos relatos da facção feminina. Agora que estabelecemos um hiato, podemos continuar, sabendo que não seremos assim tão monótonos na apresentação da infelicidade corriqueira dos seres humanos que fomos, sem brilho, mas também sem tremendos débitos a resgatar. Proponho que discutamos o título a ser atribuído à obra, título que deve enfatizar a mediocridade dos espíritos que compuseram esta classe.
Plauto fez questão de participar:
— Pois que seja um título que também não deixe dúvida quanto ao fato de que estamos melhorando, já que merecemos vir a público com nossas idéias, tecnicamente imprecisas, doutrinariamente frágeis, mas animadas pela esperança cada vez mais crescente de que estamos progredindo.
Jônatas aduziu:
— O título deve conter também, de maneira clara e insofismável, que a origem da obra é espiritual. Algo como: Os espíritos...
Pedro sugeriu:
— Os espíritos falam da morte.
Olívia não gostou:
— Muitos dos relatos falam mais da vida que da morte, especialmente os derradeiros. Mas não acho conveniente simplesmente acrescentar: Os espíritos falam da vida e da morte. Seria genérico demais.
Reinaldo dirigiu-se a Plácida:
— Cara mestra, não seria conveniente que os instrutores estabelecessem o título, dado que toda a orientação proveio deles?
Plácida obtemperou:
— Podem ficar sossegados quanto ao fato de que, se o título não estiver bom, vocês serão convocados para novas sugestões. Apenas para colocar mais lenha na fogueira: vocês já refletiram sobre qual título os encarnados dariam?
Plauto foi quem respondeu:
— Eu até que pensei, mas não cheguei a conclusão alguma. O que imaginei foi que, se lhes dermos uma pista falsa da obra, coisa como Abscessos Mortuários dos Perispíritos, indicando que se trata de um estudo de caráter médico, iremos definitivamente cristalizar-lhes um repúdio aos livros mediúnicos, como temos visto tantos que não lêem as poesias do etéreo, já quando ficam sabendo da origem espírita dos textos.
Pedro não deixou passar a oportunidade:
— Caiu no meu terreno. Realmente, eu mesmo, apesar de minhas sérias convicções espíritas quando encarnado, reclamei de muitas publicações com tal epígrafe, porque muitas me pareciam fragílimas em comparação com as obras de Kardec. Foi quando imaginei o sábio codificador às voltas com as correções dos textos psicografados, não para interpretá-los, mas para ajustá-los ao todo coerente da doutrina. Por outro lado, vários livros com a chancela de mediúnicos me pareceram excessivamente técnicos, demasiadamente eruditos ou profundamente esotéricos, a ponto de me desagradarem, a mim que tinha alguma cultura. Imaginem, então, o que se passa na cabeça dos menos escolarizados, dos menos acostumados às reflexões metafísicas. Relativamente a este aspecto, proponho que o título faça menção às mui pequenas dificuldades com que se defrontarão os leitores encarnados. Pensei em algo como: Quando falece um homem comum, ou: O que acontece quando morre uma pessoa como eu ou você.
Reinaldo, que costumava instigar a reflexão dos demais, encerrou a discussão:
— Penso que estamos em condições de trazer alguns títulos para a próxima reunião. Vamos ouvir a próxima redação, isto se Plauto não se opuser.
Chamado a participar, Plauto não titubeou:
— Reservo-me o direito de me rebelar contra decisões infelizes, como seria a aprovação de um texto repetitivo.
Olívia observou:
— Creio que a próxima narrativa, a última selecionada do setor feminino, vá merecer a aprovação de todos.



24. FLÁVIA

Sinto-me perdida neste ambiente de tanto estudo e esclarecimento. Vi-me obrigada a refazer a redação, porque a primeira tentativa versava, sobretudo, a respeito de considerações relativas aos processos psíquicos resultantes do fator sexual.
Para que me entendam, devo dizer que morri convicta como defensora ferrenha dos direitos e valores femininos, desprezando completamente o machismo de homens e mulheres, porque nem todas agem segundo os padrões da feminilidade. Ao chegar aqui, porém, ao contrário da maioria dos companheiros de classe, deparei-me desde logo com a minha condição masculina da vida anterior.
Parece-me fácil de imaginar o choque que levei. Até consolidar o conceito de que o espírito não possui sexo, porque não existe, neste plano, necessidade dos aparelhos reprodutores, fiquei perambulando à toa durante mais de trinta anos, mais ou menos o período de tempo em que, encarnada, completaria oitenta e poucos anos.
Mesmo quando admiti a hipótese de que o lesbianismo incrustado na minha personalidade terrena da última peregrinação era o produto das anteriores tendências sexuais, ainda assim fiquei perplexa com o fato de que me mantinha com a figura feminina, sem poder transformar-me, pelo menos para contentar minha orientação mais geral, em fantasma de homem, com a aparência da penúltima encarnação.
Nunca mais me encontrei com minhas amantes, todas elas, agora eu sei, pertencentes à espiritualidade. No entanto, foi com muita ternura e até com paixão que convivemos, sem pecado, sem preconceito e sem arrependimento. O que suponho que haja acontecido foi o mesmo que me ocorreu, isto é, devem ter passado por períodos mais ou menos longos de adaptação à realidade espiritual.
Um aspecto que devo considerar é o fato de não me recordar de haver solicitado reentrar na matéria com o sexo oposto. Mas admito que o meu procedimento masculinizado tem muito a ver com a lógica dos anteriores formatos psíquicos.
Resta considerar o que aprendi, ou melhor, compreendi.
Em primeiro lugar, a aparência que todos guardamos nesta colônia simplesmente tem de ver com o tratamento que devemos dispensar uns para com os outros, estabelecendo certo equilíbrio social, tendo em vista a necessidade de próxima reencarnação. Quando mantemos o status correspondente à derradeira internação carnal, estamos favorecendo a que nos tratem, mais ou menos, segundo um padrão conhecido de relacionamento social.
Já devem os leitores estar cismando, a partir desta revelação, como é que estou sendo tratada pelos parceiros, já que destôo do grupo em que me vi inserida. Pois bem, todos conseguem ver em mim a verdadeira personalidade, como se eu houvesse alcançado uma imagem híbrida, hermafrodita, dando aos que mantêm a figura masculina uma resposta condizente aos seus próprios anseios, sem ferir a susceptibilidade das colegas, tanto foi o amor que dispensei às mulheres.
Cheguei ao ponto principal deste relato, qual seja, a coerência sentimental que destaquei com o nome de amor. No orbe, preferia chamar de amizade, de benquerença, de afeto, nunca sem embutir, nas frases e gestos de minha ternura, o quê de sacrifícios sociais e morais implícitos.
Vejam como ainda mantenho a tendência à exploração das reações subjetivas da época da encarnação, problema que deveria ter superado. Isto me leva a desconfiar de que os demais, homens e mulheres, ainda não tenham resolvido a contento sua condição de espíritos.
Como derradeira informação, preciso dizer que consultei diversos mentores da casa, para saber deles se, em colônias de esferas mais elevadas, se mantêm as formas humanas, ao que me responderam que mesmo na nossa colônia setores existem em que as roupagens carnais quedam esquecidas, assumindo tais companheiros seu perispírito sem transformações como veste com que se apresentam uns aos outros. Disseram-me ainda que esses mesmos companheiros, quando se mostram aos menos evoluídos, assumem características mais compreensíveis para as mentes daqueles a quem querem aparecer, uma vez que, se mantivessem a forma espiritual, sequer seriam vistos.
Presumo que meu texto, apesar da nota nove, não mereça ser destacado na obra a ser apresentada aos mortais. Pelo menos, que se deixe registrado que o problema que levantei é extremamente complexo para quem não se habituou a pensar em termos de energia, vibração, campo espiritual, mundo fluídico, magnetismo e outras formulações da humana inteligência para a definição do estado do espírito da erraticidade.
Se as pessoas conseguirem méritos para receber alvará para freqüentarem círculos mais adiantados, irão superar aquele momento de profunda crise que me açambarcou a existência por tanto tempo. Sendo assim, a minha recomendação não poderia ser outra: ainda que sua tendência seja homossexual, ajam o mais naturalmente possível, sublimando até seu desejo carnal ou amando as pessoas, oferecendo-lhes condições de efetuar progressos, segundo a moralidade superior contida nos ensinamentos de Jesus e nos cânones da doutrina espírita.
Básico, se me permitirem utilizar de minha experiência pessoal, é a honestidade de afirmar que existe um desvio de personalidade a ser vencido.
Muito obrigado.



25. EXCURSÃO

Antes que tivessem tempo para discutir as colocações das companheiras, os membros do grupo de Plácida foram chamados para presenciar o retorno de um espírito que vinha precedido de muita consideração, havendo informes confiáveis de que teria recepção festiva.
Chegaram à câmara em que jazia o moribundo, homem idoso, cercado pelas lágrimas da esposa, filhos, netos, genros, noras, irmãos, sobrinhos e mais pessoas de terceiro e quarto graus de parentesco. Havia muitos amigos e confrades espíritas.
Tendo a notícia da proximidade da morte extravasado para a imprensa, muita gente acorreu para diante do hospital, orando em correntes de muito respeito.
Tais fatos foram relatados ao grupo, já que os que aguardavam pelo desenlace na espiritualidade tinham a certeza de que o tempo de vida estava quase esgotado.
Aparelhados para auscultar os derradeiros sentimentos, todos os presentes puderam acompanhar a rápida rememoração dos episódios de toda a vida, podendo observar que os fatos mais insólitos e comprometedores, os que poderiam onerar a memória do velho homem, logo se substituíam por proezas de superior moralidade no campo da assistência abnegada aos necessitados.
No plano espiritual, em torno do leito, apertavam-se inumeráveis espíritos, como uma bolha de proteção carinhosa, preparados todos para abraçar o recém-chegado.
Pelos reflexos que partiam de muitos desses seres, puderam os estudantes compreender que havia muitíssimos irmãos de esferas mais elevadas, todos compenetrados para acolher o amigo, agasalhando-o de imediato, dando-lhe a consciência de que cumprira integralmente e com galhardia todos os objetivos com que se encarnara.
Assim que o homem despertou para a realidade espiritual, reconheceu os pais, os avós, os irmãos e todos os outros parceiros de existência, sorrindo e agradecendo a presença de cada um.
Havia também muitos espíritos mais humildes, visivelmente alegres por terem sido admitidos no rol dos que vieram prestar homenagem ao que morrera, a maioria esforçando-se para demonstrar que havia valido a pena o relacionamento afetivo que mantiveram com tão esplêndida criatura.
Também os membros do grupo tiveram o privilégio de ser apresentados ao benemérito senhor, que os cumprimentou um a um e os incentivou a prosseguir trabalhando na seara do conhecimento mediúnico, para efeito da futura psicografia.
Deixando a multidão fremente de satisfação por havê-lo contatado, afastou-se o grupo dos espíritos superiores, levando consigo o ser que não mais inspirava cuidados, já perfeitamente consciente do momento e do lugar. Antes de partir, recomendou ele a dois dos eleitos que ficassem entre os mortais, dando-lhes todo o conforto moral intuitivo de que fossem capazes.
Nesse momento, Plácida chamou os discípulos e mostrou-lhes o relógio que assinalara o tempo que haviam ficado reunidos ali:
— Contando os minutos e os segundos pelo dispêndio energético correspondente ao dos encarnados, já que estes meus dizeres se acrescerão aos que iremos passar para o texto, quero que vocês constatem que não decorreram mais do que quinze minutos. Fique o registro.
Olívia observou:
— No entanto, o resultado das impressões tão indelével foi que manterei recordação completa de todos os brevíssimos acontecimentos.
Pedro explicou:
— Foi o que ocorreu comigo. Penso que nossa mentalidade mais tacanha tenha o poder de esgarçar os sentimentos e os pensamentos concentrados em tão poucos minutos, como nos casos em que somos vítimas de sobressaltos, de acidentes, de surpresas desagradáveis. Aliás, mesmo fatos que nos causam muito contentamento têm o condão de se fixar na memória, para posterior análise e reflexão crítica.
A isto, Plauto acrescentou:
— É exatamente o que está sucedendo conosco, que estamos tentando entender o mecanismo da passagem para o etéreo de uma criatura brilhante. Se soubermos aproveitar os eflúvios que fomos capazes de absorver de tanta felicidade e ventura, teremos valioso ensinamento sobre que ponderar.
Jônatas, que prestara atenção em todos os depoimentos, concluiu:
— Pois eu estou pensando que todos estes maravilhosos instantes a serem perpetuados são devidos à misericórdia de Deus, que nos está facultando abrir a inteligência e imergir em emoções de tamanha pureza para podermos avançar espiritualmente. Louvemos o Senhor, portanto, com uma prece comovida e verdadeira.
Todos deram-se as mãos e Reinaldo, sensibilizado com os desenvolvimentos decorrentes da mais sensata e honesta observação do momento glorioso que presenciaram, puxou o grupo, recitando um pai-nosso, derramando pranto agradecido e terno.





26. DERRADEIROS COMENTÁRIOS

Em reunião geral, decidiu-se que o texto estava aprovado, sem muitos dos testemunhos. Consultado, Maciel autorizou que Olavo finalizasse os trabalhos, elogiando a turma e agradecendo o verdadeiro espírito de companheirismo que se incrustara na redação.
Após as explicações do mentor da turma, reuniram-se as diferentes equipes para decidir sobre quem deveria efetuar o trabalho de transmissão mediúnica, o que terminou apontando para uma solução inesperada: estando todas querendo realizar o trabalho, por recomendação dos instrutores, a classe se encarregaria do ditado, distribuindo-se funções e tarefas, segundo a capacidade e o nível de adiantamento dos elementos.
Enquanto se dava acabamento ao texto e se treinava para o coroamento do serviço curricular, o grupo de redação desejou comentar o trabalho como um todo, já que se precisava avaliar as possibilidades de boa recepção por parte dos encarnados.
Foi Reinaldo quem trouxe a primeira questão:
— Qual vai ser o título da obra?
Todos tinham sugestões mas nenhum considerava a sua como de boa qualidade. Olívia foi a primeira a se manifestar:
— Considero que seja importante o rótulo, mas não essencial. Se a obra vier a cair no gosto dos humanos, tanto faz que se chame Ilíada, Eneida ou Os Lusíadas. Mas, acatando as recomendações anteriores, bolei a seguinte epígrafe: Nossos Transes Desencarnatórios. Estou aberta às críticas, pois eu mesma não gostei.
Pedro foi quem, de pronto, observou:
— O termo desencarnatório não se registra entre os humanos. É bom não incentivarmos um espírito de desaprovação inicial. Sugiro, então, que se dê o título de Exemplos de Retornos ao Campo Espiritual, com o qual não fiquei satisfeito.
Plauto adiantou-se:
— Vejo que vamos ter dificuldades para achar algo bem conveniente. Que tal se, simplesmente, depositarmos umas flores em nossos próprios túmulos: As flores murcham no cemitério?
Jônatas não concordou:
— Tenho para mim que um texto curto seja preferível. Algo como: Morte e Superação. Ou: A Passagem. Ou: Virtude e Progresso.
Reinaldo reassumiu a palavra:
— Acho que vou ter de enfrentar o problema sozinho. Acredito que ninguém se oporá a este enunciado: Problemas Decorrentes da Morte.
Pedro se opôs vigorosamente:
— A menos que você esteja brincando, esse seu título não nos diz respeito. Em todo o caso, vamos consultar Plácida, sabendo, embora, que ela irá devolver a responsabilidade ao grupo.
De fato, Plácida estava analisando a conduta dos alunos e gostou de ter sido chamada a depor:
— Meus caros, vejo que vocês estão antecipando a saudade que presumem vão sentir com a dissolução do grupo. Por isso, ficam a discutir sem objetividade, apenas para estender o nosso convívio por mais alguns momentos. Eis uma felicidade que se prenuncia imorredoura, dado que os laços de agora jamais se desfarão. Ao contrário, tenderão a se estreitar, definindo ligações que se fortalecerão com o passar do tempo e com as novas atribuições que o grupo irá receber. Se o título eleger este aspecto, acho que cumprirá integralmente sua função.
Olívia pegou o pião na unha:
— Eternas Amizades parece-me um rótulo bem cunhado.
Aí houve uma enxurrada de sugestões:
— Laços Eternos seria o ideal, não existisse uma obra com tal denominação.
— Desventura e Sucesso após a Morte. Esqueçam.
— Emergindo para a Luz. Perdão, a luz ainda está muito longe de nós.
— Renascendo no Etéreo. Gostei deste.
— Emergindo da Morte. Parece que estamos próximos.
— Viagem ao fundo da Consciência. Muito fraco.
— Viagens no Além-túmulo. Este precisa melhorar um pouco.
— Despertar no Além-túmulo.
— O Despertar no Além-túmulo.
— Nosso Despertar no Além-túmulo.
— Nosso Despertar na Espiritualidade.
Olharam-se todos, percebendo que era unânime a aprovação.
Olívia resumiu os pensamentos:
— Pois que seja este último. Está decidido.
Voltou Reinaldo a direcionar a discussão:
— Que lhes parece relatarmos um caso verídico de reentrada no etéreo de um ser dos mais abjetos, de um desses criminosos tremendos, de um suicida moral, de alguém que haja praticado o mal a vida inteira, sem contemplação para com a inocência das crianças, para com a pureza das mulheres, para com a virtude dos bons e generosos?
Antes que alguém tentasse responder, Plácida se antecipou:
— Não acho que seja uma boa idéia. Em primeiro lugar, era preciso que vocês imergissem em ambiente vibratório dos mais pesados, para os quais não estão prontos. Quando um ser de tal perversidade reaparece na erraticidade, chega carregado de muitos preconceitos, como se a existência se constituísse apenas de maldade, porque recebe o impacto das agressivas vibrações dos inimigos. Forma-se campo energético tão ruim que não compensa nenhuma tentativa de subtrair o recém-chegado das mãos dos que desejam vingar-se dele. Em segundo lugar, que efeito poderá provocar nos leitores descrição nua e crua do sofrimento mais dramático, dos estertores de maldição contra os semelhantes, das acusações e impropérios inconvenientes até para simples reprodução? Se houvesse a possibilidade de a obra ser lida nos cárceres, onde os criminosos se concentram e onde, pressupõe-se, devem refletir sobre suas más ações, ainda haveria o ônus da pouca credibilidade dos autores, passando o relato por fruto da imaginação exaltada do médium. Retratos muito realistas também não servem para as almas mais cordatas e de poucos débitos. Quanto muito, vocês devem contentar-se com a minha advertência.
Reinaldo sentiu que o grupo se aliviava por não ser enviado a região de calamidade espiritual e mudou de questão:
— Proponho que bolemos curto texto introdutório.
Jônatas levantou a mão:
— Era no que vinha pensando. Tenho uma boa idéia. Que tal se desenvolvêssemos a observação de Plácida quanto a estarmos afobando-nos inutilmente pela preocupação de deixarmos estas lides estudantis que nos estão absorvendo tão integralmente?
Pedro interveio:
— Aquela história de que a saudade é sentimento humano, deixando de existir nas camadas mais elevadas?
Jônatas assentiu com a cabeça.
Como os demais apoiassem a iniciativa, Reinaldo inferiu:
— Está aprovada a moção de Jônatas. Tenho mais dois temas recorrentes. O primeiro é quanto às nossas últimas palavras. O segundo, à vista de nosso texto estar ainda muito curto, refere-se à possibilidade de reproduzirmos mais alguns textos, colocando-os como apêndice.
Plauto foi logo comentando as propostas:
— Como a obra está aprovada, para a adenda precisaremos da avaliação de Olavo. Caso ele concorde, não há o que opor. Para encerrar o texto, nada melhor do que um agradecimento simples e geral, um aviso quanto à necessidade de sempre se estar atento à melhor maneira de proceder em cada circunstância e uma curta prece de reconhecimento da benevolência do Senhor, que proporciona esta oportunidade de ouro para tão modesta turma.
Olívia não resistiu:
— Repitam comigo: Graças a Deus!
Todos sentiram que a expressão se carregava da mais sincera emotividade e repetiram, em uníssono:
— Graças a Deus!












ADENDA


1. BRUNO

Antecipei minha chegada ao etéreo de uns dois anos, mais ou menos, que tais cálculos são difíceis de realizar. Sofria muitas dores no corpo todo e achei que iria aliviar-me, caso ingerisse dose excessiva de barbitúricos. Estava com oitenta e quatro anos.
A rememoração foi muito longa e cansativa. Tenho ouvido os relatos dos colegas e nenhum me trouxe a informação de haverem perpassado tanto tempo relembrando os fatos da vida. Não que isso me provocasse mais sofrimento, mas, durante todo o fenômeno mnemônico, sentia-me como se estivesse no meu leito de dor.
Ao despertar no campo imaterial, logo atinei que estivera afastado da realidade por cerca de dois anos, já que me foi dado observar as datas nas lápides do cemitério, a começar pela minha.
No início, temia que iria ser tragado pelas trevas, porque trouxe a consciência do suicídio. Sentei-me idealmente sobre a pedra da minha campa e passei a observar tudo quanto sucedia ao derredor.
Assisti a inúmeros sepultamentos que não me afetaram emocionalmente. Via chegar cadáveres de todas as idades, acompanhados de muito pranto ou de muita angústia. Pensava que iria presenciar a chegada de pessoas raivosas ou de inimigos disfarçados, porém, a minha expectativa sempre se frustou, provocando-me cada vez maior alvoroço o fato de verificar que os mortos eram sinceramente pranteados.
No início, estranhei que os espíritos dos que eram enterrados não estavam presentes. Também não era capaz de distinguir nenhum ser da espiritualidade. Para mim, todos os que via pertenciam ao mundo dos vivos.
Aos poucos, contudo, minha atenção foi sendo chamada para o fato de que se formavam muitas rodinhas de pessoas em torno dos que davam maiores demonstrações de sofrimento.
Algumas dessas entidades eram benevolentes e só diziam palavras de conforto, insuflando a idéia de que Deus é pai de misericórdia. As que incitavam ao desespero é que me revelaram que não poderiam ser senão do meu próprio plano, porque não era coerente que pessoas vivas estivessem a perturbar os que sofriam até dentro do campo santo.
Eu sabia bem que estava morto e que havia abreviado os dias. Naquela altura dos acontecimentos, achava-me com certa disposição de permanecer naquele local, já que as dores dos últimos anos haviam cessado de todo. No entanto, comecei a sentir forte tédio, assenhoreando-me da situação em que me encontrava, ou seja, de não ter caído em desgraça nem de ter sido agasalhado pelos parentes e amigos.
Tinha receio, isto sim, de sair em busca de regiões menos infelizes. Todavia, tal sentimento acabou por desfazer-se quando, finalmente, recebi a visita de um ser que fui capaz de reconhecer como sendo um parente distante, bem mais velho, que havia perecido há décadas. Ele me fez ver que cabia a mim decidir a enfrentar a sorte terrível que poderia me obrigar a restar ali por muito mais tempo.
— Que devo fazer? — perguntei-lhe.
— Você deve refletir a respeito da...
O restante da frase ficou no ar, porque eu não fui capaz de ouvir mais nada. E o meu parente desapareceu, deixando-me meio atônito com a idéia de que era eu o responsável pelo próprio destino.
A partir daquele dia, passava o tempo a refletir a respeito de tudo que me vinha à lembrança. Percorri de novo todos os eventos da vida, não me detendo especialmente em nenhum. Queria que, de repente, algum deles me surgisse com a solução do problema.
Por essa época, nada do que acontecia naquele cemitério me chamava a atenção. O isolamento é que me atemorizava cada vez mais. Quando me cansei de repetir a história da vida, saí a ler as inscrições novas, tendo verificado que se haviam passado mais de cindo anos de meu falecimento.
Decidi que estava na hora de voltar ao convívio dos seres que partiram antes de mim e, pela primeira vez, roguei ao Criador, reconhecendo a existência dele, que me desse a diretriz da reflexão mais correta para alcançar aquele objetivo.
Fui encaminhado naturalmente para o seio da minha comunidade familiar, que me recebeu muito bem, melhor do que poderia esperar, cada qual tendo vibrações específicas em relação a mim, porque eu mesmo, sendo muito crítico e ranzinza, atormentei a muitos. Mas esta é uma história da vida, o que não cabe numa dissertação a respeito da passagem de um plano a outro.
Prevenindo algumas restrições dos leitores espíritas quanto ao fato de um suicida não ter sofrido as agruras infernais de angustiante arrependimento ou remorso contundente, devo alertar para o fato de que, nas minhas condições, não haveria por que não existirem atenuantes significativas.


2. ATANÁSIO

Com medo de repetir os mesmos assuntos, busquei refletir um pouco mais sobre o que me deixou preso nas trevas durante uma vintena.
A vida decorreu-me com altos e baixos, tendo chegado a comer o pão que o diabo amassou. Isso me deu um sentido errôneo da realidade, passando a crer que, por muita gente possuir bastante, eu também deveria conseguir padrão de vida que me permitisse usufruir muitos bens materiais.
A duras penas e com sacrifícios pessoais, infiltrei-me no campo da política partidária da cidade, alcançando, após diversas tentativas fracassadas, através de conluios e de promessas, eleger-me vereador. Foi quando me vi, de repente, navegando pelas águas da corrupção. Mergulhei fundo em busca das pérolas legais que nos davam na câmara regalias de toda natureza.
Jamais me arrependi de malversar o erário público, ajudando o prefeito a administrar a seu bel-prazer e poder discricionário. Era pela época da ditadura militar, de sorte que, sabendo o meu grupo operar em consonância com o arbítrio do Estado e da Federação, pudemos manter o povo calado e temeroso das represálias, que não hesitávamos em aplicar.
Pode parecer que o pagamento que efetuei através dos sofrimentos morais não tenha correspondido aos crimes. Pois quem pensar dessa maneira estará completamente correto. O que me sucedeu de bom foi adquirir a consciência dos erros e a compreensão do quanto perdi em oportunidade de aprendizado e de elevação espiritual.
Neste exato instante em que redijo, vem-me à mente a impressão de que permaneço entalado no mar de lama em que se transformaram aquelas deleitosas águas. Ocorre que não me sai do pensamento a idéia de que terei de ressarcir a população terrena de tudo que lhe surrupiei, ainda que não me passe despercebido o fato de que todos os que conviveram comigo tinham de experimentar os solavancos da carreira, já que ninguém está isento de sofrer provações ou de desenvolver virtudes.
Penso que nenhum dos colegas iria trazer este tipo de personalidade pública, ou seja, de alguém que iludiu a muitos, angariando-lhes os votos, quando mais não fosse, ao menos por meio de algum presente para, momentaneamente, fazê-los crer em que ganhariam muito mais.
Acho que disse tudo. Estender-me seria penetrar na psicologia do povo humilde que não tem exata noção de seu poder silencioso. Por outro lado, agora que o período das forças armadas está extinto, noto que a população vem sendo instruída para a rebeldia, quando não é arrebanhada tão-somente como massa de manobras ideológicas de grupos que almejam conquistar o poder.
Faço referência a fatos que não vivi mas que consigo observar, não para estimular este ou aquele ponto de vista, mas para revelar que estou preparando-me para reencarnar em realidade modificada com relação à de poucos anos atrás.
Deveria mencionar a forma insólita de deixar a vida, uma vez que fui assassinado a mando de desafeto político, mas isto não me parece essencial, uma vez que aceitava as regras do jogo, tendo perdoado o malfeitor que puxou o gatilho, demorando um pouco mais para admitir que o mandante era vítima da mesma sociedade alienante em que vivi.
Falta referir-me aos elementos que constituíram a minha família terrena, tanto os que me antecederam no etéreo, quanto os que permanecem lá. Pois muito bem, esse é outro problema sério que terei de resolver, porque tanto me concentrei na vida pública e na notabilidade que desejava alcançar, que a mulher e os filhos ficaram em absoluto segundo plano. Não é à toa que jamais registrei na coluna dos débitos morais o dinheiro que gastava com as meretrizes.
Devo. Não nego. Pretendo pagar o quanto antes. Entretanto, que de infortúnios deverei passar!
Muitos colegas preocuparam-se com a repercussão das redações, especialmente no sentido de causarem certo tipo de confiança cega em que a misericórdia divina sempre alcança as criaturas, por mais ínfimas sejam. Isto ocorre porque, no momento em que escrevemos, ultrapassamos a fase mais dolorosa das reflexões inexoráveis. Se me coubesse advertir, iria dizer a todos: não queiram desafiar a sorte, provocando a sacratíssima ira da consciência.



3. CLAUDINEI

Não me dei ao trabalho de relatar tintim por tintim tudo quanto passei logo depois que faleci. Resumi as sensações, concentrando-me em duas principais: a decepção de não haver previsto a continuidade da existência e o arrependimento por não haver praticado o bem sempre que tive oportunidade.
Esse estado de coisas perdurou por uma centena de anos, até o dia em que invejei a sorte de entidades que fui capaz de imaginar mais felizes do que eu.
O pior para mim foi haver notado que os avanços da humanidade se refletiam nos lares mais comuns. Eu permanecera lúcido para os fatos da vida, muito embora restrito ao círculo da cidadezinha em que vivi e morri. Mas tudo o que representava despesa logo me apressava a imaginar-me sem ânimo para possuir.
Havia enterrado um punhado de moedas no fundo do quintal, moedas valiosíssimas que representavam todas as minhas economias e esse tesouro material foi o sinal de minha insignificância.
Hoje eu sei que a vida deve constituir uma fonte para mitigar a sede dos pobres infelizes, dos carentes de virtudes, dos que necessitam compreender as palavras de Jesus ou dos avatares que foram ao orbe para exaltar o procedimento em favor dos semelhantes.
É preciso que eu torne claro que todo aquele tempo preso a uma ilusão não se constituiu, exatamente, num castigo. Eu é que não me propunha a deixar o local, tendo passado por inúmeras fases em que os argumentos para permanecer ali se modificaram, sempre no sentido de me pôr alerta quanto a virem a se aproveitar do fruto do meu trabalho.
Por mais de quarenta e cinco anos, eu havia cosido roupas masculinas e femininas, excelente no corte e na costura de costumes em geral. Mas o fato de me debruçar sobre os tecidos me levou ao péssimo hábito de enxergar, no trabalho, uma fonte de riqueza. Se houvesse caprichado nas confecções com o intuito de servir às pessoas, com certeza outra teria sido a minha sorte.
Meus pais, coitados, tiveram seus problemas e não puderam socorrer-me. Irmãos, esposa, filhos e demais linhagem familiar não tive. Quando alguém se aproximava de mim durante o cativeiro no etéreo, eu travava longas conversações, buscando fazer considerações pertinentes aos bens domésticos que se acrescentavam aos de antigamente, honrando o visitante com palavras entusiasmadas, elogiando-lhes os trajes, demonstrando falsa felicidade, tudo para não revelar o meu segredo. Era o que me amargava as horas de solidão, uma vez que, cada vez mais, ia sentindo crescer a frustração por não realizar nada do que via suceder nos lares em que os pais cuidavam amorosamente dos filhos.
Tento realizar um texto equilibrado e harmonioso, contudo, pelas vibrações inferiores que me perpassam pelo ser ao mencionar o quanto foi inútil minha existência corpórea, fica-me a impressão de que o que venho produzindo apenas condiga com a ignorância fundamental de minha personalidade.
Para finalizar, devo referir o fato de que fui o único da turma que mereci ser auxiliado nesta composição mal alinhavada e mal cerzida.
Deus teve piedade de mim e me favoreceu a matrícula nesta classe, onde pude aprender muito da doutrina espírita. Ai de mim, que terei de volver ao plano terreno para desenterrar aquelas moedas e distribuí-las, sem nenhuma dor no coração.



4. DANIEL

Estipulei alguns parágrafos como medida, contudo, fiquei perplexo com o resultado: havia escrito mais de dez páginas, porque um assunto puxou outro e, quando percebi, estava reproduzindo toda a teoria espírita que venho aprendendo nestas aulas. Foi só quando começaram as leituras é que atinei que deveria contentar-me com umas poucas e substanciais informações a respeito do meu drama pessoal.
Sendo assim, cortei e rebusquei o escrito, acabando por delinear uma linha temática única, sem caracterizar, em absoluto, toda a extensão dos dramas que vivi no etéreo.
Refiro-me ao fato para que os leitores não estranhem a timidez com que enfrento a crítica, temendo, é claro, a reação apaixonada dos que virem em mim um inimigo em potencial, já que poderei estimular rebeldia e cisão no seio das comunidades espíritas. É evidente que a hipótese carece de apoio na realidade, uma vez que (acredito piamente) nenhuma repercussão haverá de ter esta obra.
Concentrei no parágrafo acima o meu pior defeito, qual seja, o do pessimismo, que se arraigou em meu espírito por causa dos constantes fracassos durante toda a vida.
Em resumo, devo dizer que pretendia enriquecer mas permaneci pobre e endividado. Desejei contrair matrimônio com uma pessoa agradável e lúcida, acabei na companhia de alguém que sequer terminou o curso primário e ainda me abandonou, afirmando que a importunava. Queria que os filhos crescessem admirando-me, porém, o mais que fiz por eles durante a juventude foi retirá-los das mãos da polícia. Trabalhei na construção civil, mas caí do andaime, ficando aleijado e dependente da magra pensão da previdência.
Como é que tantos sofrimentos não se transformaram em lucro espiritual? Simplesmente porque jamais me conformei com a sorte, acusando Deus e o diabo por me terem feito de peteca em suas mãos. Tal sentimento veio comigo para cá, o que me obrigou a permanecer nas trevas por muitos e muitos anos.
De repente, triste e verdadeiramente amarfanhado moralmente, levantei os olhos para o alto e supliquei que algum ser superior se condoesse da situação, imerso que estava na impressão de que não havia ferido conscientemente a nenhuma pessoa, reservando-me a enviar-lhes vibrações maldosas do fundo da mente e do coração.
Apareceu-me um dos socorristas da colônia que me avisou que iria matricular-me, sob sua responsabilidade, neste curso, insistindo comigo para que não o decepcionasse. Por outro lado, esclareceu-me quanto ao fato de que precisava esforçar-me neste processo de regeneração, estudando e trabalhando, conforme a orientação que me seria dada.
Eis como me compenetrei de que poderia melhorar o procedimento, o que se refletiu neste texto, cujo método de confecção se fundamentou em escrever e reescrever, cortando e acrescentando, modificando e aperfeiçoando, através de intensa e incansável consulta aos recursos que estão à disposição dos alunos neste educandário.
A minha contribuição, portanto, é muito simples: baseia-se na reflexão, sem se deixar influenciar por sentimento de culpa, partindo do princípio de que falhar é próprio dos seres imperfeitos. Espero alcançar uma vitória espetacular na próxima encarnação. Não que não vá defrontar-me com situações tão ou mais terríveis que as da derradeira peregrinação terrena, mas por haver adquirido o vezo de considerar todas as provações e expiações com um olhar menos pessimista e desagradável.
Sei que estou prometendo algo difícil de cumprir, principalmente porque não terei consciência deste aprendizado. Entretanto, para efeito de conseguir vida mais efetiva no campo da aplicação dos conceitos superiores do cristianismo, vou solicitar nascer em lar bafejado pelo espírito de compreensão das diretrizes espíritas.
Deus seja louvado!



5. ALÍPIO

Não estaria eu aqui agora, não fosse desonesto em minha profissão. Dentista, arranquei muito dente saudável e vendi muita prótese completa, dentaduras de baixo e de cima, completamente desnecessárias. Inventei muita piorréia e usei adoidado o boticão.
Era de crer que deveria cuidar da saúde pública com desvelo. Cuidei de meus interesses em primeiro lugar.
Gostaria de não revelar, mas meu consultório também testemunhou alguns despautérios de caráter sexual, sempre, neste caso, com anuência das pacientes. Em todo o caso, sendo casado, a falta não foi das menores.
Tenho ouvido os relatos dos parceiros e quase todos contam que imergiram em culpas de consciência, sem serem molestados por espíritos raivosos. Comigo não foi bem assim. Durante muito tempo, fui assombrado por entidades de gengivas à mostra, apontando para si mesmas, como se estivessem demonstrando o quanto eu as enganara e fizera sofrer.
No entanto, em vida, só tive dois casos de pessoas que me acusaram de havê-las enganado, aproveitando-me de sua ingenuidade. Muitas pessoas voltavam ao consultório para ajustes e trocas, satisfeitas com o fato de não estarem mais sentindo dor.
Aquelas assombrações banguelas devem muito à minha imaginação exacerbada pela compreensão de não ter procedido bem.
Levei bastante tempo para admitir estar errado. Isto é que me prendeu entre os fantasmas por mais tempo. Desculpava-me com o fato de os colegas agirem da mesma forma. Apontava para os dentistas encarnados, afirmando que eles é que agiam de má-fé, aconselhando aparelhos caríssimos, implantes e transplantes, estudos de cada caso em clínicas especializadas, quando simples extrações resolveriam a maior parte dos defeitos.
Como, porém, um erro não justifica outro, fiquei perorando em vão, até descobrir que esse não era, em absoluto, o caminho da redenção. Hoje perfilho a teoria contrária, ansiando por volver ao orbe, com o fito de realizar trabalho equivalente ou até maior de ajuda às pessoas. O que me mete medo é cair nas mãos de dentista inescrupuloso que aja comigo como fiz com a minha clientela.
Antes de encerrar, preciso dizer que as primeiras versões deste depoimento continham extraordinário acervo de complexa terminologia técnica, disfarce sutil para demonstrar que meu intelecto não podia medir-se pelo comum dos mortais. Eis como se refletia a minha esperteza terrena aqui na espiritualidade. Por isso, aconselho que deixem toda malícia de lado, se não quiserem ser expurgados, por bom tempo, do convívio das pessoas de bem.
Preciso dizer que fui repudiado pela esposa e pelos filhos? Se não fossem meus pais a me receberem com muito carinho, cairia em abismo de lamentação, porque cheguei a compreender o valor da afetividade e a necessidade do amor, do companheirismo, da amizade. Quanto a isto, penso que levo alguma vantagem em relação a alguns colegas, já que, apesar de sofrer o revés da autopunição, ainda me equilibro na esperança de vir a ser perdoado, já que sei que fui benquisto por aquelas criaturas.
Rogo ao Pai para que minha dissertação encontre corações generosos que vibrem em favor de minha recuperação total.
Muito obrigado, irmãozinhos!



6. HENRIQUE

“Sei perfeitamente que o meu texto não alcançará o favor da publicação, entretanto, mesmo assim, vou empenhar-me ao máximo para realizar algo de valor.”
Feita a ressalva acima, traduzi os sentimentos mais ternos a respeito da existência, consagrando-me ao Salvador, fundamentando toda a peroração nos conhecimentos que obtive em vida na fé católica.
Não cheguei aos votos, mas freqüentei o seminário e absorvi toda a liturgia da missa e dos demais ministérios, como sendo a mais pura e elevada verdade deixada aos homens pelo próprio Jesus.
Por outro lado, sempre achei que meus dotes intelectuais eram superiores, transformando todos os atos da vida em dádivas aos mortais necessitados de afeto ou do mínimo de consideração de uma palavra de amparo no campo psicológico. Cheguei mesmo a considerar-me um herói, desconfiando de que havia tirado do caminho do inferno pelo menos umas duzentas mil pessoas.
Fui locutor de rádio, desses que apresentam convidados importantes, pessoas que falam a respeito das virtudes e dos procedimentos coerentes com os ensinos superiores dos pais da Igreja e dos santos. Sabia possuir muitos ouvintes, principalmente mulheres, que se embeveciam com o calor de minha voz, sempre bem modulada e impostada para o efeito do tête-à-tête que a intimidade da solidão propicia às ondas hertzianas.
Foi uma longa carreira nas rádios, sempre apoiado pelo clero, que fechava os olhos para certos desmandos meus no campo dos deveres cristãos em geral, como a humildade, a modéstia, a contenção perante as bebidas etc.
Quando batia a necessidade psíquica de equilíbrio entre pensamento e ação, porque me punha a meditar a respeito de não estar correto viver na opulência, oferecendo à família conforto muito longe da média da população, aí corria para o confessionário mais próximo, expondo até com sinceridade o drama da consciência. Recebia a penitência, jamais muito forte, e deixava para Deus o perdão dos problemas que me haviam assaltado.
Nunca, porém, me estimulei pelo ímpeto do desembaraço das posses, acumulando sempre mais. No máximo, proporcionava aos conhecidos algumas reuniões festivas, onde esbanjava um pouco do muito que me sobejava. Como meus filhos receberam nomes de santos, cinco vezes ao ano oferecia missas em ação de graças, doando espórtulas bem significativas aos sacerdotes e suas paróquias. Era o que realizava de mais caridoso, sempre depois de comungar na companhia dos convidados religiosos.
Obrigado a refazer a primitiva mensagem, tendo em vista que destoava bastante das que aqui se apresentaram, estou resumindo os queixumes numa única expressão que mantenho: “Pai, por que não me deu o senhor ouvidos de ouvir, já que jamais aceitei outra pregação que não fosse a dos padres?”
A minha passagem para cá foi conturbada pela incompreensão do quanto havia merecido rastejar nas trevas. Imaginei-me no purgatório e deixei-me estar quieto, no aguardo dos anjos que me iriam buscar para carregar-me ao reino de Deus. Com o passar do tempo, fui analisando o porquê de estar ali, acabando por atinar com as razões íntimas que acima expus de forma acabada.
Preciso ressaltar que, a todo momento, orava, colocando na voz a ternura dos melhores dias diante do microfone. O interessante é que a voz reverberava e o som, como magnífico eco, voltava-me aos ouvidos na justa entonação que lhe ministrara. Somente quando comecei a notar certas vibrações de desassossego, caracterizando-as como de rebeldia, no sentido de considerar-me injustiçado, é que percebi que deveras merecia estar no exílio.
Aquele período desagradável pareceu-me uma eternidade, tendo vivido intensamente todos os segundos do despautério moral. Quando despertei para a necessidade de revigorar-me dentro das virtudes que tão bem difundira é que obtive a concessão de ser recebido por muitas pessoas amigas e familiares, festejando-me a compreensão do quanto me havia enganado quanto à aplicação dos ditames mais profundos dos ensinos de Jesus.
Hoje me sinto mais confortável, conquanto esteja ciente de que preciso resgatar as oportunidades perdidas, uma vez que sou capaz de reconhecer que me foram oferecidos recursos preciosos para alcançar a salvação de minha alma, recursos que malbaratei, concentrando-os egoisticamente em minha própria pessoa.
Talvez peça para enfrentar provações no campo material, não porque seja o método mais saudável de aprender a controlar minhas ânsias, mas porque tenho muito medo de voltar rico e cair na mesma esparrela. Mas estas são especulações que realizo pro forma, já que preciso incitar a reflexão dos leitores que se identificarem comigo.
Que a paz do Senhor esteja com todos nós!



7. TEMÍSTOCLES

Influenciado pelo nome como nenhum outro desta turma, desejei desde a infância tornar-me “alguém na vida”, projetando-me no seio da sociedade como pessoa culta e influente. Por isso, na hora da morte, já começou meu sofrimento, pois a rememoração dos fatos apontava para inúmeros fracassos.
Meu pai, em tempos em que bem pouca gente estudava, leu a respeito da civilização helênica e se entusiasmou tanto que os oito filhos receberam nomes respeitabilíssimos: Sócrates, Heródoto, Homero, dentre outros. E sempre que passávamos a entender as palavras, vinha contando as histórias e os feitos das ilustres personagens.
Foi assim que enveredei pela carreira militar, aspirando ao marechalato ou, no mínimo, o generalato. Acabei reformado como terceiro sargento, sem nunca haver participado de qualquer liça em que pudesse demonstrar qualidades de estratégico ou de tático.
Na escola, fiquei também nos primeiros estudos, não me sendo possível, portanto, matricular-me nos cursos de formação de oficiais.
Mas fui muito bom para com meus subordinados, jamais desforrando nos recrutas e nos subalternos as decepções e frustrações. Na ordem unida, mantinha a tropa disciplinada, sempre elevando o moral com palavras de incentivo e com elogios ponderados e merecidos.
Formei família menos numerosa que a de meu pai, preferindo nomes mais próximos da realidade: Luís, José, Antônio e Maria Amélia, meus queridos filhos. Com estes, fui mais rigoroso e exigente, mas nada que os levasse a rejeitar-me, a não ser na justa medida da revolta adolescente, tanto que morri cercado por seu amor e sentimento de perda.
Faz pouco tempo que desencarnei, não mais do que quinze anos, tendo passado algum tempo a acusar meu pai pelo processo de ligeira esquizofrenia.
O interessante é que me encontrei com vários irmãos no etéreo e nenhum sentiu tanto o incômodo peso do pomposo nome. Abraçaram-me carinhosamente, falaram-me dos tempos de companheirismo, informando-me a respeito das missões atuais, e partiram, não sem antes me incentivarem para o estudo sério das matérias que aqui são ensinadas.
Quando insisti junto aos mentores da colônia que me despertassem para, pelo menos, a penúltima encarnação, sugeriram-me que me orientasse quanto aos aspectos filosóficos da existência, antes de imergir em recordações que poderiam afetar-me o equilíbrio sob a rígida formação dos princípios da caserna.
Em suma, aprendi a obedecer e a ordenar, o que me facultou certo rigor de procedimento, que desaguou em personalidade cheia de restrições para as decisões de risco da vontade própria. A figura do autômato que age segundo programação do fabricante cabe-me muitíssimo bem.
Alertado, contudo, pela consciência e pela pacienciosa atenção dos companheiros de grupo, refleti bastante sobre o que de mais importante tinha para expor, tendo produzido este texto, em que demonstro alguma criatividade. Talvez tenha recebido influxo de inspiração do meu homônimo.
Encerro desdizendo a última frase, antes que me veja obrigado a enfrentar cerrado ataque das pessoas que se situarem do outro lado do front, incapazes de admitir que, em meio a tanta seriedade, introduza eu uma brincadeira descabida e de mau gosto, principalmente porque pode induzir que meu próximo passo seja desfazer o sentido da disciplina que me amolgou o caráter.
O parágrafo anterior dedico a todos os amigos que se dispuserem a refletir sobre os benefícios pessoais hauridos a partir dos regimentos das forças armadas, confirmando-lhes, finalmente, que tal ônus foi o que mais me pesou na consciência nos momentos de solidão nas trevas, para o que não devem deixar de lado ligeira pesquisa a respeito de quem foi o Temístocles grego , de quem me aproximei unicamente pelo nome.


8. FÁBIO

Exerci o comércio miúdo dos bazares e vendas, sem grandes ganâncias, mas também sem descuidar de receber em dia todos os fiados. Fui amealhando alguns bens, debaixo de muito trabalho, tendo deixado como herança aos três filhos, três belas propriedades.
Amei minha esposa com devoções de poeta, mas não expressei com delicadeza e meiguice a ternura que sentia. Entretanto, como um carneirinho, segui aquela figura esbelta por toda a parte.
Gostaria de dizer que a minha vida decorreu sob um céu cor-de-rosa, mas seria faltar com a verdade. Houve crises de relacionamento, porque destinava todo o lucro dos negócios à aquisição de bens de raiz, não permitindo sequer que os melhores produtos viessem ter à mesa.
Concedia, sim, quatro vezes por ano, um para cada pessoa da família, o favor de uma festa particular. Para mim não reservava nenhuma data especial.
Acho que já defini meu caráter e o teor dos problemas que tive de enfrentar ao retornar ao etéreo.

Estão trazendo-me de volta a redação que dei por encerrada no parágrafo anterior, afirmando-me que irá ocupar o último lugar na lista das que figurarão no livro. Dizem-me, também, para estender-me um pouco mais quanto às medidas que deverei prescrever para superar os males de minha alma, como aconselhamento oportuno para quantos leitores possam estar identificando-se comigo.
Pois bem, entendi que a observação acima fazia disfarçada referência ao fato de eu permanecer usurário, economizando até nas palavras, não oferecendo de mim nem do meu, além do trabalho que venho realizando no campo do socorrismo fraterno, já que me integrei em grupo que arregimenta sofredores no abismo, trazendo para a colônia os que apresentam interesse em melhorar por auto-aperfeiçoamento.
Este foi o argumento que me bastou: o de haver trabalhado sem descanso nem regalias. Para provar que mantinha o espírito que trouxera do orbe é que me propus a acompanhar trabalhadores especializados, na qualidade de ajudante geral.
Devo dizer que jamais esmoreci, acreditando piamente em que qualquer coisa que dissesse nesta redação não se constituiria nem na centésima parte de exemplo palpável no campo das ações efetivas.
Como derradeira observação, deixo registrado que é ótimo vir à presença dos viventes com obras beneméritas, cheias de promessas de prêmios à virtude. Contudo, não direi jamais que estamos acima das críticas por propiciar aos encarnados motivos para reflexão. Pensando em como era positivo e pragmático, tenho a certeza de que iremos encontrar muito mais gente a desprezar os relatos do que a aprovar o esforço em área em que bem poucos de nós temos desenvoltura.
Se me enviarem vibrações de apreço e simpatia, agradecerei pessoalmente, elevando os pensamentos em preces ao Senhor, rogando-lhe que ampare e fortaleça o ânimo de tais leitores. Caso haja o contrário, ainda mais me esforçarei para levá-los a meditar a respeito da existência como divina bênção e dos deveres mais comezinhos dos seres humanos em relação aos semelhantes, nada, porém, que possa substituir, nem palidamente, os textos evangélicos comentados por Allan Kardec.
Se me permitirem encerrar com um gracejo, devo ordenar-lhes que vão trabalhar em prol do próximo, que esse haverá sempre de ser o caminho da luz.
Deus seja louvado!





9. PÓS-ESCRITO

Encerradas as sessões de psicografia, reuniu-se o grupo de redação para avaliar o resultado do trabalho.
Olívia foi a primeira a manifestar-se:
— Não tenho críticas mas tenho um reparo: vários depoentes se postaram com atitude pessimista em relação à repercussão da obra entre os encarnados. Eu acho que, se não fizermos uma ressalva, agora que tudo está consignado nas mãos do médium, poderemos passar a idéia de que a turma apóia tal conclusão, quando, na verdade, este grupo apenas manteve intacto o texto original de cada manifestante.
Reinaldo foi o seguinte:
— Se conseguirmos redigir e ditar o texto resultante da observação, tudo ficará esclarecido. Para tanto, estou anotando o principal, mas temo que, se transmitirmos tão-só a observação, não valerá a pena a preocupação da equipe. Precisamos de algo mais substancioso.
Pedro avocou a si a responsabilidade da sugestão:
— Estou de pleno acordo, para o que recomendo que comentemos o teor do texto como um todo e qual deverá ser a atitude do leitor diante dele. Explicando melhor a idéia, vou começar uma lista de pessoas capazes de tirar bom proveito da leitura. Penso que o médium tenha sido o primeiro, uma vez que gostou do trabalho, considerando-o próprio para divulgação entre principiantes nos estudos da doutrina espírita. Quem poderia apontar outros leitores que vão ficar satisfeitos?
Plauto foi autorizado a falar:
— Gostaria de caracterizar os leitores em duas categorias: os que vão meditar a respeito dos temas e os que, simplesmente, irão menosprezar a obra. Os primeiros, posso chamar de bons leitores.; os últimos, maus. Aponto, desde logo, como bons leitores, todos os que se dispuserem a mudar de procedimento, uma vez que percebam que não estão agindo em consonância com os ditames das leis de Deus. Se o fizerem a partir das preocupações que registramos, nos darão uma alegria que estão longe de imaginar.
Jônatas adiantou-se:
— Bons leitores também serão todos os que, uma vez realizada atenta leitura e concomitante estudo dos ensinamentos em outras obras, julgarem que nenhum dos tópicos contém novidade, perante o universo dos conhecimentos. Esses não lustrarão, com certeza, os nossos bancos, avançando para esferas superiores. Talvez até sejam capazes de indicar a leitura da obra a círculos menos evoluídos, o que nos fará exultantes e agradecidos.
Olívia, que permanecera meditativa, desejou voltar a debater:
— Se tais ponderações constarem da obra, acredito que os bons leitores não terão a impressão de que haja pessimismo entre nós. É preciso também dizer-lhes que, caso se preparem para redigir segundo o nosso modelo, poderão alertar-se quanto ao futuro imediato ao desenlace. Os que o fizerem, ainda que não escrevam mas apenas estruturem ou rascunhem uma composição, poderão ir suprimindo as suspeitas de permanência em zonas menos felizes do etéreo, minorando ou mesmo suprimindo as conseqüências deletérias dos atos, através de procedimento pautado nas diretrizes cristãs.
Plácida, finalmente, interveio:
— Em suma, vocês estão pleiteando aos leitores que relevem a fragilidade da obra, suprindo-lhe o que falta através de reflexo intuitivo baseado na experiência de cada um. Notei que nem todos admitiram como válido o equilíbrio das exposições, já que principiamos de maneira muito formal e terminamos com textos mais simples e psicologicamente ligados a faixas mais extensas da humanidade. No entanto, posso afiançar-lhes que mantivemos o principal, em quantidade bastante razoável. Mais que isto iria provocar cansaço nas mentes desacostumadas a este tipo de trabalho. Menos iria fomentar idéias de despreparo e descaso na apreciação dos temas. Concordo com a opinião dos instrutores, do mentor da turma e das autoridades da colônia, ou seja, que sempre haverá quem usufrua os bens aqui espargidos, porque houve honestidade de propósito e seriedade de caráter. Vamos aguardar, com paciência e fé em Deus, que nos cheguem as vibrações de agrado e de bom proveito. Agora vocês estão liberados para escolher as matérias curriculares que julgarem mais apropriadas para o próximo passo na instituição. Parabéns e bom sucesso nos novos empreendimentos! Que Deus nos abençoe!
Indaiatuba, de 01.12.00 a 25.01.01.

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