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Erótico-->EXPERIÊNCIAS DE VIDA E DE MORTE -- 03/03/2005 - 04:16 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER













EXPERIÊNCIAS DE
VIDA E DE MORTE









Amigos da Espiritualidade



Professor Álvaro














ÍNDICE

Intenções .....................................................
1. A peregrinação ................................................
2. Os preparativos ...............................................
3. Mãe e filha ...................................................
4. A âncora ......................................................
5. O copo de refrigerante ........................................
6. Desencantamento ...............................................
7. A história de Lupércio ........................................
8. Eu confio .....................................................
9. Meu nome é Damiana ............................................
10. A rebelião ....................................................
11. Uma questão de palavras .......................................
12. Palavras ríspidas .............................................
13. Renegando o mal ...............................................
14. As tendências psíquicas .......................................
15. Cordial recepção ..............................................
16. Meu nome é Gilberto ...........................................
17. Realidade e fantasia ..........................................
18. Cleide, ao seu dispor .........................................
19. Meus ataques de nervos ........................................
20. Os próximos vinte anos ........................................
21. Comentário geral ..............................................
22. Cordialmente, Zenaide .........................................
À guisa de despedida ..........................................



INTENÇÕES

Raramente se encontram médiuns disponíveis para este tipo de trabalho que se exige do nosso, ou seja, que se ofereça incansavelmente, ano após ano, para receber as mensagens que os alunos da Escolinha de Evangelização insistem em trazer. Por isso, estamos satisfeitos em apresentar-nos, já que adquirimos a confiança, ou melhor, a certeza de que completaremos o serviço.
Este grupo, intitulado de Amigos da Espiritualidade, nome genérico para não assustar, tem por guia o Professor Álvaro. Somos uma classe típica de primeiras letras, composta de quarenta elementos, todos muito ávidos por aprender as lições.
Gostaríamos de demonstrar o máximo de segurança desde esta apresentação, no entanto, o que caracteriza a turma é justamente seu noviciado no estudo da doutrina espírita, o que não apresenta nenhuma novidade para quem vem lendo muitos dos textos produzidos por nós. Sendo assim, estamos advertindo para possíveis lacunas nos ditados, o que deve alertar os leitores encarnados, preparando-os para textos de difícil compreensão individual. Isto quer dizer que uma das nossas intenções é ir remendando as falhas nas apresentações subseqüentes.
Graças a Deus, estamos tendo bastante lucidez para fornecer estas diretrizes, caso contrário desde logo estaríamos sendo acusados de desleixo ou precipitação por muitos humanos que implicariam com o fato de não oferecermos redação escoimada de defeitos, rascunhada e corrigida pelos mentores. Pois os que pensarem assim incidirão em erro, dado que vamos reproduzir uma obra acabada, o que não implica em incoerência.
Eis a explicação.
Como o nosso aprendizado é dinâmico e não estático, estamos sempre progredindo rumo ao conhecimento perfeito dos temas. Ora, tratando-se de algo provisório, é bem possível que nós mesmos estaremos descobrindo as incorreções, ainda que as idéias tenham sido profundamente meditadas. É que as nossas mentes não amadureceram o suficiente no momento da primeira redação, havendo, portanto, necessidade de reformulações ocasionais.
Esta mesma apresentação está recebendo o influxo de novas intuições, à medida que vamos constatando a formulação que adquire sob o linguajar dos encarnados. Nada, porém, que mereça drástica mudança, acréscimo ou supressão.
Fique, caro amigo leitor, na agradável companhia de sua impoluta consciência, que é como gostaríamos nós mesmos de nos situar como seres espirituais.



1. A PEREGRINAÇÃO

Não desejava caminhar. Por isso, aluguei um carro e saí em busca das localidades sagradas da região.
Ao chegar à basílica de Nossa Senhora Aparecida, assustou-me o vulto grandioso do templo.
Não quis entrar, tamanha seria a responsabilidade perante os meus guias e protetores.
Na verdade, o meu medo era o de emitir vibrações de inveja e, talvez, o desejo de que minha crença estabelecesse como padrão para os centros de reunião aquela mesma magnificência.
Já se vê que não era muito firme nas convicções doutrinárias.
Voltei para São Paulo, deixei o carro, tomei um táxi e fui para casa meditar a respeito das minhas reações.

Seria esse o início da obra que estaríamos imaginando? Que estranha personagem esse ser alienado da realidade, meio esquisito, meio consciente, meio desiludido! Não nos pareceu que alguém pudesse agir exatamente daquela maneira.
Queríamos demonstrar que os espíritas, muitas vezes, não se configuram aguerridos aos princípios exarados nas obras básicas de Allan Kardec, porém, também não deveríamos compor figura que não correspondesse à média dos adeptos da doutrina.
Vamos à segunda tentativa.

Eusébio tinha dúvidas em relação aos fenômenos espíritas. Não punha fé nas aparições tangíveis nem acreditava nas curas e demais meios de aliviar as tensões meramente materiais.
Sabia que a fé removia montanhas, porque Jesus garantira o fato e porque havia testado em si mesmo que o conforto moral aliviava as pressões psicológicas. No entanto, o que mais desejava era debelar o medo e isto nunca alcançara.
Ia às sessões noturnas mas, ao voltar para casa dirigindo o carro, recordava-se dos assaltos e crimes de morte e tremia, jamais considerando efetiva a proteção espiritual, no sentido de desviar os assassinos e ladrões de seu caminho.
Transido de pavor, não orava. No máximo, fazia valer o fato de que fora ajudar nos trabalhos mediúnicos, apesar das crises que enfrentaria depois, conforme vinha atestando há anos.

Novamente, tivemos a impressão de que seria dificílimo de acompanhar a personagem até um desfecho em que vencesse a idiossincrasia. Pelo menos, o entrecho não corresponderia aos gerais anseios dos leitores encarnados.
Um de nós lembrou que não haveria romance capaz de incentivar o homem a vencer os sentimentos, mesmo porque não haveria interesse em levá-lo do centro para casa sem, um dia, deparar-se com os inimigos escondidos no fundo do cérebro.
Por outro lado, por toda a parte, encontram-se espíritas voltando à noite para casa, bem poucos trazendo os corações apertados por semelhantes aflições. Do ponto de vista do fictício Eusébio, estas criaturas seriam verdadeiramente heróis, caso não considerasse que pessoas de todas as religiões se vêem perante a mesma situação.
Comecemos de novo.

Henrique e Marta formavam casal de espíritas. Freqüentavam um bom centro, onde, toda semana, assistiam aos trabalhos de desobsessão por um grupo de médiuns poderosos.
Henrique gostava de escrever mas, por mais que se pusesse junto à mesa de reunião, jamais redigiu uma página expressiva, limitando-se a algumas frases soltas e repetidas, como “graças a Deus”, “muito obrigado, irmãozinho”, “fique na paz do Senhor” e que tais.
Marta, por seu turno, falava toda vez que o dirigente da sessão lhe cedia a palavra, recebendo o espírito protetor da casa, tecendo comentários a respeito das virtudes e do aprimoramento espiritual a serem conquistados, através do trabalho em que se aplicam os conhecimentos evangélicos e as diretrizes doutrinárias de Kardec.

Notamos que tal começo incidia em longa volta ao passado, desde o início do romance entre as personagens, sua conversão ao espiritismo, seus ensaios e hesitações. Era como tomar o bonde andando.
Além do mais, que futuro imprevisto poderíamos conceber para pessoas tão bem adaptadas ao sistema mediúnico, ela mais do que ele.; ele, evidentemente, com amplas perspectivas de desenvolvimento no campo da doutrinação dos espíritos ou da administração da entidade?
Poderíamos separar o casal, quando se trata de indivíduos conscientes das responsabilidades cármicas, em função do progresso espiritual?
Achamos que essa é a história mais corriqueira dos casais que se unem dentro da casa espírita, no entanto, o cerne das histórias deve eleger momento de conflito em que, no caso dos temas mediúnicos, haja a intervenção dos protetores e guias, o que nos pareceu quase impossível, sem ferir a contextura psíquica das criaturas que descrevemos.
Iniciemos outro texto.

Nem sempre o preceptor ficava inteiramente satisfeito com as reações do pupilo.
Aderbal era um jovem infeliz. Atormentado por paixões desabridas, trouxe para o etéreo as queixas e acusações de quem se sentiu injustiçado, por haver sido retirado de circulação quando ainda não havia terminado o ciclo biológico, vítima que foi de abalroamento, quando dirigia a moto em alta velocidade.
Otoniel esforçava-se por fazê-lo compreender que devera à própria imprudência e imperícia o desastre que o matara. Não havia de quem reclamar, a não ser de si mesmo. Deus lhe dera tantas coisas, inclusive inteligência acima da mediana, mas ele abusara, acreditando ser capaz de superar todos os limites da humana capacidade.
Aderbal jamais ouvira falar, seriamente, de vida após a morte. Educado em meio católico, sabia que teria perdoados todos os pecados de que se arrependesse deveras. A morte surpreendeu-o sem confissão e a vida no etéreo, sem anjos nem demônios nem purgatórios. Era tudo tão mesquinho, ainda mais do que na crosta terrestre, onde, pelo menos, o sol brilhava, o céu era azul, o oceano, profundo, a atmosfera, luminosa.
Otoniel instava com ele no sentido de que maravilhas materiais também existiam ali e ainda de forma mais intensa para os espíritos que vencessem as crises perigosas do ódio.

Chegados a esse ponto, consideramos excessivamente técnica a explicação que nos caberia oferecer do plano da espiritualidade. Se, nos casos anteriores, era improvável um desenvolvimento que interessasse aos leitores encarnados, ao falarmos tão exclusivamente no plano imaterial, iríamos descair em argumentos meramente especulativos para as pessoas insensíveis ao conhecimento das coisas transcendentais à natureza carnal.
Ficamos tão meditativos, após as apreciações dos colegas mais experientes, que resolvemos, definitivamente, deixar de investir em linha narrativa envolta por mistérios de além-túmulo. Nossa resolução se firmou ainda mais quando um de nós observou que muitos textos mediúnicos se publicaram, textos bem mais inteligentes e profundos, de autoria de luminares da espiritualidade, contra a nossa obscura condição de alunos da Escolinha de Evangelização.
Passemos a mais uma tentativa.

Nem bem deixou o corpo físico, Rafael se dispôs a auxiliar a esposa lacrimosa que deixara à beira da sepultura.
Tinha ele conhecimento bastante para saber que, da espiritualidade, conseguiria influenciar a mente daquela pessoa a quem amara tão profundamente, sabendo-se retribuído, tanto que as lágrimas eram sentidas e as vibrações de perda e saudade, intensas.
Havia ainda três petizes para terminar de criar, o mais velho beirando os dez anos de idade. Eram crianças muito meigas e carinhosas, preparadas para receber o influxo benéfico dos fluidos paternos.
Dentre os dons da jovem senhora, havia os da beleza física e os de poderoso intelecto. Fora por isso mesmo que ela interessara ao jovem herdeiro universal do capitão de indústria.
Estando ali a consolar de forma transcendental a consorte, deparou-se com Narciso, amigo íntimo dos últimos tempos, viúvo e pobretão, porém honesto professor de ciências físicas e biológicas, bom orador, palestrante e dirigente do centro espírita em que Rafael fora com a esposa saber do destino do pai, recentemente falecido.
Estava o professor a oferecer seus préstimos para o contato mediúnico com o espírito do defunto daquela campa.
Fizera-o por mera formalidade ou haveria insidiosa intenção?

Ao formularmos a pergunta, foram várias as respostas dos colegas do grupo.
Uns queriam que levássemos adiante o projeto, deixando a questão no ar para ser respondida a seu tempo, através das ações das personagens.
Outros supuseram que, uma vez apartado do campo material e sabendo que a vida deve continuar nas duas esferas existenciais, seria Rafael convencido pelo pai ou por outro protetor a abandonar a pretensão de influenciar nas decisões da ex-esposa.
Houve quem imaginasse que Rafael se enchesse de ciúme e desdissesse das convicções espíritas, precisando sofrer as agruras de longa estadia nas trevas, até compreender as necessidades orgânicas e psíquicas de quem perde o cônjuge.
De qualquer modo, sem chegarmos a um acordo quanto ao prosseguimento do enredo, tivemos de concordar com que, qualquer que fosse a seqüência narrativa, as personagens encarnadas teriam prioridade para os leitores encarnados, dado que o novo relacionamento amoroso causaria peripécias especiais, cujo único obstáculo se situaria na sombra metafísica dos falecidos (no plural, porque teríamos de introduzir o espírito da mulher de Narciso). Então, havendo centrado o interesse naquele que partiu, tínhamos começado de forma incorreta.
Uma vez que havia suspeita de procedimento indigno justamente da personagem que representava o movimento espírita, o que não constituía o objetivo da turma, deixamos de lado o projeto, optando por transcrever os diversos textos e respectivos comentários, formulando o primeiro capítulo da obra.



2. OS PREPARATIVOS

Núncio não queria partir deste mundo sem realizar profundo ato de contrição, o que imaginava que deveria ser após extenso exame de consciência. Ouvira falar que, um pouco antes ou logo depois do desenlace, o espírito naturalmente revive todos os acontecimentos da vida, sofrendo com todos os atos com laivos de maldade.
Passou-lhe pela mente que os momentos felizes ficariam obscurecidos, uma vez que os prejuízos que causara aos semelhantes não alcançaria resgatar naquele instante. Ocorrendo mais vívido arquivamento dos defeitos morais na memória, ficaria de prontidão apenas para as coisas ruins da personalidade.
“Como é que poderá alguém alegrar-se com os atos de bondade, esporádicos ou freqüentes, se lhe pesa na consciência uma porção de atitudes contrárias às recomendações de Jesus e dos espíritos superiores, segundo as muitas leituras que efetuei durante toda a vida?”
Perguntava e tremia de medo, desconfiando de que muito do que fizera em prol do próximo tivera a chancela do interesse em ver o nome inscrito no rol dos justos.
Pensou, então, em relacionar por escrito todas as lembranças de caráter negativo, a ver se eram exeqüíveis de ser saldadas através das preces em que vibraria honestamente pelas almas dos encarnados que não pudesse contatar pessoalmente, ou pelos espíritos que vagavam pela erraticidade.
Iniciou, como esperava suceder na hora da morte, cronologicamente. Voltou no tempo e registrou o primeiro fato ocorrido na idade de dois anos e pouco. Escreveu:
“Um dia, estando só no quarto, peguei dois ou três enfeites que ornamentavam a cômoda e deixei-os cair, espatifando-se no chão. Logo minha mãe surgiu e me deu uns tapas na mão, dizendo que eram para que eu não mais repetisse o malfeito.”
Valeu-se Núncio da narrativa que ouviu bem mais tarde da própria mãe, inclusive com a observação de que a vizinha a havia censurado, porque “o menino é muito bonzinho e não fez aquilo por maldade”, segundo as próprias palavras reproduzidas por ela.
Recordou-se de que a mãe repetira a história muitas vezes, o que apontava para indisfarçável arrependimento da parte dela.
“Talvez o caso não se resuma a simples traquinagem infantil. Talvez, se ela não me falasse a respeito, nenhuma lembrança me viria da lição que recebi tão miúdo. Talvez a falha de procedimento de minha parte tenha sido ter achado que a lição servira mais a ela do que a mim e que os remorsos dela eram de rigor, por eu ser uma criança tão boa e que não fizera aquilo de propósito.”
Como a mãe falecera há muito tempo, Núncio achou que o caso deveria encerrar-se ali mesmo. Pediu perdão por ter mantido algum sentimento ruim em relação a ela e orou sentida prece, chegando às lágrimas, por se recordar de muitos fatos bons que envolveram seu relacionamento de tantos anos.
Sem pensar duas vezes, arrancou a folha do caderno.
“Devo concentrar-me em fatos claramente representativos de ações conscientes, ou seja, naqueles que realizei apesar de saber que não deveria fazê-lo.”
Logo se lembrou das primícias sexuais infantis, levado pelos coleguinhas mais taludos e experientes. Refletiu bastante antes de escrever, chegando à conclusão de nada daquilo fora, de fato, produto de uma atividade livre da inteligência. Eram reflexos instintivos do quanto de animal as criaturas carregam na segunda infância.
Chegou à idade da primeira confissão e se deparou a relatar tais acontecimentos ao padre. Por mais, contudo, que recebia pais-nossos e ave-marias como penitência, sempre voltava a praticar as mesmas façanhas pecaminosas.
Dessa feita, considerou que não deveria escrever nada, quando lhe ocorreu que, mais taludo, se aproveitara da ingenuidade dos menores para obrigá-los aos mesmos ritos sexuais. Se rezara pelos ofensores, tinha de orar pelos ofendidos.
Logo, os prazeres de tais relacionamentos suplantaram as dificuldades morais e Núncio passou a rememorar os inúmeros contatos sexuais posteriores, incluindo os dos tempos de adulto e os praticados no leito conjugal, único tálamo após haver contraído matrimônio.
“Não deixei ninguém frustrado nem forcei nenhum intercurso carnal. Dessas uniões naturais e instintivas, provieram quatro maravilhosas criaturas. O mais foi alegria e satisfação. Não devo descrever nenhuma façanha menos digna, pois todas alcançaram objetivos imediatos e mediatos. Não fosse isso e não haveria ninguém na face da Terra. Se tiver deixado alguém com mágoa, certamente receberei tal informação na hora oportuna. Entrementes, acho que posso orar prece agradecida por tamanha felicidade.”
Enquanto rezava, ia relembrando cada uma das mulheres de sua vida, todas largadas um dia à beira da estrada, mas nenhuma com sentimento de ódio.
“Estarei sendo sincero? Não haverá dentre elas nenhuma que preferisse construir uma vida em parceria comigo? Pelo menos, pelo que me lembre, todas se casaram e tiveram filhos. Se alguma houvesse permanecido iludida comigo, talvez viesse a procurar-me em algum momento do passado. Mesmo assim, com certeza, ficaria bastante claro para ela que meu lar não poderia ser desfeito, nem o dela.”
Novamente perpassou todos os namoricos e os rápidos encontros, não adquirindo aquela certeza de que nenhuma tivesse ficado iludida.
“Acho que estou sendo muitíssimo vaidoso. Estou dando muita importância para minha pessoa. Minha esposa foi aquela por quem me interessei deveras, tanto que me mantive fiel a vida inteira. Em todo caso, se houver necessidade de me entender com o espírito de alguma delas, poderei suportar a acusação de...”
Procurou o termo que pudesse descrever o sentimento feminino para desprezo, menosprezo, traição, descaso, mas julgou melhor não caracterizar a emoção desagradável que teriam para com ele. Preferiu imaginar que a frustração adviria do amor não correspondido e que, por isso mesmo, o reencontro só poderia ser feliz e alegre.
“Quem sabe formemos um grupo de espíritos unidos por bons sentimentos, grupo de vários casais, dado que o amor sensual e lúbrico, animalesco, por assim dizer, irá sublimar-se, pela falta de necessidades orgânicas, resumindo-se em simpatia e amizade mútuas.”
Ficou um tanto perplexo com tais raciocínios, admitindo que estava caminhando depressa demais para a perfeição, já que jamais aceitara tal idéia, a não ser em esferas de muito maior evolução moral.
“De qualquer modo, se não for assim no próximo círculo em que nos encontrarmos, haverá de ocorrer em plano mais elevado.”
De imediato, começou a levantar casos de má vontade dele ou contra ele. Vendedores desonestos, compradores inadimplentes, pessoas atrabiliárias e incompetentes para se constituírem em seus chefes, subordinados preguiçosos e falsos, gente de todo o tipo, algumas hábeis o suficiente para lhe causarem prejuízos.
“Muitos se aproveitaram de minha ingenuidade e de minha boa-fé. No entanto, não me cabe censurá-los ou ficarei preso ao revide. O que devo fazer é cumprir os dizeres do pai-nosso, rogando ao Senhor que me perdoe, à medida que eu perdoar os meus devedores. Nada mais do que isso. Talvez haja manifestado minha contrariedade de forma a emitir vibrações ruins contra tais criaturas. Aí eles é que deverão perdoar-me, caso se sintam prejudicados. Vou ficar na moita, pois pode ter acontecido de minha irritação ter sido suficiente para me estressar fisicamente, o que pode significar que poderei ficar estressado espiritualmente. Mas não acho que deva escrever nenhum desses casos, porque não sinto que tenham ficado profundamente demarcados na história de minha vida.”
Pelo sim, pelo não, orou um pai-nosso em favor de possíveis desafetos.
Passou, então, a recordar acontecimentos isolados, sem nexo de causa e efeito e sem obedecer à cronologia deles. Eram recordações prazerosas de realizações bem sucedidas, nada que precisasse registrar. Várias vezes lhe vieram à lembrança enfermidades e acontecimentos fisicamente dolorosos, a turvar aqueles felizes momentos. Imediatamente, avançava no tempo e se via curado e saudável. Não queria deixar assinalado que se afligira algumas vezes, lançando a dúvida quanto à necessidade de passar por semelhantes sofrimentos.
“Não vou escrever, mas houve eventos em que emiti imprecações caladas e recolhidas contra o fato de ter sido alvo de doenças e dores. Sempre me vi aliviado por pensamentos de compensação, já que sabia de vítimas de calamidades e tragédias sem volta. Não perdi nenhum membro nem vi esfacelado nenhum órgão. Também, toda vez que caía doente, sempre encontrei quem me consolasse e cuidasse carinhosamente de mim. Se me revoltei, devo afirmar agora que fui injusto. Afinal de contas, possuir organismo sensório é o preço que os humanos e os animais pagam para usufruir as benesses da natureza terrena.”
Transformou a sensação de insegurança em modesta prece, solicitando ao Senhor que tivesse piedade de suas fraquezas, pecador impenitente que deveria ter sido para merecer voltar à carne para o resgate de antigos débitos. Pondo-se na condição de ignorante das coisas específicas do passado, avaliou as ponderações, chegando à conclusão de que aquelas não seriam situações a serem relembradas na hora da morte.
“Afinal de contas, não assinalei nenhum fato relevante, a todos apontando soluções plausíveis, porque não achei nada que pudesse arremessar-me no báratro infernal dos infelizes. Para superar as pequenas dificuldades, tenho ainda algum tempo para trabalhar em favor dos necessitados, dando prosseguimento às tarefas de assistência dos últimos quinze anos, desde que me aposentei. Valha-me Jesus, caso isto represente pensamento ou sentimento malicioso!”
Quando fez menção de guardar lápis e caderno, percebeu que não se encontrava mais em casa. Os pais e amigos recebiam-no em festa. Núncio havia vencido a primeira prova de reflexão a respeito do desempenho vital.
Sorriu e abraçou a cada um dos presentes, deu-lhes uma palavra embargada pelas lágrimas e, em seguida, foi levado desfalecido para uma casa de repouso, onde passaria os próximos anos examinando com mais atenção cada pequenina ação, fruto do livre-arbítrio.



3. MÃE E FILHA

— Veja lá como me trata! Eu sou sua mãe.
— Só porque eu disse Dona Clotilde a você?
— Chame-me de senhora.; não de você
— Você não sente que o tratamento é carinhoso?
— Eu sinto que é desrespeitoso.
— E por que você não me trata por senhora?
— Tinha graça.
— Quantos anos você tem?
— Não vou responder, enquanto você insiste nesse você.
— Quantos anos a senhora tem?
— Noventa e quatro.
— E eu?
— Vinte e dois a menos.
— Setenta e dois. Não está na hora de eu também ser senhora para a senhora ou você para você?
— Esta discussão, além de cansativa, é muito boba. O que é que você quer desta vez?
— Eu quero que a senhora me acompanhe.
— E eu não sei que está querendo me internar num asilo?!...
— Não é bem um asilo. Trata-se de uma casa de repouso, onde...
— Eu não me sinto mal aqui. Está certo que existe muita gente louca gritando por todo o lugar e que as minhas dores ciáticas estão piorando. Os remédios não estão fazendo efeito.
— A senhora sabe há quanto tempo está aqui?
— Uns três anos, mais ou menos. Desde que eu completei...
— Faça direito as contas.
— Estou com noventa e quatro. Por que eu ia dizer que estou aqui desde os noventa e quatro? Não me venha dizer que estou caducando.
— A senhora está muito bem de cabeça. Só não está percebendo que está na hora de curar certas enfermidades adquiridas por anos a fio de incompreensão dos verdadeiros objetivos da vida.
— Não vai ser você quem irá me ensinar essas coisas.
— Eu sei que a senhora não vai aceitar nada do que eu disser. Por isso é que estou querendo levá-la para um lugar mais tranqüilo.
— Eu quero saber se o Padre Eustáquio irá visitar-me. Você sabe que eu não passo sem comungar um só dia.
— Por que o interesse pelo Padre Eustáquio, se faz tempo que não é ele quem vem trazer-lhe a hóstia consagrada?
— Eu sempre peço aos que vêm para mandarem o Padre Eustáquio. Eles me dizem que está doente e que eu devo rezar pelo seu pronto restabelecimento.
— Então, não precisa ser o Padre Eustáquio também no Lar Santa Eugênia.
— O nome do asilo é esse?
— Sim.
— De que ordem são as irmãs que tomam conta?
— Existem irmãs que foram de diversas ordens.
— Deixaram o hábito? Deve ser um antro de apóstatas.
— Na verdade, elas pertencem à Ordem da Hospitalidade e do Amor Fraterno em Jesus.
— Essa ordem não existe. Você está inventando um nome bonito só para me enganar.
— Eu não vou mentir apenas para levá-la comigo. Se, dizendo a verdade, a senhora não quer vir, mentindo, vai ser muito pior.
— Eu conheço você. Desde pequena, a cada mentira, eu era obrigada a castigá-la.
— Você se lembra como é que fazia isso?
— Olha o tratamento. Eu lhe dava uns tapas no lugar apropriado.
— Às vezes, minha boca chegou a sangrar.
— É que você era muito teimosa.
— Você se lembra do dia em que me esfregou sabão na língua?
— Eu me lembro até do palavrão que você falou.
— Palavrão? Quantos anos eu tinha?
— Quatro, eu acho.
— E que uma criança de quatro anos sabe a respeito de palavrões?
— Mais do que deveriam. Pelo menos você nunca mais repetiu...
— Repeti, sim, e aumentei bastante o meu repertório. Mas isso eu jamais fiz na sua frente.
— Fez, como não?!
— Só depois de maior de idade.
— Depois que eu não podia mais lhe aplicar umas palmadas...
— Então, o seu ensinamento não valeu de nada.
— Nem o seu à sua filha. Ela falava tudo que vinha à boca e você nunca a corrigiu.
— Mas, quando ela chegou à idade adulta, limitava-se a alguns impropérios menores, tanto que a minha neta jamais disse nada ofensivo à moral dos mais velhos.
— Você veio aqui, Dona Corina, apenas para tentar mexer com a minha consciência? Pois saiba que não irá conseguir.
— Eu acho que a sua consciência está em paz.
— Está mesmo.
— Pois não devia.
— Veja lá!
— O pai está descansando no hospital e já está pronto para sair.
— Você está ficando louca. Como é que está pretendo me levar com você, se não está batendo direito os pinos? Seu pai morreu, minha filha, faz mais de vinte e cinco anos.
— Faz mais de quarenta.
— Não estou dizendo que as coisas não estão correndo bem para você?...
— Como a senhora disse que eu me chamo?
— Será que eu não sei mais que minha filha se chama Corina?
— Corina era o nome de sua mãe.
— Sua avó se chamava Laura.
— Essa avó da última encarnação, sim. Da vida anterior, era Corina. E Corina, que fui eu, é a mesma Serena, sua filha de agora.
— Eu acho que vou acompanhar você.
— Obrigada.
— Depois eu vou voltar, porque você é quem vai ficar internada. A sua cabeça está uma verdadeira confusão.
— Pense um pouco para responder. Não é verdade que sua filha Serena faleceu quando você estava com oitenta e dois anos e ela estava com sessenta?
.........................................................................................................................

— A senhora me chamou?
— Serena, querida, que bom que você teve tanta paciência para comigo. Quero abraçá-la.
— Clotilde, quanta felicidade!
— Nunca mais vou duvidar de você.
— Compreendeu tudo, finalmente?
— Que morri? Claro. Que estou num local de sofrimento? Sim. Que você deseja levar-me para uma região melhor, onde você mesma permanece? Sem dúvida.
— Clotilde, concorda você com o fato de ter sido a única culpada de ter estado neste ambiente?
— Não pensei direito sobre o assunto. O que eu acho é que os padres que me trazem a comunhão também não entendem o que se passa com eles mesmos.
— É isso aí.
— Você me disse que lá para onde vamos existem padres e irmãs de caridade. Pensei bastante a respeito disso e cheguei à conclusão de que eles, sabendo onde estão, já não podem ser padres e freiras no sentido que eu entendia enquanto viva.
— O que os mantém com ares religiosos se concentra nos conhecimentos que não se perdem. Sendo bons e honestos, vão aprendendo como todos nós, a cada dia, um pouquinho mais a respeito das complexas diretrizes que regem a existência.
— Quer dizer que ninguém ali pode considerar-se no paraíso?
— Excelente conclusão.
— E que é que vocês ficam fazendo o tempo todo?
— Eu não gostaria de antecipar a enorme gama de atividades que temos ou que podemos ter, segundo o ponto evolutivo em que nos situamos. Entretanto, posso adiantar-lhe que, entre outras coisas, a gente busca os infelizes nos poços escuros da consciência, a gente estuda em conjunto os elementos básicos da doutrina espírita, a gente realiza assembléias onde espíritos mais adiantados fazem exposições, a gente aprende a orar, agradecendo ao Pai todas as regalias que usufruímos. Não é verdade que você bem pouco orou, enquanto esteve retida na preocupação de ganhar o céu?
— A bem da verdade, repeti muitas vezes o terço, desgastando até as contas. Mas pedia por mim mesma. Acho que foi isso que me atrapalhou na hora de perceber que estava morta. Faz tempo que estou aqui?
— Podia ter ficado meia hora ou três séculos. Você não teria sofrido mais nem menos. O risco que corre quem permanece embotado é o de perder-se do grupo com quem vinha orientando o sentido da existência.
— Por isso é que você vem insistindo comigo para segui-la?
— Isso mesmo.
— E como estão todos os outros?
— Cada qual tem sua história. Será preciso explicar a seqüência de acontecimentos morais, para que se possa ajuizar o quadro em que se sustenta cada personalidade. Com o avançar da percepção da lei de causa e efeito, através da qual se podem inferir quais débitos ou méritos todos possuímos, você irá compreendendo cada vez melhor o que levou os companheiros de jornada a se situarem exatamente onde estão.
— Você não pode me adiantar nada a respeito do seu pai, por exemplo?
— Aí é que está. Se eu lhe narrar os eventos de que ele participou, poderei omitir fatos importantes. O que posso dizer-lhe é que, conforme você for integrando-se ao contexto existencial da colônia, irá aumentando o poder de contatar cada indivíduo, a partir, veja bem, do amor, da benquerença, da amizade, dos elos de simpatia.
— Foram esses sentimentos que a trouxeram até mim. Pois creia que cheguei a duvidar deles.
— Somente quando se intensificaram suas vibrações de afeto por mim, ou melhor, pela criatura que você teve no ventre e levou aos seios, pela filha que você educou nos princípios em que acreditava, pela mulher da qual se orgulhava pelas realizações que empreendi e também pela longa enfermidade que a prendeu ao meu lado, junto ao leito em que faleci, o que a levou às lágrimas, seja por que motivo for, é que se abriu na sua consciência uma brecha que me permitiu aproximar-me de você.
— Você me contou que, em outra existência terrena, nossos papéis foram invertidos, eu, sua filha.; você, minha mãe. Por que é que eu não me recordo perfeitamente disso, muito embora seu nome me tivesse vindo à mente?
— Só posso adiantar-lhe que sua lembrança quem despertou foram minhas vibrações específicas. Como você não admitia que eu pudesse, morta, chegar-me até onde você acreditava viver, ligou o nome anterior à minha pessoa. As recordações do passado voltarão com o desenvolvimento de suas virtudes etéreas. Não foi bastante penoso lembrar-se dos episódios de minha infância?
— Realmente, sofri quando você me fez ver que poderia estar magoada comigo, apesar de toda a minha intenção de torná-la uma criatura honesta e cumpridora das obrigações. Não me diga. Eu sei que calha bem aqui o refrão segundo o qual o inferno está cheio de bem intencionados.
— Vejo que você está progredindo rapidamente. Creio que o seu despertar de consciência não vá exigir-lhe grandes esforços.
— Você irá acompanhar-me nessa descoberta?
— Parcialmente. Apenas no que diga respeito aos temas que envolvem nosso relacionamento. O mais você terá de buscar com o auxílio dos instrutores específicos de cada matéria. Enquanto isso, eu também estarei dedicando-me aos assuntos de meu interesse. Mal comparando, é como acontece no mundo: enquanto a mãe cuida da filha, ela mesma traz em si interesses bem diversos. O que une as famílias, ou deveria unir, é o amor entre os seres que a integram. Mas a vastidão deste tema me obriga a suspender as explicações.
— O que você me disse vai provocar-me a curiosidade. Desde aquela última entrevista, venho criando um espírito mais crítico em relação aos dados existenciais que arquivei na mente.
— Esta é a minha Jerusa.
— Agora que você falou, despertei para o nome que eu levava ao tempo em que você era Corina. Estou certa?
— Sim. Agora vamos dizer um pai-nosso em agradecimento por estes instantes de pura alegria. Você irá acordar em ambiente de paz e irá receber o carinho de toda a família.
— Graças a Deus!



4. A ÂNCORA

Napoleão, o tempo todo, viveu de expedientes. Malandro, dava sempre um jeitinho e se saía bem de todas as situações em que lhe periclitava a segurança. Assim foi até que esticou as canelas, como ele gostava de dizer, referindo-se aos que viajavam para o campo santo.
Acomodado o corpo no caixão, acompanhou em espírito os preparativos para o velório, achando muita graça em estar ali, ao pé do cadáver, vendo que as pessoas ignoravam completamente sua presença.
Mas nem todo o mundo lhe era indiferente. Ao ver que a filha chorava, enterneceu-se, compreendendo muito bem que não fora o pai ideal, o pai que acompanha o crescimento dos filhos, passando-lhes ensinamentos de vida a serem aplicados para benefício próprio e da sociedade.
A bem da verdade, sempre admirou aquela criatura por não haver herdado dele a malandragem, a sutileza de passar para trás os incautos, a esperteza de obter lucros além do conveniente, gerando inimizades que o obrigavam a muitas fintas de corpo e a diversas mudanças de território.
“O que não daria agora para fazê-la compreender que estou bem, que não deveria chorar a ausência definitiva de um pai bem pouco presente...”
Ia nessas divagações quando ouviu distintamente:
— A âncora serve para fundear a embarcação. Deve ter o peso correspondente ao tamanho do barco, pois, se leve demais, não irá prendê-lo e, se muito pesada, poderá tornar-se perigoso lastro.
Voltou a vista e deu de cara com um velho senhor, vestido à marinheira, rosto curtido pelo sal dos oceanos, olhos fundos na face seca.
Napoleão, que não havia entendido a causa da explicação que lhe passara o companheiro do etéreo, deu uma de civilizado:
— Prezado amigo, você tem toda a razão. Napoleão, ao seu dispor.
O outro apertou com mãos calosas e pesadas a maciez da mão do recém-chegado e retribuiu:
— Gedeão, velho conhecedor dos mares, navegante que vivi atracando em todos os portos do mundo. Muito prazer.
Não tendo muito que acrescentar e tendo recebido forte inclinação por repelir o intruso, Napoleão apenas comentou:
— Vejo que existe um elo que nos une: você, Gedeão.; eu, Napoleão.; ambos terminamos em –ão.
— Eis aí um ponto meramente circunstancial. O que me aproxima de você é outra coisa, bem diferente. É a nossa capacidade de viver na conta de andarilhos. Não é verdade que você não tinha um domicílio fixo e perene?
Napoleão surpreendeu-se:
— Você conhece a história da minha vida?
— Somente o que você me revelou há pouco.
— Eu não lhe disse nada...
— Mas emitiu claros sinais de que gostaria de revelar à filha que se encontra bem. Juntamente, refletiu a respeito de suas proezas e de suas necessidades de mudanças de endereço.
— Você lê os pensamentos das pessoas?
— Dos seres encarnados é bem mais difícil. É preciso que as pessoas tenham a intenção de ser entendidas e, mesmo assim, precisam estar em sintonia vibratória comigo. No seu caso, é muito mais simples: você realizou verdadeiro exame de consciência, tendo demonstrado sinais de que se arrependia por não haver propiciado àquela criatura apoio e segurança, julgando até que ela fora além da expectativa, dado que não assimilou os maus hábitos do pai.
Napoleão caracterizou o porquê da antipatia. Sentiu que o outro não poderia constituir-se numa boa companhia, já que era capaz de descobrir com muita facilidade seus mais recônditos pensamentos. De qualquer modo, ainda tentou um teste final:
— Meu amigo Gedeão, se você se parece tanto comigo, como disse, por que eu não consigo reconhecer seus pensamentos?
Gedeão fez um gesto de desconsolo e considerou:
— É uma questão de âncora, como já lhe falei.
— Que âncora, bom homem?
— A que segura a embarcação no ancoradouro e é içada, quando o navio precisa partir.
— Não consigo decifrar essa charada.
— Mais do que lhe disse não posso adiantar-lhe. Você vai precisar descobrir sozinho. Como você está desgostoso com a minha presença, despeço-me, desejando-lhe feliz passagem pela erraticidade.
Antes que Napoleão desse pelo sentido das palavras, o outro desapareceu.
“Não me faltava mais nada: ser recebido por uma entidade misteriosa, no mínimo.; cheia de empáfia, já que deseja demonstrar sabedoria e argúcia.”
Quando voltou a observar o que se passava ao redor de seu corpo, percebeu que estava sendo o féretro conduzido para a capela do cemitério, momento de reflexão religiosa do povo que lhe prestava a derradeira homenagem.
Ficou curioso para saber se não estava na hora de receber a visita dos anjos do Senhor, aqueles que o conduziriam para o purgatório, local de que se julgava merecedor, posto que para o inferno não iria, tendo recebido a extrema-unção, após haver confessado seus pecados e recebido a comunhão.
Tais reflexões, contudo, se apagaram diante do drama que se desenrolava no plano terreno. A filha, amparada pelo marido, atraía a atenção do pai, emitindo claros apelos emocionais.
“Pobrezinha, quanto está sofrendo! E eu aqui, sem poder fazer nada! Esse tonto do meu genro, por que não leva a mulher embora? Ia deixá-la bem menos preocupada. Coitadinha! Eu jamais iria supor que sua reação à minha morte fosse de tanta dor.”
Nesse momento, justamente quando o padre aspergia o corpo de água benta, sentiu um grande clamor que se erguia dos corações das poucas pessoas presentes.
“Foram poucos os que me acompanharam as exéquias, mas quanto calor em suas manifestações solidárias! Que satisfação e conforto estão passando-me!”
Entretido em seus pensamentos, Napoleão viu-se à beira da cova aberta que iria receber o esquife. Pôs-se sobre a tampa e sentiu forte empuxo para se firmar sobre o que lhe representou um barquinho. Foi quando ouviu a filha, ao jogar um punhado de terra sobre ele:
— Vá pro inferno, velho sovina! Além de não valer nada, ainda nos deixou cheios de dívidas. Como é que vamos pagar as contas do hospital? Se eu soubesse que você está me ouvindo, ia ter muito que dizer. Que a terra lhe seja um peso na consciência.
Foi quando tudo se apagou e Napoleão, de repente, se viu repousando ao lado do próprio cadáver. Estava encarcerado.
Sua primeira reação foi de revolta.
“Como é que, de um momento para outro, as coisas mudaram tanto? Tudo por culpa da maldição lançada por minha filha. Eles que se virem, como eu sempre lhes ensinei. Agora querem que eu pague as contas? De que jeito? Tinham de ter aprendido a lição. Aposto que, quando passar o momento de desespero, vão cair em si e achar a solução. Presos é que eles não irão. Nem vão perder a casa. A não ser que sejam tolos o suficiente para confiar nos advogados e na justiça. Uma grana por fora e o hospital joga todas as despesas na conta do governo. É fácil. Eu é que estou em enrascada das boas. É como se estivesse com uma âncora me segurando...”
A lembrança da imagem causou-lhe mal-estar.
“Será que o marinheiro sabia o que me estava esperando?”
Reproduzir todos os pensamentos que lhe ocorreram naquela circunstância iria demandar um livro inteiro. Devemos resumir, afirmando que o coitado, às vezes, achava que teria sucesso se pedisse perdão ao Pai, repetindo as orações de praxe do catolicismo.; outras vezes, ficava sumamente irado por não haver ninguém por perto com quem pudesse barganhar favores e conveniências.
Depois de muito tempo, tendo acompanhado o desfazer das carnes de seu putrefato cadáver, sentindo todas as náuseas pela pestilência das emanações de gases, o que não chegou a compreender, porque reclamava contra o fato de ser puro espírito, sem matéria, portanto, vendo que pequeninas criaturas iam satisfazendo-se com a podridão, já fazendo companhia aos ossos, que também se deterioravam, resolveu chamar a única criatura com quem mantivera contato no etéreo:
— Caríssimo Gedeão, se você estiver por perto, traga-me o conforto de sua misteriosa palavra.
Como por encanto, viu-se fora do sepulcro, tendo poderosa âncora atada aos pés, trambolho de condenado ao ferro reluzente do objeto novinho em folha.
— Você me chamou, Napoleão. Eis-me aqui.
— Você sabe muito bem o que eu tenho sofrido neste ermo. Lembro-me perfeitamente de que a nossa semelhança estava em sermos, como você disse, andarilhos. Logo, ficar com a liberdade bloqueada tem sido o pior castigo, verdadeiro inferno, como nem o pior dentre os demônios seria capaz de imaginar.
— Você está afirmando que a sua pena tem sido injusta?
— Eu nem sei mais o que estou dizendo. Por mim, que pejei minha consciência de atos não muito católicos, vamos dizer assim, acho que mereci esta aflição.
— Quer dizer que você aprendeu alguma coisa?
— Aprendi que não devo tentar enganar os outros, passando-lhes a perna.
— Pensa estar em condições de me seguir?
— É evidente que sim.
— Então, vamos.
Gedeão pôs-se a caminhar, dando as costas ao outro. Napoleão apenas conseguiu empurrar a âncora para o lado, mas não teve forças de arrastá-la. Pelejou, pelejou, enquanto observava o guia ir desaparecendo lá adiante. Quis gritar mas logo percebeu que seria inútil.
“De novo sozinho. Pelo menos tenho este lúgubre espetáculo campestre.”
Sorriu do trocadilho, explicando a si mesmo que, sendo o cemitério o famoso campo santo, estando ali, poderia aplicar a facécia. Era algo com que se distrair.
Não teve tempo, no entanto, para gozar as delícias de sua verve. Quase imediatamente se viu acossado por entidades vingativas que vinham cobrar-lhe as contas pendentes, que jamais pretendera saldar.
Muitos eram os fantasmas que o assombravam. Tentava argumentar, jurando que, assim que possível, iria buscar recursos com que resgatar os débitos. Mas eram tantos os credores que conseguiam renovar-se a cada hora, todos a esvoaçar em tétrica dança ameaçadora, como se fosse possível arrancar-lhe os membros, os olhos ou a própria existência.
No começo, reagia e tentava atingir os que se aproximavam. Nunca, porém, passou de safanões no ar. Gritava impropérios e prometia vingança, tudo sem nenhum efeito contundente sobre os adversários.
Certa ocasião, já desolado, sentado sobre o metal que se enferrujava, percebeu que a criatura que o atiçava tinha fisionomia conhecida. Era o dono da farmácia onde adquirira fiado muitos remédios, inclusive os primeiros do derradeiro tratamento.
“Será que até o Seu Chico está atrás de mim, pessoa que nunca considerei capaz de qualquer represália, mesmo porque sempre me dissera que perdoava os pobres que precisavam livrar-se das doenças?! Vamos tirar a limpo a identidade desse gajo.”
— Você está me perseguindo porque não paguei a conta na farmácia?
— E você pagou?
— Não paguei mas pretendia pagar. Ou melhor, achava que deveria pagar, porque o senhor sempre foi uma pessoa razoável e caridosa. Sou testemunha disso.
— Como ficamos?
— Assim que eu me livrar deste martírio, vou imaginar um jeito de atenuar a sua fúria.
— Vai ser impossível.
— E eu sei a razão disso. Você está fingindo ser quem não é. Você está assumindo a personalidade de uma criatura de bom coração, mas eu sou muito capaz de perceber que o que está fazendo é por pura maldade. Se você fosse o Chico da farmácia, eu lhe pediria perdão. Mas, para um sujeito tão infeliz, a ponto de representar papel de algoz contra um desconhecido, eu só posso pedir a Jesus que envie um mensageiro, um anjo, uma missão de paz, para dar-lhe tranqüilidade. Valha-me, Gedeão!
A atmosfera ficou translúcida, leve, e um raio de sol iluminou o verde e fresco gramado em que se viu Napoleão. Pôs-se de pé e não sentiu o peso da corrente. Ali jazia completamente corroída a âncora que lhe servira de sevícia.
“Antes que o marinheiro chegue, vou sopesar o que resta de ferro, a ver se consigo carregar. Afinal de contas, sempre haverá de me ser útil conservar, nem que seja simples poita, para meu próprio bem. Não foi essa a lição que eu deveria ter aprendido logo?”
Como se tivesse manifestado o pensamento em voz alta, recebeu a resposta do recém-chegado marinheiro:
— Muito bem refletido. Querido amigo. Acho que você já está preparado para seguir-me. Vamos receber outras lições mais amenas, de seres mais evoluídos. Enquanto caminhamos, veja se você consegue orar um pai-nosso, meditando sobre cada passagem, interpretando-lhe o significado para mim. Essa haverá de ser a medida com que você mesmo irá medir-se e dizer-me, ao final, se está pronto ou não para agir segundo as diretrizes das leis de Deus.
Sem pestanejar, Napoleão começou:
— Pai nosso, que estais no céu... Céu é um dos nomes que as pessoas honestas, justas e boas dão para o local das eternas delícias e onde só os que cumprem os ensinamentos de Jesus conseguem entrar...
E assim foram adentrando longo túnel, ao fundo do qual brilhava intensa e serena luz.



5. O COPO DE REFRIGERANTE

Estava Arquimedes envolvido em traquinagens perigosas. Aos vinte e cinco anos, via-se ameaçado por bandidos, já que não saldava as dívidas, sempre adiando os pagamentos relativos às drogas pesadas que consumia.
“Não devo viver muito tempo mais”, refletia, desiludido da existência carnal. “O que mais posso esperar, já que todas as sensações obtive deste corpo que se deteriora?”
Pensava que cumprira todos os passos biológicos e não desejava ver-se a carregar o peso dos anos, como o pai e o avô, este velho e decrépito, a impingir à família trabalho colossal de assistência, entrevado e débil mental.
Aos quatorze anos, merecida ou imerecidamente, levara uma surra do pai. Saiu de casa e só voltou oito anos depois, cheio de problemas de saúde.
A primeira coisa que disse foi:
— Quem se atrever a me afrontar, leva chumbo.
Para demonstrar que falava sério, exibiu uma pistola automática, fruto de roubo.
Todos da casa se recolhiam em profundo mutismo toda vez que ele estava, e passavam os dias entristecidos, alheios à história da comunidade. Numa batida policial, precisaram abrir a porta para alguns investigadores, que vasculharam os pertences de todos, sem encontrarem nada que pudesse incriminar os habitantes.
Arquimedes, quando soube do sucedido, permaneceu ausente por três meses. Ao retornar, trouxe consigo um ar ainda mais desconsolado, ar de quem era portador de alguma doença muito grave.
A mãe cochichou ao ouvido do pai:
— Para mim, é AIDS. Vamos tomar cuidado para ninguém pegar a doença.
Naquela mesma tarde, a filha mais nova foi mandada para a casa dos avós, pais do pai, porque o pai da mãe era a aludida pessoa paralítica.
Arquimedes não atinou com a ausência da irmã e, desde aquele dia, passou a reclamar tratamento especial, dizendo-se mais necessitado do que o avô.
Essa desdita durou cerca de oito meses, até que, numa noite escura, entraram pela janela e lhe deram cinco tiros à queima-roupa. O barulho assustou as pessoas da casa, as quais tentaram fugir, mas também foram alvejadas, não restando nem o velho para contar história.
Na manhã seguinte, a manchete rezava: Chacina deixa quatro mortos na Vila Caiçara.
As investigações apontaram logo para a causa mais provável: dívidas do vício, e a polícia arquivou o caso, tendo em vista que o serviço havia sido feito por gente do ramo. Qualquer dia, ao prender algum marginal da região, atribuiriam mais esse assassinato ao criminoso, o qual não faria questão de ser acusado sem base, dado que lhe seria cominado de qualquer jeito o limite máximo da pena.
O que ficou na residência, sem que ninguém tocasse, foi um copo cheio de refrigerante, sobre a mesa da cozinha, onde as cadeiras haviam sido arremessadas contra as paredes e os utensílios se encontravam espalhados por todo o chão.
As fotos da perícia consignaram o fato, pela estranheza que causou aos que lavraram o boletim de ocorrência.
No etéreo, separaram-se os quatro familiares, tomando cada qual rumo próprio. Todos, porém, ficaram com a impressão de estranheza do copo de refrigerante.
Arquimedes teve o desprazer de entornar o copo imaginário diante do qual se encontrou. Sentiu-se muitíssimo mal e ainda tentou lamber o chão, a ver se aproveitava o sabor adocicado que ali poderia estar. Arrependeu-se amargamente, enchendo a boca de areia, sensação que persistiria enquanto não descobrisse que fora a perdição de si mesmo, para possível recuperação, em encarnação num lar de trabalhadores.
O pai desprezou o copo de refrigerante, diligenciando para que a filha se visse amparada pelos avós. Julgou-se generoso por haver admitido o sogro entrevado e solicitou ao protetor, que se apresentou para ajudá-lo, o favor de mantê-lo a par dos problemas de Arquimedes. Queria bem ao filho mas acusava-o por haver propiciado aos malfeitores a oportunidade de exterminar a família.
A mãe teve acesso à bebida, contudo, buscou local apropriado para entorná-la, desejosa de aproveitar o copo para beber água pura. Não queria o gozo das bolhinhas nem a ingestão dos produtos nocivos à saúde que integravam a fórmula. Desde logo, solicitou a presença da falecida mãe, que compareceu comovida pela lembrança amável de toda a vida, e pediu-lhe para que buscasse o pai, dando a ele a atenção necessária, isto, caso, observou ela, não estivesse completamente regenerado.
Foi assim que o ex-paralítico acordou usufruindo a companhia da esposa. Perante o copo de refrigerante, agradeceu a gentileza da entidade que se lembrara de oferecer-lhe lenitivo para a sede e dividiu aquele prazer ideal com a mulher, lembrando-se de brindar a felicidade do reencontro. Em seguida, dispuseram-se ambos a acompanhar o neto, suspeitando que estaria muitíssimo necessitado de auxílio.
Hoje, vinte e cinco anos depois da chacina, Arquimedes ainda está com restos de areia na boca, clamando contra a injustiça daquela condenação, desde que não traficara e não atentara diretamente contra a própria vida. Por mais que os avós tentem explicar-lhe que ele deixou de vivenciar muitos aspectos positivos da encarnação, como o prazer da paternidade, por exemplo, ele se mantém renitente, afirmando que não se comprovara isso em relação aos pais e avós.
Possivelmente, será agasalhado de novo no seio da mesma família, já que a irmã está planejando ter mais um filho. Com certeza, os avós terão de realizar prodígios de sustentação fluídica, uma vez que Arquimedes rejeitará a perspectiva de se ver obrigado a cumprir nova série de compromissos, com o fito de assimilar algumas noções correspondentes aos primeiros itens das leis de Deus.
O que de positivo se deu para o efeito do futuro nascimento foi a admissão de que aquele copo de refrigerante representava a vida que desperdiçou.



6. DESENCANTAMENTO

Hercílio dedicou toda sua vida adulta ao espiritismo. Prestativo, encantava-se sempre que podia ser útil à instituição ou a qualquer pessoa para quem pudesse fazer o bem.
Contudo, como não era perfeito, exultava também com as vitórias de seu clube do coração, fugindo para os estádios em dias de jogo, desejoso de se deixar envolver pela euforia da torcida.
Nunca efetuou rigoroso levantamento crítico da necessidade de participar daquele movimento de massa, muito embora desconfiasse, lá no fundo da consciência, de que toda alienação através dos sentidos deveria representar alguma deficiência de caráter.
Um belo dia, durante o transcurso de partida de seu time, partida a que assistia pela televisão, estando aflito com a derrota iminente e conseqüente perda do título, entregou a alma a Deus, vítima de fulminante apoplexia.
Mercê da iniludível dedicação à doutrina e do diuturno trabalho pelos semelhantes, foi logo agasalhado pelos protetores de colônia situada no círculo mais periférico da zona umbralina. Entretanto, não despertou de imediato, precisando ficar internado sob observação por bom tempo.
Os aparelhos de detecção das impressões conscienciais registravam atividade intelectual em grande ebulição emocional, como se o paciente estivesse lutando tenazmente para não cair sob o domínio da angústia de não haver realizado integralmente a tarefa mais importante, segundo seu próprio parecer.
Se fosse possível ler as reflexões que lhe davam aquela penosa condição, obteríamos algo assim:
“Como é que não fui capaz de perceber que o futebol representava algo mais envolvente do que toda a prática espírita? Por que só agora é que me dou conta de que concentrava toda a alegria da existência em simples espetáculo lúdico e atlético, indo para o campo com a alma desanuviada, quando o mesmo não acontecia ao me endereçar ao centro espírita, sempre tenso e com o coração cheio de dúvidas quanto à boa-fé com que realizava a minha parte? Por que não atinei em tempo hábil para este magno problema, se tinha condições para descobrir a verdade, dado que as leituras que efetuei cobriam todo tipo de tema moral e filosófico? Por que não me inspirei na vida de Kardec, que eu sabia de cor e salteado, para observar como é que o codificador se entregara de forma tão completa e incondicional à tarefa superior de organizar a doutrina espírita, sempre alegre e feliz, considerando naturais as adversidades provocadas pelos interesses dos religiosos e ateus? Tinha eu de me deixar empolgar por aspecto material de tamanha insignificância?”
Perguntava e perguntava, porém, não atinava com as respostas, o que acentuava cada vez mais a insatisfação para consigo mesmo.
Depois de infrutíferas pesquisas de ordem intelectual, Hercílio percebeu que estava preocupando-se muito consigo mesmo. Lembrando-se, finalmente, de que poderia estar dando trabalho aos socorristas do etéreo, refletiu:
“Vejo-me carente de explicações. Enquanto me mantiver concentrado em mim mesmo, não abro o campo de visão e permaneço neste círculo miserável de preocupações. Será que não existe nenhum amigo da espiritualidade capaz de me retirar deste desconsolo, nem que seja para me recomendar nova peregrinação terrena?”
Foi perguntar e ouvir clara resposta:
— Você está recebendo tratamento adequado. Se quiser conversar, estou às suas ordens. Meu nome é Tibério e respondo por esta ala de alienados do hospital. Saiba que, por enquanto, nosso contato será tão-só através do pensamento. No entanto, você poderá perguntar o que quiser, desde que procure sempre resolver os problemas que o estão afligindo.
— Caro Tibério, por que não tenho em mim resguardada a esperança de encontrar-me em situação de tranqüilidade? Por que esta angústia diante do fato de não corresponder, em meu espírito, o trabalho na casa espírita ao regozijo dos campos de futebol?
— A resposta, creio eu, está você com medo de descobrir.
— Não poderia você assinalar qual seja?
— Talvez, caso eu desvende o mistério, você venha a brigar comigo.
— É tão grave assim?
— Tão grave não é, mas não é saboroso o paladar que você irá sentir.
— Posso levantar hipóteses e, quando estiver certo, você me avisa?
— Perfeitamente.
— Estou preso em mim mesmo para poder descobrir os meus defeitos.
— Isto parece óbvio. Tente outra resposta.
— O meu principal defeito, aquele que me está atormentando, reside no fato de eu, de certa forma, não aceitar o trabalho voluntário, porque gostaria de afirmar que todos, durante a encarnação, têm de sofrer os encargos relativos aos débitos passados?
— Você está projetando no passado a situação atual. Se estiver bem lembrado, muitas vezes você obteve muita satisfação por verificar que suas palavras orientaram pessoas, as quais acabaram agradecidas e penhoradas. Siga por outro caminho.
— Tibério, você existe mesmo ou é apenas o reflexo de minha consciência?
— Claro que eu existo. Entretanto, faço as vezes de alter ego, para o efeito da solução definitiva do mistério que o mantém isolado. Se eu fosse sua própria consciência, ia sentir-me ofendido, uma vez que você não estaria atribuindo-me papel relevante, condizente com a minha importância.
— Obrigado pela deixa. O que você acaba de me dizer é que eu não estou dando ouvidos para a minha consciência.
— Agora você engrenou a melhor marcha para avançar na direção certa.
— Quer dizer que existe algo que estou sufocando?
— Não seja repetitivo.
— Quanto tempo estou preso neste labirinto mental?
— Constitui esse um problema que o está afligindo?
— A bem da verdade, não.
— Volte-se para sua aflição.
— Pensei que ir aos estádios fosse um desvio da personalidade, ou seja, que eu buscava esquecer as preocupações inerentes ao serviço de assistência que prestava no centro espírita. Vejo que, ao perguntar a respeito do quanto de tempo estou aqui, cometi o mesmo desvio. Posso concluir que esse defeito esteja incrustado no meu caráter?
— Você acaba de avançar mais um passo. Continue.
— Quer dizer que, ao auxiliar as pessoas, assumi uma espécie de compromisso para a prática do bem, como se isso representasse o meu salvo-conduto para círculos mais adiantados?
— Também.
— O que mais censurei nas pessoas foi a falsidade. Essa preocupação apenas apontava para o meu maior problema?
— Certamente.
— Devo concluir que usava de malícia, para preservar as aparências?
— Hercílio, você considera agora a sua esperteza infantil?
— Tanto mais infantil quanto mais me recordam as leituras que denominava de edificantes.
— Quer que eu continue perguntando para induzir suas respostas?
— Não, caro amigo Tibério. A minha consciência está revelando-me que, afora os méritos dos trabalhos que realizei, tenho de reconhecer que sempre estive mergulhado profundamente em sentimentos de egoísmo e orgulho.
— Era o ponto a que esperávamos que você chegasse. Mas ainda está faltando algo.
Desta feita, Hercílio demorou para retrucar. Os aparelhos a que estava ligado passaram a registrar batimento cardíaco menos opresso. Após bom tempo, acrescentou:
— Está faltando agradecer a Deus o beneplácito desta pacífica acolhida, apesar de me ver profundamente desencantado comigo mesmo. Tenho muito que aprender mas, graças a Deus, acumulei algumas moedas em local em que a ferrugem não corrói.
Imediatamente, descerrou-se-lhe a visão e ele pôde avaliar o recinto iluminado em que se encontrava. Tibério apareceu-lhe como entidade de superior compostura moral, a quem abraçou vivamente. Foi quando solicitou:
— Posso orar um pai-nosso, enquanto você me sustenta fluidicamente, para que eu não descaia em falta de humildade?
Eis como se conta a história de um espírita não muito autêntico, mas com assegurado futuro de verdadeiras conquistas morais.



7. A HISTÓRIA DE LUPÉRCIO

Deveria iniciar pela fase adulta, mas, sem fazer referência a alguns fatos da infância e da adolescência, vou deixar os leitores meio perdidos.
Está claro em minha mente que muita coisa relevante acontece na juventude, a caracterizar a personalidade dos indivíduos. Quando me lembro do que fiz ou sofri em minha época de rapazelho, fico logo alvoroçado, como a entender os porquês das fraquezas e vacilações de caráter posteriores.
Outra tendência de minha ótica está centrada no fato de que fica bem mais fácil de desculpar as atitudes menos dignas atribuídas a efeitos de degenerescência produzidos em épocas remotas, quando não se está ainda totalmente consciente do poder do livre-arbítrio.
Foi assim que obtive a compreensão das reflexões da idade adulta, instando contra a vontade de argüir a sorte como fator preponderante dos acontecimentos. Eis que defini, finalmente, o movimento da alma relativamente a assumir o controle dos atos e das deliberações, argumentando, é óbvio, com o passado mais longínquo das vidas menos evoluídas, mais bárbaras e menos edificantes.
Realizei o mais penoso dos retrospectos rememorativos, tendo chegado à conclusão de que o acervo dos defeitos batia de longe o repositório das virtudes. Então, e só então, decidi relatar as duras circunstâncias de minha entrevada disposição para o bem. Estava fartamente documentado, porque as lembranças permaneciam vívidas e cada vez mais opressivas sobre a grave decisão de revelar exatamente como sou, ou melhor, como sigo sendo, enquanto não me derem a oportunidade de sanar os males que pratiquei.
Penso que tenha deixado evidenciado que nem tudo decorreu para mim às mil maravilhas. Planos se frustraram, projetos deram em água de barrela, desígnios esbarraram nas insopitáveis reações de desagrado, quanto a oferecer as comodidades materiais ao holocausto dos sacrifícios.
Tendo prometido a mim mesmo que diria tudo, estabeleci que o modelo de redação elegeria as formas mais fáceis de serem decifradas pelos irmãos leitores. Entretanto, ao me pôr a escrever, não me senti capaz de cumprir as íntimas promessas, permanecendo ligado à vergonha de não me conter perante as deficiências que fui descobrindo e demonstrando.
Falo com o coração na mão, pedindo que me sobrelevem a insipidez natural de minha imperfeição. Pelo menos, não venho radicalizando a postura sobranceira de quem está a cavaleiro em relação ao que deseje ou não deseje consignar. Conto tudo, efetuando arguta análise de cada pequenina ação em descompasso com a natural inclinação da consciência, que se vai pejando e arqueando e arrastando a crista pelas áridas passagens dos piores males da vida.
Arregaço as mangas e ponho-me à disposição dos colegas, para ajudá-los a meditar a respeito dos eventos mais significativos, daqueles que merecerão ser cogitados pelos mais sagazes. Dedico-me, também, a enaltecer a figura tranqüila do mestre, que nos dá total assistência, admirando-se, às vezes, com o brilhantismo e a exatidão temática aqui desenvolvida.
Um leve toque sarcástico, uma ironia sutil, mas sem deboche, um sorriso interior que se revela meigo e encantador, constituem o tônus mais profundo de minha personalidade, eivada, como se nota perfeitamente, de reflexos menos alegres, mais desanimadores, mais pessimistas. Todo o entrecho, contudo, coloco na conta de prestação de alto serviço de referência, de exemplificação, para que outras criaturas se aventurem a confeccionar a autobiografia.
Nada devo deixar para ser lido nas entrelinhas, todavia, não existe nem jamais existiu artista que conseguisse o feito de tornar o seu retrato absolutamente íntegro, principalmente porque é próprio dos seres humanos seguirem o curso que lhes determina o aspecto biológico, o que lhes dá, através do tempo, diversas fisionomias e contexturas morais. Por isso, dizer que este sou eu, não há de ser verdadeiro. Devo dizer que aquele fui eu, ou aquele, ou aquele, ou aquele, e assim por diante.
Ora, sob tal aspecto didático, como poderei vir escrever a história verdadeira de minha vida, senão dando-lhe o colorido obsceno das coisas transitórias e imperfeitas?! Não será verdadeiramente assim que se contam as histórias reais?!
Ainda tenho tempo para dizer que meu nome não é Lupércio, nome adotado por razões facilmente compreensíveis, dado o inteiro teor do texto que elaborei.

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Pensei que me houvera saído bem na dissertação. Achava que estava ajudando os leitores no sentido de não lhes propiciar oportunidade de comentar malevolamente os erros que cometi durante toda a minha existência, erros cuja declaração poderia ensejar vibrações de baixa categoria. Isto não me atemorizava quanto a ser o alvo de tais pensamentos turvos. A preocupação que me estimulou a esconder os fatos em si tinha dupla natureza: era porque deveria evitar os casos individualizados e porque desejava que a imaginação das pessoas as levasse a colocar-se no meu lugar, relacionando às apreciações que fiz os próprios episódios de suas vidas.
Quanto a dar a especular a respeito de minhas decisões erradas, obrigatoriamente me faria desenvolver muitos aspectos doutrinários para comprovar que tais e quais pontos estavam em desacordo com as diretrizes superiores hauridas diretamente das leis naturais impostas por Deus às criaturas. Isso provocaria dupla determinação da minha parte: repetir os conceitos expendidos nas obras da codificação espírita e aplicá-los aos problemas que iria levantar.
Quanto a propiciar oportunidade a que os leitores situassem as próprias aventuras, é o objetivo maior de quantos espíritos têm vindo transmitir mensagens do além, ou seja, a necessária análise das performances vitais e conseqüente rearrumação de vistas, no caso de se caracterizarem pontos que precisam ser melhorados.
Além disto tudo, cabe considerar que, por razões ponderáveis, também não deveria expor minhas boas intuições, como se eu pairasse acima das virtudes comezinhas da média dos irmãos deste grupo. Sendo assim, esta mesma redação deve sofrer a crítica voraz das inteligências superiores, para não produzir, nas mentes mais débeis, impressões de que jamais alcançarão confeccionar textos de igual valor.
Qualquer pessoa que conseguir chegar a esta passagem deve compreender que, através de outras palavras e de outra estrutura, poderão compor obras mais objetivas e diretas. Se quiserem, poderão acrescentar: mais claras e oportunas.
Obviamente, apesar de todo o aparato intelectual subjacente pouco perceptível, não é de todo improvável que este arrazoado venha a ganhar importante espaço, no que me toca, entre as demais composições da classe.
Para encerrar, vou louvar o Senhor em prece de minha própria lavra, na qual referirei cada um dos problemas atuais e solicitarei as possíveis soluções, segundo a minha capacidade, sem esquecer-me de agradecer todo o apoio que venho recebendo.
Fiquem com Deus!



8. EU CONFIO

Atraquei-me com meu desafeto mais poderoso e lá ficamos os dois engalfinhados por um período não menor do que o correspondente a dez anos dos mortais.
Só suspendemos a briga quando compreendemos que não havia como levar o antagonista a perecer, visto que, na erraticidade, não existe tal fenômeno, o qual estava arraigado em nossas mentes vetustas.
Cada qual foi para o seu lado, ruminando desaforos a serem levados a efeito em tempo oportuno.
Quanto a mim, submeti-me a rigoroso exame de consciência, não no sentido de descobrir o que ficara devendo à verdade e à justiça, porém, no que dizia respeito ao que sofrera nas mãos do outro, durante a existência carnal.
Por isso, fiz que se calasse a voz mais íntima que me teria aberto um canal para receber a influência externa dos amigos, que me desejavam conduzir para regiões menos infelizes.
Quando insuflei no coração um pouco de coragem para reclamar a presença de meus pais, recebi violento influxo de amizade, sensibilizando-me profundamente, como se, de repente, compreendesse que estavam eles ali, ao meu lado, há muito tempo.
Mas não tive lágrimas. Fiquei extremamente irado comigo mesmo e terminei designando-me com os mais sórdidos epítetos que conhecia. Foi o que me fez cair desalentado por mais um bom tempo, mas consciente de que estava recebendo cuidados e conselhos, como os que se dão aos comatosos nas unidades de terapia intensiva.
Longe, contudo, de ser um tempo pacífico, ainda repercutiam na mente os sucessos desastrosos da vida dedicada aos lucros escorchantes obtidos graças à necessidade alheia.
Penso ser dispensável a narrativa dos acontecimentos físicos, bastando, como no caso do Lupércio (meu nome verdadeiro é Gustavo), referir-me ao modo errôneo com que encarava os relacionamentos sociais.
Foi só depois de entender que me encontrava num beco sem saída que resolvi voltar atrás e considerar a possibilidade da reforma moral imprescindível para a aquisição dos valores que me trariam um pouco de felicidade.
Neste ponto, preciso dizer que toda ação em prol da melhoria provém de intenção absolutamente isenta de malícia. Caso me mantivesse teimosamente a considerar que poderia iludir alguém, permaneceria naquele estado de sofrimento. O despertar da consciência é sempre fruto da disposição lídima de acatar as leis de Deus.
Isto posto, devo avisar que o regresso ao seio da família foi doloroso, porque acompanhado das lembranças de antes da encarnação, quando formulara as diretrizes de vida para a conquista dos bens inalienáveis das virtudes. Conforme ia percebendo que fora praticamente inútil a passagem terrena, ia caracterizando melhor não só os defeitos da personalidade, como também as dificuldades para eliminá-los.
No meio dos familiares, amigos e conhecidos, ficava macambúzio, a ruminar o passado, lamentando profundamente não ter dado a devida atenção aos princípios religiosos que tão bem conhecia. Ao contrário, punha-me revoltado contra a intenção de sempre obter vitórias contundentes sobre as pessoas, o que incluía o sacerdote que inutilmente me orientava.
Para chegar a este estágio de análise e de crítica, precisei estabelecer contrato com os mentores desta instituição, segundo o qual me dariam assistência toda vez que as preocupações com o perigo de fracassar ameaçassem engolfar-me em desespero.
Parece que as coisas estão seguindo um curso bastante promissor, haja vista que consegui redigir esta página, com sacrifício, é claro, mas suficientemente lúcida para demonstrar que as pessoas devem estar sempre alertas para as conseqüências dos males praticados contra o próximo.
Isto me traz de volta à presença daquele ferrenho adversário.
— Estaria ele disposto a perdoar-me? — perguntei ao professor.
— Vamos estabelecer contato com o protetor dessa entidade, que nos dirá como é que as coisas têm transcorrido para ele.
Não precisei fornecer as coordenadas, tendo o mestre tomado a iniciativa de reaver o meu passado, através das vibrações que eu estava emitindo. É um processo misterioso para nós estudantes de primeiras letras, mas eficientíssimo para quem sabe empregá-lo.
Quero deixar anotado que esta turma precisa aprender muitas artimanhas do procedimento espiritual, de forma que o leitor amigo não deve atribuir-nos dons de superior quilate. Quando muito, estamos em condições de demonstrar que tudo aqui se passa segundo leis naturais, do mesmo jeito que ocorre dentro da densidade material do universo dos encarnados.
Caminhando um pouco mais, também devo insistir no fato de que qualquer explicação que pudesse dar para esclarecer aquele fenômeno, teria de esbarrar em conceitos de percepção extra-sensorial ou de efeito telepático, já que a comparação com o uso das ondas hertzianas exigiria aparelho desenvolvido a partir de elementos extraídos do mundo exterior, quando a percepção dos pensamentos aqui se faz através de treinamento do conhecimento dos recursos próprios dos seres desencarnados ou espíritos.
De qualquer modo, posso afiançar que não demorou um átimo para o meu instrutor estar de posse das informações que me iria passar:
— Tal como você, o seu contendor também evoluiu e se encontra apto a comparecer a uma reunião em que ambos possam eliminar os sentimentos de animadversão que nutrem um pelo outro. Você está preparado, realmente, para receber o perdão dele, conforme me perguntou?
Jamais poderia imaginar que tudo pudesse resolver-se tão rapidamente. Senti um repelão dos nervos a indicar-me que, intelectualmente, até poderia compreender uma ação em prol daquela aliança. No entanto, emocionalmente, percebi que poderia sofrer perigosa recaída.
Não precisei, contudo, expor o meu problema, porque o orientador logo me assegurou:
— Se você fraquejar, nós iremos ampará-lo, com certeza. Recomendo que enfrente a situação com o mesmo empenho da luta desabrida. O que era ojeriza tem de transformar-se em simpatia, no mínimo, pois, caso se mantenha resquício de contrariedade perante aquela criatura, o resgate dos débitos haverá de ficar em suspenso.
— E se me sentir mal, independentemente da vontade?
— Nesse caso, terá de repassar as lições relativas ao emprego das virtudes, o que significará permanência de mais alguns semestres letivos junto aos principiantes.
É bom frisar que nenhuma ameaça subjacente se poderia conter naquelas instruções. Eram elas a exata configuração da realidade. Por isso, fui capaz de entender que era chegada a hora de avaliar o meu estágio no campo evolutivo. Sendo assim, determinei-me a aceitar a presença da entidade malévola.
Quase de imediato, nós nos vimos conduzidos a um recinto equipado com inúmeros aparelhos. Na tela iluminada à nossa frente projetou-se, de corpo inteiro, a figura terrena do meu adversário. No íntimo de minha consciência, delineou-se claramente que se tratava de um retrato projetado a partir da minha memória.
Fascinado por aquele artifício tecnológico, fiquei admirando os contornos da figura humana, até descobrir que estava perante feixe de vibrações materiais conduzido pela vontade de um espírito. Foi quando, ao lado da criatura, apareceu a minha própria representação. Eram como que dois marionetes cujos movimentos e reações dependiam de mim mesmo.
Foi tão grande o êxtase perante a simplificação do drama, que todo o processo mnemônico se reduziu àquele quadro cinematográfico, como se o passado houvesse desaparecido.
Em lágrimas, afiancei ao mentor:
— Se valer de alguma coisa o fato de eu estar entendendo que as pessoas têm mais de viver em harmonia para progredir, eis que me sinto preparado para apertar a mão do meu inimigo. Caso tenha provocado nele reações de justa revolta contra minhas atitudes, saberei que deverei estar prevenido para as censuras que, muito mais do que recebidas dele, irão partir da minha própria consciência. Se for o inverso, ou seja, se eu sentir que minhas reações é que são justas, no sentido de acusá-lo de me haver prejudicado, estarei disposto a rever os pontos de atrito que estiverem subsistindo.
Naquele mesmo instante, descortinou-se à minha frente a hesitante figura daquele ser que tanto me havia afligido até então. Percebi que ele mesmo estivera refletindo sobre as razões que nos levaram a campos opostos, não tendo ainda a certeza de que estaria em condições de atar um relacionamento, sem os entraves do passado oneroso.
Se alguém estiver esperando cena de pungente sacrifício dos sentimentos adversos, vai ficar surpreso com o resultado do encontro. É que nós nos olhamos longamente, cada um julgando o outro infeliz e endividado e, sem trocar palavra ou gesto, afastamo-nos, como se tivéssemos apagado da lembrança todos os episódios ruins que nos envolveram. Ambos deixamos para mais tarde o evento mais profundo da reconciliação, esta só possível se nos rendêssemos ao sentimento do amor. De qualquer forma, o perdão havia sido conquistado.
Voltando ao título, posso dizer que confio plenamente em que iremos tornar ao plano material, cada qual com a missão de auxiliar o outro a superar todas as dificuldades ainda existentes no relacionamento. Se não for assim, os mestres nos propiciarão condições semelhantes na espiritualidade, para adquirirmos a sensação do afeto que nos faltou.



9. MEU NOME É DAMIANA

Comecei por citar o nome que meu pai me atribuiu na pia de batismo, evidentemente porque era devoto de São Damião e porque lhe havia prometido consagrar o filho macho que substituí.
Mais tarde, nasceria Cosme, que, apesar de não ser gêmeo, pelo menos me revelou definitivamente que o nome Damião não me fora atribuído por causa de São Pedro Damião nem de Frei Damião.
Educada na religião católica, somente quando vim a investigar os motivos mais íntimos de meu pai é que consegui relacionar sua crença ao culto ao orixá ioruba Ibeji, a quem cabe tutelar os gêmeos. Foi quando pus tento em que a festa de Cosme e Damião se dá no dia de meu aniversário, 27 de setembro. Por isso, não se importava o velho que nós freqüentássemos o Candomblé, levados pelas mãos de minha mãe.
No terreiro, eu não me dava bem. Talvez tivesse tido algum trauma quando bem criança, porque me assustava com o som dos atabaques e me repugnavam as danças.
Por conselho da mãe-de-santo, meus pais acabaram por me manter longe da umbanda, podendo comparecer ali apenas para ganhar guloseimas, por ocasião do meu aniversário.
Em todo o caso, tal influência persistiu no meu inconsciente, de forma que, adulta, me interessei pelas práticas do espiritismo, segundo a doutrina codificada por Allan Kardec, onde, aí sim, me dei bem, a ponto de me afastar do templo e dos ritos católicos.
Quando meu pai percebeu que a hora da morte se aproximava, mandou chamar-me. Queria saber se os espíritos que o rodeavam tinham uma aura de luz ou se estavam prestes a carregar com ele para o inferno.
— Eu não sei, pai — respondi-lhe. — A considerar que o senhor sempre foi uma pessoa que fez o bem para todos, deve estar consciente de que não poderá ser carregado para nenhum lugar de sofrimento.
— Damiana, minha filha, o meu maior medo não é esse. Acontece que me deixei enfeitiçar pelo candomblé, sem nunca tomar a decisão de deixar a igreja. Será que os santos dos padres vão ser fortes o suficiente para me arrancarem das mãos dos exus?
— Pai, o senhor está misturando as crenças. No espiritismo, a gente acha que se trata de sincretismo religioso, o que não terá nenhuma importância diante do fato de ter a pessoa realizado só coisas boas na vida. O pior que pode acontecer-lhe é ser chamado a estudar junto a alguma turma de ignorantes da doutrina dos espíritos. Trabalho não há de lhe faltar, porque o senhor sequer aceitou aposentar-se, sempre disposto a fazer o possível para ajudar os filhos, os netos, os irmãos, os sobrinhos e até os vizinhos.
— Nos últimos tempos, Damiana, eu me deixei impressionar pelo que lhe aconteceu na vida, porque você não teve nenhum medo de abandonar o catolicismo. Eu me lembrei das palavras da mãe-de-santo. A sua mãe lhe contou o que ela disse?
— Nunca falamos sobre isso.
— Eu acho que ela não quis influenciar no seu futuro. Mas a mãe-de-santo nos afirmou que você iria alcançar uma posição muito boa na vida. No começo, nós pensamos que iria ficar rica, que iria casar-se com alguém importante, qualquer coisa assim. Só muito depois é que percebemos que ela estava vaticinando um glorioso desempenho moral, espiritual, conforme a gente tem observado o quanto você faz para o povo no centro espírita.
— Pai, você está delirando. Não é nada disso. Lá, todas as pessoas se esforçam ao máximo para tornar aquele lugar um centro de luz e de felicidade. Se o senhor visse quanto trabalho nos dão os que comparecem com o espírito de ganância, quanta gente infeliz e sofredora, iria compreender que tudo quanto fazemos é ainda muito pouco perante a necessidade.
Meu pai estava, deveras, aguardando uma boa palavra de conforto, tanto que, assim que terminei de falar, ele pediu para chamar o padre, que viesse com os santos óleos para a extrema-unção. Nem deu tempo. Quando o sacerdote chegou, ele já havia partido.
Isto foi há mais de quarenta anos. Quando tocou a minha vez de desencarnar, logo imaginei que ele estivesse bem o bastante para comandar operosa falange de espíritos no trabalho de assistência aos necessitados.
Na verdade, durante todo aquele tempo, roguei a complacência dos guias do centro em que atuava, no sentido de me permitirem receber a visita de parentes, o que não se deu dentro do que chamamos fenômeno de incorporação. Soube, isto sim, por informações de terceiros, que todos se achavam bem e velavam por mim.
Por isso, ao acordar na espiritualidade, não me surpreendi com a presença de todas as pessoas queridas que me haviam antecipado. Entre os espíritos amados, meu pai, que me abraçou demoradamente, agradecendo-me baixinho:
— Damiana, minha filhinha, que Deus a abençoe por me haver esclarecido e por ter sido a minha estrela nesta jornada de amor e trabalho.
— Pai, cumpri o dever de filha, simplesmente.
— Com certeza, o seu papel de filha você desempenhou com muito bom coração. Mas observe quantos aqui vieram trazer as vibrações poderosas dos sentimentos mais ternos, porque você distribuiu, entre os seres que a procuraram em todas as circunstâncias, a mesma confiança que me infundiu no leito de morte.
De fato, muitos amigos estavam junto a mim, dedicando-me muito mais atenção do que eu me considerava merecedora. Meio envergonhada e em lágrimas, fui lembrando-me dos sacratíssimos momentos de nossos encontros terrenos, aquilatando a importância de haver mantido atitude serena e confiante, perante a misericórdia de Deus.
— Além do mais, afirmou meu pai, foi o seu exemplo que me conduziu, durante o tempo em que nos vimos separados. Obtive permissão para estar ao seu lado na qualidade de aprendiz dos valores doutrinários do espiritismo, o que me facultou a possibilidade de passar facilmente por todos os cursos em que me matriculei, para assimilar os ensinos que eu a via aplicando. Logo você irá entender a forte razão que me trouxe para torná-la ciente de que estou exercendo na colônia a função de instrutor.
Tanto bastou para me obrigar a reverenciar a bondade de Deus em minha pessoa, caindo em sentido pranto, no meio do qual balbuciei quanta prece sabia de cor e outras que meu coração agradecido produziu. Foi assim que adentrei de volta na espiritualidade.
Trouxe o meu testemunho feliz para revelar aos que trabalham na seara espírita o que eles já sabem, ou seja, que a honestidade de intenções e o exercício livre da caridade constituem um conjunto que podemos chamar de sabedoria na arte de viver. Principalmente, o sentimento da fé raciocinada, aquele que confronta a realidade em todas as épocas da vida de cada um, deve ser estimulado e vivenciado, sempre sem fazer-se acompanhar de qualquer preocupação.
Finalmente, para não ocupar mais espaço nesta obra conjunta, quero frisar que os amigos leitores que se deixarem contaminar por meu entusiasmo nesta redação vão sentir-se bem melhor, caso saibam reconhecer que estão dando aos semelhantes a oportunidade de crescer em virtudes, ainda que o façam apenas através de seu exemplo e boa vontade.
Quanto a mim, avanço nos estudos, compreendendo a cada novo aprendizado que o saber é infinito e que todos nós desta turma estamos na condição de estudantes de primeiras letras.
Fiquem com Deus!



10. A REBELIÃO

Depois de algum tempo que cheguei de volta da peregrinação terrena, regresso que se deu tumultuado e infeliz, tendo em vista que fui assassinado em plena guerra entre quadrilhas de traficantes de drogas, me vi reunido a um grupo de desordeiros que, como no orbe, pretendiam bagunçar a região.
Eu fora como que uma carta fora do baralho, buscando apaziguar os ânimos, defendendo quanto possível os pais de família envolvidos na criminalidade. Voto vencido quase sempre, via muitos serem transferidos à força para cá, deixando pessoas em desespero, porque colocadas na rua da amargura.
No meio dos arruaceiros, sentia-me deslocado mas deixava-me arrastar de um lado para outro, colaborando com a malvadeza por não querer provocar a desaprovação dos mais perversos.
Em vida, foi esse o principal característico de minha personalidade. Era um ser absolutamente passivo, principalmente porque gostava de me sentir baratinado, alheio aos movimentos espirituais mais elementares das pessoas de qualquer religião. Nunca precisei prestar assistência direta a ninguém, de sorte que jamais experimentei o prazer de me ver útil, realizando as tentativas de auxílio de modo tímido e ineficaz. Era apenas dentro da minha mente que as coisas pareciam injustas, tanto que, no dia de minha morte, lá estava eu atirando contra os inimigos.
Foi assim que me pareceu natural encontrar-me no seio de uma turbamulta de assassinos e ladrões, buscando desde logo me entrosar naquele ambiente tenebroso.
Durante alguns anos, corria com os demais de um lado para outro, atirando a esmo, subjugando criaturas indefesas, ajudando a aniquilar entidades que reapareciam a cada instante, como a nos provocar a ira.
Chega de descrição dessa época de total desarmonia.
Durante uma refrega, tendo levado três balázios na cabeça, caí consciente de que não poderia ali nem morrer nem sofrer qualquer impacto físico que me desfigurasse a personalidade. Eu mesmo iria ressurgir dentre os mortos, para prosseguir na asfixiante perseguição do nada.
Este ligeiro despertar da mente levou-me a considerar que, por certo, haveria dentre a multidão outros nas mesmas condições. Como nunca havia trocado idéia alguma com ninguém, surpreendi-me a emitir vibrações como a querer estabelecer contato com quem estivesse sentindo a perversão como algo deletério contra nós mesmos.
De fato, aproximaram-se alguns elementos que já haviam trocado impressões no mesmo sentido e me fizeram entender, cochichando e olhando muito para os lados, que não deveria chamar a atenção dos piores, dado que poderia ficar recluso em cadeias especiais que reservavam para castigar os dissidentes.
Disse que não me envolvera com pessoa alguma que me indicasse o caminho da religiosidade. Isso era verdade quanto à derradeira existência carnal. No entanto, como vim a saber posteriormente, desperdicei uma vida anterior encarnado na condição de sacerdote viciado e maroto. Em tal vida, durante a juventude, de qualquer modo, me dedicara aos estudos normais do seminário, conhecimento que se incrustara em meu espírito e que, de repente, aflorou na forma de uma ilha de sossego no redemoinho das sensações carnais que me mantiveram a mente enevoada, ainda sob o efeito pernicioso das drogas.
Preciso esclarecer que as nossas correrias também se davam em ambientes terrenos, os mais torpes, de sorte que, através de alguns indícios, pude concluir que deveria estar com mais de cinqüenta anos de idade e, no entanto, a minha figura física se mantivera com a idade dos vinte e dois. Esta descoberta foi fundamental para me tornar avesso às tropelias e ao comando dos perversos.
Sem saber direito o que fazer, numa dessas aventuras, agora já dentro do grupo que se afeiçoara à idéia de que as coisas não estavam bem, sugeri que nos refugiássemos num templo católico, confiando em que poderíamos encontrar um pouco de paz.
Deveras, quando ingressamos na grande nave da igreja, reinava um silêncio muito grande, havendo pouquíssimas pessoas a acompanhar o serviço religioso. Também da parte dos desencarnados, não vimos além de alguns espíritos, que se portavam de maneira tão contrita quanto os humanos.
De repente, ouvi claramente pronunciarem meu nome:
— ...Cláudio Alvarenga de Albuquerque e Silva, o nosso querido Claudinho, Senhor, que pereceu tão jovem, vitimado pela violência urbana. Eu lhe peço, ó Deus de Caridade e de Amor, que cuideis de aceitar em vosso reino de Paz e Felicidade, em nome dos venerandos pais, o nosso infeliz menino...
Levei um choque à menção de meus pais. Então, deveriam estar presentes. Ou a missa estava sendo oferecida por encomenda, post mortem? Como um relâmpago, passou-me pela idéia uma imagem que criara durante todos aqueles anos, a de que o meu afastamento do lar havia deixado meus pais tranqüilos, uma vez que a minha vida lhes havia sido um tormento constante.
Um dos espíritos se aproximou de mim e levou-me até o local em que estava o casal de velhos. Juro que quase não reconheci neles as figuras dos meus progenitores. Mas não havia como duvidar de que estavam verdadeiramente emocionados, a evocarem a minha passagem pela sua vida.
Se disser que me abalei diante daquela dor antiga, minto. Enchi-me, sim, de curiosidade, tanto que provoquei o companheiro que me havia apontado os velhos:
— Estão rememorando alguma data especial?
— Perfeitamente, Claudinho. Como vêm fazendo desde a sua morte há mais de trinta anos, na data de seu aniversário, mandam rezar uma missa em sua intenção, para aliviar-lhe o sofrimento purgativo.
— Só hoje é que eu fui trazido para cá ou não prestei atenção quando das cerimônias anteriores?
— Verdadeiramente, nunca o nosso pessoal conseguiu convencê-lo de que deveria comparecer ao culto.
— Vocês tentaram, de verdade?
— Mandamos toda uma equipe para cercá-lo, de sorte que as influências deletérias dos maus não se exercessem sobre sua personalidade. Precisávamos de sua reflexão.
— Foi quando descobri que estava morto, através das datas e da minha inalterada feição?
— Bem antes. Foi quando achamos que três balázios imaginários na sua cabeça lhe dariam impulso às reflexões.
— Por que eu jamais reconheci nenhum de seus enviados?
— Porque eles precisaram integrar-se fisionomicamente ao grupo. Quer vê-los como são na realidade?
— Claro.
Foi aí que os meus parceiros de fuga se transformaram em figuras mais consentâneas com a minha idéia de gente boa e honesta. Não eram anjos resplandecentes de luz.; eram espíritos que emitiam vibrações que me apaziguavam o ânimo.
— Preciso agradecer a meus pais?
— É muito cedo para você entender certas considerações de caráter filosófico, no entanto, posso dizer-lhe que amor não se agradece.; ao amor se corresponde.
— Mesmo porque, adiantei-me afoitamente, eles não iriam perceber a minha presença e, se percebessem, iriam ficar muito assustados.
— Com certeza.
— Posso considerar-me livre da corja dos malfeitores?
— Ainda não. Mesmo que você venha conosco e se disponha a obedecer às normas, se esmorecer ou julgar mais fácil correr de um lado para o outro a estudar e trabalhar, o que faz tempo que não faz, irá voltar para o lugar de que está sendo retirado.
Penso que tenha reproduzido o essencial de minha catarse, ou melhor, dos momentos em que atinei que estava sendo alvo da bondade de seres que não pensavam em prejudicar-me. Tais fatos decorreram há algum tempo, tendo hoje, em minha companhia, meus pais, que velam por mim na qualidade de amigos muito queridos.
Para falar a verdade, ainda não consegui entender as razões pelas quais se acham no dever desse compromisso. Também não estou preparado para revelações muito contundentes. Caso o passado nos coloque em campos opostos, o que é muito provável, não pretendo deixar-me levar por sentimentos de raiva, ódio ou fúria.
Esta redação faz parte do meu tratamento. Caso nada signifique colocada sob os olhos de estranhos, queiram perdoar-me o atrevimento. Para mim, cada palavra repercute na mente com um peso bastante particular, precisando esforçar-me para compreender o sentido de cada pensamento.
Fiquem nas mãos de Jesus!



11. UMA QUESTÃO DE PALAVRAS

Pensei entender o porquê de empregar terminologia considerada nobre, quando a minha extração social da última peregrinação terrena era das menos apaniguadas pela cultura livresca. Aí me veio à cabeça que as palavras se perdem, quando não repetidas através das gerações de pessoas. Foi assim que a língua latina, por exemplo, evoluiu para os diversos idiomas neolatinos.
A palavra que desejei utilizar era jumbo, redução de jumbo-jet, nome de aeronave considerada enorme pelos padrões de minha época de encarnado. Claro está que, atualmente, existem aviões muito maiores, sem contar que as aeronaves do futuro poderão demonstrar poder de transporte ainda superior.
Coloquei o problema para o encarnado que nos serve de intermediário e logo ele transformou a minha noção, afirmando-me que, hoje em dia, o termo jumbo está freqüentando os noticiários, em sua acepção marginal de cesta de produtos alimentícios e de higiene pessoal que os familiares levam aos condenados, nos dias de visita, não raramente para introduzir nos presídios armas e drogas.
Evidentemente, os pensamentos evocados pelas palavras dependem do contato que os leitores tenham tido com eles, segundo os contextos em que se aplicam de ordinário. Assim, palavras excessivamente técnicas, de uso comum no linguajar de determinados grupos de cientistas, vão quedar totalmente estranhas em textos como os nossos.
Do mesmo modo, se tentarmos explicar fenômenos corriqueiros e comezinhos do dia-a-dia deste pessoal da erraticidade, teremos a imensa dificuldade de que os termos mais parecidos com aqueles que utilizamos também não acharão repercussão na mente dos leitores encarnados, sem contar que muita gente sequer irá conseguir vencer o obstáculo da leitura, por ignorar o alfabeto. Outros poderão ouvir o texto, no entanto, muitíssimos se desinteressarão pelo conteúdo, dado que os temas de que tratamos se situam fora de seu círculo de idéias e de preocupações.
Esses são percalços que conseguimos vencer à custa de tornar as comunicações o mais próximo possível da esfera vital dos mortais, conquanto nem sempre seja exeqüível descrever sentimentos de superior emoção, sem aduzirmos taxeonomia correlata a eles.
Apreciem o exemplo acima do termo taxeonomia (que pode ser grafado taxionomia ou taxinomia) e percebam se vocês mesmos não se desvincularam, de repente, da seqüência de idéias que vinham decifrando.
Quem possuir o recurso do dicionário e a capacidade de pesquisar, poderá suplantar o problema facilmente, mas isto não corresponde ao comum das pessoas, nesta sociedade em que uns se preocupam com um tipo de jumbo e outros com o outro tipo bem diferente.
Claro está que nosso desenvolvimento visa a estabelecer paralelo entre a intenção do escritor e a assimilação do leitor, para podermos afirmar que mesmo as palavras de Jesus ficam sem produzir justo entendimento na mente da maioria. E estamos pensando nas frases de divulgação mais universal, pela repetição dos pastores de todos os cultos cristãos.
Será que “amem-se uns aos outros como eu os amei” será entendido e interpretado exatamente do mesmo jeito por todos? Aqui se trata do verbo amar, cujo significado reside nos próprios arcanos da consciência de quem, um dia, se sentiu atraído afetivamente por outrem. É que cada qual sabe avaliar a extensão de seu sentimento, mas quem poderá extrapolar as próprias limitações, para compreender todo o poder do amor de Jesus pelas pessoas?
Cabe, nesta altura, incentivar a preocupação com o estudo cada vez mais aprofundado dos temas morais, temas que, podemos dizer, se constituem em poços que não parecem ter fim. A cada pequena evolução nesse campo, amplia-se a margem de conotação sentimental, de sorte que todos os conhecimentos acabam adquirindo a necessidade de se reajustarem à nova perspectiva de entendimento.
Se tomarmos crianças em desenvolvimento junto à sociedade em que estão integrando-se, veremos que, da mesma forma que vão formulando respostas de comportamento perante as situações que vão descobrindo ao derredor, todos nós teremos de adaptar-nos às circunstâncias existenciais que irão apresentar-se a cada novo círculo em que adentrarmos.
Não basta comprometer-nos com o bom procedimento, o que é fundamental, é claro.; porém, havemos de criar hábitos cada vez mais purificados de ações consentâneas com a natureza da verdade, o que significa agir com sabedoria e descortino.
Relativamente à história de nossas existências, nada melhor do que a análise profunda das causas morais que promoveram este ou aquele procedimento em descompasso com as leis de Deus, para fazermos frutificar os atos de reparação, de sorte que jamais se repitam os maus juízos. Uma vez eliminado o vício ou defeito, oremos para que esqueçamos completamente as fases menos felizes da evolução, carregando no propósito de nos aproximarmos o mais possível dos desafetos, para, evidentemente, realizarmos a reconciliação com estima e boa vontade.
Este desenvolvimento temático de sentido meramente teórico vem coroar as descrições psicológicas fundamentadas nos eventos dramáticos oriundos das desavenças e dos mal-entendidos de toda espécie narrados anteriormente. Não é peça acabada e definitiva. São anotações pessoais do que de mais representativo fui capaz de assimilar dentre as explicações obtidas nas aulas a que venho assistindo.
São as experiências de vida e de morte que ilustram este florilégio que me despertaram para a elucidação, cujo principal escopo é o de fugir da tremenda sordidez que constituiria a reprodução dos fatos da minha vida. Tremi na base, como costumava dizer quando vivo, de modo que, conclua-se, ainda estão infiltradas em mim as piores sensações de desespero e de falência.
Eis que seguro a raposa pela cauda e viro-a pelo avesso, agora buscando demonstrar que as palavras se voltam contra o próprio autor, já que, em sendo capaz de usar e mesmo de abusar delas, não as domino em absoluto e faculto-lhes brincar com minha ignorância, colocando os leitores mais à vontade para atos de censura e crítica.
É como se atribuíssemos ao realejo a capacidade de criar melodias ou ao imbecil a possibilidade de elaborar um sistema filosófico. Parece-nos que ambos conseguem imitar sons e idéias, mas trazer para a frente dos leitores algo de proveito, só se transcreverem obras alheias.
Não vejo a hora de superar este momento crucial de esclarecimento, tanto que precisei esforçar-me ao máximo para, ao menos, montar arcabouço de sustentação textual condizente com essa mesma ambição, que não é desmedida, mas natural, conforme vou assenhoreando-me das noções elementares dos pontos essenciais da doutrina dos espíritos.
Eis a sugestão que lhes trago neste encerramento: não deixem passar a oportunidade da lucidez intelectual, para se enfronharem nas teses espíritas contidas nas obras codificadas por Allan Kardec, a saber: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e O Evangelho Segundo o Espiritismo. Para os mais atrevidos, recomendo também a leitura de O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo e de A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo.
Oremos para que haja alguém que tenha tido a coragem e a paciência de seguir-nos até este ponto, porque somente agora é que criamos, nós da turma Amigos da Espiritualidade, a ocasião mais propícia para ministrar os melhores conselhos que nos são possíveis.



12. PALAVRAS RÍSPIDAS

Anotei muitas palavras que me endereçaram os adversários, em todos os tempos de minha existência terrena e até fora dela. Era um tal de “José é isso”, “José é aquilo”, o que me infernizou a mente até bem pouco tempo atrás.
Como é que consegui livrar-me de tal peso? Simplesmente, buscando caracterizar a terminologia oposta, os chamados antônimos, para ver se se encaixavam com mais propriedade em mim.
De repente, compreendi que ao tonto, que ouvira várias vezes, não poderia opor o esperto correspondente. Como é que, então, me recusara a admitir que os outros poderiam estar certos? É que me animava a idéia de que havia em mim um valor intrínseco que os termos adversos punham em dúvida.
Ora, se não era tonto, nem esperto, o que era, na verdade? Era orgulhoso, vaidoso, ciumento, prepotente, egoísta, preguiçoso, furibundo, malévolo... Só que, desta vez, quem utilizava de ríspida nomenclatura era minha consciência, que se esclarecia à razão em que ia percebendo as mazelas contumazes da personalidade.
Era preciso, urgentemente, buscar os antônimos e, mais ainda, o sentido mais profundo deles como norma de conduta. Alheia à minha necessidade, a consciência remexeu mais no fundo o lodo das falências morais e me fez ver que bem poucas vezes fora agraciado por vocábulos de caráter positivo.
Foi uma verdadeira balbúrdia rememorativa. Aos poucos fui catalogando diversas passagens em que recebi elogios de pessoas amigas, íntimas ou não. A cada lembrança, posicionava-me sob a perspectiva da ocasião em que tais palavras haviam sido proferidas, notando que, em cada uma, o reflexo delas na mente se deixava acompanhar de observações perversas, tais como: “esse sujeito está querendo alguma coisa”, ou “que pena que eu mesmo não me considere assim, por isso ou aquilo...”
Dessa forma, havia anulado a força estimulante de cada citação, como se fora próprio da estrutura espiritual a desconfiança, o azedume, a tristeza, a falta de fé ou de convicção no beneplácito das almas alheias.
Chegado a esse ponto, o dilema: ou fora a repetida rejeição dos outros por mim manifestada em palavras ofensivas, ou fora eu mesmo que não concebera jamais a possibilidade de receber encômios justos e animadores, que redundou naquele espírito deprimido e avesso às naturais alegrias de quem se sente criatura do Senhor e, portanto, ser de grandeza espiritual equivalente a todos os outros.
Necessito de mais tempo para formular com clareza os objetivos de descrição psicológica tão complexa. Por isso, vou deixando o posto de trabalho, prometendo voltar outra hora. Não pensem, contudo, que esteja menoscabando a capacidade de os leitores efetuarem interpretação condizente com as minhas reais tendências. Eu é que infiro a dificuldade temática, a partir de minha própria propensão ao descrédito, com certeza por precisar esmiuçar ainda mais profundamente os cordames que conduzem os meus movimentos psíquicos.
Ao redigir o parágrafo acima, recebi poderoso influxo dos colegas e do mestre, no sentido de me fazerem sentir que a redação estava bastante clara e que havia, no entrecho elaborado, méritos condizentes com o nível da turma a que pertenço.
Pergunto aos leitores: como vocês acham que reagi? Teria rejeitado as palavras como se representassem mero incentivo para prosseguir? Ou teria julgado que estavam sendo os amigos bastante sinceros, a ponto de considerarem o meu trabalho digno de figurar entre os demais?
Pois bem, fiquei intrigado, porque me pareceu, finalmente, que estava sendo alvo de mais uma experiência, agora totalmente controlada, no sentido de me provocar outro exame de consciência, no momento presente e atual, de sorte que poderia aquilatar o desenvolvimento das qualidades em jogo.
Sendo assim, propus-me a avançar na confecção do texto, estabelecendo como objetivo, se não sagaz orientação aos amigos encarnados, ao menos possível roteiro a ser estabelecido para colegas mais novos que se vissem na mesma condição psicológica em que me achava envolvido.
O professor, acalmando a turma, me fez ver que, de certo modo, eu estava mantendo a perspectiva anterior, exigindo que me definisse segundo as diretrizes consignadas para os textos do grupo.
Desfaleci, pois logo me compenetrei de que estava reagindo como se as observações contivessem palavras ríspidas. Todavia, ninguém jamais se dirigira a mim com termos mais amenos e compreensivos. Eu precisava tomar jeito.
Bem comparando, é como agem as pessoas idosas ou descoroçoadas na Terra, que afirmam que já não mais têm idade ou presteza mental para aprender. A diferença é que aqui, na espiritualidade, a tendência é dar-se o contrário, ou seja, rejuvenescimento das potencialidades por acréscimo impreterível de virtudes.
Por isso, quando percebe que está incidindo em falha, cria o indivíduo inadiável necessidade de remediar o defeito, assegurando-se, desde logo, através do exercício da noção que adquiriu, de que os males estão sendo sanados definitivamente.
Eis como se apresentou a mim a compreensão do movimento defeituoso daquele mecanismo psíquico, de modo que precisei conceber redação em que se evidenciasse o fenômeno espiritual em todos os aspectos, desde o fato rudimentar como atitude e atividade, até a concepção de que não poderia deixar de efetuar a exemplificação vívida de sua cura.
Claro está que, longe da perfeição, este texto se apresenta eivado de falhas. Mas isso se deve aos pobres atributos de minha inteligência e aos parcos conhecimentos que arquivei na memória, o que me leva a outra observação igualmente importante, qual seja, a de que demonstrar excessiva humildade irá causar na mente do leitor a reação absolutamente normal de menoscabo da realização, pela influência negativa das assertivas pessoais.
Mas que fazer, se, no etéreo, a perspectiva evolutiva se dispõe de maneira muito mais ampla, obrigando os seres a considerações íntimas que o diminuem perante a pujança dos espíritos mais adiantados?! Respondo de forma prática: deve-se levantar a lebre e levar ao parecer dos leitores encarnados todo o sistema que utilizam para bloquear a necessidade de mudança de procedimento, toda vez que se deparam com defeitos e senões de caráter moral ou espiritual.
Tenho lido muitas mensagens dos irmãos do etéreo dispostas de forma mais ou menos sutil como sermões: “façam isto, não façam aquilo...”, prometendo, no primeiro caso, recompensas e, no segundo, punições. A fórmula é que, talvez, não venha a arrastar todos os leitores. Preferimos apontar os defeitos em nós e as soluções que encontramos. Mas sabemos que corremos o risco de ser acusados de inferioridade e, por isso mesmo, faltos de autoridade para servir de exemplo.
Fazem-me sinal para suspender o ditado, dado que estou caminhando sobre as pegadas que venho recriminando. O melhor que devo fazer é convocar as consciências e deixá-las agir espontaneamente, mesmo porque, vai dia, vem dia, todos chegaremos às encruzilhadas da existência.
Para finalizar, devo solicitar que me perdoem a pretensão de haver realizado algo substancioso. Bem avaliado, este comentário deverá surtir o bom efeito de despertar para análise mais profunda e adequada de todas as minhas considerações. Ou será que empreguei tão-somente palavras ríspidas?
Bom desempenho, queridíssimos irmãos leitores, quaisquer sejam as observações que estejam realizando a respeito deste trabalho!



13. RENEGANDO O MAL

Adivinhei que poderia estar presente em dia de mediunização, para expor alguns pensamentos à consideração crítica dos leitores. E tal fato se deu ainda durante meu último passeio encarnado pelo orbe.
Como poderia tê-lo feito?
Simplesmente, por ter tido a oportunidade de conhecer a doutrina espírita e por haver lido diversas comunicações publicadas por adeptos.
Mas esse pressuposto, uma vez divulgadas mensagens como esta, o que está ocorrendo cada vez com maior freqüência, vai tornando-se fato banal ao alcance de muitas pessoas. Muito mais importante do que imaginar-se um dia a redigir e a transmitir textos a médiuns escreventes é conjeturar a possibilidade de demorar a fazê-lo, o que seria deveras lamentável, pois constituirá claro indício de que o desenvolvimento emperrou.
Aí, irremediavelmente, surgem questões fatais para o raciocínio que acima expendi. É que o número de médiuns jamais haverá de ser muito grande, especialmente daqueles dispostos a receber mensagens deste teor. Por outro lado, raciocinando por absurdo, caso a quantidade de médiuns bastasse para ajudar a todos os espíritos, não haveria necessidade de se transmitirem todos os textos, porque seriam repetitivos e porque não haveria papel no mundo para tanta redação.
Abrindo parêntese, faço referência ao fato de que pertencemos a geração, se nos permitirem o termo, de apaniguados, já que cumprimos mera obrigação de caráter escolar, embora, aos olhos de muitos mortais, tenhamos a responsabilidade de não desviar ninguém do reto caminhar evolutivo.
Eis que revelo a íntima esperança de que, pelo acúmulo das obras ditas mediúnicas, os editores selecionem apenas as mais significativas e oportunas, deixando mofar nas prateleiras os originais menos categorizados, até que, engolfados pelo grande volume das comunicações de mérito, desapareçam definitivamente.
Mas o desejo acima não deve causar espanto nem deve levantar a suspeita de que me angustio perante o trabalho. O que me vem atrapalhando é o fato de que não me dediquei exaustivamente à composição de textos ao gosto dos humanos, tendo preferido estabelecer como prioridade o auxílio aos necessitados, aos humildes, aos intelectualmente indefesos ou fisicamente defeituosos.
De novo, provoco uma reação perfeitamente justa, qual seja, a de que as pessoas que exercem encargos práticos e administrativos não se habilitem a merecer crescimento espiritual capaz de encaminhá-las desde logo para esferas mais elevadas, sem a necessidade de perpassarem pela fase das composições e dos ditados mediúnicos.
Unindo as pontas das observações, quero deixar firmado que todos quantos renegarem o mal, em todas as circunstâncias da existência, adquirirão habilidade suficiente para trabalhar diretamente sobre as mentes daqueles a quem devem dirigir conselhos e orientações. Não irão precisar passar por testes como este, podendo considerar-se diplomados e preparados para enfrentar tarefas mais complexas.
Dirigindo-se a mim, o mestre perguntou:
— Luciano, quando você pressupôs que iria estar nesta situação, aceitou a idéia com prazer ou rejeitou-a, temendo que o esforço seria vão e extremamente oneroso?
— Mestre, respondi, devo declarar que temi de início, já que as minhas leituras eram de obras de elevado valor. Sabia que, naquele momento, não teria condições de realizar algo semelhante. Mas superei a aflita reação, considerando que os organizadores e orientadores das turmas cujas atribuições incluíssem transmissões psicográficas não iriam deixar ao desamparo os que fossem designados para a tarefa.
— Quer dizer que você está comunicando aos encarnados que devem ficar tranqüilos quanto a serem chamados para a escrita?
— Perfeitamente. E digo mais: agora que estou aqui, tomei gosto e, se me permitirem, acabarei indo muito além do que havia planejado.
— Evidentemente...
— Evidentemente estou brincando, porque, no estado de felicidade em que me encontro, não vejo razão para não transbordar um pouco para estas tão mal traçadas linhas...
A turma gostou da minha saída, aplaudindo-me. Contudo, o mestre continuou sisudo e solicitou-me que continuasse a partir do momento em que me interrompeu.
Precisei respirar fundo para voltar a concatenar as idéias, lembrando-me de que deveria cumprir o título, renegando o mal de que me via tomado. Foi quando me recordei da prece dominical, quando os crentes solicitam ao Senhor que os impeça de cair em tentação e os livre de todo o mal.
Em geral, como eu mesmo durante toda a minha vida, as pessoas imaginam que não existe nenhuma relação entre as tentações e o mal. Aqui na Escolinha, fui levado a refletir a respeito, chegando à conclusão de que, se as tentações constituem estímulos exteriores sobre a vontade dos indivíduos, o mal é o que se incrusta em sua personalidade. É como se lá estivesse consignado que, por exemplo, houvesse um dinheiro a ser subtraído dos cofres públicos e que esse fosse o mal de que devêssemos ser afastados.
Ao contrário, toda ocasião que acaba fazendo o ladrão é porque o mal do furto ou do roubo se impregnava nas pessoas. Uma pessoa moralmente bem constituída jamais seria capaz de cair em tentação, uma vez que estaria livre do mal.
Desejo ir um pouco além.
Vamos supor que uma pessoa se veja perante um assassino que lhe dê vários tiros. Um momento antes, temendo o pior, solicitou ao Senhor que a livrasse do mal, pensando que aquele facínora fosse a própria personificação dele. No entanto, uns poucos instantes depois, lá vem ela para a espiritualidade.
Qual seria o mal de que deveria livrar-se?
Deveria livrar-se, principalmente, da tentação de desejar que tudo de ruim pudesse ocorrer para o criminoso. Esse seria um dos males de que estaria afetada a vítima. Outro residiria na tentação de acusar o Senhor de haver desleixado de sua segurança, não atendendo à solicitação.
Renegar o mal, em tal circunstância, será concordar com a concepção de que existem males que vêm para bem, ou seja, envidar todos os esforços para extrair do incidente a lição mais consentânea com as diretrizes estabelecidas nas leis naturais, premunindo-se com a sabedoria de entender e aplicar a lei da destruição conjugada à da conservação e às da justiça e do amor.
Ninguém neste grupo irá, como verão os leitores, esgotar os assuntos. O que estou relatando de mais importante, para não deixar as conclusões muito no ar, é que, espírita convicto em vida, jamais me ative a considerar estes aspectos da oração. Eis o exemplo mais pungente e eficaz de que, apesar de tudo, as pessoas conseguem extrair lições a posteriori, aproveitando-se das experiências ruins da vida para desenvolver teses que ultrapassam o simples limiar do conhecimento humano.
Se não servir para mais nada, pelo menos este texto deve despertar a atenção dos amigos para o fato de que existem alegria e conforto cá entre nós, verdadeiro sentimento de confiança em que, quando voltarmos ao plano da realidade terrestre como encarnados, teremos melhores condições de renegar o mal, lutando por concretizar as intuições em que se transformarão os conhecimentos de agora.



14. AS TENDÊNCIAS PSÍQUICAS

Ao chegar de volta à erraticidade, vinha descontente comigo mesmo. Não que me acusasse de haver falhado em relação aos compromissos assumidos com as pessoas de minha convivência. É que, pela minha cabeça, inadvertidamente, passavam sombras e temores de fatos desvinculados da realidade.
Explico-me.
Em determinadas horas, estando livre de quaisquer preocupações, porque minha vida transcorria tranqüila e afortunada, dançavam no ar personagens dantescas, fazendo-me temeroso de que tragédias pudessem ocorrer comigo ou com pessoas da família.
Seriam reflexos do tétrico noticiário jornalístico?
Talvez. Mas eu achava que tais fenômenos mentais não se coadunavam com o meu estado físico e espiritual, a partir de tantos benefícios que a vida me outorgava.
Por que, naquelas horas de devaneio, não aprofundava os sentimentos, em busca das vibrações superiores dos seres melhor dotados? Por que não desenvolvia teses filosóficas de cunho mais abrangente, a partir dos dados hauridos nas leituras das obras de Kardec, por exemplo?
Não. Era só dar-me alguns momentos de repouso e lá compareciam as idéias mais estapafúrdias, sem que, vejam bem, eu me regozijasse com elas. Simplesmente, não atinei a melhor maneira de afastá-las de mim.
De início, achava que estava dando trela a seres do espaço que, maldosamente, gozavam com a minha falta de concentração nos temas da pureza e da virtude. Depois, comecei a suspeitar de que o que havia, de fato, era completa falta de aptidão para o pensamento abstrato. Finalmente, cheguei à conclusão de que não tinha cabedal suficiente para interessar-me por conhecimentos mais complexos e organizados.
Ao chegar aqui, corri em busca de auxílio, invocando a presença dos protetores, do anjo guardião, dos espíritos que se ligaram a mim durante tantos anos de trabalho mediúnico. Foi quando percebi a existência da forte pretensão de que todos eles tivessem passado o tempo inteiro ao meu lado, afastando os perversos, só liberando aqueles que eu mesmo, inconscientemente, chamava, para os tormentos de sempre.
Não me apercebera de como é que se dá a proteção dos seres desencarnados. Se tivesse meditado a respeito, facilmente teria compreendido que um elo qualquer de ligação fluídica devia existir entre protetor e protegido, de modo que, pela vibração da alma do terrestre, o ser errático fica sabendo da situação em que o tal se encontra, providenciando, então, se necessário, a influência positiva.
Em vida, o máximo que alcancei supor era que os responsáveis pelo meu bom desempenho convocavam espíritos menos adiantados para se manterem ao meu lado, chamando os maiorais, quando sentiam que periclitavam os meus sentimentos ou declinavam as minhas forças mentais.
Estando a freqüentar as primeiras aulas nesta Escolinha, muitas vezes me via arremessado virtualmente na escuridão do báratro, perseguido, acossado, fustigado por seres de mais baixa condição moral. Era a persistência daquele meu movimento de alma, daquela tendência psíquica, que se mantinha elaborando quadros e circunstâncias muito semelhantes às dos outros tempos.
Mas, aos poucos, buscando mergulhar no trabalho, fui percebendo que tal característica se resolvia, para cada um, de forma específica. Havia os que se deixavam vencer por cansaço desesperador.; outros que se assustavam até com a própria sombra.; uns amargavam rancores contra fantasmas criados em suas mentes.; outros choravam perdas que jamais tiveram. E assim por diante.
Unimo-nos para afastar de vez tais idiossincrasias. Refizemos o passado. Julgamos as menores ações em desajuste com as recomendações evangélicas. Criticamos o desmazelo, a injustiça, a falta de critério em apurar a lealdade das pessoas e muitas outras atividades físicas e mentais de outrora, sempre no sentido de averiguar como é que se constituíam em causa para os efeitos depressivos.
Na base de todos os raciocínios, achava-se, vejam só, a insegurança, a desconfiança de que não seríamos capazes de suplantar os devaneios. E isto em virtude de termos criado o hábito de não fugir verdadeiramente dos embates psíquicos. Era como se nos contentássemos com o fato de existirem tais núcleos de inferioridade espiritual, o que nos propunha uma distração efetiva, ao contrário da fantasmagoria da própria elucubração íntima.
— Você acha que está sendo suficientemente claro, para provocar nos leitores reflexão condicionada aos próprios sentimentos? — perguntou-me o instrutor.
— Penso que sim, principalmente porque, além da descrição do fenômeno, também estou deixando a solução para o problema.
— Quer dizer que você está se satisfazendo com o seu trabalho de hoje?
— Perfeitamente, caro mestre. Conquanto jamais pudesse conseguir abranger todos os aspectos da situação mental que descrevi, considero que nem tudo deve ficar ao encargo dos mensageiros. A responsabilidade deve ser dividida de forma que os leitores também assumam o compromisso de policiar o procedimento inócuo das fantasias grosseiras.
— Por favor, meu caro Jerônimo, encerre as considerações, não deixando de assinalar o quanto ainda persiste o problema para você e para os membros do grupo.
Na verdade, antes de considerar o fenômeno psíquico da persistência, preciso referir outro aspecto importante, qual seja, o de que existem intuições, ou melhor, inspirações que podem confundir-se com essa impregnação de idéias absurdas.
Quando as coisas que ocorrem na mente levam o indivíduo a considerar apenas aspectos negativos e opressores, temos problemas de adaptação à realidade circundante. É claro. Contudo, muitas vezes, pensamos sobre coisas boas, temos sugestões mentais de eventos felizes e de realizações positivas.
Aqui também cabe suspeitar de que estamos sendo sugestionados por amigos da espiritualidade, por mentores e guias, mesmo no etéreo. Também podemos planejar atividades e até simples atitudes que redundem em benefício para nós mesmos ou para outrem. Neste caso, até que é bastante agradável ficar imaginando o que pode dar certo e os meios mais eficazes para se alcançarem tais metas.
Isto posto, ressalvado o fato de que temos de estar sempre atentos para a consignação de pensamentos felizes e promissores, devemos afirmar que muitas vezes meus companheiros e eu ainda descaímos, lutando ferreamente para não permanecer por muito tempo em estado de sofrimento meramente intelectual.
A solução se dará após compreendermos o que nos está causando tais problemas. A atenuação do mal, porém, pode encontrar-se na prece oportuna e na solicitação de ajuda dos amigos da espiritualidade, como muitos encarnados, preocupados com a incidência amiudada desses rústicos devaneios, procuram ajuda profissional de psicoterapeutas ou de religiosos.
Numa dessas consultas, finalmente, reunidos os pobres estudantes, ouvimos de experiente mentor que era possível transformar o efeito danoso em informação útil para a eliminação do mal. Para tanto, será preciso que o paciente não se deixe envolver emocionalmente, mas tenha a pachorra de ir analisando, no decurso do acontecimento, cada pequenino reflexo mental das apreensões e sustos, sustentando a atitude com a contra-ofensiva dos ideais evolutivos dispostos claramente, de forma a provocar a criação de barreira doutrinária ou filosófica. A intenção, explicou-nos ele, é exaurir as forças subliminares, é esgotar as reservas energéticas postas a serviço do inconsciente.
Afinal de contas, o que se deve ter em vista é o bem, é a saúde mental, é a preparação espiritual do trabalhador, já que todos pretendemos auxiliar o semelhante, como objetivo maior do socorrismo fraterno.
Concluindo, o orientador pediu-nos que não nos ativéssemos a observar preceitos de muito elevada conotação evangélica, já que a absorção dos princípios superiores do amor, da justiça, do perdão incondicional, da fraternidade, da solidariedade, da liberdade produzida pela compreensão dos direitos universais, ficaria para mais tarde, quando fôssemos capazes de dominar plenamente todos os desejos íntimos e tendências psíquicas.



15. CORDIAL RECEPÇÃO

Dentre todas as experiências de vida e de morte da minha existência, a que melhor recordação me traz foi o modo pelo qual me receberam de volta da derradeira passagem pelo orbe. Nunca antes foi tão tranqüilo o meu despertar na erraticidade. Imaginem a minha alegria ao acordar nos braços afetuosos de minha mãe, do mesmo jeito que ela me recebeu quando nasci.
Muitos de vocês hão de estar perguntando por que a minha euforia devesse ficar tão assinalada.
Ocorre que o normal da chegada aqui é a reprodução das angústias finais da existência, pela perspectiva do desconhecido. Quase sempre, também, quando deixamos a vida já velhos, trazemos as impressões da degenerescência física a coagir o espírito através do sofrimento.
Entretanto, pela primeira vez, a minha atitude foi de agradecimento pelas oportunidades que tive de estudar e aprender a doutrina dos espíritos, segundo a codificação de Allan Kardec. Seguro de haver realizado muitos atos caridosos, sem orgulho ou vaidade, criei a suave expectativa de merecer passar, de um plano a outro, consciente e lúcido, o que me emprestaria o poder de assimilar mui rapidamente as notações do campo de energia da espiritualidade.
Não quero, porém, deixar consignada a idéia de que os leitores estão perante um ser de superior categoria no ranking evolutivo. Em absoluto. Estive muito perto de falir e só não o fiz por respeitar até o último alento o direito dos semelhantes, alcançando entender o real significado da abnegação e do sacrifício de certa postura meramente egoística dos seres humanos.
No campo profissional, dediquei-me à medicina, especializando-me em um setor que me permitiu auxiliar os pobres mais diretamente: fui clínico geral e pneumatologista. Trabalhei a vida toda em postos de saúde, abrindo mão da aposentadoria por tempo de serviço, tendo sido forçado a aceitar a pensão do estado ao completar setenta anos de idade. Mesmo assim, prossegui oferecendo meus préstimos a um hospital, trabalhando até a véspera de minha própria internação, afetado por tumor maligno no cérebro.
Jamais contribuí com meus conhecimentos para a cura das pessoas que procuravam o centro espírita, contudo, não me fazia de rogado e encaminhava os doentes para os ambulatórios mais à mão. Ao centro espírita doei meu empenho em transformar cada pequenino desvio psicológico do reto caminho da doutrina em algo positivo, elevando, através do contágio do meu nunca negado entusiasmo pela vida, todas as sutis defasagens psíquicas dos companheiros e dos assistidos.
Brincavam comigo, afirmando que havia errado de carreira, que deveria ter escolhido a psiquiatria ou a psicanálise. Eu achava graça, concordava, mas nunca me deixei embalar pelo orgulho, ao obrar em favor da melhoria das pessoas.
Claro está que nem sempre fui compreendido. Claro está que, muitas vezes, evoquei a figura de Jesus no lenho maldito, para justificar pequeninas decepções. Um dia, arrastado pela lembrança dos trinta dinheiros, critiquei mentalmente uma criatura, dando-lhe um nome que não me atrevi mais a repetir desde que caí em mim, compreendendo que a minha vibração estava longe de ser a ideal para atrair a simpatia dos seres amigos da espiritualidade que poderiam auxiliar aos que se envolveram naquele episódio.
Falha-me, hoje, a crítica mais percuciente, no sentido de melhor caracterizar-me a personalidade, para os que pretendem usufruir a mesma regalia que eu. Possivelmente, após a leitura atenta de todas as comunicações desta turma, os amigos encarnados consigam ordenar as idéias e os sentimentos, dando forma definitiva aos preceitos que melhor lhes caiba seguir para o objetivo de suas vidas.
O que posso assegurar-lhes é que o maior de todos os percalços que precisei vencer foi o da vaidade, uma vez que ser médico entre pessoas que mal passaram dos estudos elementares constitui projeção muitíssimo ponderável. Para o efeito da humildade, lia constantemente as resenhas médicas, obrigando-me a perceber o quanto estava longe dos luminares da ciência.
Falta-me consignar voto de confiança aos que se dedicam à administração das instituições espíritas, à vista, sobretudo, de haver sido um colaborador empenhado em ajudar, corrigindo quanto possível os desvios da aplicação dos recursos imateriais ou espirituais, de posse dos quais se acham os que lidam mediunicamente com as entidades do etéreo. Mas este não é tema para o qual possa contribuir com sabedoria, dado que jamais aceitei partilhar oficialmente das responsabilidades, preferindo apenas auxiliar, principalmente porque jamais pude oferecer a segurança de horário definido. Os médicos hão de compreender-me.
Perfilhando as normas estabelecidas para este contato, ponho-me às ordens do mentor, para as observações que julgar conveniente.
— Caro Ademar, acho que você estabeleceu parâmetro de conduta pessoal altamente estimulante. Comente a possibilidade de você mesmo obter sucesso, sem trabalhar, na Terra, junto a equipe de espiritistas.
— Creio, mestre, que, sob a batuta de meus pais, qualquer que fosse a crença em que me educassem, alcançaria equilibrar-me a vida, no sentido de favorecer o espírito de solidariedade, muito particularmente por me deixar envolver emocionalmente pelos processos de dor e sofrimento dos semelhantes, que foi o que me levou a considerar a medicina como o melhor roteiro profissional para atingir tal objetivo.
— Você acha que todos os médicos poderiam pensar assim?
— A partir da crua realidade das salas de emergência, onde nem todos os que entram saem curados, é justo que se arrefeçam os ideais elevados de eficácia profissional. No entanto, quando não pendam para o materialismo ateu, todos poderão empenhar-se ao máximo para salvar a vida dos pacientes.
— Por que a ressalva quanto aos ateus?
— Mero preconceito, penso eu. Acostumados com a morte, percebem as próprias limitações e não deixam lugar para a atuação das equipes socorristas do etéreo. Não desistem mas também não se esforçam por evocar as nobres forças energéticas, cuja existência não admitem. Contudo, devo resguardar muitos corações generosos a baterem em tais peitos, exceções que, espero, se tornem regra geral em breve.
— Muito bem.

Encerro, solicitando que cada qual se estimule a transferir o mesmo raciocínio para as próprias profissões. Talvez nem todas sejam adequadas a servir à causa da caridade, entretanto, sem dúvida, todas podem ser exercidas com dignidade e sabedoria, desde que não contrariem a lei maior do amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Quanto à felicidade de virem a ser recepcionados festivamente no etéreo, acho que todos pensarão a respeito.



16. MEU NOME É GILBERTO

Normalmente, os autores assinam embaixo da mensagem. Desejei agir diferentemente, assinalando desde logo o nome pelo qual fui conhecido na derradeira vida. Poderia dizer que meu nome também foi Ariovaldo, Maria Antônia, Péricles, Rafael e outros, todos verdadeiros, correspondentes a sucessivas encarnações.
Eis a maneira que encontrei de dizer-lhes que sou capaz de lembrar-me de passado bastante distante, podendo restabelecer, dia a dia, cada pequenina ação correta ou incorreta da existência.
Qual a minha expectativa atual?
A de continuar encarnando-me no orbe terráqueo, naturalmente, tendo em vista que, pelos estudos que temos empreendido nesta instituição educacional, falta muito para eu aprender o mínimo que me permitirá ascender ao próximo patamar evolutivo.
Aqui preciso repetir vários colegas, uma vez que se levantará ponderável dúvida na mente dos leitores, qual seja:
— Como é que se podem conceber todas as virtudes como elementos do progresso, sem a correlata aplicação ou absorção prática?
É que o espírito está pronto, mas a carne é fraca, no dizer de Jesus.
Aliás, a passagem nos evangelhos é a seguinte: Mateus (26:41): Vigilate et orate ut non intretis in temptationem spiritus quidem promptus est caro autem infirma. (Vulgata.) Traduzindo: Vigiem e orem para não cair em tentação.; o espírito, com certeza, está pronto.; a carne, não obstante, é fraca.
Vou tentar explicar meu pensamento.
É preciso que o espírito adquira condições de subjugar a matéria. Envolto pelo perispírito, no etéreo, não sofre a pressão causada pelas necessidades terrenas. Voltando ao estado bruto do mundo, a carne exerce poder sobre ele, obrigando-o a reagir conforme as tendências morais e não segundo os conhecimentos.
Posso exemplificar com aqueles alunos que adquirem noções de acentuação gráfica, mas que não se interessam em aplicá-las quando escrevem. Outro exemplo muito expressivo: as pessoas que têm conhecimento científico a respeito dos males do tabagismo ou do alcoolismo mas que prosseguem envenenando-se.
— Quer dizer que todos temos de virar monges budistas ou ascéticos, para podermos dominar as tentações, orientando-nos no sentido de ascender metafisicamente?
Não é isso mas é quase isso.
Muitas vezes, a fase final do crescimento espiritual se dá sem que haja precisão de o indivíduo encarnar-se. Eu não conheci nenhum que desaparecesse de vista por partir para mais alto na escala espírita. Mas fui bem orientado pelos mestres quanto à leitura de textos em que se descrevem tais fatos.
Revelei meu objetivo: o de oferecer o mesmo nível de experiência aos encarnados, embora não consiga demonstrar-lhes, tintim por tintim, todas as passagens psíquicas obrigatórias. Mantenho-me na teoria, ainda porque sucessos não se transferem: citam-se.
— Gilberto, pediu-me o professor, cite uma lição que você aprendeu através do conhecimento de suas várias encarnações.
— Foram muitas, caro mestre. Dentre elas, a mais dramática, talvez, foi a necessidade de aceitar o fato de que minha companheira de encarnação, adorada criatura, no etéreo trazia a lembrança de outros amores, como, de resto, eu também.
— Você precisou eliminar o pecado do ciúme, vamos dizer assim.
— Por outro lado, precisei compreender que a paixão é imprescindível durante certa época do convívio entre os parceiros sexuais. Passado o fogo sagrado do amor voluptuoso, restam as cinzas da compreensão e do companheirismo.
— Concorda você com aqueles que dizem que o sentimento da amizade é o que perdura?
— Discordo completamente. A verdadeira amizade nada mais é do que amor amadurecido, terno, duradouro. O que se entende habitualmente por amizade perde-se com a separação. As pessoas recordam-se dos tempos em que frutificaram tais laços, entretanto, voltando a encontrar-se, percebem que houve mudanças fundamentais nas personalidades e que a memória elegeu condição psíquica não mais existente. Não são poucos os que se decepcionam. Amores reais transformados em admiração e respeito têm o condão de unir os seres cada vez mais, não importando que tenha havido outros relacionamentos e outras benquerenças.
— Dou-me por satisfeito. Queira encerrar sua mensagem.
Depois de agradecer a sugestão temática ao professor, refleti sobre o que afirmei a ele, chegando à conclusão de que o desenvolvimento frio e calculado das idéias que expus pode levar os leitores a imaginar que, durante sua vida atual, se justificam as traições, em nome de um futuro ou de um passado de círculos afetivos mais abrangentes.
Peço que não cheguem a tal resultado. Esperem para analisarem-se quando estiverem aptos a discernir quais conseqüências são positivas e quais são negativas, a partir do conhecimento de suas vidas pregressas. Tomem as minhas palavras como mero aviso, como advertência oportuna, caso sintam forte tendência para o ciúme, o chamado tempero do amor. Se tal for a condição desse sentimento, até que é saudável. O que é pernicioso é o exagero da reação que proíbe ao ser amado viver uma realidade que exclua a pessoa afetada.
Em suma, para não ir demasiado longe nas considerações, previnam-se os amigos contra a infestação do espírito pelo vírus do ódio, o que transforma completamente a natureza do sentimento primitivo, não se justificando jamais uma agressão.
Bem sei que, entre os humanos, correu o pensamento de que aquele que ama não mata. Mas não é preciso chegar às vias de fato para tal resultado. Quando a pessoa se deixa envolver pelo excesso de melindre, julgando-se ofendida, está matando aquele amor que um dia viveu como paixão. Ao chegar de regresso ao campo da espiritualidade, irá despertar para as falhas de caráter e de personalidade, obrigando-se, quase sempre, a violenta crise, já que, no fundo de tudo, irá descobrir os defeitos tremendos do egoísmo e do orgulho.
A solução Jesus nos deu: vigiar e orar. O mais virá por acréscimo de misericórdia do Criador, ou seja, uma vida espiritual plena de boa vontade no etéreo, que é por onde todos vamos caminhar sem os percalços da fragilidade carnal, assim que alcançarmos progredir.



17. REALIDADE E FANTASIA

Um dos problemas mais difíceis de contornar nestas comunicações mediúnicas reside no quanto de realidade se consegue passar aos leitores, sem provocar reações de conteúdo fantasioso.
A imaginação deve ser solicitada a participar da configuração da espiritualidade na justa medida em que não existem parâmetros existenciais que possam constituir-se em segura referência para a construção mental do mundo dos desencarnados.
Quando requeremos a ajuda das feições que a energia toma na matéria, corremos o risco de fazer supor que, no etéreo, de alguma forma, se componham artefatos, objetos e utensílios, para serem usados através de órgãos como a mão, o pé ou a cauda dos animais. Assim, se dissermos que alguém aqui corta uma fatia de pão, estamos simplesmente referindo-nos a um trabalho ideal de partição de conjunto molecular destinado a alimentar o espírito desencarnado.
Vamos esclarecer desde logo que, para muitos de nós, os mais atrasados, a realidade dessa conjuntura se apresenta exatamente como se ele estivesse cortando um filão na Terra, usando as mãos ou até mesmo um objeto cortante como uma faca. Mas esta ilusão significa simplesmente a persistência do processo imaginativo, como natural defesa da mente que necessita concretizar as idéias de conformidade com as experiências da derradeira jornada terrena.
Por outro lado, quando observamos os homens, se mais adiantados, podemos vê-los como um feixe de energias realizando uma ação qualquer. Seres mais poderosos conseguem anular os efeitos materiais produzidos pelo corpo denso, analisando tão-somente o próprio espírito ali enfaixado, concebendo intenções, aparato moral, extensão do intelecto, gama de qualidades e de defeitos e assim por diante.
Ora, ao revelarmos tais coisas, podemos causar bloqueios e suspeitas justificáveis do ponto de vista do sensório carnal. Por exemplo, logo podem levantar a questão de que, se não temos o dom da visão, como é que podemos enxergar isso ou aquilo.
Quem disse que não temos o dom da visão? Temos recursos fluídicos muito mais apropriados para a percepção dos fenômenos etéreos do que os dos seres vivos em relação à captação das ondas luminosas que lhes traduzem os aspectos exteriores das coisas.
À vista de tanta complicação conceptual é que os escritores e mensageiros da espiritualidade se sentem mais à vontade descrevendo o mundo em que estão através de elementos extraídos da realidade material dos encarnados. No entanto, sempre é bom que alguém tente participar aos amigos leitores que a realidade daqui pode confundir-se com a fantasia daí, como no caso de cenas totalmente abstratas reproduzidas por médiuns pintores, apenas para estimular-lhes o pensamento indutivo.
Quando rascunhei esta peça, a reação de muitos colegas foi de descrença quanto à possibilidade de o escrevente à disposição ser capaz de redigir o texto de forma a traduzir os pensamentos, sem inserir nele preconceitos ou idéias fixas. Até o Professor Álvaro desejou prevenir-me:
— Querido discípulo, não espere muito de sua comunicação. O mais provável é que o médium se assuste e refugue o ditado. Mesmo que tal não ocorra, ainda é possível que suas vibrações não alcancem termos ou expressões que possam corresponder a seus objetivos, dado, exatamente, que, como você está frisando, as duas realidades não se encaixam. Se existe dificuldade no plano físico ou material, também são díspares os recursos intelectuais e, portanto, os meios de comunicação. Sendo assim, se você considerar demasiado pobre o resultado da intermediação mediúnica, solicite que se destrua o trabalho escrito.
— Prezado instrutor, o seu aviso irá ser seguido à risca. Entretanto, vou conduzir o ditado pausadamente, para não permitir que haja necessidade posterior de correções, o que poderia gerar, na mente do encarnado, dúvidas que o arrastariam a alterações, supressões ou acréscimos perniciosos. Caso a mensagem reúna méritos para permanecer ao lado das demais, ficarei muitíssimo satisfeito, porque terei a certeza de que alguém poderá aproveitar-se destas precárias informações, para formular mais realisticamente sua concepção do mundo espiritual.
Em seguida, refleti sobre a perspectiva de me deparar com o texto impresso, de sorte que me obriguei a reformular o rascunho, acrescentando as dignas observações do mestre, especialmente porque as achei importantes para quantos leitores se dispusessem a desconfiar de fraude ou de animismo da parte do auxiliar encarnado.
É notável como, a partir de dados concretos, os humanos conseguem elaborar fantasias complexas, quando seria bem mais fácil aceitar que existem mensageiros do outro lado da realidade, preocupados em adiantar informações que poderão ser de utilidade mais tarde, bastando que se dê crédito a elas, o que será possível se a pessoa partir do pressuposto de que são honestos os dizeres. Para tal conclusão, o conjunto dos textos, bem como das obras psicografadas, irá servir de arrimo, tendo em vista a seriedade das recomendações e das teses, como ainda a coerência existente entre os diferentes autores, através dos incontáveis médiuns.
Eis que chegamos à temível encruzilhada de todos os comunicadores do espaço espiritual, qual seja, a de que todos os conhecimentos mais profundos obrigam os mortais a se desdobrarem na leitura, dedicando a elas considerável tempo e atenção.
Também não vamos afirmar que todas as obras atribuídas aos espíritos sejam de caráter superior, o que incide em outra dificuldade, ou seja, a de que só a leitura não basta, mas é preciso também desenvolver o sagrado senso crítico, para estabelecer as prioridades, segundo o saber de cada um. Neste ponto, é bom ouvir o que Kardec disse a respeito.
Eis a realidade nua e crua, isenta de qualquer vestígio de fantasia: sem um intelecto razoavelmente bem dotado, não avançará o espiritismo no seio da comunidade humana. Sendo assim, é bom que muitos invistam esforços, para equilibrar a sociedade sob todos os pontos de vista, o que caracteriza uma obra de muitas gerações.
Em sendo a colheita tão mesquinha, à vista das dificuldades do solo em que se semeiam os ensinamentos da doutrina, é bom adquirir a virtude da paciência, em primeiro lugar. Não é exatamente isso que se reflete na obstinação com que vimos trazendo as mensagens?
Queiram aceitar um abraço do amigo Narbal.




18. CLEIDE, AO SEU DISPOR

A nobreza de caráter se revela, principalmente, no oferecimento gratuito de favores. Muitos de nós, no etéreo, desejamos ardentemente prestar serviço, para o que requisitamos permissão dos mestres e responsáveis pela instituição.
No entanto, sem sairmos em grupos de muitas criaturas, não nos atrevemos a ousar atingir aquele desiderato, porque não temos força nem capacidade para vagarmos sós através do mundo conturbado pelas paixões dos seres inferiores.
— Quer dizer que não existem protetores individuais?
Não foi bem isso que eu disse. Claro que o universo está cheio de criaturas boníssimas e benéficas, capazes de exercer o ministério glorioso da caridade. O que eu disse é que nós é que não estamos aptos.
— Pensei que bastasse querer para realizar os atos de bondade, no auxílio aos necessitados.
Nem na Terra tal se dá relativamente a todos. E cada vez menos pessoas isoladas se constituem em beneméritas, porque as insídias da perversidade podem, e freqüentemente conseguem, cingi-las com seus tentáculos, arrastando-as para a voragem dos males e sofrimentos.
Tenho ouvido palestras em que os oradores estimulam o desinteresse, a abnegação e a boa vontade. Mas também insistem em que devemos estudar a psicologia humana, para furtar-nos aos compromissos que apenas representariam para nós correntes afetivas que nos prenderiam à sorte infeliz das criaturas inferiores.
— Entre os terrenos, existem teorias do auxílio social que pregam a sondagem das necessidades reais, de forma que se recomenda que os filantropos se unam em instituições de benemerência, cuidando para que os esforços se concentrem na efetivação de atos de verdadeira ajuda, sem a contrapartida do incentivo ao vício da acomodação.
Pois o amigo entendeu perfeitamente o ponto de vista que venho desenvolvendo.
— Não são poucos os desvios de personalidade causados não apenas aos que recebem o auxílio, mas também aos que participam como voluntários, pela facilidade de manipulação de valores e bens provenientes da cega caridade pública. O que não entendo é como o mesmo fenômeno possa ocorrer no âmbito dos desencarnados.
Efetivamente, não se trata de um risco material, mesmo entre os humanos. Claro está que muita gente pode ter os haveres dilapidados pela ganância alheia. Mas o pior está em criarem-se vínculos afetivos não correspondidos, de modo que o socorrista se veja sob a ascendência sentimental dos dependentes de suas vibrações, condoendo-se deles quando percebem que o afastamento do protetor irá gerar desamparo desconfortável e ruinoso para o fugaz equilíbrio que se mantinha.
— Penso que isto se dê também entre nós, especificamente quando existem laços de sangue, o que produz simbiose afetiva em que o hospedeiro se vê sugado sentimentalmente pelo protegido, que promove a chamada chantagem emocional. Não são todos os pais e irmãos que abandonam parentes à própria sorte, para que cumpram todos os passos da recuperação espontânea, mediante as lições de vida que proporciona a concorrência insólita no campo do crime, por exemplo.
Aqui no etéreo, vagando através da erraticidade, existem magotes de seres infelizes cujo objetivo está centrado em causar o mal a quantos, ingenuamente, pretendam corrigi-los. Mas nós temos uma vantagem em relação aos encarnados, pois estamos mais habilitados a reconhecer as más intenções, especialmente quando atuamos em conjunto.
— Pertencendo a um grupo espírita, tenho ouvido dizer que precisamos cercar-nos de precauções quando dos contatos mediúnicos, uma vez que podemos estar sendo alvo de entidades malfazejas. O que me garante que, através de seu texto, você não esteja querendo enganar a quantos se deixem contaminar por suas envolventes palavras?
Nada que eu possa colocar aqui terá o condão de abrir-lhe diretamente os olhos. Por isso é que devo insistir em que somente o estudo aplicado da doutrina espírita irá dar-lhe condições de analisar e perceber as falhas de conduta moral insertas neste desenvolvimento. Não se deixe levar pelas palavras, que podem ser até castiças e bem empregadas. Exija de si mesmo a desenvoltura intelectual mais adequada para a percepção do que poderá constituir-se em falha de conceitos.
Por exemplo, a extensão de um único tema, sem que se acrescente nada de novo, irá dar-lhe a justa medida para avaliar o poder e os conhecimentos do espírito que lhe dirige a palavra. Há quem pretenda vencer pelo cansaço. Por isso é que, não sendo a nossa intenção vencer a ninguém, mas elaborar trabalhos que tenham mais significado para nós mesmos do que para os leitores encarnados, vou repetir que o caráter será tanto mais nobre, quanto mais favores presta gratuitamente, e encerrar a presente dissertação.
— Antes disso, minha cara, comente a máxima latina segundo a qual aquele que deseja a paz deve preparar-se para a guerra.
Pega de surpresa pelo Professor Álvaro, balbuciei uma desculpa e arrisquei externar uma idéia paralela, para ganhar tempo:
— Posso contornar o meu problema, fazendo referência a um fato que passou despercebido ao colega Jerônimo , quando aludiu aos momentos de descanso em que lhe vinham idéias de desgraças e tragédias?
— Perfeitamente.
— Pois bem, constatado que existem pessoas sensíveis aos apelos das vítimas de crimes e acidentes, podemos considerar que muita gente se deixa envolver, nesses momentos de repouso, por vibrações que lhe chegam cheias de dores e sofrimentos. Como não são capazes de caracterizar-lhes a origem, criam na imaginação cenas em que situam familiares e pessoas conhecidas. A humanidade vive em mundo de provações. Sendo assim, a população é formada de espíritos necessitados de correção. Enquanto tal não se dá, praticam toda espécie de crimes. Apenas para argumentar por excesso de razão, devo referir-me aos piores elementos, os que não sentem remorsos, os que sentem prazer em prejudicar os outros. Esses, com certeza, não se assustariam com tais quadros pintados em sua deteriorada consciência, na escuridão das celas. A maioria, por força da necessidade de autodefesa, estremece com as notícias ruins, carreando para si e para os seus as tragédias de que tomam conhecimento. Que fazer para amenizar os íntimos temores? Retorno ao texto de Jerônimo, afirmando que a prece é o melhor caminho, não apenas para tranqüilizar o próprio espírito, mas também para enviar vibrações de boa contextura às vítimas e agressores.
— Cleide, vejo que você preparou um laço para enfeixar os temas. Conclua, por favor.
— Certamente, quando se prepara para a guerra, o homem tenta afastar o perigo que o ameaça. Claro está que a indústria das armas cresce e mais e mais pessoas são envolvidas nesse círculo tremendo de ódio e carnificina. Então, vemo-nos obrigados a instigar a resistência pacífica dos desarmados. Para tanto, será preciso que se armem de dispositivos de propaganda, caso contrário, a mortandade será inevitável. Quando os partidários de Gandhi acataram a sugestão de marchar em direção das minas de sal, convocaram a imprensa para registro e divulgação do uso da força pelos imperialistas ingleses. Jogaram com a opinião pública mundial, para demonstrar que a civilização européia era opressora.
— Não vá tão longe.
— Certo. O que pretendo dizer é que a caridade pode ser exercida em qualquer circunstância, mais ainda quando se estipulam sadios princípios de vida. Fazer o bem é mais do que uma arte: é uma ciência. Por isso, quanto mais perfeito seja o sentimento altruísta, mais irá reivindicar ao praticante do bem, conhecimentos superiores das motivações dos necessitados ou assistidos.
— Conclua.
— Quem me seguiu os raciocínios, estará agora mais ciente de que aquele ao seu dispor do título nada tem de gratuito, exigindo dos socorristas do etéreo estudos aprofundados de diversas matérias.

Fique neste texto a advertência de que, para fazer o bem, se deve observar com cuidado o como praticá-lo a quem, mas de maneira que se cumpra outra máxima conhecida: Deus escreve certo por linhas tortas.
Muito obrigado.



19. MEUS ATAQUES DE NERVOS

Quando minha mãe me chamava: “Odila, venha já pra dentro!”, eu costumava tremer de medo. Não que ela fosse me bater, o que aconteceu apenas uma vez, mas porque eu estava criando a ojeriza pelas determinações alheias. Temia reagir contra a tirania materna de modo feroz. Mais tarde, azedei-me na escola, nos empregos, com as amigas, com os namorados e até com o meu marido.
Se tivesse vivido até os noventa anos, talvez me houvesse emendado. Como pereci aos quarenta e sete, trouxe para este lado, quase intato, o sentimento de rebeldia, o qual apliquei, com todas as conseqüências desagradáveis, contra os espíritos irmãos que se apresentaram para me resgatar das trevas.
Eis que me dou conta de que a narrativa não possui originalidade capaz de se constituir em matéria de interesse para os leitores humanos. Valha-me a oportunidade para me desfazer do compromisso que aceitei ainda sob o efeito da mesma tendência psicológica, de modo que este desenvolvimento pode significar um passo adiante na minha conquista de autodomínio.
Experimentei suspender a escrita, a ver se me socorriam, o que provocou o seguinte diálogo com o Professor Álvaro:
— Odila, você deseja estimular-me a ajudá-la ou apenas quer um parceiro com quem possa dividir a responsabilidade do fracasso da exposição?
Ao sentir, a contragosto, o ranço de má vontade do mestre, não tive dúvida em pespegar-lhe resposta que julguei à altura da observação dele:
— Caríssimo preceptor, não acho que, com a sua participação, alguém possa frustrar-se ao redigir algumas linhas como amostragem das experiências de vida e de morte. Tampouco pretendo que me estimule, uma vez que o que mais prezei na vida, o que trago comigo como prenda de superior qualidade, foi a responsabilidade com que sei enfrentar os deveres, principalmente quando livremente assumidos.
Calou-se o professor durante largo tempo, enquanto a minha caneta se manteve no ar, demonstrando indecisão. Ao cabo de muito tempo, durante o qual refleti em que a atitude do instrutor pudesse representar estratagema para me fazer pedir-lhe desculpas, perguntei-lhe:
— Teriam tido as minhas palavras o condão de ofendê-lo?
Ele sorriu e me respondeu:
— Nem que você quisesse, não conseguiria. Minha consciência não me aponta nada de errado que tenha feito. Você é que interpretou mal a minha pergunta e está incidindo em nova falha de entendimento quanto a estar mantendo-me em silêncio.
Tanto bastou para que logo me abespinhasse:
— Você se julga assim poderoso diante dos alunos, a ponto de menosprezar-lhes a mais legítima consignação de íntimas perquirições?
Desta feita, carregou-se-lhe o cenho, pondo-me aflita quanto ao que iria dizer-me. Senti no fundo da consciência a mesma condição emotiva dos tempos em que minha mãe me chamava.
No entanto, Álvaro simplesmente ponderou:
— Sempre estou aprendendo coisas novas com os alunos. Você está me oferecendo a oportunidade de conhecer um tipo de ajustamento novo para mim. Será que esta minha resposta preenche a sua necessidade de argüição?
Criança, eu ia para dentro, bem quietinha, procurando o banheiro para me lavar, trocando de roupa, preparando-me para jantar na companhia dos irmãos menores. Fazia tudo sozinha, compreendendo que minha mãe não tinha tempo para atender-me, muito embora deixasse a roupa sempre pronta.
Rapidamente, tais idéias me passaram pela cabeça. Meditei a respeito da atitude que minha mãe tomava em relação aos filhos e cotejei com a do professor diante de mim. Percebi logo que ele estava levando-me a agir sozinha, para me facultar a autonomia das decisões e a sábia aplicação do livre-arbítrio.
Tentei reconhecer naquela situação certa influência disfarçada de alguém mais experiente, como que a orientação fugidia de notações subliminares, como a me administrar um roteiro dele para as reflexões que eu fazia.
Sem que eu tivesse dito palavra, ele me esclareceu:
— Bem que eu poderia exercer esse tipo de controle, mas iria provocar-lhe revolta ainda mais contundente. Leio, simplesmente, os seus pensamentos, tão nítidos você os torna ao desequilibrar-se com tanta facilidade. Isso sempre haverá de ser útil, em se tratando de interlocutores de boa vontade. Todavia, recomendo-lhe que evite tirar conclusões precipitadas, desejosa sempre de querer ir além das aparências. Quando existe honestidade de propósito, a sua atitude haverá de pesar contra seus relacionamentos. Dê um voto de confiança às pessoas e mantenha-se resguardada apenas quando perceber que não está encontrando a verdadeira intenção nas palavras proferidas.
Envergonhei-me um pouco diante da sutileza da reprimenda, mas não sofri nenhum ataque de nervos. Ao contrário, manhosa, arrisquei pedir-lhe permissão para reproduzir o que acabara de ouvir.
— Odila, você deve organizar o seu texto da maneira que preferir. Se quiser transformar-me em personagem, pode fazê-lo, desde que não acrescente nem suprima nada do que lhe disse.
— Fique subentendido que lhe trarei o rascunho, para chegarmos juntos a um trabalho que não desmereça dos demais.

Depois da conversa, fiquei a cismar a respeito de como os humanos recebem as informações que lhes passamos. Se nós mesmos temos dificuldades em entender os mecanismos de causa e efeito dentro do prisma da realidade imaterial, eles devem sofrer fortes impactos intelectuais, a ponto de não admitir que possa existir todo um universo que não corresponda exatamente aos sensores instalados em seus corpos.
Mergulhei fundo nas recordações do derradeiro transcurso pela carne e me deparei com pessoa absolutamente desinteressada quanto aos conhecimentos de além-túmulo. No máximo, esperava que algo pudesse existir, orando sem muita fé para que tudo fosse, para mim e para os meus, menos penoso do que no orbe.
Era o mesmo que ter uma vaga idéia de que seria bem melhor que tudo desaparecesse após a morte, de forma que o nada de minha própria personalidade repercutisse como um sopro atmosférico, que existe apenas enquanto o ar se movimenta. Até esta comparação eu trago dos tempos em que filosofava, após receber notícias desagradáveis.
Fugia de pedir algo ao Senhor mas jamais me esquecia de dar graças a Deus por tudo de bom. Era como se configurava a minha parca preocupação com o mistério. Digo mais: houve ocasiões em que me rebelei intimamente, não acreditando que houvéssemos sido criados para honra e glória do Pai.
Agora, com perspectiva totalmente outra, sou bem capaz de avaliar os processos mentais e psíquicos através dos quais agia, porque, então, não tinha consciência das coisas. Foi por isso que não soube como proceder para aceitar desde logo a realidade etérea. E não me adiantaria de nada a leitura de textos como este, porque iria rejeitá-los in limine.
Isto me obriga a concluir que este exercício vai valer tão-somente para uns poucos já iniciados nos mistérios espíritas, pessoas que se dedicam aos estudos doutrinários. Contudo, meu ponto de vista não deve ser levado em conta de pessimismo. Ao contrário, empolga-me o fato de estar sendo capaz de comunicar-me, o que me faz ver que não estou tão xucra.
Queira Deus que as nossas mensagens cheguem a mãos respeitosas, mãos que não sintam comichões de destruição.
Não vejo a hora de corrigir o grave defeito acima apontado, porém, não pretendo criar expectativa desequilibrada entre o desejo e o poder de realização. Sinto que, ao terminar a composição, me componho com maior tranqüilidade, pela certeza de haver executado trabalho que pode vir a ser útil.
Muito obrigado a todos.



20. OS PRÓXIMOS VINTE ANOS

Todos os mortais são capazes de elaborar projetos de vida para os próximos dias. Pensar em termos de anos é já bem mais complicado. No etéreo, porém, tais medidas de tempo se dissipam da mente dos que se libertaram dos sofrimentos mais rudimentares oriundos da necessidade do resgate dos débitos contraídos com outros seres.
Assim, quando pensamos nos próximos vinte anos, simplesmente estamos estabelecendo um roteiro de atividades como qualquer outro, cientes de que iremos vencer, etapa por etapa, todos os percalços que se antepuserem para a concretização dos avanços espirituais almejados.
É preciso considerar a importância da participação dos amigos e mentores, principalmente de quantos sejam capazes de orientar-nos por já haverem vencido as dificuldades. Muitas vezes, nesse sentido, aqueles vinte anos se reduzem drasticamente, incitando-nos a novos planejamentos para estudos e realizações. Os estudos se dão no etéreo mesmo. As realizações podem incluir novas encarnações, principalmente quando incidem em aquisições sacrificiais.
Eis que cheguei ao tópico que me aproxima de minha própria história.
Antes da derradeira peregrinação carnal, meu preceptor me alertou:
— Clorinda, suas derradeiras passagens pelo orbe terrestre têm sido muito calmas e pouco estimulantes. Você tem repetido desempenhos primorosos na qualidade de mulher, esposa e mãe, em diferentes situações sociais. Todas as vezes, entretanto, por mais que enfrentasse penúrias e decepções, saiu-se bem acomodando-se aos problemas, aceitando as provações filosoficamente, argumentando sempre que estava fazendo o que lhe era possível, sem reclamar da sorte, mas também sem deixar-se estimular por reflexões mais sérias. Que tal agora aceitar o desafio de um corpo com aleijões que lhe restringirão a atuação física, mantendo-se, embora, a mente alerta?
Tremi compreendendo a extensão da proposta. Sabia que precisaria vencer condição extremamente desfavorável para firmar os conceitos evangélicos no cerne da personalidade. Enquanto podia fazer correr pelos dedos as contas dos rosários, tinha ocupação derivativa que me punha de bem comigo mesma, reconhecendo, nos refolhos da alma, que, apesar dos sofrimentos mais variados, ainda me restava uma tábua de salvação. Preciso era que me visse atada a circunstâncias de vida extremamente penosas, para conhecer todo o ciclo psíquico dos desfalecimentos e edificações morais.
— Caro mestre, perguntei-lhe, posso escolher o tipo de mal que me irá tolher os movimentos?
— Perfeitamente. Você tem a liberdade até de recusar-se a passar pela experiência, conquanto isto irá apenas adiar o absorção definitiva dos valores ligados a ela.
— O que me sugere?
— Algo como surdez e cegueira concomitantes.; ou problemas de locomoção.
— Isso não irá onerar demais a vida dos que me aceitarem em seu lar?
— Tanto para você, quanto para eles, a provação não será coercitiva. Eles também deverão consentir em recebê-la, para que possam apressar seu desenvolvimento evolutivo.
— Quanto tempo tenho para escolher o meu defeito material?
— Examine os casais que correspondam à descrição acima e eleja um deles. Você verá que são muito poucas as possibilidades de escolha. Em todo o caso, não se furte ao encarne doloroso.
— Não pretendo fugir a ele, no entanto, como tenho tido conhecimento de muitos fracassos nesse campo, quero prevenir-me, fortalecendo o ânimo e aceitando de boa mente que os próximos vinte anos, no mínimo, significarão prisão e desconforto.
— Quanto a vencer ou não no âmbito terreno, é outra história. O primeiro passo, ou seja, a deliberação atual é que nos está importando, porque configura avanço ponderável no sentido da percepção de que os valores existenciais precisam estar em constante revisão, para que façamos jus a ultrapassar os limites desta nossa condição inferior.
— Em definitivo, isto quer dizer que nem todos os encarnados com deficiências físicas passam por período de resgate de débitos?
— Muitos estão e outros tantos, não. Aliás, devo adverti-la de que pode ocorrer de lhe insuflarem sentimento de culpa, afirmando que o seu defeito está vinculado a crimes praticados em encarnações anteriores. Esta é outra dificuldade moral que você terá de enfrentar, compenetrando-se de que sua alma é digna e perfeitamente sã. Só o seu corpo estará em condição precária.
— Quem é que afirma semelhante impropriedade cármica?
— Estranhamente, muitos adeptos do espiritismo vinculado à doutrina de Kardec é que, sem notarem que estão de certo modo ofendendo as pessoas, dizem que se trata de pagamento de dívidas. Se você for capaz de perdoá-los, irá ganhar mais uns pontinhos para o ativo de sua elevação espiritual.
Achei que as explicações haviam sido suficientes e fui em busca de um casal disposto a me aceitar em condições anormais. Naquela altura, não estava mais preocupada com o tipo de dificuldade física, mas em realizar a experiência, cujo valor era bem capaz de avaliar.
Era o tempo dos filhos da talidomida. Por isso, nasci com todos os membros reduzidos a tocos.
A inteligência, porém, desenvolveu-se normalmente, ou melhor, até mais do que se poderia esperar, porque as dificuldades físicas resultaram em adaptações mentais às circunstâncias.
Naturalmente, a minha história foi diferente das outras. O que me valeu muito foi a intensa dedicação de meus pais em fazer-me feliz o quanto possível. Levavam-me a viajar. Mostravam-me paisagens belíssimas e aglomerações humanas em plena ebulição. Davam-me motivos para meditação, lendo livros e oferecendo professores particulares para me estimularem o cérebro.
Dentre as minhas recordações mais agradáveis, estava a da época em que me integrei numa comunidade de pessoas com os mesmos defeitos que eu. Discutíamos a nossa situação, eliminando o mais possível a influência pejorativa dos preconceituosos, dentre os quais avultavam os que sussurravam baixinho que teria sido melhor um aborto, para que se evitassem tantos sofrimentos. Na nossa opinião, um instante na vida compensava anos inteiros de inferioridade física.
Não vim para o relato biográfico, por isso vou deixar consignado apenas que meu coração estourou quando completava o vigésimo aniversário, o que me comprometeu seriamente para com a recepção dos parentes e amigos, que somente agora têm chegado de volta.
Quanto a haver aproveitado a encarnação para interiorizar as virtudes que me faltavam, acredito que teria sido melhor se tivesse vivido uns dez anos a mais, já que os companheiros recém-chegados contam que passaram por experiências de vida bem mais profundas. O que não aprendi sozinha, vou arrebanhando em grupo.
Penso que esta composição constitua a melhor prova de que estou bem disposta mentalmente, sem seqüelas perispirituais da grave deficiência física, apta a elaborar mensagens de apoio aos seres que buscam caminhar sobre as pegadas de Jesus.
Não é verdade que a misericórdia de Deus é infinita?



21. COMENTÁRIO GERAL

Encarregaram-me de elaborar apreciação a respeito dos trabalhos apresentados, nos seguintes termos:
— Caro Osvaldo, não desejando você narrar situação de vida ou de morte em que se tenha envolvido, com a desculpa de que não teria nada que pudesse exercer sobre o espírito dos leitores sadia influência, estude os textos dos parceiros e critique o que não achar muito bom. Não vale safar-se pela tangente, elogiando os méritos, já que todos somos capazes de perceber que existem qualidades em todos eles.
Bem que desejei protestar, mas era isso ou apresentar roteiro em que o tema principal daria aos leitores encarnados razões para prosseguirem adiando o momento da decisão em favor de mudança de procedimento. Explico-me: ocorre que exerci em vida a pouco nobre profissão de açougueiro, deleitando-me com as carnes que separava para comer e com as que vendia e me deixavam bastante abonado.
Dirão os acima referidos que não vêem mal algum em cumprir as obrigações banhado no sangue das vítimas, uma vez que se tratava de saciar a fome das pessoas, com alimento rico em proteínas e ingredientes minerais necessários à subsistência humana. Indo mais longe, filosoficamente poderiam considerar ainda que a carne nutre a carne, constituindo poderosa fonte de riqueza para a nação.
A verdade é que cheguei de volta da peregrinação carregado de maus fluidos. Não que os animais vibrassem contra mim, mas porque jamais tivera um só pensamento de comiseração pelo sacrifício deles. Aceitara que participavam da existência na condição de se constituírem em alimento para os seres humanos, sem nunca suspeitar que pudessem estar lutando para progredir.
Querem saber mais? Tive noções de espiritismo e acatei como muito felizes as observações dos palestrantes que insistiam em que, no caso em pauta, a lei da destruição deveria sobrepor-se sobre todas as outras, já que não haveria outro modo de matar a fome de toda a humanidade, citando o argumento de que, na natureza, existe cadeia alimentar em que os da camada superior devoram os mais frágeis e se atacam entre si. A arma do homem era a inteligência? Pois que a utilizassem para ferir as criaturas menos dotadas.
Refleti muito sobre a minha personalidade, a ponto de acabar acreditando que meu querido professor Álvaro me escolhera para criticar os estudos dos colegas, para ver-me aproveitar a tendência psíquica no exercício do esquartejamento, retalhação, espostejamento dos elementos de seus espíritos montados em organismos virtuais, através de estruturas de pensamentos e de vivências. Dessa forma, concluí que estaria ele simplesmente fornecendo-me roteiro sobre que apoiar a minha exposição.
Por outro lado, a advertência a respeito de querer fugir da responsabilidade também se constituiu em tema para meditação. Tendo começado a redação através do discurso acima, logo fiquei atemorizado com o fato de, realmente, não desejar repetir de forma ideológica, o que já repudiara como ação e atitude.
Iam por aí minhas preocupações, quando o mestre veio perguntar-me se estava encontrando alguma dificuldade, já que me isolara por vários dias, faltando mesmo a reuniões importantes.
Pensando que iria cobrar-me a análise, expus-lhe, francamente:
— Cheguei à conclusão de que encontrar os defeitos e evidenciá-los não condiz exatamente com o que fazia em minha experiência de vida. Ao contrário, as partes menos nobres dos cortes que preparava para o público simplesmente eram desprezadas, ocupando-me principalmente do que era o melhor. Se foi esse o seu objetivo, causou-me um problema e não ofereceu uma solução.
— Vejo que você ainda está cuidando de eliminar de sua composição a possibilidade de vir a ser mal interpretado pelos leitores encarnados, pelo fato de que, apesar de ter exercido ofício, a seus próprios olhos, oneroso para a deflagração de onda evolutiva, ainda daria aos que resistem às mudanças para melhor o exemplo pernicioso de que todos os males se superam com facilidade.
— Caro professor, o senhor leu o meu pensamento.
— Sem dúvida. No entanto, foi você mesmo que não parou de emitir apelos de socorro, perante todas as dificuldades que poderia oferecer aos leitores que, ardilosamente, se utilizassem de sua exposição para apoiar as teses maquiavélicas, segundo as quais os fins justificam os meios.
— Não entendi como esse raciocínio se aplica ao meu caso.
— Veja bem. Qual é o objetivo do seu trabalho? Convencer os leitores de que devem refletir a respeito das atividades, no sentido de apurar-lhes os aspectos negativos, segundo a moralidade cristã, fundamento da doutrina espírita. E quais os meios para isso? A crítica aos próprios desenvolvimentos temáticos, ressaltando-se os aspectos menos relevantes, ou seja, demonstrando o que resta de mau no caráter de cada um. Ora, tal levantamento apenas iria sobrecarregar de idéias pejorativas a mente dos leitores, sem dar-lhes a contrapartida das imensas qualidades que cada um demonstrou. Fiz-me entender?
— Mais ou menos. Tomo as suas observações como lição sobre que deverei meditar, pedindo-lhe permissão para passá-las adiante tais quais se apresentaram.
— Você não acha que irá levar adiante projeto não totalmente assimilado?
— Acho, mas é somente assim que terei coragem de enfrentar a crítica do público, pois é o que me dá a certeza de que estarei transmitindo algo superior.
Raciocinava certo, porquanto admitia a impossibilidade, como de início revelei, de confeccionar texto de valor. Mas o Professor Álvaro ainda tinha o que dizer a respeito:
— Nem sempre o melhor texto é o que traduz as idéias mais elevadas. Esse será para quantos forem capazes de forte abstração. Textos mais sóbrios, mais terra-a-terra, mais frágeis quanto à terminologia e até à sintaxe de cunho coloquial podem representar muito mais para pessoas despojadas dos artifícios da escolaridade superior. Sempre haverá um leitor que pode aproveitar-se das mensagens mais humildes, menos complexas.
— Isto me conforta bastante, professor.
— Não estou dizendo que a sua se enquadre em tal categoria. Ao contrário, presumo que não serão muitos os encarnados que se sentirão estimulados a aceitar-lhe os argumentos, mesmo porque você não está redigindo tratado, mas simples comentários com temas bastante amplos.
— Posso acreditar em que terei o trabalho entre os demais?
— Com certeza, mas não espere receber muitas vibrações de agradecimento pela ajuda que você está pretendendo prestar.
— Nem ao menos se reproduzir com fidelidade a sua participação?
— Acho que aí menos ainda, uma vez que do mestre sempre se espera algo quase perfeito.
— Para mim, as suas instruções assim se configuraram.
— Obrigado, Osvaldo, entretanto, se bem me lembro, outro dia eu lhe pedi para não enaltecer os pontos positivos. Fique na crítica.
Rimos os dois da facécia, esquecendo-me quase de que estava buscando a maior seriedade temática.
Em suma, para concluir, devo afiançar aos amigos que me encontro aliviado por saber-me capaz de redigir texto completo do ponto de vista das orientações que recebemos. Isto significa que, não demora, estarei pleiteando retornar ao orbe terrestre, com o fito de integrar-me em família de vegetarianos. Os colegas me afiançam que terei de enfrentar outro tipo de problemas, mais pungentes que os da derradeira encarnação.



22. CORDIALMENTE, ZENAIDE

Satisfeita com o resultado dos trabalhos dos companheiros, atrevo-me agora a registrar a minha pobre contribuição, enfatizando o fato de que me dei bem na última encarnação, tendo recebido elogios vários da consciência.
Sem me gabar, uma vez que o meu ritmo de evolução aumentou, preciso é que me refira a um longo porvir de sofrimentos e dores, pois tenho de ultrapassar outros senões de personalidade gravíssimos.
— Por que, então, menina, tanta alegria? — hão de perguntar os leitores.
Porque, finalmente, compreendi que a prática do bem não é aleatória, mas dirigida para a felicidade de outrem, no interesse mediato do próprio benemerente. E, quando se faz o bem, não existe hipocrisia possível, já que esta causaria o mal. Por isso é que a consciência não me acusou e eu fiquei tão contente.
Vamos supor que esta mensagem atinja o principal objetivo de emocionar os encarnados, a ponto de fazê-los rever princípios em desajuste com as diretrizes cristãs. Sabendo que fui capaz de elaborar uma redação eficaz nesse sentido, não é para me sentir feliz?
Claro está que poderia realizar obra mais perfeita, caso meu desenvolvimento intelectual e meus conhecimentos fossem superiores. Mas, à vista do resultado positivo, que importância tem que haja desagradado pessoas mais evoluídas, justamente aquelas capazes de entender mensagens de cunho doutrinário e filosófico mais próximos da verdade, aquelas que conhecem os textos principais do espiritismo?!
Pensei que fosse chamar a atenção do Professor Álvaro, esperando dele advertência em relação aos inúmeros livros publicados com teses profundas, cuja leitura sequer tenho condições de efetuar. Pois bem, adianto-me e assinalo que o meu modesto trabalho visa mais a tornar a escrita plausível do que a vê-la publicada.
— Agora sim, você me convocou, querida Zenaide. O seu último parágrafo pode expressar a exata extensão dos fins estabelecidos para este grupo. No entanto, deixando a modéstia de lado, bem que você poderia escrever algo mais expressivo, principalmente para que o nosso médium não fique aborrecido, na expectativa de frustrarem-se as tardes que ele dedica a nós. Tendo produzido bastante nos últimos vinte e tantos anos, deveria chegar ao limite da inconseqüência?
Tomei-me de espanto. Não havia suspeitado de que alguém poderia sentir-se mal, muito menos aquele que nos respeita a ponto de se oferecer incondicionalmente para os ditados.
Parti para o estudo das comunicações que lhe foram transmitidas, buscando avaliar quantas haviam sido postas à disposição do público em geral. Percebi que eram poucas, apesar de ele considerar muitas das que não lograram publicação como excelentes produções. Senti que tem esperança de, qualquer dia, receberem o alvará dos editores e serem bem recepcionadas pelas pessoas.
Apenas depois disso é que respondi à observação do mestre:
— Prezadíssimo Professor Álvaro, o senhor fez muito bem em me avisar de que o meu texto poderia representar um problema para quem o recebe diretamente. Todavia, mesmo assim, vou insistir em manter o parágrafo, porque me parece que existem inúmeras composições que jamais cairão no domínio do público encarnado. Aliás, muitas das que se encontram nas prateleiras das livrarias e das bibliotecas lá permanecem acumulando poeira, sem causar interesse algum. Tolo seria o nosso médium se acreditasse que todas as páginas que lhe passamos fossem merecedoras de divulgação. Não acredito que qualquer observação que façamos pejorativamente vá demovê-lo da decisão de acompanhar-nos mediunicamente. Não lhe parece que este tópico poderá representar bom incentivo para quantos médiuns novatos dele tomarem conhecimento?
— O que me chamou a atenção, se você quiser saber, foi o fato de haver começado a dissertação fazendo referência às boas qualidades das composições de seus parceiros. Ora, se você não está certa do valor da sua, resumindo seus sentimentos de alegria em duas ou três frases, acabaria por não ter assunto para preencher os requisitos. Dizer que tem futuro de avanços pela frente é, verdadeiramente, dispensável.; primeiro, porque é óbvio que qualquer pessoa mediana sabe que todos nós temos de progredir muito para superarmos as deficiências de caráter, até passarmos para o círculo evolutivo seguinte.; segundo, porque o próprio nível do desenvolvimento do tema, bem como a qualidade e a quantidade dos recursos retóricos utilizados fornecerão claros indícios de que você está precisando melhorar até no campo lingüístico e redacional.
— Professor, tenho notado que o senhor vem participando dos textos da maioria dos colegas, com o evidente intuito de ajudar. Pelo que acima afirmei, posso concluir que isso o torna feliz, já que vem realizando o seu trabalho a contento?
O mestre limitou-se a sorrir, crente de que eu saberia encerrar a composição, enviando-me claros sinais de que estava satisfeito comigo.
No entanto, quedou-me fixada na mente a idéia de que, se tivesse dedicado mais tempo aos estudos, com certeza, o produto final do trabalho poderia satisfazer a um número maior de pessoas. Não me preocupei, de fato, com isso, mas registro, para consignar que o aperfeiçoamento é paulatino e respeita integralmente as pequeninas conquistas, em todos os campos do conhecimento, inclusive de si mesmo, para se evitarem os distúrbios emocionais que tanto prejudicam o andamento ascendente da existência.
Se anotei ocorrências que me deixaram contente e satisfeita comigo mesma, também fui capaz de perceber quão imperfeita sou, o que decorreu da comparação que estabeleci com os textos que examinei. Por isto é que estou adiantando conclusões: para que não receba acerbas críticas, mas seja aceita com compaixão.
Finalmente, devo assinalar que toda alegria se deixa toldar pela repercussão no íntimo das falhas de quantas pessoas queridas se encontrem em locais de purificação que já trilhamos e cujas dificuldades de superação não conseguimos demonstrar cabalmente, a não ser no que diz respeito à advertência principal de que cada qual deve estar atento para os deslizes de todo tipo, já que a solvência dos débitos cabe exclusivamente a quem os contraiu.
Perdoem-me a impertinência desta presença que serviu apenas para, dedo em riste, colocar caraminholas nas cabeças dos leitores menos felizes. Creiam, amigos, que não tive tal intenção. Deixei-me embalar por minha felicidade e desconsiderei, como no caso do médium levantado pelo mentor, que estaria comprometendo-me com as expectativas dos que deram crédito ao título atraente da obra, adquirindo-a e lendo-a, decepcionando-se.
Posta a consciência de sobreaviso, encerro, desejando a todos a altiva compreensão dos sábios. Aproveitem os momentos todos de felicidade, porque a bem-aventurança eterna será apenas a conquista final.
Cordialmente, Zenaide.



À GUISA DE DESPEDIDA

Tendo realizado todo o programa projetado para estas tardes mediúnicas, só nos resta agradecer ao médium pela atenção que nos dispensou.
Aos leitores, um abraço amigo, com votos de que os textos aqui dispostos consigam alcançar seu objetivo primordial, qual seja, o de propiciar um pouco mais de conforto aos encarnados, tendo em vista que a perspectiva dos acréscimos das experiências da morte às venturas e desventuras da vida sempre há de tumultuar um pouco a expectativa do futuro.
Gostaríamos de estabelecer princípios bem gerais capazes de abranger todas as situações cármicas. Não sendo isto praticável, limitamo-nos, como se viu, a comentar passagens mais ou menos felizes, na tentativa de torná-las exemplificativas de como se deve encarar cada condição, segundo a maior ou menor necessidade das pessoas.
No ápice das apreciações positivas, posta-se a oração comovida, como agradecimento, como louvor e como súplica. Aceitem, pois, neste magnífico pôr-de-sol, a nossa contribuição mais importante:

Senhor, nós nos apresentamos perante a sua misericórdia, para agradecer-lhe todas as oportunidades que temos recebido de melhoria moral. Também lhe solicitamos que atenda aos justos reclamos dos sofredores, especialmente daqueles que se vêem de mãos atadas perante a malignidade, embora reconheçamos que todos nós estamos sendo abençoados ininterruptamente. Se pudéssemos enaltecer a sua bondade e magnanimidade, expressaríamos aqui a mais veemente de todas as expressões de louvor. Modestamente, contudo, repetimos com Jesus: abençoado seja o seu nome, em todos os círculos da criação, porque seu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Assim seja!

Álvaro, pelos Amigos da Espiritualidade.

Indaiatuba, de 26 de janeiro a 4 de abril de 2001.
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