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Crônicas-->Irina, a Louca -- 21/07/2006 - 15:47 (MARIA CRISTINA DOBAL CAMPIGLIA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Ela achava que o encontraria sem mais nem menos.
Sem mais : assim, na esquina. Tropeçando com ele.
Sem menos: num lugar onde estaria, exatamente, procurando-o.
Nem uma coisa, nem outra.
Apenas: não o encontra. Não o procura, porque é tão desesperada em achá-lo, que tem a certeza interior de que não o encontrará na busca desenfreada.
Então, Irina mastiga seus afetos, sozinha, à luz da lua nas noites claras, na praça, na padaria, ao lado dos jardins e do monumento. Faz de conta que esqueceu. Ri à toa, como se estivesse feliz. Para que todos pensem, incluso a vida, que não liga a mínima para o amor.
Mas é mentira. È tudo pura mentira : Irina sofre. Sente na garganta um gosto esquisito ,entre doloroso e perturbador. Aos domingos, quando tem sol. Na missa, escutando o padre.
O tempo passa. Lembra do olhar do vaqueiro que só passou uma vez.
A praça cheia de gente, com seu chapéu de cowboy e as botas escuras e pontudas, barba mal feita, calças justas, mãos mal tratadas...tudo isso reparou mas não sabe o nome. Ele a olhou. Ah, sim, ele a olhou. Disso não pode esquecer, nunca. Isso ninguém vai tirar da sua lembrança cansada. No último dia de Santo Antonio, comprou uma estatueta pequena do pobre santo, de madeira, e o afundou na lata de água de cabeça para baixo. Quando o milagre viesse, ela estaria preparada –unhas pintadas, cabelo alto, meias de seda. Porque sabia que sentiria: ela saberia o dia, ou a noite, quando ao virar a esquina, tropeçaria com seu vaqueiro, chapéu de cowboy, botas escuras, de ponta fina. Seria na esquina, a mulher mais feliz – e mais confiante - de todo o povoado.
Chegou mais um natal. A vizinhança em festa, toda na rua. Calçadas com cadeiras, banquinhos, crianças e bexigas e um Papai Noel barrigudo e vermelho –Seu Sebastião, da mercearia, como todos os anos, tocando o sininho com a mão esquerda- irritante.
Sem saber como ou porque, seu coração deu um salto dentro do peito: “é meu vaqueiro, tenho certeza”- pensou.
Virou a esquina da casa, mais uma esquina, mais uma vez. Ficou a rodar o quarteirão por muito tempo - perdera a noção- e tanto tempo ficou, esquina da esquina, a pobre Irina- que faz que ri, que está feliz, que tem certeza...que tinha.
Acharam que estava louca.
Pode se enlouquecer , dessa forma, assim ? “Irina pirou”, falavam os parentes. Os anos passaram. Mais natal , mais dia de reis, ano novo, aniversários.
Irina : louca e tranqüila, vira a esquina da esquina, milhões de vezes, a qualquer hora do dia ou da noite.
No seu percurso obsessivo todos a deixam. Ninguém entende : “louco é assim”, “não faz sentido”- e todos riem.
Ela está muda, apenas ri. Nunca chora, nunca se queixa, nunca explica.
Um dia, ao virar a esquina...quem sabe?

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