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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->Fruto deste amor -- 08/10/2016 - 11:43 (João Rios Mendes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


"Maezinha?!!!"

"Que foi, Flor?"

"Amanha é meu aniversário de 15 anos, quero te pedir um presente. Não pode me negar."

Açucena se dirigiu muito séria a sua mãe Camélia. Estava decidida a descobrir quem era seu pai. Não suportava mais esse buraco na sua história. A mãe sempre escorregando, dando desculpas, guardando esse segredo. Agora era uma mocinha, tinha direito de saber.

"Que presente amor?"

"Quero saber quem é meu pai, agora já sou uma moça, tem que me dizer"!

Camélia perdeu a cor. Mais cedo ou mais tarde esta hora iria chegar. Teria que tirar as trancas do seu Baú de Guardados. Claro que sua filha tinha todo o direito de saber sua origem. Mas o que ela adiara uma vida inteira era remexer no baú dos sentimentos. Chamou Açucena pelo apelido carinhoso desde bebê:

"Vem cá minha Morceguinha. Acho que chegou mesmo a hora."

Abraçou a filha bem apertado. Respirou bem fundo, como sempre fazia nos momentos de grande emoção. Tomou um grande gole de fôlego. Fez uma pausa dramática. Olhou bem fundo nos olhinhos dela, tão negros, iguaizinhos aos do pai. Só conseguiu guardar esse segredo de Pazamor inteira porque ela foi fazer faculdade em outra cidade, senão todos saberiam. Ainda bem que Açucena tinha muitos traços dela própria, e isso facilitou as coisas. Mas os olhos...

Voltou no tempo, seu coração saiu imediatamente do compasso. A emoção veio a tona. Olhos rasos d’água, se lembrou do dia que achou que fosse ser o mais dia feliz de sua vida e que fora o mais doloroso. Resolveu fazer uma surpresa para o Zé, pegou o ônibus e foi até Montes Altos. Era uma cidadezinha tão pequena que seria fácil descobrir onde era a casa dele. Não iria conseguir esperar até a noite para contar sobre a gravidez. Estava ansiosa demais. Desceu na parada do centro da cidade e perguntou ao pipoqueiro se conhecia o Zé Cravo e se sabia onde morava. O moço explicou direitinho onde ficava a casa e ela saiu saltitante como sempre. A caminho avistou o Zé atravessando a rua, apressou o passo em sua direção e de repente ficou paralisada. Uma moça morena veio ao encontro dele e pulou no seu pescoço. Beijaram-se. Suas pernas bambearam, lágrimas escorreram nas bochechas rosadas. Ficou ali escondida atrás da espirradeira florida vendo aquela cena inesperada. O casal saiu abraçado e sorridentes pela calçada. Na casa em frente havia uma senhora na varanda sentada numa cadeira de balanço de fios de macarrão azul. Criou coragem e perguntou:

"Bom dia! Conhece aquele casal que vai ali do outro lado? Me parecem familiar."

"O Zé? Sim o Zé e a Margarida sua noiva, filha do seu Junquilho.
"Noivos?"

"Sim, estão de casamento marcado pra dezembro, se não me engano. O pai dela é um fazendeiro rico e está muito doente, aí parece que apressaram a data. Sei disso porque minha irmã é costureira e está fazendo o vestido da noiva."

Como a senhora era muito simpática, Camélia pediu um copo d’água, não porque estivesse com sede, queria se inteirar mais da vida do casal de noivos. Sua sede era por informações. Sua decepção não poderia ser maior. O que mais a atraiu no Zé foi sua suposta sinceridade, ela acreditava que ele era um "coió sincero". Seus sonhos de moça romântica foram por terra naquele instante. Justo o que mais admirava nele não passava de ilusão. Ficou ali se martirizando, odiando a si mesma por ter sido tão ingênua. Apaixonou-se, entregou-se de corpo e alma a essa paixão. Pulsava em seu ventre o fruto deste amor. E agora? Que deveria fazer?
Bebeu a água aos poucos. Matutou como iria abordar a gravidez com ele. Não, não iria. Daria um jeito de não contar. O seu sonho de ser mãe tomava outro rumo. Se ‘tudo que se move é sagrado’, todo sonho também é sagrado. Afinal, sonhos são vida, são eles que nos mantém vivos e que nos diferenciam dos outros animais. Qual o sonho da professora? Que seus alunos aprendam a lição. Qual o sonho da costureira? Terminar o vestido.

Por fim, analisou a situação, remexeu os seus instintos mais humanos e resolveu voltar para casa sem contar a ele nem a ninguém. E encontrou aconchego nos "Se". SE a vida conspirar para isso um dia a verdade virá a tona. Mas SE depender só dela, seu bebê jamais terá um pai.

Revelou para a filha toda a história. Não escondeu nada. Contou tim-tim por tim-tim. Levantaram-se da mesa com o intuito de no sábado seguinte irem a Montes Altos para a filha Açucena realizar seu sonho. Descem do ônibus e caminham em direção a rua do Zé.

De longe Camélia o avistou vindo pela mesma calçada, com uma pasta 007 na mão direita. De novo o destino mestre em dar nós... Cara a cara, os três! Negros olhos de José! Mesmo brilho, mesmos mistérios, mesmo rufar dos corações.

Açucena pulou na cacunda do pai.

“Como está sua esposa?” - Perguntou Camélia.

“Estou separado há muitos anos. E seu marido?”.

Sem alianças nos dedos nem na alma, saem pela praça, relembrando a juventude distante... Lembranças aprisionadas na mente!

Ele vira-se para Açucena:

“Nunca imaginei que tivesse uma filha! Não tive filhos no meu casamento. Terei muito que aprender. Confesso que eu não sabia de você. Um encontro, um imprevisto acontece, e de repente a gente se reinventa."

“Pai... primeira vez que falo essa palavra pra alguém. Tudo é novo pra nós dois. Mas sei que aprenderemos a ser uma família, nós três. Vocês vão ter que se entender de algum modo. A partir de hoje não quero mais vazios na minha história. Tenho certeza que se amaram muito e mesmo tendo seguido caminhos diferentes, sou fruto deste amor.”








Colaboração: Ângela Fakir e Jeanne Martins
Desenho: Ângela Fakir
http://riscoserabiscosangelafakir.blogspot.com.br/


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