Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
72 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 54406 )
Cartas ( 21031)
Contos (12032)
Cordel (9350)
Crônicas (20800)
Discursos (3098)
Ensaios - (9869)
Erótico (13087)
Frases (39450)
Humor (17507)
Infantil (3550)
Infanto Juvenil (2302)
Letras de Música (5406)
Peça de Teatro (1308)
Poesias (134999)
Redação (2860)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2368)
Textos Jurídicos (1911)
Textos Religiosos/Sermões (4089)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Contos-->Coivaras -- 09/12/2011 - 20:16 (Lita Moniz) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Coivaras
A posição era privilegiada. De cócoras, além de ouvir com nitidez o trinado
estridente do chorró, podia, por instantes, visualizar suas penas amarelo-barro nos
momentos em que saltava entre os galhos secos dos marmeleiros da caatinga.
De repente ressoou aos ventos os gritos esganiçados do velho Graciano:
- Luca!... ô Luca!...o fogo tá indo pra essas bandas! Cuidado capeta!
Catei rápido algumas folhas e saí me limpando e sungando os calções.
Quando cheguei no aceiro do mato avistei o fogaréu. As labaredas pareciam
tomar formas de diabinhos saltitantes! Os estalos do mato seco em chamas e o
cheiro gostoso dos gravetos queimando me davam uma alegria esfuziante.
Segui pelo aceiro com os olhos fitos no fogo. Estava extasiado com as chamas
avermelhadas. Um bicho passou correndo, fugindo do fogo. Acho que era um
preá... não conseguia desviar os olhos das labaredas.
Sentei num galho caído de um cajueiro próximo do piquete aberto pelo velho
Graciano para barrar o fogo. Fiquei totalmente absorto, com os cotovelos
plantados nos joelhos, as mãos apoiando o queixo e os olhos fixos no vermelho
vivo das labaredas. O fogo me impressionava muito!
Quando se aproximava o tempo das queimadas, bem antes das primeiras
chuvas, já começava a aperrear o velho Graciano, pedindo que não esquecesse
de me levar. Gostava de ver os dedos de fogo se projetando em direção ao
abrasador sol do meio-dia.
2
Vi do outro lado do roçado, distorcidos pela lente formada pela cortina de fogo,
as figuras do velho Graciano, sua mulher, Isabel e seus filhos, Zeca, Carminha e
Tonho.
Quando me avistaram se moveram rápido, contornaram um grande lajeiro e
retomaram o aceiro da roça em minha direção.
Dona Isabel foi dizendo:
- Ô menino!... a gente ficou aperreada! Onde danado se meteu?
Apontei, mentindo:
- Fui procurar um ninho de rolinha naquela bola de mato.
O velho Graciano desconversou:
- Quer comer o tejuaçu que vocês caçaram?
Carminha agarrou meu braço e foi puxando:
- Vamos logo Luca, antes do almoço vamos buscar água no açude...e...
diminuindo a voz,...tomar banho...
Nem precisei responder, meus olhos diziam tudo.
O velho Graciano seguiu pelo caminho estreito e tortuoso, desviando dos
galhos a ponta do cabo da enxada que segurava por cima do ombro.
Aqui e acolá parava e levava o dedo indicador torto e calejado até a boca:
-...psiu...psiu...os preá tão doidos...cuidado com as cobras...de tardinha vou
voltar com Xaréu...talvez pegue uns bichos pra comer...
Zeca que vinha por último na fila, adiantou-se ligeiro varando os galhos de
mato da beira do caminho, emparelhou com o velho e foi dizendo animado:
-Vou também pai...sei iscar o cachorro e fazer ele encurralar o preá.
- É Zeca, o cão é seu tem que lhe obedecer - disse Dona Isabel.
3
Zeca deu um muxoxo:
- Agente devia ter trazido ele... Caraolho tá querendo fazer dele cachorro de
gado. Ele só vai amarrado e quando chega no mato vai correr atrás dos calangos.
Fui me atrasando...remanchando..., queria voltar e ver como estava indo o
fogo.
- Será que toda a bola de mato acerada queimou?
- Ô Luca, amanhã cedinho voltamos pra fazer as coivaras e queimar o resto.
Esse negócio de queimada é assim mesmo...temos que revolver as varas de baixo
até que fiquem só cinzas.
Chegamos no terreiro da casa pelo oitão. Xaréu esticava a corda amarrada no
ingazeiro e latia desesperado.
Caraolho vestindo perneira e gibão de coro veio caminhando. As pernas
encurvadas pareciam dois bodoques. A figura do vaqueiro lembrava um judas da
semana santa. As esporas tilintavam e as botas amarelas de couro cru chiavam.
- Esse cão não presta...só quer pegar calango-cego - foi resmungando em
direção ao velho Graciano.
- Eu sei Caraolho, respondeu o velho. Ele é bom mesmo na caça.
Principalmente se não se empanturrar com comida de panela. Já avisei pra Isabel
não ficar dando coisa pra ele comer. O bicho fica mofino. Fica com preguiça de
procurar caça.
Caraolho refutou: - Só acredito em cão que gosta de cercar gado!
Dona Isabel se chegou e perguntou: - Quer comer com agente Compadre?
- Quero não Comadre...tenho que curar umas bicheiras de uns garrotes que
trouxe pro curral. Na semana entrante vem comprador de Varzinha.
4
Zeca foi desamarrar Xaréu. Seu Graciano encostou a enxada no esteio da
casa. Dona Isabel puxou Tonho pelo braço e entrou na casa.
Caraolho foi andando em direção ao pé de imburana; desamarrou e montou
em Formosa, burra mula castanha treinada no pé de boi.
– Graciano diga pra Comadre que mais tarde venho tomar uma xícara de
café.
Formosa saiu esquipando.
- Esse animal merece ser bem tratado!... é difícil uma burra igual! disse
pensativo o velho Graciano, cofiando com a mão enrugada as penugens do rosto
áspero.
Carminha me cutucou:
- Vamos pro açude?
Suspendi os ombros.
– É...já falou com sua mãe?
- Mãe, vou buscar água. Cadê o pote?
- Ora menina!...onde sempre esteve.
Carminha entrou e retornou em seguida com o pote e uma rodilha de pano.
Olhou de soslaio em minha direção e acenou com o queixo, matreiramente,
seguindo em direção ao velho barreiro. Fiquei parado, encostado no esteio do
alpendre da casa de taipa, com as mãos levantadas, enlaçando a madeira como
se espreguiçasse.
Já distante, ela se virou e gritou amuada:
- Vai ou não vai...
5
Soltei lentamente as mãos do esteio..., enfiei uma no bolso e desconfiado
respondi:
- Vá indo...vou já...
- Cadê Zeca, seu Graciano?
- Sei não Luca...acho que foi dá um giro com o cachorro pelo cercado dos
fundos. Aquele menino só quer viver caçando.
Escapuli muito devagar e quando percebi já estava fora do terreiro da casa.
Ganhei o caminho curvo do barreiro. Passei nos fundos da casa de Caraolho. Os
meninos pequenos, sujos de lama, tinham feito um curral com pedras e brincavam
com bois de ossos perto do cercado dos porcos. Subi o baldo do açude; Caminhei
na sombra do bambuzal; pensava em encontrar outros meninos tomando banho.
Quando espiei na beirada do barreiro vi somente Carminha de cócoras em cima
de uma ponta de pedra pegando água com uma cuia e enchendo o pote.
Os pedregulhos rolaram ruidosamente acompanhando minha descida do
baldrame. Carminha olhou pelo vão do braço arqueado, cuja mão segurava a boca
do pote.
- Pensei que não vinha mais!
- É... estava atrás de Zeca...
- Hoje não tem ninguém tomando banho! ...acho que já vieram e já foram...ô
Luca, vai me ajudar com o pote?
Fui descendo com a alpercata de rabicho deslizando no cascalho. Enfiei a mão
na boca do pote, ergui um pouco e num balanço apoiei ele por cima duma moita
baixa de capim de planta.
6
Carminha se desvencilhou rapidamente do vestido, alçou as calcinhas e correu
pra água.
Sentei na beirada com os pés na água fria. Nunca havia tomado banho sozinho
com Carminha. Sempre seu irmão Zeca e outros meninos também participavam
das brincadeiras na água. Nessas ocasiões Carminha tomava banho de calcinha e
camiseta.
- Vem logo Luca! – gritou Carminha.
Arremessei um caco-de-telha que cabritou na água.
Quando voltei a cabeça vi Carminha caminhando lentamente em minha
direção. Uma gota d´água cintilante escorria pelo meio dos seus miúdos e
intumescidos seios. Senti que algo se movimentava às carreiras pela minha
espinha dorsal em direção ao pescoço. A visão duplicou. Embora desviando a
vista para o espelho-d´água, continuava acompanhando a trajetória do pingo que
percorria audaciosamente o corpo de Carminha. Os ouvidos se aguçaram tanto
que estremeci quando uma lagartixa se meteu no meio de uma touceira de xiquexique
no lajeiro que beirava o açude.
Carminha já ao meu lado gritou – pelo menos assim ressoou:
- Deixa de preguiça...pula logo na água...
Não pulei. Não conseguia me levantar. Deitei de lado e fui escorregando o
corpo na água barrenta. Mergulhei fundo e percorri uns cinco metros por baixo
d´água. Quando levantei ofegante avistei um vulto na beira do açude. Passei a
mão no rosto escorrendo a água e vi Zeca tirando a camisa. Gritei aliviado:
- Vem logo Zeca...vamos apostar nado até o outro lado...
7
No dia seguinte acordei mole. Procurei a proteção das abas da rede. Fiquei
deitado, escondido no fundo, olhando fixamente para o traçado dos caibros e ripas
do telhado. Os pensamentos vagabundeavam. Escutei um barulho no alpendre e
em seguida a voz do velho Graciano:
- Cadê o Luca? Tá dormindo ainda? Vim chamar ele pra encoivarar os
gravetos da queimada.
O cheiro do café coando era sentido em toda a casa.
A voz de Tonha Mulata trovejou:
- Aquele dorminhoco ainda não levantou! Quer um café seu Graciano?
- Não posso recusar um café tão cheiroso!
Escapuli da rede, corri pela porta da frente, arrodeei a casa e entrei na
casinha. Joguei duas cuias d´água na cabeça e molhado vesti o calção. Entrei
na casa pela cozinha e esbarrei com o velho Graciano.
- Eita! Olha ele aqui Tonha!
- Vá pra mesa menino! Sua mãe pediu pra eu ficar de olho! Como apareceu
pelos fundos?
- Eu estava na casinha...
- Seu Graciano... – falou Tonha – ...ele só vai quando tomar café.
Comi rápido o cuscuz com leite, agarrei um pão com manteiga e fui
encontrar com o velho Graciano no armazém onde ele estava passando seu
facão na pedra de amolar.
- Vá indo Luca. Passe lá em casa e chame o Zeca. Diga pra ele levar o
cachorro e água de beber. Vou cortar as forquilhas no mato do curral dos
bodes e vou direto pro cercado da queimada.
8
Fui caminhando banzeiro, os pensamentos se remontavam de forma
atabalhoada.
Gritei da estrada, em frente a casa do velho Graciano:
- Zeca! Ô Zeca! Chama Xaréu e vamos pro roçado da queimada. Traga a
cabaça d´água. Vou andando...
Na primeira cancela Xaréu riscou nos meus pés. Zeca vinha logo atrás com
a cabaça d´água pendurada no ombro e a baladeira na mão.
- Pode ser que apareça um préa ou um punaré... não é Luca?
Não respondi. Caminhava distraído, fechando a mão nos galhos e
arrastando para colher as folhas dos marmeleiros da beira do caminho.
Logo chegou o velho Graciano com as varas enforquilhadas. Peguei uma e
comecei a raspar o chão juntando os gravetos enfumaçados. Zeca falou
alguma coisa. Seu Graciano respondeu não sei o que. O velho botou fogo na
primeira coivara.
Fui me distanciando... Chegando no aceiro finquei a ponta da vara num
buraco de formigueiro, apoiei o queixo na forquilha e fiquei olhando as
labaredas que tomavam a forma do corpo de Carminha. Os gravetos
estalavam, lançando para o alto pequenas fagulhas que desciam
repetidamente, percorrendo todo o corpo em chamas. Os olhos seguiam as
chamas das coivaras ardentes e os pensamentos dançavam num ritmo
frenético e encantador.
Soares Moreira
Natal (RN), julho/2006

Mais um Conto premiado no 13º Concurso, Talentos da Maturidade.
Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Seguidores: 5Exibido 405 vezesFale com o autor