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Contos-->Um Caso Estranho -- 26/01/2012 - 19:18 (flavio gimenez) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

 

Lá fora, uma paisagem condizente com a situação: Árvores cheias de folhas caindo, ventos varrendo as ruas, pessoas com guarda-chuvas cinzentos, como que aprisionadas num sonho. De pé, encostado a um tronco de Pau-Brasil(ainda com flores amarelas em agonia), um velho fumava ritmadamente, maquinalmente, como se ao olhar à distância, algo em si se ligasse e ele relembrasse, a todo instante, que deveria estar ali, naquele momento, onde as ambulâncias passavam expressas e de sirenes desligadas mas velozes, quase sumindo de tão rápidas. Um casal passava de braços dados: Ele, alquebrado(evidentemente envelhecido, algo nos dava a impressão de que era absorvido de dentro para fora) e ela, carinhosa, o amparava em trêmula marcha. Iam ao encontro do metrô, a pouca distância de onde eu me encontrava. Passou um vendedor de bilhetes de loteria, dessas que prometem mundos e fundos, mas que nunca se ganham. Ia o vendedor, guimba de cigarro pendurado ao lábio, como uma pequena cauda de rato; Eu nem o fitei porque, sem dúvida, achando que lhe daria a atenção, viria ele com a fauna toda a me prometer "a última barbada", o número da transformação! Pois sim! De números não os quero mais perto de mim. Os números servem para nos acorrentar, somos números ao nascer, tornamo-nos números e somente números nas estatísticas oficiais, temos alguns deles a nos perseguir até ao último suspiro...Que o diga eu, à procura de um número, um sinal de que talvez ela ainda existisse, a minha linda amiga, se é que se pode chamá-la assim, depois de tudo o que aconteceu.

Eu tenho um papel à mão que traz um número, uma ocorrência que eu registrei agora há pouco; lá, onde fiz o tal nefando documento, orientaram-me a vir aqui, neste lugar frio, onde cheira álcool, formol, fumaça de cigarro e pestilência humana.(Sim, o lugar chega a ser pestilento). Alguém me disse que as paredes guardam nossos mais íntimos pensamentos, num registro não-gráfico de todo e qualquer ato ou ação que se possa fazer. Imagino o que aquelas paredes, naquele ambiente escuro, mal iluminado, têm a contar. Há duas pessoas ali, além de um funcionário que conseguiu conquistar a tão desejada invisibilidade, pois que só o percebo quando ele passa um pano cheio de furos roçando os bicos de meu sapato recém-engraxado por um simpático moço que me cobrou dez reais por nada. Dei-lhe vinte, ele saiu todo prosa, bem ali perto, onde a Pamplona faz esquina com esta rua onde me encontro e da qual não prefiro dar o nome. Ouço uma espécie de portinhola se abrindo. Entra um rapaz mais do que sonolento(eu diria estar sob efeito de algum entorpecente, tão vermelhos e injetados os olhos).

--Boa tarde.

--Boa tarde!

O outro fica de cabeça baixa, parece estar muito triste com tudo aquilo.

--O senhor quer...?

--Instruíram-me que viesse aqui, para dar seguimento a uma ocorrência...

--...Ah, o desaparecimento.

O outro rapaz que ali estava meio que ergueu os olhos, abatido, mas ficou interessado, como se aquilo o avivasse, na grande distância que nos separava.

--Por favor, acompanhe-me.

Senti um arrepio. Era a hora da verdade. Havia um corpo a reconhecer, havia uma razoável chance de ser o dela, o seu corpo, o corpo de uma maravilhosa criatura, uma linda mulher; agora, reduzido a um grito de silêncio, ao frio de uma peça de metal, ao contato de um lençol nojento, em meio a um caos de facas, instrumentos cortantes, balanças, outros lençóis e geladeiras até o teto. Confesso que me senti nauseado: nunca havia feito isto! Acompanhei o rapaz que se movia ali como se estivesse deslizando(talvez mais um fantasmático, como eu achava todos ali ). Chegamos ao local do fim de tudo. Ele, brusco, intempestivo, arrancou o lençol!

--É ela?

--Não. Por Deus, não é!

--Confirma isto?

--Sim.

Um misto de repugnância e alegria absurda me invadiram, eu não cabia em mim de contentamento. como poderia esquecer a linda deusa? Ainda podia estar entre nós. Não segurei mais, vomitei copiosamente o almoço.

--Fique calmo. Muitos sentem isto aqui!

Saí da sala e voltei à estaca zero. Quando ele me chamou para finalizar o processo todo, afirmando oficialmente que aquela que se encontrava lá não era quem eu procurava, o rapaz que estava próximo ouviu seu nome.

--Como é o nome da moça?

Eu disse seu nome. Ele ficou estupefato. Perguntou detalhes dela, seus cabelos, seus olhos. Sabia o seu perfume! Sabia das joias e em que dedos as usava. Lembrou do colar que eu lhe dera, uma joia de cristal. Ouro e cristal, que ela sempre usava entre os seios, às vezes só o colar ornando aquele corpo escultural. Eu fiquei chocado de início, irado ao ouvir sua descrição, mas a calma de saber que ela continuava viva de alguma forma me fez ouvir o que ele tinha a dizer. Ele também a procurava, pois que ela sumira sem deixar vestígios, deixando mala, roupas em sua casa. Malas? Eu achava que ela gostava era de mim. Ele, bem mais alto que eu, bem apessoado, era o tipo de homem que bem admiram as pequenas, que no fundo sempre fantasiam um homem forte e capaz. Eu sublimei minha inferioridade ao perceber que ele não passava de um coitado, manipulado por aquela mulher que também me manipulara, com incontáveis mentiras indefensáveis. Ele marcara com ela há dois dias no parque das flores, ela nunca apareceu, não telefonou, não deixou vestígio. Como havia feito comigo! Ele chorava copiosamente e eu lhe disse, calma, ela não morreu, aceita um café? Ele fez que sim, não comia nada há dois dias, de tão triste que estava--e porque ela o ajudava em sua difícil vida. Eu caminhei com ele na rua, saímos ao vento, fustigados pelas folhas que caíam. Os troncos das árvores rangiam ameaçadores, ele soluçava fundo, comovente. Eu, mais acostumado aos altos e baixos dela, ao sentar-me, senti uma paz profunda. Ele se sentou de lado, a cadeira rangeu(era forte o moço) e eu pedi dois cafés fortes e pão com manteiga. Ele aceitou, come ávido o que lhe era devido, bebeu o café lentamente, olhando a triste rua, com seus ventos e roupas soltas e as moças que passavam e que lhe traziam alguma esperança.

--Como a conheceu?

--E você, a conhecia?

--Sim, digamos que sim, era seu amigo.

--Ela iria se casar comigo. Prometeu, fizemos um trato de sangue, ela cortou um dedo e me prometeu!

Ele me contou, trabalhava num mercado, era descendente de italianos e há pouco viera clandestino ao Brasil Ela sempre comprava suas coisas no mercado em que trabalhava. Ele se conheceram assim ele lhe apresentando as frutas e ela lhe oferecendo o famoso sorriso, que ele bem conhecia. Em duas semanas já dormiam juntos, ela era insaciável ( e eu me remoendo por dentro, porque era assim comigo e com quantos mais?) e em sua paixão, lhe prometera casamento. Chegaram a alugar um apartamento, simples, mas para os dois bastava, assim ela lhe dissera, e lá deixara as malas, para nunca mais aparecer...!

--Entende? Eu não posso acreditar mais no que ela fez!

--E eu? Posso acreditar? Ela sempre me disse muitas coisa, até mais coisas do que o que disse a você. E, no entanto...Eis-nos aqui, procurando um corpo que, oxalá seja verdade, não existe, pelo menos até agora.

--Prefiro o seu corpo animado a aquelas estátuas de cera.

Um esboço de sorriso apareceu. Eu olhei em torno, havia velhos clientes estabelecidos, gente que se desocupa demais da vida, pessoas que se moviam no espaço de suas mediocridades, pasmos, incrédulos com seu destino. Eu já notara o insistente olhar de uma jovem, sozinha num canto, esperando que eu a olhasse de vez...

--...Também prefiro que esteja viva.

--Veja, ela me ligou, há dois dias, para me declarar que me amava!

--Há dois dias, ela também me ligou e disse que queria conversar comigo, para definir nossa vida a dois.

--Louca.

--Total. Ainda acha que ela nos merece?

Ambos, em silêncio, olhávamos a toalha xadrez, de tipo português, que estava muito bem arrumada sobre nossa mesa, com seu saleiro, seu paliteiro, o porta guardanapos e o azeite, que passei no prato para comer meu pão. O dono levantou os olhos quando lhe pedi um copo com vinho. Vinho, pão, estranha missa a nossa, bebendo do sangue dela, sentindo o seu corpo em pedaços, fruindo seu perfume comum a nós dois e ambos de coração partido.

--Somos ridículos.

--Como?

--Não acha? Você, iludido por um sonho, eu enganado por uma promessa. Ela desaparecida para ambos, sem sinal para o mundo, sem nunca nos contatar.

--Sinhioire?

Era o dono do bar, trazendo o vinho.

--Mandaram-me entregar a vocês.

Sobre a mesa, um envelope. Quem o entregou? Ah, foi ela, ali--E já não havia ninguém na mesa onde havia a jovem. Eu e meu colega de infortúnio olhamos ao mesmo tempo. Engraçado, ele foi mais afoito do que eu, como deveria ter sido todo o tempo e suas mãos apressadas abriram o envelope lacrado com urgência, como se do que estivesse dentro dependessem suas vísceras, suas horas finais de vida.

"Sei o que vocês procuram. Mas não vão achar mais. Libertem-se a tempo!"

--Mais vinho?

Meu amigo agora, o companheiro de tantas eras, aquele que dividira comigo uma criatura maravilhosa, cheia de inverossímeis olhos, de cabelos qual fogo em brasa, de sardas incorruptíveis, curvas que revoluteavam ao menor toque...Ele se entregou ao desespero.

--Ma comme fai! Vafancullo, putana!

--Calma.

Suas veias dilatadas denunciavam sua ira, ele procurou ao redor à guisa de perder-se, talvez achar a causa de sua ira difusa e seus olhos cairam sobre mim.

--Cornutto!

--Ei, menino, qual de nós dois é mais?

Incrédulo, ele me olhou: Por um momento, achei que ia me surrar--e bem o podia fazer, tal o seu tamanho e tão grande era sua raiva; mas algo se esvaziou nele quando falei aquilo! Ele respirou fundo, pegou o copo e propos um brinde.

--Vafancullo, Ragazza Mia!

--Vafancullo.

Caso estranho, esse.  

                                                                                                                ******

O pobre italiano já se foi. Ou parte dele, a parte que menos interessa agora. Levantou-se, de chofre, saudou-me e partiu, deixando no ar do bar aquele ar de raiva que marcou sua presença ali. O bilhete ficou comigo. Ele me disse para fazer o que eu entendesse, menos rasgá-lo, que um dia podia pedir de volta. Em meu entedimento, ele estava realmente sofrendo. Como eu já me acostumara à montanha russa dela e já, por diversas vezes, soubera exatamente o que ele sentia(e não fora só com ela), eu o deixei ir compreendendo que o que ele melhor faria agora seria esquecer o assunto, voltar ao seu trabalho e engolir enormes nacos de pizza de mozzarella. Não que eu não achasse boa a idéia, isto é, da pizza e de seus nacos. São Paulo tem das melhores pizzarias do mundo, mesmo para os padrões de outros países; os próprios italianos reconhecem isso. No entanto, o pobre rapaz a essa altura já devia estar em sua casa abandonada, em seu ninho vazio e cheio da presença dela. Já o podia ver jogando pelas janelas as malas da desaforada, com seus perfumes indeléveis e ficando só com um retrato de lembrança. Ela era cruel mesmo, já fizera isto comigo. Desde os sete anos que eu sofro de amor. Minha primeira namorada, Lúcia, tinha lindos cabelos loiros e era dentucinha, uma graça. Eu andava brincando e sonhava com seus beijos, isto sem nunca haver beijado alguém. Num dia fatídico, fui correndo visitá-la em nossa classe(eu havia viajado com meus pais) e na hora em que fui entrar, caí de testa no chão, para minha desgraça; o galo enorme na testa virou motivo de piadas e ela nunca mais me olhou no rosto e sempre que o fazia, dava risadas de muxoxo. Minha primeira decepção! Eu a tive como minha primeira namorada. Infância difícil, eu cresci mirrado, cresci em meio a ataques de asma em minha casa sufocante e empoeirada!

Eu era muito estudioso. Quando a libido do homem sai de sua verdadeira casa e vai ao coração, ele se apaixona. Quando ruma ao cérebro, ele estuda. Este foi o meu caso, porque não podia conciliar o que estudava com o que sonhava ou não tinha tempo para isto. Dos sete aos quatorze, eu só estudei e sonhei com o espaço, esta fronteira que norteia nossas vidas. Brilhava nos livros, cumulava derrotas no amor. Então, eu conheci minha segunda paixão, que foi Miriam. Lembro de todos os momentos, do surdo desconforto quando a via, dos seus olhos leves, claros esverdeados e de sua pele branca, lisa e perfeita. Lembro do contato com suas mãos...Quentes e pulsantes. Como as mãos da nossa amiga desaparecida. Eu diria que miriam reencarnou ao seu modo nela, que agora some assim com esta desfaçatez toda, para nunca mais aparecer. E era um tal de Miriam para cá, e para lá, e para cima, e Miriam na piscina térmica, e ela me acenando do escorregador gigante; suas irmãs notadamente fomentando um romance, que teimava em não acontecer, eu sentindo sua falte, ela me olhando tímida...Quando acabou a viagem, acabou-se um romance pródigo. Ela sumiu, eu também.

--Mais alguma coisa sinhoire?

--Muito obrigado, meu amigo.

--Ele saiu nervoso!

--Não é para menos. Minha prima o abandonou, deixou as malas em seu apartamento e sumiu, depois de prometer casar com ele!

--Lá em minha terrinha, eu já sofri de amores. Agora, cá em Brasil, o que menos eu quis foi me envolver. Qual o quê, apareceu Carmen!

Carmen, mais uma lembrança, Carmem vulcânica, avassaladora como toda morena, Carmen dos loucos beijos proibidos, na beira de uma avenida, após um baile de carnaval, a mulher dos sonhos, qual o quê!

--Também tive uma. Não deu certo.

--A minha deu. Tanto deu, que temos três filhas!

Sutil o português, mas ele está certo nas palavras. Amor que fica...Mas deixa para lá, eu recordava a morena que me assaltara de paixão na praia em que meu pai tinha uma casa. Ela fora exata, ela fopra direto ao ponto, ela surgira em um dia e em uma semana, aprendi mais do que em dezesseis anos de livro e imersões em cultura devassa. Fora, digamos assim, minha terceira namorada. Mas um dia, sem aviso prévio, sumiu; ela morava de favor, mudara-se a tia, não podia mais me ver, eu era novo. Carmen. Amen, eu fechei de novo o catecismo, rezei de novo a missa e fechei os olhos. Sutil o português!

Bebi até a última gota do cálice, um cálice de um Porto que ele me dava sempre que eu precisava(e ele sabia quando estava meio fora de estação...) e fui até a Estação de Metrô. Os indefectíveis habitantes estavam lá: Um cantor de voz de soprano, um violinista em seu drama pessoal, o onipresente mendigo e sua mão estendida esperando a inexistente panacéia de sua vida, a paz que não existe e a compaixão que é falsa(no máximo serve para apaziguar a alma empedernida que imagina safar-se do limbo à custa de dois reais trocados). Pensei em achar o casal de simpáticos velhinhos, ele sempre apoiado nela mas, a esta altura, eles deviam estar longe dali. Pensei em ver um raio loiro, uma mecha de afogueados cabelos mas não:Era um grupo ruidoso de colegiais, gritalhões como sempre, na saudável impunidade que a juventude lhes dá. Eles mal sabem que próximo a eles, pode morar uma louca, pode haver um sanguinário, pode correr um hidrófobo. Qual o quê, mecha loira: Terrível menina, maldosa, falsária. Deixou duas malas em casa italiana, largou dois perfumes em meu banheiro; o que terá deixado por aí, à custas de seus golpes fatais? Mais de um coração anda partido, há uma fila de homens ocultos que espera com gratidão o seu olhar...Mas o que ela faz é fugir, fugir sempre, desabalar a correr no túnel do metrô, em direção ao trem que vem, a luz que aumenta a cada segundo, as mãos crispadas e o impacto...!

--...Moço, dá licença?

--Desculpe. Estava sonhando.

--Não foi nada.

Às vezes eu penso que é um sonho, toda esta vida é um interminável sonho. Não sei aonde eu li, eu acho que foi em um livro budista do Tibete, que nossa vida é um sonho e que acordaremos em breve, quando realmente nos veremos em toda a nossa simplicidade. Fabricamos capas e reforços de capas, camadas de defesa.  Nosso mundo é uma ilusão e a verdadeira realidade repousa no fundo, na essência das coisas...E que essência é esta? Eu a procuro, saindo da estação do Metrô. Os ruídos se tornam intensos, vibra o ar estilhaçado da noite paulistana. Rumores, um cigarro que adocica o ar, eu não sei como todos se envenenam com isto. Aliás o ar da noite é uma coisa amorfa, cheia de vicissitudes e temperos, menos pureza e transparência. Subo a rua, menos mal que não há hoje pedras no caminho como havia no do poeta. Não fosse isso, minha vida e a dele seriam em tudo semelhantes. Similis Similibus.

Toco a campainha de meu prédio. O porteiro me faz um sinal. Há um envelope em suas mãos que ele me entrega como se se livrasse de um pacote de Antrax.

_Quem o deixou?

--Não sei direito não senhor.

--Não viu que foi?

--Não vi não senhor. Eu só vi a mão dela, de luva branca. Finíssima!

--Mãos de luva?

...Definitivamente, não eram as mãos dela. De luva? Nunca. Não tinha esse quê de classe, qual Audrey Hepburn(uma das minhas musas). Audrey tinha uma graça que ela, a lamentável fujona, jamais teria, nem que voltasse em mil rondas de várias raças-raiz. Nunca. Agora, que seria a misteriosa dama? Qual seria o conteúdo da carta escondida?

O envelope na mão, entrei no elevador que emitiu um grito quando a porta se fechou. Falta óleo nas dobradiças e não tenho a mínima vontade de subir. Mas subo, afinal. Olho pelo espelho: Um sujeito baixo, de olhos enormes e cabelos hirsutos me olha do outro lado, eu enfim chego à maturidade devidamente desacompanhado e cabeludo. Preciso cortas estes cabelos. Ah, os cabelos me lembram as mãos dela e de Ivete, a linda portuguesinha que eu conheci na praia, outro vulcão que passou por mim e que não deu certo. De novo, os livros, os estudos, a obrigação à frente do destino. Ela era toda sorrisos, sinuosa e meiga. Não sei porquê não deu certo, havia química, havia cumplicidade mas houve a covardia. Certas coisas a gente não se perdoa; eu ainda me perdoarei do tempo maravilhoso que perdi ao deixá-la...O sininho avisa, estou em meu andar. O espelho me vê num afastar-me, uma última olhada não nota a camisa empapada de suor. O calor que faz nessa cidade chega a ser africano! Mãos enluvadas? Não, definitivamente não eram as dela. Se bem que suas mãos brancas, longas, alvas e quentes com certeza cabiam em qualquer luva que fosse, as de pelica, ou as de veludo roxo e sensual. Eu costumava olhar os seus olhos e seu pescoço esguio, ornado com o lindo cristal que eu lhe dera. Sua fuga me lembrava a sua personalidade facetada, as faces do cristal talvez trouxessem mais dela do que suas falsas promessas!

Abri a porta do apartamento, um belo dois quartos semi-novo que eu comprara há uns seis anos. Minha sala sempre forrada de livros, eu faço questão de os ler a todos, sempre. Não compro mais livros para acumular, agora eu os devoro e depois eu degluto sua sabedoria; isto me estimula a pensar, a contatar novos mundos e imensas possibilidades. Nessa noite eu não vou ler nada. Um vazio mortal se apodera de mim e do ambiente, porque ali há sua presença, ela tem cadeira cativa na sala, tem uma almofada que lhe modelava o corpo...E ela desaparece assim, num impulso! Ave de rapina dourada, fênix dela mesma, deve ter reencarnado em outro dois quartos a prometer mundos inverossímeis para outros grisalhos sedentos e outras variantes da mesma raça de danados...Quando eu leio certos livros, eu me convenço de nossa iniquidade...

Abro o envelope: "Não há nada que resista mais que a força do eterno amor; nada que resista ao etéreo espreguiçar da Deusa que se compraz de sorver o suave líquido da paixão humana, esta que subjuga nações e subverte a esperança de milhões de homens, transformados em meros espantalhos de seu jogo perigoso. Se quiser saber do destino desta Deusa, e de tantas outras que há, siga seu coração e leia nas entrelinhas..."

Palavras estranhas, ela nao possui este vocabulário sofisticado. Decididamente não; a letra se parece à da outra carta. Se de carta em carta eu passar desta à outra vida, eu a procuro e lhe passo uma descompostura, esfregando as tais entrelinhas no meio de sua testa alva e sardenta. Ah, posso ouvir suas risadas cristalinas, espezinhando minha estranheza, posso sentir seu hálito adocicado e cuidadoso a sussurar palavras cálidas em meus ouvidos e seus braços lânguidos a se fechar em minhas costas, num momento mais sublime; a carta então terá deixado de existir, picada em mil pedaços !

                                                                                             *****************************************************************************************

Em minha casa tenho hábitos que só os anos de solidão solidificam como, por exemplo, tomar banho cantarolando Mahler, ler de pés descalços pendurados na grade da pequena varanda, cozinhar um macarrão sem propósito algum ou escrever minhas literatices sem medo algum da crítica. Sei que o que escrevo tem algum talento, mostra fôlego, mas ainda há caminhos a trilhar...Talvez porque, se dependesse disto para comer o tal macarrão ou para pagar o estrito espaço que me é reservado, talvez(eu ainda não tenho a certeza absoluta disso) eu escrevesse com a garra dos leões aflitos, sequiosos pelo naco de carne sangrenta do sucesso ou do tempo incerto da vil sobrevivência. Mas não, cometo meus textos assim, de maneira escusa, escondido, quase eclipsado...O que me sobra de tempo eu o uso para ler e caminhar nos mundos mais estranhos. Nada há que se compare, então, ao momento estranho que eu vivia agora, com essa fujona em meu encalço ou eu na sombra dela, investigando minhas próprias emoçoes vivificadas e penetrando nas frestas de possíveis pistas que ela eventualmente havia deixado antes de desaparecer de minha vida e a do italiano, pobre rapaz. Ao que me consta, de tão amargurado que ele ficou, arrumou suas coisas e voltou à sua terra para trabalhar nas terras do sul, como camponês que fosse, nas plantações de uva e vinhaterias de seu país. Eu, de minha parte, como sou mais maduro, não me atingem as vinhas da ira, de modo que ao meu hábito regular de acordar todos os dias, bebericar meu café preto e sair para o trabalho de meio período (sim, eu trabalho em uma biblioteca, classifico os livros conforme o assunto, conforme a antiguidade; posso assim conciliar o que eu acho que é meu talento com o naco sangrento da sobrevivência do tal leão...) eu acrescento agora o de procurar saber aonde foi dar com os costados minha adorável fujona. Ah, sua cintura, adornada por um pequeno piercing, coisa que às vezes enredava em pelos múltiplos...O tal leão então se tornava ferido, em seu rugido enfático.......E os rugidos do Leão Enfático eram breves, mas múltiplos, de modo que minha saborosa vida se tornou mais adornada pelos momentos vívidos de tal jóia, que se pendurava no umbigo de minha existência. Ela, sempre ocupada. Um tal de sair daqui, uma outra aula ali, uma casa para visitar acolá. Agora entendo, difícil é entender ao0nde vai a cabeça de alguém assim que dá tantas voltas, tantas voltas. São tantos os cachos, tantos ais que eu nem conto mais, só assim quando eu ando solto à noite, cercado de luzes atentas e olhos que saem do escuro, em minhas marchas de animal noturno. Explico: eu saio assim, altas horas, com minha máquina fotográfica mental gravando os tipos que a fauna noturna oferece e os trago bem aqui ao peito, bem à minha memória indelével(eu consigo recordar fatos que surpeendem os atores passados com os detalhes de tais acontecidos...)e aí eu consigo pensar mais desanuviado, não sem antes o sobressalto de um tipo turvo que se chega e pede à queima-roupa um cigarro e um tostão para dar uns tragos, na maior calma e certeza. Dou-lhe o dinheiro, cigarro eu arranjo no bolso da camisa, prossigo minha faina crepuscular, andando de olhos abertos e anotando os irrequietos tipos que andam ali.

"Ma que cosa fai!" Era o italiano, reverberando com seus grandes olhos azuis e suas mãos calejadas e desamparadas por aquela figura linda, aquela fotografia desbotada, aquela megera de mãos de sereia. Sim, e agora, que fazer além de caminhar altas horas, nas calçadas cheias de poças espelhadas, que fazer?

Ah, vejo um oásis, é uma mesa vazia em um pequeno bar à beira da calçada, onde alguns casais conversam e um homem beberica um café antes de partir para suas tarefas de antes do nascer do sol. Pode ser que depois do café carregue a pistola, pode ser que vá à banca e desempacote os jornais que vão circular; pode ser que nada, apenas bebe ali o santo grão para aquecer os ossos depois de uma longa noite adentro da baleia que o engole todo o santo dia. Por que, meu Deus, o munda dá tantas voltas, tantas voltas?

"Quero ver como ficamos. Você me promete mundos e fundos, no fim não me dá é nada, só quer saber de me comer. Bom, vocês homens são assim, logo que saem de cima querem cuidar da vida. Eu não sou desse tipo, de jeito e maneira. Eu sou do tipo refinada, gosto de uma boa carne, embora só eu saiba o quanto de osso eu tive de roer. Mas não! Isso passa, até você passa, meu querido, então, como é que ficamos?"

Então foi assim que terminamos...Ficou algo mal parado, ficou uma espécie de sensação de distância e é engraçado como ela está logo ali, bem ao lado, aquele olhar matreiro que me espanta, aquele sorriso louco que atrai a todos, aquelas mãos enluvadas segurando um cálice...

--Garçom?
--Pois não?
--Gostaria de um bom vinho. Qual você tem?
--Hoje tenho um Borgonha de safra boa.
--Uma porção de queijo parmesão também.
--Desculpe a pergunta, senhor...Mas e sua amiga, nunca mais a vi!

Sua pergunta, um corte na minha alma; o tipo de pergunta que faz cair a ficha, ela não está mais ali, ela realmente existe, afinal até o garçom se lembra de sua formosura...Para onde raios a partam ela foi, que mal lhe pergunte?

--Pois é...Não a vi mais!
--Que pena! Ela gostava de sua companhia. Dava gosto vê-la sorrir!
--Dava mesmo.

E era um riso contagiante, que iniciava baixinho e às vezes estourava como uma onda imprópria de sonoras gargalhadas...E olhos se voltavam mas se perdoava tudo em tal belezura...

--Sumiu, meu amigo. Sumiu de várias vidas,só espero que esteja bem. Complicada nossa amiga!

 

                                                                                                                   ******************************************************************************************

Lembro-me das estranhas vontades, de seus peitos empinados, de sua bunda perfeita. Lembro de tardes inteiras compartilhadas, de noites viradas ao avesso. A loucura era nossa eterna companheira, nosso inseparável vinho, nosso amálgama. Ela costumava dizer que sem mim, sua vida carecia de graça; era muito mecânica, muito metódica e eu surgia por necessidade, nas horas mais turvas. Segundo ela, eu era seu Mecenas nas artes do amor e seu Midas nos toques de ouro porque aonde eu a tocava, sua lanugem se revestia de luz. Ah,  essas tardes agora seriam para sempre nossa história, seriam para sempre um sonho escuso, nossas tardes viradas seriam nossas roupas a secar nos varais do tempo que passava. Pois bem, passara; há poucas horas eu procurava um corpo, sem a certeza de que ela não passava de uma lebre fugidia, agora eu tinha a certeza de que eu é que nào passara de um passatempo. A sensação do uso e descarte era o que mais doía. Não fora nada material, o tal uso se restringira a mim, já versado em anos e com capas de milênios de espera. Sabe quando você acha que encontrou alguém especial?Essa porra de amor não vale nada, absolutamente. Tudo não passa de um jogo bioquímico que inunda nossas vacilantes sendas cerebrais e tumultua nossa lucidez, e para quê? Eu pergunto.

--Para quê?

Eu peço a conta, eu pago a conta, é cartão, sim, de crédito? Sim. Vai querer nota fiscal? Sim. Digite seu número, ah o número de suas medidas, ah cintura, quadris e coxas, deixe-me ver. Não, vai confundir tudo, essa porra de amor não vale um flato, já estou digitando o telefone da musa no lugar do número da Besta. Fato, devo estar muito cansado porque eu e ela, ela e eu sabíamos, era um simples caso dos mais fáceis de delinear, eu lhe dava o que ela precisava na falta de mim(doce ilusão) e ela me dava o que sempre me faltou. Tudo o que você queria saber sobre o amor, essa porra, eu lhe ensino. Num primeiro momento, você e ela são todo sorrisos. O tempo passa, dias, semanas, meses...Aí um certo desdém se apossa da relação, já a máquina começa a te moer os culhões e algumas vezes você se esquece, ela some, para num dia lindo, você sentir a dor da ausência e procura o reencontro...Pode-se dizer, que nosso caso caminhava célere para a via final comum de todos os casos de amor e cansaço.  A vala comum da mesmice. O contrato mútuo da indiferença. Era assim ou eu estou exagerando? Deve ser minha veia artística, meu lado Hamlet. Ela sempre me dizia: "Você dramatiza tanto!" e eu me valia de todo meu talento para ganhar mais um Molière. Ah, que derrière! Molière, aqui vou eu, e tome tarde virada. Mas afinal o que deu nessa moça, além de ser moça, além de ser estranha? O que deu nela?

--Por quê você olha tanto para a minha bunda?

Precisava perguntar? Poxa, eu olhava e olho mesmo. Quer dizer, não olho mais. Não olhei o traseiro do corpo, porque não era dela, isto é, se bem que tivesse. Bom, aí vai uma dose de necrofilia. Evidentemente, eu estou viajando nas brumas do vinho Borgonha! Quer saber sobre o amor? Consulte-me. Serei o melhor guia para você. Quer um conselho? Ame, mas não exagere. Nunca se sabe aonde vai parar o seu coração. Aconselho a fazer como na bebida: Use com moderação. 

--O sinhoire sempre com essas tiradas espirituosas...

--Meu amigo, é o espírito do vinho que você tem aqui. Excelente, por sinal.

--Obrigado, é uma satisfação. 

Cliente antigo, eu. Antigo até nas nódoas da calçada, que eu conheço bem. Nos passos que eu conheço faz uma carrada, e ele sempre ali, envelhecendo e ficando careca, os cabelos cinza-escuro e os olhos de bom português, o sotaque que eu acho absolutamente delicioso...Ah, e ainda tem fantásticas dicas sobre um possível roteiro que ele nos deu aos dois "pombinhos"que é como ele costuma nos chamar. Chamava, estou sempre esquecendo. Nessa altura do dia e do vinho, eu e ela já estaríamos nos olhando e ela, com covinhas no rosto e olhos meio apertados, estaria sugerindo uma fuga mais do que esperada e suas pernas se embaralhariam nas minhas por sob a mesa, balançando copos e tilintando até por demais. 

--Tire seus olhos da...

--Calma, eu tiro.

Ela sorriria sorrateira, olharia de lado e me arrastaria dali, sem dó nem pieguice. Afinal, foi ela quem começou e eu ainda estou para terminar esse encontro. Ou mais um desencontro, aonde se escondeu o fio de Ariadne para eu puxar de volta meu talismã do Labirinto? Sorte eu não ter nenhum alto comprometimento. Deve ser assim, na meia-idade tudo se torna meio fosco e  aquilo que desesperaria um mortal comum já não nos atinge nessas esferas, porque sabemos que é bobo, sabemos que tudo passa ou se recupera. Já levamos tantas puxadas que mais uma, mais outra, não faz muita diferença. Pois era assim em nossas brigas, ela dizia: "Não me pressione"e eu dava de ombros e ela "Poxa, quer dizer que não faz diferença???"e eu sumia. Daí uns dias, tocava e ela em melíflua voz, dizia da esquina de sempre, na rua de ontem, na  cidade vazia de nunca. E agora, faz diferença? Ela nos abandonou, a todos. Nao importa  se eu sou Midas, Minotauro, Hierofante. Não diz nada se eu nada posso com o Italiano que parece ator de televisão. Mas ele e eu temos uma coisa em comum, e ambos fomos deixados à deriva. Parece um sonho! E ela, uma fada de conto de Grimm.

 

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