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Contos-->QUANDO O AMOR NÃO ACABA - Cap. XXX -- 12/02/2012 - 15:04 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XXX

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Foi-me desesperador ficar em Juiz de Fora sem me encontrar com Diana, ainda mais sabendo que meus dias de férias estavam no fim. Por pouco não lhe telefonei dizendo que a acompanharia. No entanto, como ela havia me dito que os passaria com os pais não quis me intrometer. Sabia que se estivesse com ela, ela os deixaria para ficar comigo como se eu fosse a única pessoa com a qual valia a pena permanecer naquele lugar. Talvez até no calor do momento acabássemos retornando para Juiz de Fora a fim de passar a noite na portaria de seu prédio ou mesmo em outro local. Alás, tais possibilidades me ocorreram quando finalmente tia Graça foi embora e me vi as sós no quarto de visitas.
Embora soubesse que minha tia não era a culpada por meu encontro com Diana ter ido por água abaixo, não pude evitar de tratá-la com uma frieza pouco comum. Suas perguntas sobre meus pais e minha irmã, sobre os negócios da família e sobre Luciana, perguntas que qualquer um faria nas mesmas condições, acabaram por me irritar de uma forma que eu já não sabia mais o que fazer para não tratá-la grosseiramente. Aliás, é bem possível que tenha percebido que eu não estava amistoso e disposto a lhe responder àquelas indagações, pois de um momento para outro calou-se e em seguida mudou de assunto, passando a satisfazer sua curiosidade com minha avó, a qual procura agradar a filha de todas as formas como se aquela visita, ao invés de corriqueira, fosse-lhe uma ocasião deveras especial.
Por um momento eu me senti aliviado, mas ainda sim minha irritação persistia; talvez porque a sua presença me fazia lembrar a cada segundo que se ela não tivesse vindo à casa de minha avó eu estaria com Diana naquele momento. Portanto, se eu estava infeliz, beirando ao desespero, era devido à visita dela à minha avó.
E que alívio experimentei ao ouvi-la dizer que precisava ir embora porque estava ficando tarde. Consultei o relógio e pouco passava das dez. Pensei em telefonar para Diana e dizer-lhe que em minutos estaria diante de seu prédio, uma vez que tomaria um táxi; mas esperei que tia Graça saísse. Assim que minha avó a acompanhou para abrir-lhe o portão do prédio, pois este não possuía zelador, telefonei para Diana. O telefone tocou, tocou mas ninguém atendeu. Por um instante, já muito irritado, cheguei a pensar que talvez ela houvesse saído para se encontrar com outro rapaz. Lembro-me de indagar: “E se ela tem um namorado? Por que não? Não sou o namorado dela. Apareço de vez em quando e torno a sumir..” E essa possibilidade, embora Diana tenha me confessado não conseguir namorar outro homem por minha causa, acabou me deixando enciumado. “Quer saber de uma coisa? O azar é dela. Duvido que ela consiga arrumar um cara assim que nem eu. Deve ser um idiotazinha qualquer, um joão ninguém que não tem onde cair morto”, lembro-me de concluir. Nisso disse a mim mesmo que ela não merecia que eu ficasse pensando nela, portanto pegaria o meu Thomas Mann e mergulharia naquele mundo onde Hans Castrof tomava os primeiros contatos com os demais pacientes.
Bem que tentei, mas foi em vão. Não passei da terceira página. A imagem de Diana e dos nossos momentos nos últimos dias invadiram-me o pensamento de tal forma que perdi completamente a concentração na leitura. E continuá-la seria perda de tempo e todo o restante da obra ficaria comprometida pois as primeiras páginas haviam deixado bem claro que a compreensão do romance exigia completa absorção do leitor. Fechei o livro, depositei-o ao lado da cama sobre um pequeno móvel e deitei na cama com a cabeça sobre os braços e olhar fixo no teto enquanto os pensamentos me arrastavam para longe daquelas quatro paredes.
Enquanto a lembrança percorria todos aqueles dias em que nos encontramos, a vontade de correr ao seu encontro ficava maior. Houve um momento – lá pelas quinze para meia note – que cheguei mesmo a me levantar para ir atrás dela, mas faltou-me coragem. Aliás, a falta de coragem e a indecisão sempre acabava por interferir e estragar tudo. Talvez fosse uma decisão insensata ir ao seu encontro aquela hora, mas pelo menos teria tentado e mostrado para ela o quanto a amava. Ao invés disso porém, acabei dizendo a mim mesmo: “Ah, tá muito tarde! Ela está dormindo e não vai me atender...”. Então, levantei-me, tirei a roupa, apaguei a luz e tornei a deitar. Como fizera pouco antes, acabei por me conformar apenas com os pensamentos, os quais agora não se remetiam somente às lembranças do passado, mas imaginando situações que provavelmente jamais viriam a se tornar realidade.
Foi então que vislumbrei a possibilidade de ir no dia seguinte para Santa Paula a fim de encontrá-la. Lembro-me de imaginar inclusive a mão do destino nos pondo no mesmo ônibus que nos levaria para aquele lugarejo onde a felicidade podia ser encontrada em cada grão de areia. Imaginava o ônibus quase vazio e nós dois sentados bem lá no fundo, às sós, abraçados e trocando carícias e beijos. Tal cena, depois de algum momento, acabou me levando a tentar adivinhar qual ônibus ela tomaria para Santa Paula. Havia ônibus de hora em hora, portanto havia uma probabilidade de uma em doze de encontrá-la no ônibus. No entanto, a medida que analisava as probabilidades dela ir num horário e não em outro aumentavam as minhas chances. Por exemplo: antes das nove horas dificilmente ela iria; à noite menos ainda. Ou seja: não tomaria o ônibus depois das seis. Aliás, se ela queria passar o fim de semana com os, provavelmente iria no período da manhã e assim chegar para o almoço. Durante algum tempo tive quase certo de que ela tomaria o ônibus das nove ou dez horas. Mas de repente lembrei-me que havia me dito que iria para Santa Paula após o almoço. Nesse caso então ela só iria à tarde. Por fim, conclui que ela tomaria o ônibus das 16:00hs ou 17:00hs. Bom se eu tencionava encontrá-la, era só ir até o ponto onde ela o tomaria e esperar o ônibus das 16:00hs. Caso ela não aparecesse esperaria o próximo. Se estivesse com sorte ela apareceria para tomar este. Pronto! Estava decidido. Avisaria minha avó que iria até Santa Paula. Ela não se oporia. Assim encontraria Diana. E foi com estes planos que acabei por adormecer.
Quando acordei no dia seguinte, os planos do dia anterior ainda me estavam frescos na memória. No entanto, a possibilidade de encontrar Diana no ônibus foi aos poucos se tornando absurda. Eu não tinha como adivinhar o horário em que ela o tomaria e encontrá-la seria apenas puro golpe de sorte. Ainda sim não desisti da possibilidade de ir à Santa Paula para vê-la, embora não estivesse certo de estar fazendo a coisa certa. Aliás, foi essa incerteza que acabou fazendo com que adiasse a ida a Santa Paula para o final do dia. Cheguei a conclusão de que logo após o almoço poderia desagradá-la, já que isso provocaria revolta em seus familiares, principalmente na mãe que não suportava nem ouvir o meu nome, o que certamente a levaria a repreender a filha por ainda estar se encontrando comigo, um rapaz que só queria iludir e se aproveitar da ingenuidade daquela jovem, embora Diana não fosse mais aquela menina de 16 anos que conheci anos atrás quando da festa em homenagem à Santa Paula, padroeira do lugar.
Por volta das dez horas, a convite de minha avó, acompanhei-a ao cento a fim de ajudá-la a fazer compras. A maioria das lojas no centro de Juiz de Fora fechavam ao meio dia no sábado, portanto se deixássemos para ir à tarde talvez ela não conseguisse comprar tudo o que pretendia. E de mais a mais, percorrer as ruas Halfed, Getúlio Vargas, Batista de Oliveira e aquelas redondezas me faziam lembrar da infância, quando, em companhia de minha mãe, perambulávamos pelas mesmas ruas, as quais me provocavam um deslumbramento inexplicável ao deparar com tanta gente, talvez porque Santa Paula era um lugar quase morto e excetuando alguns dias festivos do ano quase não se via alguém pelas ruas. E ainda hoje, ao percorrer aquelas mesmas ruas lotadas de gente correndo para lá e para cá como num formigueiro, causa-me um prazer nostálgico, uma sensação de que a vida não se esvai aos poucos embora eu a sinta escapar-me entre os dedos e a morte se aproximar sorrateiramente.
Ao dirigirmos à Av. Rio Branco para tomar o ônibus de volta, passamos em frente à galeria onde fica o Gaivota, aquele bar onde Diana me levou certa vez. Ao reconhecer o local a lembrança dos momentos que passamos ali abstraiu-me por alguns momentos. A canção de Caetano quase escapou-me por entre os lábios, pois os anos poderiam apagar-me a lembrança de todos os lugares onde ouvira uma canção, mas jamais poderia me fazer esquecer de Você é Linda e da quela noite no Gaivota. Ainda me lembro de cada palavra que dissemos enquanto a canção era executada, embora Diana tenha sugerido a canção anterior – Forever Young – como a nossa canção. E meus pensamentos só foram interrompidos quando minha avó disse que à noite iria na casa de uma amiga que estava adoentada. Foi então que aproveitei a oportunidade para lhe dizer que não se preocupasse comigo pois eu iria para Santa Paula após o almoço e só retornaria à noitinha.
Acabei tomando o ônibus das 16:00 hs. Ainda tive esperanças de encontrar Diana, mas ao entrar e não avistá-la acabei me conformando. Deduzi que provavelmente ela teria ido mais cedo para almoçar com a família. E para conter o meu estado de excitamento, pois não via a hora de estar com Diana, abri a Montanha Mágica e mergulhei na leitura. No entanto, não cheguei a ler muitas páginas. Ao passar por Igrejinha já não conseguia manter a mesma atenção e em Penido fechei o livro, recostei a cabeça na poltrona e, olhando para o vazio, deixei que os pensamentos me levassem até Diana. Não adiantava lutar contra os instintos. Naquele momento o prazer provocado por tais pensamentos me dominava e era melhor não lutar contra eles. Talvez algumas pessoas até consigam dominar seus instintos e seus pensamentos, mas a maioria não encontra forças e sucumbe a eles. Infelizmente eu fazia parte dessa maioria. Aliás, os anos me ensinaram que não somos nós quem controlamos nossos pensamentos, mas eles que nos controlam. Não podemos evitá-los estando num ambiente onde um misero detalhe é capaz de acioná-lo. Ao ir para Santa Paula seria inevitável não pensar em Diana o tempo todo.
Confesso que senti um calafrio quando finalmente o ônibus parou a poucos metros da casa de Diana. Desci os degraus com o coração palpitante como se fosse resolver uma pendência capaz de mudar completamente o meu destino, embora só estivesse ali para encontrá-la. A causa desse desassossego porém o amigo leitor já deve saber: a minha timidez. Eu não sabia como procurá-la e menos ainda o que dizer-lhe quando a encontrasse. Tencionava dizer-lhe que fora ali para vê-la, mas não estava certo disso. Talvez não fosse a melhor coisa a fazer. Talvez uma mentira, como tantas outras que eu já contara todos esses anos, fosse a melhor coisa. Mas o que dizer-lhe? Que fora visitar amigos? Ela sabia que eu estivera em Santa Paula no dia anterior. Portanto essa desculpara seria um tanto esfarrapada. Teria de ser mais original e muito convincente. E era justamente isso que me apetecia naquele momento. Antes de procurá-la teria de resolver essa questão. Assim preferi descer do ônibus e seguir na direção contrária. Pararia no bar do Sr. Chico a poucos metros dali, compraria um refrigerante e enquanto o bebia traçaria uma estratégia. A timidez normalmente faz com que coloquemos os mais incríveis obstáculos nas coisas mais simples, mas não nos impede no entanto de imaginarmos meios de transpô-los. E foi o que fiz.

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A PAIXÃO QUANDO CEGA
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