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Contos-->Terra Seca* -- 18/03/2012 - 01:09 (MARIA CRISTINA DOBAL CAMPIGLIA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Terra seca.

Ele dizia: “que neguinho bonitinho, este seu, Filó!”. Era sempre a mesma coisa, quando a gente chegava de manhã bem cedo. Às vezes enquanto dizia, passava a mão na minha cabeça. Eu pensava nele como “ o homem” porque era o dono daquilo tudo e patrão da minha mãe. Fumava um cachimbo que tinha um cheiro inconfundível : sabíamos que estava por perto quando o cheiro aparecia, sempre antes dele.
Aquilo me irritava muito. Meu cabelo crespo não admitia dedos de adulto se enfiando entre os fios, mesmo assim, a impressão que eu tinha era que ele apertava com dois dedos meus cachos minúsculos e enrolados.

A gente chegava antes do sol aparecer porque morávamos longe e segundo minha mãe, no verão, as chuvas vinham cedo pela tarde ameaçando nossa volta. Nunca, que eu lembrasse, pegamos chuva na caminhada de volta pela estrada de terra, nem mesmo lembro de chuva após a chegada. Vivíamos numa das regiões mais secas do continente e eu não sabia de que chuvas minha mãe falava.
Ficávamos no casarão “do homem” o dia inteiro, às vezes me divertia no enorme quintal com os cachorros, as galinhas que andavam soltas. Havia um cachorro que para mim era especial, o Benito, velho e muito carinhoso. Eu subia nas árvores altas para pegar fruta : havia pitanga e mangas.

Um menino tinha vindo da cidade grande, era neto “do homem”, segundo disseram os empregados, e tinha quase a minha idade. Vestia calça com cinto e uns tênis novinhos com reforço no solado, bons para correr e pisar na lama perto do riacho.
Mas o menino não fazia nada disso. Olhava-me como se eu fosse um bicho, sentado que ficava no banco do jardim perto da entrada da casa, com as duas mãos embaixo das coxas e mexendo as pernas.

Um dia quando chegamos, ele já estava acordado e brincava na mesa do pátio com um carrinho muito legal. Quando colocava as rodas no chão, apertava-o para atrás. Aí soltava e o carro ia para a frente com uma velocidade incrível, fiquei encantado. Quis brincar. Fui ficando cada vez mais perto, chegando devagar para ver se ele me convidava. Mas quando andava mais um passo, ele chegava um para lá e pegava o carrinho com as duas mãos encostando-o no peito. Começava tudo de novo, pois acabávamos ficando sempre à mesma distância.
Eu continuei na tentativa e ele, que só se afastava, resolveu falar : “sai, menino. O carro é meu!”. Começou a chorar de tal forma agarrando o brinquedo, que dois empregados da casa saíram para olhar o que estava acontecendo.

“Que coisa, neguinho, “tu ia tirar o carrinho do gurí”? Disse um deles, olhando para mim.
“Não, não ia não, não senhor”! Eu repetia e tentava tornar aquilo mais seguro balançando a minha cabeça sem parar, mas o choro do outro fez com que a história chegasse até a minha mãe, que parou o que estava fazendo e pôs-me de castigo. Sentou-me à frente da mesa da cozinha e aí tive que ficar, separando feijão pelo resto da manhã.

O menino aparecia na cozinha com o carrinho agarrado, ia beber água no filtro de barro a toda hora, e me olhava sem parar numa provocação infernal. Houve um momento em que sentou-se no chão da copa, onde eu podia vê-lo desde a cadeira do meu castigo, e pôs-se a brincar com o carro, falando sozinho e imitando o som de um carro de polícia. Foi então que descobri que o carrinho também acendia luzes, como fazem as ambulâncias. E descobri também que ter vontade de pegar numa coisa e não poder fazê-lo acaba doendo, tirando a fome do almoço e fazendo com que não seja possível pensar em outra coisa.
Mas aquele dia acabou, e no dia seguinte quando chegamos; o menino “branquinho” não estava mais (assim eu o chamava no meu pensamento, pois se eu era o neguinho, ele podia muito bem ser “o branquinho”).
Creio que voltara para a cidade, ele e seu carrinho de luxo que agora ficara na minha lembrança.

Agora, depois do ocorrido, eu levava meu caminhãozinho. Meu avô o havia feito quando o visitei uns meses atrás, de madeira com rodas pintadas. Era por via das dúvidas, por se aparecesse algum branquinho como aquele ou outro qualquer : eu teria meu brinquedo, ninguém iria pensar que eu queria roubar o dele.

Os dias daquele verão iam passando, minha mãe ficava cada vez mais ofegante com o calor, principalmente quando voltávamos mais cedo e pegávamos muito sol pelo caminho. Andava rápido e não parava de repetir que eu tinha que ser mais compreensivo, caminhar sem me queixar e mexer as minhas pernas como ela.
“Ainda tenho a roupa para lavar, tenho que fazer a janta e teus irmãos que chegam vão para a cidade. Você é o mais sossegado, não? Mas ano que vem você vai para a escola. Aí você vai ver como é dar duro. Acaba a moleza, menino!”
Falas como essa acompanhavam-me todas as tardes na volta do casarão. Mudava numa ou outra coisa, mas basicamente era sempre isso : os meus dois irmãos, que trabalhavam na roça e depois, à noite, iam vender como camelôs na feirinha da madrugada na praça do centro da cidade. Eles andavam cinco quilômetros para chegar lá e depois mais cinco para voltar, e às vezes não conseguiam vender quase nada. Vendiam pacotes de biscoitos e balas, algumas vezes também arrumavam cortadores de unha, guarda chuvas e sei lá mais o quê para vender.

Meu pai, depois que jantava saia de casa e eu não sabia o que ele ia fazer. Muitas vezes eu perguntava, mas não me respondia. Com o tempo percebi que chegava com cheiro forte, e às vezes ganhava um dinheiro nessas noites e o trazia para minha mãe, que parecia ficar contente. Só nessas horas eu via minha mãe alegre, outras vezes quando meu pai voltava os dois brigavam, gritavam um com o outro e ele acabava se jogando na cama e dormindo.

Nessas horas, minha mãe sempre acendia uma vela e ficava rezando para Deus, com um crucifixo pequenininho na mão, meio escondida no canto do cômodo. Então, eu já sabia que ela ia deitar no outro cômodo, no sofá rasgado que incomodava quando a gente se sentava, porque tinha um arame querendo sair do forro. Mas ela não se importava, cobria-se com um pano e ficava lá, a noite inteira. Eu tinha meu berço, ia na ponta dos pés para não acordar meu pai e deitava. Algumas vezes ficava com um nó na garganta, parecendo o dia em que aquele empregado da casa achou que eu ia tirar o carrinho do branquinho. Depois que chego e deito no berço, que já está pequeno para mim, eu não sei mais o que acontece, durmo bem. Acordo no dia seguinte e já saímos com a minha mãe. Começa tudo outra vez.

O calor dava muita sede. Eu não podia, como o branquinho, pegar água no filtro a cada instante. Minha mãe e a moça da cozinha diziam que minhas mãos estavam sempre sujas, então tiravam água numa jarra e colocavam na mesinha ao lado da porta. Daí sim, eu podia beber à vontade. Era uma jarra grande e pesada, mas eu dava um jeito. Às vezes chegava um pessoal que trabalhava para o homem, uns motoristas que ficavam dirigindo aqueles tratores pesados e os caminhões. Quando eles vinham, bebiam a água toda e eu tinha que pedir para colocar mais. Mas às vezes minha mãe achava que eu já tinha bebido demais e não deixava, isso sim era ruim. Passei a olhar com certa raiva para aqueles homens de macacão que entravam a qualquer instante e iam para dentro da casa, depois de beber a água.

“Você não ia se arrepender, Filó. É um bom dinheiro!”
“Já falei que não, olhe o menino aí...”
Eles pararam de falar quando eu entrei na sala de televisão, onde minha mãe dava água às plantas e o homem fumava o cachimbo, sentando de frente para o aparelho de tevê, com a sua barriga enorme espalhada meio para o lado. Fiquei com os olhos bem abertos, olhando a minha mãe que parou de regar e disse : “vai já para fora, Zezinho, já sabe que não é para vir aqui nem na parte de cima da casa, quem te mandou?”
E as palavras de minha mãe foram seguidas pela risada do homem, que dando umas pitadas mais curtas e tossindo, disse-me mais uma vez : “neguinho, neguinho” e completou : “ tua mãe é durona, neguinho, vai enfrentar?” E soltou a risada rouca e fedorenta de fumo quase na minha cara : corri diante da poltrona dele para voltar a sair para o quintal, sem permitir que passasse a mão por minha cabeça.

O nome do “senhor homem” era Bartolomeu. “Seu “Bartô”; o chamavam todos. A esposa do senhor Bartô chamava-se Julieta, mas embora todos falassem que ela morava no casarão, ela vinha somente uma ou duas vezes por semana para dormir, o resto ela ficava com as filhas e os netos, na cidade. Dona Julieta era legal, sempre que me via falava para me deixar assistir televisão no quarto das empregadas, que eram duas : Cida e Tonha. Na insistência delas, às vezes eu ia ver desenhos animados e ficava lá, tomando um suco legal de tangerina que ela mesma trazia numa jarrinha de plástico.

“ A senhora está mimando demais o meu filho, Dona Julieta!” dizia minha mãe. Ela respondia rindo, dizendo que “às crianças há que tratá-las muito bem”, e que eu era “bonzinho e educado”, ao que minha mãe agradecia e olhava para mim, franzindo a testa com aquele ar de “sabemos nós dois que não é bem assim”. Eu sempre era culpado, para a minha mãe, de quase tudo que não dava certo . Assim eu me sentia com esses olhares dela.
As filhas de Dona Julieta com o senhor Bartô eram casadas. Tinham uns maridos meio parecidos, os dois usavam terno o tempo todo e tinham o cabelo penteado e brilhante, e fumavam uns cigarros grandes e grossos. As duas filhas de Dona Julieta pareciam com ela, mas eram muito mais sérias e nem falavam comigo. Usavam cabelos sempre penteados que pareciam nunca sair ao vento, e andavam sempre de salto alto e perfumadas. A Juliana tinha uma filha, Marília, e a Rita tinha o Gustavo e a Alessandra, que vinham sempre nessa época do ano em que fazia muito calor. O branquinho...eu sabia que era neto do homem, mas não sabia de quem era filho. Algumas coisas eu não sei mesmo explicar, porque não sei entendê-las. Mas não importa.
O casarão tinha uma piscina, mas eu não podia entrar, os meninos e meninas da família brincavam nela e parecia que era muito divertido. Eu achava a Alessandra muito legal. Ela não se importava por eu ser o filho da Filó, cozinheira e passadeira da casa, e sempre que os outros não vinham me chamava para brincar comigo. Quando todo mundo estava na casa, ela brincava menos, quase não me chamava, mas eu entendia. Não era por ela, mas pelas mães e pelos irmãos, que não gostavam muito de mim.

Naquelas férias as duas famílias ficaram uns dias com os avós, e todos os dias eu tinha que ficar mais no quarto de televisão da Tonha e da Cida, porque a minha mãe me obrigava. Mesmo quando uma vez, a Dona Julieta pediu-lhe que me deixasse soltar pipa com os netos, a minha mãe não deixou, e eu não podia fazer nada.
Mas isso não me incomodava tanto. Já estava acostumado com a minha mãe, parecia que ela tinha um pouco de vergonha de mim, ou então ela não queria que os outros me tratassem mal, e eu fazia então o que ela mandava, porque no fim das contas, eu era o filho dela e só estava lá porque ela não queria me deixar sozinho. No próximo ano eu iria à escola, teria meus próprios amigos e ia me divertir em outro lugar.

Assim ocorreu : no ano seguinte minha mãe me levou à escola durante a primeira semana de aula, todos os dias de manhã. A gente saía ainda mais cedo. Caminhávamos até a escola que ficava a uma meia hora do casarão e então, como estava escuro e a escola ainda fechada, ficávamos esperando na porta, bem quietos, sentados num banco de pedra que havia embaixo de um teto de zinco, na entrada. Não havia ninguém, mas de repente chegava um monte de gente : professoras, guardas e outros funcionários. Eu conhecia agora a dona Elza, minha professora, ela era bem legal.

Minha classe tinha muitos alunos, creio que uns trinta. Eu sentava perto do Rodrigo e do José Carlos, meus dois amigos. O Rodrigo era filho do Alemão, motorista do Sr Bartô, e o José Carlos era como eu, filho de um trabalhador da roça, mas ele não tinha mãe.

A escola é um lugar muito bom. A gente pode aproveitar e se divertir com os amigos, a professora é legal e ensina para nós coisas que não sabemos, e agora já estou aprendendo a escrever algumas letras e algumas palavras, já sei os números até quase o numero cem : antes eu sabia contar até vinte, agora também sei escrever até o cem. Uma centena de números, sim. Quando volto da escola, passo no casarão para ir buscar a minha mãe. Agora volto sozinho, chego caminhando e entro lá, aviso que cheguei porque está na hora de minha mãe voltar comigo para casa, geralmente por causa do calor, ela vai tomar banho no quarto da Cida e da Tonha, e enquanto isso eu fico fazendo minha lição de casa na cozinha, porque em casa depois das oito da noite é luz de vela, e é pior para os olhos. Se aproveito para fazer no casarão, sobra tempo para eu ficar um pouco na rua de casa, até ir dormir.

“ Foi horrível, mãe. A senhora não faz ideia, o pessoal chegou lá dando cacetada em todos que estavam desprevenidos, eram muitos, um monte deles, todos à paisana, sem uniforme, por isso não deu tempo de ninguém avisar. E os cachorros, ainda bem que não me morderam.”
Minha mãe tentava estancar o sangue da testa de meu irmão Antonio, que tinha a camisa suja de sangue e as calças todas cheias de marcas de terra.
“Filho, tem que limpar estes cortes, não há nada aqui , só um pouco de álcool do fogareiro, menino, que horror”, dizia ela; passando um trapinho com álcool na testa de Antonio. “Pelo amor de deus, onde está teu irmão? Cadê esse menino, filho, que não chega?”
“Mãe, ele sabe correr, se defender, ele é forte,ele vai chegar bem, a senhora vai ver. Não sei como o perdi de vista, ele estava com os camelôs do outro lado da rua quando chegaram com os cães, ele deve ter corrido, mãe. Deve ter se escondido. Foi muito terror, muita confusão.”
Minha mãe chorava, tentando arrumar algo que parasse o sangue da testa de Antonio. De repente começou a soluçar, falando alto um monte de coisas : falava da desgraça de ser pobre, da vida dura, de como somos mal tratados. E meu irmão tentava consolá-la, dizendo “mãe, pare com isso, mãe, não adianta agora, a senhora fica se torturando...”

Meu irmão Josué chegou naquela noite trazido por dois amigos, que vinham numa caminhonete. Era uma caminhonete azul, com a porta amarrada com um arame forte, uns pneus muito gastos, eu observei, o carro estava bem velho. Mas eles foram muito legais em trazer meu irmão. Eles também trabalhavam como camelôs na mesma feirinha da madrugada. A boca de Josué estava três vezes maior do que é, ou se não eram três vezes, eram muitas vezes (agora eu sei o que é multiplicar, e creio que sei usar bem esse negócio de “vezes”). A boca dele tinha muitos dentes partidos e saía muito sangue, também os braços dele estavam inchados e roxos, e ele não falava. O choro de minha mãe naquela noite, nunca vou esquecer. Até hoje parece que escuto.

Numa dessas tardes eu sai da escola e fui para o casarão, buscar a minha mãe. Ela não me viu chegar, estava de costas na churrasqueira e falava com alguém, que estava atrás da parede e eu não via.
“Meu filho perdeu todos os dentes de baixo e da frente, e vai custar muito caro arrumar, você entende?”
Do outro lado era a Cida, trocando as roupas. Eu fiquei bem quieto, ouvindo minha mãe falar.
“Claro, Filó, claro que entendo. Mas você não acha que poderia falar com o “Seu Bartô”, não acha? É uma questão de humanidade. Fale com a Dona Julieta, se for o caso, mas tente arrumar o dinheiro por aqui. Para eles não é quase nada, para nós são anos de salário e sem comer, mulher!”
“Pois é. O meu filho mal consegue comer. No hospital falaram que não tem o que fazer por lá, só mesmo pagando para um dentista, o pobre chora todos os dias, porque mesmo a boca do jeito que está vai ficar deforme, ou não vai poder mastigar enquanto não consertar, um cara novo como o Josué,Cida. Não sei o que fazer, estou desesperada. Eu até falaria com a Dona Julieta, mas você sabe que quem manda é Seu Bartô, Cida, e ademais...tem outra coisa que não te falei. Ele vai de novo falar naquele assunto. Prato feito para ele, ... Menino!”
Eu havia engasgado e tossi, e então minha mãe viu que eu tinha chegado.

Fomos embora. Tentei falar para minha mãe que a boca de Josué voltaria ao normal, mas isso sim : os dentes todos quebrados, isso não teria como. Minha mãe começou a chorar de novo, e pediu-me para ficar calado. Fiquei pensando por quê a minha mãe não pedia o dinheiro para o Seu Bartô. Mas conhecendo minha mãe, eu imaginava que ela não pediria mesmo.

Meu irmão Josué era muito bom comigo. Sempre que dava, jogávamos futebol na rua com os vizinhos e ele me levava para comer cachorro quente quando tinha dinheiro, no parque perto de casa. Muitas vezes o Antonio ia junto, mas o Josué era mais divertido e gostava mais de brincar comigo. Mas agora, com esse negócio que houve, ele estava muito triste. Fui algumas noites até o sofá onde dormia, na frente do outro sofá (daquele da mola saindo) era a cama dele, porque não havia muito espaço na casa. Agora passava mais tempo no sofá, deitado, jogado e sonolento, com os machucados inchados e dor no corpo todo, por causa da pancadaria. Chorava às vezes, escondido de todo mundo, na frente do espelhinho atrás da porta. Eu ia e pegava na mão dele, e ele apertava minha mão, fungava e dizia: “é neguinho, dá a mão aqui, neguinho” e às vezes perguntava : “tá indo na escola? Tá fazendo “as lição” de casa?” “Tu tem que fazê, tem que fazê!”
A boca dele não parecia querer desinchar. Parecia um velho na hora em que falava, porque os dentes não existiam mais. Até eu senti vontade de chorar, mas achei que tinha que ser forte. Eu mudava de assunto, falava de alguma coisa da escola.

Um dia fiquei em casa porque havia reunião dos professores, e pediram para que não fossemos. Achei muito bom, e fiquei lá, não precisou ir ao casarão com a minha mãe porque meu irmão Josué estava ainda sem trabalhar. Meu outro irmão, o Antonio, ia agora para a porta de uma escola à noite; trabalhar como camelô. Vendia biscoitos e doces à saída dos alunos. Segundo ele, tinha que passar um tempo para poder voltar à feirinha. Agora as coisas estavam um pouco piores, porque não se vendia tão bem na saída da escola como na feirinha, mas era o jeito. O Josué iria assim que ficasse um pouco melhor, era isso que eles tinham dito.

Naquele dia em que não acompanhei minha mãe, ela chegou com um monte de dinheiro.
“Tome aqui, meu filho, aqui está o dinheiro para você arrumar seus dentes!”, disse quase aos berros, na frente do rosto assombrado de Josué, que ficou imóvel olhando para aquela quantidade de notas à sua frente.
Os dois se abraçaram e minha mãe, chorando, levantava as mãos para cima e agradecia à “Santa Mãe”, a Deus, Jesus e tudo que ela conseguia chamar. O meu irmão levantou as duas mãos e disse :
“Peraí, mãe. A senhora vai me explicar de onde tirou isto tudo” (ele falava enrolado, por causa da boca inchada e a falta dos dentes).
Começou uma discussão entre os dois, de um lado a minha mãe tentando convencê-lo de que não importava, que isso “era problema dela”, que “não tinha feito nada desonesto”, que se “ele não a conhecia, não confiava nela como gente e como mãe”, e outras coisas parecidas. Minha mãe era muito dramática, mas também...não era fácil para ela. Meu pai não ajudava muito nas coisas com os filhos.
Meu irmão, chorando cada vez com mais força, acabou por abraçá-la e quase se ajoelhar, misturava “obrigado mãe” com “fale pra mim mãe, o que fez mãe”... Combinaram os dois de não contar a meu pai que ela arrumara o dinheiro e que não contariam também ao Antônio, que seria melhor a gente dizer que ele conseguira o tratamento por conta de um amigo de Dona Julieta e Seu Bertô. Eu jurei que nada diria, e fiquei mais uma vez intrigado com aquilo : como a minha mãe fazia essas coisas? Como ela conseguia? Sabia que nada poderia perguntar a ela, se quisesse que não me deixasse de castigo ou me mandasse calar a boca. Por isso tudo, calei-me mais uma vez.

O casarão estava sempre cheio de gente, agora com as férias do pessoal. Todos os dias havia muita comida na mesa, bebidas e sobremesas deliciosas, que nós também podíamos comer. Eu chegava da escola e sempre havia algo na cozinha para o pessoal empregado na casa, e eu e minha mãe ainda comíamos antes de sair. Sempre a minha mãe ganhava algo gostoso e levava para meus irmãos e o meu pai, mas quase sempre era pouco para todo mundo, por isso eu comia o que dava na casa mesmo. Minhas aulas ainda não haviam terminado, mas faltavam poucas semanas.

Numa tarde ao voltar, escutei a Juliana e a Rita, as filhas perfumadas de Seu Bertô, combinando ir à cidade no dia seguinte com a Dona Julieta e os meninos Alessandra, Gustavo e Marília. Todos iriam ao cinema, depois iriam ao centro comer pizza. Foi assim que na tarde seguinte, sexta feira, não havia quase ninguém na casa. A minha escola já estava com algumas aulas no fim. Nessa tarde liberaram a gente duas horas mais cedo, porque não havia mais classe . Cheguei ao casarão com muito mais calor, porque estava mais cedo e o sol derretia pedras no caminho. A poeira vermelha parecia grudar na pele da gente, alguns bichos parecidos com lagartixas ficavam à beira do caminho imóveis, parecendo inventados ou costurados em pano, tentando pegar todo o sol do mundo para eles.

Ao chegar ao casarão, não parecia haver ninguém. As portas estavam abertas, seria folga da Cida porque vi a Tonha bem longe, arrumando o galpão onde guardava-se coisas de armazém. Entrei na casa, percebi que a televisão estava desligada na saleta ao lado, e a escada, que sempre me fora tão proibida, sussurrou meu nome baixinho : “sobe, Ezequiel”.
Era uma tentação. Onde estaria minha mãe? Provavelmente fora ao mercado com a Cida, era outra possibilidade, ou mesmo sozinha com um motorista. Eu precisava atender esse chamado e subir. Não era tão criança como antes, não tocaria em nada, não faria nada, apenas olharia como era tudo lá encima. Os quartos, por dentro. Inclusive os quartos dos meninos que não estavam : o que teriam trazido além das roupas caras? Provavelmente brinquedos que eu nunca vira. E a sacada onde eu sabia que existiam as tais “orquídeas de Dona Julieta”, e ainda “as plantinhas carnívoras que comem insetos”. Ela sempre pedia à minha mãe para não esquecer de “dar água às plantinhas carnívoras lá de cima que comem insetos”.
Aquilo era demais para mim : nem uma alma viva na casa, e que nem sequer eu pudesse subir e ver como era lá encima, isso era demais. Comecei a subir os degraus de madeira, com medo de que eles fizessem barulho. Mas eles colaboraram muito comigo. Cheguei ao andar de cima sem um “triz”.

Andei até o final do corredor, as portas dos quartos estavam fechadas e eu começaria pela sacada no final, olhando as plantinhas carnívoras. Antes de chegar à sacada, escutei uns barulhos. Vinham do quarto do final do corredor, e embora a sacada estivesse aberta e a porta daquele quarto fechada, eu arrisquei colocar o ouvido colado à porta do quarto de onde vinham os barulhos.

A voz de Seu Bertô, repleta de palavrões que não gosto de lembrar, alternava-se com som de golpes e bofetadas, objetos arrastando e gritos de uma mulher. Os gritos pareciam entrecortados, misturados com algo parecido a gemidos ou choros. E então, eu não quis acreditar no que ouvia : “quer dizer que você era durona, né, dona Filó”.

A voz da minha mãe só gemia, e eu tremia do outro lado da porta, não conseguia controlar o tremor das minhas mãos e minhas pernas. Deixei-me escorregar de costas na porta daquele quarto, para sentir a falta de ar que me sufocava, e que nesse instante acreditei ser a mesma que sufocava minha mãe.

Não sei como tomei forças e levantei. Quase empurrei a porta para tentar salvar a minha mãe, mas invadiu-me uma sensação de horror e vergonha tão grande, que conhecendo a minha mãe, achei melhor ficar imóvel e engolir meu sofrimento mais uma vez. Não sei descrever de onde tirei forças, ao mesmo tempo senti-me covarde por não ajudá-la a sair daquela situação : ela estava apanhando do homem? Ele batia nela, isso era certeza. E de que forma esquisita isso teria a ver com o dinheiro que ela conseguira? Se minha mãe tinha roubado o dinheiro e ele descobrira, por que não a entregava à polícia, ou a mandava embora daí?

De novo vinham-me desejos de empurrar a porta. Os gritos e barulhos não paravam, tampei meus ouvidos com as duas mãos e fiquei, parado à frente do primeiro degrau que eu queria descer. Ia voltar para a frente da porta e dar um chute, tentar abrir a porta e sair correndo...E se a minha mãe não gostasse? E se algo estava ocorrendo que eu só iria piorar?

Algo estranho aconteceu : num instante percebi muitas vezes sinto não conhecer nada sobre a minha mãe. Não sei lá muita coisa sobre o mundo dos homens como aquele, e principalmente o mundo dos adultos.
Num instante esquisito que também jamais saberei explicar, acreditei que se eu não salvasse minha mãe daquela situação horrível, tudo daria certo e ela ficaria bem, ao contrário do que parecia, e se eu empurrasse aquela porta e tentasse me meter naquele quarto, tudo poderia ficar pior para ela. Como disse, eu não saberia explicar, mas tinha certeza disso. Devia ser o medo, a minha pouca coragem para chutar a porta.

Passou totalmente a curiosidade sobre as plantas carnívoras, sobre o quarto dos meninos, os brinquedos caros que eles poderiam guardar por trás daquelas portas.
Desci as escadas com as pernas tremendo, achei que tinha ficado mudo, e meu estômago anunciando nele um monte de coisas remexidas pediu-me urgentemente para que vomitasse no quintal. Corri. Vomitei no pé da pitangueira. O sol parecia ferver meus tímpanos e senti que as batidas do meu coração agora estavam na cabeça.
Recolhi minha mochila e chorei ao lado de Benito, o cachorro que veio me saudar como sempre, velho e cansado. Só precisava chorar, chorar e abraçar a minha mãe em algum momento.

Fui até o poço artesiano e olhei para o fundo. A água lá embaixo era mesmo um espelho e o eco ainda existia. De longe, vi minha mãe sacudindo um tapete na porta do casarão, na saída da sala. Andei até lá, e ela me avistou: “filho, você já está de volta?”
Expliquei que não tivera mais aula. Eu ainda sentia minhas pernas tremendo : como minha mãe se comportava tão calmamente? Como ela estaria? Não se abalara com aquela surra? Estava contente e parecia não ter acontecido nada.
Cheguei à porta e olhei a saleta. Lá estava o velho gordo com seu cachimbo, largado na poltrona e assistindo tevê. Minha mãe ainda disse que já iriamos, que eu esperasse aí mesmo ou fosse à cozinha se quisesse beber água. Mas que não sujasse a torneira do filtro, lavasse as mãos primeiro. Ainda comentou que eu estava um pouco pálido, e
repetiu : “vai beber água, moleque, é muito calor”.
Percebi que tinha feito o correto : minha mãe estava bem , não sei explicar, mas ela não estava precisando que eu a salvasse.

Meu irmão Josué corrigiu a boca, o que levou muitos meses e muito remédio para a dor. Emagreceu muitos quilos, mas ficou bem. Minha mãe parece às vezes a dona do casarão, quando a Dona Julieta não está, e Seu Bertô não passa mais a mão na minha cabeça nem me chama de “neguinho”, talvez porque percebeu que eu estou crescido, ou que não gosto disso.

O que sei, e posso afirmar para mim mesmo, é que existem muitas coisas na vida de minha mãe que nunca saberei compreender. Quem sabe? Quando eu for um adulto, vou conseguir perguntar a ela. Ou quando consiga ter um amigo em quem confie muito mesmo, possa trocar informações sobre mães, mulheres, homens como o senhor Bertô.
Não quero sentir de novo o que senti naquela tarde agachado na porta daquele quarto, não gostaria de sentir isso nunca mais.
Entender?
Entender vem depois.
Quanto à minha mãe...eu não entendo minha mãe. Nem sempre compreendo o que ela faz, só sei dizer que o que ela faz por nós, sempre acaba dando certo.

* Conto participante do 22º Concurso de Contos Paulo Leminski

Maria Campiglia.
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