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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->DEUS, A FERIDA E A PERIFERIA (2a versão) -- 12/07/2019 - 06:24 (PAULO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

 





 DEUS A  FERIDA E A PERIFERIA 

 

ou  

 

“Na casa do senhor há muitas moradas, roupas e varais”  

 

                                                     

Obra de  Paulo Fontenelle de Araújo

           

 

 

 

 

 

 

 

 “Mas esse cheiro sobre o altar-mor,  será Deus ou a ferrugem noturna  das catedrais.”  

                                                                                                                PFA  

 

 

Quais as certezas do livro:

 

Ele não é uma obra de autoajuda.  

 

A  fé religiosa é outra coisa.  

 

Certas feridas a suturar são muito grandes.   

 

Aqui não se questiona tendências sexuais.    

 

E todas as periferias são iguais.  

 


 

 

 

 

A história do adolescente Ezequiel Pereira, que em três meses perdeu a noiva, a religião e o emprego.  

 

Então chegaram os enviados.  

 

            A inspiração para a pesquisa surgiu do incidente ocorrido no ônibus Centro/Cidade Ademar.  Eu queria dormir, dava um jeito de segurar a minha cabeça, quando os quatro adolescentes de braços compridos e pistolas pequenas, anunciaram o assalto. Roubaram em todos os assentos. Levaram a grana de gente pobre, relógios, documentos e por pouco não extraíram a orelha esquerda de uma loira por causa dos seus brincos.  

            Quem se importa com assalto às duas da madrugada de uma segunda-feira? Nem me sacaram dinheiro, pois eu vinha secando a carteira desde sexta-feira e assinara as últimas folhas do talão de cheques para pagar  o frango a passarinho que comi e o vinho barato que bebi. 

            “Sangue de boi” não é nome de vinho. Mais adequado estaria o nome em placa de açougue, cardápio de churrascaria, galpão de abatedouro de boi, porco e macaco. 

            Eu trazia comigo somente a grana da condução e a aliança do meu noivado com Marina. Entreguei tudo assim que o alinhamento do assalto me alcançou.   

          Fiquei no lucro. O roubo aliviou-me do encargo de   finalizar aquele anel, livrar-me do símbolo de um amor rompido.  O meu dedo anelar direito já se atrofiava pelo uso indevido da peça. Era ouro, fez parte de mim, podem levar!  

              Os meliantes saíram desejando: 

 

            - A paz do Senhor aos irmãos da Cidade Ademar!   

 

           Estranhos arrebatamentos saem dos corações dos homens. A paz de Deus não poderia chegar a um lugar tão longe quanto  o bairro da Cidade Ademar. 

             

            Mais tarde, após vomitar o vinho e meditar sobre a  inconsequência do assalto, compreendi  a benção dos  adolescentes. Ela mostrara um fenômeno ainda não identificado: se eles, moradores da periferia, acreditavam em Deus daquela forma fervorosa, sem que aparentemente lhes viessem às consciências o  roubo e a ameaça perpetrada aos passageiros; então o tipo de fé religiosa nos confins da cidade deveria ser algo diferente. Talvez aquele Deus rotineiro, representado por seu filho com a coroa de espinhos,  tenha trocado sua área de atuação para os confins de São Paulo, um lugar distante do olhar do governo, das igrejas, dos cardeais e pastores evangélicos. O Todo- Poderoso  seria em nossa periferia, uma entidade alheia ao  conhecido dos seus ensinamentos. Ele seria uma onipotência  pura e amoral. 

             O fim do assalto sinalizara a sua existência.  

            Escrevi esta teoria e cheguei a desenvolvê-la. Jesus era uma  força aterradora que, desprezando os dogmas de uma religião tradicional, confluiu com a energia das beiradas dessa metrópole para se tornar efetiva pelo menos ali. A paisagem bombardeada dos extremos de nossa cidade, revelaria para mim agora a potência de um Jesus diferente: ela se manifesta no longínquo, nas divisas e escorre sobre os telhados e os barrancos. 

            O subúrbio de São Paulo seria o novo altar do pai celestial.  

            E às seis e quarenta da manhã,  decidi desbravar as lonjuras,  trafegar nos ônibus da CMTC, apreciar as caçapas, entrar nos labirintos, nas vielas e conversar com aquele freguês solitário dentro de um  bar. O mundo precisava instruir-se sobre a nova condição e o esconderijo da entidade, princípio de tudo. E precisava identificar quem são os seus atuais seguidores.

            Examinei o meu extrato bancário. Nesse mês de junho de 1985 tenho um bom valor na poupança por causada da rescisão e do Fundo de Garantia e supermercado não era problema. Eu e papai fritávamos ovos.                   

             Percebi   ter     condições   financeiras para  a peregrinação àquela terra santa.        


 LONGOS DELÍRIOS.  

 

Um profeta em formação.  

 

           Após a decisão dormi até o final da tarde. Dormi como um porco, mas isso não comprometeu o sublime aguardado por mim. Acordei quando papai gritou gol. A tevê transmitia um jogo do campeonato nacional. 

            Os gritos roucos do velho esburacaram as paredes da sala.  Ele quer pintá-las. Quer também consertar a calha, trocar o espelho do banheiro, instalar um varal no teto... Papai quer muitas coisas.

            Completei vinte e três anos no mês passado.  Nasci dia 20 de maio de 1962 e nunca me emprenhei em algo magnífico. Aos oito anos acreditei que seria aviador. Passei a infância na expectativa da profissão e muitas horas de voo somaram-se em minha cabeça. Aviador não deu e até acreditei estar condenado ao estático, ao chão de um escritório e tão cravado finquei-me que, nos últimos cinco anos, entreguei minha alma ao Banco BBDC – agência  Aeroporto. 

            O BBDC passou. Fincou-se em uma dimensão execrável do meu cérebro. Passou, mas tenho agora a obrigação de considerar a  verdade dos lugares onde estive, como forma de evidenciar o contraste com o mundo que esta exploração  à periferia me  levará. 

            Naquela época, além das hostes bancárias, liguei-me também  de forma subalterna à  Igreja   Evangélica “Deus é sabor”.”.  

            Marina fez parte desse mundo.  Ela era evangélica e da mesma igreja. Cursara Enfermagem naquela faculdade. Não me recordo o nome. Trabalhava na UTI pediátrica do Instituto Dante Pazanesse e decorou o nome de muito remédio. 

            Marina parecia tão crente.  Hoje compreendo como ela se  caracterizava  exatamente no desvio do discurso evangélico.  Certas atitudes significavam um deslocamento  da moral imposta por todas as igrejas. No entanto, ela também aceitou o gosto da igreja do Senhor a ser  degustado.  

            A enfermeira Marina quando lhe informavam: “Tal criança do quarto 200 não sobreviverá!”  Ela saía de perto do paciente. Nem olhava, nem falava, nem acariciava o rosto da vítima. Executava  somente os procedimentos mínimos referentes a sua área profissional.  Ela dizia não querer se apegar e sofrer pela  morte da pequena criatura.  Eu implicava:

            - Você tem que se apegar, sempre se apegar, porque o que sobra a estas crianças são essas derradeiras manifestações de carinho. Tua indiferença vai contra as leis do Altíssimo Poderoso. Jesus, seu único filho, beijou as feridas dos leprosos”.

            E ela respondia:

            - Feridas devem ter um gosto horrível. 

            Eu tinha ao lado de Marina, um sonho de prosperidade material  e espiritual, o resultado de uma vida plena em Cristo.  E eu delirava para confirmar expectativas. Cada cristão deve potencializar sua fé. Aprofundar-se nessa aventura transcendental de crer sem provas, também tornará o fiel um ser superior, superlativo, super-cristão e ele receberá, pelas leis da contrapartida divina, uma fortuna digna do seu esforço. 

Hoje eu já sei o quanto esta mentalidade abjeta, esta fé saída dos meus poros, afasta até criancinhas condenadas à morte. 

 

 O sangue de um cristão 

 

            Marina obrigou-me a pensar materialmente. Ela foi o  ponto fraco do super-herói cristão, a pedra  radioativa que  por um breve período esteve em minhas  mãos. 

            Os olhos tão verdes de Marina queriam conhecer a Disneylândia. 

            O namoro durou exatamente vinte e quatro meses e ainda me lembro da festa  da igreja,  quando a vi pela primeira vez. Naquele dia imaginei o quanto Marina seria a totalização da mulher perfeita e desejei ali um amor intenso, arrebatador, extravagante. 

            Ah, seu perfume adocicado fixou-se em minhas roupas. Quero dominar aquela fragrância, tirá-la da minha mente. O cheiro do amor é um ente rebelde. Livre de controle, ele anda pelas  narinas.  O perfume de Marina tem  braços e pernas.

 

            Lembro-me do seu tênis lilás e do formato de suas pernas  dobradas na poltrona da casa dos seus pais. Está fincado  em meu cérebro a sua mania de deixar no copo a medida exata de dois centímetro do suco que acabara de tomar.  

            Afligiu-me  o primeiro  encontro. Marina quis suco de laranja. Pedi.  Ela bebeu lentamente e parou naqueles dois centímetros. Esperei quarenta minutos para o arremate da bebida e apreensivo solicitei a conta. Depois soube, os dois centímetros foram somente etiqueta. A mãe a ensinara, em certos ambientes e ocasiões,  não se pode sorver  o suco até o talo, chupar ar pelo canudinho.

 

            Ela deveria saber nos relacionamentos também é educado não abandonar o homem ao bagaço. Sugar-lhe o sangue. Por isso bebi aquele vinho ordinário. Eu sou o boi. 

            É cansativo tentar esquecer as camadas e camadas de sorrisos que desgastaram os meus dentes durante nosso tempo de paixão. 

 

    Depois de Cristo         

 

            No BBDC eu recepcionava clientes e - na condição de funcionário de terceira classe - peregrinei no deserto do piso de mármore do hall de entrada; joguei  pérolas aos porcos ao ensiná-los a operacionalizar os  caixas eletrônicos. 

            Ensinei porque me entregava às palavras do Senhor, porque  guardava a Bíblia em meu armário – lia um Salmo  antes da jornada laboral – e todo dia procurava conservar-me íntegro perante a face redentora de Cristo e do gerente Sr. Matias. 

   

O surto  

             

             Perdi o emprego  porque  empurrei um velho, mas exageram na história. Para o subgerente, por exemplo, eu tentara  roubar o ancião. Na verdade, ele já pretendia me demitir e aquela acusação veio bem a calhar. Mas eu não roubei ninguém. Eu apenas empurrei um cliente carcomido, conhecido na agência como o “coitado do Sr. Anselmo”.  Ninguém viu. E ataquei porque ele me acusou de tentar roubar a  poupança da sua ex-mulher.

            O homem se confundia nos comandos do caixa-eletrônico. Eu o orientava: “Digite a senha, senhor Anselmo. Passe o cartão novamente”. E no instante da saída do dinheiro, ele se distraiu e  a grana caiu no chão. Eu ainda me debrucei para apanhar a quantia  que ele viu,  viu cair e, de repente, o decrépito  desce a sua ira contra mim. Insulta-me. Avança em minha direção, me xinga de ladrãozinho, de gatuno, de trombadinha e por causa da calúnia, dei um basta àquela minha vida ordinária e era tão ordinária que - mais por isso do que pelo insulto - empurrei o macróbio dentro do templo das altas finanças. Ele bateu as costas no caixa eletrônico, enfiou a bengala entre duas máquinas, quebrou o cajado e caiu como uma fruta madura. 

            Quando a bengala partiu, ouvi um estalo. Pensei ter sido algum osso. Idosos quebram fácil. 

            No meio da confusão chegou o carro blindado com o malote de dinheiro. Quatro seguranças entraram na agência e passaram pelo ancião quando ele tentava segurar as paredes. Reparei que a cor do malote e a cor das calças do senhor Anselmo eram idênticas. Dois seguranças ameaçaram ajudá-lo, mas, adestrados por algum treinamento delirante, enquanto encostavam também engatilhavam as armas postadas na cintura. O gesto intimidou o velho e ele começou a gritar. Gritou e o guarda da agência fechou o acesso ao banco. Gritou e os clientes compareceram ao local.  Pensaram na fatalidade de um assalto. Não entenderam também os seguranças, a cor do malote e a bengala quebrada no meio do saguão.  

            Alguns clientes pediram calma ao sr. Anselmo. Ele parou de gritar. A bengala foi  o motivo da queda. Trouxeram um copo de água. O sujeito bebeu devagar e repetia um nome. Chamava a mulher falecida e foi chamando e saindo devagar. Uma outra funcionária o amparou. “Coitado do Sr. Anselmo”.

            O velho  saiu e eu entrei na sala da faxina queria encontrar um rodo para substituir a bengala.

            O empurrão, a coincidência da chegada do carro-forte, os estalos reunidos sinalizaram o fim daquele emprego.  No final aprendi: não se mexe em dinheiro ou porque ele surgirá em forma de velho ou porque o seu manuseio talvez seja o verdadeiro “falar em línguas”.  Línguas muito estranhas na boca do caixa. 

            Os tempos do banco foram pedaços de corpos. Os pescoços mal grudavam as cabeças. Tudo era instantâneo e um dia eu acreditei na paciência como uma virtude. 

 

 O método 

             

            A prospecção religiosa das “quebradas” de São Paulo será decorrente somente do meu testemunho.  Registrarei o que pairar e  vislumbrarei o Espírito Santo, desta vez sem dogmas, preleções, sem lenços para enxugar a boca dos pastores ou a testa dos padres, sem praga de gafanhotos, curas e visões proféticas.

            Observarei as pessoas pelo avesso. Atuarei de forma diferente dos pastores da igreja “Deus é sabor”. Religiosos querem ser o espelho da multidão, eu ficarei atrás. Examinarei a plateia sem selecionar a idade, condição social ou religião de cada ouvinte observado.  

            Deus independe de conceitos e formatos.  Manifesta-se, gera um tipo de calor.  Juntam-se pai, mãe, filhos e todos se abraçam. O calor familiar seria uma representação divina? Não sei. O abraço não aconteceu aqui, se apertou  na periferia.  

            Ah, conversarei com homens vindos de suas cidades para trabalhar e jogar futebol antes do almoço no pátio das construções. Isto é essencial. O futebol dos homens, o sonho, a ferrugem das marmitas são essenciais. 

            Conversarei também com as domésticas dos bairros chiques. Ouvirei o borracheiro, o vendedor de biscoito, entrarei nas   barbearias instaladas em pequenas garagens. 

            Saberei que o Ente Supremo  não circula a cidade e nem interrompe os semáforos. Este seria o Criador das patroas? As patroas desprezam o mundo das empregadas e nem desconfiam, o Altíssimo desceu muito longe. Ele talvez esteja em uma selva de barracos e casas  frágeis.   

            As histórias da periferia jorrarão e terei a juventude para traduzi-las e revelar através delas o divino, a sintonia, o essencial, o remédio. 

            A periferia de São Paulo seria uma estação de rádio AM quando anuncia às cinco da manhã, a marca de um poderoso xarope? 

            O estudo mostrará a alteração das inscrições nas portas dos Jardins da Babilônia. As inscrições estão em portas do Jardim Macedônia ou Jardim Ubirajara.

  

   A origem  

             

            Moro no  bairro de Aeroporto junto com o meu pai.  O  nome  dele é João Batista e  seu rosto  tornou-se  um cofre com muitos dentes guardados. Ele não sorri, apenas balança a cabeça. Seu lado mais visível passa por um cuidado exagerado com o tamanho das unhas das mãos e pés. Diariamente as corta e  lixa.

           Unha comprida é coisa de macaco.  

   

  Alimentos 

 

            Na periferia eu posso fingir. Entrar naquela esfera e passar-me por bêbado, vendedor de Bíblia, chaveiro, pastor evangélico, fotógrafo. Tudo para saber se a destruição de Sodoma não importa mais ou porque a  mulher de Ló deixou de ser uma construção de sal.  

             Fingimentos religiosos serão apenas estratégias  de investigação e isso porque já extirpei de mim  a devoção dedicada a Igreja   Evangélica da  Redenção Divina  “ Deus é sabor”.  

            Durante os dois anos e meio de igreja neo-pentecostal, decorei partes inteiras da Bíblia. Li os Salmos. Os atos dos Apóstolos assombraram minha mente. Eu me aconcheguei fervorosamente ao “Big Templo” por toda a vida - mas era por toda a vida mesmo. Um dia algo me importunou. Eu jamais sentira a presença do Criador.  O que percebera de mais contundente durante aqueles cultos, fora um azedo em minha boca e uma náusea vinda dos ruídos orgânicos dos microfones, das vibrações das caixas de som. 

            A voz do Bispo Rodrigo então se tornou um baque metálico em meu estômago: “Irmãos! Irmãos! Irmãos! Vocês não acreditam? Deus é vitamina. Ele é o alimento. Irmãos, o escudo da fé custa caro e os dardos inflamados do maligno são vendidos na bacia das almas”.  

            O Bispo Rodrigo sabia convencer.  

            Durante os cultos os iniciantes tremiam. “Eis o poder de Jesus! Sinta a onda profunda do bem estar. Ele está em cada quadrante do salão”.  

            Eu não percebia a presença de Jesus e só mergulhei em ambiguidades insolúveis. Acreditava em Jeová por uma osmose ainda não compreendida. Carregava alguns dogmas da religião Católica e por mim passavam sintomas da religião espírita.  

            O Onipotente  surgido nas aclamações daquela igreja parecia o resultado de uma venda pública, as marteladas finais de um leilão.    

            Eu me defenestrei daquela igreja. Faz três meses. Sai logo após o fim do meu noivado com Marina. 

  

 Uma análise 

 

            Agora me sinto um filho de Deus sem regularidade. Sou um relógio quebrado e julgo estar dentro do suficiente. Sumiu todo resultado do estudo no curso de pastores. Era e não era sagrado, era e não era sagrado. Era e não era sagrado. Nem era um relógio.   

            O desvendamento do Altíssimo nas baixadas da cidade foi a boa ideia. Nos bairros do Capão Redondo, Grajaú, Jardim Ângela, Campo Limpo, onde o excesso - principalmente o excesso criminal – tornou-se a medida de todas as coisas, talvez o onipotente esteja presente de uma forma mais provocativa, no extremo, quase nutritivo.  

            Estas relações com o inusitado permanecerão dentro de mim. 

            Ah, entrarei na periferia e descreverei o mundo, os odores, os bichos. Comparecerei aos batizados ao ar livre. Verei jogos de dominós dentro dos bares. Assistirei velórios.  O Criador certamente tropeça em tudo e o dia do juízo final ainda não aconteceu porque ele nem aprendeu os macetes  da sinuca.  

             Descobrir Jesus será o meu sacrifício. 

            (Desde minha saída da igreja, desde a minha separação de Marina, minha vida perdeu a utilidade. Não quero pensar, aquela utilidade não era boa, a engrenagem desmantelava, o jogo de rodas dentadas triturava o meu cérebro). 

   

A aparição 

 

Hoje chegou-me a visão do profeta.  Ele em Ramá ouviu uma voz e grande pranto, no entanto estou tranquilo, estarei do outro lado.

            Examino o guia de ruas: páginas e páginas de nomes desconhecidos sobre riscos brancos e amarelos. O rio Tietê é a mancha prolongada e azul.   

            O Ser Universal não poderia ser aquele azedo da Igreja.  Eu não o sentia porque ele está dentro do mapa. Circula por São Paulo. Chupa o picolé de gelo doce dos botecos.  

 

  Antigos jejuns 

 

            A imagem de Marina me incomoda. Quero descarregá-la da minha vida. Nada pode ser resolvido se pendências amorosas pesam em seus ombros. 

            Ela era minha noiva.  Morava perto da agência do BBDC. Eu a conheci na festa da igreja.  

            Durante algum tempo eu fui bancário, evangélico ardente e o noivo  crente em Marina e cedi  aos prazeres do seu sexo aberto porque era crente.  

            Duas vezes por semana, logo após o fim do meu expediente bancário, eu corria para encontrá-la  na casa dos  pais.   

            Os pais nunca estavam. 

            Revirávamos a cama cor de rosa. Mal lavávamos as mãos.     Naquele dia ela me esperava despida  e eu   trazia, preso em meu corpo, o maldito jalego do BBDC.  

            Marina  era  direta, mas fingia não saber beijar. Queria ser notada pela inexperiência, revelada também por sua língua endurecida durante os beijos. 

            A inexperiência amorosa é uma técnica complicada. Para utilizá-la é preciso encontrar, no meio da mecânica do corpo, o seu ponto morto, a manivela sem óleo. 

            Eu e Marina tínhamos éramos rápidos:  ejaculação precoce com janela aberta. Eu dizia que a amava, ela respondia que me adorava.  

            Sutil  afirmação. Quem adora não ama. É mais um entusiasmo que exige a posse. Você adora um vaso de porcelana, adora sapatos. Certos doces são adoráveis. 

            Eu me sentia pronto para o desafio. Abrir as pernas de Marina no tempo perfeito, deixar os calcanhares sobre os meus ombros. Levantar o seu corpo. Beijar os seios.  Eu não decorava a sequência.  Não havia senhas.  

           Os encontros amorosos com a minha ex-noiva eram uma potência dentro da minha fé. Aquela força me enganava e me impulsionava rumo à  igreja. Não me sentia em pecado.

            Marina me chamava de “baby”. Lera em um romance a expressão e dizia olhando-me o rosto.    

            Eva provavelmente usava a alcunha para Adão:  “Baby, diga serpente”.  

            Hoje percebo (mesmo não seguindo os preceitos do amor a ser consumido somente na madrugada após o casamento: fato que mantém o homem em sua condição de filho querido do Senhor) o quanto acreditava  na validade de nosso amor  para um buquê.

            Nosso amor não valia, como não valeu eu ter sido evangélico de cumprir horário, realizar as atividades convocadas pelos chefes da igreja, ler com atenção os comunicados e pagar os dízimos, rigorosamente  entregues dentro do espírito de que era preciso dar para receber.  

            Marina era um dos pilares sobre o qual eu me sustentei. Amparei-me sobre a igreja, um projeto de família e o Banco. A ordem poderia ser invertida ou haver um só pilar. A igreja era o banco, uma família era o banco, o banco era Marina.  

 

  Os músculos 

 

Um dia a mãe de Marina reclamou de pelos miúdos  espalhados no colchão e inquiriu a filha: 

 

               - Que  pelos são estes? Esse cheiro de suor aqui na cama? 

 

             Marina riu e puxou o lençol.  Está mal lavado.  

            Ela ria da mãe, da quantidade de pentelhos e eu emagrecia sem jantar. Tanto suor por semana, tanto acasalamento de bicho,  impedia-me de comer o “x-miséria” no “fast-food” perto da agência. Minha subnutrição chegou,  desceu-me branca e anêmica. Eu não tinha uma mãe para reparar minha debilidade. 

            Logo após a minha separação, no  rastro da cruz,  percebi  os quinze quilos fora do meu corpo.   

            Quinze quilos perdidos e uma vida amorosa extinta antes de criar seu próprio “Cântico dos cânticos”.  

            Meus músculos são insuficientes para a expedição. Entrarei em processo de engorda.  Nada mais de jejum. Costelas não saltarão diante do olhar dos filisteus.  

 

  Versículos refrigerados       

 

            Dentro de poucas semanas o divino legítimo será detectado por mim  em um lugar onde  acreditam que ele jamais  brota. Eu serei  a verdadeira testemunha de Jeová e tão envolvido estarei na percepção quanto estive embrulhado durante o meu noivado com Marina.    

            Às vezes me julgo louco e nessa hora  chega-me a voz ininterrupta do Bispo Rodrigo quando afirmava: “Qualquer um que me diga: ‘Você é louco!’, será réu no fogo do inferno!” 

O mundo está cheio de réus e algumas conexões com o Deus bíblico não me foram interrompidas. Eu  tenho firme em meu coração, afetado pela igreja do Bispo,  passagens do Novo Testamento e isso refrigera a minha alma   como se a Bíblia fosse um... um refrigerador. 


Fogos de artifício

             

             A  igreja parecia inconsequente e falsa.  

            Eu sei.  “Então, Deus falou à multidão e aos seus discípulos:  “Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam e esticam  as orlas dos seus mantos. (Bíblia Sagrada, Mateus 23.1 a 5)”.

            As luminárias fixadas nas paredes pareciam archotes acesos. Certa noite a luminária perto do palco pifou. “A igreja está necessitada de fogo” – disse o Bispo Rodrigo e cada orador ao tomar a palavra e dirigir o culto, apontava a lâmpada quebrada.  “O fogo do Criador acaba de sair deste recinto!” 

             E os fiéis batiam as cabeças nas Bíblias. 

            Eu escrevo: os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam e esticam as orlas dos seus mantos.  Esta conexão não me abandonará. 

 

 Trovões e chuviscos 

 

            Ouço um som tonitruante.   Não é o Alento de Israel que se mostra sobre uma montanha. O estrondo vem do sofá  empurrado por papai.  Decerto o controle remoto caiu atrás do móvel.

            Papai mantém o controle remoto perto de si. Tornou- se indeciso quanto aos canais de televisão. Assiste simultaneamente a reprise do futebol, a algum programa de auditório e se a programação estiver bem chata, assistirá aos chuviscos dos canais fora do ar.  

            Faço o sinal da cruz, do pai, filho e Espírito Santo. Há um ritmo no início de qualquer prece. Agora estou mais interessado nos  chuviscos.  Eles atravessarão  a minha alma. 

            Espero tanto agora. Caminhar em lugares inacessíveis.  Passo um pano sobre os livros de fé e autoajuda empilhados na escrivaninha.  Examino-os. Reparo os  retratos antigos.  A família esteve reunida nesta festa. Perdi a data e o motivo do encontro familiar. Tão necessárias são  fotos antigas. Funcionam como obras de autoajuda,  mas precisam estar devidamente datadas. 

 

  Pela espada não me reconhecerão  

 

            Alguém poderia  negar a operacionalidade do meu projeto sem o auxílio da Igreja.  Devo desmenti-lo. Posso realizar muito sem ela. Qualquer comentário, qualquer pesquisa. Não careço mais de seus grupos de estudo dos Evangelhos, nem os encontros de jovens. Posso esquecer o curso para Pastor frequentado por mim, abstrair as alegorias criadas pelo Bispo. Desconsiderar a força da comunidade, os fiéis, o culto. Não subir no palco e engrossar a voz.  

            Marina agora é tão inútil quanto a igreja, no entanto, ela já foi  determinante, substancial, direta, operacional. 

            Ela descobrira ou imaginara as posições mais adequadas para o amor. Como aumentar o prazer. Era uma estrategista. 

            Marina trabalhava no hospital dentro do esquema doze horas de trabalho por trinta e seis de prazer. Nas manhãs de folga comparecia a igreja com as bênçãos do Bispo Rodrigo. Nosso contato sexual  ocorria  após o meu horário no BBDC, duas vezes por semana eram sagrados.  

            A noiva de outrora era a espada que cortou a orelha do servo do Sumo Sacerdote.  Eu vivia na expectativa, orelha pronta para o corte. Costelas prontas para a criação daquela  mulher. 

            “Os ímpios morrerão pela espada. Esta profecia destina-se aos corações que têm fome e sede de justiça”. Frase do pastor Samuel. 

 

 O dedo             

 

            Defino o percurso. Alguns bairros da zona sul nesta primeira investida. Escolhi Jabaquara, Cidade Ademar, Pedreira, Cidade Dutra, Grajaú, Parelheiros. As avenidas principais são servidas pelo sistema de transporte público.  

            Percorrerei cada limite da cidade. Não quero detectar o Altíssimo por amostragem. Imaginar que se o onipotente atua em Parelheiros, terá idêntico padrão na Barra Funda. O Onipotente pode ter soluções caseiras. Usar dedos diferentes em distintos grotões de São Paulo. 

 

 

 O poderoso de segunda a sexta       

 

            Nos meus tempos de BBDC e crente submisso ao discurso da  igreja “ Deus é sabor”,  eu realmente ansiava por uma longa e próspera carreira bancária. No entanto, eu não aceitei a vaga de Caixa quando me ofereceram. Sabia o quanto era dispersivo e um Caixa é o meu contrário. Ele é um ente concentrado, sabe o valor do ouro. 

            O ouro vale tanto quanto o templo. Este cálculo eu pressentia. Não o praticava em sua plenitude e por isso caminhei na viela que seguia do cordial ao submisso. 

            No banco acomodei-me ao setor de atendimento, ou melhor, canalização das cabeças para abertura de contas, organização da entrada, orientação sobre o uso do caixa eletrônico, distribuição de envelopes e antena das reclamações gerais. 

            Ajeitei-me no BBDC, embora pensasse em alguma progressão funcional, um cargo de confiança. A progressão  terminou no incidente com a velha bengala.  

 

  Os efeitos alimentícios do abandono.   

 

            São vinte e uma horas e trinta minutos. Noite de quarta feira. Na periferia as pessoas narrarão as suas vidas. Alguém confessará ter deixado a mulher e filhos no estado do Maranhão. Quis trabalhar aqui e mandar dinheiro.

            Jeová não seria este esforço?  O esforço do abandono para alimentar crianças.  

 

 Placas de adoração

 

            Tantos homens mudam de cidade com a ideia de uma vida melhor. Mais tarde buscam a família. Já os vi. Parecem avestruzes. Longos pescoços na rodoviária de São Paulo. Cabeças a levantar caminhos. Tinha vontade de avisar: o teu lugar, amigo, será do outro lado da cidade.  Siga as placas, reze para se redimir dos seus pecados e, ao desembarcar no subúrbio, saiba das partes mais sutis do seu novo lar: os esgotos a céu aberto, os gatos, as gambiarras que roubam energia elétrica. 

 

 Primeira constante

 

            Muitas vezes sinto uma presença. Não é a manifestação de anjos ou demônios. Um transe e chegam-me ondas hertzianas de dor. Dores tão constantes, passei a chamá-las de “vibrantes”.  

 

 Segunda constante

 

            Refletir direito será a meta daqui para frente. A memória será exigida sob pena do autoflagelo de um banho gelado.  Irei considerar agora minha criação Católica Apostólica Romana. Trago a ideia da virgindade de Maria. Acredito que em algum lugar os seres maculados podem ser restituídos ao estado do muito virgem, do muito intacto. A vida retorna após a morte. Morre uma criança, a mesma criança regressa à mãe em outra gravidez. “Ele tem um nariz diferente, o cabelo é mais claro... Este menino não morreu no ano passado?” 

            A vida após a morte está pregada ao mundo - eis o verdadeiro felcro - ambas não se separam, mas talvez na periferia tudo tenha uma existência própria e respire na sua vez.  A natureza do lugar e o espírito das coisas devem aparelhar vidas em constante disparo. A morte por epidemia é uma esquina ensolarada. 

            Tanta contundência, tantas cenas cotidianas expondo vidas decerto estão relacionadas ao Criador. Elas refletem um novíssimo espectro do Todo-Poderoso, sua força pode estar concentrada em um lugar chamado “Morro do Piolho” na divisa com Diadema. 

 

          Esta é a periferia de São Paulo, atrás do Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, muito além do Vale de Kidron. 

 

 A comparação 

 

            Quem sabe a verdade do ser e do não ser? A imagem de São Benedito é uma garrafa de Coca-Cola. Ambos negros, vejo-os agora sobre o balcão de um bar na Vila Joaniza.   

 

 Tenho um irmão de fé.   

 

            Penso em algo metafísico e examino o meu pênis. Tenho investido muito tempo nessa vistoria, quase uma operação. Posso chamá-lo de  membro. Jamais falhou e nada em mim doía.  

            Meu corpo dói agora.   Vibrantes.  Pisaram sobre o meu peito e o peso impede a fluidez da corrente sanguínea. Sinto dor e frio. O coração é um monstro de gelo.  Fricciono as mãos. Tento aquecer a pele e procuro o secador de cabelos deixado por mamãe.  Lanço um jato quente direto na friúra. Não melhoro, apenas ouço o “zoom”.  

            Dias  destes  fui  ao  médico do  convênio. Ali  aprendi  que coração  não  dói.  Insisti  em um tratamento  e o médico solicitou-me um eletrocardiograma.  Sem alterações. 

            Aproximo o pênis da luz do abajur sobre a cômoda.   Meu corpo está gasto. Aquele amor por Marina mordia-me o ombro, esfregava-se em mim, raspava. Raspou tanto para depois me arrasar.

             Ela despencou em mim na época da igreja, das orações desabaladas, profecias nas entrelinhas da Bíblia, da interpretação de trechos herméticos.  Germinou na minha fase de bancário, quando eu acreditava nas benções vindas de contas correntes com saldo positivo e dos depósitos e aplicações em papéis de renda milagrosa. 

            A dor passou.  Os “vibrantes” saíram. Este carnaval de derrames vai acabar. 

 

 Os braços.  

 

            Marina tem vinte e cinco anos e os seus cabelos castanhos, o rosto triangular e anguloso resplandecia nos olhos dos infiéis.  Tornara-se a pirâmide no meio do deserto.  Melhor seria dizer, Marina parecia a esfinge com o nariz intacto.  

            Ela segurou os meus braços na cama. As patas sobre o deserto do meu corpo.  Esta imagem revelou-se pouco antes do fim.  

  

Papai é cercado por hienas.  

 

            Papai bate na porta, reclama do chuveiro ligado. 

            - Olha o racionamento! A água vai acabar na cidade!

             Eu sei. Vi o repórter percorrer as várzeas da represa Billings em um veículo anfíbio.   

            O ônibus anfíbio Eldorado/Largo São Francisco ladeia a represa pela Estrada do Alvarenga.  

            Papai saiu depressa e agora grita gol: dois a zero para a sua noite.   

            Eu e papai não vivemos na mesma frequência. Em uma conversa sempre alguma resposta não corresponde à pergunta formulada. A tentativa de explicação cria outra dúvida que derruba a primeira questão e provoca um segundo, um terceiro problema também não compreendido. Neste padrão o diálogo prossegue até desistirmos.  

            Mamãe arbitrava as minhas pendências com papai. Sua ausência obriga-me a ter muita paciência, porque não posso abandoná-lo no meio do mundo, ao lado de hienas de risos aloucados.  

            Ela saiu desta casa o ano passado. Não gosto de falar do assunto, embora não possa me negar a discorrer sobre miudezas. Lembrar-me daquele dia, quando ela me acariciou os cabelos.  Não era carinho, apenas queria saber da sua Bíblia. 

            Elvira é o nome de mamãe e, se fossem buscar a sua atuação materna como modelo: tortuosos seriam os caminhos até a santificação das mães.

            Santa Elvira, outro longo processo de beatificação dentro da igreja católica.   

 

 O redentor assiste à ira dos discípulos.  

 

            Eu me decidi também em relação à Beatriz.  Resolvi desconsiderar sua existência. Em minha temporada como bancário eu me inibia com a sua presença, a secretária do setor de cobranças. De manhã não saudava os colegas e ordenava tonitruante: “Ezequiel, passe este fax!” A ordem atravessara a madrugada. E foram muitas madrugadas entre o último e o primeiro cliente. 

               Não suportava o subgerente Armando, ele aterrorizava os funcionários. Exigia metas absurdas para legitimar a sua presença no cargo. Não o tolerava porque aquela brutalidade também pretendia ocultar sua homossexualidade. E ocultava tão eficazmente que mesmo ele devia acreditar  não ser  homossexual durante o expediente.  Por isso aquela mulher visitava a agência. Ele dizia ser sua noiva. A noiva era a garantia maior, deveria ser alvo de um desejo lascivo de um bancário.

            Eu saquei bem a impostura do sujeito! Graças à falsa dramaticidade dos chefes da igreja, apresentada durante anos, aprendi a detectar as estratégias de palco. Qualquer farsa não me enganaria.

            Um dia o subgerente Armando implicou com os dois faxineiros durante a limpeza da agência. Eles brincavam com uma bolinha de papel. O chute a gol acertou a mesa do subgerente  e ele chegou junto. Perguntou quem jogara o papel.  Era um futebolzinho – disseram os serviçais. “Futebolzinho! Porque vocês não chutam a própria merda!?”

 

            O Sr. Armando navegava nessas corredeiras.  Não perdoava o vacilo: o mínimo tempo perdido no banheiro; mais  de dois copinhos de café após o almoço; três bocejos durante o expediente.  

            Os faxineiros eram adolescentes e sumiram da agência. A idade nada justificou. A bola de papel disparada perturbou  o fechamento diário da agência, o instante em que o subgerente harmonizava-se com o divino, o fundador do banco, os acionistas desencarnados e  purificava-se pelas juras de amor aos  papéis de grande liquidez.

 

             As trinta moedas de Judas podiam estar em qualquer gaveta.  

 

            A brutalidade do subgerente não era exceção na agência. Destacava-se porque era a mais intensa entre muitos funcionários que se odiavam e, no entanto, a despeito do pecado da ira, almejavam obter um cargo redentor a ser concedido pelas mãos do gerente.

            Seres em danação e suas transgressões cometidas efetivamente dentro do capital.

            Não suportava tais existências rasteiras, mas não percebia minha condição paradoxal: eu também clamava pela benção do gerente, Sr. Matias. Que ele me visse atender a clientela, priorizar o acesso dos idosos aos caixas-eletrônicos, carimbar papéis, agradecer o dia inteiro para no fim do expediente nunca ouvir: “Filho, você   comeu o pão  que o diabo amassou”. 

 

           A agressão ao velho cliente foi o meu único equívoco funcional.  Foi o diabo que amassou o pão.

 

  Outro trabalho sobre pressão  

 

            Estou excitado porque  imagino agora o corpo nu de Beatriz. Seus ombros eram perfeitos. Meu pênis – esquecido do prazer propiciado por Marina -   se ergue, respira, toma fôlego, pede espaço, a vitória e, de súbito, fracassa e desiste.

            Ah, o órgão masculino, sempre um órgão disciplinado. Ele compreendeu a falta de vazão.

          Das mulheres do setor de cobranças não fluirá um rio de prazer.  

Estou sem  saída.  

            Mas quero edificar minha casa sobre a rocha, quebrar os cedros do Líbano. Curar a salivação dos velhinhos. 

            O Bispo Rodrigo nem isso impedia: a salivação dos velhinhos em frente ao Criador.    

  

O Egito.     

 

            Meu pai pigarreia na sala. Seu time marca outro gol.  Se o clube ganhar o campeonato, a vomição será de alegria.  Papai está subindo as escadas. Vai bater na porta outra vez. 

            O velho reclama do chuveiro. Abro a porta e grito:

            - Que chuveiro o senhor escuta?

            Papai não prossegue e entra no quarto. É intervalo no futebol.  Pergunta se eu procurei emprego e eu lhe conto sobre o roubo no ônibus.  

            Papai quis saber sobre o resultado do roubo.

           - Levaram algum do teu fundo de garantia?

           - Não, eu  depositara o dinheiro.   

                                                        

            Papai logo volta a remoer a lembrança da ex-mulher. Ela o traíra, ela foi roubada por outro homem. É difícil identificar o motivo do fim de seu casamento. O namoro vinha da adolescência e, de repente, entraram em sua casa e levaram a dona. Ela era uma perdida e o desprezara. 

            Do casamento de meus pais, passo à fuga dos judeus do Egito. Não havia Egito para justificar a fuga da ex-dona dessa casa.  

            Papai sofre com a perda.  Eu não ligo mais. Identifico em minha mãe, três mulheres diferentes. Tipos congelados no menor tabernáculo do meu cérebro. A enfermeira está em extinção, a beata é a mais miserável, a adúltera tem olhos enormes. Geralmente tento não encontrar à última. Eu aprendi: “Conhecerás o fruto pela árvore”. 

            O homem do sofá padece porque ama a adúltera e sempre a encontra. Corrompida até na hora dos gols:

            - Puta! Puta que pariu! Filha da puta!

            Papai trabalhou como mecânico de aviões da Varig.  Aposentou-se cedo. Queria ter sido piloto. Tinha este voo infantil na cabeça, no entanto, estourou-lhe o medo do fracasso e ele  desistiu do   plano quando se casou com mamãe. 

            Por isso papai guarda rancor da ex-mulher. Ela quando saiu daqui, voou alto, nas asas da concupiscência.  

 

            “Cuidado com as asas da concupiscência!” Esta era uma das frases preferidas do Bispo Rodrigo. 

  

Os sócios 

 

            Elvira  fugiu daqui com um antigo chefe da igreja     “ Deus é sabor”. O nome de guerra do pastor era Jonas.  O cara logo se associou à Igreja “Renova Jerusalém” e  mudaram- se para São José dos Campos. Ali ele  fundaria outra igreja e compraria um posto de gasolina. 

            Não me recordo os nomes das igrejas. Denominações são importantes quando se cria um empreendimento religioso. Se quiserem criem novos bancos da fé e abarrotem os altares com o mel dos vespeiros.  Eu não ligo mais.  

 

 As bocas 

 

            O jogo recomeça. Papai sai do quarto no apito do juiz e eu  penso o quanto Sara obedecia a Abraão. Chamava-lhe de Senhor. Isto tem implicações. Meu pai não era o senhor da casa. Trocou algumas lâmpadas, consertou o motor da máquina de lavar sem nunca perguntar sobre as atividades religiosas de mamãe. Uma vez discursou. Disse o que eu queria ouvir e ainda não percebia.

 

            - Não quero saber dessa gente de igreja crente por aqui. Não gosto!  Quem te levou para esse lugar?  A vizinha aí do lado? A mulher é doida!  Reza em casa. A salvação está em qualquer lugar. Não gosto desses crentes aqui. Você aliciou até o Ezequiel. O menino era corintiano. 

 

            Eu acrescento: “ O eterno é mais pesado do que o ar e não pode sobrevoar a boca dos pastores”. 

  

Uma experiência em catacumbas.  

 

            Iniciarei a peregrinação em paz. Devo esquecer o senil que cutucou o meu ombro, me acusou de roubo. Disse ladrãozinho no diminutivo humilhante. Não tive culpa se o empurrão estava no piloto automático. 

            Naquela hora, enquanto eu meditava na saleta da faxina, apareceu o subgerente em crise. Soube do ocorrido: eu tentara roubar o velho. Avisou-me da dispensa sumária. Justa causa sem direito.  

            Então ameacei. Acusei o seu flerte com o Sandro, do setor de cartões de crédito. Eu e a copeira havíamos percebidos os suspiros entre os dois e se eu não sair daqui com as minhas verbas rescisórias, iria contar a história do flerte pra tua noiva,  o gerente, pra cada cliente do banco.  

            Eu não chantageei com esta firmeza. Gaguejei e soprei. No entanto a intimidação acertou. Sábio é o homem ciente da fraqueza do vizinho. Ele já entende, o Altíssimo ama quem  usa o punhal das palavras. 

            O pederasta olhou-me para morder os lábios. Ele conduziria a dispensa pelo Departamento Pessoal do BBDC e eu não deveria retornar mais ali. Assim efetivamos um acordo de cavalheiros. Saímos ganhando. Recebi o Fundo de Garantia com os quarenta por cento, o 13º salário, as férias, o seguro-desemprego e o Sr. Armando obteve lá suas garantias.    

            Minha vida agora será a antítese da minha vivência nas cavidades bancárias. Esquecerei os diálogos com funcionários do BBDC. Pouco vou usar daquilo na cosmogonia da periferia. Serei direto, perigoso e integral. 

 

  Cristãos do Primeiro Século.  

                                                 

            Marina volta-me à mente.  Eu a imobilizei na cama e captei, com divina emoção, a ansiedade dos seus seios.  Ela levantou as pernas, puxou-me para um beijo sensual. O resto do produto é confuso. Recapitulo outros detalhes: seu corpo dentro do espelho do quarto. O perfume dos cabelos emanava do reflexo.   

            Marcou-me o dia quando ela finalmente esqueceu-se de fingir inexperiência, lambeu-me o pescoço e pediu-me para soltar obscenidades, gritar o tamanho das suas pernas, chama-la de potranca, de cavala, vadia. E ria porque era gostoso ser tão Madalena, tão Madalena...  

            Na ocasião nós dois entramos em um grupo de jovens da Igreja: “Cristãos do Primeiro Século”.  Eu até brinquei. “O que diriam os cristãos do segundo século diante dessa sua preferência sexual?” Marina riu. 

  

Dores 

             

            Sinto uma dor aguda no braço esquerdo. Não sei se realizo  outro eletrocardiograma.  A dor se alastra em meu corpo.  Sinto a chegada de uma praga de gafanhotos. Ela saiu das páginas da Bíblia. O meu braço esquerdo se transforma em mármore e eu tenho tanto a elaborar. Vibrar em lugares inóspitos.  

            Entro no banho e relaxo quando percebo. As dores são as ruínas de muralhas: os meus restos de ideias e desejos. Eles ainda me endurecem em alguns pontos, mas são apenas monturos. 

 

 O arroto do peixe.   

 

            Saio do banho. O jogo de futebol termina.  Papai vem me avisar e verificar o chuveiro ligado. Pergunto o placar e a autoria dos gols (o suficiente para afasta-lo do meu canto). Ele desce as escadas e arrota cerveja.  Mamãe odiava arrotos. Não houve ocasião em que ela não tenha manifestado o seu desagrado. Papai pedia desculpas e  arrotava durante as desculpas.  

            A mulher deixou a nossa casa e um bilhete comunicou sua decisão: quisera assim porque sua paixão por outro homem era uma paixão por um homem abençoado por Jesus. Ela já estava no além mundo. Tinha quarenta e dois anos. Parecia uma mulher de trinta. 

            Quando soube o nome do amante, papai observou:

            - Jonas, engolido por uma baleia e expelido vivo,  após três dias.  

 

            Se ela quis alguém vomitado por uma baleia, porque antes repudiava os arrotos do marido?

 

            Eu estava na mesma igreja e não reparei o cetáceo, o vômito e a sedução.  

            Papai gasta parte da sua aposentadoria com  prostitutas.  Eu não ligo para sua tara geriátrica. A separação consumou-se o ano passado. Ela não quis nada, nem a casa, nem o carro e eu continuei na  igreja junto com Marina. Não sabia  porque me olhavam como se lessem em mim a parábola do fariseu e o publicano e papai não fosse nenhum dos dois: nem o fariseu que se exalta, jejua e paga os dízimos; nem o publicano que se humilhou e foi exaltado. (Lucas 18:14). 

 

 Tentações e empréstimos 

 

            Iniciarei minha jornada peregrinando do Terminal do Largo Treze de Maio até Diadema. Seguirei a Avenida Interlagos. Descerei em algum ponto e caminharei por dentro dos quarteirões. Muitas quadras. Esquecerei  o trajeto da volta.  

            Estarei perdido, mas o demônio não me encontrará. Ele me conhece, sabe do meu trabalho: jamais observei o saldo na conta corrente alheia e não cometi o pecado da ira ao visualizar a extensão dos extratos diários impressos pelos caixas  do BBDC. 

            Tuas promessas não servem por aqui, Príncipe das Trevas.  Procure um cliente especial em outra região. 

 

 

 Primeiras revelações.                                   

 

             Justificarei minha peregrinação à periferia com uma máquina fotográfica. Irei me apresentar como fotógrafo de um grande jornal e clicarei.  A foto será parte de um painel sobre a cidade, que é santa de Santa Delirante. São Paulo é o nome de guerra. 

            A máquina era de Marina. Ela me vendeu com lucro, mas é uma boa câmera. Mecanismo profissional. A mãe lhe trouxe do Paraguai.  Quando a conheci naquela festa da igreja, ela experimentava as possibilidades dos flashes, manuseava a lente como se manuseasse um pênis... olhou para mim e clicou.  

 

  

A praia australiana 

 

            Papai desliga a tevê. Escuto o clique. Estou aqui agora. Espero. Papai subirá as escadas, abrirá a porta do meu quarto e repetirá que isto não são horas de ninguém ficar acordado. Não quero um zumbi aqui. Está bem?  

             Faço o sinal da cruz, do Pai, Filho e Espírito Santo. Chuviscos. 

             Passo a madrugada acordado. Ando pelo corredor. Vou e volto. Deito na cama. Olho o teto. Levanto. Deixo as luzes sempre acesas. O banheiro à esquerda, o quarto de papai à direita. No final, bem em frente, fica a mesa do telefone. A decoração do móvel continua sendo aquela idealizada pela outrora dona da casa. Vejo duas pequenas velas douradas no formato de árvores de natal e o porta-retratos com minha foto no jardim da infância. Atrás, na parede, o calendário com o mês da praia australiana. Papai não alterou a foto. Os seus últimos trinta dias de casamento permanecerão incólumes. A família continuará ali. O telefone guardará as digitais da antiga dona. 

            Durante os últimos dois meses do casamento de meu pai, ele decidiu, sempre aos domingos almoçar fora. Mamãe recusou de início por causa dos compromissos com a igreja, mas como eu pedi muito ela acabou concordando com outro horário. 

             Foram passeios bem interessantes, apesar das discussões dos dois. Discutiram a vida inteira e atrás da cortina por causa do tempo e do vento. Apenas papai imaginou um final feliz. Parou naquela loja de móveis e disse que sua mãe vai gostar tanto dessa poltrona de couro. Couro não esquenta no verão. 

            Alguns restaurantes eram distantes. Conhecemos o joelho de porco alemão, o taco mexicano, o frango xadrez chinês, duas cantinas italianas e um dia chegamos ao último mês do calendário.

Desembarcamos na praia australiana. 

            Naquele mês, Elvira entrou em outra arca e atirou sua aliança contra o mundo. 

            Lembro-me do Salmo 50 versículo 16: Ao ímpio, contudo, Deus diz: “Por que razão tu recitas meus preceitos e tens em tua boca as palavras de minha aliança, visto que detestas minha disciplina e desprezas minhas palavras”.  

             Posto-me em frente ao espelho do banheiro. Chego perto. Ali está o peregrino, o desmemoriado. Ele me fez esquecer os almoços com meus pais. 

            Os dois sempre discutiam. Os dois brigavam enquanto eu gritava. Ouvi-los era muito perigoso.  

            Um dia brigaram porque papai trouxe um imã de geladeira com a figura de São Jorge e mamãe não gostou. 

 

  Toda repetição será condenada

 

             A periferia é um mundo aberto e dali  surge uma dúvida: “Qual a feição suburbana do Criador?”   

 

            Qual a razão de estar me repetindo tanto? Pareço uma copiadora. Copio o comportamento do bispo Rodrigo durante o culto. Tiro xerox da sua calibrada fé. Devo agir. Sair da agitação e da oratória. 

 

 Respiração.  

 

            Devo eliminar a ansiedade desses últimos meses. Respiro agora. Desenrolo um longo carretel de lã branca. Puxo lentamente o fio e sustento em minha mão esquerda a delicadeza e porosidade do novelo. Observo a firmeza da cor.  A operação não acabara tão cedo. Trabalharei muitos dias aqui. Respiro agora e inverto o sentido, passo a enrolar a lã. Este é o meu objetivo: envolver os fios como se fosse confeccionar um ninho de nuvens.  Devagar. Respiro. Não posso me apressar.    

            Ah, o ninho se desfaz e estamos em um sol morno. Quero um café. Procuro o coador.  Aqueço a água.  Ouço o som fino e extenso de uma gaita. É o amolador de facas. O homem passa com os seus penduricalhos.  Ninguém quer amolar facas. Porque ninguém aparece para amolar as facas? Permaneço no descontrole. 

 

 Lombadas germinam.   

 

            Entro as seis da manhã no ônibus  175T – Tremembé Jabaquara.  Os bancos  do coletivo cheiram a jasmim.   Alguém passou a madrugada na faxina. Os delírios e a insônia não são exclusividade dos seres  rastejantes  iguais a mim.  Isto acabará, agora dormirei corretamente. 

            Desço na Estação Jabaquara do Metrô.   Ando pela região, entro na primeira lanchonete. Peço um café não coado por mim e um pão na chapa. Fico no balcão. Observo o despertar do primeiro comércio ambulante. Na minha frente, pregados em um plástico azul claro, enfileiram-se imãs de geladeiras, pregadores de roupa coloridos e relógios de brinquedo.     

             Saio do bar. Um dia fui  imã. Hoje sei me desprender do metal fixado em  minha cabeça. 

             Perambulo pela região. As pessoas passam com o rosto endurecido pela manhã sem sol. Entro em uma padaria. Sinto sono. Meus cotovelos gelam sobre o balcão e peço outro café. Cinco homens conversam na mesa lateral em frente ao balcão de frios. Não há pressa em seus gestos, eles estão no contrafluxo. Voltarão para casa. 

            O funcionário entrega-me o café e reparo na parede do estabelecimento, um quadro com a reprodução da “Santa Ceia” de Salvador Dali. Entendo o raciocínio do pintor, ele afirma os dois polos do universo. Cada manifestação possui o seu contrário, o corpo contraria o espírito, a água se opõe a terra. O pão da pintura foi dividido em duas partes iguais. A própria mesa da ceia está cortada ao meio e flutua. Jesus mostra o rosto enquanto os apóstolos escondem as cabeças. Procuro mais detalhes e de certa maneira a pintura prossegue pelas paredes da padaria. Abriram um pequeno acesso para a cozinha, por onde o cozinheiro  entrega os lanches solicitados. Fotografo o misto quente dividido em dois. Fotografo o churrasquinho e a mão do cozinheiro. Ele fuma e  despeja os sanduíches segurando um cigarro.  O misto-quente daquele adolescente traz uma cobertura  de nicotina e fumaça. 

            Aqui não é a periferia. Este bairro comercial  é óleo de segunda. Meu quarto é mais interessante. 

             Saio da padaria e profetizo: os mansos iguais ao meu pai herdarão a terra e nela habitarão mesmo sem esposas, sem os grãos fartos da colheita do matrimônio.   

            Chego a minha casa no início da tarde e ouço a apneia de papai. Ele dorme no sofá enquanto a tevê transmite um programa culinário. A apresentadora prepara um bolo de chocolate enfeitado por cerejas.  A mulher usa um batom tão vermelho quanto as frutinhas do bolo. Sua boca é uma cereja  e por isso algo me aflige na apneia de papai. Acordo-o.  Ele reclama pelo sono interrompido e diz sentir muitas dores nas costas. Senta no sofá e estica as pernas até ouvir o estalo. Peço que durma mais um pouco, sem agitações.  

            Às vezes papai cai da cama por causa de um sonho recorrente.  Ele está no comando de um voo, segura o manche da aeronave e entra em contato com a torre de controle. Informa sua posição e aterrissagem em quinze minutos. A torre autoriza o pouso quando, de súbito, uma turbulência interrompe a viagem, derruba o mundo e  papai  é cuspido da cabine de comando. Sai pela janela e cai da cama. Traz na queda o manche e  travesseiros.  

            Assisto o primeiro noticiário da noite. Os repórteres mostram certa região do Jardim Primavera onde existem postes no meio das ruas. Os automóveis fazem a curva e são destruídos pelo  concreto em movimento.   

            Os postes andam em São Paulo, sobem ladeiras, enfrentam  caminhões, acumulam uma ira muito acima da  carga elétrica  transmitida. Os postes são um achado da energia divina buscada por mim.  

            Na periferia encontram-se também lombadas fora do padrão recomendado pelo Departamento de Trânsito.  Lombadas imensas como tartarugas pré-históricas enterradas. Isto é outro  achado da periferia : tartarugas imensas sob o piche caminham devagar  como os poucos automóveis do lugar.

            A igreja “Deus é sabor” é um chão liso. Um dia, porém,  teve ares de uma planície sem fim para mim. Mas se eles plantaram, colheram o trigo, o milho; hoje eu cimentei o terreno.   

  

O início 

 

            Escrevo a introdução do primeiro capitulo do meu relato. Início: “Aqui em São Paulo, não se conhecem as rotas de peregrinação, embora se noticie que a leste, o limite  seja a Cidade Tiradentes, terra de outra Judá, de outros semitas, absolutamente perdidos de Deus. A oeste,  com Osasco, contam peregrinos alienados para sempre.  Ao norte, com Mairiporã, ouço falar sobre desovas de santos martirizados, cemitérios clandestinos e perdições. Mas, ao sul, em um recanto de um bairro inóspito  chamado Engenheiro Marsilac, avista-se o mar e, sobre o mar, a estrela, brilhante tal qual a estrela do oriente”.

            Acho promissora a introdução, depois me irrito. Penso em escrever um evangelho segundo Judas Escariotes.  O apóstolo escolhido para a traição... ele cumpriu sua missão.

  

Lâmpadas 

 

             Saio finalmente rumo à outra face da terra. O guia risca a Divisa da cidade de Diadema com São Paulo. O ônibus segue a avenida Kennedy e  desço perto de Diadema.  Meu relógio marca quatro da tarde.  

            Agora não seguirei mais os ponteiros da civilização, aquela anunciada nos registros dos cartões de ponto, para descobrir as marcas de um mundo especial. Agora usarei o brilho possível dos meus instintos para descobrir estas outras marcas de mundo.

             Percorro a avenida, entro em ruas estreitas e vislumbro longos terrenos baldios. Muitas casas foram demolidas. Esgotos a céu aberto criam sulcos esverdeados no calçamento. Prossigo a vistoria. O buraco de um muro abre para uma viela que se liga à rua paralela. Os moradores usam o caminho e economizam duas quadras. Já é quase noite, deparo-me com vagalumes.   

             Minhas lembranças de vaga-lumes são muito antigas. Quando eu tinha nove anos, em 1971 vi alguns pirilampos em uma chácara na cidade de Itapecerica. Decerto aqueles vagalumes estão aqui, foram transportados até essa divisa de São Paulo, acessada por vielas de tempo, espaço, esgoto. 

            Retorno à avenida. Um ônibus estaciona. Passageiros descem do veículo com pacotes, casacos e crianças. Homens caminham lentamente e riem porque querem dividir uma cerveja com os amigos.   

             Se eu tivesse nascido em outro lugar, levado outra vida, teria sido outra pessoa, então qual a justificativa para a condenação divina por nossos pecados se não temos responsabilidade pela nossa existência casual?  

            E nossa alma? Ela depende dessa vida acidental derrubada sobre nós ou seria uma substância intangível? Temos várias almas ou não temos nenhuma? Passar fome revigora esta alma? O sexo na abundância dos peixes nos enfraquece? 

            Volto aos vaga-lumes. Vagalumes apenas piscam sua luz noturna. Nada é aleatório em sua condição. Nesta lógica estes insetos, todos eles juntos possuem uma essência maior do que a minha. Eles brilham agora e pronto. Aqui e ali. 

            Ora, uma rã colossal soltará sua língua e abocanhará esses vagalumes. Eu estalarei os ossos e continuarei vivo. Eu sei da minha vida. 

            Chego enfim à periferia da cidade. 

 

   Pregos 

 

            O ônibus roda vazio. Passo ao lado da agência do BBDC onde trabalhei. O prédio me assombra por causa dos holofotes armados no jardim. Três dias após a apoplexia do idoso e minha demissão, retornei ao Banco,  a  Beatriz das cobranças encontrou-me e perguntou-me porque eu pedira demissão. Não entendi, nem quis responder. Sentia-me fora dos limites de influência e respeito hierárquico. 

            Beatriz tinha um cargo comissionado e por isso, pela função que ostentava, queria eu bebesse fel e permanecesse acastelado naquela bigorna de vida até o meu último suspiro.  

            Deixei a prancheta no armário. Sempre carimbei papel de estacionamento, ensinei a puxar extratos e o macróbio chamou-me  de ladrão por duzentas moedas. A ofensa foi uma maldade. Apliquei um bom corretivo.  Não sou o bom ladrão,  o São Dimas dos bancários.  

 

   A recordação de presentes e a baba de louco.  

 

 Amanhã é dia dos namorados.  Ano passado eu e Marina trocamos presentes. Ela me deu uma camisa e eu lhe trouxe um vaso de orquídeas.  

 

    Entro no banho quente.  

 

            A traição amorosa deixa o corpo miseravelmente frio. A noite da minha separação de Marina coincidiu com o nosso aniversário de namoro e noivado.  Quis presenteá-la com uma carteira de couro, a mais cara da loja. O presente captava a essência de Marina e guardaria moedas.  

            Marina nem guardava segredos. Segredos para cristãos do  primeiro século são tão insignificantes  quanto centavos de troco.

            Eu me dirigi a sua casa na Vila Mascote com o carro de papai e ela não me esperava. Era tão marcante a data, ela não poderia ter esquecido. Aniversários de início de namoro, noivado, bodas de ouro, bodas de raios de sol e brócolis devem ser comemorados e comemorações entram na totalização dos valores sentimentais dos amantes. O cérebro é um porta-joias.  

            Marina me recebeu apertada.  Comprimia-se em um vestido azul e deixava o seu colo à mostra.  A ponta dos seios delineava-se sob o tecido e ela puxava as laterais. O vestido era tão elegante que seria mais útil em outra ocasião: um casamento, uma formatura. Até perguntei:  

 

               - Lindo vestido! Isso é para nós?  

             

            Marina não respondeu, mas percebi, o  gesto  de puxar  as laterais do vestido,  ajeitar tantas vezes os seios, acertar o caimento,  terminou por vulgarizar a peça.  Marina ganhou ares de dançarina de boate em zona do meretrício.  

            Vi uma prostituta vampira. Cortesã de primeiro dia e agora eu sei. Faz três meses. 

            Ela estava  sem jeito. O salto alto, a bolsa pequena, Marina não me esperava. Entrou calada e nem passou meia-hora, perto da avenida Ibirapuera, comunicou-me formalmente a entrega do meu presente dali a dois dias. Surpreendi-me com a afirmação e respondi não estar ali por causa de presentes. 

            - Eu não sou um mercenário? 

             Logo após ter dito aquilo parei o carro no semáforo e soltei um palavrão no amarelo.  Ela entrou em uma conversa desconexa. Falou sobre a falta de tempo. Os compromissos da igreja influíam nos  trabalhos da Faculdade. 

             Parei em outro semáforo. Ela se calou. Abriu a carteira que eu lhe dera, apalpou-a, examinou o porta-moedas, enfiou o dedo anelar no receptáculo vazio e no sinal verde declarou que não deveríamos mais nos ver.  

             Jeová poderia utilizar os faróis vermelhos para as más notícias. 

            Quando Marina me dispensou, mirei o seu rosto sem entendê-lo. A separação de amantes é uma cirurgia complexa.   

            Fiz a manobra e retornei em silêncio à sua casa.  Estacionei e perguntei se ela queria terminar a droga do noivado. Ela confirmou.  Não me amava mais, não me queria. Eu não fui o homem esperado por ela, chegara ao  limite, o relacionamento não rendeu. 

            Faltou dizer sobre a perda da validade do amor, ele estragara-se à noite, entupira-se, exalara o cheiro desagradável de sexo mal lavado e após tantas desventuras, nossos dentes surgiram tortos,  os olhares  perderam-se em rugas, os corpos secaram e feneceram tal qual a  relva verde dos campos.     

            Desloquei minha cabeça para fora do carro. Respirei fundo. Papai não consertara o pisca esquerdo. Alguém o quebrara, decerto foram moleques e até a lataria do automóvel não estava em um dia normal e  brilhava de forma obscena.  

            Marina naquele momento deveria saber o quanto era pornográfica a  existência do mundo. 

            Quis dar o troco. Soltei uma frase grosseira, pedi a carteira de volta. Marina entregou-a com displicência, sem fechar o porta-moedas. Pensei na inutilidade de uma carteira feminina dentro do meu guarda-roupa?  Gritei: 

 

            - Você nunca me amou! Quero o anel do noivado de volta!   

 

            A restituição do anel tinha a simbologia da perda do ouro. Forçaria a mulher a encarar o prejuízo. 

            Marina não usava a aliança.  Esquecera-a sobre a cômoda. Não havia saída.   

            Soltei-me de vez:  

 

            - Você tem outro! Nem estava me esperando...  Você tem outro para ejacular na tua cara. 

                                                 

              Ela abriu a porta e correu até o portão sem conseguir abrir.

Fui atrás, corri de forma pesada, sentindo-me suplicante. Eu  buscava  a  explicação,  a  reconsideração  do  rompimento, um pedido de desculpas,  uma declaração de amor.  Fiquei ali. Marina estava apreensiva. Estendia o braço esquerdo contra o meu peito. Mão fechada. 

            Meu olhar  tornara-se coxo e esmolava o reatamento. Esmolava a penúria de uma chance. 

            Alguém lançou aviões de papel do alto de um prédio vizinho. Os aviões desceram devagar, planaram e  bombas cairiam dos artefatos.  

             E de súbito minha futura sogra chegou à janela e perguntou sobre o barulho. Ouvira gritos. “Nada!”     Ficamos em silêncio. Minha respiração queria sair como um motor de caminhão. 

            Marina cortou-me e, por fim, usou  a expressão que jamais  imaginei ouvir de sua boca: 

 

             - Sai daqui, cara! Você está com o diabo no corpo!  

 

            O diabo no corpo? O diabo no corpo?  “Este corpo não te pertence!” – diziam os pastores exorcistas.   O jargão evangélico usado contra mim e logo contra mim, tão ajustado às expectativas da igreja, tão dentro da linha do tempo cristã. Não me contive.   Sai e não olhei para trás.  

            Por pouco não arrombei a porta de casa.  Encontrei papai folheando uma revista de aeronáutica e contei-lhe o episódio. Ele definiu a situação da forma  esperada:    

 

- Era uma puta, meu filho. 

-Isso é bem típico do senhor. A putaria é a medida de tudo.  - Eu não tenho medida para nada. Eu não estou aqui  para medir ou pesar... não sou açougueiro. 

                 Preferi ficar em meu quarto. A clareza de papai me perturbou e ainda me perturba. 

            Amanhã é a festa dos namorados. Acabo de imaginar uma outra Marina. O seu rosto suave paira sobre um cenário nublado.  Ela pisca os olhos, estou deitado em sua cama de solteira.  Minha noiva olha-me compreensiva, saída do banho, estende as  mãos, as paredes  giram,  despenco da cama e trago  na queda, a traição e os travesseiros. 

            É inevitável não sentir a náusea das minhas muitas conclusões: meu corpo foi carne barata entregue ao prazer dos fiéis de um “fast-food” evangélico. 

            Marina tornou-se uma combinação do sujo com o limpo, do ferro velho com o aço inoxidável. Sua casa era uma mistura de leite de vaca e talheres enferrujados. Eu me oxidei. Vinte e três anos naquele portão, quarenta naquele instante, a velhice para sempre.  

            Mal reparei que nos últimos dois meses, o namoro estava diferente, somente nos víamos aos sábados. 

 

   O mugido da santa 

 

            Desço após o banho. Papai varre o chão da cozinha. Desde a perda da esposa adquiriu a mania de limpeza.   O seu ímpeto higiênico irrita agora. Não posso vislumbrar aquela vassoura no meio de tantas situações problematizadas dentro de mim. Contar os pecadores de parte desta cidade. Contagem, ato de narrar. Narrar pecadores, soltar suas histórias, soltar seus erros, soltar peixes na correnteza do meu relato, encontrar o Altíssimo no meio dessa rede.  

           Estou sozinho na empreitada, somente eu confio, o Onipotente pode ser reciclado como uma panela de ferro encontrada em um aterro sanitário. 

           Semana passada aproximei-me da casa de Marina. Vi um homem na sala de estar. Era o novo namorado. Ela desistira de mim sem considerar nossos contundentes e simbólicos planos de amor. Eles poderiam, pelo menos, conservar nela uma saudade, uma meditação que durasse pelo menos trinta dias de aviso-prévio.

            Escondi-me atrás da figueira da esquina e Marina ajeitou o cabelo. Riu. Parecia saber da minha vigília e do quanto o seu sorriso desprezava a minha existência e a existência de qualquer outro pecador suplicante de sua atenção.  

             Ah,  linda a estampa, o gestual da Deusa.  Assim a vi e isso doeu. O meu estômago acusou um remoinho, uma ferida, fisgada de úlcera a provocar medo, medo do boi antes do abate. 

            Meus músculos perdiam força.  

            Tive vontade de gritar. Gritar Marina, soltá-la de mim.  Naquele momento ela surgia tão isenta de vícios, tão elegante, até dissimulada. Eu quis sair dali e correr. Não antes do grito:

             - Vaca!  

 

A mitologia da pedra.   

 

            Chego. Quis que a antiga pedreira de Santo Amaro fosse o marco introdutório da minha missão. Ali se encontra uma grande pedra. 

            A pedreira é o ponto final do ônibus no qual embarco,  apesar da placa do lotação indicar como destino um lugar chamado Eldorado, local lendário pródigo de  riquezas e oportunidades.   

            Desço na rua Prof. Cardoso de Melo Neto. Não vejo ninguém, sigo o asfalto, a estrada de terra e contorno o muro da pedreira vazia.  No mapa de São Paulo, o lugar é um branco e de fato seria somente um branco não fosse o morro.  Avisto-o ao fundo. Um morro escuro e isolado no meio de um terreno, uma grande pedra como disseram, arruinada pela produção de seixos. Tiraram um pedaço com dinamites. As pessoas reclamaram dos estouros e desativaram a pedreira. Uma criança diria tratar-se de um meteoro. Sim, um corpo gerado no espaço sideral bateu no solo e determinou-se a cumprir sua órbita estúpida: atravessar o planeta.  

            Subo a rua porque o correto é subir. Julgo ao redor daquele terreno existirá uma ousadia, um atrevimento que mudará minha visão sobre os homens e sobre o Altíssimo.  

            A subida é íngreme.  Estamos em junho. O sexto mês do ano. Muitos dias vividos inutilmente. Quero zerar o cérebro.  Procurar desígnios divinos exige o absoluto, exige estar pronto para tudo não sendo nada.  

            Ultrapasso a primeira divisa de São Paulo. A cidade de Diadema começa logo ali. Subo. Em determinado momento, visualizo a represa Billings. Peregrino até o extremo do habitável, onde mato, barranco e linhas de formigas se repetem. No fim do rastro encontro uma casa bem simples, branca, esquemática, com tranqueiras acumuladas sobre o terreno. Conto quatro privadas, uma carroça emborcada, cinco calotas e surpreendo-me. Justamente do quintal daquela casa, a represa surge deslumbrante. O sol vermelho do fim da tarde brilha somente neste ponto do mundo: o ponto das privadas.  

            O visual vale a foto.  São cinco da tarde. A dona da casa recolhe roupas no varal e ao seu lado, dentro de um caixote, um bebê mexe os braços. 

            Pergunto a mulher se posso fotografar a represa. Ali a vista é muito bonita. A mulher permite. Tiro a foto. A imagem será um presente para Marina. Ela se transformou no próprio barranco e esconde-se atrás da vegetação como algo que despenca dali.

            Apresento-me como fotógrafo de um jornal importante.  Invento o nome do tabloide. Procuro a beleza oculta de São Paulo. 

              A mulher grunhe, ali nem é São Paulo. É Diadema.  

 

             - O senhor quer café? – oferece enquanto coloca o caixote do filho dentro da casa. Aceito e entro. Quero conversar. Sento em um sofá e pergunto: 

 

-    É seu filho? Qual a idade?   

 

-    O Enerson fez seis meses.  

 

            Mal ouço a resposta, percebo as inúmeras cataporas no corpo do menino. Desconcerto-me. 

            O cheiro do café se espalha e  o barraco diminui o tamanho. Apenas um quarto dividido por largas cortinas de fios de plástico amarelo. Já as vi em bares. Parecem espaguetes. 

            Recebo o café para observar os poucos móveis e objetos. O liquidificador azul celeste destoa do amarelo reinante. A geladeira redonda parece congelar a boneca de cabelos platinados sentada sobre a cama.  

            Paro de admirar o local quando detecto os maribondos. Na mesa pousam três. Enormes colibris escuros. Alguns escalam a porta da frente. Outros dominam a maçaneta. Estou dentro do ninho. Eles aterrissam em minha perna. Dois examinam a bolsa. Afugento-os, eles voltam. Um grupo percorre a geladeira. Os maiores capturaram o fogão e descem sobre o bebê, pulam na fralda. Na janela um esquadrão parece marchar pelas patentes.    

             - A senhora não se preocupa com o ferrão desses maribondos?  

             A mulher responde:

 

            - Eles não mexem com gente, só aparecem por causa da represa. 

 

            Aviso-lhe que eles poderiam fazer mal. Passar uma doença ao filho. Criar um ninho do tamanho do morro.  

 

-    Ah, não passam não... – a mulher ri.   

 

            A displicência me impressiona e chego a rogar para ela chamar a vigilância sanitária, os bombeiros, a guarda-civil. Resolvo fechar a boca, os insetos podem descobrir a fragilidade da minha língua. 

 

-    Eles não mordem – ela conclui. 

 

           Saio da casa. O que vi ali dentro? Um descalabro ambiental e somente isso. Tranquilizo-me. Não estou dentro de uma praga bíblica. 

            Encosto-me ao tanque de roupas. Os furúnculos no corpo da criança podem ser alergia ao calor ou alguma doença bixiguenta própria da idade e da condição social daquela família. A providência não castigou aquela mãe.  

            Sempre os insetos atuam em alguma justiça divina? Se eu acreditar nessa hipótese não poderia estar ali. O Criador se confirmaria na sucessão de pragas anunciadas pelos chefes da igreja  e eles estariam certos. 

            Olho a represa e penso no mar da Galileia. O Mar da Galileia agora é esta represa. Fotografo um pôr do sol igual ao primeiro dia da criação e respiro. 

            A dona da casa despeja uma bacia com Cândida perto de mim.  Ela pergunta se eu não quero mais café, já afugentara as muriçocas.  Respondo que não. Agradeço a hospitalidade e desço dos meus barrancos mentais. Quero sair.

             O sol e a represa cheiram água sanitária.  

 

 Corpos de papel 

 

            Chego em casa e papai dorme sobre o sofá. O peso do seu corpo afundou a espuma do móvel. Papai se estira, a barriga aponta para as paredes como um canhão. Ele se vira e chama pela ex-mulher. Seus sonhos tornaram-se uma calamidade. Sem perceber ele joga longe uma revista da Força Aérea Brasileira. Novamente aviões de papel, novamente um esquadrão de maribondos. Papai poderia trazer alguma revista de mulher pelada. Não me incomodaria se ele apreciasse a fuselagem do corpo feminino. 

 

 Com este símbolo vencerei.  

 

             De manhã, sigo até o Aeroporto de Congonhas.  Acredito que os buscam o Criador merecem o pouso de aviões autênticos. Há um bar no saguão principal.  Encontro uma mesa atrás de uma coluna  e peço  cerveja. Meu relógio marca onze da manhã. Bebo até as duas. Os copos quebram as minhas ideias de perscrutar a periferia. Saio e me posto  no meio do saguão. Examino a abóbada que ali imita o céu.  Azul, azul até enjoar. Penso em chorar. Quem se importa? Em aeroportos e rodoviárias comportamentos bizarros são tolerados. Quem se importa? Em Congonhas constata-se como o mundo é transitório.  

            Não me sai da cabeça o sorriso de Marina. Um dia ela disse: “Não pensar em Deus às vezes não é pecado. Ele permite a felicidade do homem sem a sua interferência.”  

            Quase compreendi aquela afirmação. Fiquei na beirada, cogitei diversas hipóteses, nenhuma me convenceu. Não compreendi e estou aqui vivo.  

            Ando pelo aeroporto. Reparo os balcões, o despacho das bagagens. Visualizo a pista de pouso e noto a desolação do concreto até o horizonte. Visito o restaurante, dali vejo as aeronaves passeando pela pista. São templos evangélicos, ajudam a manter a crença em algo insustentável. 

            A salvação  se produz mediante a fé,  obediência, imersão em nuvens e no oxigênio das cabines pressurizadas pelo Todo-Poderoso.   

            Saio em busca de paz.  

 

  O desafio 

 

            Encolho-me nos assentos de dois ônibus. Sinto frio. Chego novamente ao Eldorado (estranho batizarem um lugar ermo com o nome da lendária terra do ouro). Desta vez entro na pedreira vazia, gigantesca, rejeitada. Percorro a estrada que atravessa o terreno. Há poucas árvores e o lugar ficou surdo após as dinamites.  Paro em frente a montanha, é um paredão enorme. Chego perto.  

            As explosões formam figuras em baixo relevo nessa  parede. Elas esculpiram uma casa, barco, um homem sobre um cavalo. Dom Quixote trota dentro da pedra, executa um movimento não descabelado, concentrado.  Trota com perfeição  para o mundo admirar. Aposto  que ninguém  o viu. Visualizar a imagem depende da hora, das sombras, do observador, sua imaginação, fé no inusitado, tristeza, conhecimento dos personagens de Cervantes, moinhos,  Dulcineia e prostitutas.     

            Observo as narinas do cavalo. Elas saltam da pedra. O bafejo do quadrúpede é uma  golfada mineral, em noites de lua cheia,  a figura  se destaca do morro, se posta no meio da estrada e desafia os passantes: “O Senhor é o rei eterno. Cantai a glória de seu nome ou tua cabeça rolará”.   

            Minha cabeça rolaria. Minha ideias já rolam triste. Procuro o Altíssimo neste instante com a ansiedade de quem quer  usar as mãos com os dedos  amputados. 

 

 O cavaleiro 

 

            A Pedreira se liga a vielas com poucos barracos.  Estas quebradas são muito semelhantes. No futuro uma favela explodirá aqui. No futuro a miséria será a dinamite  desta pedreira. 

            Caminho pelo terreno até escurecer. Não sei onde estou. No primeiro anexo do purgatório passeiam  espaventos e vira-latas, mas não me desespero. Jesus também caminhou em paragens estilhaçadas e por isso estou aqui. 

            Sigo uma trilha e talvez chegue à Estrada do Alvarenga. É noite. Aparecem vultos, mulheres de tetas volumosas e casinhas brancas. As mulheres  resmungam. Não traduzo o dialeto primitivo. Outras mulheres puxam crianças pelos braços. Três velhas passam tossindo. Estou no meio de um quilombo. Abro todos os sentidos e ouço o som de um galope. O trote vem distante, vem  chegando perto.  Não me viro para o inefável e o cavalo do galope estanca ao meu lado trazendo um homem gordo, a barriga puxa os botões da camisa. O cavaleiro pergunta o meu nome.  Repito a história do fotógrafo, afirmo estar perdido. Procuro a Estrada do Alvarenga. 

            O sujeito ri e aponta a passagem à esquerda. Devo seguir até uma guarita,  pegar a rua  dos Espadartes até o fim e chegar na  Alvarenga.   

            A gentileza do cavaleiro me comove. Pedras podem ser caridosas. Sigo pela ruela  indicada, viro-me e reparo o gesto inusitado: o homem me acena.  

             

            Ah, do alto do seu pangaré (era somente um pangaré) o cavaleiro me acena. Eu aceito o gesto para amarrá-lo à história da minha vida. Quis ser insistente e perfeccionista. Estranhamente buscava tais qualidades. Antigamente, após ouvir os sermões dos pastores da  igreja Deus é sabor, acreditava que o Todo-Poderoso seria a fusão entre o Banco e a igreja.  Não creio mais naquela idealização, todavia,  estou aqui, ignorante de quem fui e  ainda espero um aceno do Criador. 

 

 Primeira avaliação 

 

            Eu tenho a necessidade de buscar alguma coerência.   Procuro o Onipotente atrás do formigamento gerado pela brutalidade daquele lugar.    

            Despenco para casa e papai conta o dinheiro em sua carteira. 

 

-          O senhor jantou? 

 

            Ele se desconcentra e respira com dificuldade.  Reclama da falta de dinheiro. 

 

-          Se você abrir a  geladeira tem macarrão.  

                         - Não quero comer macarrão hoje. Parecem cortinas de botecos. 

             Papai não escuta minha comparação, ele conta o seu dinheiro.   Mais  tarde contará os espaguetes congelados. 

             

  

 Primeiras conexões 

 

            Às três e meia da tarde saio do meu quarto com dor nas costas. Dormi no chão. Almoço as sobras do macarrão de ontem. Enrolo as tiras na colher. Mastigo as cortinas da casa dos maribondos. Recordo os insetos em marcha, sinto o gosto do azeite.

 

 O primeiro bar 

 

            Tantos delírios apenas me empurram de volta à peregrinação. Entro no ônibus rumo ao Eldorado. Ah, no terceiro dia a Pedreira se abrirá, Jeová sairá enfim. Ele esteve dentro da pedra, irmãos. Ele não queria se quebrar. 

            O dia esfriou. Um vento gelado entra pelas janelas emperradas do lotação. Carrego um casaco, visto-o e aperto as mãos. As janelas estão abertas, minhas costas doem, minha respiração também emperra e concluo não poder ver a  pedra hoje, ela é escura,  grave e antiga. Com esta dor aguda na coluna seria um sacrilégio. Não prossigo até a pedreira, voltarei amanhã.    

            Desço  na Avenida Interlagos, perto da  avenida Yervant  Kissijakian. Percorro a avenida até a praça da Vila Joaniza e o meu relógio marca dezoito horas. O comércio fecha para a escuridão da noite. Paro em um bar e tomo café, examino as  frituras. São muito instrutivos os botequins com os seus torresmos fossilizados. Fotografo os dinossauros. O local esvazia os clientes. Nada a pensar agora. Sinto o encosto da cadeira e miro os desenhos dos azulejos. Exageraram nos losangos. 

            Na parede atrás do balcão, grudaram a estampa de uma mulher seminua. Ela oferece a cerveja “Pantanal” de Mato  Grosso.  A mulher abre a boca e segura a garrafa.  Qual será  o amor proposto por aquele sorriso? Hoje é tão natural vender os dentes. Em outra época não seria possível. Outra era, antes da criação da minissaia, da boca esperando beijo, dos pássaros que limpam a mandíbula dos peixes-boi. 

            Bato uma foto e peço a  cerveja Pantanal.  Sinto um gosto de barro. Engarrafaram o Pantanal de Mato-Grosso.   Minha língua estala jacarés. Saio. Subo três quadras e deparo-me com um palco e o início da festa junina de Santo Antônio.  

 

A festa  

 

            Montaram barracas de doces, carnes, pastéis. Crianças ensaiam quadrilhas e mães aplaudem. No palco, quatro adolescentes  cantam uma marchinha inaudível. Cinco mulheres assistem o show. É uma enorme plateia de mulheres.  

            Reparo o palco. É bem sólido. Uma estrutura incompatível com a delicadeza do santo. O tablado deve aguentar multidões, provavelmente a construção serviu para algum comício político e  foi deixado  ali aos cuidados da comunidade. “Podem tomar conta dos troncos”. 

            Tento disfarçar a minha condição de intruso. Peço um  espeto de frango em uma barraca. Converso com o dono. É o dono da barraca porque somente ele abana o carvão em brasa.  O homem garante vender muito em festas juninas. Tira o troco de um verão. As pessoas não comem muito no verão,  o natal sai uma coisinha ou outra, mas o bom são as festas de São Juninas.  

            Peço outro churrasco e passo na farinha. Coloco pimenta. A pimenta me acende.  Anoitece um cheiro de arroz úmido.  

            Muita gente chega ao balcão e o homem não pode mais conversar comigo. Encosto-me em um muro. As apresentações musicais finalmente terminam e luzes roxas iluminam o palco. Estou bêbado, sento-me e pernas pisam dinossauros soltos pelo chão. 

            Estou completamente embriagado. Sei disso porque todas as garrafas  brilham.  Elas formam um rastro na calçada. Levanto-me, sigo a trilha. Os vasilhames chegam a um boteco de   paredes embaçadas. Fotografo o embaçado. Um homem barbudo, de camiseta branca sai do bar e esbarra na porta. Um rasgo na camiseta  fura o seu ombro. O sujeito também tem um rasgo na barba. Ele empaca  na entrada, solta um pelo amor de Deus e me encontra. Seu olhar cai sobre mim. Quer saber se eu não sou o filho caçula do seu João, borracheiro. Respondo-lhe que não,  meu pai é mecânico de aviões, eu moro no Jardim Aeroporto.  

            Ele examina a máquina fotográfica, levanta o queixo, desconfia do clique luminoso saído dali, mas puxa duas banquetas e convida-me a sentar perto do bar.  Pedimos a cerveja “Pantanal”. O cara revela-me adorar aviões. Trabalhou na Infraero em 1978 e 1979, hoje trabalha na construção civil e faz outros bicos.  Depois me olha melindrado. 

 

- Você não parece da polícia. 

                                     

            Explico-lhe ser estagiário em um jornal, me  deram a incumbência de fotografar a cidade, captar o ambiente. A característica única de cada bairro. Dali e da Vila Prudente,  Penha, Santana... qualquer lugar. Da Água Rasa  até a represa. 

            O barbudo acredita. A câmara concede credibilidade à história. 

            Não quero falar sobre o meu projeto de prospecção. Dizer  acreditar na fé daquela comunidade. As marchinhas daquela festa junina podem evitar miasmas espirituais espalhados por  São Paulo.  

             Ele me cutuca e quer que eu reavalie a minha tarefa.  

 

           - Olhe os tijolos, as casas mal acabadas. Laje sobre laje, casa de filho  construída em cima da casa do pai.   

 

            Tomo um gole da cerveja e o som de alguns pandeiros arranham  a minha língua.   Parte do povo some. Entraram na igreja. Fotografo a igreja.  Estou embriagado, viro-me para cinco homens sentados ao nosso lado. Os pobres-diabos cantam a história de outro pobre-diabo, embora alertado sobre a perfídia da ex-mulher, mantém a perdida presa ao peito.  

            Os traídos estão bem vivos, espalham-se pelo mundo. A ausência da mulher os fortalece. Eles experimentam o gosto da traição, também um ato da criação de Deus. 

            O barbudo me oferece mais bebida e convida-me para ver sua casa, quer ser mais enfático quanto à pobreza do lugar.  É só pobreza. A casa fica perto, no fim da ladeira. 

            Desço a ladeira, entro em um terreno, desvio-me de varais que sustentam lençóis brancos e tapam a visão. Um vizinho solta rojões. Chego à casa, uma sala de terra batida com cerca de trinta metros quadrados, sem janelas e sem fios de macarrão.  O banheiro é lá fora.

  

            - Aqui dormem catorze. Quatro homens, quatro mulheres, duas crianças maiorzinhas e quatro bebês. Também tem um cachorro. 

 

            Esfrego os olhos para não me constranger.  Observo e relaciono os cacarecos. A família possui seis colchões de solteiro. Agora estão empilhados. Encostaram um berço do outro lado, colocaram a televisão sobre quatro listas telefônicas. Não vi fogão e geladeira. Também não vi o cachorro e as crianças, mas três ventiladores coloridos e um espelho pregado na parede decoram o local. O isopor com mantimentos está sem tampa.   

            O Altíssimo não está neste recinto, não se esconde embaixo dos colchões. O espelho da parede somente reflete a miséria em pedaços coloridos.   

           O cachorro não deve ocupar espaço.  

            O discurso do barbudo - uma missa sobre a penúria - termina e retorno à festa. Os rojões não param. Continuo a beber e as marchinhas tornam-se mais audíveis. Fiz bem em deixar de ser cristão de igreja e tornar-me puro através da busca  do Todo-Poderoso agora caído ao relento. 

            O dono dos colchões continua ao meu lado.  

            Você tirou alguma foto? 

 

- Sim, fotografei os ventiladores. 

 

            Um mendigo bêbado surge dos fundos.  Bitucas de cigarro cheiram vira-latas. Fotografo o bêbado. Fotografo as bitucas. Entro na igreja e a sala de oferendas concede-me a humildade de pernas e braços de plástico. Membros de plástico amontoados  se assemelham as verdadeiras pernas e braços, salvos por alguma promessa. Estes membros passam a impressão de uma mal acabada incineração de corpos humanos.         

            Uma mulher recebe moedas na porta da igreja e vislumbrando a mendiga, pesa-me a farsa, perpetrada por mim no BBDC, quando tentava convencer clientes a contratar um empréstimo. Nessa persuasão eu falava mal do governo, da inflação, do peso do pão francês, do meu salário. Dizia, porém, ter a vida organizada, um empréstimo acerta a vida ali na hora.  E as pessoas, geralmente muitos pobres, aceitavam o crédito fácil sem perceber os juros embutidos.  

            Fui um Judas. As trinta moedas giraram em minha cabeça. Dei as mãos para gente iludida. Falei Jesus nos protegerá, desprezei idosos quando me concediam uma esmola de sua atenção. Tirei o leite de crianças.    

            Alguém chama o tal barbudo. Ele pede minha espera.  Não espero. Fujo do festejo e perambulo pelo bairro. Descubro outra comemoração em uma escola e uma terceira distante meia--hora de caminhada. A primeira quermesse era a principal, embora todas pareçam brotar do mesmo papel crepom.  

            Vários idosos participam do bingo. Uma mulher repete números e o prêmio são quatro latas de marrom glacê e goiabada. 

 

 Pequenos abutres avaliam a presa.  

 

            Volto à primeira quermesse e bebo até segurar postes.  Agarro um dos mais inchados e encosto-me. Ao meu lado dois meninos, treze anos, jogam pedras em uma garagem e conversam. Ouço o diálogo, ouço e engulo os maribondos  daquela casa em Diadema. 

             - Oh, cara, se tu quer comer a mina, tem que gastar dinheiro! afirma um dos meninos.  

  - Eu não quero gastar grana com piranha.  

             - Não é piranha, cara. É mulher! E mostra a grana. Ela tem que ver.  Fazer volume de carteira na bunda não adianta. 

 

            Os dois têm o sentido da ostentação e da luxúria.  Teorizam sobre a extorsão sexual. Tornaram-se aves de rapina.  Avaliam carcaças sobre a planície.  

            Sinto-me deslocado. Perdi muitas mudanças do mundo. Elas incluem esses dois meninos. E se alguém os ouvisse agora, tão prescritivos quanto certos crentes, anunciaria a criação da nova igreja  do “Deus na livre necessidade orgástica dos pivetes”. 

 

            Um dos  moleques mete a mão nas calças,  vai embora. Puxa sua pipa vermelha. É uma criança, enrola a rabiola do brinquedo, examina a folha de seda, calça o  chinelinho.  Eu também sou  muito pequeno. Trabalhei no banco BBDC, entrei na comunidade evangélica e não assinei apólices de seguro de vida. Agora  minha vida não pode mais ser restituída.   

            Marina se escancara de vez. O romance não deu certo e        o moleque descobriu a razão. A minha busca pela transcendência  não descobriu naquele amor, no tempo correto,  a lógica  financeira da igreja “ Deus é sabor”.  

            Recordo-me de uma frase da Bíblia: “As sombras cobrem a sua sombra, os salgueiros da torrente o rodearão” 

 

 Anjos da periferia.

 

            São duas da manhã. Quero dormir em casa. Papai não me emprestou o carro.  Um ônibus madrugador atravessa o viaduto da Avenida Cupecê, sobe a  Washington Luís  e vira à direita na rua Tamoios. Estou em casa, papai assiste uma luta de boxe pela tevê. Tiro o filme da máquina e anoto minhas lembranças em um caderno. Os meninos da festa, catorze pessoas e um cachorro dormem em um casulo.  

            Tomo banho. Não tenho coragem de lavar os meus cabelos. Não se lava o cabelo com a miséria na cabeça. O shampoo e o condicionador removeriam alguma verdade impregnada nos fios.

          Aquele barbudo antes de mostrar-me a casa,  disse ter visto em mim uma auréola azul.   

 

            - Muitos aqui  no bairro também enxergam essa luz.  Você é uma boa pessoa.

 

             Alguém na periferia acredita ter a medida da fé. 

 

 Pecadores guardam os domingos.  

 

            Mal dormi. Hoje é sábado, acordei às nove da manhã e tomei café com biscoitos. O tempo frio desocupa a cidade. As ruas desertas são tão belas e tocam os corações porque nota-se o asfalto roxo de um dia roxo. Tudo me traz lembranças e começo a acreditar que as cores da minha primeira infância vencerão a tristeza. Deus não será apenas uma máquina a operacionalizar a chegada da rotina.   

            Sigo até o ponto de ônibus em frente à favela do aeroporto. Entro no veículo e outro passageiro sai, despedindo-se do motorista. Vai chegar tarde no trabalho. 

            Neste fim de semana não tenho o direito de perscrutar nenhuma parte do subúrbio. Volto para dormir e durmo. Atravesso o sábado, acordo às três da tarde de domingo. Acordo gordo. O sono alimenta e a palavra do Senhor chegará aos homens com sede de justiça. 

            Papai não está na sala. Se existe algo sagrado em papai é seu respeito pelos domingos em frente à tevê. Procuro-o em seu quarto. Ele está sentado na ponta da cama e cheira um saco plástico. Não entendo a cena, por instantes, tento enquadrar o seu comportamento. É uma tentativa de suicídio? Está no rol das tentativas de suicídio possíveis? Ninguém morre por afundar o rosto em um saco plástico. Chego mais perto e chuto a lata de cola de sapateiro.  

 

- Papai! O que é isto? O senhor não é moleque. 

            - Não me incomode!  

            - Eu vou chamar o juizado de menores. 

             - Não me incomode! O sapato descolou e eu decidi colar a cabeça.

 

            Papai ri. Ele sabe como aquilo é vício de pivetes. Mas não posso condená-lo? Não vejo diferenças entre delírios. As sensações de prazer pela inalação da cola de sapateiro  já chegaram as narinas de quem segue santos e pastores. 

            Papai volta a rir,  um espírito intruso quer invadir o seu corpo. Aliás, por pouco este duende não se manifesta. Papai chega à janela, solta um arroto e diz:. 

 

-  Leve esta merda daqui. 

 

            Peguei a lata. Olho a gosma e penso em cheirar também. No impulso lembro da Marina  e aquela gosma torna-se a lembrança do meu esperma sobre as suas costas. No dia havia uma grande toalha debaixo da cama. O esperma chegou ao cabelo e grudou em seu braço esquerdo. Marina dizia que esperma tinha cheiro de cândida. Eu não quis verificar, também não quis saber quais os elementos comparativos ela tinha para confirmar a cândida no nariz. 

            Jogo a lembrança no lixo.  

            Fecho o espírito dentro da lata.                      

 

   Pecadores do primeiro século 

                                     

            A segunda-feira chegou junto com um furúnculo no polegar direito. Marina sai pelos poros. O meu sistema imunológico quer expulsar o corpo invasor.  Resolvo cobrar satisfações. Imagino o discurso:

            -Marina, ninguém é dono de ninguém, mas eu merecia o dobro.

            Vou até a sua casa. Fico escondido atrás da figueira e espero sua saída. Ela gosta de passear quando está de folga. Vai a padaria comprar sorvete. Volta lambendo um picolé de uva.  Nunca o morde.  

            Ela não aparece. Está nublado hoje, não faz sentido chupar gelo colorido no meio de um nevoeiro. 

            Eu me perco em elucubrações e quase não percebo a chegada do seu novo namorado, o mesmo flagrado em sua casa outro dia. Ele atravessa o portão às duas horas da tarde, o meu antigo horário.   

            O que é um hábito consolidado? Não importam os encontros  ou quem está agregado a sua vida, valem apenas os  pelos, o  sarro, os  lençóis.  

            Ela fecha a janela do quarto. Faz parte o ritual para desconfiança dos vizinhos. Ela nunca se incomodou e eu imaginava a sua contínua felicidade em desdenhar os vizinhos, enganar a expectativa dos pais e ainda assim estar comigo. Eu me julgava acima de tudo e agora me sobe este ódio. Corro até um telefone público,  ligo para a sua casa. Ela atende. Solta um “Alô!” cansado. Procuro ser irônico: “ Interrompi algo?” E ameaço: 

 

            - Olha,  telefonei para o trabalho da tua mãe e avisei sobre a invasão na casa.  Ela vem conferir a denúncia para atirar a primeira pedra.  

 

            Marina  solta um “Ah!” e, em cinco minutos,  assisto o seu amante mal abotoado fugir da casa. Ele olha a vizinhança, me procura. Marina abre a janela e manda um beijo ao atual dominador. 

            Interrompi seu coito matutino, suas trinta e seis horas de prazer.    

            O comportamento de Marina me dói. A traição atravanca a minha goela. Sinto a perfídia, a espinha de peixe percorre as estreitas gargantas do mal. 

 

 O aborto 

                         

            Terça-feira e quero esquecer Marina. Desejo produzir muito sem essa mulher. 

            Comprei  dois filmes de vinte e quatro poses. Saio com a máquina fotográfica. Pego outro ônibus, ele desce a avenida Kennedy e estou do outro lado da região onde estive na sexta. Desço da lotação em um ponto movimentado.  São três horas de uma tarde quente, entro na primeira ruela  e desta vez fotografo apenas as casas pintadas. Procuro os melhores ângulos e descubro uma casa de cor lilás, outra amarelo intenso. Na periferia, aqui e ali surgem construções de cores exóticas. Passo em frente a um fusca sem as rodas.  A carcaça do automóvel é sustentada por paralelepípedos. Qual a pretensão do dono com aquela ferrugem? Tiro uma foto de frente. Quero mostrar a humilhação do veículo diante dos vizinhos. É um pedaço de carro; tudo aqui são pedaços dos bairros ricos.

            Algumas mulheres descobrem a câmera e fazem pose, pedem que  eu as fotografe. Querem saber o preço, se eu revelava na hora. Não! Elas riem por alguma coisa. Eu fotografo mesmo assim e saio. Volto à peregrinação e não presencio nada de extraordinário. Clico aleatoriamente. Quem sabe não surpreendo meninos com recheadas carteiras na bunda.  

            Ando três quadras, viro em uma esquerda. Fotografo Kombi sustentando telhado, portão preso por arame, caixa- d`água aberta para a chuva. Tudo são admiráveis arranjos.  

            Sigo duas quadras e  estranho uma rua. Ela parece uma rampa.  Não vejo uma continuidade ou muro, ela parece despencar tão abrupta como um abismo. Se  fosse um rio, eu estaria próximo à queda-d`água, porém não há água ali, apenas uma falha seca, o declive quase na  condição vertical inicia uma ladeira pedregosa, mostra  uma cratera, um amplo buraco. Lunar. 

Quem poderia criar um local tão incompreensível?  Mais do que uma cratera é uma imensa espiral. As curvas da espiral são as ruas sem calçamento. Imagino também várias fendas do vulcão,  inativo há tantos  séculos, onde construíram casas em suas encostas.  

            Eu visualizo daqui outro sobrado amarelo por onde passarei daqui a meia-hora após percorrer estas beiradas e chegar ao ponto fixo da espiral, o centro do Vesúvio, o portal através do qual a lava retornará um dia.   

            Fotografo. É um funil. Quero a imagem mais ilustrativa do lugar: uma espiral, saca-rolhas, casca de caracol, boca banguela.  

            Tiro a foto e desço. Impossível se perder.  Todas as portas estão abertas por causa do calor. Mulheres conversam debruçadas sobre os muros. Outras deixaram cadeiras em frente aos portões. As mulheres aguardam um vento incomum. Ele não chega, passa por cima. Aqui é um forno. Imagino o verão e crianças desidratadas socorridas nos postos de saúde.   

            No meio da descida, um velho de barba branca sai de sua casa e quer saber se eu era da prefeitura.  Não utilizo este  pretexto, digo ser recenseador do governo brasileiro na função de fotografar,  contar as casas, levar tudo para os arquivos federais. No ano 2050 conhecerão a periferia de São Paulo graças as minhas fotos.    O sujeito então arruma a gola da camisa, alisa a barba, bem amarela na altura da boca e parece orgulhoso por ser finalmente objeto de pesquisa do governo, depois  afirma solene: 

                                                                             

            - Pode tirar a foto. 

 

            Fotografo e  o velho inspira-se, afirma gostar do presidente, o  José Sarney, porque ele é a árvore de uma raiz muito boa: do  falecido Tancredo Neves.  

            O  homem  fala  do  Tancredo. “Morreu para deixar um sucessor, um continuador de suas obras”.

            Desconverso e pergunto sobre a sua vida. 

 

            - O senhor mora aqui sozinho?  

 

            O homem é viúvo. A mulher  morreu no ano passado.  Eu lamento o ocorrido e para  atenuar lembrança despertada, afirmo que perder a esposa é muito triste. 

            O viúvo abre a boca, acena de forma positiva com a cabeça e depois examina o  jardim da casa, onde vejo um ajuntamento de   flores vermelhas. Aquelas flores traziam alguma recordação.  Neste momento examinei o seu rosto do velho.  Os fios da barba, espalhados em seu rosto,  parecem querer espetar a casa, o jardim, o muro.  Certamente deixar a barba secar daquele jeito foi o cumprimento de uma promessa, talvez um pedido de força para não perder a cabeça. 

            O homem diz  trabalhar como marceneiro. Mostra-me um armário perto da porta.  Tinha uma marcenaria maior em outra casa. Comprou antes de separar-se da mulher e vendeu logo após morte da esposa, no ano passado, mas já estavam separados. O casamento durou sete anos e não tiveram filhos. A ausência de filhos foi o motivo do fim do casamento. Ela não lhe dera um herdeiro.  Ele queria, ela  dizia o mesmo, e  quanto mais falavam em gravidez mais a gravidez sumia. Ele fez um exame e não apareceram problemas. Achou então ser um problema da idade. Casou com cinquenta e quatro anos, idade imprópria para ser pai. A idade não justificava.    

            Ele me pergunta o nome. Não quer ser tão íntimo de um  desconhecido. O seu nome é Waldemar. 

            O marceneiro continua. Quando saiu o exame, a mulher,  vinte anos mais nova,  veio com a história: antes de conhecê-lo,  engravidou de um namorado lá em Salvador. Ela  não quis a criança e nunca explicou  o motivo. O certo é que pagou pelo aborto. O namorado não pagou nada. Uma amiga emprestou o  dinheiro  e as  duas foram parar  na porta de um  dentista, nem era  dentista, e o cirurgião raspou na operação todo o empréstimo da amiga e deve ter raspado muito porque sua mulher estava no terceiro mês.

          O tal Waldemar senta em uma cadeira, coça novamente a barba e demora a confessar...  quando soube da história do aborto ficou com pena da ex-companheira até  se lembrar dos anos de casado, do exame de esperma, de achar ter câncer nos testículos... mas o passado da esposa  explicava melhor e o passado lhe deu um ódio porque ele sabia, quando uma mulher engravida, significa gostar do homem, gostar do seu cheiro.  Mulher tem um nariz só conhecido por Deus.  Ele pensou muito nisso, o corpo funcionou com o outro, não funciona comigo. E ficara dois dias medindo a traição, o prazer da companheira com pai do aborto e a ideia de ter feito tantos planos para um filho que  não viria e um dia quis vir de um estranho.

          Waldemar termina confessando o ciúme, expulsou a esposa da casa. Não bateu na sua cara porque não era covarde.  Ela pegou a mala e saiu de cabeça baixa.  Levou dez meses e morreu de câncer do peito. E quando ele soube  do falecimento  e também  durante o velório, ficou com pena e raiva de novo, porque mal ela saíra naquele dia, ele descobriu como a ex-esposa era a sua vida, queria tê-la  de volta de qualquer jeito, mesmo  sem filho,  com apenas um seio salvo do tumor, mas não sabia como pedir.  

            O viúvo despejou a história. Eu não quis prolongar o assunto. A sua culpa era enorme. Nenhum homem  merece esta madeira, ela não pode ser lixada e você lixa. 

            Elogio o armário da sala e saio dali. “O senhor é um bom marceneiro. Fique com Jesus”.  

            Desejo que o Todo-Poderoso permaneça com o viúvo, mas eu tenho  dúvidas. A ajuda divina aos homens apaixonados pela ex- mulher é uma intervenção sem data marcada, principalmente se a ex- mulher estiver morta.

            Retorno meio atordoado. Ainda pude ver o velho  puxando um cigarro do bolso e por isso a barba era amarelada. A fumaça do cigarro  queimava os pelos do seu rosto. 

            Paro em um bar e compro um chiclete. Quero afastar o mau hálito. Não encontrei sinais divinos aqui, embora  haja um desejo de cola de sapateiro no ar. 

 

  O rei Davi morto 

 

             Pego um ônibus novo para descer a avenida Cupecê. Quero retornar à casa do barbudo da  festa de Santo Antônio a pretexto de fotografar sua casa.  Eu também  preciso contar-lhe a minha desgraça amorosa.    

            Chego às quatro da tarde. A casa é um toco pontudo em uma esquina, perto de um bar com duas mesinhas. Foi fácil achar. Toco a campainha e ninguém atende.  Bato palmas na casa vizinha, uma mulher abre a porta. Pergunto sobre o  vizinho.  Digo não saber o nome. Conheci sábado na festa junina. A mulher lamenta.   

 

            - É o Matias quem o senhor procura. Ele morreu. Assassinaram o homem domingo. Ele e mais dois. Foi a polícia, disseram ser traficante de maconha. Também poderia não ser. Quem sabe de cada um é Jesus.

 

            A mulher aponta a esquina, onde a tragédia aconteceu. Eu poderia ver a marca do sangue dos coitados.  “Os três chagados”. A família estava no velório. Demorou pra liberar o corpo.  

             Ora, absurdo! Não sei se a mulher disse “chegados” ou “chagados”. 

            Vou até o local da chacina e vislumbro a  mancha de sangue.  Uma criança contorna o borrão com a ponta de um tijolo.  Vejo um carro de reportagem estacionado e  a comunidade viu os corpos das vítimas na televisão.  Considero o inusitado, o nome dele era Matias e dormia em um barraco com catorze pessoas, talvez nove fossem mulheres. Ele era o rei Davi  da Vila Joaniza, morreu traficante. Deixou muito espaço, mas o cachorro deve permanecer em cima das crianças. 

            Senti muito por aquela morte. As pessoas passam e consolam uma das viúvas, que poderia ser filha e acabara de chegar. 

            Qual a causa daquela tragédia? Pondero sobre a minha vinda até ali: um estudo sobre o subúrbio, o desvendamento desta parte da cidade até o  sacrifício de alguém. Um homem bebeu comigo muita cerveja ruim, ouvimos um batuque de samba.  Ele não devia ter me exibido a sua morte. Isso faz o pensamento ricochetear na incerteza outra vez. Igual ao dia da minha saída da igreja. Minha intenção aqui era outra e agora o desvendamento do Deus parece se tornar a progressão de uma fuga, uma doença mental. 

            Saio, pego o ônibus e encosto meu rosto na janela.  Desço no Aeroporto de Congonhas, onde o teto azul do saguão principal imita a abóbada celeste. O céu está ao meu alcance. Sim assimilei a evolução das forças devotas, porém a exploração terminou é certo e o Altíssimo  não estava nas beiradas da cidade, ou melhor, estava porque quis que eu vivenciasse a procura e isto é o melhor da sua natureza: Deus como  impulso. Sim, este ímpeto me ajudará a cumprir aquela justiça latente em meu peito desde o empurrão perpetrado contra o idoso no BBDC ; cumprir um desejo pela integridade (minha arma entre tantas espadas corta o ar e faz escorrer  sangue).  

            Sinto agora, neste momento, um esvaziamento, o murro a ser infligido por mim nos agiotas de grandes quantias. Eles banalizam a penúria humana: gerentes de banco, pastores evangélicos profissionais, mulheres erradas em um cargo de confiança. 

            Assim levarei a minha vida daqui para frente. Caminharei por uma vereda onde o retorno é impossível e lembrarei sempre do exame topográfico da periferia de São Paulo, transformado em um exame topográfico de minha consciência enfim acionada. Devo mostrá-la vigorosamente aos errantes. 

            Durante a madrugada sonho com jacarés em cima de um armário. 

 

A eliminação do infiel.  

 

            Mudo de projeto e mudo bem. Saio da Vila Joaniza com o sangue de inocentes na cabeça. Subo e desço barrancos. Meu braço  feriu-se no cerol de uma pipa.  É isso. O assalto, a pedreira, os maribondos,  aquela vertigem na escuridão do bairro, o cavaleiro, a boca pornográfica dos meninos no final da festa, a barba queimada do viúvo, o sangue circulado por um tijolo. Eles me indicaram o caminho.  Alguém precisa ir em frente, perpetrar uma ação insignificante e  contundente.  

            Penso logo no subgerente Armando. Ele será o primeiro a ser justiçado, ser castigado pelo seu passado. Conheço a rotina bancária.  Sei a hora da sua saída. Irei com o carro de papai. 

 

  O credor  

 

            Hoje é sexta-feira, 19 de junho, o subgerente vem  trabalhar de automóvel e deixa o estacionamento às sete horas da noite dirigindo um Santana azul.  Sigo o automóvel e lembro-me do profeta Isaías: “O seu tempo está próximo a vir e os seus dias não se alongarão”. O funcionário modelo do BBDC mora  no centro, em um apartamento perto da rua Augusta.  Ele estaciona em frente  ao prédio, fecha o automóvel e entra depressa no edifício. Carrega  uma  pasta. Quero entrar. Posso  fingir ser funcionário do banco. 

            Minhas divagações não demoram muito. O infiel volta, entra no carro e sai.  Eu o sigo. Ele  liga o farol alto e circula muitos quarteirões. Após meia-hora, abre a porta do Santana para um adolescente de boné e jaqueta branca.  Não se cumprimentam. Não estranho. A proximidade ao parque Trianon dá-me a certeza da façanha. Ele procura garotos de programas nas sextas-feiras, antes de sair com a noiva aos sábados. 

            A hipocrisia  não deve ser tolerada. A simulação é  um pecado capital, até em sociedades que relativizam os pecados. Recordo-me da inocente noiva do subgerente,  visitando-o na agência. Loira tesuda, vibrante, óculos escuros, ombros reluzentes e um aspecto de Deusa dos bancários. Carimbava comigo o  tíquete do estacionamento.  Agradecia destacando o meu nome.

             Suas coxas seriam tão bem vindas se ela as carimbasse em meu corpo. Infelizmente o seu casamento já  estava marcado: seu amor ideal, lua-de-mel em Aruba, certamente não conhecia a inclinação homossexual do noivo. Ela conhecia o bancário fingindo ser bancário.

            O Alessandro dos “cartões de crédito” é o segundo na fila dos traídos. 

            O subgerente dispensa o garoto do Trianon após duas horas. Um táxi vem apanhá-lo e o adolescente sai pela garagem do prédio. Tenho a revelação da correção a ser perpetrada.  Vou até a portaria e identifico-me. Sou o amigo do Sr. Armando, acabei de sair. Esqueci minha carteira no apartamento. Eu poderia subir?  

 

-  Apartamento 52?  Esqueci o andar. Que cabeça!  

 

            Pergunto  o número para o funcionário da guarita. 

 

-  Não é o  82?  

-  Isso... obrigado. 

 

             Porteiro mais ingênuo. 

 

            No hall do edifício concluo: ou os maus inclinar-se-ão perante os bons ou estes últimos serão condenados ao fosso dos elevadores do mundo. 

            Quantas almas não foram jogadas nas profundezas desse prédio? Posso escutar os gritos. Eles deslizam pelos cabos ou seguram esta cabine.   

            Desço no andar e o apartamento está aberto. Entro e o algoz do BBDC aparece de roupão. Sai da cozinha e mal completa o espanto: 

 

-  O que é você... aqui? 

-  O que é você aqui? Frase idiota! 

 

            Empurro o subgerente contra a parede, ele bate a nuca e abre os olhos.   


- Você não recebeu  os seus direitos? – pergunta-me entre assustado e suplicante. 

  - Levanta,  infiel. Você vai aprender  a tratar   melhor os teus funcionários – ordenei e desta vez com uma voz bem firme.  

 

            O subgerente poderia reagir, no entanto, a situação  o desconcerta.  Seus braços escorregam pelos móveis com a flacidez de um polvo morto. 

 

            Pergunto se a noiva sabia da farsa.  Não espero a resposta e chuto a sua perna.  O cara despenca de vez e começa a chorar.  

 

             - Você sangrará, sr. Armando. 

 

            Arrasto-o até a cozinha e encontro um ambiente aconchegante. Gosto da fileira de temperos exóticos na prateleira sobre a pia.  Puxo o fio do liquidificador e amarro os  braços do sujeito.    Ele grita um socorro tímido e depois concorda comigo, merece.  

            A fragilidade do bancário me traz uma tristeza. Afasto-a. Não titubeio.  Procuro uma faca nas gavetas.  Encontro. Lâmina bem grossa, cabo preto, afiada.  Um punhal.  

            Punhal é o melhor nome para aquele instrumento purificador.     Puxo o roupão da vítima. Testo o corte da faca em sua nádega esquerda. Um risco pequeno.  O subgerente grita. Posso sacrifica-lo ali, torná-lo um bezerro sagrado.

            Tantas tarefas estúpidas naquele banco.  Muitas vezes eu  recolhia o cafezinho de sua mesa. Serviço de copeira enquanto  eu sonhava em progredir na vida, estudar Economia ou Administração. 

            Finco o punhal na mesa.  Surpreende-me o  sangue  que escorre da bunda do torturado. O dragão da agência Aeroporto está ali, prostrado. Não solta mais fogo, não mostra mais os dentes. 

            De súbito, baixa-me uma certeza... aquela profilaxia não se completaria.  Em São Paulo, nas noites de sexta-feira, o batismo não  soluciona  a ulceração do pecado e,  afinal de contas, algo  em mim não herdará o paraíso... talvez muitos e muitos meses de purgatório. O que estava fazendo ali?  Puxo o cabelo do bancário e digo: 

 

            - Droga,  o salário do pecador é a morte...percebi o tamanho do teu crédito, mas eu não levantarei  a serpente sobre ti. Não repetirei o gesto de Moisés.  Você ainda nem perdoou os seus devedores.  

 

            A minha vítima chora e repete:   

 

             - Sim, sim obrigado. Eu sei de tudo...  Aceito. Aceito agora. 

 

               O pecador está em outra ou não entendeu a minha presença ali. 

 

            Molho uma toalha que encontro na lavanderia e jogo sobre o ferimento. O subgerente endurece o corpo e chora. Molha o chão da cozinha com a saliva que escorre da boca. Dirijo-me à sala de estar. Sento-me no sofá e retorno aos momentos de reflexão durante os cultos na igreja. Meditávamos sobre os desígnios do Criador. Um dos pastores afirmava: “Examinem a luz delicada  no teto do templo. A luz é Jesus, amigo dos homens, amigo de vocês sofredores”.    

            Quantas recordações funestas.  

            Levanto-me e piso em dois preservativos usados.  Cacos do delírio humano. Entro em contato com a portaria. Informo sobre o sr. Armando, o morador do apartamento 83, passou mal, peço para subirem depressa.  

 

            Ajuda todos merecem. Penso em trocar a toalha suja de sangue, mas não quero me comprometer com um gesto de piedade.  Quando a ajuda finalmente chega, desço pela escada de incêndio,  saio do prédio e misturo-me aos transeuntes noturnos. Quanta gente passa por aqui. Tipos sombrios caminham pelo meio dos carros. Não utilizam a faixa para pedestres. Este gesto denota uma confusão mental, um  oportunismo melancólico. Procuram uma saída pelo bueiro. Homens capazes de qualquer ignorância.

            Eu não imaginava ser capaz de um ato como o que acabara de perpetrar na vida de alguém quase desconhecido. Eu poderia ter apenas conversado com o sujeito. 

 

 Outras Madalenas 

 

            Percorro a rua Augusta, chego à zona do meretrício.  O monte de Vênus também se eleva dentro das casas noturnas.  O relógio marca onze e cinco da noite, entro em uma boate de nome “Sino’s  Love”. O porteiro de gravata preta me informa as regras e o preço da “massagem”. Não ouço a tabela.  Penetro o local, encontro um enorme salão coberto por tapetes roxos. De um lado o  balcão das bebidas,  cujas luzes mal iluminam o recinto  e  do outro cerca de quinze prostitutas sentadas sobre um sofá estreito que contorna o estabelecimento.   

            Muitas garrafas de whisky  foram organizadas nas prateleiras do bar. As garrafas estão bem iluminadas. As mulheres estão escondidas. O sofá é uma péssima prateleira. 

            O Bar-man oferece-me uma pequena porção de amendoim.  Cortesia do puteiro. Encosto-me no balcão e examino as prostitutas. Duas conversam com os clientes. O lugar está vazio. Outras duas fumam. As demais conversam entre si e uma delas come um espetinho de carne. Está sentada no canto do sofá com um prato de farinha apoiado nas pernas. Um homem sai do banheiro. 

            A mulher deixa cair farinha no queixo, passa a mão na boca e ajeita o cabelo. Chupa o polegar esquerdo e segura o espeto com a mão direita. Olha rapidamente o esmalte das unhas. Gordura de carne bovina estraga o trabalho da manicure. 

            O apetite da piranha é uma incógnita: quem confiará naquela boca para um sexo oral. A prostituta termina o espeto e diz: “Vou  escovar os dentes”.  Profetizo: “Ainda hoje um pênis  incauto sairá daquela boca cheirando a menta”.  

            Pergunto ao bar-man o nome da mulher. Seu nome é  Priscila. Obviamente é o nome de guerra. Priscila do Espeto, concluo.  O apelido excita-me e os amendoins  salgam-me a língua. Nem sabem torrar essas porcarias. Carvão não é afrodisíaco. Engulo a porção, peço um refrigerante e, porque pedi algo tão destoante do ambiente, reflito: “Qual meu objetivo nesta casa de tolerância?  Aqui eu não posso condenar o subgerente que, aliás, dispensou  testemunhas”.   

            A mulher espeto retorna da escovação.  Senta, olha para mim e sorri. Retribuo o gesto. Resolvo chamá-la. Ela se levanta e a gerência informa. “Priscila, o seu marido chegou”. Ela levanta os olhos fingindo surpresa e sai apressada. 

            Imagino estar diante  de um tipo raro de fetiche. O marido prostitui a própria mulher para em um dia incerto procurá-la na zona, fingir ser um cliente qualquer, entrar na fila de espera, especular o preço, o nome e a idade da profissional. “ Nasceu em São Paulo! Ora, tu gosta dessa vida de mulher perdida? “. 

            O bar–man  me explica não se tratar do verdadeiro marido, mas um cliente  tão constante e fiel, que a  prostituta  gosta de tratá-lo desta forma: era o marido. 

            Desisto do sexo. Peço um copo de água, saio do local, e mentalizo a boca da puta, os maridos do mundo e a salvação da minha alma passou pelo sal dos prostíbulos. 

 

A árvore da felicidade  

 

            Segunda-feira. Decido visitar a agência do BBDC onde trabalhei.  Entro e cumprimento o novo jalego.  Passo a porta giratória, o balcão dos caixas, a gerência e o sr. Armando agora despacha relatórios. Senta meio de lado. Eu me aproximo sem cerimônias hierárquicas. Sento na poltrona dos clientes e pergunto-lhe se o corte cicatrizara. Ele não responde. Fica me olhando, paralisado e confessa sua compreensão sobre a verdade. Agradece-me  emocionado. Eu saio sem falar nada. 

            Saio do banco. Jeová mostrou a Ló o quão pura é a violência bem encaminhada? Meu ato no apartamento do pederasta teve o impacto do cajado de um pastor sobre a cabeça da ovelha desgarrada. Isso parece  correto, embora eu não me sinta tão bem. Por que entrei no apartamento daquele homem e  fui tão violento? Eu não sou violento, embora agora tenha uma vontade de saber quantos pontos juntaram as pregas da bunda do subgerente. 

            O número de pontos é comprovação da obra perpetrada por mim.   Perto da saída assusto-me com um chamado. A secretária do Setor de cobrança, a  Beatriz, vem falar comigo e revela ter sentido a minha falta. Ela se abana com uma pasta vermelha e nem está frio. É um lance de escape, um gestual do mágico para distrair a atenção da plateia: 

 

                - Você está trabalhando, Ezequiel?  

 

            Digo estar procurando. Ela lamenta o caso da bengala, da queda do sr. Anselmo... foram injustos comigo. Depois ela me convida para visitar  sua casa. Visitar a  casa da Beatriz? Aceito porque não soube formular uma negativa razoável e além disso, o  movimento da mulher foi surpreendente demais, ágil demais e ela ainda carrega um pesado rei na barriga.  Anoto o endereço. Ela sugere na quarta.  Morava sozinha, antes morava com uma irmã, ela hoje vive na cidade de Americana para cuidar dos  pais. Eles são muito velhinhos.

            Surpreendo-me quando Beatriz afirma: “Você cristão sabe: honrarás o teu pai e a tua mãe”. 

            Saio com a coincidência. Quem diria... a magrela.  Nem falava comigo e sabe das minhas inclinações cristãs.  O paradoxo me provoca uma comichão,  a antiga vontade de transar. Quanto tempo ela não se revelava e tão forte para a Beatriz do Espeto.  Quanta  carne,  quanta carne nós  comeríamos antes do amor?    

 

O Sumo – Sacerdote 

 

            Chego às nove da noite ao apartamento de Beatriz. Ela abre a porta, beija-me formalmente, convida-me para entrar e sentar no sofá. Diz ter separado uma taça de vinho. Está na geladeira, porque vinho quente é um horror. Beatriz usa uma jaqueta bege que lhe estende os ombros. Soltou os cabelos e isso combina. O queixo está mais empinado por causa do salto alto, mas ela treme a boca. Poderia mascar um chiclete e disfarçar.    

            Os machos e os santos católicos possuem o instinto do felino, cheiram a vítima a quilômetros e percebem, no meio da manada, a zebra mais propicia à captura. 

            Um santo carnívoro me diz: “Você faz bem em investir, essa  mulher vale a mordida”.  

            Ela também usa uma camisa branca e saia de brim azul marinho. Quando sento no sofá, percebo estar diante de uma colegial abandonada. Tenho o exato sentimento cristão de amor ao próximo, mas ele se relaciona com minha ânsia em ter relações carnais com aquela bancária.  Na minha época de jalego no BBDC,  nunca pensei em profaná-la, agora os juros são outros, a inflação galopante sumiu e  estamos diante da fome. 

            Ela traz o vinho e revela: 

 

            - Eu sei jogar tarô! Conhece? Você não sabe o quanto o tarô pode mostrar.  

 

            Ela tira um baralho do bolso da saia, distribui algumas cartas coloridas sobre a mesa da sala e revela  o meu  arcano determinante. Você é  o Mago.  

 

            É uma brincadeira. 

 

            Ela me mostra a imagem do Enforcado, a Roda da Fortuna. 

 As cartas nem sempre representam as tendências da figura. É uma linguagem cifrada. O enforcado pode não ser uma carta negativa e a sorte sugerida pela Roda da Fortuna depende do momento. O segredo da leitura pede um pouco de intuição feminina.  

 

            Examino as estampas e pergunto:  

 

            - E você, qual o seu personagem: a Sacerdotisa dentro da Torre? 

 

            A sacerdotisa me olha desconfiada, joga uma carta em meu rosto  e solta a língua:   

 

-    Louco!  

                                                 

            Pego a carta do “louco”. Levanto o rosto e Beatriz  examina a minha boca. Este é um toque reconhecido, a mulher quando encontra os lábios de um homem, também o escolhe como o  predador. Dali a pouco ela será verdadeiramente a presa devorada, e depois a carne exposta ao relento será profanada apenas pelas aves de rapina da sua perspectiva de fêmea.    

 

            Beatriz não foge à regra. Olha a minha boca e acaricia o meu rosto.  Não me contenho e beijo-lhe. Ela corresponde e caímos no chão.  O gosto do beijo arranca o seu corpo da agência do BBDC, pulveriza a funcionária com dedicação exclusiva à instituição.  

-    Sou tua sacerdotisa, Ezequiel! – ela diz. 

 

            Tiro-lhe a camisa. Ela pede para apagar a luz da sala. Viro-lhe o corpo, arranco a saia. 

 

-    Apaga a luz! - ela pede novamente.  

 

            Aquela fêmea, tantas vezes visualizada atrás de uma mesa, agora é minha. Clientes saíam com cartões de crédito, sem  conhecer a face  daquela vagina e eu conhecerei.  Beijo-lhe as costas. Ela pede para apagar a luz um pouquinho. Aperto-lhe as coxas. Tanta excitação, posso abandonar a minha fé, o projeto de vingar os humildes. São Jorge penetrará a donzela. Amarei desesperadamente. Marina se tornará uma ilusão. Ouço um grito: 

 

-    Apaga a luz, amor!  

 

            Prossigo nas carícias, completamente extasiado. A ponto de perder-me em um lago cristalino de prazer,  sugar  a luz divina da fé, soltar vibrantes que agora dizem sim.  

            A mulher se levanta, desgruda-se de mim, apaga a luz e decide: 

 

             - É melhor você ir embora! 

 

            Eu fico atônito. “Você não quer apagar a luz”.  Tento argumentar.  Ela não aceita e saio  do  apartamento.  Fujo. Não entendo. Não sou capaz de racionalizar sobre a desfeita. Lembro-me da luz da agência. Apagar a luz da casa seria um modo de evitar a visão do antigo escriturário de terceira classe?  Não entendo. A luz mostrava o seu corpo... é isso. Ela sentia vergonha do próprio corpo, dos  seios pequenos?  Eu não me importava.   Subitamente baixa-me um incômodo por ter machucado o Sr. Armando. Ele não era diferente de Beatriz. Cada um vivia dentro de uma ansiedade imensa.  

 

O caminho para o calvário 

                                     

            Separo-me da minha quase amante. Volto para casa para dormi pouco. Acordo e penso em voltar à Pedreira.  Pego o lotação. Entro novamente no terreno, desço um barranco e chego ao morro.  O sol bate forte  não me permitindo delimitar a pedra, achar o cavaleiro do outro dia. Profetizo: “No futuro erguerão aqui uma favela. Ninguém terá culpa pela imponência da pedra”.  

             Deito-me sobre o terreno e repito “Aleluia, senhor!”    Fecho os olhos, durmo  por quinze minutos. Sou a pedra.  Levanto-me, sigo a trilha e contorno o terreno. “Carregue este lápide, Ezequiel”. Sigo. Ninguém na vigilância.  Escalo  o barranco. Um avião sobrevoa a região. Volta-me a vergonha de Beatriz, a debilidade revelada,  a brancura do corpo. Como ela assimilará a experiência tida comigo? Um dia gostará de si, independente da claridade masculina imaginada por ela? 

            Volto à Estrada do Alvarenga.  Aceno para o ônibus. Entro. O ônibus segue, circunda a represa, passa sobre um trecho poluído e o poluente me devolve ao assassinato da Vila Joaniza, ao meu ataque contra aquele cliente senil, ao ataque bem diante aos consagrados caixas eletrônicos. Devolve-me à barriga de papai  - ela incha pela lembrança  da ex-mulher - e  isso me angustia. Tal lembrança é  areia quente a grudar  em meu corpo. A areia gruda porque caminho em  um longo deserto.   

            Os  primeiros passageiros entram no ônibus. Homens muito mal lavados.  

            Cumprirei o meu destino?  Não sei. Minha próxima  obrigação será tirar Elvira, minha mãe, do Pastor Jonas?   Não sei. No meio da viagem sobe ao ônibus um homem de terno verde musgo, gravata vinho. Ele segura uma bíblia. Essa combinação não é natural. Ao ver a mistura daquelas cores percebo o desconcerto do mundo, uma desarmonia a derrubar todas as forças humanas. E nessa hora penso em também obrigar Jonas a engolir o Novo Testamento transformado enfim na perfeita espada da justiça divina.  

 

 O leite alucinógeno das vacas sagradas 

 

            Imagino consertar uma situação de abandono e dessa vez sem riscos na bunda. Deito.  Sonho com crianças e outros pacotes. Sonho com as catacumbas do corpo de Marina. Os seus pecados deixarão marcas indeléveis em sua alma. Sonho com a peregrinação de Jesus. Ele sendo testado pelo demônio em um deserto ruidoso de areias estereofônicas. Termino a noite imaginando estar deitado sobre o corpo de uma mulher  de tetas gigantes e concluo: no fim de uma longa jornada, eu me servirei do leite saído de suas mamas. Aquela será a vaca escolhida.   

            Os meus sonhos tornaram-se a carnavalização fim do mundo. 

 

O Divino  de óculos escuros 

 

            Ligo para  a matriz da igreja  “Renova Jerusalém” administrada por Jonas. O homem mora em São José dos Campos.     A ideia daquela odisseia revigora-me como  se eu fosse um  maribondo diante do início do verão. Sexta – feira  viajarei rumo a São José. Tenho o local da igreja, tenho o horário dos cultos, tenho  o endereço  das vítimas, onde mamãe mora com Jonas.  O verdadeiro nome eu não sei. Jonas é  o  nome artístico.

 

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            Chego a São José. Observo a cidade e escolho um  hotel rasteiro do centro. A restauração do Senhor começara em um pulgueiro.

 

 

 

A casa escolhida

 

            Encontro uma casa perto da igreja. Dois dias de negociação e alugo o imóvel por um mês. Digo aos proprietários que sou estudante de Engenharia contratado por uma empresa de aviação americana. Prefiro aquela casa porque é bem localizada e mobiliada.  Pago adiantado e eles não pedem mais explicações. Trinta dias. Estão acostumados com estudantes e por isso deixaram até uma pequena tevê. Pego as chaves. Acerto o primeiro mês. Está no contrato. Informei os meus dados pessoais sem medo. Trouxe até um comprovante de residência e passo o telefone de São Paulo. Se ligarem, papai não atenderá. Ele odeia telefones. Tudo muito fácil.

            Examino o imóvel.  No quintal dos fundos vislumbro um abacateiro sem frutos. Lembra uma lápide. A árvore faz divisa com o terreno de um japonês. Ele está conversando com vizinhos. 

Deve ser aposentado e todo aposentado é meio surdo.          

            A residência é perfeita para um culto. Térrea, antiga, espaçosa, cheia de portas. A sala  está à  direita de quem entra. A janela principal encontra-se  mais ao fundo. Não é possível vê-la ao entrar.  Acesso à cozinha através da sala de estar. Em  frente de quem entra impõe-se um longo corredor por onde chego aos  três quartos.  Tenho dois banheiros. Os cômodos são visualmente, sonoramente e até olfativamente independentes. Posso criar uma família de suínos no quarto dos fundos e as visitas, sentadas na sala, não sentirão o fedor do toucinho. O mau cheiro passará por orifícios no alto das paredes.

            (Esses orifícios...o culto pode ser ouvido pelo vizinho japonês. Ele não deve ser surdo). 

            Examino os poucos móveis. Gosto do tapete de borracha azul que atravessa o corredor principal. Isto facilitaria o deslocamento dos fiéis, da massa rumo à preleção do pastor.   O local não tinha como ser mais perfeito para alguma coisa, uma improvisação.

           

            Daqui ouço o discurso maçante do pastor pelo alto-falante. É  outro pregador. Não é brasileiro ou, quem sabe, queira forçar um sotaque  porque  língua estranha concede credibilidade a igreja: o falante não sofreu em seu mundo e ainda assim crê. O discurso gera a persuasão. 

            Saio e passo em frente à igreja. Apesar do português ruim, o  estrangeiro utiliza da ladainha constante das pregações em São Paulo. Repetições invocando o poder do Criador.

 

            - Ele fala diretamente para o seu coração! Ninguém deve desistir e você  descrente saberá, se não for pelo amor, será pela dor!

  

            Entro e sento nas últimas fileiras. O templo é bem espaçoso. Informaram caber quinhentas pessoas. Homens e mulheres de aspecto humilde com seus ternos de tergal e gravatas de cores berrantes, mas também posso notar, os adolescentes de aspecto anglo-saxão parecem estagiários de alguma  igreja americana, bem como outras cinquenta pessoas mais distintas, imagino pertencerem a alguma elite local. Posso encontrar de tudo.  Agora os quinhentos abaixam a cabeça.  

            O pregador realmente é americano. Chama-se Robert. Robert  comunica a filmagem do culto. A dor passou e ele convida Jonas a prosseguir o culto. 

            É perceptível o revezamento entre ambos porque a retórica permanece inalterada: “Se não for por amor, será pela dor”.   

          A dor não deve ser invocada  para amaldiçoar quem não tem fé.  

            O americano antes de passar o bastão a Jonas finaliza:

 

            - O crente jamais será um alvo, a granada não será detonada. O inimigo não cuspirá em seu rosto. Uma vez conheci um soldado da 2ª guerra mundial, lutou contra os alemães.  Ele me contou que, uma noite, parou diante do inimigo com apenas pente de balas em sua metralhadora. Não poderia eliminar sequer um soldado do outro lado. Então ele orou para Jesus. Pediu o fim daquela aflição,  que ele abrisse o céu e levasse os amigos do mal e aconteceu algo inusitado. Um general americano disse jamais ter visto isso em uma guerra: a tropa de alemães pisou em seu próprio campo minado.  Cometeram um erro, um gol contra, como vocês dizem aqui no Brasil. Isso prova: se não for amor, será pela dor.

   

            Jonas segue a cartilha. O discurso é previsível,  a gesticulação é intensa. Ele levanta a Bíblia contra a luz, fecha os olhos, pede o repudio aos dragões do mal e fecha a  Bíblia contra o peito. Sairá um coelho do Novo-Testamento. Grande talento, mas eu percebo a dissimulação!

            Olho a reação do público e  encontro Elvira. Ela está na primeira fileira e sempre terá trinta anos.  

            Saio da igreja e sigo direto até o hipermercado da cidade. Compro uma corrente, cinco coleiras, fita crepe, uma arma de brinquedo, uma caixa de sabão em pó, quatro caixas de sucrilhos, dois colchonetes, cinco litros de água mineral e uma corda. A lista é longa. 

            Maior lista será aquela das igrejas do mundo: “Igreja do Deus vivo primitivo”, “Igreja de Jesus morto e renascido na favela”; “Igreja de Jesus no meio dos bichos”; “Igreja dos cornos vivos e santificados”; “Igreja de Cristo contabilizado em Fundo de Reserva”; “Igreja de Santo Antônio dos Caixas; “Igreja do Criador em Teto de Zinco de Paraisópolis”.   .  

Rondo a casa de Jonas. Conto quatro carros na garagem, dois cachorros e placas de aviso sobre a fúria dos cães.  Cachorros são ótimas testemunhas, talvez  Jonas os obrigue a presenciar os cultos e recolher os dízimos.  

            O quarteirão  é  lotado por  casas suntuosas. Nada a ver com os esgotos da Vila Joaniza. 

             Quero identificar a cor do semblante de Jonas.  Estudar aquele rosto.  Saber por que a esperança dos homens não entra em sua alma. 

             Um dia alguém mencionou sua formação em Contabilidade antes de ouvir o chamado do Senhor. Elaborava  declarações de renda até o momento de iluminação: sua declarações dali para frente seriam para Jesus.  Isso faz pensar. Quais declarações seriam as fraudulentas? 

 

 

A pinga no chão

 

            Volto à igreja domingo. São sete cultos por semana. Jonas está em cena novamente. Discorre sobre a diminuição do dízimo. Tenta argumentar como desde menino observava os homens. É bom observar os homens. Eles bebem e pingam no chão uma parte. Era a parte do santo. O dízimo deveria ter esta espontaneidade, a espontaneidade da pinga no chão.

            Jonas  usa  metáforas de alto teor alcoólico. 

            Alugo um carro e estaciono perto de sua casa. O pastor tem uma vida ativa e sem rotina. Elvira o segue de forma submissa. Já percebi sua atividade nos bastidores. Ela e mais cinco mulheres.

 

 

Comida para cachorros

 

            Persigo Jonas por duas semanas. Como muito biscoito e ligo duas vezes para meu pai. Duas semanas, mas não foram dias inúteis, porque Jonas geralmente almoça sozinho. Eu também almoço sozinho e também caminho pela cidade.

 

            Hoje às quinze horas vi Jonas sair de uma agência do BBDC. Aquela cena era o tempo dentro do tempo. Jonas  conversava com um  funcionário, talvez fosse o próprio gerente ou qualquer funcionário da minha agência oferecendo a sua alma à foice do Todo Poderoso ou talvez a credulidade da cena viesse de Jonas, ali fingindo buscar algum amparo financeiro do banco. A cena me arrasou. Anseio pela hora do enfrentamento. Estarei na boca. Cuspindo fogo sobre o lobo.  

 

Papai agora cozinha a sua omelete com tomate. Impossível resgatar a antiga esposa. A biografia e os lucros do rival são incomparáveis. 

 

            Apesar de evitar qualquer encontro com mamãe, ela finalmente me vê sentado no fundo do templo. Sai correndo e abraça-me na “paz do senhor” . Diz estar feliz por me ter ali, naquele lugar  lindo. Sabia que eu escutaria o chamado. Aquela igreja é diferente.  

            Ela não me vê desde meados do ano passado e agora fala em chamados.  

            Elvira avisa novamente, eu acreditaria na sua revelação. Alguns perceberam e ninguém confessa.  Jonas, o pastor Jonas, tem a maior missão do mundo. Uma missão divina. Ganhar o mundo pela beleza.  Em 1987 chegarão aos Estados Unidos. Eu deveria conhecer o pastor. Estender a mão. Cheirar os seus dedos cor de rosa.  

            Mamãe perdeu o senso de ridículo. Não obstante, a sua aparência é de uma  jovialidade autêntica. Percebo tanta alegria.  Uma daquelas alegrias que soltam o corpo no espaço, após um longo e relaxante banho morno. Mamãe está feliz como  a mulher do comercial de shampoo. Ela corre em uma planície verdejante e avança contra a câmera.  Elvira vive agora dentro da tevê, enquadrada na tela magnética da pregação  de  Jonas.  O sujeito é um livro de oferta de cremes faciais. Talvez esteja ali a beleza permanente de  Elvira.  

             - Você irá conhecê-lo! - ela me puxa e caminhamos pelos salões da igreja.  Entramos na sala particular de Jonas. Ele conversa ao telefone. Reparo o escritório. Destaca-se uma mesa admirável perto da janela. O objeto basilar da decoração é uma Bíblia sobre um púlpito de mármore.

           Jonas provavelmente ensaia ali os sermões. Todas as variações do “Sermão da pinga do santo”. 

           -  Pastor Jonas. Este é o meu filho Ezequiel. 

 

            O cara me olha desconfiado. Faz perguntas e eu respondo objetivamente. Jonas permanece no ataque e levanta-se. É um homem alto, de cabelos grisalhos. Possui de perto um olhar pequeno, de animal acossado.   

            Seguramente ele não queria estar ali, no imponderável, com o filho  de uma de suas mulheres. Qual a coreografia  poderia usar? 

            Olho para mamãe. Seu olhos  penetram aquele homem. Verifico em seu rosto uma admiração tão sensível, tão delicada, uma dedicação tão comovente àquela divindade que concluo: “Não posso angustiar o semideus de minha mãe”.

  

            De repente, Jonas descobre uma dança e coloca sua mão em meu ombro. Afirma esperar a frutificação da minha fé e  lembrou-se de mim em São Paulo, nos seus primeiros tempos de igreja.   

 

            - Aqui é  muito mais bonito. Você conhece o nosso jardim? 

 

            A conclusão fixou-se em mim: “ Não posso torturar a fonte de prazer espiritual de mamãe”. 

            Jonas chama a copeira. Ordena que me sirva suco de laranja e as pipocas doces da festa das crianças. Pede licença e sai. Não sem antes aproveitar a ocasião.  

 

            - Volte outro dia e se você quiser,  souber enfrentar, eu prometo... você chegará ao extraordinário.  

 

            Elvira segue o sujeito e some pelos corredores. Após dez minutos ela  retorna. Permanece como se ainda iniciasse uma missão. Eu deveria voltar à noite durante o culto. Iniciarão uma nova campanha para finalizar a construção da igreja em Natal, no Rio Grande do   Norte.

            - Seu pai vai bem?  

            Não quero falar do abatimento constante de papai, mas quase pergunto, porque esse pastor a levou tão longe. Por pouco confesso o quanto eu me senti ridículo por ser filho da mulher casada... deslumbrada por um pastor de igreja evangélica, saiu de casa, abandonou o marido e filho. Muitos compreenderam sua fuga, já que julgaram ser um chamado, mas todos me desprezaram ou pela minha responsabilidade na multiplicação de certos peixes ou pela condição de vítima de um drama curioso: o casamento dos meus pais que não deveria mais ter liga.

            Um funcionário quer  fechar a sala.  Saio do local. Não sem antes perceber. Em um canto do escritório, Jonas acumula muitos pacotes de comida para cachorros. 

  

 

O remoinho              

 

            Minha covardia mostra-se de forma nítida, não obstante, quando a vítima é um semideus é possível relativizar   a fraqueza.

           Imagino uma cena monstruosa, com uma corda eu levanto um tubarão sobre o tombadilho do navio, depois corto suas barbatanas e  as exporto para o Japão. Suas peixarias venderiam as nadadeiras do bicho como ingrediente de sopa afrodisíaca. Se o tubarão fosse Jonas eu o obrigaria a chamar por sua mãezinha, rogar perdão à velha pelos constantes crimes de estelionato diante de fiéis. 

            Volto para casa e tento me convencer. Não valeria a pena doutrinar Jonas. Depois ele sempre ostentaria algo sobre o palco. A comunidade aguardaria maravilhada a presença do seu líder e tudo sempre representaria mais prestígio para o templo. Novos fiéis a levantar os braços, em  sintonia com o absoluto. Até posso escutar o seu discurso: ele viu o rosto da maldade, o demônio o desafiou em sua fé e  ela agora volta ainda mais protegida.  

            Penso em outra  alternativa para saciar o meu desejo pela moralização do mundo: jogar bolas de carne com laxante aos cachorros. Os bichos cagariam viadutos. Iriam defecar até a inauguração da igreja em Natal.  Posso também implantar um escorpião na bolsa de mamãe.  Reflito de forma sincera.  Não sei onde encontrar o bicho.  Talvez no mato, na Pedreira, em aterros sanitários.

            Não, desisto... mães, não obstante os próprios ferrões, encontram-se em um altar  inexpugnável.

 

 

 

A volta

  

            Volto sem me despedir de Elvira. Ela parece muito mais feliz do que quando vivia com papai.  

            Não me assombro mais. A felicidade exige certa carga de estupidez do afortunado.  

            Lembro-me da felicidade de um bancário chamado César. O apelido era “agulha”. Ele me contou, logo após a morte do pai, sua mãe estava muito triste... ela chorou como uma criança pela perda do marido.  Depois o “agulha” riu. Espantou-me a reação. Ele ficara feliz com a fragilidade da mãe e o falecimento do pai. Ele se tornara em uma só tacada, o domador e o  homem da casa. Definiu-se assim ao conversar comigo e muitas vezes, quando vinham lhe dar os pêsames dizia: “ Devo tomar conta de tudo, cuidar de todos, cuidar da minha mãe, afinal eu sou o homem da casa”.

            César tinha dezessete anos, percebera o seu novíssimo papel e estava feliz porque o “homem da casa” era a melhor posição. Não sabia antes da morte do pai, quanto anos da adolescência ainda seriam necessários até chegar ao “homem da casa”.

            César agora estava feliz dentro de uma estupidez máscula.

            O primogênito  varão de uma casa  pisa forte. Tem o direito de sujar o chão com os sapatos. Tem o direito de entrar com os sapatos sujos, pela porta da frente, logo após o alvorecer.  

 

            Chego e papai assiste aos chuviscos da tevê.  Ainda se prega na cruz das indefinições. Um casamento fracassado com a mulher errada será sempre uma série de suspense.  

            Papai não localizou ainda o alvo da perda: a mosca. Esta percepção eu também não conheço. Separei-me de Marina e em algum momento eu sou o fracassado. Decido vê-la como um bom ladrão. 

 

Pregos 

 

            Apanho Marina às onze da noite quando ela retorna do trabalho. Vem ajeitando os cabelos. Repetiu o gesto durante cinquenta metros. Chego por trás  e grito:    

 

-Marina!! 

-  Que susto!  

 

            Marina reclama do susto, embora eu  tenha a  impressão de que ela me esperava. Ajeita novamente os cabelos e pergunta: 

 

-  Ah! Tudo bem? 

-  Com o diabo no corpo. Vai querer ver? 

 

            Ela pisca os olhos lentamente. Eu sou previsível, incômodo, sensível e abobalhado.  

            Quero ter uma atitude inusitada. Toco-lhe os seios. Passo os polegares sobre os mamilos. Ela permite a bolinação. Meu gesto não lhe perturba. Marina sabe o quanto sua passividade compromete o meu raciocínio. 

             - Estes seios não mais te pertencem.  

            - Nossa! Que frase mais bíblica! Não me pertencem por ordem de quem? Do teu novo homem? Outro cristão do primeiro século? Que hora ele costuma te pegar? Antes do culto? 

             -Quanto ressentimento. Não é da sua conta. 

              Começo a soltar bobagens: 

             

- Vocês andam transando entre as crianças do hospital?  

 

            Ela afirma que cansara de esperar minha maturidade. Não adiantou todos aqueles livros? Você leu demais, Ezequiel e sua nova relação,  era bem mais sadia. 

 

-  Sadia?  É nome de mortadela - respondo. 

 

            Ela tenta me ofender intimando-me a vestir novamente o jalego do Banco. Digo que ela não me machuca mais. Aparecera ali só com a ideia de  transar.  Repetir o ato semanal. Lá  no quintal da sua casa ou na garagem, atrás dos cachorros. Eu poderia esquecer o passado. Usar uma máscara de palhaço e passar a língua na mortadela.  

 

            Marina examina o meu rosto como se olhasse para um relógio. Procura os ponteiros e solta: 

 

-  Eu estou com outra pessoa... mais evoluída. 

 

             Ela examina o meu queixo e encontra o  ponteiro dos segundos. 

 

-  Se você quiser, posso te masturbar. 

-  Uma ejaculação? – pergunto. 

-  Claro...tua ejaculação.  

 

            Eu tinha certeza do seu disparo certeiro. Tento segurar-lhe a mão direita. Ela se antecipa e agarra a ponta de meu cinto. Quer abrir-me as calças. “Vem aqui atrás do muro”. Ela sabe da sinfonia  capaz de criar.  Eu desvio, seguro a mão da punheta e  aperto. Aperto porque foi por esta compressão que eu cheguei aqui. Torço-lhe os dedos até sentir  apenas as minhas unhas  e o seu anel de compromisso.  

           Marina não solta um grito de dor, mas o aperto me incomoda.   Jogo o seu braço longe. 

 

-  Volta para a tua vida, amiga. 

 

            Tenho uma vontade de cuspir quando estou perto de casa. Cuspo. Vontade de chutar os postes. Chuto. Chuto. Um poste, vários muros. Entro em um remoinho. Minha existência gira sobre um ponto fixo. Quantos filhos de Deus levam uma vida igual? Não está na Bíblia. No meu caso, o giro do peão estabilizou-se na eterna perda, na ânsia pela existência de um Criador surgida naquele assalto no ônibus. Deus  tornou emblemática a perda do meu anel de noivado.  

            Decido-me     pelo     mais     óbvio:     entrar    no      ônibus

Centro/Cidade Ademar e promover  um ato realmente abençoado: outro roubo a mão armada.  Jesus e seus anjos estarão soltos no ar do lotação. Sim. Tantos delírios e a resposta admite-se simples: pegar o fim do primeiro assalto e transformá-lo em uma obra magnífica de risco e sacrifício.  Minha fé estaria justificada. Ao contrário da adoração evangélica, uma outra fé precisa ser legitimada por algum feito magnífico. 

            Decido e organizo. Usarei uma arma de brinquedo. Continuarei  a aventura dos adolescentes.  Entrarei no tabernáculo sobre rodas e, ostentando a arma de brinquedo, proclamarei bem alto:

 

            - Que o amor de Cristo chegue aos irmãos da Cidade  Ademar!  Isto é um assalto! 

 

 O reverendo 

 

            Sento-me no banco mais recuado do ônibus. Transpiro. Abro a janela. Tento não esquecer a frase inicial da cerimônia. Espero o melhor momento. O impulso. O assalto acontecerá em segundos. Estou a um passo. A quantidade de passageiros permite uma boa dinâmica. 

            O ônibus estanca e atrapalha minha concentração. O motorista  cumprimenta alguém. Um mendigo velho e aleijado  entra no veículo  para esmolar.  

            O mendigo estanca no fim do corredor e aguarda o equilíbrio do corpo. Examino o intruso. Um inchaço em sua perna  triplica o  tamanho do  joelho. Ele deixa o tumor bem exposto. Tirem o proveito da exposição...   Olhem o abscesso! Alguns passageiros procuram moedas em seus bolsos. No entanto,  percebo, a parte mais assombrosa do corpo do mendigo é o  rosto cheio e bronzeado a esbanjar saúde. “ Lá vem outra figura messiânica!” 

            Aquele homem estala a língua antes de soltar o sorriso. Um sorriso imenso, de rei dos palhaços. Depois  estica a mão para os  passageiros. Eles prontamente retiram as esmolas e o santo agradece: 

 

            - Deus abençoe o senhor! A família do senhor! E tudo de bom!

            - Deus abençoe a senhora! A família da senhora! E tudo de bom! 

 

            É uma benção aquilo, uma  frase lapidar e o mendigo a pronuncia com a voz grossa e impostada, destaca cada palavra. É tão impactante que os passageiros se obrigam a pagar pela graça oferecida. 

           A rogação do mendigo se espalha e sai pelas janelas. Agora cada espectador pagante desse ônibus saberá porque  tudo de bom virá e o mundo  terá esse conhecimento.  

            Os desejos de qualquer homem sofredor costumam ter grandes asas. 

            Tento calcular a feira do pedinte. É enorme. Se me fosse exigido cumprir alguma meta para angariar dízimos, jamais  chegaria ao nível quantitativo alcançado por aquele homem em um dia de esmola.  

            O assalto torna-se inútil. O  tumor é o complemento de fé iniciada pelos os assaltantes  da Cidade Ademar, praticamente a sequência.   

            É  difícil criar estratégias e objetivos divinos. A  vontade de transcender  possuirá poucos cavalos de força se a inteligência e o sacrifício não funcionarem. Olho o mendigo e o admiro. Serviu-se da inteligência  e criou uma benção síntese dos anseios humanos. Elaborou um estilo de mendicância. Aperfeiçoou. Escolheu as melhores linhas de transporte público com gente pobre e temente a Deus. Entra, abençoa e merecidamente recebe, não obstante, deve manter  aquele cancro na perna. Missão sacrificante e arriscada.  Por isso, o tumor contínuo tornou-se  a sua melhor obra diante do Altíssimo. 

            Ah,  o altíssimo sabe: apenas os banqueiros nunca perdem e nem se expõem a sacrifícios ridículos. 

             Preciso ser mais propositivo. Construir castelos não é fácil. 

Outros chegaram antes.  

            Mexo a perna. Volta-me a ideia inicial, a meta delirante de achar  Deus na periferia: o Criador  dos pacotes de biscoito água e sal.

            Uma mulher sentada perto de mim, oferece um biscoito ao pedinte.  

            Não obstante a arma de brinquedo, trouxe a máquina fotográfica e fotografo aquele reverendo quando ele novamente anuncia para a Cidade Ademar:

 

            -  Deus abençoe a senhora! A família da senhora! E tudo de bom!  

 

            O homem chega e lhe entrego a maior nota da minha carteira. 

 

            - Deus abençoe o senhor! A família do senhor! E tudo de bom! 

 

            O homem recolhe o dinheiro, abaixa-se, vê a arma de brinquedo, arregala os olhos e afirma:  

 

             - Já é bom,  Batman!  

 

             Não entendi o  alcance da frase. 

 

            Apressadamente o pedinte desce do ônibus. E, tal qual os   assaltantes daquele dia,  deseja aos passageiros a permanência da paz do céu no coração dos passageiros. 

            Vi ali o Papa João Paulo II. 

 

A lista dos pecados                            

 

            Estou em casa. Guardo a arma.  Durmo cedo e por alguma  razão, acordo sem  nenhum desânimo.   Acontece.

 

           A experiência com o mendigo ajudou-me.  Rápido. Senti-me um  Batman. Se eu me transformasse em um morcego de catedral seria feliz? Não sei. Desço para preparar o café. A tristeza volta, a tristeza vai, a tristeza retorna.  Penso na minha peregrinação pela periferia. Isso me conforta. 

            Devo voltar ao ponto das privadas,  divisa com Diadema.  Vislumbrar privadas pode ser o início de uma realização. 

 

Diferenças 

 

            Antes as coisas pareciam ter um fim em si mesmas. Um beijo na boca de Marina era um extrato bancário de 15 dias. Algo funcional,  um alívio rápido. 

            Somente uma mente delirante poderia erotizar o caixa eletrônico do BBDC. De fato, eu não tirava Marina da cabeça.

 

            Não delire agora, Ezequiel. Não sem tentar  caminhar sobre as águas da represa de Guarapiranga e, antes de afogar-se, anunciar: “ Mais poderosos são os pés flutuantes de Jesus”. 

 

O Deus de segunda a sexta 

 

            Hoje é sexta-feira. Acordo com comichões pelo corpo. Considero o meu objetivo inicial: buscar o divino na periferia. É isso.  Sempre soube e agora levarei para os confins do mundo minha experiência de vingador,  tratador de cães, testemunha.  

            Posso me considerar uma antena parabólica do milagroso. Esta qualificação é mais reconfortante. 

            Subo no ônibus  Centro - Vila Joaniza e cumprirei as minhas obrigações. Sei dos caminhos da cidade. Pegar um  ônibus, chegar ao  fim da linha, entrar em outro coletivo. Ir até o ponto final desse segundo trajeto e repetir a operação. Viajar para alcançar lugar algum. Tão distante, onde os passageiros se conhecem desde crianças e, a despeito desse fato, não me envergonharei por ser o rosto estranho.  

            Entro no ônibus Jardim Miriam e sigo. Examino os postes e as nuvens. A sensação de escape é tão forte. Desço depois de meia-hora, estou outra vez na avenida Yervant Kissajikian.  

            Peregrino pelo lugar.  Viro em ruas estreitas, subo ladeiras e finalmente percebo: só há mulheres e crianças nos lugares por onde passo. Sim, o contrassenso é significativo. Em regiões de famílias carentes, apenas os homens trabalham. As mulheres não compõem a renda familiar. Cuidam dos rebentos em casa e não percebo qualquer brutalidade no ar. Os homens levam sua truculência aos empregos. Os adolescentes e pré-adolescentes talvez estejam nas escolas ou talvez trabalhem nas biroscas do bairro. Certamente perambulam longe como gatos vadios. Mas aqui longe da avenida, as mulheres se ajuntam aos filhos pequenos e o mundo se acalma. São três horas e vinte minutos da tarde. É possível sentir a placidez do horário. Um silêncio e crianças miúdas penduram seus umbigos nos portões.  

           Sem dúvida,  a  paz. A paz da  mulher ousa manter intacta a sua ninhada apesar da simplicidade, do provisório, da vida em casas mal construídas. Contar os pregadores de roupa e estender ao relento as  roupas molhadas da família.   

            O tal Matias percebeu apenas o lado mal acabado desse lugar...é tão mal acabado quanto  o resto do mundo e isso não importa. 

               Sinto muita simpatia pela serenidade presente.   

            Encontro uma Igreja “Assembleia de Deus” fechada e percebo: fui levado a acreditar que a “Missão de cada crente” é acreditar e dividir a graça do Senhor com outras pessoas. No entanto, se determinado lugar for a materialização dessa graça, algo a ser mantido, defendido e não distribuído. Se este lugar tiver a pequena validade do segunda a sexta, do horário comercial, quando a grande massa de gente impura não estiver ali. Não seria melhor não dividir graça alguma, abençoar o silêncio e manter o segredo.   

            Caminho mais para dentro do bairro. Até um ponto onde só posso retornar se confiar na memória. Naquela esquina destaca-se uma casa de paredes verdes. Fotografo outra casa, o muro foi decorado por cacos de ladrilhos coloridos e do quintal reparo as roseiras. O jardim é bonito, embora o dono cultive ao lado um aglomerado de pneus carecas. A ausência de calçamento prevalece na região. O mato sai pelas frestas. Inúmeros vira-latas  se cheiram. Alguns moram atrás daquele portão de lanças. Os vira-latas presos são pontos de referência.  

            Uma criança passa por mim coçando o ânus através da calça. Conto mais quatro vielas sem saída e viro à esquerda. Estou em outra trilha, o caminho para Damasco sem placas, às quatro e cinco da tarde de um dia de sol.    

             Não me sinto perdido.  

              Continuo a passar apenas por mulheres e crianças.  

            Às quatro e quinze, duas mães conversam no portão. Uma constata: “ A neném está em dia com as vacinas”. 

            Um dia procurei o Altíssimo no belo, no permanente, na virilidade. Se eu voltar muitas quadras, chegar à avenida, verei as oficinas mecânicas dos varões e o início de um rastro de solidez rumo ao centro da cidade, onde homens e mulheres ferinos trabalham em escritórios, lojas de departamentos e bombas de gasolina. 

            O Altíssimo não está no centro do mundo. Sinto-o nesta “bocada” e isso apesar da miséria, das crianças coçarem o ânus por causa de vermes.  

             Isto é a referência máxima surgida para mim de um esconderijo de Jeová. 

 

A árvore  

 

             Empolgo-me. O onipotente está naquela pipa no céu, distante cinquenta metros. Ciscando. 

              Eu não encontrei árvores na região. Não percebi isso em minha peregrinação inicial.  Vi somente arbustos, mas Jeová fez brotar do solo a planta, alimento do homem e surgiu também a árvore da vida, do conhecimento do bem e do mal, no meio do jardim do Éden.  

              Procuro a árvore da minha caminhada, a única está em uma minúscula praça. Não é a macieira da Bíblia, nem uma figueira tombada pelo patrimônio ambiental, nem o eucalipto de quarenta metros. A árvore possuída agora por mim não alcança os fios elétricos do poste. Ordinária na altura e indecisa na cor da folhagem. Produziu várias camadas de folhas que envolvem amarelo, verde claro, verde escuro e o pulgão branqueou as folhas mais baixas.     

              A árvore não é o cedro plantado no Paraíso porque o reino do Criador é o avesso. Do avesso virá a certeza e, por isso, um camelo sempre passa através da agulha. 

            A árvore cria uma pequena sombra. A mínima pretensão pode ter a máxima eficácia. Esta conclusão pode provar o inusitado.  

            Os primeiros moradores varões voltam para casa. Eles passam e não reparam o arbusto da igreja verdadeira, a igreja da redenção divina “Deus não foi uma árvore”.  

            O brilho do óbvio cega os incautos e os inocentes permanecerão inocentes, enquanto for o desejo do Senhor. 

Fui cego e inocente, mas dizem... a maior vingança e o maior perdão é o esquecimento. Ainda não funcionou comigo.  Diante dessa árvore, tenho as mesmas percepções gustativas...se eu estivesse com Marina, lamberia o seu corpo.

 

            Cachorro que sou, lamberei também a minha pata ferida. 

 

 

Os meninos  

 

               Deito ao lado da árvore e durmo.  Acordo com um chute. 

               - Para de chutar o cara! – grita um menino meio aloirado,  pele encardida, de aspecto franzino. Impossível apontar a idade, quiçá doze anos.  

              - O cara tá vivo! - alerta o chutador, que puxa a bola e segura um inexplicável cabo de vassoura.  

 - Tu não sabe?  Eles desovam na represa.   Não viu o

Edílson?  

               - Que Edílson? 

            - O cara viu... lá...as cinco caveira, os cinco cara já tavam  mortos...

             - Espanta daqui! – digo e quase não percebo a conexão  estabelecida entre os meninos e insetos.  

               Os insetos saem. Aprecio o diálogo dos moleques.  Eles  apontam a maior anomalia destes bairros: bandidos matam  bandidos; polícia mata bandidos. Bandidos jogam corpos de bandidos na represa. Polícia espera a vez e também descarregar a sua carga de defuntos. Os pobres-diabos encalham nas margens do lago até serem descobertos por crianças. 

                Sei da aposta entre os meninos: quem achará o maior número de mortos flutuantes. 

                 Acordo finalmente. É noite e outro menino se aproxima. 

                 - Me arranja a máquina, moço. 

               -  O que você quer com ela? Câmera não é brinquedo de  criança. Sabe mexer com uma, moleque? – questiono bestamente.  

              O menino não responde. Por aqui  meninos  de doze anos não perdem tempo com perguntas retóricas.   

             - Quanta custa? 

             - Posso tirar uma foto sua? –  indago inutilmente. 

            O menino endurece, levanta o pescoço, olha para o lado.  Percebe uma ameaça vinda de algum lugar e antes de correr,  ordena: 

             - Deixa a máquina aí! 

 

Churrascos 

 

            Nesse instante eu me ligo. Anoitece e o suor dos que massacram  chega finalmente. Homens de calças sujas  abrem os portões. Alguns são pesados. Os mais jovens são os mais pesados. 

Eles sugam todas as luzes quando entram. 

            Perdi a sensação da presença divina.  Não posso prosseguir o meu périplo investigativo. 

            Olho para a árvore. Disfarçou-se. Agora é um tronco solitário no subúrbio. Estou sozinho. 

            Fotografo a rua e saio. Passo por dois maridos já de chinelos. Eles acendem uma pequena churrasqueira e tomam cerveja. Uma mulher de lenço amarelo pregado na cabeça traz no colo uma criança. Não quero analisar os churrascos dos homens.   

            O Bispo Rodrigo exclamaria:

            - Não ameace o carvão do próximo.

            - O carvão é a oração da pedra.

            - O carvão é filho da luz. A escuridão são os outros.

            - A brasa iluminada fornece a carne iluminada.  

 

 A lógica do mercador 

 

            As pequenas vendas baixam as portas.  Vendinhas comercializam para quem chega. Vendem bananas e cigarros. Recordo-me da conversa com um dos fiéis da igreja     “Deus é sabor”, quando eu ainda estava  inserido na hierarquia religiosa  da Igreja. Ele me contou sobre uma longa sondagem. Quis conhecer uma empreitada realmente lucrativa. Averiguou muito e piedosamente: abrir uma lotérica, estacionamento, lava-rápido, mecânica de autos, borracharia, puteiro, aluguel de barraco em favela.  Concluíra... nada é mais lucrativo do que um armazém de secos e molhados nos cafundós da cidade, fora das redes dos maiores supermercados.  

            O autor da tese era um empreendedor. Descobriu-se na religião. E por seus próprios méritos fora convidado para assumir um anexo da Igreja: o templo do Jardim Ângela.   

 

            Talvez o Todo-Poderoso ame com mais intensidade os seres empreendedores, apenas eles têm a existência efetiva (isto era para ser lido nas entrelinhas) e para o resto do mundo ele concede apenas a constatação: “Há um tempo para nascer, outro para morrer”. É muito pouco.   

 

 O suco 

 

            Passo pelas catacumbas da região. Não é horário para fotografias.  

            No trajeto trombo com um casal. A mulher,  sentada sobre o capô de um carro, abraça o namorado com as pernas.  Escuto: 

-  Eu adoro Fanta Uva! Tem gosto de festa! 

-  Você vai ver o que é festa mais tarde – ameaça o sujeito. 

-  Olha... eu não sou Soda limonada.  

-  Mas é foda, amor. 

            O homem normalmente tem as oportunidades sexuais na ponta da língua. Turbinaram o desejo daquele homem. Ele não pensará em anjos. Não se achará o escolhido, apenas falará de  Fanta Uva. A comprada em boteco tem gosto de festa.

 

            Outra frase  saída da máquina de Coca-Cola da igreja “Deus é sabor”: “se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana”. 

            O Criador não é máquina de refrigerantes. A esta  hora da noite poderia ser um ônibus.  

            Chego finalmente à  avenida Yervant e enquanto procuro um ponto de ônibus,  a conversa de duas mulheres confunde o sentido da minha  peregrinação: 

            - Você viu ontem de madrugada, batendo nas janelas, pareciam morcegos.   

 

            Outros morcegos chegaram antes. Quero sair deste lugar.    O Altíssimo definitivamente não está mais aqui. O número de churrascos é enorme,  o  cheiro da carne dissipa a   glória do senhor e  cervejas e Coca-Colas afogarão o próximo fim de semana.   

 

A represa 

 

            Hoje é sábado, quero ver a cara da represa “Billings”. Olho o mapa.  Decido pela represa de  Guarapiranga, ela é mais acessível.   

            Chego e ando pela avenida  que margeia a Guarapiranga.  Não  descubro cadáveres boiando.  Não deve ser fácil encontrá-los. Talvez se aproximem dessas margens em horários muito precisos. Talvez apareçam com a lua.  O único fato realmente chocante são as inúmeras placas rogando aos visitantes: “NÃO ENTRE DE CUECA NA REPRESA”.

Sento em um banco.  As horas passam e o sol se esgota no reservatório.  Tão bonito. Perco o ar e desconcentro-me. Percebo  estar ao lado de um bar fechado. Na janela, do estabelecimento grudaram um adesivo com a palavra “Mustang”.

Mustang é  nome de cavalo.  

            Permaneço sentado no banco de pedra perto de um cavalo.  Se eu criasse cavalos poderia ser feliz. 

            Quis recordar o título do filme que assisti no ano passado.  Galopo um pouco mais e vejo o ônibus  “674A  Jardim Horizonte Azul – Metrô Praça da Árvore”.  Paro no ponto e espero o próximo. 

 

 Uma decisão 

 

            Eu posso sair da periferia e visitar o Jóquei Clube de São Paulo. Assistir  a apresentação dos cavalos.  Certos cavalos correm apenas com a língua presa. Quem teve a ideia era um filósofo, um profundo conhecedor de equinos e homens. Imagino o desejo dos puros-sangues buscando a língua durante a corrida. Um órgão similar do corpo humano é o pênis. Ele talvez seja um músculo, cujas contrações determinam nossos movimentos.

            O dinheiro é um pênis.   

 

  Corpos sem pecado.   

 

            Um domingo besta se deita em minha cama. Anoitece e decido ver corpo de mulher.  Vou ao prostíbulo conhecido por mim há poucas semanas. Sou recepcionado pela discussão de duas prostitutas: 

 

            - Não quero saber! Vamos ser puta, mas vamos ser honesta.  

 

            Pensei na honestidade fosse uma obra divina, não fizesse parte do cotidiano das meretrizes. Também pensei que uma filha de Deus não  pudesse servir a dois senhores. 

            Procuro a  mulher desejada por mim algumas semanas, aquela do espeto. Ela  está disponível. Sento-me ao  lado. Pergunto o nome “Agora é  Marylin”. Informo estar pronto. 

            Entramos em um quarto minúsculo.  Uma luz no teto foca o centro da cama. Os empresários do ramo talvez pensem: você não deve perder nenhuma contração muscular da mulher. Você ficara satisfeito. 

            Eu aceito o desafio. Jogo-me sobre o colchão. É um corpo de fêmea, concluo. Estou ativo, embora saiba, ela não terá qualquer prazer ou êxtase.   

            Nestes termos falam os crentes. Outros dizem ao clímax, ao prazer supremo, ao deleite. Crentes não pronunciam “gozar” , ejacular ou  “cheguei ao orgasmo”.  

            A mulher tira a saia. Tira toda a roupa e fica de quatro na cama. Mexe os cabelos. Ela tatuou duas borboletas em seu braço esquerdo.  A imagem me excita e arranco a minha roupa. Mergulho na cama.  O dormitório vai se colorindo. Em um espelho fixado na lateral do quarto, vislumbro o perfil daquela fruta. Puxo as suas costas contra o meu peito e aperto os seus seios. Soltaram outras duas borboletas no braço direito. Beijo-lhe o pescoço. Ela acaricia a minha nuca com os braços virados. Parece abrir as asas. Os seios sobem,  as borboletas chegam perto de meu rosto. Desço as minhas mãos até as suas coxas e deitamos na cama. Quanto tempo eu não sinto o contato de pele feminina. O toque é tão bom, embora não haja beijos na boca, nem declarações amorosas, mas uma evolução para desejos que se esfregam em meu rosto e  querem confessar à prostituta o quanto eu estava feliz, já fazia muitos meses e eu necessitava  soltar algum nome de mulher no espaço  mal cheiroso de um quarto. A mulher se antecipa. 

-  Você já gozou, amor?  

-  Gozei.  

- Então tá! 

              A mulher sai do meu alcance, puxa um travesseiro, levanta  os  cabelos  e se deita.  Pergunto novamente o seu nome  e se está tudo bem. 

                - Tirando o que tá mau,  o resto tá  bem. 

            A mulher  reclama do calor:

          - Anda quente. Trabalhar no calor não  é bom. Homem não quer mulher suada. 

                - Você gostou? – pergunto pedindo uma análise da minha atuação. 

-  Você  é que tem que gostar, amor.

                Sim . Eu devo gostar. Pergunto a razão daquele nome. Não era Priscila? Marylin estava disponível e ela pegara.

                - Os homens lembram-se dela e se lembrarão de mim Posso mudar o penteado. 

            Na hora cogitei. Os travestis devem gostar do nome. Aliás, todos gostam de Marylin.

            Examino o seu rosto. A boca pequena e o nariz arrebitado são parecidos aos da Marylin americana.

             A mulher entra no banheiro e deixa a porta aberta.  Liga o chuveiro. Toma um banho rápido, isto significa lavar apenas a própria vagina. Vejo um espelho comprido na parede do banheiro e concebo uma perfeita utilidade para a peça. As prostitutas podem contar suas estrias antes do próximo cliente. Marylin examina as pernas. 

 

-  Eu não costumo vir aqui. 

-  Eu percebi. Você  está meio triste.  

              Digo andar deprimido. 

            - Não ligue. É normal.

 

            Ela   continua: 

               - Aqui também é normal.  Quer dizer...eu só estou nessa casa porque quero pagar uma dívida. Lá na minha cidade eu disse viro  puta, mas pago esta dívida.  

                 - Normal? – pergunto. 

                 - Semana passada um policial entrou aqui e quis transar segurando o revólver. 

-  Normal?  

                 - Claro que não! Não! Posso esfregar  qualquer coisa na cara, menos um trinta e oito. 

-  Problema. 

     Converso com a mulher mais  por  educação.  Poderiam esfregar um canhão no seu rosto que eu não ligarei.   

             - É difícil sofrer de paixão, não é? – ela me pergunta.  

          

             Eu me espanto com a constatação da prostituta. Pergunto se é tão evidente eu estar na merda.  

             

             - Claro! A praga do amor desliga as pessoas... o rosto delas. Em vocês homens  fica na cara... 

             - Você  não tem jeito  de garota de programa. 

             - Tenho sim. Tenho cara de puta. 

              Listo mentalmente outros sinônimos de puta. Encontro     muitos. Tem a piranha, vaca, dadeira, dama da noite,  cortesã, decaída, meretriz, mulher-dama, mulher-da-vida, prostituta, Madalena, quenga,  perdida, rapariga. 

              - Eu gosto de rapariga. – responde a mulher como se escutasse a lista elaborada por mim.  

              Confesso ainda gostar muito da rapariga estampada na minha cara. 

              - Eu sei e no fim fica a carcaça. O amor morre na carcaça, querido.  

                                      

             A conclusão bastou-me. Conto a minha angústia. O ricochetear pelas quinas da cidade. Eu nem sabia bem o porquê do meu comportamento.  

            - Você teve que sofrer. Desta vez. 

 

              Aquela conclusão me abala. Ela  tenta explicar que os homens não sabem conviver com a perda. Pensam escolherem a mulher certa. A mulher decide. No meu caso decidiu pelo chute.  

 

            -  Olha, ela estava certa. Mulheres não erram mesmo diante do homem certo.

 

           Tentei compreender a lógica da mulher. Assimilo alguma coisa. Alguns acontecimentos estão bem consumados. Sai do puteiro. Agradeci a atenção. Marylin ri.  

 

              - Eu é que tenho que agradecer, amor.  Volte outras vezes. 

 

           Lembro-me da frase de papai ao anunciar minha separação de Marina. “Era uma puta!”  No entanto, foi uma delas, verdadeiramente do ramo, consagrada, a pessoa que mais  me ajudou.   

           É muito difícil resolver os estereótipos. Encontrar um equilíbrio entre as perdidas e as mulheres de família. Não sei,  a prostituta me ajudou. 

           Eu poderia ter acrescentado uma gratificação, um couvert”  artístico. 

           Ela me pediu para voltar. Não voltarei. Não posso alterar a boa impressão. Quebrar o vaso de porcelana: a imagem da mulher, os momentos de compreensão da minha dor. E isso  depois de vê-la em plena atuação profissional, se defendendo. 

           Pude  encaminhar certas  ideias. Não as formei em um conjunto único.  Volto para casa e ao abrir a porta e caminhar até o banheiro para lavar o rosto do erótico; salta-me o episódio da Beatriz do BBDC. Seus peitos pequenos agora me perturbam. Visualizo enormes glândulas mamárias. Os homens gostam de seios enormes porque são mais receptivos. Ora, nenhuma mulher é uma vaca.  Recordo-me das deduções da puta. Ela tinha razão. Preciso gostar primeiro. Minhas necessidades amorosas, financeiras, sexuais, digestivas também importam.  

          Posso imaginar porque alguns santos morreram sifilíticos. 

         Posso imaginar o Evangelho segundo São Barnabé.   Eu me aceitarei em minha condição de apócrifo. 

            Quantas dissecações mentais. Elas não me   abandonam.  

  

Conflitos 

              

            Preparo uma omelete. Papai e eu vivemos na omelete. Almoço omelete com chocolate. É uma mistura inusitada, tal qual carne com biscoito, tomate com açúcar. Fome sem descarga.

             Se Deus não tem coerência, a incoerência  não pode ser divinizada. A figura do altíssimo está em um limbo. Entre o tudo e o nada, sem contato. E sua falta de contato não possui qualquer onipotência. No entanto, se ele escolheu se conservar pela falta de substância; manter-se intacto graças ao  desejo do cristão em buscar e buscar o sublime;  se ele decidiu permanecer apenas no preparo de si é porque sabe que  sua consistência  poderia ser ainda mais confusa. Deus não quer se tornar um almoço.

            Percebi também a hipocrisia da cruz. Um símbolo do divino em uma peça causadora do extermínio de tantas pessoas? E se Jesus tivesse sido enforcado? Se Cristo pedisse a Pedro fincar um punhal em seu coração ou, mais amorosamente, se o ato do sacrifício fosse realizado por Maria Madalena. Qual seria a marca cristã?  O coração com um alvo no centro?

            Qual a fórmula matemática buscaria a relatividade de uma ação ao quadrado sem a reação de Jesus. 

             Bastava um peixe. 

 

  A estrela 

 

             Decido ligar para Beatriz. Não! Vou visita-la em seu apartamento. Dizer ter compreendido as luzes apagadas, compreendido seu medo e depois abraça-la. O abraço seria o primeiro momento da entrega amorosa. Direi finalmente estar aberto para o amor, para a exposição dos seus pequenos seios e, se for o caso, repetirei este desejo todos os dias até ela finalmente acreditar. 

             A enorme importância que Beatriz  concede aos seios é o rosário dos católicos deixados perto da Bíblia.  Eles querem que o terço dê forma ao incompreensível, ao contato de  Deus com os homens, mas não é por ali. Rosários e seios  não alcançam muitas vitórias.  

            O Fundo de Garantia está no fim.  Nestas semanas percebi a passagem do tempo. A senilidade  humana existe como potência e  um velho, um pecador antigo deve ser definido por muitos detalhes imponentes, talvez pelo crescimento das orelhas, pelo  tamanho dos narizes, pelos disparos de inúmeros  projéteis  contra um alvo gigantesco.                

            Estou com muito sono e começo a delirar. Quero dormir. 

 

   Outros conflitos  

 

             Não durmo. Outras imagens rondam e ameaçam a minha cabeça. Os riscos das chibatadas nas costas de Jesus poderiam ser símbolos cristãos. Poderia ser um prego. Três pregos. Três estrelas. 

             Os fenômenos trágicos da natureza também não representam o Divino. Eu tinha medo do ronco do liquidificador aos sete anos. Ria nervoso. Um dia quando levantaram a tampa e vi o redemoinho de uma vitamina, meus olhos quase caíram. Achei o liquidificador  uma força sobrenatural, um tufão divino. Não era nada. Eu apenas desconhecia a engenhoca. Hoje eu sei que um maremoto pode vitimar meio mundo, mas é certo, ali há uma tampa a ser aberta e uma tomada para explicar a mistura.  

             O Criador existe pela constatação da ideia de processo? Alguém inventou o processo, ele é essencial: o crescimento de um bebê no útero da mãe; o mal da dor se inseriu no parto até chegar o rebento, consistência do bem. Isto explica o fato de toda religião carecer do sofrimento para o consolo. No entanto, se o bem deve a sua fenomenologia ao mal, então Deus, manipulador do Bem, não soube controlar a adversidade geradora do ser humano ou então não criou o homem a sua imagem e semelhança. Não existe.

             O Todo-Poderoso deveria controlar o processo, a máquina do mundo, o absoluto humano se realizaria dentro da condição única de ausência do ato imperfeito, o mal. No entanto, a imperfeição existe.  

             Eu preciso fugir. O Criador pode existir pela reinvenção da ideia de fuga. 

             Beatriz sai do trabalho às oito da noite. Não quero sumir da sua vida. 

 

Um contato 

 

             Espero Beatriz na esquina da sua casa. São dez da noite. Não poderia ter escolhido lugar e horário  piores. Pareço um guarda noturno. 

             Um nevoeiro desce junto com uma chuva fina. O vento mais forte e a luzes do lugar  transformam a  chuva e a névoa em um cobertor de pontos brilhantes. Encosto-me ao muro e aperto-me na jaqueta.  Beatriz passa do outro lado da rua. Conheço o seu casaco de camurça marrom. Ela me viu, decerto, achou ser um gatuno e correu. 

 

 Perdida 

 

              Beatriz entra em sua casa e fecha a porta. Tentativa mais ridícula. Eu não poderia ter parado. Este é um comportamento de um religioso embriagado. E logo com a única mulher retirada do mundo para se contorcer por mim.

              Quero bater em sua porta.  Ser simplesmente um macaco. Chipanzés não desistem nunca. 

             Chego em casa e tento escrever para Beatriz. Devo escrever antes para Marina. Perdoa-la. Ah, Marina não precisa de meu perdão; todo ser humano foi gerado no pecado e ela não pretende fazer nada. 

             Apenas a mais fraca, a bancária, abriria o meu amor. Eu não a via no banco, porque as pessoas criam diversos espectros para si. A Beatriz do BBDC era mais resistente e constante. No entanto, havia uma outra, ela poderia ser vista em um dia de sol, em uma alameda do parque Ibirapuera. Ela viria com um short verde e um tênis branco de corrida. Eu comentaria sua jovialidade, a boa forma, a  beleza do pequeno pé. Esta Beatriz eu nunca encontrei no trabalho. Mas eu estava lá, ela diria. Estava naquele porta-retrato. Eu sorria ao lado da minha mãe. Segurava o meu afilhado. Tinha sobre a minha mesa um pequeno vaso amarelo com duas margaridas de plástico. 

 

 Abduzido 

 

 Volto a pensar no Pai Celestial e nas sensações  experimentadas quando nos unimos a outra pessoa.   Deus não se importa com a divindade do amor e na sua permanência. O Altíssimo está mais próximo do  ciúme. O ciúme não requer provas.   Sempre será ostensivo em sua perfeição doentia  e  sobreviverá ao fim do amor. O ciúme é um grande elefante empalhado  no meio da avenida 23 de maio.

 Quero estar fora da lógica, do nexo. Beijar mulheres e examinar figos abertos. Nas infecções urinárias, tomo um remédio chamado Imosec e urino verde. O vento passa por mim procurando janelas.  As rosas mais cheirosas cospem abelhas. Em minha cabeça formaram-se enormes placas tectônicas. Elas se abrem. Subo nas asas de anjos excretados por tubarões. Sonho em pescar botos amarelos no meio da floresta.  Desocuparei enfim, a caixa de achados e perdidos. 

             Minha presença neste  mundo não é significante. Sou  filho único. Minha mãe é uma das  mil esposas de um negociante religioso, vendedor de Bíblias, atacadista dos frutos da fé. Meu pai entrou em simbiose com o sofá da sala.  Tenho uma tia distante.  Ninguém notaria o meu desaparecimento. E se notassem, diriam que a traição amorosa causou o sumiço e não era a primeira vez. Não concluirão mais nada. Papai sabe de tudo porque estou assim nesse ritmo perdido todos os dias: ou quero viajar eternamente por um  túnel escuro ou sair e  segurar a  bandeira da vitória.  

 

 A viagem                                             

 

             São Paulo é o centro. As cidades litorâneas são a periferia. Decido visitar o litoral.  Qualquer lugar. Na mochila, levo uma calça, uma camisa e duas cuecas.     

             Vou à rodoviária do Jabaquara. Examino o painel das empresas, lugares e horários. Decido-me por São Vicente, a primeira cidade do país, o ovo do Brasil. Compro uma passagem. Entro no ônibus.  Durmo meia-hora e quando acordo  vejo um ipê amarelo no meio do verde escuro da mata atlântica.  Ainda que eu desça do ônibus,  percorra o matagal fechado, não encontrarei o boto amarelo que passou por ali. Eu também não suportaria o frio da Serra do mar. Assim tenho certeza nunca  tocarei o tronco da árvore ou no boto imaginado. Não pisarei as flores caídas e se o imponderável permitisse uma empreitada até o local, quando eu chegasse não seria mais aquela primeira  árvore avistada, pois a floresta se renova   tal qual a pele de certos répteis.  No entanto, ali está um ipê. Amarelo. Único.  Não pisarei nas flores caídas como não pisarei na lua, mas em meus sonhos vi um boto e em minhas excursões pela periferia pisei a calçada de um sobrado todo amarelo.

              Agora o ipê é um ponto. Desaparece.  

              São Vicente surge às quatro da tarde; também vejo o mar. Piso na areia.  Deixo a água bater em minhas pernas. Chuto a areia. Meu chute não modifica a praia.  Pensarei nos meus objetivos aqui.

             Ando pelo calçadão. Vislumbro o teleférico vazio e constante. Prossigo o passeio até o alto do morro da Ilha Porchat onde construíram um restaurante. Peço uma caipirinha e casquinhas de siri. Anoitece.  Daqui vislumbro as cidades de Santos e  São Vicente. Elas acendem as luzes. A iluminação diferencia as cidades. Santos utiliza luzes amarelas e São Vicente, luzes brancas.    

             Posso visitar o porto de Santos. Ver o carregamento dos navios. Conhecer as putas da região. Neste instante as prostitutas são casquinhas de siri. Posso entrar na catedral da cidade. 

             Nos arredores de um porto, os paralelepípedos das ruas parecem avisar que as prostitutas aguardam a tara de todos habitantes da cidade.  O cansaço aqui é uma permanência.   

             A cidade de Santos é dividida por canais. Entre os canais sucedem as praias. Eu não reparo a numeração dos canais e desconheço o nome das praias.  Ando pelo orla e chego em uma praça onde arrumaram um vagão de bonde e uma estátua de motorneiro. É a homenagem da cidade a este tipo de transporte.  A estátua do motorneiro é toda pintada. Na parte  dos antigos uniformes esverdearam a pedra. Mas também coloriram o quepe, os olhos e o bigode da estátua.  

             Uma família chega perto da instalação. Examinam o vagão.  Tiram fotos. O casal e  seus dois filhos. Uma menina pré-adolescente e um bebê de colo. Mãe e filha sobem na mureta do canal e são fotografadas de mãos dadas. O pai segura o filho ao lado do motorneiro. A mulher fotografa as três esculturas. 

     

O olhar 

 

             A  família se retira. Examino  melhor o motorneiro de pedra. Alguém aceitou ser o modelo daquela estátua. Um dia o motorneiro não foi pedra.  Talvez tenha sido uma fotografia amarelada. Terminou aqui totalmente desconhecido. O percurso inverso é possível? O boneco mantém o silêncio. Chegando perto pode ser gente novamente. Nesse instante pode ser gente. Chego perto. O motorneiro de pedra olha o indefinido e estanca. Volta a observar e a visão  retorna. Ele está dentro de um dilema. Tornou-se um tipo de cadáver atormentado por uma questão. A questão o mantém de olhos abertos. O mundo possui um valor? Algo justifica a sua saída da pedra? O motorneiro não me responde, mas quando o encarei, a sua pedra em seu micro - segundo, se juntam ao momento daquela família ao fotografar o bonde. Este último momento se une a luminária da avenida, à buzina de um automóvel, àquela mulher que puxa as cortinas da sua janela  e a ventania levanta os cabelos daquela adolescente. O meu exame captura também o homem que  ajeita a antena e o menino a  reclamar do gosto da alface, enquanto  um velho entra em seu apartamento sem usar a chave porque esqueceu a porta aberta.     

             As imagens se juntam: a buzina  do automóvel é acionada quando a mulher abre as janelas. O  vento passa. O ancião ajeita  a roupa do menino para um outro  jogar a alface pela janela. O reflexo da luminária  esmaga a lataria dos automóveis. Uma mulher cospe no pai. Tudo são alfaces no meio da cidade.  

             Alguém morreu neste instante. O médico dirige-se ao pai e avisa: “Seu filho morreu” E o pai questiona: “Morreu!  De que forma? O que vocês vão fazer agora? Ele morreu e continua a morre. Ali sobre a maca.” 

           Se Deus for algum troço seria isto? A multiplicação do instante. Aqui e ali.  O baque do que acontece.  O guarda-chuva aberto no fundo da piscina.   O agora a envolver todo mundo. Nem antes,  nem nunca. 

Isto é o mais próximo alcançado por mim da frase: “Livrai-nos de todo o mal, amém!”.          

 

 O  emprego 

             

              Se eu puder considerar  tenho a interpretação de uma frase da Bíblia. Volto para casa. Desço na estação Jabaquara e um fedor de óleo diesel esvazia a rodoviária. 

              Carrego também um sonho: passeio em uma floresta e circundo um lago. Mergulho e caminho no fundo do lago. Respiro. e volto respirar no meio dos peixes. Acordo e os dias passam.

              Segunda–feira e procuro um emprego.  O mundo está igual  e respiro. Preencho uma ficha em uma companhia aérea.  O  Departamento Pessoal me chama para uma  entrevista. “ Sua experiência em lidar com o público é interessante”. Passo nos testes. Esperei alguns dias e assinaram a minha carteira. Empregado Celetista novamente.  Informo a papai sobre o novo trabalho. Ele fica satisfeito:

                -  Ah! Que bom, filho.         

               - Fui contratado pela Varig. Meu trabalho é agente de bagagens. Despacho as bagagens.  

   Digo ter alguns privilégios.

 

   - Nas minhas férias oferecem para mim duas passagens aéreas. Nós  poderíamos viajar... e tem uma moça do banco, a Beatriz. Eu estou interessado... Agente de bagagens não é  tão importante quanto mecânico de aviões, mas é um emprego.

             

-  Certo filho, a Varig é a maior empresa.  

            No final da conversa,  confesso algo:

              - Papai...  o senhor não vai entender. Eu não sei explicar. 

Eu tinha que perdoar alguém... e perdoei o senhor.  

 

              Papai não entende e ri. Não sabe, o perdão consumou- se como a única obra  minha realizada para Deus em muito tempo. Pelo menos um perdão. Um gesto bestamente justificável. 

                                                                                             

 Antes um retorno 

 

              Começo no emprego na segunda. Daqui a dois dias. Tenho  este sábado de expectativa. Pego o ônibus Jardim Mirian. Quero me despedir. Chego  para me despedir. Levo a câmera.  Percorro a avenida  Yervant. Ela é tão comprida. Parece não terminar em lugar nenhum.  

              Não me dou conta na hora quando desço do ônibus. Passo por dezenas de caixas d`água expostas ao relento e pares de tênis pendurados na fiação dos postes. Também reparo a profusão de portões de ferro fechados por correntes enferrujadas. Poderia ter fotografado, agora está muito escuro. Esta miséria silenciosa tem um segredo, por isso é tão atraente. Onze horas da noite. Retorno à árvore sagrada.  Muita gente já está dormindo. No quintal de uma casa alguém pendurou gaiolas vazias. Soltaram os passarinhos e neste momento escuto um  grito.  

  O grito não vem de um lugar determinado. É um  grito somente. Paro de sonhar. Você não queria isto? Ser o espectador de  um  esconderijo noturno criado pelos irmãos da Vila Joaniza?   Alguém me puxa pelo ombro, um homem de terno bege esburacado, arregala os olhos e pergunta:

 

               - Você não é o filho caçula do seu João, o borracheiro?

  

              Saio correndo.  Desço o barranco. Paro. Entro em  uma viela à esquerda. Quem era o sujeito? Alguém se confundiu. Eu era o filho caçula do seu João, o borracheiro? Melhor não explicar a intenção das fotografias.  Mas não entendi o grito e aquela escuridão?

              O lugar onde finalmente chego é um buraco de luz. Estou perdido. Vejo  longe um jumento branco. O animal carrega duas crianças sobre o  lombo.  

               Tento justificar a imagem. É somente um jumento passeando. Nada de extraordinário. Gatos não se reproduzem de madrugada?   

               O quadrúpede vira-se para  mim com os seus olhos de cego e  penso: “Siga o cheiro”. 

               Siga o cheiro. Sigo um cheiro de vela.  Ele preenche o ambiente, mais forte à esquerda. Passo por um muro de tijolos aparentes e o cheiro vem de uma capelinha cercada por um jardim de flores amarelas. A grama reflete a luz de luminárias presas à pequena torre. O  local se diferencia da  pobreza da região.   

               Entro e ali está o cheiro. Velas  rodeiam o corpo da adolescente. Era uma adolescente.  Suicídio. Dez pessoas  examinam a morta.  Outras pessoas estão sentadas nos bancos. Um homem calvo alisa a própria cabeça repetidamente. Mal conversam. Não choram,  não estranham a minha presença.  

    O corpo da adolescente está deitado sobre uma mesa.

Alguém  questiona a demora do IML.  O rabecão levará a menina?

Não é preciso o atestado de óbito? Quem cuida disso? – indagam. 

É o padrinho!

  O veículo chega e manobra no jardim. Avança, recua, bate a traseira nos degraus do prédio e estaciona em frente à capela.  

  Os  funcionários do IML  trazem uma banheira de plástico branco, estreita, comprida e encardida.  Ali depositam o cadáver da garota. Ela usa um  short azul e sutiã.  Suicidou-se com pouca roupa. Ouço as explicações: 

 

- Jogou-se? 

- Morreu?  

- Morreu caindo tão baixo? 

-  Bateu a cabeça. 

 

              Outros funcionários estacionam melhor o veículo e abrem as portas do IML. O IML estava dentro da viatura.  Um espaço para seis banheiras. Cinco estão preenchidas. A banheira da menina, a gaveta da morta, entrará no encaixe inferior direito. A morte se  organiza dentro de mim.  

               Observo as gavetas brancas, os receptáculos e  os pés dos defuntos. Tiraram as meias. Não é possível  definir o sexo dos mortos pelo exame dos dedos. Aparentam serem  pés de homens.  O resto nem quero saber? Se tinham braços, cabeças. Conto cinco gavetas brancas, dez pés, cinquenta dedos.    Juntaram dois pés femininos para a lotação?

   Os amigos e parentes saem da capela. Identifico a mãe. A única que chora.

  Sento em um banco da capela. Gostaria de rezar pela menina.  Ninguém pode corromper a própria vida em sua continuidade inexorável rumo à velhice do corpo. Os suicidas desafiam a natureza, as leis do céu e dos homens...a pulsação geral do mundo, a descarga. 

  A menina não quis desafiar ninguém.  Sinto não ter sido isso. Havia outro objetivo em seu suicídio.  Nessa  lonjura de mundo Deus  se encontra em um nível vibratório diferente da vibração do planeta. Não percebem, é logo aqui, onde ele se manifesta intensamente. A menina quis alcança-lo  de um modo obtuso. Confundiu-se. Suicídios não sintonizam o Onipotente.  

   Eu não vivo aqui e, por isso, o sismo do altíssimo desloca-me, trepida o meu corpo sem me prejudicar. Somente eu sei,  nas  escadarias, nos becos impregnados de lodo, Deus se torna mais perceptível.   

   Examino o altar.  O manto branco que o cobria é liso e brilhante. A igreja católica realmente não dispensa  a  seda e o gesso das imagens dos santos.  

   Abro a porta da capela, saio. Já amanheceu e o  bairro não existe mais.  Restou somente uma ampla várzea  rodeada por vinte casebres e atrás de cada casebre uma pequena horta.    

  Dois meninos magricelas correm e trazem um fedor de esterco.  O cheiro do bairro há cem anos. 

  Vejo um homem sacrificando um porco. Faz um século  que ele tenta  matar o animal a pauladas. Ao lado do algoz, um menino assiste o flagelo. 

- Este bicho não morre! - o matador comenta.

- Não morre por causa da pena deste moleque! Ele  sente dó e não tira os olhos.  

  O homem enfia um facão na garganta do suíno.

- Não sabe matar -  comenta outro homem.

O sangue escorre pela lama  do chiqueiro. A ferida se esgarça. O porco grita.  

Ontem escutei o mesmo grito. Humano.   

             Estão sacrificando um homem não um porco. E há  cem anos ele se esforça para que sua existência prevaleça. O algoz enfia o facão. O metal novamente atravessa a garganta do animal. O homem guincha e grita. Grita. Aqui. Nesta periferia. 

             

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

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