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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->EULÁLIA -- 25/07/2019 - 09:22 (Ricardo Barreto Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

                                             EULÁLIA      

 

                                                Cap. I

 

     Após a segunda guerra mundial o Brasil estava passando por profundas modificações econômicas e sociais, mas ainda continuava um país subdesenvolvido.

     As regiões Sul e Sudeste se desenvolviam mais rapidamente que as outras regiões do país

     Nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo boa parte de suas populações desfrutava de um padrão de vida médio, enquanto no restante do país a maioria vivia na pobreza.

     O sertão e o agreste do Nordeste sobreviviam à base de uma agricultura rudimentar, com grandes latifúndios improdutivos dominados por famílias cujos patriarcas eram verdadeiros senhores feudais.

     Muitos jovens viajavam para o Sudeste fugindo da seca que quase todos os anos castigava a região.

     Quando algum político do Nordeste levantava a voz para reclamar do tratamento injusto concedido àquela região, o governo central ameaçava com intervenção federal. Prendia alguns líderes oposicionistas e fazia um monte de promessas, mas poucas eram cumpridas.

     Havia nessa região muitos sítios e fazendas dedicados à fruticultura e ao plantio de feijão, algodão, cebola, mandioca e hortaliças.

     Também havia criação de gado de corte e gado leiteiro, mas a maior fonte de renda era oriunda dos engenhos de cana de açúcar.

     Os donos desses engenhos, conhecidos como “senhor de engenho” ou "coronel", eram homens poderosos que mandavam e desmandavam nas cidadezinhas onde viviam, produzindo rivalidade entre as famílias desses homens, cada uma querendo ter mais poder do que a outra, chegando muitas vezes a ocorrer brigas que provocavam mortes entre elas.

     O poder de cada família era determinado pela extensão da terra que possuía e pela quantidade de pistoleiros que mantinha ao seu serviço.

     As propriedades se mediam por centenas de hectares, não importando se apenas a décima parte, ou menos, era cultivada.

    O que importava era a posse da terra.

     Os proprietários tinham orgulho de suas propriedades, viviam em casas com muitos quartos, salas e terraços, que eram chamadas de “casa grande”, e se gabavam dizendo ser necessário galopar vários dias para atravessar suas terras de uma ponta à outra.

     Geralmente conseguiam se eleger prefeitos de suas cidades e colocavam os familiares na prefeitura como secretários municipais ou ajudava a elegê-los vereadores.

     Dessa forma comandavam a vida das cidades.

     Em inverno chuvoso, riachos voltavam a correr, os açudes se enchiam, a vegetação florescia e o gado engordava.

 

     Quando da ocorrência de crimes a mando de algum "coronel", os criminosos homiziavam-se nas propriedades dos mandantes do crime e ninguém conseguia prendê-los.

     Os latifúndios eram territórios proibidos para a polícia, que cuidava apenas dos casos mais simples ou quando os envolvidos não pertenciam às famílias dos "coronéis".

      As brigas entre essas famílias eram resolvidas por elas próprias.

     Esperavam uma oportunidade e vingavam a morte do parente assassinado.

     O código era rigoroso; matou, tinha que morrer.

     Nem que levasse anos para isso acontecer.

     Vários delegados tiveram que sair às pressas das cidades para não morrerem, por terem tentado interferir em alguma questão na qual estava envolvido um membro de alguma daquelas poderosas famílias.

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                 Cap. II

 

     O coronel Max Von Brennand era um senhor de engenho que não tinha nenhum inimigo declarado.

     Orgulhava-se do seu engenho, o Mandacaru, na cidade de Águas Belas, no agreste de Pernambuco a 273km do Recife.

      O coronel procurava tratar bem aos seus empregados, sendo padrinho de todas as crianças que nasciam na propriedade.

     Um dia, um dos seus camponeses, moribundo, pediu para que ele tomasse conta da sua filha Maria José, que ia ficar sozinha no mundo, pois sua mãe morrera quando ela era ainda novinha.

     Com dez anos Maria José passou a morar na casa grande fazendo pequenos serviços para ajudar as empregadas.

     Aos 15 anos, Maria José era uma cabocla forte e bonita com pele morena clara e cabelos pretos lisos. Tinha sangue índio e branco por parte dos avós maternos e sangue negro por parte dos avós paternos.

 

     Aos domingos a família do coronel ia à missa na cidade e ele, por ser ateu, ficava em casa.

     Certo domingo, por causa de uma inflamação na perna causada pelo coice de uma mula, o coronel chamou Maria José e mandou que ela esquentasse uma chaleira d’água e fosse ao quanto dele para colocar-lhe umas compressas na perna.

     Ela esquentou a chaleira e foi até ao quarto.

     O coronel estava de pijama, sentado numa cadeira de balanço e com a perna enfaixada apoiada numa cadeira.

     Ela entrou, pegou a perna dele, desenrolou as faixas, colocou a bacia que havia trazido no chão, encheu-a com a água fervendo, sentou-se num tamborete, molhou um pano na água e enrolou na perna inflamada.

     O coronel, um homem dos seus 45 anos, louro e olhos verdes, revelando a ascendência holandesa, era alto, forte e curtido pelo sol - graças ao costume de galopar horas seguidas percorrendo suas terras - olhava para Maria José agradecido pelo alívio que ela estava lhe proporcionando.

     Toda vez que Maria José se baixava para molhar o pano na água da bacia, a parte da frente do vestido descolava-se do corpo e o coronel via os seios pequenos e firmes da menina.

     Os olhos do coronel começaram a brilhar e, numa das vezes que Maria José baixou-se, ele estendeu a mão pela abertura do vestido e segurou-lhe o seio rijo.

     A menina ficou parada, confusa.

     Bastante excitado, o coronel esqueceu a perna doída, levou a menina muda e assustada para a cama, tirou-lhe o vestido, sugou-lhe os seios com avidez e possuiu a menina sem que esta esboçasse qualquer reação.

     Desse dia em diante o coronel sempre dava um jeito de ficar sozinho com Maria José e com ela mantinha relações.

 

     Um ano depois, Maria José teve um filho que chamou de Pedro.

     Depois que Pedro nasceu ela tomou o lugar de cozinheira na casa grande do engenho.

     A casa era realmente grande, com muitos quartos, várias salas e rodeada por um terraço com várias redes armadas.

     Maria José trabalhava muito, pooque a casa sempre tinha hóspedes; parentes e amigos do coronel.

     Antes do sol nascer ela já estava na cozinha acendendo a lenha do fogão para fazer café, cuscuz, ferver o leite, cozinhar macaxeira, carne de bode e o que mais a mulher do coronel pedisse.

     O sol já tinha desaparecido há muito, quando voltava para o seu quarto para dormir.

     O tempo todo ela passava lavando pratos e preparando comida para a refeição seguinte e o coronel continuava procurando-a, uma a duas vezes por semana.

 

       Pedro foi criado na casa grande.

       Vivia brincando com os outros filhos do coronel, correndo pelos corredores, escondendo-se no sótão.

     Desde cedo, ele revelou-se uma criança muito habilidosa e de grande vivacidade, e seu pai logo o colocou na escola junto com os outros filhos.              

                         

 

                                                               Cap. III

 

     Terminada a quinta série, onde Pedro tirava sempre boas notas, como não havia classe mais adiantada na escola da cidade, os filhos legítimos do “coronel” foram para o Recife a fim continuar os estudos e Pedro continuou no engenho trabalhando no plantio e corte da cana.

     Passou a viver triste e solitário porque os outros meninos, filhos dos camponeses o achavam muito pedante porque morava na casa grande, enquanto eles moravam em barracos cobertos de palha e não queriam amizade com ele.

     Pedro sentia que não nascera para aquela vida; não esquecia os cadernos e os livros escolares.

     Na casa grande ele "devorava" as revistas e jornais que vinham da capital.

 

     Quando seus irmãos pelo lado paterno vinham passar as férias no engenho, ele ficava admirando a maneira deles se comportarem, observava as roupas e a maneira de falarem e, não raro, inconscientemente, ficava imitando-os.

     Admirava principalmente Eulália, uma sobrinha do seu pai, filha de um irmão de sua esposa que vivia no Rio de Janeiro e todos os anos vinha também passar as férias na fazenda.

     Eulália tinha os cabelos negros e os olhos claros e era tão linda que aos olhos de Pedro parecia um anjo.

      O sorriso de Eulália assemelhava-se à melodia do repicar dos sinos da igreja matriz da cidade. E ela vivia sorrindo.

     Pedro não sabia do seu parentesco com os filhos do coronel.

     Sua mãe lhe dissera que seu pai era um cortador de cana chamado João da Silva, por isso o seu nome era Pedro Conceição da Silva, Conceição por parte dela, uma homenagem a Nossa Senhora da Conceição e da Silva do pai.

     Disse ainda que seu pai abandonara a propriedade quando ele era ainda muito pequeno e ela nunca mais ouvira falar dele.

 

     Graças à insistência da sua madrinha, D. Isabel, esposa do coronel, e contra a vontade do esposo, Pedro foi batizado ainda bebê.

     Sua mãe se dizia católica mas nunca a viu ir à igreja ou rezar uma Ave Maria ou um Padre Nosso.

     Quando Pedro estava com 12 anos, D. Isabel, uma mulher baixinha, muito atraente, beirando os 40 anos e muito religiosa, achou que era hora dele fazer a primeira comunhão.

     Ele começou a frequentar aulas de catecismo para aprender a rezar.

     Não entendia bem o significado das frases, mas decorou tudo direitinho.

     No dia da primeira comunhão ganhou da madrinha roupas e sapatos novos, tudo branco.

     Acostumado a viver descalço o sapato apertava o pé dele. 

     Antes da cerimônia todos os que iam participar tinham que se confessar ao padre.

     Como eram muitos meninos e alguns adultos que iriam receber a primeira comunhão, dois padres foram chamados de paróquias vizinhas para auxiliar o pároco local.

     Três filas foram formadas e, um de cada vez, foi entrando no confessionário.

     Quando chegou a vez de Pedro ele suava frio, não sabia o que dizer ao padre.

     Ajoelhou-se no tamborete do confessionário e ficou escutando a voz do padre rezando. Depois o ouviu falar:

     “Quais são seus pecados meu filho?”

     Nas aulas de catecismo tinham lhe ensinado que pecado era chamar palavrão, desobedecer aos pais, desejar mal aos outros e outras coisas que ele não lembrava.

     Portanto confessou esses três pecados e o padre perguntou se ele se arrependia e se prometia não fazer mais nenhuma dessas coisas.

     Pedro disse que sim e o padre mandou que ele, em penitência, rezasse 30 Padres Nossos e 30 Ave Marias.

     Depois da cerimônia voltou para a casa grande e foi recebido com bolo e refrigerantes.

     No ano seguinte Pedro foi selecionado para representar um dos 12 apóstolos na cerimônia do “Lava pés”, onde o padre lavava e beijava os pés dos meninos. 

     Teve que se confessar outra vez, repetiu os mesmos pecados e cumpriu a mesma penitência, rezando 30 Padres Nossos e 30 Ave Marias inteirinhos.

     D. Isabel falou que estava orgulhosa da maneira comportada com que ele desempenhara o papel e perguntou-lhe o que ele gostaria de ser no futuro.

     “Eu gostaria de ser padre”, respondeu Pedro.

     Sua madrinha ficou muito contente e foi falar com a sua mãe para colocá-lo num seminário.

     Sua mãe foi totalmente contra a ideia, dizendo que seu filho não iria usar saia, ele iria ser homem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                Cap. IV

 

     Durante as férias Pedro divertia-se bastante com os irmãos, todos quase da mesma idade que ele, Paulo 14, Zeca 15 e Tonho 16 anos.

     Apostavam corridas de cavalo, brincavam de pega-pega, nadavam no açude, acampavam, faziam serenatas.

     Quase todos os dias, atravessavam o açude a nado, numa extensão de mais de 100 metros, de um lado ao outro, na parte mais larga.

     A maior parte do ano, porém, quando não estava trabalhando, Pedro gostava de correr quilômetros pelo canavial ou ficar trepado numa mangueira no oitão da casa grande pensando como seria a vida fora do engenho.

     Seu pai não ligava para as suas fugidas, gostava dele e concedia-lhe regalias que não concedia aos filhos dos empregados.

     D. Isabel sabia da origem de Pedro, mas não se importava, ou fingia não se importar com o tratamento dispensado ao garoto.

     Até que gostava um pouco dele também.

     Exigira apenas do marido, quando descobriu o relacionamento dele com Maria José, que não a procurasse mais como mulher.

     Daquele dia em diante seria apenas a dona da casa, cuidaria dos filhos e dos afazeres domésticos.

     Passaram a dormir em camas separadas.

     O choque fora muito grande para ela.

     Flagrara os dois um dia à tarde em pleno embate amoroso, num dos quartos de hóspedes.

     Tinha acordado há pouco da sesta e chegando à cozinha, não encontrou Maria José para preparar-lhe um café.

     Procurou-a na sala, no saguão e nada.

     Saiu olhando de quarto em quarto e, num deles, deparou-se com a cena que ela nunca mais conseguiu esquecer: seu marido com Maria José, completamente despidos na cama.

     Ele cavalgando-a e ela gemendo baixinho.

     Desde então passara a viver calada, costurando e balançando na cadeira quase o tempo todo.

     Era costume à noite, todos se reunirem no terraço para conversar.

     Pedro ficava por perto escutando as conversas, intrigado com as palavras diferentes que os rapazes usavam.

     E ficava sonhando com as coisas que eles falavam; colégio, praia, cinema.

     Pedro nunca assistira a um filme e a maior extensão de água que ele conhecia era o açude do engenho.

     Por isso, a maioria das coisas que os rapazes falavam, era um mistério tentador para ele.

     Quando Eulália dava uma das suas risadas, Pedro sentia um aperto no coração, e quando estava dormindo no seu quarto, sonhava com ela toda vestida de branco, correndo pelo campo e sorrindo, sorrindo tanto que o seu sorriso enchia todo o espaço.

     Pedro era quem cuidava dos cavalos e dos apetrechos de montaria e acompanhava sempre o pessoal nos passeios.

     Eulália gostava de passear com ele, porque ele estava sempre solícito, pronto a atender qualquer desejo seu.

     Estava sempre verificando os arreios e os estribos, para que ela não sofresse nenhum acidente.

     Ensinava-lhe também a técnica de montar que aprendera com o coronel.

     Eulália, inconscientemente talvez, percebia o poder que tinha sobre ele e estava sempre a chamá-lo para qualquer coisa.

     Era Pedro pra cá, Pedro pra lá.

     E ele atendia a todos os seus pedidos com alegria.

 

     Com 15 anos Pedro era um menino forte queimado pelo sol, olhos esverdeados e cabelos negros e lisos sempre em desalinho.

     Eulália tinha 14 anos, era muito alva e estava sempre bem vestida e perfumada.

     Uma tarde, quando todos estavam dormindo a sesta depois do almoço, Pedro e Eulália saíram para passear a cavalo.

     Ela ia na frente e ele um pouco atrás, admirando seus cabelos negros soltos ao vento.

     A tarde estava quente, o sol brilhava intensamente e não se via uma nuvem no céu.

     Mal haviam começado o passeio quando, ao passar próximo a uma cerca, o cavalo dela assustou-se com uma cobra e saiu correndo loucamente, sem que ela pudesse controlá-lo.

     Pedro saiu-lhes no encalço.

     O cavalo saltou a cerca e disparou pela margem do açude.

     Ela, agarrada na sela, mantinha-se a custo sobre o animal.

     Embrenharam-se por um pomar e subiram uma elevação existente numa das partes mais afastadas do engenho.

     Estavam bastante longe da casa grande agora e ele continuava a perseguição.

     Aos poucos foi se aproximando, até que os alcançou.

     Pegou nas rédeas do cavalo enfurecido e conseguiu pará-lo.

     Apearam e deitaram-se na relva ofegantes.

     Recuperado o fôlego, ficaram olhando um para o outro sem dizer nada.

     Depois, aos poucos, foram se aproximando um do outro, abraçaram-se e rolaram pela grama, beijando-se no rosto, nos olhos, na boca, desajeitadamente, descobrindo um mundo novo de sensações.

     Já era tarde quando voltaram.

     Separaram-se antes de entrarem em casa.

     Nessa noite Pedro demorou a dormir pensando em Eulália.

 

     Os dias seguintes foram de escapadas e encontros atrás do estábulo com muitos beijos e abraços apertados, sempre na hora da sesta quando todos estavam dormindo.

     Um dia Eulália começou a apalpar o “pinto” de Pedro que ficou duro como uma pedra.

     Ela falou para ele que o nome do seu “pinto” era pênis.

     Ela abriu a braguilha dele pondo seu membro para fora das calças e, depois de acariciá-lo, colocou saliva na mão, pegou o pênis com firmeza e começou mover a mão para frente e para trás, a princípio vagarosamente depois com mais rapidez.

     Em poucos instantes Pedro sentiu um estremecimento no corpo todo e um líquido viscoso começou a jorrar do seu pênis em fortes jatos.

     Tivera sua primeira ejaculação.

 

     Desse dia em diante aproveitavam todas as oportunidades para se encontrarem atrás do estábulo.

     No último dia da estada de Eulália no engenho, foram flagrados por Tonho, primo dela, que desconfiara da saída furtiva dela do quarto e a seguira.

     Tonho correu para contar à sua mãe o que vira e D Isabel, transtornada, imediatamente deu ciência ao marido.

     O coronel tentou minimizar o episódio dizendo que isso era coisa de crianças.

     No fundo ele estava orgulhoso que seu filho estivesse dando uns apertos na filha do seu cunhado, com quem ele não se dava muito bem.

     No dia seguinte Eulália voltou para o Rio e nos anos seguintes, não foi mais passar as férias no engenho Mandacaru.

     Quase todas as noites, pensando nos momentos que passara com Eulália, Pedro se masturbava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                   Cap. V

 

     Todos os anos, no dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade, a maioria dos moradores da vila ia se confessar e comungar.

     Como fez nos anos anteriores, Pedro entrou na fila da confissão.

     Dessa vez tinha mais pecados: os encontros as escondidas com Eulália e a masturbação.

     Na última hora, com medo da penitência que lhe seria imposta, Pedro resolveu omitir os novos pecados e confessou apenas os três que contara nos anos anteriores.

     Quando o padre lhe perguntou se ele se arrependia do que tinha feito e prometia não fazer mais ele falou:

     “Não seu padre.

     Das outras vezes em que me confessei eu disse que me arrependia, que não faria mais e fiz tudo do mesmo jeito.

     Assim, não digo que me arrependo nem prometo não fazer, porque sei que farei tudo outra vez.” 

     “Então não posso lhe perdoar”. Disse o padre.

     “Se o senhor não me perdoar eu não posso comungar e todos na cidade vão ficar falando de mim.”

     ‘Não posso fazer nada.” Acrescentou o sacerdote.

     “Está bem”. Disse Pedro.

     Então eu me arrependo e prometo não fazer mais”.

    “Então eu lhe perdoo”.

     Reze 30 Padres Nossos, 30 Ave Marias e 30 Creio em Deus Pai e pode comungar.”                                 

     Pedro comungou, mas não rezou as orações que o padre mandara.

     Na sua cabeça não fazia sentido o padre ter lhe perdoado daquela maneira, nem viu mais sentido em todas aquelas histórias de pecado, céu e inferno.

     Nunca mais entrou em igreja para adorar “seres invisíveis”, como dizia seu pai.

 

     Aos 16 anos de idade, com a permissão da mãe que prometeu não contar a ninguém o que ele decidira, Pedro abandonou o engenho, arrumou suas poucas coisas numa trouxa e, antes do sol nascer, ganhou a estrada escura sem olhar nem uma vez para trás.

     Quando o dia clareou, Pedro já estava a muitas léguas de distância.

     Caminhou muito tempo sob um sol escaldante, parando de vez em quando à sombra de alguma árvore para descansar e tomar um pouco da água que trouxera num cantil.

     Atravessou córregos, passou por lavouras e fazendas, viu muita gente trabalhando, cortando cana, capinando, carregando água.

     Já era noite quando chegou  a um lugarejo e dormiu sob a proteção de uma grande árvore na entrada do lugar.

     No outro dia, pela manhã, viu um caminhão sendo carregado de cebola.

   

     Aproximou-se do homem com um boné, que estava encostado no para-choque do veículo observando o embarque das caixas, e perguntou-lhe para onde ia com aquela carga.

     "Vou para o Recife". Respondeu.

      "Será que o senhor podia me levar?” Perguntou Pedro. “Também estou indo para Recife”.

     “Como é o seu nome”? Perguntou o desconhecido.

     “Pedro”. Respondeu.

     “Meu nome é André. Ajude a embarcar essas cebolas que eu levo você”. Disse o homem.

     “Assim terei companhia para conversar no caminho.” Completou.

     Pedro colocou a trouxa na boleia do caminhão e pegou firme nas caixas.

     Após embarcarem a mercadoria e amarrarem bem, André perguntou se ele aceitaria comer alguma coisa.

     Pedro aceitou e dirigiram-se então ao restaurante.

     Pedro comeu com vontade, pois no dia anterior, a farinha com carne seca que trouxera só dera para o almoço e não comera mais nada até esta manhã.

     Logo depois do café, partiram.                                       

 

     No início a estrada era de barro e levantava muita poeira, a vegetação era seca e não se via uma casa durante horas e horas.

     À noite pararam em um posto de gasolina e dormiram, André na boleia e Pedro embaixo do caminhão enrolado num lençol que sua mãe colocara na sua trouxa.

     Depois, à medida que se aproximavam da capital, seguiram por estradas asfaltadas e viam construções e sítios bem cuidados.

     Chegando ao Recife, Pedro ficou um pouco tonto, virando a cabeça para todos os lados para não perder nada.

     Quantos edifícios altos, quantos automóveis, quanta gente na rua!

     Pedro nunca vira tanta gente ao mesmo tempo, a não ser em dia de procissão sua cidade.

     Finalmente chegaram ao armazém e Pedro ajudou a desembarcar a mercadoria.

     Terminado o serviço, pegou sua trouxa, despediu-se do seu companheiro de viagem e saiu andando pela cidade.

     Caminhou o resto do dia destino certo observando tudo.

     Viu muitas crianças trabalhando como engraxates ou vendendo jornais e mendigos pedindo esmolas.

     Carros enormes, gente bem vestida, gente malvestida.

     Passou pelas pontes e ruas com muitos camelôs vendendo todo tipo de mercadoria.

     Pedro não tinha ideia do que ia fazer.

     A barriga já estava exigindo comida há horas e ele não tinha dinheiro para comprar nada.

     À noite, cansado e com fome, deitou-se na porta de uma loja com vitrines iluminadas mostrando manequins com belas roupas e adormeceu.

     Quando acordou, no outro dia, sua trouxa havia desaparecido.

     Procurou em volta, mas não a encontrou.

     Tinha certeza de que havia dormido com ela como travesseiro, como pôde desaparecer?

     Pedro precisava comer.

     Já estava se sentindo fraco devido às 24 horas sem colocar nada no estômago.

     Saiu pelos bares e lanchonetes, oferecendo-se para fazer qualquer serviço em troca de um prato de comida.

     Somente no meio da tarde encontrou um restaurante, cujo dono deu-lhe um almoço e depois mandou-o limpar um depósito cheio de trastes.

     Era noite quando Pedro acabou a arrumação.

    Ganhou outra refeição e depois saiu; sujo e com a roupa rasgada em vários pontos.

     Dormiu sob a marquise de um prédio e, pela manhã, suas velhas botas, que havia tirado à noite para descansar os pés, tinham sumido.

     Neste dia a única coisa que ele conseguiu foi um pão para comer.

     Ninguém queria dar trabalho para ele, pois estava com a aparência de um mendigo, descalço e maltrapilho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                Cap. VI

 

     Depois de dois dias perambulando pela cidade, fazendo apenas uma refeição por dia e dormindo sob marquises de prédios, Pedro conseguiu trabalho numa lanchonete na rua da Soledade, em frente à igreja do mesmo nome, encarregado de limpar, colocar as canas para moer e servir o caldo aos clientes.

     Limpar cana era com ele, tinha experiência e suas mãos eram fortes e calejadas devido ao trabalho na roça.

     O dono da lanchonete, Eduardo, arrumou umas roupas e sapatos usados para ele e deixava-o dormir no depósito.

     Tinha a direito a três refeições por dia, lugar para dormir e ainda ganhava algum dinheiro que o seu patrão lhe pagava nos fins de semana.

     Pedro gostava de conversar com os clientes que comiam na lanchonete e fez várias amizades. Principalmente com um senhor muito educado, Dr. Geraldo, com cerca de 60 anos de idade, sempre vestido com paletó e gravata que diariamente vinha tomar um caldo de cana com limão e sempre deixava uns trocados para ele.

     Dr. Geraldo era advogado, mas o negócio dele era corretagem de imóveis.

       Estava quase completando seis meses trabalhando na lanchonete, quando o Dr. Geraldo, que já lhe perguntara se ele sabia ler, escrever e fazer contas como multiplicar, dividir e fazer regra de três, perguntou se ele gostaria de trabalhar no escritório dele, uma agência de corretagem de imóveis, com salário e carteira assinada.

     Pedro falou que a matéria que ele mais gostava na escola era aritmética, na qual sempre tirava boas notas e aceitou a oferta na hora.

     No dia seguinte foi à agência do Dr. Geraldo, uma sala com dois ambientes no Edifício Art Palácio na avenida Guararapes, esquina na rua do Sol, no centro da cidade, de frente para o rio Capibaribe e de onde, da janela, via o cinema São Luiz do outro lado do rio.

     Colado ao edifício Art Palácio havia outro edifício, o Trianon. Cada um dos edifícios tinha um cinema no térreo com o mesmo nome dos edifícios, Art Palácio e Trianon, que passavam bons filmes.

    

 

 

     O escritório do Dr. Geraldo tinha duas salas.

     Na sala maior tinha um birô grande com várias gavetas, um telefone, algumas estantes cheias de pastas de arquivo, duas poltronas individuais e uma para três pessoas arrumadas formando uma pequena sala de reuniões,

     Era a sala do Dr. Geraldo.

     Na sala menor uma escrivaninha com uma máquina de escrever e um telefone, uma cadeira e uma estante.

     Seria onde Pedro iria trabalhar. 

     Fez alguns testes de leitura e ditado e algumas contas que o Dr. Geraldo passou para ele e foi considerado apto para o serviço.

     Com a ajuda do advogado, conseguiu se registrar num cartório para tirar documentos novos, pois a sua certidão de nascimento, juntamente com seu histórico escolar e fotos da sua mãe, estavam na trouxa que sumira.

     No cartório ele registrou-se como Pedro Conceição da Silva, filho de João da Silva e Maria José Conceição da Silva.

     Aumentou a sua idade em dois anos para poder assistir aos filmes proibidos para menores de 18 anos que eram exibidos nos cinemas.

     Conseguiu tirar carteira de identidade e carteira profissional.

     O Dr. Geraldo assinou a sua carteira profissional como Auxiliar de Serviços Gerais com remuneração de um salário mínimo.

 

     Despediu-se do “Seu” Eduardo agradecendo pelos meses que trabalhara para ele.

     O dono da lanchonete disse que iria sentir a falta dele, porque ele era funcionário trabalhador e sabia cativar as pessoas que frequentavam a lanchonete.

     Alugou um quarto numa pensão na Avenida Manoel Borba, próximo de onde trabalhava. Pagava 400 cruzeiros por mês de aluguel, com direito a três refeições diárias. Sobrando o suficiente para outras necessidades.             

     Suas roupas ele mesmo as lavava à noite e passava a ferro quando estavam enxutas.

     Estava radiante com o seu novo emprego.

 

 

 

                                                                  Cap. VII

 

     A corretora de imóveis intermediava compra e venda de imóveis, além de administrar o aluguel de outros.

     Pedro chegava cedo ao escritório, fazia faxina, atendia ao telefone, arquivava documentos e começou a aprender a bater à máquina, datilografando alguns documentos.

     Algumas vezes tinha que levar ou buscar algum documento em alguma repartição pública.

     Por isso seu patrão adiantou uma parte do seu salário para ele comprar roupa, pois em algumas repartições só se podia entrar com paletó e gravata.

 

     Sempre que ia à parte antiga do Recife, onde ficavam algumas repartições públicas, atravessando a ponte Maurício de Nassau ele via alguns meninos saltando da ponte no rio Capibaribe.

     Ficava olhando os meninos pularem no rio, nadarem até o cais da Alfândega, onde havia uma escada de pedra, e voltarem correndo para o meio da ponte para pularem de novo.

     Um dia Pedro veio com um calção por baixo das calças.

     Chegando à ponte tirou a roupa, colocou-a ao lado de um vendedor de pipoca, pedindo que ele tomasse conta das suas coisas, que incluía uma pasta com documentos, e saltou no rio junto com os outros meninos.

     A água era salgada por causa do mar que invadia o rio quando a maré enchia e, vez por outra, até golfinhos apareciam nadando pelo rio.

     Muito limpa e quase morna a água era um convite ao banho.

      Pedro saltou várias vezes, sempre nadando até o cais e voltando ao meio da ponte para saltar de novo.

     Satisfeito, deixou-se secar um pouco ao sol, vestiu a roupa trocando o calção molhado por uma cueca que trouxera, pegou sua pasta e seguiu o seu caminho para cumprir com suas obrigações.

 

     Pedro sempre ia ao Domínio da União, repartição federal no Recife Velho, levar ou buscar algum documento da agência.

     Sempre ia pela rua do Bom Jesus, mas um dia resolveu mudar de caminho para conhecer outras partes do bairro.

     Pegou uma rua que não sabia o nome e caminhou admirando os casarios antigos, com dois ou três andares e varandas em cada andar.

     Estava caminhando distraído quando ouviu um “psiu”.

     Na varanda do primeiro andar de um prédio no outro lado da rua uma mulher negra de uns 30 e poucos anos fazia sinais para ele pedindo-lhe para subir.

     Subiu para ver o que ela queria e, chegando lá, a mulher começou a abraçá-lo e a beijá-lo.

     Ele não sabia o que pensar, mas achava que ela deveria ter gostado dele para estar beijando-o.

     Ela tirou a roupa dele, depois se despiu e mandou que deitasse sobre ela. 

     Pedro nunca estivera desse jeito com uma mulher.

     Ela teve que ensiná-lo como penetrá-la e, mexendo com os quadris para cima e para baixo, fez com que ele gozasse.

     Pedro sentiu um grande bem-estar e deitou-se para relaxar, mas ela mandou que ele levantasse e, com uma bacia com água e sabão nas mãos, começou a lavar o seu pênis.

     Pedro vestiu-se, agradeceu pelo que ela fizera e dirigiu-se para a porta para sair.

     Foi então que a mulher, segurando seu braço, perguntou:

     “Cadê o dinheiro?”

     “Que dinheiro?”. Retrucou Pedro.

     “O dinheiro da “foda””. Falou a mulher.

     Foi então que Pedro deu-se conta do que acontecera.

     Já ouvira falar sobre prostitutas, mas nunca estivera com nenhuma.

     Lembrou-se de histórias de homens que se recusavam a pagar às mulheres e elas cortavam o rosto deles com gilete.

     Ficou lívido e perguntou:

     “Quanto é?”

     “É vinte “cruzêro””. Falou ela.

     “Eu só tenho cinco cruzeiros”. Sussurrou Pedro.

     Ela olhou para ele alguns instantes e depois falou:

     “Tô vendo que você não sabia de nada mesmo.

     Passa os cinco “cruzêro” e vá embora.”

     Pedro desceu as escadas quase correndo, aliviado por ter conseguido sair sem um corte no rosto.

     Ao dobrar a esquina Pedro viu a placa com o nome, Rua Nossa Senhora da Guia.

     A Rua da Guia, famosa rua de prostituição do Recife Velho, numa área conhecida como “zona”, repleta de ruas com casas de prostituição.

     Desse dia em diante, parte do dinheiro que sobrava do salário Pedro gastava com as prostitutas.

     Frequentava a “zona” pelo menos uma vez por semana quando conseguia economizar algum dinheiro. 

     Durante o dia, nas ruas principais do Recife Velho, rua Madre de Deus, rua da Guia, av. Marquês de Olinda, rua do Bom Jesus e outras, o comércio, lojas, bancos e bares funcionavam normalmente.

     À noite tudo se transformava, as boates, ou cabarés como alguns chamavam, “Chantecler”, “Night and Day”, “Las Vegas”, “Flutuante”, que ficava em um barco ancorado no Capibaribe ao lado da Ponte Maurício de Nassau, e outras, se iluminavam e começavam a tocar música em alto volume.

     As mulheres se debruçavam nas sacadas dos sobrados se exibindo para os homens que passavam.

     Mocinhas que trabalhavam em bancos e saiam tarde do trabalho sentiam inveja daquelas mulheres que pareciam viver numa festa permanente.

     Pedro subia as escadas das boates entrava num salão onde uma radiola de ficha tocava músicas escolhidas pelos clientes, geralmente músicas nostálgicas que falavam de amores perdidos e traições.

     De um lado do salão ficavam as mulheres, de pé ou sentadas em cadeiras encostadas na parede, muitas com aparência de adolescentes e outras mais maduras.

     As mais novinhas eram as mais requisitadas.

     Do outro lado do salão ficavam os homens sentados a mesas e bebendo.

     De vez em quando um dos homens levantava e tirava uma moça para dançar.

     Depois levava-a até a mesa e ficavam conversando, ele falando das suas desventuras e ela escutando.

     Funcionava como uma terapia com um psiquiatra, ou melhor, pois depois eles subiam para transar nos quartos que ficavam no andar de cima.

 

     Pedro já estava experiente na arte de flertar com as moças dos cabarés.

     Como muitas delas conseguiam casar com um cliente que se apaixonava, Pedro fingia estar se apaixonando e, na segunda ou terceira vez que ia com a mesma garota ela já não lhe cobrava pela relação.

     Também se cobrasse ele não iria mais procurá-la.

     Mas Pedro também não queria se aproveitar muito da ilusão das moças de que poderia um dia vir a casar com ela e tirá-la daquela vida.  

     Depois de uma ou duas relações sem pagar, ele partia para outra em outro cabaré.

     Fazia isso mais como uma espécie de desafio, para testar a sua capacidade de sedução.

     Numa das boates Pedro encontrou um dos seus colegas de pensão, Armando, um rapaz bonito e educado conhecido como “Boy”.

     Ele estava dançando com uma moça baixinha linda conhecida como “Biscuit”.

     Na pensão “Boy” falou que estava há meses transando com ela sem pagar.

     Biscuit era mesmo muito bonita e Pedro foi um dia à boate disposto a ter relações com ela.

     Ao chegar a viu subindo para os quartos com um negro enorme de quase dois metros de altura e pensou consigo mesmo; “esse negão vai rebentar a Biscuit”. E perdeu totalmente a vontade de ter relações com ela.

 

     Tempos depois ele soube que “Boy” casara com “Biscuit”, foram morar juntos e já tinham duas filhas.

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                               Cap. VIII                                           

 

     A proprietária da pensão onde Pedro morava, Dona Glória, uma senhora viúva, era muito boa. Tratava todos os rapazes da pensão com a dedicação e o carinho de uma verdadeira mãe. Devia ter uns 50 e poucos anos de idade, era rechonchuda e tinha os braços musculosos.

     Pedro sentia-se feliz, andava sempre com os cabelos muito bem penteados e a roupa sempre limpa, que continuava lavando e passando.

 

     Só faltava agora entrar numa escola para continuar os estudos, pois ansiava estudar para melhorar de vida.

     Logo ele matriculou-se num curso supletivo onde poderia estudar para fazer exames para conseguir os certificados de conclusão do primeiro e segundo graus.

     Pedro saia do trabalho e ia para a escola.

     Chegava tarde à pensão e ficava no terraço estudando até de madrugada.

     Dormia poucas horas por noite.

 

     A primeira vez que foi à praia, na zona sul da cidade, Pedro quase não acreditava no tamanho do mar. Era tão grande que nem se via o outro lado.

     Ficou encantado com as casas bonitas e alguns prédios enormes onde moravam os ricos e milionários da cidade. Diferente das casas pobres que vira na zona norte. 

     Geralmente aos domingos, Pedro pegava um ônibus e ia para a praia onde ficava a manhã inteira nadando, se bronzeando, tomando água de coco e comendo os sanduiches que levava de casa.

 

     A corretora era frequentada regularmente por quatro irmãos proprietários de plantações de cana no interior do estado e que haviam herdado do pai uma área imensa dividida entre eles.

     Possuíam vários imóveis nos bairros mais nobres da cidade; Boa Viagem, Espinheiro e Graças.

     Plantador de cana não era Senhor de Engenho, plantava cana para fornecer aos engenhos, mas tinha tanto poder quanto aqueles.

     Esses plantadores fumavam muito quando estavam conversando com o Dr. Geraldo e a fumaça dos cigarros incomodava Pedro.

     Conversavam sobre política e viviam a pedir empréstimos ao Banco do Brasil para aplicar suas lavouras, mas na verdade investiam o dinheiro comprando imóveis em Boa Viagem e outros bairros mais valorizados.

     Quando o banco vinha cobrar os empréstimos eles diziam que a plantação dera prejuízo, que os preços do açúcar não cobriam os custos da produção e iam adiando os pagamentos indefinidamente até que o governo, para evitar maior desemprego no campo com a falência das fazendas, perdoava as dívidas.

     Esses quatro irmãos moravam em Boa Viagem e iam poucas vezes visitar suas propriedades que ficavam aos cuidados de um administrador.

     Seus empregados moravam em barracos sem água e sem luz.

     Todos quatro irmãos eram casados e, pelas conversas deles, Pedro sabia que todos tinham amantes no Recife.

     Eles tinham um tio, irmão do pai deles, que também era plantador de cana, era solteiro e vivia na sua propriedade, vindo ao Recife somente quando precisava resolver algum negócio.

     O tio deles construíra casas de alvenaria com luz, para todos os empregados, e furara um poço que abastecia de água todas as casas.

 

    O Dr. Geraldo era casado com Selma, uma moça 30 anos mais nova do que ele.

     Selma sempre que ia ao escritório falar com o marido, conversava um pouco com Pedro.

     Ela era uma mulher gentil, muito educada e perguntava sempre pelos seus estudos e pela sua vida em geral.

     Pedro sentia-se agradecido pelo interesse do D. Selma.

     Não tinha amigos no Recife e com D. Selma podia falar sobre suas dificuldades e os seus planos para o futuro.

     Certo dia, quando o Dr. Geraldo tinha saído para resolver alguns assuntos e talvez não voltasse mais aquela tarde, sua esposa chegou ao escritório e, não encontrando o marido, pediu para Pedro acompanha-la à sala dele.

     Na sala do marido ela disse para ele sentar numa das poltronas e sentou-se na outra à sua frente cruzando as pernas e deixando à mostra metade da coxa.

     Começou perguntando se ele tinha namorada, bonito como era devia ter muitas moças atrás dele.

    Pedro mal conseguia responder com o olho fixo nas coxas da D. Selma.

     Pedro começou a ficar excitado e ela, percebendo a excitação dele, levantou-se, aproximou-se dele, fê-lo levantar-se, abraçou-o e começou a beijar a sua boca.

     Depois de alguns beijos e apalpadelas, ele apalpando os seios dela e ela o seu pênis, começaram a tirar a roupa e fizeram sexo ali mesmo na poltrona maior.

     Ficaram alguns momentos deitados lado a lado na poltrona relaxando quando a porta se abriu, o Dr. Geraldo entrou e os viu ali, juntos, pelados.

     Choveu sopapo para todo lado.

     O Dr. Geraldo batia na esposa e em Pedro quase ao mesmo tempo.

     Pedro conseguiu pegar suas roupas e sapatos e saiu correndo nu pelo corredor onde várias pessoas estavam nas portas dos outros escritórios olhando o que estava acontecendo. 

 

     Dois dias depois Pedro foi ao edifício onde trabalhava e lhe informaram que não precisava mais subir, pois estava despedido.

     Por bondade ou por temer possíveis ações judiciais, o Dr. Geraldo deixou na portaria a sua carteira profissional com a sua demissão anotada, algum dinheiro referente aos dias do mês trabalhado e mais as férias não gozadas em quase dois anos de trabalho.

     Assinou os recibos declarando que não tinha nada a reclamar, pegou a profissional, o dinheiro e foi embora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                Cap. IX

 

     Pedro, passou dois meses procurando emprego sem sucesso.

     Lia os anúncios dos jornais e quando chegava aos locais, já havia uma fila de candidatos à espera.

     Empregos existiam, mas eram para serviços pesados e mal remunerados.

     Depois de dois anos trabalhando em escritório, atendendo telefone, batendo à máquina, arquivando documentos e andando de paletó, gravata e um chapéu que comprara para se proteger do sol, Pedro não se adaptaria mais a trabalhar no pesado.

     Sonhava trabalhar em um banco onde via aqueles rapazes bem vestidos e aquelas moças bonitas contando dinheiro nos guichês.

     Mas para trabalhar em banco precisava ter o segundo grau completo e Pedro não tinha.

     Depois de dois meses desempregado, Pedro não tinha dinheiro suficiente para pagar o próximo aluguel do quarto.

     Não dissera ainda a D. Glória que fora despedido.

     Uma semana depois da data do pagamento da pensão, D. Glória veio lembrar-lhes que ele ainda não pagara aquele mês.

     Contou a ela então a sua situação, a indenização ainda não saíra, mas ele estava procurando uma colocação, e assim que se empregasse pagaria todo o atrasado.

    

     Saia todo dia para procurar emprego. Passou a comer menos vezes na pensão, pois notara que D. Glória estava olhando para ele de modo diferente desde que soubera que estava desempregado, e agora vivia reclamando de tudo.

     "Ontem subiu o pão, hoje sobe o leite, amanhã a carne". Desse jeito aonde é que nós vamos parar?” Falava ela.

     Uma vez que ele chegou atrasado para o almoço, ela disse que a comida estava fria e ela iria esquentar para ele. Ele disse que não tinha importância, que comeria fria mesmo. Mas ela fez questão de esquentar.

 

    

 

     Certa noite, quando Pedro acabara de tomar banho e se preparava para deitar, D. Glória bateu na porta do seu quarto.

     Ele foi atender, não adiantava fingir que estava dormindo, ela certamente vira quando ele acabara de tomar banho e fora para o quarto.

     Pedro começou desculpando-se. Sabia que estava devendo um mês. A indenização ainda não saíra, emprego estava difícil, mas logo arranjaria um e pagaria tudo.

     D. Glória disse que ele não precisava se preocupar, que ela entendia. Viera ali apenas para ver se ele precisava de alguma coisa. 

     Nesse instante Pedro notou que ela estava apenas de camisola, e exalava um cheiro suave de loção.

     Era corpulenta, tinha as mãos grossas, e o rosto balofo, a boca era grande, e os lábios grossos.

     Aproximou-se dele e abraçou-o dizendo: "Pedro, Pedro, eu não vim aqui cobrar nada de você".

     Apertou Pedro de encontro aos seus fartos seios e cobriu o seu rosto de beijos.

     Pedro ficou parado, sem ação.

     Depois D. Glória o levou para a cama, deitou-se sobre ele e cobriu a boca dele com a bocarra dela.

     Pedro sentiu a saliva da mulher escorrendo pelo canto da sua boca e sentiu nojo.

     Com a boca ela fez o seu pênis endurecer, montou sobre ele, introduziu o pênis dele na sua vagina e, remexendo os quadris, gozou e o fez gozar.

     Uma mistura de secreção vaginal com esperma escorreu pelo baixo ventre de Pedro fazendo-o quase vomitar.

     Depois que a mulher foi embora, Pedro chorou uma boa parte da noite, pensando na sua mãe.

 

     No outro dia Pedro acordou tarde. Quando chegou à sala de refeições D. Glória estava toda sorridente e serviu-lhe um prato fundo, cheio até as bordas com um mingau de aveia recém-saído do fogo.

     À noite, quando chegou ao quarto, Pedro encontrou a sua roupa lavada e passada, dobradinha em cima da cama.

     Quando se preparava para dormir, chegou D. Glória e repetiu-se toda a cena da noite anterior.

     Quase todos os dias era a mesma coisa.

     Durante as refeições ela servia para ele a melhor porção dos pratos.

     Todos os hóspedes notaram a mudança de D. Glória andava agora sempre bem vestida e sorridente.

      Um dia quando estava na rua, mais uma vez procurando emprego, Pedro colocou as mãos no bolso, numa atitude que já se constituíra um hábito seu; andar com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos, e suas mãos tocaram num pedaço de papel, tirou o papel do bolso, e viu que era uma cédula de 100 cruzeiros.

     Pedro agora saía cada dia menos em busca de emprego até que ... desistiu de vez de procurar.

     Pedro passava a maior parte do tempo na pensão estudando. D. Glória continuava solícita e carinhosa com ele, sempre trazendo lanche, café e biscoitos. Certa vez ela disse que estava preocupada porque ele estudava muito e isso poderia fazer mal à cabeça. Precisava sair para se distrair um pouco, passear, ir ao cinema. Ele disse que ela não se preocupasse, pois ninguém nunca enlouquecera por estudar.

    Regularmente aparecia dinheiro no bolso da sua calça. Nunca comentou nada com D. Glória a esse respeito, e ela nunca falou nada para ele também.

  

     Uma noite, ao voltar da escola, não encontrou a maleta onde guardava as suas roupas, e a cama estava sem lençóis.

     Procurou D. Glória para saber o que havia acontecido, e ela disse-lhe que havia transferido suas coisas para o quarto dela, pois não estava disposta a estar indo para o dele quando quisesse fazer amor e poderia alugar o quarto vago para outro hóspede, já que diariamente aparecia gente procurando por hospedagem.

     O quarto dela era de frente para a rua, bem mais amplo e ventilado que o seu, e tinha um banheiro privativo.

     A cama de casal era larga, o colchão macio e os lençóis eram alvos e perfumados.

     De um lado um guarda-roupa de quatro portas, numa das quais ela arrumara as suas roupas.

     Do outro lado uma penteadeira cheia de perfumes, talco, desodorante e um grande espelho oval.

     Na parede acima da cabeceira da cama, um crucifixo.

     Pedro despiu-se e deitou-se resignado.

 

     Os outros oito rapazes, pobres como ele, vindos de diferentes cidades de Pernambuco e do Nordeste e que moravam também na pensão, não estranharam a mudança, pois já sabiam do caso que havia entre Pedro e D. Glória.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                  Cap. X

 

     Depois de três anos de estudos, Pedro passou nos testes que lhe davam o certificado de conclusão do segundo grau, o primeiro grau ele já conquistara um ano antes, e agora estava apto a ingressar na faculdade. Prestou vestibular e conseguiu classificação para o curso de engenharia civil da Escola Politécnica da FESP, Fundação de Ensino Superior de Pernambuco, futura UPE, Universidade de Pernambuco.

     Estudava cada vez mais e D. Glória continuava com o mesmo desvelo com ele.

 

     No segundo ano da faculdade, Pedro começou a ajudar uma colega, Mércia, que estava com dificuldade em Cálculo 2. Após as aulas eles iam para a biblioteca da escola e ficavam estudando juntos. Um dia, sem que ele percebesse, Mércia colocou uma carta dentro de um dos seus livros.

     Na carta ela dizia que estava gostando dele e que passava o dia esperando a hora de estar com ele, terminando a missiva com um beijo e deixando a marca de batom dos seus lábios no papel.

     D. Glória desconfiada já, porque ultimamente Pedro só chegava tarde dizendo que ficara na biblioteca estudando, descobriu a carta e foi uma briga daquelas.

     Ela disse que não ia ficar sustentando-o para ele ficar andando com uma vagabunda qualquer não.

     Que enquanto estivesse na casa dela, ele tinha que respeitá-la e ele escutou tudo calado.

     Quando a velha saiu para fazer compras, Pedro arrumou suas poucas coisas na maleta e saiu da pensão. Mudou-se para outra que já conhecia, no bairro de Ilha do Retiro, próximo da sede do clube de futebol Sport Club do Recife e próximo da faculdade.

     Sua nova hospedeira concordou que ele poderia dar aulas particulares numa das salas da casa enquanto terminava o curso. Disse ainda que tinha dois filhos com dificuldades na escola que seriam seus primeiros alunos.

     Pedro colocou uma tabuleta na porta da pensão:

LECIONA-SE PARTICULAR – MATEMÁTICA E FÍSICA.

     Em dois meses estava com dez alunos, o que lhe garantia o necessário para as despesas e ainda sobrava um pouco para ir à praia ou ao cinema com Mércia, agora sua namorada.

     Em dias de jogos no estádio era impossível estudar ou lecionar. Torcedores dos dois times contendores faziam a maior algazarra e, não raro, aconteciam brigas e correrias.

 

     Pedro nunca esquecia sua mãe. Sempre escrevia para ela, que respondia com a ajuda de uma senhora do engenho que sabia ler e escrever. Ele sempre perguntava por Eulália e através da sua mãe, soube que ela não fora mais passar as férias no engenho, pois agora vivia viajando pelo exterior.

     

     Pedro gostava de literatura, lia avidamente tudo que lhe caia às mãos, principalmente poesias. Gostava de ler Carlos Pena Filho, Carlos Drummond de Andrade e outros.

     Um domingo Pedro foi ao Jardim Zoo-botânico do Parque de Dois Irmãos com Mércia para se divertir vendo os animais.

     Após o almoço, Mércia forrou uma toalha na grama à sombra de uma árvore, deitou-se e em poucos minutos adormeceu. Duas crianças brincavam correndo perto dali. Vendo aquela cena Pedro decidiu arriscar-se a escrever:

 

“DOMINGO NO ZOOLÓGICO”

“Fui buscar no azul da manhã
A inspiração para dizer o que sinto.
Há tanta paz neste recanto
Que é difícil para mim acreditar
Que em algum lugar do planeta
Homens maus tramam a destruição
De tudo que a natureza levou
Milhões de anos para construir.
Ouço a alegria barulhenta das crianças,
O vento balança as folhas das árvores
Refrescando a quente tarde de domingo.

Sobre uma toalha na relva
A mulher amada dorme o sono reparador
Dos que têm a consciência tranquila
E o corpo saciado.
Um rádio toca uma música contagiante
E eu estou aqui parado, tentando
Descobrir o segredo das palavras.

Sonho com um mundo sem miséria,
Sem sofrimentos, sem injustiças.
Gostaria de escrever belas odes à amizade,
Mas não tenho amigos.
Gostaria de escrever lindas poesias
Em louvor à mulher amada,
Mas não sei rimar.
E ela dorme sem suspeitar
Que ao seu lado sofre uma alma amargurada.

P.”

    

     O namoro com Mércia durou menos de um ano.

     Ela queria viver frequentando cinemas e boates e ele não tinha dinheiro suficiente nem tempo para isso. Logo ela cansou-se dele e separaram-se como bons amigos.

 

     Quando cursava o terceiro ano da faculdade, Pedro arranjou estágio de meio expediente numa construtora.

     Seu proprietário comprava terrenos e construía conjuntos habitacionais populares na periferia da cidade.

     Pedro fazia cálculos, acompanhava obras, conversava com engenheiros, mestres de obras e pedreiros. Ganhou muita experiência nessa construtora.                                                                                         

 

 

 

                                                                 Cap. XI

 

     Quando fazia quase um ano que Pedro estava estagiando, recebeu uma carta da sua mãe, dizendo que estava muito doente, precisando se tratar e não havia médicos na cidade.

     Pedro pediu alguns dias de licença na firma e viajou para a propriedade onde nascera e se criara.

     Ao chegar, notou uma mudança muito grande.

     O pasto estava muito maltratado devido à seca do ano anterior. Os animais não chegavam a um terço do que existia quando ele saíra de lá, sete anos antes.

     O “coronel” Von Brennand morrera em um acidente de carro há dois anos na Serra das Russas, na BR-232, quando viajava para o Recife a negócios.

     A viúva e os filhos viviam na cidade, não suportavam a vida no engenho que estava entregue aos cuidados de alguns empregados.

     Sua mãe estava muito doente. Estava com 39 anos, mas parecia estar com muito mais. Os cabelos brancos, o rosto enrugado e as mãos encardidas e calejadas de cortar lenha para botar no fogão.

     Tossia muito durante a noite e, vez por outra, cuspia sangue quando escarrava.

     Trouxe a sua mãe para morar com ele na pensão.

     Ela ocasionalmente sentia dores no peito. Às vezes ficava tão cansada que não podia se levantar da cama e as pernas viviam quase o tempo todo inchadas.

     O governo concedia assistência médica gratuita aos trabalhadores através de postos de saúde.

     Pedro foi ao posto que lhe indicaram informando que teria que chegar de manhã bem cedo, e entrar numa fila para pegar uma das 80 fichas que distribuíam diariamente.

     Ele chegou no dia seguinte às cinco da manhã no posto. Já havia mais de 100 pessoas na fila. Um homem no meio da fila, disse-lhe que desde as duas horas da madrugada que estava ali esperando para conseguir uma ficha.

     No outro dia Pedro chegou ao posto às duas da manhã e já havia umas sessenta pessoas na fila. Entrou na fila e ficou esperando.

     Às seis horas começaram a distribuir as fichas numeradas e ele recebeu a ficha de número 75. Não reclamou, mas algumas pessoas que haviam chegado logo depois dele e não tiveram direito à ficha, fizeram um tumulto e foram expulsas aos empurrões pelos vigilantes do posto.

     Às onze horas Pedro conseguiu marcar a consulta da sua mãe para dali a uma semana. Teve que marcar com um clínico geral.

       O clínico é que encaminharia para um especialista, se achasse necessário.

     No dia da consulta foi com a sua mãe para o posto. Ficaram duas horas esperando e foram finalmente atendidos.

     O médico examinou sua mãe meticulosamente e depois pediu alguns exames.

     Disse para voltarem quando estivessem com os resultados dos exames.

    Depois de mais alguns dias madrugando, enfrentando filas e perdendo dias de trabalho, Pedro conseguiu que sua mãe fizesse os exames e levou-a então ao posto novamente.

     Estavam há mais de duas horas sentados na sala de espera quando sua mãe começou a passar mal e precisou ser levada de ambulância para a emergência do Pronto Socorro no bairro do Derby.

     Lá já chegou sem vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                Cap. XII

 

     Depois de formado, Pedro colocou o diploma na mala, arrumou suas coisas e pegou um ônibus para o Rio de Janeiro.

     No Nordeste não havia lugar para ele.

     Partiu em busca de uma vida melhor.... e de Eulália.

     Depois de quase dois dias de viagem, desembarcou na estação rodoviária do Rio de Janeiro no sábado de carnaval.

     Diferente do carnaval do Recife onde se tocava vários ritmos, principalmente o frevo, aqui o samba imperava.

     Pedro passeava pelas ruas, encantado.

     Todos se divertindo, os bares lotados de homens e mulheres bebendo alegres. Mulatas seminuas dançando pelas ruas.

     Pedro nunca vira uma concentração tão grande de mulher bonita em tão pouco tempo em sua vida.

     Assistiu ao desfile das escolas de samba na avenida Rio Branco, muitas fantasias, muitos carros alegóricos, uma coisa espetacular.    

     O Governo incentivava ao máximo o carnaval, que junto com o futebol, fazia o povo esquecer o alto custo dos gêneros de primeira necessidade, as dificuldades de moradia, a falta de liberdade de expressão, a censura aos artistas e a deterioração da qualidade de vida de uma maneira geral.

    Como Pedro descobriria mais tarde, apesar do Rio de Janeiro ser altamente desenvolvido, boa parte da sua população morava em casebres construídos nos morros que circundavam os bairros nobres da cidade, as famosas favelas cantadas em verso e prosa pelo cancioneiro popular.

     E quase todos os moradores das favelas trabalhavam como domésticas, zeladores e porteiros nos edifícios e casas luxuosas dos bairros de Copacabana, Leme e Leblon.

 

     Os livros, jornais e revistas viviam sob severa censura, só podiam publicar elogios e mostrar as obras monumentais que o governo estava realizando.

      Enquanto isso muitas crianças desnutridas e malvestidas perambulavam pelas ruas, mulheres se prostituíam para poderem sobreviver e milhões de homens se sujeitavam a jornadas de trabalho longas e desgastantes, em troca de salários humilhantes.

     Muitos se dedicavam ao roubo ou ao tráfico de drogas, quando não conseguiam emprego ou quando o salário era insuficiente para alimentar os filhos.

     O país vivia sob uma ditadura, implantada após um golpe militar supostamente para evitar que o Brasil virasse um país comunista

     A polícia política era onipresente e onipotente, enquanto ladrões e traficantes agiam quase livremente, ela perseguia e prendia estudantes, artistas e intelectuais que criticassem o governo e, não raro, não se tinha mais notícias dos presos.

     Assim, através da censura, perseguição, encarceramento, exílio e desaparecimento de pessoas, silenciavam as mais lúcidas inteligências do país, enquanto alguns políticos e empresários enriqueciam desviando dinheiro público.

 

     Pedro não entendia muito de política.

     Quando estava na faculdade, via colegas seus se reunindo para discutir possíveis formas de enfrentar o regime militar, organizar manifestações, etc.

     Costuma vê-los reunidos no bar Mustang na avenida Conde da Boa Vista, acompanhados de homens mais velhos com aparência de jornalistas ou intelectuais.

     Pedro não fazia parte dessa turma.

     O bar predileto de Pedro era o Savoy, na Av. Guararapes, depois de uma passada pela “zona” no bairro do Recife uma vez por semana. Tomava uma ou duas canecas de chopp e ia para casa dormir.

 

     No Rio de Janeiro, Pedro hospedou-se numa pensão perto da estação Central da estrada de ferro, e passou o carnaval andando pela cidade vendo o povo se divertir.

     Protegidos por máscaras, homens e mulheres entregavam-se a toda sorte de desregramentos.

     Desafogavam naqueles dias as frustrações acumuladas durante todo o ano.

     O governo gastava milhões enfeitando a cidade, colocando alto-falantes em todas as esquinas tocando música o dia inteiro.

     O carnaval e o futebol eram a alegria do povo.

     No carnaval o povo bebia e dançava até a exaustão e durante o resto do ano divertia-se com o futebol.

     Em estádios suntuosos os aficionados se reuniam para apreciar as partidas.

     Nem sempre vencia a melhor equipe.

     Falava-se em jogadores comprados, juízes e bandeirinhas subornados e outras falcatruas.

     Os melhores jogadores eram aclamados como heróis e a turba urrava quando algum deles fazia um gol.

     Pedro não gostava de futebol, nunca fora a um estádio e nem pretendia ir.

     Tinha coisas mais importantes para fazer.

     Para vencer nesta cidade, Pedro teria que lutar com todas as armas ao seu alcance e ele entrou firme na competição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

                                                                Cap. XIII


     Pedro observou que, quando estava preocupado ou angustiado, se escrevesse qualquer coisa, um desabafo qualquer, ele se acalmava.

     Passou então a escrever mais regularmente.

 

“A SOLIDÃO QUE ME INVADE”

“A solidão que me invade
É a solidão dos que sonharam demais
E acordaram muito cedo para uma realidade cruel.
É a solidão dos que perderam os amigos pelo caminho
E não têm mais capacidade para fazer novos amigos.
É a solidão daquele que,
Mesmo estando numa multidão, sente-se só.
É a solidão daquele que não sabe de onde veio
Nem para onde vai.
Eu sinto a solidão daquele 
Que perdeu a amada numa noite de chuva
E até hoje carrega apenas o frio no coração.
Eu sinto a solidão daqueles que,
Por terem perdido a fé,
Vagam pela vida sem ao menos o consolo 
De acreditarem encontrar em outro mundo 
A justiça que lhes foi negada neste.
Eu sinto a solidão daquele 
Que tem consciência de ser apenas
Uma partícula desprezível num planeta agonizante
Que gravita em torno de uma estrela de 5ª categoria

Na periferia da galáxia. P.”

 

 

     Pedro trouxera o endereço de Eulália, mas antes de procurá-la precisava arrumar um emprego.

     Depois do carnaval, todos os dias Pedro pegava o jornal e saía atrás dos endereços das construtoras que anunciavam vagas para engenheiro.

     Mas as construtoras queriam gente com experiência em grandes obras e o achavam muito jovem para funções de responsabilidade.

    Estava apenas com 24 anos, embora seus documentos indicassem 26, e toda experiência que possuía na função se resumia aos dois anos que passara na imobiliária que construía casas populares.

     Durante quase um mês Pedro bateu de porta em porta sem conseguir nada. O dinheiro que tinha economizado durante vários anos, estava acabando.

     Pedro continuou insistindo até que conseguiu empregar-se numa grande empresa no bairro do Flamengo. Por trás do título "ATLAS EMPREENDIMENTOS S/A" escondia-se um império econômico que controlava desde hospitais e maternidades até fábricas, supermercados, lojas e magazines. Sem contar a construtora que era o negócio principal.

     Os homens que comandavam este império tinham tanto poder, que influenciavam em muitas das decisões do governo, além de elegerem deputados e senadores para defenderem seus interesses.

                                   

     Pedro aos poucos foi aprendendo o serviço e participando de vários projetos da empresa.

     Já tinha ido até Copacabana conhecer a praia e o bairro onde Eulália morava, mas ainda não tentara encontrar-se com ela.

     A água do mar aqui não era morna como a do Recife, pelo contrário, era fria de doer, mas ele mesmo assim nadava.

     Depois que se sentiu seguro no emprego, Pedro alugou um apartamento pequeno próximo à empresa que trabalhava no Flamengo e achou ter chegado o momento de ir ao encontro de Eulália.

     Num domingo de sol, com o endereço que sua mãe lhe dera antes de morrer, pegou um ônibus para Copacabana pedindo ao motorista para deixá-lo na Rua Constante Ramos.

     Desceu do ônibus e dirigiu-se para o prédio cujo número constava no papel.

     Na portaria do prédio falou com o porteiro e perguntou por Eulália.

     “D. Eulália casou e mudou-se faz uns três anos”. Respondeu o porteiro.

     “Deixou o novo endereço? Perguntou Pedro.

“Deixou não “sinhô”.

     “Parece que foi morar no exterior, na Inglaterra”. Disse o porteiro.

     Pedro voltou para casa desolado.

     Tanto sacrifício, tanto esforço, tudo em vão.

     Nunca mais veria Eulália.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                 Cap. XIV

 

“ATÉ QUANDO?”

“Meia-noite,
Todos estão dormindo
E eu aqui,
Procurando uma saída.

O prazer cada dia mais difícil,
Complicado.
O desejo de fazer alguma coisa.
Fugir para qualquer lugar.
Encontrar novas amizades.
Saciar esta sede de justiça, amor e paz.

O tédio me faz ligar a televisão
E ficar mudando de canal
Numa busca inútil 
De algum programa menos medíocre.
Até quando vou suportar tudo isto? P.”

 

     Com dois anos de trabalho, Pedro já ocupava uma boa posição e tinha um salário razoável.

     Alugou um apartamento de sala e quarto em Copacabana, num edifício misto comercial e residencial, perto da praia.

      Nas horas de folga, ficava passeando pela cidade, com uma leve esperança de encontrar Eulália.

     Um dia chegara a saltar de um ônibus, porque vira uma jovem parecida com ela na calçada. Voltara correndo até poder ver a jovem de frente, mas não era ela.

     Ele ficava pensando, como estaria ela agora?

     Eulália vivia nos seus pensamentos.

 

     Lembrava-se dela com aquela saia curta, os cabelos negros longos, presos por uma fita vermelha na altura do pescoço, correndo, sorrindo e gritando seu nome.

     "Pedro! Pedro! ", acordou molhado de suor. Sonhara com Eulália chamando por ele.      Não a Eulália magrinha e miúda do Engenho Mandacaru, mas uma mulher feita, com os mesmos cabelos negros e os mesmos olhos claros, só que muito mais bonita que antes.

                                                 

     Pedro andava sempre com camisa de manga comprida e gravata, deixando o paletó na empresa para alguma reunião formal

     Uma noite, ao voltar de ônibus para casa, sentou-se ao lado de uma moça um pouco mais nova que ele e, como estava com muito calor, afrouxou a gravata e olhando um pouco de lado para a moça, falou baixinho: “Ki calor”.

     A moça sorriu e concordou que realmente a noite estava muito quente.

     E continuaram conversando até o ônibus chegar ao ponto onde a jovem ia saltar, um ponto antes do dele. Saltou com ela e continuaram conversando até ao prédio onde ela morava.

     Ela disse que se chamava Edilza, era formada em secretariado e trabalhava em um jornal no centro da cidade. Despediram-se, combinando encontrar-se no dia seguinte depois que voltassem do trabalho.

     No dia seguinte, no horário combinado, foi até prédio dela, falou com o porteiro que a avisou pelo interfone e pouco depois ela desceu.

     Estava com um vestido laranja com alças e os cabelos úmidos devido ao banho recém tomado.

     Foram a um barzinho na avenida Nossa Senhora de Copacabana, ela pediu uma caipirinha e ele um refrigerante.

     Como era praxe acontecer quando Pedro saia com alguma garota, o garçom colocava a caipirinha para ele e o refrigerante para a garota.

     Eles sorriram e trocaram as bebidas.

     Conversaram durante quase três horas.

     Ela perguntou de onde ele era, pois notara que tinha o sotaque nordestino.

     Disse que era de Pernambuco e estava há pouco tempo no Rio.

     Ela falou que era de Niterói, ter 24 anos, era separada e tinha uma filha, Isabela, de sete anos que morava com ela.

     A filha nascera de um caso com um ex-chefe seu, casado, para quem todo mês tinha que telefonar várias vezes afim de que depositasse a pensão que prometera para a menina.

     Depois Pedro acompanhou-a à casa dela e voltou para sua casa.

     No segundo encontro Pedro convidou-a para conhecer o apartamento dele. Ela disse que não podia porque deixara Isabela dormindo sozinha em casa e ela poderia acordar e ficar assustada com a ausência dela.

     Para ir ao apartamento ficar com ele, ela precisaria levar a menina para a casa de uma amiga que também tinha uma filha de sete anos e, algumas vezes, Isabela dormia na casa da amiga.

     No terceiro encontro foram direto para o apartamento dele e mantiveram três relações sexuais.

                                       

     Depois de oito meses de namoro, nos quais sempre passavam os fins de semana juntos , algumas vezes deixando a filha na casa da amiga e outras vindo com Isabela, Edilza sugeriu, já que estavam gostando tanto da companhia um do outro, que seria melhor ela e a filha irem morar de vez com ele.

     Pedro pediu um tempo para pensar.

     Após refletir sobre as vantagens e desvantagens de ter uma mulher e uma criança em um apartamento composto de quarto, sala, cozinha e banheiro, Pedro propôs fazerem uma experiência de um mês juntos, antes de uma mudança definitiva. Edilza concordou.

 

     A vida de Pedro mudou radicalmente.

     Não podia mais ir ao banheiro com a porta aberta. Não podia andar nu no apartamento como costumava fazer.    

     O sexo gostoso que faziam, com direito a urros e gritos, tornou-se silencioso, pois a menina dormindo na sala poderia acordar.

     Não podia mais assistir ao seu telejornal preferido porque no mesmo horário tinha um programa que Isabela gostava em outro canal.

     Terminado o mês de experiência Pedro foi sincero com ela: “Não dá. Sinto muito, mas não consigo viver assim”.

     Ela ficou triste, mas cumpriu a palavra que dera. Arrumou as coisas e voltou para o apartamento dela.

     Edilza continuou ligou para Pedro querendo continuar se encontrando-se, mas ele não aceitou.

      Escreveu para ela:

                         

“DECEPÇÕES E DESENGANOS”    

 

“Tudo na vida passa.
Eu passei na sua vida
E você passou na minha.
Nossos destinos cruzaram-se
Num ponto da trajetória do tempo,
Caminharam juntos durante alguns instantes
E depois se afastaram
Deixando marcas profundas 
Em nossas personalidades.
Eu não sou mais o mesmo
Nem você é mais a mesma
Depois que nos conhecemos.
Você aprendeu alguma coisa comigo,
Eu aprendi muito com você,

Não chegamos a nos conhecer totalmente,
Nem eu a você, nem você a mim.
Não chegamos a desfrutar tudo de bom
Que podíamos oferecer um ao outro.
Você limitada pelos seus desenganos,
Eu pelo meu egoísmo e frustrações.
Não culpemos o destino pelo que nos aconteceu.
A vida é assim,
Frustrações e desenganos.

P.”

 

Edilza continuou a telefonar até descobrir que Pedro já estava com outra.

 

                                                                Cap. XV

 

“É PRECISO CANTAR O AMOR”

“É preciso cantar o amor.
Será que ele ainda existe?
Amar é desejar uma criatura
E nunca possuí-la.
Quando possuímos, acaba o desejo.
É preciso cantar a liberdade,
Liberdade é não amar ninguém.
Quando se ama perde-se a liberdade.
Se o amor é correspondido então
Trocou-se a liberdade pelo gozo do amor.
É preciso cantar a vida
Fazer de conta que está tudo certo,
Que temos direito à felicidade.
Amei e fui amado.
Agora já não sei o que é amor.
Canto uma coisa que não sei o que é.
No entanto é preciso cantar.
Quero o amor pelo amor,
Quero o amor pela conquista,
Vencer todas as resistências,
Provar a mim mesmo que sou capaz.
Não me satisfaço com um único amor,
Meu coração é capaz de abrigar o mundo.

P.”

 

     Um mês depois de terminar com Edilza, Pedro foi ao Centro Hematológico de Copacabana doar sangue para o filho de um colega que se acidentara. Foi chamado e entrou numa sala onde uma médica sentada atrás de uma escrivaninha, pediu que ele sentasse na cadeira à sua frente e, sem levantar a cabeça, começou a lhe fazer perguntas:

          “Seu nome?’

          “Pedro Conceição da Silva”.

          “Idade”?

          “26 anos”.

          “Profissão”?

          “Engenheiro”.

          Neste momento ela levantou a cabeça e olhou para ele examinando-o atentamente.

          O interrogatório continuou, só que agora a cada pergunta que ela fazia levantava a cabeça e olhava para ele com um leve sorriso nos lábios.

     “Fuma? Bebe”?

     “Nunca fumei e bebo raramente”.

     “Estado civil”?

     “Solteiro”.

     Pedro teve a impressão que o sorriso dela aumentou ligeiramente e ela passou a fazer as perguntas mais devagar.

    “Tem relações sexuais com prostitutas”?

     “Atualmente não. Tive até uns 20 anos”.

     “Já teve alguma doença venérea”?

     “Não”.

     Era verdade.

     Apesar de Pedro já ter tido relações sexuais com muitas prostitutas, nunca tivera uma doença venérea. Devia ser porque elas tinham o cuidado de higienizar o pênis com água e sabão assim que terminavam a relação.

       A médica terminou de preencher a ficha e continuou a conversar. Disse que se chamava Flavia e perguntou de onde ele era, se estava gostando de viver no Rio. Disse que também não era carioca, era mineira e viera para o Rio para trabalhar.

     Depois de mais alguns minutos de conversa ela disse que ele estava apto para doar sangue e acompanhou-o até a porta da sala.  Quando ele ia saindo ela lhe deu um cartão de visita dizendo: “Se você sentir algum mal-estar ou tiver alguma dúvida pode ligar para mim.”

     Nenhuma das vezes que Pedro doara sangue no Recife, o que fazia regularmente uma ou duas vezes por ano, nenhum médico lhe dera o telefone para tirar alguma dúvida ou se queixar de algum mal-estar.

 

     Dois dias depois Pedro ligou para Flávia para dizer que nada sentira e conversaram por mais de meia hora.

     Ele perguntou se ela gostaria de sair juntos para algum lugar.

     Ela aceitou e combinaram se encontrar no cine Roxy e assistir a uma comédia romântica, que ela estava querendo assistir.

     Encontraram-se, assistiram ao filme. Depois foram jantar na churrascaria Jardim. Comeram um suculento filé e beberam uma taça de vinho tinto adoçado com açúcar.

     Flávia revelou que tinha se casado aos 25 anos com um colega médico e que a união durara apenas dois meses quando, sem que o casamento tivesse se consumado, seu marido lhe confessou que era gay e a abandonou.

     Ela voltou a morar com a mãe e há um ano estava sem sair com ninguém.

     Foram para o apartamento de Pedro e quando ele a penetrou pela primeira vez ela deu um pequeno grito. Não conversaram sobre o assunto, mas ele ficou desconfiado que a desvirginara.

     Flávia gostava de cinema e teatro. Foram assistir “A ópera do Malandro” de Chico Buarque. Gostaram muito e não entenderam porque a peça tinha sido proibida pela censura do Rio, não viram nada que ofendesse as instituições ou os bons costumes.

      Foram assistir também a um excelente show de Ney Matogrosso.

     Com três meses que estava namorando, Flávia lhe disse que conseguira uma bolsa de estudo do governo federal e, dentro de um mês, viajaria para a Inglaterra para fazer um doutorado durante quatro anos. Assim sendo, a partir daquele momento, ele poderia se considerar livre para procurar outra pessoa, se quisesse.

     Concordaram em continuar namorando até o dia da partida.

     Acompanhou-a até o aeroporto e depois que ela ultrapassou o portão de embarque o relacionamento estava oficialmente terminado.

 

 

 

                                                                Cap. XVI

 

     Depois conheceu Hilda, uma telefonista que trabalhava num grande banco no centro da cidade.

     A técnica de abordagem de Pedro era sempre a mesma; sentava ao lado no ônibus, afrouxava a gravata e falava baixinho voltado para a garota: “Ki calor”.

     Quase sempre funcionava, ou pelos menos conseguia um papo agradável até o ponto onde a garota saltava e dizia “não” quando perguntava se gostaria que a acompanhasse.

     Hilda era de Caruaru em Pernambuco, tinha vindo para o Rio há dois anos e morava num pensionato feminino no Leblon.

     Lourinha, baixinha, tinha 25 anos e estudava para concluir o segundo grau afim de prestar vestibular para a Faculdade de Direito. Queria ser advogada.

     Ela sempre passava os fins de semana com ele.

     Iam à praia, cinema, barzinho.

     Foram ao Pão de Açúcar e ao Corcovado que ela não conhecia ainda.

     Hilda gostava de sexo, o que compensava o defeito dela de falar demais.

     Certamente por ser telefonista ela não conseguia parar de falar.

     Quando chegava ao apartamento de Pedro na sexta à noite, depois da escola, ela se atirava em cima dele, tirava a sua roupa e iam direto para a cama.

    Eram no mínimo duas relações durante a noite.

    

    No outro dia, depois do almoço, Hilda começava a provocá-lo tirando a roupa no meio da sala e, encostando-o de costas na parede, começava a passar as nádegas no seu pênis, fazendo-o endurecer.

     Na sala tinha uma janela que dava para os edifícios no outro lado da rua. Quem estivesse na janela do outro lado, certamente estaria vendo Hilda nua se esfregando nele. Pedro percebeu que isto excitava Zilda e não se incomodou. Que importava que Hilda fosse uma exibicionista, desde que fizessem amor cinco a seis vezes cada fim de semana?

          Com um ano e meio de relacionamento, Hilda falou que estava cansada de morar no pensionato e viria morar com ele. As relações sexuais tinham se reduzido a três a quatro por semana.

     Só aguentou dois meses. Hilda não parava de falar o dia inteiro. Não conseguia mais ler um livro, assistir ao telejornal ou a um filme na TV com ela falando o tempo todo.  As relações sexuais se reduziram a duas a três por semana. Pedro pediu para ela voltar para o pensionato e continuaram se encontrando nos finais de semana.

     Hilda passou no vestibular e começou a estudar Direito.

     Um ano depois as relações tinham se reduzido a uma ou duas por semana. Hilda disse que sua irmã mais nova, com um ano de namoro ia casar e eles já estavam com mais de três anos de relacionamento, quando iriam se casar? Casamento estava totalmente fora de cogitação para Pedro. Resolveu então terminar com Hilda para que ela pudesse encontrar outro que estivesse disposto a contrair matrimônio. 

    

     Depois vieram:

     Eliana, Bacharel em Letras, funcionária pública, 26 anos. Quatro meses. Parecia muito com a mãe de Pedro e empanturrava-o de guloseimas. Ele sentia como se estivesse cometendo incesto com ela. Terminou.

 

     Clélia, auxiliar de enfermagem, 22 anos, sadomasoquista, um filho de 4 anos. Morava com o pai médico e a mãe enfermeira. Três meses.

 

“CLÉLIA” 

“Clélia é boa, generosa e muito corajosa. 
Enfrenta a vida com disposição e otimismo. 
Ela é alegre e carinhosa. 
Gosta de dançar e de fazer amor. 
Ela vive para amar. 
A motivação principal da sua vida é o amor. 
Por isso Cristina vive amando. 
Ama seus pais, ama seu filho e ama Pedro. 
E todos nós a amamos também. 
Amamos, mas não podemos prendê-la. 
Ela nasceu para ser livre 
E irá definhar se for presa numa “gaiola”. 
Quem a conhece 
Nunca mais esquece a sua maneira de amar. 
Ela não sabe dizer não. 
Ela gosta de dar e receber amor. 
Ela se doa exigindo em troca 
Apenas amor e compreensão. 
Ela ama todo mundo, 
Mas o mundo não entende Clélia.

P.”

   

 Clélia gostava de dentadas no bico do seio e palmadas fortes nas nádegas quando transavam na posição “papai e mamãe com entrada posterior”. Pedro não apreciava o sadomasoquismo dela, fazia para satisfazê-la. Ficou com medo de algum dia vir a machucá-la com uma mordida mais forte, como ela sempre pedia, e preferiu terminar.

 

“O QUE CLÉLIA QUER DA VIDA?” 

“Clélia quer dinheiro para fazer tudo que deseja. 
Clélia quer comprar uma casa, uma moto 
E colocar o filho numa boa escola. 
Mas, acima de tudo, 
Clélia quer encontrar um homem romântico, 
Carinhoso e bom amante. 
Clélia gosta de sexo e é apaixonada pela vida. 
Clélia gosta de passear, se divertir e sentir prazer. 
Por isso Clélia vive triste, 
Pois não tem independência financeira. 
Sua família não tem condições de lhe dar tudo que ela quer. 
E ela ainda tem um filho para cuidar. 
Clélia talvez não saiba, mas caiu numa armadilha. 
Não teve o estímulo adequado para estudar, 
Deixou-se levar por prazeres imediatos 
E não procurou preparar-se 
Para enfrentar a vida sem depender de ninguém. 
Ela poderia ter sido uma médica, uma advogada 
Ou qualquer profissão

Que lhe desse condições de manter-se sozinha. 
Capacidade para isso ela tem, 
Só precisava ter aplicado seu tempo 
E suas energias noutra direção. 
Mas ela ainda tem tempo para conseguir o que quer,

Ela é muito nova. 
Aproveite o dinheiro que você vai ganhar

Do pai do seu filho, vá estudar 
E especializar-se numa profissão. 
Pois quando o dinheiro acabar

Você não estará mais precisando dele. 
Você também vai encontrar alguém que vai lhe amar muito. 
Pois você é uma pessoa boa, sincera,

Generosa, espontânea, corajosa 
E merece todo o carinho

E consideração que este alguém vai lhe dedicar. 
Infelizmente não acredito que eu seja este alguém. 
Você seria infeliz ao meu lado

E eu seria mais infeliz ainda vendo você infeliz. 
Um grande beijo deste que vai admirá-la para sempre:

Pedro.”

 

     Suelen, estudante de enfermagem, 22 anos. Quatro meses. Ex-namorado pediu para reatar com promessa de casamento. Terminou amigavelmente com Pedro e voltou para o ex.        

 

      Soanala, estudante de psicologia, 29 anos, infiel. Um ano mais 5 meses. Seu nome foi uma homenagem a uma avó materna natural de Madagascar. Morava com o pai e uma irmã no bairro das Laranjeiras.

     Pedro tinha 1,65m de altura e Soanala 1,72m. Ela dizia que gostava de namorar com baixinhos porque tinham uma personalidade mais atraente que os altos que eram muito convencidos.   Passara dois anos na Alemanha para onde fugira para se livrar do marido que batia nela e ameaçara matá-la. Voltou para o Brasil para cuidar do pai que estava doente, mas pretendia voltar para o exterior.

 

“PROVISORIEDADE”

“Na vida tudo é provisório.
Cozinho num fogão de camping, logo, considero-me acampado provisoriamente neste apartamento provisório.
Tenho uma namorada provisória que está no Brasil provisoriamente.
A qualquer momento posso mudar de apartamento, de bairro, de cidade, de estado ou de país. Sou um cidadão provisório.
Estou alinhavando estas linhas provisoriamente porque só no final saberei sobre o que escrevi.
Fiz muitos planos que não se realizaram, portanto foram provisórios.
Hoje estou morando provisoriamente sozinho.
Pretendo fazer um acordo com a minha namorada provisória para morarmos provisoriamente juntos.
Acho o meu atual relacionamento provisório porque não estamos encarando as nossas diferenças. Estamos jogando tudo para baixo do tapete e, quando estivermos juntos, isso tudo vai explodir e deixar sequelas dolorosas em cada de nós.
Tenho muitas ideias provisórias que nunca conseguirei ver colocadas em prática porque dependem de decisões de pessoas que estão provisoriamente no poder.
A juventude é provisória, o amor é provisório, a felicidade é provisória, a vida é provisória. Não existe nada definitivo, a não ser a morte. Depois que você morre não existe outra oportunidade para você fazer que você se arrependeu de não ter feito durante a sua vida provisória.

Portanto, faça tudo o que você tem vontade de fazer enquanto você é provisoriamente dono da sua vida. P.”

 

     Com cerca de um ano de relacionamento Pedro descobriu que Soanala mentia para ele e perdeu a confiança que depositava nela.

 

“ULTIMATO” 

“Soanala veio ao meu apartamento hoje e deu-me um ultimato: ou eu voltava a confiar nela ou ela terminaria tudo entre nós. 
Respondi-lhe que se ela quisesse terminar podia terminar, mas confiar nela depois de tudo que ele fez, estava muito difícil. 
Fizemos amor e ela foi embora dizendo que estava tudo acabado entre nós. P.”

     Alguns dias depois de Soanala ter terminado com ele, Pedro recebeu dela a seguinte carta:


“Hoje amigo, ontem amado!!! 
Agradeço com carinho todos os nossos momentos, espero que sempre guardemos lembranças gostosas. 
Antes de tudo fomos amigos e continuamos a ser no decorrer do nosso relacionamento.

Uma coisa que não sentirei em relação a você é o remorso, pois a minha consciência me deixa dormir; tenha certeza que sempre lhe fui leal, fiel e honesta e não tenha dúvida que se cometi aquele erro de esconder no momento, o que fiz naquela “bendita” 3ª feira, não foi para lhe agredir e nem tão pouco lhe enganar. – Bom não vale a pena voltar a este assunto “Não me interessa mais!!”, pois fiz de tudo para você acreditar em mim e desculpar-me pela mentira. Como o perdão não é para todos e sim para “alguns” você não teve esta grandeza; - paciência!!

Agora o que me fez ficar chocada com você, foi o seu julgamento em relação a meu comportamento, você não teria este direito, pois nunca lhe dei motivos para tal!!, Ao contrário sempre “Falei demais” e você é igual aos outros homens, se faz de cabeça aberta porém não passa de uma grande mentira!!!

É por este motivo que as mulheres se calam e não contam nada o que realmente se passa com seus companheiros; ficam sim quietinhas e sonsas, pois assim o julgamento que os seus companheiros terão a respeito delas será “casto” – a minha mulher é uma santa!!! E tome chifre!!!! 
Quero que você saiba que não me arrependi de ter sido digna, fiel com você; fui porque gostava muito e muito de nossa intimidade, sempre você com “competência” me nutria e era realmente muito gratificante, apesar de suas acusações “nojentas” em momento algum e mesmo com muita raiva pensei: esse cara merecia mesmo ser enganado!!!

Mas isso não me ocorreu!! Eu sempre me orgulhei da satisfação que sentia com você, eu realmente me saciava e era em todos os sentidos: emocionais, intelectuais, fraternais e sexuais. 
Bom querido amigo, só lhe peço uma coisa – nunca mais julgue ninguém; pois isso é muito sério, por isso eu jamais faria magistratura, julgar diante de fatos reais, concretos é muito difícil e julgar por suposições é um verdadeiro crime e foi o que você fez comigo. E a pior coisa é ser “in-jus-ti-ça-do”. 
Quero que saiba que lhe desejo de todo coração que seja feliz e que encontre alguém para compartilhar de tudo que você tem de bom e que é muita coisa pode ter certeza, você é uma pessoa maravilhosa e cheia de amor para dar. 
Gostaria de sermos amigos e somente amigos e pode contar comigo querido para qualquer coisa que possa ainda lhe oferecer. 
Um abraço bem apertado com direito a todo carinho que sinto por você. 
Sua amigona: 
Soanala.” 
                     

 

Pedro respondeu à carta de Soanala:

“Querida Soanala: 
Tive o prazer de desfrutar da sua companhia durante mais de um ano. Um tempo de muitas alegrias e satisfações. 
Depois deste período, com altos e baixos em nosso relacionamento, descobrimos que não conseguimos nos apaixonar um pelo outro. 
Eu não tenho todas as qualidades que você procura num homem e você não tem o temperamento que eu procuro numa mulher. 
Se tivéssemos procurado realçar mais as qualidades do que os defeitos um do outro, talvez pudéssemos ter-nos apaixonado. Mas só realçávamos no outro aquilo que não gostávamos, esperando com isso que o outro mudasse de comportamento. 
Não minha querida, ninguém muda de comportamento assim de uma hora para outra.
Nosso comportamento é forjado por anos e anos de erros e acertos. 
Aos poucos vai se cristalizando na nossa personalidade aquela maneira de ser que, segundos nossos critérios, nos trouxe sucesso naquilo que buscávamos, seja conseguindo superar os outros, seja estragando o prazer deles quando não conseguíamos superá-los. 
Esse pouco mais de um ano com você representou para mim um “Doutorado em Relações Sexuais”, aprendi muito com você. Acredito que agora estou preparado para dar prazer àquela que consiga me amar com as minhas qualidades e os meus defeitos. 
Infelizmente perdi a confiança em você depois de você ter mentido por duas vezes para mim. Duas vezes você cancelou nosso encontro. A primeira vez dizendo que tinha que ir com seu pai para uma missa de sétimo dia de um colega dele que falecera uma semana antes. A segunda que tinha que ir com a sua irmã fazer compras para o aniversário do seu sobrinho.

Dias depois num jantar com seu pai e a sua irmã, nenhum dos dois confirmou a sua história. Quando chegamos ao meu apartamento, pedi-lhe explicações e você veio com outra história, dizendo que realmente tinha ido levar uns alimentos para uma família pobre na favela da Rocinha que você ajudava e talvez eu não concordasse que você fosse à favela sozinha, por isso não me contara. Pedi o telefone da pessoa para confirmar e você disse que ela não tinha telefone. Falei para irmos até à casa dela naquela noite mesmo e você, ofendida, disse que não ia porque eu tinha que acreditar na sua palavra. Sinto muito Soanala, você pode até não ter me traído, mas perdi totalmente a confiança em você, e sem confiança nenhum relacionamento vale a pena. Muito obrigado pelas alegrias e prazeres que você me deu. 
Um grande abraço do amigo de sempre:

Pedro.”

“FALTA DE CONFIANÇA” 

“Soanala terminou o relacionamento comigo há uma semana porque eu não confiava mais nela. Como é terrível não se confiar na pessoa que gostamos. Tudo que ela diz nós pensamos que é mentira. 
Ela percebeu que eu estava ficando esquizofrênico, desconfiando de tudo o que ela fazia. Entendeu que eu estava ficando doente como o seu ex-marido, por isso resolveu terminar. 

     Hoje ela me ligou dizendo que quer que eu continue dando aulas de matemática para ela e me convidou para a ceia de natal com a sua família na casa dela. Acho que nosso caso já se transformou num vício e ainda vai render muito até conseguirmos nos libertar um do outro. P.”                                                                                                                                                  

     Pedro foi cear na casa de Soanala. Ela o recebeu com vestido branco curto que deixava metade da coxa de fora e um decote ousado que, sem sutiã, deixava à mostra parte do seu seio. Durante a ceia, Pedro sentado ao lado dela, baixava a mão por baixo da mesa e alisava a sua coxa. Ela não dizia nada.

     Apesar de não confiar, Pedro reatou o relacionamento devido à performance sexual de Soanala que o faziam sentir grandes prazeres.

     Após cinco meses o pai dela faleceu e ela voltou a morar na Alemanha, casando-se com um tal de Fritz um ano depois.

     Regina, advogada, funcionária pública, 32 anos, consumidora compulsiva com surtos de depressão. Um ano e seis meses, sendo três morando juntos num apartamento que ela possuía na Zona Norte.

     Durante um episódio de depressão ela pediu que ele deixasse o apartamento dela.

     Foi para um hotel no meio da noite e no dia seguinte alugou um apartamento em Copacabana, pois entregara o anterior, e não retomou a relação com Regina apesar de alguns telefonemas dela sugerindo um retorno.

     Um ano depois ele soube, através de amigos comuns, que ela casara com um professor de matemática.

    

     Anos depois Pedro encontrou com Hilda num supermercado. Tinha concluído o curso de Direito, estava casada e montara um promissor escritório de advocacia junto com o marido.

     Pedro parabenizou-a pelas três conquistas e separaram-se sem trocar telefones.                                                                                   

 

 

    

 

 

 

 

 

 

                                                              Cap. XVII

 

“ONDE ESTÁ O AMOR?”

 

“Amei uma flor, a flor morreu.

Amei uma mulher, a mulher partiu com outro.

Amo o mundo. O mundo está morrendo.

Por que continuo amando?

Onde está o verdadeiro amor.

Conseguirei encontrá-lo algum dia?

 

O que é o amor?

Amamos apenas o belo,

Ou achamos belo o que amamos?

Não sei!

Vivo cheio de dúvidas e nenhuma certeza.

 

Tenho medo.

Medo de desperdiçar toda minha vida

À procura do amor

E no final descobrir que ele não existe.                                         

 

Metade da minha vida já se escoou,

Tive vários amores, nenhum deles

Conseguiu me satisfazer integralmente.

Cada dia estou pagando mais caro

Por um simples prazer.

P.”



 

 

“É PRECISO CANTAR O AMOR”

“É preciso cantar o amor.
Será que ele ainda existe?
Amar é desejar uma criatura
E nunca possuí-la.
Quando possuímos, acaba o desejo.
É preciso cantar a liberdade,
Liberdade é não amar ninguém.
Quando se ama perde-se a liberdade.
Se o amor é correspondido então
Trocou-se a liberdade pelo gozo do amor.
É preciso cantar a vida
Fazer de conta que está tudo certo,
Que temos direito à felicidade.
Amei e fui amado.
Agora já não sei o que é amor.
Canto uma coisa que não sei o que é.
No entanto é preciso cantar.
Quero o amor pelo amor,
Quero o amor pela conquista,
Vencer todas as resistências,
Provar a mim mesmo que sou capaz.
Não me satisfaço com um único amor,
Meu coração é capaz de abrigar o mundo.

P.”

 

     Depois de Regina, Pedro conheceu outras mulheres, mas já não sentia o mesmo tesão. Não conseguia manter a ereção até completar o ato. Algumas vezes teve que se masturbar para gozar. Preocupado procurou um andrologista que solicitou exames de sangue e dosagem de hormônios. Os exames deram todos normais e o médico falou que o problema era psicológico.

     Marcou com um psicólogo e, na primeira consulta, o profissional falou que era ex-padre, professor da Universidade Católica e que abandonara a batina para casar com uma das suas alunas.

     Pedro falou que tivera dezesseis namoradas nos últimos catorze anos e que ultimamente estava com dificuldades para atingir o clímax na relação.

     Ao falar que tivera dezesseis namoradas, Pedro notou um sorriso irônico no psicólogo. “Certamente já me diagnosticou como mitômano. Esse cara deve ter tido uma única namorada em toda a sua vida”. Pensou Pedro.

     Chegando em casa começou a relembrar seus relacionamentos para ver se não exagerara. Só conseguiu lembrar de treze e pelo nome apenas dez.

     Após a segunda sessão de terapia, Pedro percebeu que, após trocar de parceira, o seu desempenho sexual voltara ao normal. Na terceira sessão agradeceu ao ex-padre e encerrou o tratamento.

   

     Na empresa Pedro estava ganhando a confiança dos chefes, pelas opiniões acertadas, pelas sugestões oportunas e, principalmente, pela grande capacidade de trabalho que possuía. Nesta época ele foi encarregado de participar de uma comissão para planejar a construção de um hotel em Natal no Rio Grande do Norte, aproveitando os incentivos da SUDENE.

     O hotel teria 500 apartamentos, 5 campos de golfe, 6 piscinas, quadras de esportes e outros equipamentos de lazer no litoral da região metropolitana de Natal.

     A SUDENE, Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, era um órgão que o Governo Federal criara para financiar projetos que quisessem se instalar no Nordeste.  As empresas podiam descontar grandes somas dos seus impostos para aplicar naquela região através da SUDENE.

     Desde o início Pedro fora contra a ideia. "Para que construir hotel com 5 campos de golfes se o brasileiro não tem predileção por esse esporte e em uma região tão carente de outros tipos de serviços e equipamentos?”  Argumentava ele.

    “Devemos aproveitar o “boom” do turismo internacional na região que é famosa por suas belas praias de água morna.

      Aproveitaremos a mão de obra abundante e barata na região. Geraremos cinco mil empregos durante a construção, depois serão necessários apenas cinquenta funcionários para o hotel funcionar e o país ganhará divisas com os estrangeiros que nos visitam”.

     “Pensem no que vai acontecer ao término da obra com essas pessoas, grande parte vinda do interior. A maioria não voltará para suas cidades, fixando-se em favelas, aumentando o número de desempregados em Natal, agravando ainda mais os problemas sociais da cidade”. Continuava Pedro.

     “Poderíamos implantar projetos de irrigação para plantar frutas como caju, manga, uva para exportação. Fazendas para criação de gado, fábrica de tratores, indústria de laticínios, construir casas populares, para diminuir o déficit habitacional, qualquer coisa que melhorasse a situação da população”. Insistia Pedro.

     "Tudo isso é muito trabalhoso e o lucro é pequeno, não compensa". Retrucavam os outros.

     "Melhorar a vida do povo é problema do Governo. O nosso é garantir o lucro dos acionistas com o menor risco possível, pois disso depende os nossos empregos."                     Encerravam eles.

      Depois de um ano e muito dinheiro gasto em estudos e propinas pagas a vereadores e funcionários da prefeitura, a licença ambiental para a construção foi negada porque o projeto previa a destruição de dunas e o aterramento de uma área de mangue, ações totalmente proibidas pela legislação ambiental federal.

      Até ameaças de morte recebeu a consultora contratada que deu o parecer contrário à construção. Ameaças feitas supostamente por políticos interessados na arrecadação de impostos que o hotel geraria.

     A Atlas desistiu do projeto e ficou com o prejuízo.

 

                                   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                              Cap. XVIII

 

     Durante cinco anos Pedro trabalhou duro, conquistando um elevado conceito entre os colegas e superiores, tanto por sua simplicidade, quanto por sua inteligência e método de trabalho.

     Isto possibilitou a sua ascensão à chefia do Departamento de projetos da empresa quando da aposentadoria do seu chefe.

 

     Durante uma festa de aniversário na casa de um dos diretores, ele conheceu Larissa, filha do Dr. Fernando Seabra, Presidente da Atlas, um homem que durante todos esses anos que trabalhara lá não vira mais que uma dúzia de vezes.

     Foi apresentado à Larissa que, apesar de muito rica, estava vestida discretamente. Um vestido verde simples e como adornos brincos, colar e pulseira, formando um conjunto sóbrio e de muito bom gosto.

     Larissa era muito bonita. Os cabelos castanhos claros presos por trás da cabeça abriam-se em leque e desciam até as costas, muito lisos e finos. Os olhos, também castanhos, brilhavam quando ela sorria.

     Ela estava concluindo o curso de psicologia e pretendia trabalhar depois de formada. Não queria viver às custas do pai a vida toda.

     Pedro gostava de se manter em forma fisicamente e três vezes por semana à noite ele ia a uma academia fazer ginástica. Larissa também praticava ginástica numa academia.

     Pedro sentiu-se atraído por Larissa.

     Ela, além de bonita, possuía uma cultura bastante ampla.

     Não era fútil como a maioria das mulheres do seu nível social e seus olhos irradiavam uma luz que transmitia uma sensação de paz e tranquilidade.

     Conversaram bastante tempo sobre música, teatro, literatura.

     Pedro, que nesses últimos anos lera muito, frequentara teatros e participara de vários eventos culturais, pode avaliar que ela possuía um elevado grau de conhecimentos apesar de ter apenas 20 anos.

     Quando se despediram no final da festa, ela ficou de ligar para ele, a fim de marcarem um passeio para se conhecerem melhor.

     Somente uma semana depois é que ela ligou.

     Pedro já havia perdido as esperanças de que ela lhe telefonasse e por isso não reconheceu a voz dela quando atendeu o telefone.

     Quando ela se identificou, Pedro estremeceu.

     Pediu para ela esperar um pouco, respirou fundo alguns instantes e voltou ao aparelho.

     Concordaram se encontrar nesta mesma noite em um barzinho à beira-mar.

     Pedro chegou ao local com meia hora de antecedência e na hora exata Larissa chegou.

     Ficaram longo tempo conversando, sentados nas cadeiras espalhadas pela calçada.

     Ele contou-lhe como era difícil a vida no Nordeste.

     Quanta miséria e quanto sofrimento havia por lá e como ele tivera que lutar para chegar até ali.

     Larissa escutava tudo com atenção, fazendo perguntas de vez em quando, para saber mais detalhes de uma coisa ou outra.

     Depois ela contou a vida dela:

     Nascera em berço de ouro e nunca tivera dificuldades, nem trabalhara.

     Estava com 20 anos e sentindo-se uma inútil. Queria fazer alguma coisa pelos outros, ajudar as pessoas.

     Passearam um pouco pela praia de mãos dadas. Depois ela pegou o carro e foi embora.

    

     Continuou encontrando-se com Larissa e, depois de alguns encontros, levou-a para conhecer seu apartamento. Chegando lá serviu-lhe uma bebida, colocou um disco de música popular e começaram a dançar.

     Nos encontros anteriores haviam dançado algumas vezes, mas ela sempre ficava um pouco tensa, contraída.

     Agora depois de alguns drinques, ela descontraiu-se, tirou o casaco, colocando à mostra os ombros ligeiramente bronzeados pelo sol de Copacabana.

     Duas marcas brancas de pele desciam dos ombros até onde começava o vestido sem alças, com um decote que deixava à mostra a parte superior dos seios brancos e firmes.

     O restante do vestido descia colado ao corpo, modelando sua figura esbelta.

     Dançaram com os corpos cada vez mais colados um ao outro. 

     Beijou-a, a princípio delicadamente, depois com ardor e volúpia.

     Ela correspondia a todos os seus carinhos com um gemido baixo. A língua dela penetrava na sua boca e ele sentia o gosto da bebida.

     Foram se despindo aos poucos, sempre dançando, tirando peça por peça, ao compasso da música.

     O corpo de Larissa era perfeito. Os seios tinham os mamilos róseos apontados para cima. A barriga era lisa, sem um grama de gordura. Suas pernas desciam dos quadris até aos pés, torneadas como se tivessem sido esculpidas por um gênio em madeira de lei.

     Pedro sugou-lhe a boca, os seios e cobriu todo o seu corpo de beijos.

     Já era madrugada quando, exaustos, adormeceram abraçados.

    

     Depois dessa noite, passaram a se encontrar sempre no apartamento dele.

     Saíam para jantar, depois passeavam pela praia, conversando sobre a vida deles ou sobre os graves problemas sociais do país e sobre a luta desigual que os pobres enfrentavam para sobreviver.

     Geralmente ela passava a noite com ele e saíam juntos no dia seguinte.

 

     Quando já estavam com mais de um ano nessa situação, Pedro encontrou Eulália.

     Ia passando por uma praça em direção ao trabalho quando a viu. Eulália estava lá.

     Bonita como sempre a imaginara.  Amadurecida, bem vestida e com um ar de nobreza no porte.

     Pedro sentou num banco perto e ficou observando-a.

     Ela estava brincando com duas meninas que corriam sem parar de um brinquedo para outro. Ela sempre atrás chamando a atenção delas;

     "Cuidado para não cair.

     Cuidado para não se machucar" e sorria com as peraltices das meninas.

     Pedro estava preso de forte emoção.

     O sorriso dela era o mesmo, provocando frêmitos no seu coração.

     "Será que devia falar com ela? Devia dar-se a reconhecer?

     Lembrar aquelas últimas férias no engenho?

     Ou devia ir embora e esquecer tudo?

     "Mamãe, mamãe, me balança aqui".

     Era a menina mais velha que correra até um balanço e chamava por ela que estava ocupada com a mais nova num escorrego.

     Pedro levantou-se e foi balançar a menina.

     A menina agradeceu com uma voz melodiosa e, enquanto ele a balançava, ela não parava de falar.

     Era muito comunicativa e extrovertida a garota.

     Disse chamar-se Renata e que tinha cinco anos, próximo de completar seis.

     A irmã chamava-se Paula e tinha dois anos.

     Eulália aproximou-se e agradeceu-lhe estar balançando a menina, mas não demonstrou reconhecê-lo.

     Pedro pagou pipocas e sorvete para as meninas que ficaram logo suas amigas e despediu-se prometendo voltar no dia seguinte com mais tempo para brincar.

     Quando ia se afastando Eulália gritou:

     "Como é o seu nome?

     "Pedro" gritou ele de volta.

     “Como?”

     Perguntou ela mais uma vez, colocando as mãos em concha no ouvido para escutar melhor.

     "Pe-dro", gritou ele espaçadamente e foi embora.

     Não sem notar que Eulália ficara olhando para ele com um olhar pensativo depois que escutara o seu nome.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                 Cap. XIX

 

     No dia seguinte, na mesma praça, lá estava Eulália com as meninas novamente.

     As meninas quando o viram, correram para ele. Apanhou-as no colo e ofereceu-lhes chicletes que havia trazido no bolso. Elas saíram correndo, dando gritinhos de alegria.

     Eulália aproximou-se e cumprimentou-o:

     "Como vai Pedro?"

     "Eu vou bem. E você?" Respondeu.

     "Tudo bem". Respondeu ela.

     Ficaram algum tempo em silêncio, olhando um para o outro.

     Depois ela falou:

“Você está diferente, cresceu, está elegante, nem parece aquele menino de calças curtas e chapéu de palha que vivia trepado nas mangueiras, lá no Engenho.".

      "É! Eu mudei.” Falou ele.

      "Mas você continua a mesma, só um pouco mais alta e mais bonita".

     "Que é que você tem feito?

     Recebi notícias do engenho de que você desaparecera sem dizer nada a ninguém. Meu tio ficou muito magoado com você. Você sabe como ele gostava de você.

     E você sumiu sem falar nada."

"É, eu tive que fazer daquela maneira, pois do contrário ele não teria permitido que eu partisse.”

     Fui para o Recife, trabalhei, estudei e estou aqui".

     "Eu soube que sua mãe morreu. Sentimos bastante; ela era como se fosse uma pessoa da nossa família."

     "Eu sei, mas não havia médicos na cidade e quando a levei para Recife já foi tarde. Não consegui cuidados para ela a tempo".

     Sentaram-se num banco e continuaram conversando enquanto as meninas corriam pela praça, passando de um brinquedo para outro, sem demorar em nenhum.

     "Foi muita coincidência você encontrar-me aqui." Falou Eulália.

      “Voltei há alguns meses da Europa e poucas vezes venho com as meninas para a praça.

     Mas, como esta semana a babá foi embora, eu tive que vir com elas todos os dias.

     Porém até hoje apenas, pois a partir de amanhã já teremos uma nova babá e se quisermos continuar a conversar, teremos que combinar outra hora, porque pela manhã eu tenho ginástica num dia e aulas de música no outro.".

     Combinaram encontrar-se à tarde do dia seguinte numa sorveteria de Copacabana.

     No dia seguinte encontraram-se e passaram boa parte da tarde conversando.

     Eulália contou que casara por interesse da família.

     Seu marido era dono de várias indústrias e ela para atender aos pedidos da família, casara-se aos 18 com ele que tinha 45 anos.

     Disse que ele era muito bom para ela, mas vivia viajando a negócios e ela ficava a maior parte do tempo sozinha com as meninas.

     Mudaram-se para o exterior e ela sentia muita solidão na Inglaterra, com muita saudade do Brasil e da praia. Por isso resolvera aprender música para preencher o tempo.

     Pedro falou-lhe do seu trabalho e da sua vida de uma maneira geral, omitindo, por enquanto, apenas a parte referente à Larissa.

     Eulália demonstrou interesse em conhecer o apartamento dele, mas ele deu uma desculpa qualquer e foram a um motel na Barra da Tijuca.

     Amaram-se com paixão.

     Ele pelos longos anos de sonhos e desejos acumulados, esperando reencontrá-la um dia. Ela, pela insatisfação e tédio em que vivia.

 

     Eulália e Pedro continuaram se encontrando duas a três vezes por semana sempre à tarde.

     Ele inventava uma desculpa qualquer na empresa, pedia para a secretária anotar os recados e ia se encontrar com Eulália.

     Clarissa estava notando que Pedro estava diferente. Já não lhe dispensava a mesma atenção que antes.

     Raramente encontrava-o no escritório à tarde.

Ia para o seu apartamento e ele demorava a chegar, dizendo que estivera resolvendo negócios.

     Antes eles faziam amor em média três vezes por semana. Agora para tê-lo uma vez por semana era um sacrifício. Ele dizia que estava cansado, indisposto ou com dor de cabeça.

     Chegou a passar uma semana sem tê-lo e ele não dera a mínima importância ao fato.

     Clarissa começou a sentir que estava sendo desprezada e descobriu que gostava de Pedro mais do que imaginava.

     Tentou agradá-lo de várias maneiras. Esmerava-se em estar sempre alegre e bem-disposta. Não ficava incomodando-o com pequenas coisas. Trabalhava muito o coitado.

 

     Pedro estava cada dia mais apaixonado por Eulália.

     Não lhe agradava entrar furtivamente em motéis, pois Eulália, conhecida na sociedade, temia ser vista por algum repórter de alguma revista de fofocas e o seu marido terminar descobrindo o que ela fazia quando saia sozinha dizendo que ia fazer compras.

     Queria que ela fosse ao seu apartamento que era num prédio misto com salas de dentistas, advogados, etc, onde seria mais fácil ela passar despercebida.

     Por isso, uma noite, contou tudo a Larissa e pediu para ela não vir mais ao seu apartamento.

     Ela chorou muito, pedindo para ele pensar mais um pouco, afinal a outra era casada, tinha filhos. Ele iria destruir um lar.

     "Daremos um jeito". Falou Pedro.

     Ela continuou tentando dissuadi-lo.

     Ele estava constrangido com a situação, mas estava inabalável.

     Depois de chorar bastante, Clarissa acalmou-se e falou:

     "Está bem. Não o incomodarei mais.

     Aqui estão as chaves".

     Tirou da bolsa as chaves do apartamento, colocou na estante, enxugou os olhos, ajeitou o vestido e saiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                 Cap. XX

 

     Nas reuniões da empresa, Pedro sempre dava sugestões para baixar os preços e melhorar a qualidade dos produtos.

     Ele batia-se principalmente contra a vultosa quantia gasta em publicidade, que encarecia em mais de 10% o custo dos empreendimentos.

     "Nós temos que vender". Exclamava o chefe do departamento de vendas. “E a propaganda é a alma do negócio.”

     “Temos que anunciar através do rádio, da televisão e dos jornais para convencer os compradores de que os nossos produtos são os melhores do mercado em termos de custo/benefício”.

    Pedro não concordava, mas tinha que se submeter à opinião da maioria.

     A empresa saturava os meios de comunicação com as suas propagandas, e as pessoas terminavam comprando, pagando no preço do imóvel o custo da construção, acrescido do lucro do construtor e todo o dinheiro gasto com publicidade.

 

     Dois meses depois que rompera com Larissa, Pedro foi chamado ao gabinete do Dr. Fernando, pai de Larissa e presidente da Atlas. 

     Entrou, cumprimentou o presidente, que com um gesto de cabeça mandou-o sentar e ficou olhando para ele alguns minutos.

     Pedro começou a ficar incomodado.

     A princípio pensara que havia sido chamado ali por alguma questão de serviço, mas estava começando a desconfiar que o assunto não era de cunho profissional.

     "Dr. Pedro, o senhor está na nossa empresa há mais ou menos dez anos, e pelo seu esforço e competência, já ocupa o posto de chefe de departamento.

     Eu nunca lhe disse Dr. Pedro, mas desde o início admirei a sua capacidade de trabalho e a sua preocupação em simplificar as coisas.

     Sua preocupação em diminuir os custos da construção para baratear o preço final para o comprador. Diminuir o supérfluo em benefício do essencial.  O senhor não é como os chefes dos outros departamentos que só fazem balançar a cabeça, concordando com tudo o que eu digo.      

     O senhor não, procurava mostrar a sua opinião, apresentava argumentos e muitas vezes voltei atrás em algumas decisões minhas, por sua causa.

     Lembro muito bem da sua objeção àquela construção do hotel no Rio Grande do Norte que nos deu um enorme prejuízo."

     Pedro sentiu-se envaidecido e esboçou um sorriso de agradecimento.

     "Pois bem. Continuou o Dr. Fernando."

     "Nossa empresa deve muito ao senhor, pelo seu trabalho e dedicação. Estou lhe dizendo isso porque um dos nossos vice-presidentes, o Dr. Fagundes, estará completando 40 anos na empresa o mês que vem, e pretende se aposentar para descansar e gozar um pouco os anos que lhe resta de vida.

     Com isso teremos vaga a vice-presidência da área de projetos e eu terei que escolher outro vice-presidente. Existem vários diretores e chefes de departamento com muito mais tempo na empresa que o senhor, mas como lhe falei no início, confio mais na sua capacidade. O que o senhor acha?"

     Pedro ficou surpreso, sua cabeça girava.

     Depois de algum tempo, gaguejando conseguiu falar:

     "Eu não sei. Eu acho que não mereço. Eu não sou capaz."

     "Capacidade o senhor tem, não precisa se preocupar com isso.

     Só precisamos ajeitar algumas coisas antes.

     O Senhor sabe, um vice-presidente representa a empresa no meu impedimento. Tem que participar de certas solenidades e reuniões sociais. Reuniões essas onde os participantes são figuras da nossa mais alta sociedade. Todos acompanhados das suas respectivas esposas, e um rapaz solteiro não ia se sentir à vontade no meio delas.

     Eu não sei o que Larissa viu no senhor melhor do que nos jovens do nosso relacionamento social, mas a verdade é que, de uns dois meses para cá, desde que vocês acabaram o relacionamento, ela não sai mais de casa para lugar nenhum.

     Não está se alimentando direito, só fica pelos cantos chorosa e pensativa.

     Está irreconhecível, me dói vê-la nesse estado. Ela é minha única filha e eu não quero vê-la assim.

     Dessa forma eu pensei que vocês podiam deixar de lado essas tolices comuns entre os jovens e, como é do meu agrado, marcarem o casamento para o mais breve possível.

     A sua nomeação como vice-presidente, seria o meu presente de casamento".

     Foi como se Pedro tivesse levado um soco no estômago, ficou pasmo.

     Nunca pensou que pudesse receber uma proposta tão indecorosa como aquela; querer comprá-lo para a filha com um cargo!

     Bem que ela lhe dissera que ele se gabava que podia comprar tudo o que desejasse.

     Mas com ele a coisa era diferente.

     Levantou-se e saiu batendo a porta atrás de si.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

                                                              Cap. XXI

 

     Foi para o apartamento e ligou para Eulália.

     Não conseguiu encontrá-la. Informaram-lhe que tinha ido passar uns dias fora com o marido.

     Esquecera que ela tinha lhe comunicado.

     "Puxa" logo agora!" Pensou Pedro.

     Ficou o resto do dia andando de um lado para o outro pensando no que fazer. 

 

     No outro dia logo cedo, recebeu uma ligação de Clarissa.

     "Meu pai contou-me tudo, Pedro.

     Só quero que você saiba que eu não tive nada a ver com o que ele falou. Não pedi a ele para fazer nada, foi tudo ideia dele.

     Eu sabia que você não aceitaria uma proposta daquelas, e eu não quero você dessa maneira."

     "Tudo bem, diga a seu pai se ele quiser um marido para a filha, faça a proposta a qualquer um daqueles puxa-sacos da empresa que eu garanto que irão correndo pedi-la em casamento, mas comigo não".

     Escutou-a soluçar do outro lado da linha.

     Fora ríspido demais. Ela não merecia, não tinha culpa pelo que o pai fizera. Mas estava muito revoltado com tudo.

      Não conseguira dormir à maior parte da noite, e estava angustiado porque só poderia se comunicar com Eulália, daqui a dois dias, quando ela voltasse da viagem.

     Pediu-lhe desculpas e disse que ela não se preocupasse, que tudo iria se ajeitar, e desligou.

 

     Quando Eulália voltou, veio ao apartamento e ele contou-lhe tudo que tinha acontecido.

     "O que é que você vai fazer agora?". "Perguntou ela".

     "Vamos para o Recife Eulália".

     Arrumamos nossas coisas e vamos embora.

     Lá eu arrumo um emprego, alugo um apartamento e poderemos desfrutar o nosso amor sem restrições."

     "O quê?" Exclamou ela admirada.

     "Você está falando sério".

     "É claro que estou falando sério.

     Você não quer vir comigo?”

     “E as meninas”? Indagou ela.

     “Virão conosco, naturalmente”. Disse ele.

     Eulália ficou olhando para ele incrédula, depois falou:

    “Vamos pensar um pouco Pedro.

     Moro numa cobertura na Avenida Atlântica, tenho três empregadas, minhas filhas estudam nos melhores colégios e frequento a mais alta sociedade do Rio de Janeiro. Você acha que eu iria me adaptar num apartamento num subúrbio qualquer do Recife”?

    “E o nosso amor”? Insistiu ainda Pedro.

    “Quando você me falou sobre Larissa não pedi para você deixá-la. Por que está me pedindo isso agora?”

     “Gosto muito de você Pedro, desde o tempo do engenho Mandacaru, mas não posso trocar a vida que tenho aqui para viver com você no Recife, nem posso negar às minhas filhas o amor, o conforto e tudo o que o pai delas tem para lhes oferecer.”

     Pedro não estava acreditando no que estava ouvindo.

     Não era possível! Não era possível que a sua Eulália, a criatura que ele amara durante toda sua vida, não o queria agora.

     Usara-o apenas para preencher o seu ócio.

     Não passara de um passatempo para ela.

     "Olha Pedro, eu gosto de você, mas vamos ser realistas está bem?" e saiu fechando a porta atrás dela.

     Foi a última vez que viu Eulália.

    

     Pedro passou dois dias vagando sem destino, de um lado para outro da cidade, sem saber o que fazer, sem saber aonde ir. Não foi trabalhar, caminhou durante muito tempo, levando chuva e sol. Só não se embriagava, porque detestava bebida, mas estava andando como um bêbado, arrasado. Se alimentava mal e tinha sonos agitados, sonhando com Eulália.

 

 

TRISTE E SÓ”

“E ninguém notou que eu estava tão triste naquele dia.
Passei entre eles com a minha tristeza estampada no rosto
Mas, estavam todos tão ocupados consigo próprios, que ninguém notou.
Eu, que vivia sorrindo de tudo,
Que sempre tinha uma frase de estímulo para os que fraquejavam,
Não encontrava agora nem uma palavra de conforto.
Andei por todos os lados.
Em todo canto encontrava grupos divertindo-se
E ninguém me dava a menor atenção.
É incrível que, ainda ontem, me procuravam
Para que eu os divertisse com minhas brincadeiras.
Agora me repudiavam.
Se eu não podia diverti-los,
Não viesse perturbá-los com minha tristeza.
E eu saí e caminhei só, durante muito tempo.
A chuva ensopou meus cabelos e a minha roupa.
Depois o sol brilhou, enxugando as ruas.
E eu continuava a caminhar,
Triste e só.  P.”

     Na tarde do terceiro dia, sem saber como, foi parar no portão da casa de Larissa na Gávea.

     Tocou a campainha e uma empregada veio atender. Ele disse quem era e momentos depois Larissa veio encontrá-lo. Quando o viu naquele estado, seus olhos encheram-se de lágrimas e abraçou-o chorando. Abraçou-se com ela chorando também.

     A empregada afastou-se discretamente. E eles ficaram muito tempo abraçados, chorando. Depois ela o conduziu para o interior da casa, fê-lo tomar um banho, barbear-se, serviu-lhe uma refeição ligeira e deixou-o dormir na cama dela, durante o resto do dia e a noite também. Passou a noite sentada numa poltrona ao lado da cama olhando para ele, até que o sono a venceu. Pedro teve um sono agitado. Várias vezes pronunciou o nome de Eulália, e algumas vezes falou o nome de Larissa também.

     Quando Pedro despertou, pediu-lhe perdão por tudo que a tinha feito sofrer, e disse que se ela o perdoasse, ele iria fazer tudo para fazê-la feliz, pois ainda a amava.

                                                                Cap. XXII

 

     Pedro e Larissa queriam uma solenidade discreta, somente com os familiares e alguns amigos próximos, mas o pai dela fez questão que o casamento fosse em grande estilo, com muitos convidados; jornalistas, colunistas sociais, autoridades, etc.

     Isso geraria notícias em jornais, rádios e televisões da cidade o que seria muito bom para a empresa, dizia ele.

     Como ele e Larissa não praticavam nenhuma religião, concordaram em casar apenas no civil.

     A recepção foi no hotel Copacabana Palace com 200 convidados e a festa durou até o outro dia pela manhã.

     No dia seguinte Larissa e Pedro viajaram em lua de mel para Cuba, país que eles tinham curiosidade de conhecer devido ao sistema político diferente do capitalismo que eles estavam cansados de conhecer.

     Os primeiros dias em Cuba foram maravilhosos; hotel de luxo, restaurantes finos e praias belíssimas.

     Pedro estranhou que no hotel só houvesse hóspedes estrangeiros. Cubanos só os empregados que, desde a arrumadeira até o gerente do hotel, se comportavam sem subserviência uns com os outros e com os hóspedes.

     Conversando com uma das arrumadeiras do hotel, Yanet, com a qual fizeram amizade, eles ficaram sabendo que os cubanos não podiam se hospedar nos hotéis melhores, reservados para os turistas.

     Para eles só os hotéis de padrão inferior. 

     Como eles disseram que gostariam de saber como viviam os cubanos, Yanet convidou-os para a festa de aniversário do filho dela que seria no domingo seguinte.

     Aceitaram com entusiasmo.

     Compraram um belo relógio para dar de presente ao filho de Yanet e, no domingo, tomaram um coco-taxi, triciclo aberto dos lados que fazia transporte de passageiros, e foram ao endereço no subúrbio que Yasmin lhes dera.

     Passaram por muitas ruas com sobrados antigos, malcuidados e a pintura desbotada.

     A casa de Yanet era um quarto, sala, cozinha e um banheiro construído na parte de trás da casa dos seus pais, um pouco maior que a dela.

     A festa foi muito animada. Pedro e Larissa foram muito bem recebidos por todos e aprenderam a dançar “La Cumbia” com as irmãs de Yanet.

     O aniversariante, Ralph, que completava sete anos de idade agradeceu muito o relógio que iria fazer inveja aos colegas da escola.

     A moeda cubana era o Peso, mas o dólar americano, que valia 24 pesos, circulava livremente, pois muitos cubanos recebiam dinheiro de familiares que viviam nos Estados Unidos.

     Cada cubano residente nos EUA enviava em média 300 dólares por mês para a família. Como o número de cubanos nos EUA superava um milhão de pessoas, isso significava mais de 300 milhões de dólares entrando na economia de Cuba todos os meses.

     E esse foi o motivo para o presidente Bush Junior limitar a remessa dos cubanos para Cuba em 100 dólares por mês quando assumiu a presidência.

     Era proibido o voo direto dos EUA para Cuba. Quem quisesse viajar para Cuba teria que ir via México ou outro país qualquer. Quem entrava em Cuba não tinha o passaporte carimbado registrando a entrada. Recebia um comprovante à parte, pois se constasse no passaporte a visita a Cuba, a pessoa passaria cinco anos proibida de entrar nos EUA.

     O mesmo se aplicava às viagens marítimas; navio que aportasse em Cuba era proibido de aportar nos EUA. Essas eram algumas medidas que faziam parte do bloqueio com que os EUA sufocavam a economia cubana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                              Cap. XXIII

 

     A mãe de Yanet, Maydelin, era professora e dirigia uma escola com dois mil alunos e o pai, Fernandez, um oficial reformado do exército.

     Maydelin, por ser diretora, ganhava um salário equivalente a 50 dólares por mês e Fernandez ganhava o equivalente 35 dólares, que era o salário padrão para os profissionais com nível superior em todo o país.

     Profissionais de nível médio ganhavam o equivalente a 25 dólares.

     Ninguém pagava aluguel, pois todas as casas pertenciam ao estado e o governo as cedia gratuitamente para a população, mas havia um déficit de habitações obrigando os jovens recém-casados a morarem com os respectivos pais ou construírem um anexo à casa dos mesmos, como fizeram Yanet e Rasmid.

     Rasmid, marido de Yanet, era engenheiro mecânico e trabalhava na TV 4, uma das quatro emissoras de TV estatais de Cuba.

     A programação constava de informativos, debates, programas educativos, cursos de línguas estrangeiras; inglês, francês e português. Novelas cubanas, brasileiras, mexicanas e filmes de várias nacionalidades, inclusive americanos.

     As TVs não veiculavam propaganda comercial.

    Como não havia intervalo comercial durante as programações se você se afastasse da sala, para ir ao banheiro por exemplo, você perdia parte do que tivesse assistindo.

    Não havia TV privada em Cuba e nem havia liberdade de imprensa. Jornais, rádios e TVs, não podiam criticar as políticas governamentais.                                   

 

     Rasmid ganhava 35 dólares na TV4 e nos finais de semana trabalhava na implantação do ar-condicionado de um hotel recém-construído pelo famoso escritor colombiano Gabriel Garcia Marques. Trabalhava dois dias, sábado e domingo, no hotel e ganhava 100 dólares por cada dia trabalhado.

     Como Rasmid não dava conta do trabalho sozinho, ele levava dois colegas para ajudá-lo e dividia o que recebia em três partes iguais, um terço para cada um.

     A maioria dos carros em Cuba era de fabricação americana tinha mais de 50 anos de idade.

     Devido ao bloqueio, não havia peças de reposição originais para esses carros. Isso fez com que os mecânicos das oficinas se tornassem hábeis em fabricar as peças que faltavam.

     Não era raro ver carros parados com algum defeito pelas ruas.

     O meio de transporte de Rasmid era uma bicicleta, não tinha dinheiro para comprar um carro e ele, como era contrário ao regime, andava para todo lado com uma pasta cheia de publicações subversivas.

     Se fosse apanhado pela polícia ele teria sérios problemas com a justiça.

     Escola e assistência médica eram gratuitas.

     Não existia analfabetos, todos que nasceram depois da revolução cubana em 1959 tinham pelo menos dez anos de estudo e a maioria dos jovens estava cursando universidades ou já tinha concluído algum curso superior.

     Água, luz, telefone e transporte eram praticamente gratuitos.

     Por causa do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, a comida era racionada:

     Crianças até 7 anos de idade tinham direito a um litro de leite por dia de graça.

     Todos tinham direito a um pão francês de 200 gramas por dia e três pescados (peixes) por mês, também sem pagar nada.                                            

     Nos armazéns do governo, só se podia comprar uma cesta básica por família por mês com arroz, feijão, açúcar, óleo, etc, em quantidade proporcional ao número de membros de cada família.

     Segundo o governo essa cesta, que custava 4 pesos, menos de 20 centavos de dólar, daria para alimentar toda a família por trinta dias, mas segundo Rasmyd só dava para 15 dias. Quando a cesta acabava tinham que comprar comida nos mercados normais onde tudo era bem mais caro.

     Somando o salário e tudo o que era oferecido gratuitamente pelo governo, dava o equivalente a um salário de duzentos dólares mensais.

     Um médico morava na mesma rua e no mesmo tipo de casa que um auxiliar de enfermagem. Da mesma forma que um engenheiro e um pedreiro.

     Não existiam ricos nem miseráveis em Cuba.

     O padrão de vida da população de uma maneira geral era semelhante ao da classe C no Brasil e a criminalidade lá era quase inexistente. Os poucos homicídios que haviam lá por ano eram, em sua maioria, motivados por questões passionais.

     Se não fosse pelo injusto e desumano embargo econômico imposto pelo governo dos EUA, tantas vezes condenado pela ONU, o nível de vida dos cubanos poderia ser bem melhor.

                                                              Cap. XXIV

 

     O Pai de Yanet apoiava o regime de Fidel Castro, mas seu genro, Rasmid, criticava duramente o governo. De uma maneira geral, os mais velhos estavam satisfeitos com o socialismo, comparando com a situação anterior à revolução castrista quando havia mais miséria, fome e delinquência. Porém os mais jovens queriam mais, não estavam satisfeitos apenas com moradia, educação e assistência médica de qualidade. Queriam celulares, motos, computadores, jeans e tênis de marcas famosas, itens inacessíveis para a maioria que vivia exclusivamente com o salário pago pelo governo.

     Pedro queria saber o que a população achava. Vira nos últimos meses pela televisão no Brasil e agora em Cuba que, quando o governo convocava uma manifestação, mais de um milhão de pessoas ia à rua em apoio ao regime.

     Segundo Rasmid o povo ia às ruas para não perder a gratificação semestral de 70 dólares que recebia do governo, quem não fosse não recebia.          

     A presença nas manifestações era aferida pelo inspetor, uma espécie de síndico, que supervisionava cada quarteirão da cidade e providenciava os ônibus para transportar os manifestantes.

     Cada quarteirão tinha um inspetor escolhido entre os próprios moradores.

     Fernandez confirmou a perda da gratificação para quem não ia, mas disse que apenas 40% ia por esse motivo, 60% ia porque apoiava o regime.                                            

     Por Yanet trabalhar com turismo e receber muitas gorjetas (propinas) dos turistas e Rasmyd estar montando o ar-condicionado do hotel nos finais de semana, eles possuíam muitos aparelhos eletrônicos modernos que a maioria da população não tinha condições de comprar.

     Propina em Cuba não tem o sentido pejorativo que tem no Brasil, trata-se apenas de gorjeta.

     Por curiosidade Pedro perguntou a Yanet por que colocara o nome do filho de Ralph, um nome anglo-saxão. Ela respondeu que era para que, quando conseguissem emigrar para os “states”, o filho não sofrer muita discriminação na escola.

     As portas dos consulados dos EUA e da Espanha amanheciam com filas de pessoas em busca de visto para viajarem, mas poucos vistos eram concedidos pelos EUA, o mais procurado.

     Para conceder um visto o consulado dos EUA exigia um saldo médio bancário de três meses equivalente a 5.000 dólares e uma carta-convite de algum residente se responsabilizando pela manutenção do migrante nos “states”. Muitos cubanos que recebiam dinheiro de parentes residentes nos EUA satisfaziam a essa exigência, mas a demora para receber o visto era muito grande.

      A Espanha, de quem Cuba tinha sido colônia por mais de 200 anos, exigia um saldo médio de 3.000 dólares e concedia vistos de permanência para descendentes de espanhóis até a segunda geração. O Brasil exigia apenas 1.000 dólares de saldo médio e a carta-convite.

     Não era verdade o que diziam que o governo cubano não permitia a saída dos cubanos do país, eram os outros países que não concediam visto de entrada neles, como acontece com muitos brasileiros que desejam viajar para os EUA e também não conseguem visto.

      Quem não tinha parente no exterior enviando dinheiro dificilmente conseguiria um visto.

      Como havia uma lei americana conhecida como “lei dos pés secos” que garantia aos cubanos que conseguissem chegar até à praia o direito de ficar no país, muito cubanos se arriscavam em barcos improvisados e inseguros para desembarcarem em Miami.

     Depois daquela debandada que houve quando o presidente Clinton abriu as portas do país à emigração cubana e depois de 120 mil cubanos terem emigrado nessa ocasião, os EUA fecharam as portas novamente com a promessa de conceder 20 mil vistos por ano, desde que o governo cubano reprimisse a emigração ilegal, mas estavam concedendo menos de 2 mil por ano.

 

     Pedro e Larissa voltaram para o hotel encantados com a recepção que tiveram na casa de Yanet.

     Durante a semana pela manhã e pela tarde não se via crianças e adolescentes pelas ruas.

     “Estão todos nas escolas”. Disseram para eles.

      Algumas vezes à noite viram crianças em uniformes escolares pedindo dinheiro aos turistas. Se essas crianças conseguissem ganhar um dólar por noite, ganhariam mais que seus pais em um mês. Essa prática era totalmente proibida pelo governo. Se algum policial flagrasse alguma criança pedindo dinheiro, os pais eram chamados à delegacia, advertidos e poderiam sofrer punições se o fato tornasse a se repetir.

     Mendigos e prostitutas pela rua também não viram, mas rapazes abordavam na rua turistas desacompanhados oferecendo mulheres por 20 dólares o programa.

     Na volta para o Brasil, ao entrarem no apartamento mobiliado que o sogro lhes dera, na avenida Atlântica de frente para o mar, encontraram muitas caixas com os presentes de casamento que ganharam: faqueiros e baixelas de prata, louças de porcelana, tapetes, quadros, eletrodomésticos de todos os tipos e muitas coisas sem nenhuma utilidade para eles.

     “O que vamos fazer com tudo isso?” Perguntou Pedro.

     “Vamos doar tudo.” Respondeu Larissa.

     E assim fizeram.

     Procuraram uma instituição que cuidasse de crianças órfãs e levaram quase tudo para lá.

     A instituição realizou um leilão e conseguiu arrecadar um bom dinheiro.

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

                                                                Cap. XXV

 

     Pedro passou a trabalhar cada vez mais para tentar esquecer Eulália e viver o melhor possível com Larissa que arrumou um emprego como psicóloga num hospital público.

     Uma noite, quando voltavam do teatro onde assistiram à excelente peça “Kopenhangen”, ao parar em um semáforo, surgiu um adolescente raquítico com uma arma na mão e exigiu que eles lhe dessem tudo o que tinham senão mataria os dois.

      Ele passou a carteira para o menor, Clarissa passou a bolsa dela e o garoto saiu correndo por entre os outros carros. Alguns transeuntes que estavam na calçada, e que presenciaram o assalto, correram atrás do menor, o encurralaram na porta de uma loja e começaram a espancá-lo.

       Pedro desceu do carro e tentou evitar o linchamento, mas só conseguiu parar a turba com a ajuda de uma dupla de policiais que acorreu em sua ajuda, conseguindo recuperar os seus pertences e os de Clarissa.

       Ao chegar em casa, ainda abalado. Pedro escreveu:

 

“MENINO DE RUA”

“Você tem menos de 16 anos 
Mas traz no rosto as marcas
De quem já viveu muito mais.
Você, com esta arma na mão, 
Diz que vai me matar
Se não lhe der tudo que tenho.

Que foi que eu fiz 
Quando você ainda pequeno
Foi abandonado no meio da rua?
Que foi que eu fiz 
Quando você pedia para engraxar meus sapatos, 
Limpar o para-brisa do meu carro,
Ou simplesmente implorava um pouco de comida 
Para saciar sua fome?

 

Será que o levei para minha casa, 
Ofereci-lhe comida, roupas,
Uma cama para dormir, um teto para se abrigar
E paguei uma escola para você estudar?
Será que protestei 
Junto às autoridades responsáveis
Por não aplicar os recursos arrecadados 
Para tirá-lo da rua
E dar-lhe condições de crescer forte, 
Sadio e protegido?
Será que ao menos derramei uma lágrima 
Por vê-lo naquelas condições?

Não! Eu não fiz nada disso!
Eu simplesmente afastei-o 
Com um gesto contrariado
E segui meu caminho, 
Enganando a mim mesmo 
Dizendo que não era meu o problema.
Agora descubro, tarde demais, 
Que devia ter feito alguma coisa por você, 
Para evitar o que está acontecendo neste momento.
Você, sofrido, maltratado, perseguido, 
Odiando toda humanidade 
Por ter lhe negado tudo que você tinha direito.
Você, desesperado, marcado para morrer,
Cobrando uma dívida que não tem tamanho.
Você, a vítima. Eu, o criminoso.
No tribunal da minha consciência
Mereço estar passando por isso.
P.”

 

     No dia seguinte, ao relatar o episódio, Pedro foi repreendido pelos colegas da empresa:

     “Devia ter deixado linchar, não temos segurança para andar nas ruas nem de dia nem de noite. Vocês tiveram sorte de não terem sido mortos mesmo entregando tudo para ele. Esses marginais não têm pena de ninguém, também não devemos ter pena deles. Só resolve matando todos eles.”

      Pedro retrucou:

“Os criminosos já perderam a humanidade deles, nós não devemos perder a nossa.”

 

      Admirava a personalidade Larissa, a dedicação dela com os pacientes e a generosidade dela com os menos afortunados. Reconhecia que ela era uma pessoa boa, que se preocupava com os outros e procurava ajudar a todos na medida do possível.

     Com ele, ela estava sempre bem-humorada e quando saíam ela chamava a atenção pela beleza e elegância.

     Tinham combinado só terem filhos depois de cinco anos de casado para poderem se dedicar às suas profissões.

     Quando sentissem que estavam bem seguros profissionalmente, pensariam em filhos.

     Larissa começou tomando anticoncepcionais, mais notou que o anticoncepcional diminuía a sua libido e ela já não sentia a mesma vontade de fazer sexo que ela sentia antes.

     Passaram então, nos dias férteis dela, a fazer amor com preservativo que Pedro não gostava muito de usar.

     Com pouco mais de um ano de casados, numa das vezes que estavam fazendo amor, o preservativo se rompeu sem que Pedro percebesse e ele ejaculou sem a proteção. Larissa engravidou.  Com dois meses de gravidez Larissa abortou e tiveram que ir à uma emergência onde ela foi submetida a uma curetagem e passou uma semana de cama com mal-estar. 

     Voltaram então a usar o método da tabela, dia fértil não, dia infértil sim. Não confiavam mais nos preservativos.

     Um ano e meio depois, por algum erro na tabela, Larissa engravidou de novo e novamente abortou depois de dois meses, dessa vez com mais sofrimento do que da primeira vez.

     “A solução é uma vasectomia” disse Pedro.

     Larissa não concordou.

     “Eu quero ter um filho”. Disse ela.

     E começou a fazer tratamentos para não abortar mais quando engravidasse.

     

     Pedro já não sentia a mesma atração sexual pela esposa.  Amava-a, mas já não sentia o mesmo tesão por ela. As relações sexuais foram se tornando cada vez mais difíceis.

     Numa das suas viagens a São Paulo a trabalho, após passar o dia inteiro em reuniões, Pedro jantou no hotel e resolveu dar um passeio a pé pela cidade para espairecer.

     Andou pela Avenida São João abarrotada de gente, dobrou na Avenida Ipiranga e chegou até à Praça da Bandeira.

     Entrou num bar, sentou-se a uma mesa e, apesar de não ser costume seu, pediu uma cerveja e começou a pensar na vida que estava levando;

     Para ele era tudo igual, nada fazia sentido.

     Acordava de manhã, ia trabalhar, voltava à noite.

     Quase não conversava com Clarissa que vivia estudando para um mestrado.

     Depois do jantar lia algumas revistas, assistia aos telejornais e ia dormir ao lado de Larissa que geralmente já estava dormindo.

     Tinha um apartamento confortável, carro de luxo, dinheiro e uma mulher bonita, mas não era feliz.

     Depois do terceiro copo de cerveja, sem que ele percebesse, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.

     Uma mulher que estava sentada sozinha numa mesa próxima à dele acariciou-o com o olhar, levantou-se, aproximou-se da sua mesa, colocou a mão no seu ombro e, perguntou o que ele estava sentindo.

      Ele pediu que ela sentasse, ofereceu-lhe uma bebida e contou para ela a história da sua vida.

     Ele falou da sua infância triste, solitária. Da sua adolescência difícil, Incompreendida. Da luta que teve que travar para chegar até onde estava.

     E ela disse que o compreendia, abraçou-o e beijou-o repetidas vezes.

     E ele entregou-se de corpo e alma a essa mulher que ele nem sabia quem era, mas nesse instante ela era tudo para ele.

     Foi ela quem lhe deu atenção quando ele precisava, foi ela quem ouviu as suas palavras, foi ela quem impediu que ele cogitasse se matar.

     Saíram abraçados até o hotel e se amaram até ficarem saciados.

     Pedro se sentia um novo homem, renascera dos escombros do seu desespero.

     Quando Pedro acordou de manhã, Roberta já estava pronta para sair.

     Acompanhou-a até à porta e, na despedida, estendeu para ela duas notas de cem reais.

     Ela olhou para ele com um olhar de desapontamento e, sem pegar o dinheiro, virou-se e afastou-se pelo corredor sem olhar para trás.

     À noite Pedro voltou ao mesmo bar, sentou à mesma mesa e, bebericando, ficou esperando Roberta aparecer. Precisava se desculpar por tê-la ofendido daquela maneira. Ela não apareceu, nem nessa noite nem nas seguintes que ele foi ao bar.

     Voltou para o Rio abatido, nunca se perdoaria pela ofensa que fizera a Roberta.

 

 “SORRISO DE MULHER”

“Em todos os semblantes a mesma
Expressão de expectativa ansiosa.
Todos esperando alguma coisa que,
Muitas vezes, nem sabemos o que é, 
Apenas esperamos.
Alguns se desesperam e partem antes do tempo,
São os que pedem carona à morte.
Eu vivo dos favores das mulheres.
A mulher que me concede um sorriso
Proporciona-me forças para
Enfrentar mais um dia difícil.
De sorriso em sorriso vou enfrentando
A letargia que quer apoderar-se do meu espírito.
Não morrerei enquanto existir uma mulher
Para alegrar o mundo com sua graça.
Se as mulheres soubessem o poder
Que têm de modificar o mundo com um sorriso,
Com certeza viveriam a sorrir.
P.”

                                                             Cap. XXVI

 

     Cerca de dois anos depois, Larissa estava esperando um filho como sempre desejara.

     A gravidez dela foi muito difícil e ela não resistiu ao parto, morrendo após dar à luz uma menina, Clara.

     Pedro sofreu muito, chorou como uma criança quando recebeu a notícia na maternidade. Não amara Larissa com a mesma intensidade com que amara Eulália. Amara-a com mais lucidez e iria sentir muita falta dela.

     O seu consolo era Clara a quem passou a se dedicar.

     Procurava passar a maior parte do tempo livre com a filha que crescia bonita e inteligente como a mãe e era o xodó do avô.

 

     Pedro fez algumas viagens ao exterior a negócios.

     Conheceu países nos quais não viu mendigos pelas ruas, nem prostitutas pelas esquinas.

     Os trabalhadores participavam das decisões da direção das empresas. O povo desfrutava um elevado padrão de vida.

     Todos tinham direito a moradia, escola e assistência médica da melhor qualidade.

     O desemprego era praticamente nulo nesses países.   

     Conheceu também países onde a miséria e a exploração eram maiores que no Brasil.

     Ao voltar para o Brasil, Pedro tentou implementar algumas medidas, para melhorar a situação do grupo Atlas.

     Conseguiu que fossem criadas creches para os filhos das funcionárias que não tinham com quem deixá-los.

     Construiu escolas e patrocinou palestras e cursos para melhorar o nível cultural dos trabalhadores e seus filhos.

Instalou biblioteca nos locais de trabalho, para que os funcionários pudessem ler alguma coisa nas horas de folga.

     Conseguiu que fosse concedida uma hora de folga por dia, meia hora em cada expediente, para que as funcionárias pudessem amamentar seus filhos até um ano de idade.    

 

     Com 40 anos Pedro era um viúvo muito assediado pelas mulheres, tanto funcionárias da empresa quanto mulheres do seu círculo social, mas depois de perder as duas mulheres que mais amara em sua vida, além de Soanala com quem desfrutara prazeres intensos, não queria mais envolvimento sério com nenhuma, só encontros rápidos, sem compromisso.


“O AMOR E O TEMPO”

O tempo passou, o amor não vingou.
O amor veio e se foi, o tempo não parou.
O tempo flui por entre nossos cabelos
Como a areia no deserto.
O amor escorre no nosso coração
Como o sangue nas nossas veias.
O tempo corre, o amor voa.

É mais fácil parar o tempo
Do que encontrar o verdadeiro amor.
Tempo houve em que acreditei no amor,
Hoje amo apenas tempo que passou.
“Tempo de amor e solidão,
Tempo de olhares melancólicos.
Tempo de promessas e dúvidas,
Tempo do amor pelo amor,
Tempo de dar sem nada receber.
Hoje não me resta sequer
O consolo de uma promessa de amor.
Acabou-se o tempo para mim,
Não tenho mais o direito de amar.
O amor é para os jovens,
Para os puros de coração.
Estou velho demais para inspirar
Um amor desinteressado.

Viva o jovem! Viva a mulher!
Viva a beleza! Viva o amor!
Amem o tempo todo pois,
O melhor tempo, é o tempo do amor.
Aproveitem o tempo agora,
Para quando estiverem velhos como eu
Não se arrependerem do tempo que passou.
Não concedam o amor em conta-gotas,
Distribua-o às mancheias,
Amem a quantos puderem, sem restrições
Pois o que está fazendo falta no mundo,
Hoje em dia, é o amor,
E o tempo de amar está se esgotando.

P.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                              Cap. XXVII

 

     Quando Clara estava com dez anos, levou-a para conhecer o Recife, que crescera bastante. Foram construídos muitos edifícios e muitos automóveis congestionavam o centro da cidade.

     Mas a vida do povo, aparentemente estava pior do que antes.

    A prostituição atuava livremente a qualquer hora do dia ou da noite.

     O “jogo do bicho” oficialmente na ilegalidade, funcionava abertamente.

     Sair à noite tornara-se uma temeridade. Ao parar em algum sinal de trânsito ou estacionar em algum lugar mais deserto, corria-se o risco de ser assaltado e morto.

     Nas portas das igrejas, mulheres sentadas no chão com os filhos ao seu redor, pediam um auxílio, enquanto os fiéis passavam por eles indiferentes e iam rezar suas preces pedindo para Deus perdoar os seus pecados. O maior pecado que eles cometiam ao entrar na igreja era não se dignarem a um olhar de compaixão para aquelas mulheres e crianças esquálidas na entrada.

     A quantidade de mendigos era grande. Espalhavam-se por toda a cidade, disputando acirradamente os melhores pontos de mendicância.

     Não havia mais aquelas pessoas catando caranguejos e moluscos na lama do rio Capibaribe. O assoreamento e a poluição acabaram com todas as espécies, que antigamente abundavam em suas águas.

 

     Foi com Clara até o Engenho Mandacaru.

     Na cidade a caminho do engenho, nada mudara; a mesma igreja, as mesmas ruas sem calçamento, as mesmas casas, agora mais deterioradas.

     A única novidade era uma imensa caixa d"água no meio da praça em frente à Prefeitura.

     Por onde Pedro passava só via desolação e tristeza. O pasto ressecado, as cercas caídas, os riachos secos. As propriedades estavam, em sua maioria, abandonadas e à venda.

     Ninguém queria plantar mais. Trabalhavam como animais, de sol a sol, depois vinha a seca e acabava com tudo.

     Estavam todos endividados até o último centavo com o Banco do Brasil.

 

     Ao chegar ao engenho, Pedro se entristeceu ainda mais.

     A Casa Grande estava em ruínas. O açude não passava de uma poça de lama suja.

     O pasto não existia mais, no seu lugar havia apenas um mato seco, rasteiro.

     Dos animais restavam apenas algumas aves, um cavalo e uma vaca com os ossos aparecendo sob a pele de tão magros. O restante morrera ou fora vendida, quase de graça, para não morrerem de sede também.

     Uns poucos empregados antigos tomavam conta da propriedade. Alguns se lembraram dele e ficaram contentes em revê-lo.

     Através deles, soube que as terras do engenho estavam em disputa judicial entre os herdeiros há oito anos, desde a morte da viúva do seu pai.

     Percorreu com Clara as dependências da casa.

     Cada canto lhe trazia uma recordação: via seu pai balançando na rede, a mulher dele na cadeira de balanço, sempre calada, sempre costurando.

     Na varanda, com o olhar perdido na distância Pedro recordou-se de Eulália, e pareceu escutar ainda o seu sorriso ecoando pelo espaço.

     Voltou para a cidade abatido.

     Clara, porém, estava adorando a viagem. Tudo para ela era novidade.

     Ele, que desde a morte de Larissa tivera poucos períodos de descanso, aproveitou as férias de fim de ano da escola de Clara, e pediu também uma licença de três meses na Atlas, para poder fazer esta viagem.

     Passou alguns dias percorrendo várias propriedades que estavam à venda, até que se decidiu por uma fazenda, Bonanza, com 150 hectares, a meio caminho entre a cidade e o engenho Mandacaru.

     O dono da fazenda morrera junto com todos os filhos numa emboscada armada por um adversário político, e a viúva mudara-se para Salvador onde vivia seus pais e irmãos.                    

     A fazenda precisava de muitos reparos, não tinha água nem luz, mas Clara gostara dela porque a Casa Grande ficava numa elevação de onde podia se avistar uma grande área em torno dela.

     Comprou a fazenda e trocou o nome para “Fazenda Perseverança”.

     Contratou alguns empregados, reformou a casa e trouxe eletricidade até ela.

     Comprou algumas reses e um potro para Clara.

     Mandou furar um poço artesiano que, em duas semanas, estava jorrando água de boa qualidade. Em poucos dias um pequeno lago já estava se formando perto do poço.

     Canalizou a água para os pontos mais distantes da fazenda, irrigando vastas áreas anteriormente secas.

     Plantou árvores frutíferas; cajá, caju, abacate, manga, acerola, jaca, sapoti, carambola. Verduras e legumes diversos, além de mandioca e inhame.

     Clara participava de tudo com entusiasmo e começou a plantar um jardim em frente à Casa Grande.

     As férias estavam quase chegando ao fim, quando recebeu a notícia do falecimento do seu sogro, vítima de um colapso cardíaco fulminante durante uma reunião de trabalho.

      Voltou imediatamente para o Rio de Janeiro, a tempo de acompanhar o funeral.

     Clara estava inconsolável, chorando bastante. Era muito apegada ao avô, que a adorava e fazia-lhe todos os gostos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                           

                                                             Cap. XXVIII

 

     Pedro assumiu interinamente a presidência da Atlas e depois de um mês foi efetivado no cargo pela assembleia extraordinária dos acionistas.

     Durante sua gestão Pedro procurou implementar vários projetos que acalentava há anos.

     Os índices de acidente de trabalho nas empresas do grupo eram vergonhosos, por isso ele determinou a compra dos equipamentos de segurança necessários para os operários.

     Ordenou a substituição de algumas máquinas obsoletas que viviam provocando acidentes, mutilando ou incapacitando permanentemente o trabalhador.

     Melhorou a qualidade da comida servida nos restaurantes das empresas contratando nutricionistas para elaborar os cardápios e supervisionar a preparação dos alimentos.

     Construiu clubes com quadras de esportes, piscina e parque de diversões para os funcionários e dependentes.

     Financiou a compra de terrenos e a construção de casas para os funcionários.

     Instalou cooperativas de consumo, para oferecer mercadorias a preços inferiores ao comércio da cidade, onde a exploração era grande.

         Criou um fundo, constituído por pequena contribuição descontada dos salários dos funcionários e mais uma porcentagem do faturamento líquido das empresas, para pagar um plano de assistência médica e dentária para os funcionários.

     O fundo, cuja participação no mesmo era voluntária, complementava também as aposentadorias e benefícios do INSS aos trabalhadores aposentados ou em licença por motivo de doença.

     Incentivou os funcionários a se organizarem em associações e elegerem representantes para levar suas reivindicações à direção das empresas.

     Concedeu aumentos a todos os funcionários, com maiores percentuais aos que ganhavam menos.

     Pedro conseguiu fazer muita coisa, mas não sem muito esforço.

     Diversas vezes teve que impor sua vontade contra a opinião dos diretores que que alegavam elevação demasiada dos custos.

     Há quatro anos ele estava como presidente da Atlas.

     Os índices de acidente de trabalho haviam diminuído para níveis toleráveis, as faltas ao trabalho eram mínimas, a indisciplina quase não existia e a produtividade aumentara.             

     Apesar disso tudo, em uma reunião ordinária, os acionistas exigiram que Pedro cortasse alguns benefícios dos empregados alegando que estavam pagando demais e inflacionando a mão de obra do mercado.

     Pedro recusou-se terminantemente a cumprir a determinação e por isso intimaram-no a renunciar à presidência e pedir demissão da empresa.

     Em troca comprariam as ações que ele possuía por um preço atraente e lhe garantiriam uma generosa indenização.

     Pedro não teve escolha.

     Escreveu uma carta aos funcionários historiando seus trinta anos de trabalho na empresa, finalizando dizendo que dedicara o melhor dos seus esforços, durante mais da metade da sua vida, em benefício da empresa, dos empregados e do desenvolvimento do país.

     Agindo sempre com princípios de humanidade e fraternidade.

     Mas o seu trabalho desgostara àqueles que viam no trabalhador apenas uma máquina a serviço dos seus mesquinhos interesses.

     E, dispondo eles de poderes excepcionais, afastavam-no da empresa.

     Dizia ainda que afastar-se era como separar-se de uma parte dele mesmo, pois aquela organização fazia parte da sua vida. Ali constituíra uma segunda família.

     Mas afastava-se com a consciência de haver cumprido com o seu dever e esperava que os trabalhadores continuassem se organizando cada vez mais e levando à frente suas reivindicações por melhores condições de vida e de trabalho a que tinham direito e que lhes eram negadas pelos governantes.

     Sua carta foi lida no auditório, durante solenidade de despedida organizada pelos funcionários. Ao final, muitos estavam com os olhos vermelhos e Pedro, a custo, continha as lágrimas.

 

 

 

 

                                                                  Epílogo

 

     Pedro ficou no Rio apenas o suficiente para vender tudo o que possuía e aplicar a maior parte do dinheiro em papéis do governo, em ações de empresas de tecnologia e em previdência privada.

     O restante ele aplicou em fundos de investimento onde pudesse fazer resgates sempre precisasse. 

     Depois partiu com Clara para Pernambuco.

     Passou a dedicar-se à sua fazenda, comprou um touro reprodutor e 40 vacas leiteiras para produzir leite para uma indústria de laticínios.

     Plantou 10 hectares de cana de açúcar para vender aos engenhos.

     A horta e as árvores que plantara na sua última visita já estavam produzindo o suficiente para consumo de todos que moravam na fazenda e ainda sobrava para vender na feira da cidade.

     Contava com a ajuda de um administrador, Paulo, que morava numa das casas da fazenda com a esposa, Letícia, e dois filhos, Ronaldo, de 15, e Rita, de 18 anos.

     Os filhos do administrador estudavam o segundo grau que já estava sendo oferecido na escola e, nas horas de folga, Rita ajudava a mãe com os serviços da Casa Grande.                                       

 

     Todas as tardes, depois que Pedro acordava do seu cochilo na rede na varanda, Rita lhe trazia um café com alguns biscoitos preparados pela mãe dela.

     Rita era uma moça muito bonita, pele morena, cabelos negros encaracolados e um corpo escultural.

     Certa tarde Pedro pediu para ela sentar perto dele e começou a perguntar como ela estava indo na escola.

     Ela disse que estava terminando o ensino médio e pretendia prestar vestibular para pedagogia.

     Queria ser professora para ensinar os jovens e adultos da sua cidade que que nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola. Ficaram conversando o resto da tarde e, todos os dias, quando ela lhe trazia o café com biscoitos, eles ficavam conversando sobre os mais variados assuntos.

     Pedro estava cada dia mais encantado com a doçura, a beleza e a inteligência de Rita.

 

      Uma tarde estava descansando quando ouviu uns gritos:

      “RONALDO”. “RONALDO!”.

     Era sua filha Clara, agora com 14 anos, chamando o filho do administrador da fazenda para ajudá-la a montar.

     O garoto acudiu solícito.

     Pouco depois, da cadeira de balanço no terraço, viu-os afastando-se a galope.

                     

                             

 

 

     FIM

                                                                                                       

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