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Contos-->FILHO DA PUTA, NÃO! -- 10/12/2012 - 16:43 (Henrique César Pinheiro) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Naquele domingo, 9 de maio de 1970, Barros acordou cedo, disposto a comemorar seu aniversário na beira da praia. Jogar futebol, pegar sol, se bronzear e tomar uma cerveja, visto que havia trabalhado até onze horas da noite no Mercantil São José e fora dormir cedo, no sábado. Quando chegou em casa por volta da meia noite, não saiu mais. Foi dormir e acordou descansado, sem ressaca.
Na época, não se frequentava a praia, como hoje. A infraestrutura nas beiras de praias não era como as atuais, onde se encontram barracas, bares, restaurantes. Naquele tempo somente areia, algumas poucas pessoas jogando futebol ou frescobol, tomando banho e outras bronzeado a pele, geralmente mulheres, com barracas de sol ao lado, deitadas em toalhas ou esteiras especialmente criadas para este fim.
O sujeito ir à praia com a namorada era difícil, quando os pais permitiam, deveria haver acompanhantes e sempre da família. Um irmão, irmã, a própria mãe. No caso de Barros, isso seria praticamente impossível, ou seja, levar Velma sua namorada para a praia. A mãe dela, uma senhora idosa e valente não consentiria de forma alguma que sua única filha saísse de casa para a praia com o namorado e ela, dona Raimunda, não tinha tal hábito, ou melhor, mesmo morando em Fortaleza, jamais fora à praia.
Assim, para Barros curtir aquele domingo ensolarado, pois mesmo no Ceará tendo trezentos e sessenta e cinco dias de sol, naquele ano, a quadra chuvosa tinha sido muito intensa em abril não fez sol um dia sequer nos fins de semana.
Diante desse impasse, Barros se levantou cedo, tomou café e nem mesmo os parabéns da família recebeu. Para aniversários, no tempo, não se dava muita bola. Não era essa indústria de hoje. O dia passava e no máximo um ou outro que lembrasse parabenizava o aniversariante. Comemorações, somente para os 15 anos de filhas. De homens, nunca vi, comemoração de aniversários naquele tempo. Nem mesmo nos natais havia festas. Não se tinha essa tradição, que por aqui começou há pouco tempo. Quando havia, era se muito um almoço em família e pronto.
Pois bem, mas voltando ao assunto, depois do café, Barros saiu à procura de um amigo para ir à praia com ele, pois sabia que nenhum de seus irmãos o acompanharia, cada um iria para um lado. Os mais velhos para a casa das namoradas, os mais novos, todos menores ficariam pela rua de areia jogando bola. Por isso restava arranjar companhia, E foi em busca.
Andando por aquelas ruas de areia do bairro São João do Tauape, Barros encontra Temístocles, nome de batismo de Cheiroso, um conhecido descuidista das redondezas. Não podia ser classificado de bandido como os atuais. Nem mesmo um batedor de carteira como antigamente. Somente um descuidista, que se aproveitava de qualquer situação, qualquer bobeira, para afanar alguma coisa e se dar bem. Barros, àquela hora da manhã de um domingo, não encontraria outra pessoa para sair com ele, tinha certeza. Todos seus amigos estavam dormindo, curtindo uma ressaca, pois era tradição, aos sábados à noite, saírem para dançar, para as famosas tertúlias aqui de Fortaleza. E domingo de manhã acordar tarde, já na hora do almoço.
É. O termo está em total desuso e assim mesmo não sei se seria correto: afanar, pois em sentido informal, como os bons dicionaristas definem, seria roubar, furtar. No sentido de furtar, vá lá. Mas no sentido técnico de roubar não. Pois este termo, de acordo com a terminologia jurídica é quando, para se tirar alguma coisa de alguém, se usa a força. E no caso do Cheiroso ele nunca usava a força. Somente o descuido, a esperteza.
Barros avistou Cheiroso e se dirigiu a ele convidando-o para ir à praia. Cheiroso relutou um pouco, dizendo que não tinha dinheiro nem para o ônibus. Mas, Barros logo se prontificou a pagar sua passagem e não só toda a despesas lá no Alfredo, um antigo restaurante na Beira-Mar, aliás, único na época, onde eles poderiam tomar umas cervejas.
A Beira-Mar era a praia mais frequentada na época, e para lá se deslocaram ao embarcar no ônibus Circular 2, que pegaram na Pontes Vieira, descerem no Clube Náutica, tendo ainda que caminhar uns mil metros para chegar ao destino. O mar da Beira-Mar era calmo, devido ao aterro que fizeram para construir o Porto do Mucuripe. Água muito limpa. Jangadas ao largo e um terreno bom para se jogar futebol, Não era aquela areia frouxa, fofa das demais praias. Hoje quem frequenta a Beira-Mar corre sério risco de pegar uma infecção generalizada por bactéria, se for tomar banho, ou ser assaltado por bandidos de várias favelas, quem muitas vezes fogem nadando, quando praticam um furto ou um assalto mesmo.
Mas, naquele tempo a Beira-Mar era o ponto mais chique da cidade, principalmente à noite. Lá havia as mais famosas boates de Fortaleza, destaque para O Bem.
Mas voltando ao nosso assunto, chegaram Barros e Cheiroso ao seu destino, por volta das nove e meia da manhã.
À praia os homens quase sempre iam para jogar futebol, às vezes vôlei, e as mulheres para ficarem expostas ao sol, depois de passarem bronzeador no corpo, ou até mesmo Coca-Cola para queimarem mais, e depois de três ou quatro dias a pele estava largando, parecendo barata.
Hoje nas beiras das praias existe certo conforto, cerveja, comida, barracas com cadeiras e meses, Naquele tempo se o frequentador da praia quisesse beber alguma coisa teria que andar muito para encontrar uma bodega ou um bar aberto, atravessar toda a areia e a rua. Nesse dia, Barros e Cheiroso sentaram-se no Alfredo, o Rei da Peixada, e ficaram a tomar cerveja observando o movimento das pessoas que jogavam bola.
Depois de algum tempo, Barros pediu a conta, pagou e convidou Cheiroso para tomarem um banho, mas este recursou, preferindo ficar à mesa, bebendo o restante da cerveja e pastorando, como se diz em bom cearês, as coisas de Barros: bermuda, chinelas japonesas, as Havaianas de hoje, a carteira e o dinheiro.
Barros foi tranquilo, se refrescar nas águas mornas da Beira-Mar, aproveitando ainda para paquerar um pouco umas meninas que se bronzeavam ao sol do meio dia.
Passando algum tempo, Barros volta. Ao chegar na mesa, encontra somente suas roupas e o par de chinelas, e nada do Cheiroso, pensando que ele havia ido ao banheiro ficou aguardando ali um pouco. Como Cheiroso não aparecia foi até o banheiro e lá não encontrou ninguém, Perguntou ao garçom que os atendia se ele vira Cheiroso, o garçom respondeu que ele saíra desde a hora que Barros fora tomar banho de mar.
Nisso Barros se tocou e foi conferir a carteira. Nela havia somente dinheiro para a passagem de volta.
Barros pegou o ônibus puto da vida e foi embora direto para a rua que morava Cheiroso, para encontra-lo e dar o que ele merecia. Quando chegou perto da casa de Cheiroso o avistou, num bar da esquina bebendo sossegadamente com outros amigos.
Barros se aproximou e já partiu com tudo para cima de Cheiroso, xingando de tudo quanto era palavrões e tentando agredi-lo, como Cheiroso correu para o outro lado da rua, Barros gritava possesso:
- Seu baitola, seu eu te pegar eu te encho de porrada. Eu e levo para a praia, pago passagem, bebida e tua ainda me rouba e me deixa sozinha na praia, seu filho de uma puta.
Com toda tranquilidade do mundo, do outro lado da rua Cheiroso responde:
-Filho de uma puta, não. Se eu fosse filho da puta não teria deixado o dinheiro da passagem para voltar para casa.
E o caso aí mesmo se encerrou. Barros vendo que não valia a pena brigar com Cheiroso, tomou mais uma cerveja e foi para casa dormir um pouco para de noite ir namorar a sua querida Velma.

Henrique César Pinheiro
Fortaleza, novembro/2012.
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