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Poesias-->OS IDOSOS SÃO LIVRES -- 07/09/2017 - 22:47 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos





Os idosos são livres

e também estão livres dos dentes.

O suor do velho não desce pelas reentrâncias,

antes se evapora,

por isto tudo é mais seco

e o idoso anda pelo deserto

da subida rumo à farmácia.

Ele não morrerá hoje.

Não antes de sentar-se naquele banco,

que já viu muitas espécies de velho,

desde o careca

até o ancião do outro mundo.

Um mundo que treme

- não são as suas mãos -

onde toda perda de memória é uma gripe.

Hoje o roxo visitou o senhor senil.

pois o controle remoto está em seus sapatos.

Ele anda

vê algumas crianças que fecham os olhos

e eis por aqui mais um decrépito

para amolar os vira-latas

que sentem o cheiro da senilidade

e de todas as línguas fora das bocas.

O velho realmente acordou às cinco da manhã.

Ele não morrerá hoje,

as cinco da manhã é muito tarde,

para morrer, tomar café,

procurar os óculos.

A velhice quando encontra os óculos,

avisa aos seguranças dos edifícios

e avisa também que todos os seus filhos,

todo o sexo produtor nas madrugadas,

todo o tempo antes dos inchaços

e das varizes roxas como as calças

vieram de seus olhos habilitados

a ver demais.

Hoje o idoso não vê mais nada,

ele abre a farmácia às oito da manhã,

cumprimenta os funcionários:

os criadores dos remédios:

o FOSFOSOL para a memória,

o Óleo de Rícino desde criança,

o 1 MINUTO para os dentes,

mas não há mais dentes.

O velho lembra agora,

na subida para a farmácia.

Todos estamos livres dos próprios dentes.

As gengivas agora reinam absolutas

enfim abertas, enfim roxas.

O velho lê o jornal.

Pensa em entrar em contato com o mundo

e pedir a sua própria condenação

pela participação

na organização criminosa chamada:

"A vida seria bem outra,

não houvesse repetições".



De: Paulo Fontenelle de Araujo

Do livro:"Adversos e outros momentos"


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