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Poesias-->Em ritmo de balada -- 17/11/2018 - 02:13 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
EM RITMO DE BALADA

Jan Muá

novembro de2018



Sou água

sou Paranoá

não sou todas as águas

sou só esta água

tenho limites e ao mesmo tempo

tenho liberdade de tocar minha vida

movo-me por prazer graças aos meus parceiros cósmicos

de braço dado com a brisa

ganho mobilidade

mas é o Sol que me dá vida

graças a ele e ao sopro do vento

tenho este rosto bailarino

que encanta meus admiradores

não é fácil dia e noite

aguentar barcos de passeio

de remo e jetskis

pescadores e banhistas

procurando em mim

inspiração para purificarem e angelizarem seus corpos

ou para tornarem mais leves suas almas

verdade é que desde Tales de Mileto

vivo na consciência do mundo

foi ele o primeiro a elaborar a filosofia de minha natureza

seguindo meu código ancestral

que me colocou neste planalto central do Brasil

aprendi a ser só esta água

aqui vivo

aqui circulo

mas não deixo de reverenciar com paixão a magia de Netuno

assistindo a essa briga entre deuses

que buscam o equilíbrio entre poderes

da minha história pré-brasileira sei

que quando a terra era mais condensada e menos dividida

eu já era água e a história apenas me situou em terras planaltinas

em tempos paleolíticos ou neolíticos

hoje vivo nesta janela do mundo

com a alegria de ver as garças brancas felizes

se alimentando de meus peixes

cruzando o espaço em voo raso ou mergulhando

ficando em horas vagas

como noivas vestidas de branco

pousadas nas árvores das margens

como se esperassem casamento

também o martim pescador exerce suas artes por aqui

de residência fixa continuo sendo o que sou

neste espaço demarcado

gosto de ser isto e de me identificar

como água do Paranoá

gosto de ser assim

e de ter esta mobilidade

andando desde cima até abaixo

e desde abaixo até acima

da ponte do Braghetto à barragem

do Minas ao Cota Mil ou ao Pontão

como se eu própria fosse a navegação

os poetas sentam nas minhas margens

são visitados pelas musas

e ficam olhando os biguás

eles sabem que as capivaras se escondem nas margens

e saem espertinhas como damas noturnas

para fazerem suas farras

bordando e pintando

telas que só a noite conhece

no meu território

as tilápias e os tucunarés têm fama entre os pescadores

em alguns gramados ribeirinhos de mansões e clubes

quem manda é o quero-quero

com tremenda autoridade

ele é o pássaro-arquétipo de como se faz a proteção

aos menores e à família em geral

grita, espia, ameaça e parte para a briga

contra visitantes ameaçadores de seu território demarcado

na primavera o sabiá adoça com seu canto o sabor do ambiente lacustre

sem monotonia os olhos dos humanos

avançam sobre minha superfície

e veem que estou sempre em movimento

razão da minha vida

razão do mundo e origem de tudo

segundo Sócrates

entre raridades dá para ver daqui num tronco de angico

uma densa turminha de cupins que vai criando

estratégias de invasão

construindo fissuras para firmar seu reinado

o silêncio que se sente e respira

é confirmado pelo panorama do casario da outra margem

organizado segundo as estratégias ambientais

vivo e faço parte da vida de todos

seja dos humanos seja dos animais ou dos vegetais

seja do meio ambiente ou da circunstância humana

a mídia sempre acompanha a umidade do ar

e fala frequentemente dos níveis dos reservatórios de santa maria

e de santo antónio do descoberto

mas esquece que sou eu, o Paranoá, que zela pela saúde dos candangos da capital

desde Juscelino

o que faço com muita honra

dos ribeirões da vizinhança chega parte das águas das chuvas

que se juntam ao meu corpo original

isso é verdade

mas urge dizer que a história é mais ampla e mais complexa

pois faço parte do cosmos e minha relação telúrica

é uma gotinha nos mares diacrônicos da matéria

em expansão e retração

Meu palco é este

falo como se estivesse conversando com amigos

pela proximidade

sei que temos sensibilidade

eu e você sentimos

no balanço telúrico o respeito pela ordem das coisas

que está aí

constato que o ser humano

vai tentando moderar hoje sua relação com a natureza

curvando-se à contemplação

da majestade do mundo natural

enquanto a brisa fresca vai adulando seu rosto

contemplará os lagartos ao sol vigilantes

verá as nuvens brancas toldando os céus

sentirá a paz

a serenidade

o embalo

aprenderá a saber estar

a saber ser

e a saber reconhecer e obedecer

sentirá simpatia

gostará de ter boa parceria com o sol

compreenderá o que é ter limites com liberdade

para finalmente

deixar-se levar pelo instinto natural da contemplação

neste ambiente raro onde há profunda comunhão

entre o homem e a natureza.



Jan Muá

novembro de 2018

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