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Contos-->Ana e Bia. -- 04/11/2016 - 19:47 (ALEXANDRE MOTTA JUSTO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Ana e Bia se viram pela primeira vez em uma festa onde só conheciam a anfitriã. Cada uma foi chegando nos pequenos grupos que se formavam e tentava se entrosar, mas cada grupo era logo abandonado com uma desculpa qualquer sem que ninguém parecesse se importar se era verdade ou não. “Pessoas chatas, com conversas chatas e piadas sem graça”, pensava cada uma. E depois de tentativas e erros elas acabaram se unindo a um grupo que, apesar das pessoas chatas e das piadas sem graça, naquele momento estavam conversando sobre algo que, de certa forma, elas tinham algum interesse: relacionamentos.

Ana e Bia estavam solteiras e tinham a mesma idade. Vinham de relacionamentos complicados que terminaram de forma doída. Seus corações ainda estavam se recuperando. E qualquer um que já tenha sido ferido em seu coração sabe como é lenta e dolorosa a cicatrização. As lembranças se apossam da mente, de vez em quando nos deixam, mas logo voltam sem objetivo algum a não ser prolongar o sofrimento. E era assim que Ana e Bia estavam naquele dia. Tentando não pensar, tentando não sentir, tentando não lembrar.

Mas acontece que apesar do tema da conversa ser do interesse das duas, as pessoas daquele grupo eram mais chatas do que as pessoas de todos os outros grupos pelos quais peregrinaram. A iniciativa de mais uma desculpa foi de Ana, mas Bia se aproveitou da desculpa alheia e também abandonou o grupo.

Como já haviam explorado todos os grupos só lhes restavam duas alternativas: irem embora cada uma para sua própria solidão ou ficarem na festa sentadas e bebendo. Para a sorte de Ana, Bia estava lá e para a sorte de Bia, Ana estava lá. E como saíram juntas do grupo acabaram sentando juntas em um sofá estrategicamente bem afastado de todos.

Ficaram alguns minutos em silêncio até que Ana disse:
- Nunca vi tanta gente chata reunida.
- E nunca ouvi tantas piadas sem graça no mesmo dia – completou Bia.
Sorriram, pois descobriram que tiveram os mesmos pensamentos antes de se conhecerem naquele último grupo. Talvez esta tenha sido a primeira coisa em comum entre Ana e Beatriz.
- Pelo menos estavam falando sobre relacionamentos – continuou Ana.
- Ele te sacaneou, né? – entendeu Bia sem muito esforço o interesse da nova amiga pelo assunto.
- Foi – suspirou Ana.
- O meu também – suspirou Bia. A culpa foi do Whattsapp, sabe? O celular dele está lá em cima da mesa, ele está no banho, você já descobriu a senha de tanto olhar de rabo de olho quando ele a digitava, e aí vem aquela tentação, aquele diabinho de desenho animado falando para você que uma olhadinha só não faria mal. Pois é, o filho da puta estava comendo uma aluna.
- Uma? Só uma? O meu estava comendo todo mundo. Descobri vários aplicativos de relacionamentos no celular dele. Whattsapp, Facebook, tudo, tudo tinha putaria.
- Putz! – foi a única coisa que Bia disse.

A segunda coisa em comum entre Ana e Bia: traição.

E ficaram caladas por um tempo apenas olhando para o nada.
Seria enfadonho contar tudo o que aconteceu até o primeiro beijo. Esse momento demorou algum tempo para chegar, afinal de contas elas nunca haviam pensado nisso, nunca se sentiram atraídas por outras mulheres, nunca imaginaram que um dia...bem, que um dia não apenas se sentiriam atraídas por uma mulher, mas que uma mulher seria o grande amor de suas vidas.

É estranho para qualquer pessoa conhecer uma parte sua que ela não sabia que existia. Ana e Bia perceberam no mesmo dia da festa que algo era diferente naquela nova amizade. O prazer em conversar por horas com a nova amiga era um pouco diferente das outras vezes em que conheceram mulheres que se depois se tornaram suas amigas. Era algo muito diferente. Era uma mistura de alegria, empolgação, excitação. Mas elas não tinham idéia da dimensão dessa diferença e do seu significado. Elas sentiam, mas, como eu disse, é estranho conhecer uma parte nossa que sequer imaginávamos que poderia existir. Por isso, no comecinho não percebemos bem o que está acontecendo, nem a importância dessa descoberta e muito menos a dimensão desse “algo novo”. E, dependendo do que é esse “algo novo”, tentamos distorcê-lo a ponto dele se parecer no “algo conhecido”, isto é, naquilo que já sabemos (ou pensamos) que somos. O desconhecido nos dá medo, e quando esse desconhecido é algo que se refere à nós mesmos esse medo é muito, muito maior.

Mas estamos falando do amor. E o amor não aceita ser ignorado. Para o amor é uma ofensa ser forçado a se parecer com uma grande amizade ou com qualquer outra coisa. O amor tem vida própria e como qualquer ser que tenha vida própria luta pela sua existência sempre que esta é ameaçada. Mas no caso de Ana e Beatriz o amor não precisou se esforçar muito. Bastou um pouco de paciência.

Já não havia como esconderem uma da outra o que estavam sentindo. Como eu disse, o amor não precisou se esforçar muito. E foi em uma noite de sábado que, finalmente, aconteceu o primeiro beijo. Foi estranho, mas foi bom. Ficaram desconcertadas quando os lábios se separaram e se olharam nos olhos, mas logo se entregaram a outro beijo. E a partir daí tudo foi encanto na vida de Ana e Bia.

Ou quase tudo.

A vida, o mundo, as pessoas não são simples.

No filme Filadélfia um advogado de um grande escritório é demitido após seus patrões descobrirem que ele era homossexual e que estava com AIDS. Então ele contratou um jovem e desconhecido advogado para processar o escritório. Um dia convidou o advogado e sua esposa para uma festa em sua casa e, é óbvio, muitos convidados eram gays. Depois da festa o personagem brinca com o advogado que ele sobreviveu à sua primeira “festa gay”. O advogado foi sincero e direto: “Deixa eu te falar uma coisa, quando você é educado do jeito que eu fui e do jeito que a maioria das pessoas são educadas nesse país não se discute muito sobre homossexualismo. Quando criança nos ensinam que as bichas são engraçadas, bichas são estranhas, bichas se vestem como suas mães, tem medo de brigar, que são perigosas para as crianças pequenas e que tudo o que desejam é o que está nas nossas calças. E esse é mais ou menos o pensamento geral das pessoas por aí, se você quer saber a verdade”.

Nas décadas passadas as crianças ouviam isso várias vezes de todas as pessoas em todos os lugares. E assim essa idéia se tornava uma verdade. Mas não é só isso. Essa verdade passava a ser parte de você, ela adere ao seu caráter, à sua personalidade, ao seu modo de enxergar o mundo, de tal forma que é impossível se livrar dela.

Apesar disso algumas pessoas conseguem perceber que aquela idéia não é uma verdade, que tudo o que lhes foi dito era errado, uma mentira que vinha passando de pais para filhos sem que ninguém jamais a questionasse. Mas mesmo essas pessoas continuam impregnadas daquela idéia, daquela verdade e, assim, diante de algo que contradiz aquela verdade sentem um choque inicial, uma repulsa, uma sensação de que algo anormal está acontecendo bem ali diante dos seus olhos e de seus preconceitos. Depois, porém, vem a razão dizendo que aquilo é natural, de que as idéias que lhe foram impostas não são verdades absolutas. Mas são poucos os que se preocupam em mudar, que buscam entender como o mundo funciona, como as pessoas realmente são.

E não seria diferente para Ana e Beatriz.

No início evitavam ao máximo sair com seus amigos. Sabiam que seria impossível disfarçarem seus sentimentos e os amigos logo notariam a maneira como se olhavam, como se tratavam, como se comportavam. Tinham certeza que a princípio seriam apenas desconfianças, mas logo viriam as perguntas. E quando estas viessem o que elas diriam? E quando seus amigos soubessem, como reagiriam? Os amigos de ambas sempre se mostraram bastante liberais, aparentemente despidos de preconceitos, mas as conversas sempre giravam em torno de pessoas que não faziam parte dos grupos e sempre terminavam com várias piadas que revelavam um indisfarçável preconceito.

E mesmo quando saíam sozinhas tentavam agir apenas como amigas. Não eram um casal. Eram apenas duas amigas que resolveram sair para jantar e colocar as fofocas em dia. Tomavam cuidado para não sentarem muito próximas, para não se tocarem, para não deixar que o amor que sentiam uma pela outra transbordasse de seus olhos. Apenas duas boas amigas.

Era tormentoso que somente pudessem dar vazão a esse amor na solidão de suas casas. Somente quando estavam sozinhas é que podiam ser elas mesmas. Mas elas não suportaram por muito tempo viver assim e decidiram voltar a sair com os amigos. E mais: muito embora não fossem assumir desde logo o relacionamento, também não iriam disfarçar o amor que sentiam. Iriam sim, se olhar com tamanha paixão que seria impossível que ninguém notasse. Estavam prontas para assumirem quem eram e o que sentiam. Sabiam das consequências, sabiam que alguns amigos talvez se afastassem, que alguns entenderiam e continuariam seus amigos, que seriam o assunto preferido durante um bom tempo e que também fariam piadas com elas.

Mas foi a escolha delas. Se foi a mais certa ninguém jamais poderá saber.

Mas o fato é que um dia uma amiga de Bia e que agora também era amiga de Ana fez a grande pergunta. E a resposta foi clara e direta. E não pediram segredo. Como era de se esperar todos ficaram sabendo mais rápido do que imaginaram. E aconteceu o que inevitável: alguns amigos se afastaram aos poucos, outros ficaram felizes por elas, outros confidenciaram aos amigos em comum que tinham medo de que a convivência com elas pudesse influenciar suas filhas e alguns disseram que já sabiam há muito tempo e que torciam por elas. A vida não é simples. As pessoas não são simples.

Não se pode dizer que os pais de ambas ficaram felizes com a novidade. O desconforto quando estavam juntas nas casas de seus pais era visível, mas com o tempo os pais se acostumaram com a idéia e as acolheram como suas noras, por mais estranho que isso pudesse lhes parecer.

Existem muitas Bias e Anas por aí que nunca tiveram a coragem de mostrar às pessoas quem elas realmente são. Vivem em uma prisão sem que ao menos tenham sido condenadas. Deixam a vida passar fingindo ser o que não são em razão de uma condenação que sequer foi proferida. Vivem presas dentro de si mesmas por causa de verdades que nos foram ensinadas durante toda nossas vidas.

E enquanto isso Ana e Bia são felizes. E livres.
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