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Contos-->MEMÓRIAS DE UM MORTO - PARTE I -- 30/11/2016 - 15:00 (ALEXANDRE MOTTA JUSTO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Algumas pessoas estão no lugar errado, no momento errado enquanto alguém faz algo errado. Foi assim que eu morri. Já era madrugada e eu voltava para casa depois de um longo dia de trabalho. Negócios são negócios e não tem hora para serem concluídos. Eu só desejava chegar em casa, tomar um banho, olhar minhas filhas dormindo e me deitar ao lado de minha mulher. Mas não foi isso o que aconteceu. No Rio de Janeiro, um pequeno atalho pode te levar a um caminho sem volta. Foi a idéia do pequeno atalho que selou o meu destino. Nas proximidades do Morro da Mangueira eu decidi cortar caminho subindo uma rua escura, as casas com as luzes apagadas, o silêncio. Aos poucos as casas foram rareando, até que me vi em frente a um terreno baldio. Percebi que aquele não era o caminho que eu planejara seguir. Não havia saída e a única alternativa seria voltar. Mas eu não pude voltar. Jamais voltaria. No terreno estavam dois carros, faróis apagados, um homem de joelhos e outro caído ao seu lado. Diante deles quatro ou cinco homens armados que imediatamente me apontaram suas pistolas e fuzis. Desci do carro como mandaram. Olharam para mim tentando adivinhar quem eu era. Um deles, um homem baixo, barrigudo e careca, que logo depois eu saberia ser o chefe, me encarou por alguns segundos e me perguntou quem eu era e o que eu estava fazendo ali. Ele pareceu sinceramente acreditar em tudo o que eu disse, mas para ele eu era apenas uma chance de ele ir para cadeia. Vi que o meu destino estava selado quando ele atirou várias vezes na cabeça do homem que estava de joelhos. Ele não se importou que eu tenha visto o que ele acabara de fazer, que eu visse o seu rosto ou o rosto dos outros homens. Eu jurei que não ia contar nada para ninguém, que esqueceria o que tinha visto, que ele não tinha motivos para se preocupar. Ele não olhou mais para mim. Mandou que um dos homens desse um jeito no meu carro e, dirigindo-se ao mais velho, disse apenas que depois se veriam. Depois entrou no maior dos carros com outros dois homens e partiu acompanhado pelo quarto homem que levava meu carro embora. Fiquei sozinho com o último homem. Talvez fosse a situação em que me encontrava, talvez fosse a pura realidade, mas o homem possuía feições brutas, um olhar frio e passava a impressão de ser alguém acostumado a matar. Já não era jovem, mas era alto e forte, tinha a pele enrugada e bronzeada. Acredito que mesmo em uma situação diferente daquela eu sentiria um certo medo dele. Ele me empurrou levemente para longe dos corpos caídos no chão. Eu tremia, chorava, gaguejava, jurava, implorava. Então finalmente ele falou, com uma voz um pouco rouca, um pouco sussurrada: Ajoelha. Eu desabei de joelhos, chorando, implorando pela minha vida, falando da minha família, jurando não contar nada para ninguém. Olhando ora nos meus olhos, ora para o céu nublado, ele disse: - Sabe, eu já matei muita gente. Muita gente mesmo. Já perdi as contas. Foi a forma que encontrei de ganhar a vida. Gosto de matar. Sinto prazer. A primeira vez é um pouco estranho, mas depois se torna algo banal. Mas confesso que sempre matei quem merecia morrer. Morreram os que estavam envolvidos, os rivais, os traidores, os delatores, os traficantes, os estupradores, os ladrões, os policiais gananciosos que exigiam mais e mais dinheiro - respirou fundo o ar frio da madrugada e continuou - mas nesses anos todos eu só matei uma pessoa que na verdade não merecia morrer. Não tive prazer em matar, mas também não perdi o sono por causa disso. Recebi a ordem e fiz o meu trabalho. Eu continuava chorando como uma criança e, gaguejando, disse a ele que eu era um daqueles que não mereciam morrer. Ele olhou para mim: - Sabe, eu sei que você é o cara que estava no lugar errado na hora errada. Provavelmente pegou o caminho errado que te trouxe até aqui, mas ainda assim você é um risco e eu recebi a ordem de eliminar esse risco. As coisas funcionam assim. É a vida. Pode ter certeza que eu não vou ter o menor prazer em te matar. Gostaria de deixar você ir embora, mas não posso correr esse risco. E além disso a ordem foi dada. Sabe o careca? Ele é o chefe. É um cara mau. E quer saber? Ele tem medo de mim. Mas ele tem um exército e eu sou apenas um soldado desse exército. Se fôssemos só nós dois ele teria realmente muito medo de mim, mas não somos só nós dois: ele tem mais de trezentos homens sob o comando dele e eu não tenho ninguém ao meu lado. A vida é assim. Sinto muito - apontou a arma para a minha cabeça e perguntou: Qual é mesmo o seu nome? Félix - eu respondi chorando, gaguejando, tremendo, implorando. Sinto muito Félix - e atirou duas vez na minha cabeça. Caí para trás com o impacto dos tiros e meu corpo se virou de lado em posição fetal. Ouvi o carro se afastando e imaginei que alguém viria em meu socorro. Não conseguia me mexer, nem falar, nem ao menos mexer os olhos que continuavam abertos. Eu tentava gritar por socorro, mas minha boca não se abria. Me desesperei, pois sabia que somente me encontrariam na manhã seguinte e tinha certeza que não sobreviveria tantas horas depois de levar dois tiros na cabeça. O tempo passou, amanheceu. Algumas pessoas passaram em frente ao terreno e viram os dois homens mortos e eu, por milagre, ainda vivo. Tentei fazer algum sinal, pelo menos piscar os olhos, mexer um dedo, mas nada acontecia. As pessoas pareciam estar acostumadas aos cadáveres naquele terreno e ninguém pareceu perceber que eu ainda estava vivo. O tempo passou. Ouvi um carro se aproximar e pude ver que era um carro da policia. Eles olhariam os três homens caídos e veriam que eu ainda estava vivo. Talvez ainda houvesse uma esperança. Os policiais olharam para os três homens caídos e um deles simplesmente disse: Se fuderam. Chama a perícia. "Como assim se fuderam? Eu estou vivo! Vivo! Olhem mais de perto para mim, seus merdas, ou então chamem logo a porra da perícia!" Mais algum tempo passou. Aliás, muito tempo passou até a perícia chegar. Tiraram fotos, andaram pelo terreno e simplesmente disseram que agora era só levar os três para o IML. "IML!? Como assim? Vocês olharam nos meus olhos, seus filhos das putas, seus merdas! Vocês não viram que eu ainda estou vivo? Chama a porra de uma ambulância!" E o tempo passou. Não sei quanto tempo passou. E foi só então quando o rabecão chegou para recolher os corpos e eu me vi, vi o meu próprio corpo sendo carregado, é que finalmente percebi: eu estava morto. Provavelmente morri no exato momento em que as duas balas penetraram minha cabeça e espalharam pedaços do meu cérebro na terra suja. Meu corpo foi embora mas eu permaneci naquele maldito terreno, na mesma posição fetal, sem conseguir mexer nenhuma parte do que seria o meu corpo, apenas enxergando as pessoas que passavam porque eu havia morrido com os olhos abertos. Não posso descrever o que senti. Não é possível descrever com exatidão. O sentimento que tomou conta de mim ao tomar conhecimento de minha própria morte foi semelhante ao que senti todas as vezes em que soube que alguém muito querido havia morrido. Lembrei do dia em que recebi a notícia da morte do meu pai: por alguns instantes foi como o chão se abrisse e tudo ficasse escuro. O chão se abre, mas você não cai; tudo escurece, mas você consegue fixar o olhar em um objeto sem importância; você sabe que é a verdade mas tem a sensação de que o portador da notícia vai dizer que houve um engano. Porém era mais do que isso. Senti um terror que jamais sentira em minha vida, um medo que nunca imaginei que pudesse existir, a angústia torturante e permanente e, o mais doloroso, a imagem de minha família todo o tempo em minha mente. Quando recebi a notícia da morte de meu pai eu tinha o apoio de amigos e parentes, mas agora eu estava só, completamente só, sem a esperança de um consolo, de um abraço, do calor de alguém, de qualquer pessoa. O tempo passava e nada acontecia. As pessoas iam e vinham, o sol nascia e se punha, e absolutamente nada mudava. Apesar do terror constante, da angústia cada vez mais forte, do imenso medo que não me abandonava, eu pensava: então isso é a morte? Isso é morrer? Esse sofrimento imenso não seria destinado apenas àqueles que cometiam os mais graves pecados? Sim, eu pequei, mas nunca cometi um daqueles pecados que imaginamos que inevitavelmente levariam o pecador para o inferno. Pecamos todos os dias. Pequenos pecados. Pecamos quando mentimos, pecamos quando perdemos a paciência com nossos filhos, pecamos quando culpamos alguém por um erro nosso, pecamos quando negamos um prato de comida, quando desejamos a mulher do próximo, quando rimos de um homossexual, quando atravessamos a rua se um negro vem em nossa direção, quando somos arrogantes com a caixa do supermercado. Sim, são pecados, são erros, mas nada do que eu fiz em minha vida justificaria tamanho sofrimento. Todos nós nascemos destinados a pecar. Atire a maldita primeira pedra quem nunca pecou, quem nunca fez uma porra de uma merda na vida! Se esses erros que todos cometemos quase sem perceber nos levam inevitavelmente a esse tormento que vivo agora, então não há salvação para ninguém. No início somente esperava. O tempo passava e eu esperava. Então percebi que todos os dias crianças passavam pelo terreno com uniformes escolares. Portanto, os dias em que elas não passassem por ali com seus uniformes significava que era fim de semana. E foi assim que passei a contar as semanas. Foram dezenas de semanas. Centenas de dias na mesma posição, sem conseguir me mexer, sem dormir, sem conseguir falar, sem conseguir piscar, sentindo a cada dia crescer dentro de mim o terror de que eu poderia ficar assim por toda a eternidade. E o tempo continuou passando. E quanto mais o tempo passava, mais eu me revoltava com Deus. Sim, todos os dias eu o xingava, em minha mente eu gritava com ele, eu o amaldiçoava, eu lhe deseja todo o sofrimento do mundo, desejava que ele um dia sofresse como eu estava sofrendo, como se Deus fosse capaz de sofrer. Mas com o tempo eu me esqueci de Deus, assim como esqueci dos rostos das minhas filhas. Até que um dia eu adormeci. Foi como um profundo sono sem sonhos. Não sei por quanto tempo permaneci adormecido, mas aos poucos meus olhos foram se abrindo, a mente confusa, o medo, o terror, a angústia, o desespero. Meus olhos se abriram e as imagens se tornaram mais nítidas. Agora conseguia me mexer, embora com bastante dificuldade e com muitas limitações. Estava sentado no chão e encostado na parede do que parecia ser uma grande casa velha e abandonada. Percebi que eu possuía algo que poderia chamar de "corpo", muito embora semelhança alguma tivesse com aquele que provavelmente já não existia mais. Meu corpo era magro, esquelético, em sua maior parte era cinza claro, mas as pernas eram absolutamente negras. Os braços eram finos e algumas grossas veias roxas se estendiam até as mãos compridas e imundas. Tive medo de ser uma alma em decomposição, uma alma que iria sendo consumida aos poucos pelo sofrimento até nada mais restar e eu simplesmente deixar de existir. A idéia de me tornar um nada, de deixar de existir me aterrorizou ainda mais. Por maior que fosse minha tristeza, por mais forte que fosse minha angústia, ainda que o terror e o medo estivessem sempre presentes e eu soubesse que deixar de existir significaria deixar de sofrer, ainda assim eu não queria...morrer. Eu perdera muito mais do que um corpo, eu perdera uma mulher, perdera minhas filhas, perdera tudo. E apesar de todas as coisas ruins que eu sentia eu preferia ser uma alma infeliz, um ser fúnebre e repugnante, uma mera coisa sem valor algum a simplesmente deixar de existir. Muito embora houvesse pouca luz pude distinguir inúmeros vultos: alguns, assim como eu, estavam sentados no chão e encostados nas paredes sujas, outros tentavam desesperadamente se arrastar pelo chão de madeira velha e empoeirado. Muitos eram figuras esqueléticas totalmente negras; outros, pelo que pude perceber de longe, não tinham olhos nem boca; pelo menos um deles se assemelhava um monte disforme de carne sem ossos; e havia alguns que conservavam a forma humana, muito embora com membros inchados ou com grandes feridas abertas. Minha visão estava um pouco borrada, então não consegui distinguir as pobres almas que se encontravam mais distantes. Apesar disso, minha audição parecia normal e eu podia ouvir lamentos, murmúrios, gemidos, pedidos de socorro, orações desconexas e algumas vozes que pronunciavam algumas poucas palavras relativamente claras: "Cale-se", "Implorar", "É aqui", "Tolos". Fiquei observando por um bom tempo. Então deixei a cabeça cair para o lado e vi o corpo esquelético totalmente negro e com os lábios em carne viva fixando seus olhos inchados e amarelados em mim. Parecia alguém que se jogara exausto no chão após uma longa jornada, ou alguém que simplesmente estava simplesmente esperando a morte. Nos olhamos por alguns momentos até que eu com muito esforço abri a boca para falar, mas somente consegui emitir um grunhido. Ele sorriu de minha ingênua tentativa de falar e pude ver seus dentes sujos de sangue. Quando o sorriso se desfez seus lábios descarnados se abriram e ele, aparentando sentir muita dor a cada palavra, me disse: Fraco...ainda...você... Ele fechou os olhos e não disse mais nada por algum tempo. Certamente cada palavra dita tinha um preço muito alto para ele. Ele devia saber tudo o que eu queria perguntar, mas claramente não estava disposto a sofrer apenas para me dizer o que sabia. Talvez ele mesmo não soubesse onde estávamos e nem o que nos aguardava. Porém mais uma vez ele tentou: Você...chegou...muito tempo. Quis saber há quanto tempo eu estava ali, mas as palavras não saiam da minha boca. Ele agora parecia dormir. A cabeça caída sobre o peito, os olhos fechados e uma mistura de saliva e sangue pingando de sua boca. - D-dias - ele disse e, após alguns minutos, continuou: - S-semanas...anos...n-não sei - completou com suas últimas forças. Anos? Será possível que eu esteja morto há anos? Por quanto tempo eu devo ter ficado no terreno no qual fui assassinado? E como vim parar aqui? Há quanto tempo estou aqui? Por quanto tempo estive aqui simplesmente adormecido? Será possível que eu dormi durante anos sentado nesse chão imundo? Isso é a morte? A morte é assim para todos? Ali dentro não havia como contar o tempo. Eu apenas observava aqueles miseráveis, ouvia seus lamentos, suas súplicas, seus urros, seus gemidos, suas tentativas de se arrastarem para lugar nenhum. Tinha a esperança de que mais alguém me fitasse com os olhos, que me fizesse algum sinal, que me dissesse algo mais, porém cada um tinha seu próprio sofrimento, sua própria dor, sua própria agonia para se ocupar e eu tinha a certeza de que eles também não tinham idéia de onde estavam e do que estava acontecendo. E assim mais algum tempo passou. A criatura ao meu lado nunca mais abriu os olhos ou disse algo, até que um dia em um sobressalto ele se colocou de quatro e vomitou rajadas de sangue. Vomitou cinco, dez, vinte vezes. Quantidades enormes de sangue grosso e vermelho escuro. Depois, parecendo mais leve, voltou a se encostar na parede sentado sobre o sangue que acabara de vomitar. Então abriu os olhos, olhou para mim, sorriu mostrando seus dentes sujos de sangue e voltou a fechar os olhos. Mas dessa vez eu consegui abrir a boca e perguntar: - Onde estamos? Ele abriu os olhos amarelados, deu um breve sorriso e disse: - Não sabe? - parecia agora ter menos dificuldade em falar, mas mesmo assim economizava as palavras. E continuou: - Como podemos saber? - Fez uma pausa de alguns minutos e completou: - Todos chegam...sem...que ninguém perceba...e...um dia...se vão. - Para onde vão? Ele simplesmente sorriu da minha ingenuidade de achar que ele sabia. Ninguém sabia. Se depois de algum tempo nós, pobres miseráveis, éramos levados para algum lugar, só nos restava esperar o momento da viagem para conhecermos o nosso destino. E foi assim que um dia aquela figura triste e amargurada com a qual eu trocara poucas palavras se foi sem que eu sequer percebesse. Da mesma forma, depois de muito tempo, eu olhei para a poça de sangue que meu antigo companheiro havia vomitado e que jamais secara e ali apareceu deitado outro pobre diabo. Tinha a forma humana, mas seus braços e pernas tinham grandes feridas abertas, das quais escorriam filetes de pus aos quais se misturavam pequenos vermes. Ele parecia estar apodrecendo, se decompondo aos poucos bem diante dos meus olhos. Mas ele estava inconsciente e assim permaneceu até o dia em que eu parti.
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