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Contos-->TEATRO ESCOLAR -- 25/02/2017 - 14:47 (PAULO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


  Neste momento, antes da cirurgia no coração, o senhor Marcos, 57 anos, se lembra dos dois teatrinhos que participou durante o ginásio, há mais de quarenta anos. Duas cenas em que, por coincidência, ele representou o papel de um paciente em uma mesa de operação. Marcos emenda os episódios em sua cabeça.


  Na primeira encenação os outros alunos, em papeis de médicos, encenariam uma cirurgia, tendo pela frente um paciente quase perdido. 


  O objetivo era mostrar o quanto a medicina é uma profissão necessária em nosso mundo. 


  Ocorreu que os alunos médicos riram e riram durante todo o drama. Isto desagradou muito a professora de Artes e, no final, ela comentou:


  - A equipe dos alunos médicos estragou a cena! Médicos não riem em operações! Quem já viu médico rindo sobre o corpo do doente? Mal decoraram o texto! Se não fosse pelo Marcos com um desempenho verdadeiro, vocês levariam zero.


  De fato, pensa Marcos, na primeira peça ele foi o morto, o anestesiado perfeito.


  E na segunda peça, no ano seguinte, por coincidência, pensa Marcos, deram-lhe novamente o papel de vítima antes de outra cirurgia. No entanto, a cena criava uma situação surreal; todos os alunos médicos desmaiavam durante a operação e o doente ao ressuscitar, dava um grito de desespero vendo os doutores naquela prostração e morria de vez caindo em frente à plateia.


  A mesma professora de Artes, da terceira série do ginásio, no ano de 1972, novamente detestou a história sem sentido e detestou ainda a encenação dos outros alunos  que voltaram a rir - mas soltou muitos elogios a  Marcos, pela sua interpretação magnífica e irretocável de anestesiado.


 - O Marcos foi um verdadeiro ator. Fez um paciente perfeito.


  Sim foram atuações brilhantes, pensa Marcos antes da sua cirurgia real no coração... duas cenas teatrais, as únicas interpretadas por ele durante a sua vida. Sem qualquer diálogo, ele fez o dificílimo papel de alguém perto da morte.


  Marcos aguarda a mesma cena, desta vez ela seria real e pergunta aguardando algo surreal:


  “Onde está a professora de Artes para elogiar a minha atuação? A professora de Artes do ginásio dominará os médicos quando entrarem rindo na sala, querendo encenar uma cirurgia sem observar a seriedade do roteiro?”


  Marcos não precisa de experiência artística na sua cirurgia do coração: uma intervenção cirúrgica tão delicada, com uma plateia pequena. Apenas sua esposa e dois irmãos fora da sala.


  Os médicos entram, começam a cirurgia. Marcos fica pensando, pensando até ouvir bem longe, a fala descabida de um dos médicos:


  - Eu perdi o pulso!


  Marcos sente vontade de rir. Por que não? Se a professora de Artes nem estava ali.


  No entanto, desta vez Marcos percebe; os médicos estavam sérios e apreensivos. Era uma inadequação terrível dentro daquele momento teatral: uma comédia.  


  Uma comédia precisa de pausas, um pouco de informalidade e alguma leveza. Os outros atores continuavam ruins.


  Foi o último pensamento de Marcos. Veio de muito longe, muito longe.


  


DO LIVRO:"TOUROS EM COPACABANA"




 


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