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Contos-->O rosto por trás do manto -- 13/03/2017 - 19:18 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A freira recolheu o livro que largara na cadeira vizinha, e pôs na bagagem de mão. Diferente de Lispector que não lia seus textos, depois de entregá-los ao editor, Paola leu e releu ‘Dezessete Anos’, até porque, seria traduzido para edição em italiano.
— A senhora é irmã de Morgana? Nunca soube que ela tivesse uma irmã tão bonita quanto. Falo de Morgana Napoleone.  São irmãs?
— Somos uma colcha de retalhos, formada do tecido celular de muitas gerações. Temos esse pano velho plasmado nas entranhas: estampas e cores desbotadas do passado, presentes nesta colcha de retalhos que somos. Não somos irmãs, mas pode ser que sejamos parentes e por isso trazemos registros  genéticos que nos tornam, fisicamente, semelhantes. Nunca iguais. E, embora meu nome de registro seja Paola Napoleone. Não somos irmãs.
  Ele contou sobre o desejo que o reitor do Marista tinha de tornar padre muitos meninos do colégio.
— Chegaste a fazer o teste vocacional?
— Não!   Agendei uma entrevista com o Bispo, por insistência do Reitor, mas não compareci. Naquele mesmo dia, apresentei-me ao alvinegro. Defendi sua bandeira, até final do ano passado, quando meu passe foi vendido ao Saint-Etienne. Naturalmente, já não tenho o vigor dos anos oitenta, quando conquistei, ainda criança, a taça para nossa turma do colégio. Foi um gol lindo! Decisivo para nossa vitória. 
Persistiu nele a sentença drummondiana  do retrato de família viajando na carne.
— Nunca soube que Morgana tivesse alguma irmã, mas a senhora se parece tanto com ela...
— Talvez o sejamos — e sorriu no intervalo da dor — Meu pai jamais me falara de outra família. Depois que minha mãe faleceu, ele me internou no convento de freiras e raramente aparecia por lá. A Madressilva contou tudo que sabia dele. Mas não era muito...  Nos primeiros cinco anos, meu pai  vinha visitava-me uma ou duas vezes por mês, depois disso, sumiu... Fiquei dez anos sem vê-lo. A madre foi transferida para um convento no Pará e por mais que eu tentasse colher outras informações sobre meu pai, não conseguia. Talvez a superiora já soubesse da morte dele, e não queira acrescentar mais dores ao meu coração. Eu também nunca disse  que sabia que ele morrera.
Fez uma pausa, respirou fundo e prosseguiu — Esta será minha última vigem em  missão! Ficarei alguns meses em Dakar e em seguida, deixarei o hábito. Pretendo tornar-me cidadã italiana, tenho um pé no Brasil e outro na Itália. Sinto muito decepcioná-lo por não ser irmã de Morgana.
— Parece tanto com ela.
— Deus utiliza molde diferente para cada pessoa, e jamais repete o mesmo modelo de rosto. Há sempre alguma coisa que diferencia uma pessoa de outra. Somos plural e singular, um ser coletivo e ao mesmo tempo, individual e único para Deus.  A propósito, no VIII Congresso Missionário Latino-Americano de 2008,  no Equador, um padre que se identificou como Victor Augusto me fez pergunta semelhante. Tive medo de penetrar nos mistérios do passado e me calei. Preferi não revelar o pouco que sabia sobre minha vida e minha história. Minha história de vida foi descrita numa linha reticente, repleta de  interrogações. Não sei quase nada de mim mesma. Só o Galileu conhece a dor escondida na burca da samaritana. Disse tentando por um ponto final naquele assunto.
***

Adalberto Lima, trecho de Estrada sem fim...
Enviado por Adalberto Lima em 13/03/2017
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