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Contos-->A Rainha de Matipó -- 14/03/2017 - 20:42 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Faz tanto tempo...

Adilson divagava traquinagens da meninice: o banho guardado na bacia do açude construído com toras de aroeira, por mãos escravas, e as matas ribeirinhas do rio Juramento, onde se escondia com Jerônimo, para ver as meninas se banhando. Elas nadavam vestidas, ainda assim, dava para ver a protuberância rosada  de pequenos caroços de pitomba, despontados na roupa molhada,  promessa de que na próxima estação chuvosa, lindos seios estariam completamente formados, e nunca mais seriam vistos por eles.

Eta  vidinha besta!

Distraidamente, Adilson comenta aquilo que antes estava apenas em suas lembranças.

— João Velho é homem de sorte...Euzébia era a menina mais bonita que as águas do Saracura pariram nas últimas décadas.

— Era? Faz quanto tempo que conheces Euzébia — perguntou Angélica.

— Desde menina. Nunca  descobri se ela tem olhos verdes ou amarelos.

— A roupa que a mulher veste interfere na cor de seus olhos — disse Angélica. — Euzébia tem olhos gateados. Mas de vestes verdes, tem olhos verdes...

Fez um muxoxo e continuou.

— Não creio que João Velho seja um homem de muita sorte.

— Ciúme, minha rainha? Raul Soares não gerou, nem as águas do Santana e Matipó conceberam e jamais conceberão uma filha que se assemelhe a ti, em beleza, sabedoria e santidade. Eu estava pensando nas meninas que se banhavam no rio  Saracura e Juramento. Coisa dos tempos de menino...

— Não queira ser engraçado, Adilson! Falo dos homens que morreram porque  se apaixonaram por  Euzébia. Dois, que eu saiba.

— Nunca soube de nenhuma  viuvez dela. Duas vezes viúva?

— Não chegavam a coabitar. Morriam na mesma noite do casamento.

— Então o casamento não valeu. Nenhum dos dois...

— Não! Não valeu. Ela permanecia virgem.

— Isso parece maldição! Como João Velho saiu-se com vida?

— Puseram-se  em oração, durante  os primeiros três dias de casados, sem coabitar. João Velho conviveu com padres. Conhece a Bíblia. Por certo  debruçou-se com Euzébia na leitura e prática do livro de Tobias.

— Angélica, até parece que conviveste com eles. Sabes muito de João Velho e Euzébia!

— Muita gente sabe da história de amor que eles viveram.

— Não vivem mais?

— Não sei! Não convivo com eles!

— Disso eu sei.

E chamou Jerônimo que veio  trazendo a conta.

— Mais uma  farofa de tatu, por favor!

— Haverá um dia em que será proibido matar animais selvagens.

— Será,  dona Angélica?

— Acho que Deus criou animais domésticos. Os que fugiram da convivência com o homem é que se tornaram selvagens — Arrematou Adilson.

— Também deve ter sido do mesmo modo com os humanos: os que fugiram da presença de Deus se tornaram selvagens.

— É  por isso que existe  índio, dona Angélica?

— Não! É por isso que existem pecadores!

— Diria que os que se isolam da convivência com o semelhante, tornam-se selvagens — interveio Adilson.

— Meu lindo! Estamos examinando a mesma matéria, sob a luz de duas ciências, que apontam para o mesmo fim: o poder criador de Deus. Ele que gera o conhecimento pela fé, é também o autor da ciência. Embora por caminhos diferentes, a ciência e a fé levam a Deus.

Jerônimo não entendeu.

— Com licença! Tem freguês me esperando no balcão!

— Está formando pra chover. Traga a conta!

***

Adalberto Lima, trecho de Estrada sem fim...





 


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