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Contos-->O piloto sumiu... -- 19/03/2017 - 21:58 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


 


Rasga as lembranças e lança ao fogo.
Faz o teu jogo com minhas memórias.
Mude o foco, e nossa história, tanto faz.
 Não quero troco, quero somente a paz.

 



Estava em voo internacional viajando numa aeronave sem piloto.  Vannini afastou uma mexa de cabelo que lhe cobria os olhos e tocou nalguma coisa áspera, como um diadema. Esquecera-se de retirar os fones.
 Insistiu na tentativa de contato, mas a torre não respondia.
Que diria? ‘O Piloto sumiu!...’
Não, diria a verdade. ‘O piloto morreu. O copiloto também! Que fazer? Estamos voando muito baixo.’
 O  botão indicador de altitude estava desligado. Vanini acionou o side-stick com a intenção de arremeter a aeronave, mas o equipamento não respondeu. O copiloto caído, tinha sangue nas mãos e um cinto preso ao pescoço. E o piloto, um corte transversal na barriga. 
— É impossível arremeter. Tente a aterrissagem.
— Assuma o comando!
— Não posso.
— Ainda não recebeste o brevê?
— Não.
— Assuma o comando, salve nossas almas.
— Não quero ser condenado depois de morto.
— Ordeno que assumas o comando, Fernão!
— A viúva não velará o corpo do marido, pois quem não sobreviver ao impacto com as águas será sepultado no mar.
— Vá para o inferno!...
— Nunca mande alguém para a sombra da morte, porque serás a sombra que o acompanha.
 Flap.
A cauda toca a superfície das águas. Fernão traçou uma cruz em sua boca, como se dissesse: ‘Fecha-te. Há muito  mais na vida do que comer, beber e acumular divisas, brasões e estrelas nos ombros; há muito mais do que ser um líder, um formador de opiniões. Há mais beleza na imagem projetada pela sombra de duas asas do que todo encanto das sete maravilhas do mundo.’
Feliz aterragem, Fernão!
 A voz de Bach, encheu  de coragem a alma de Fernão Capelo. Ele sabia que a uma velocidade superior a mil quilômetros por hora,  o impacto com a água,  seria fatal.   Estendeu os braços como se quisesse abraçar o mundo, abraçar tudo que antes desprezava! Seu corpo pareceu leve.  Sacou a porta de emergência e tentou ficar em pé sobre a asa do avião. Desceria com calma, deixaria o corpo escorregar na horizontal e depois, se a sorte conspirasse em seu favor, qualquer ilha que alcançasse, seria  sua nova morada. Sem o brevê, sem incorporar-se à Esquadrilha da Fumaça, não poderia fazer um loop diante do olhar atônito de Vanini, senão naquela hora. Deu ordens à sua mente: ‘Fernão, você é uma folha’ e deixou o corpo cair, rolar tocado pelo vento.
 O movimento que estava fazendo, não  poderia ser descrito como forma de  voar. Flutuava,  sem nenhum controle ou direção por ele definida. Não sabe quanto  tempo durou a ‘viagem’. Nem mesmo sabia se estava vivo, ou morto, se sonhava ou estava acordado. A água quebrava suas carnes, ardendo como choque contra uma parede rochosa.
 Estava tonto.
 As águas o envolveram. Algas passavam sobre sua cabeça e um camarão com sete barbas de profeta, disse-lhe: ‘Não queiras ir para Tárcis, quando eu te mandar para Nínive’.
Fechou os olhos. Esqueceu o medo, e ateve-se às noções de sobrevivência. ‘Só tente salvar um náufrago, se tiver certeza de que não vai afogar-se com ele’. ‘ Calma, Fernão, calma! ...’
Tudo estava escuro, muito escuro... Nem mesmo o clarão da aeronave em chamas, Fernão podia ver. Teria perdido a visão? Rompido o  cristalino? Era cedo para afirmar ou negar sequelas. Que prova lhe daria o céu de que ele estava vivo? Agradeceu a Deus,  porque sentia dor. Logo, estava vivo. Talvez cego. Visto que não enxergava uma nesga de luz na escuridão da noite.
 O medo invadiu sua alma: ‘Cego sobrevive  sozinho numa ilha? Como encontrar alimento?’ Não era hora de pensar em comida. Para que se preocupar? Os mortos não comem, nem os vivos  podem enxergam no breu da noite. Restava-lhe esperar por resgate, se antes não fosse tragado pelas águas ou engolido por um peixe.
Agarrou-se  ao paredão rochoso, que separa as águas do elemento sólido, e lutou contra as ondas que tentavam arrancá-lo como se ele fosse um mexilhão grudado numa  pedra. Ouviu o grito de uma gaivota e sentiu sobre sua cabeça as negras asas de um corvo. Estava prestes a ser comido..
 No recuo das águas, o náufrago respirava e vez por outra, uma golfada penetrava suas narinas arrancando-lhe em ondas alternadas o sopro de vida.  Lentamente, ele  desgarrou-se do paredão, caindo estatelado sobre pedras pontiagudas. Arrastou-se sobre as pedras até conseguir levantar apoiando-se na muralha. Veio a aurora rasgando o véu da noite com tênues raios avermelhados e Fernão pôde ver corpos que boiavam levados pela correnteza. A aeronave também viajava,  em partes menores, para o abismo insondável do mar.    Pôs-se de pé. E gemeu. E chorou. E sorriu... É doce a vida no mar.

O nome de Fernão Capelo,  constou, não necessariamente, da lista oficial dos mortos, mas, entre os desaparecidos. 
***


Adalberto Lima, fragmento de Estrada sem fim....
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