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Contos-->UMA FAMÍLIA -- 01/04/2017 - 03:13 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




O programa religioso que passa na tevê toca a canção “Oração da Família” e repete o refrão:

“Abençoa senhor as famílias, amém!  Abençoa senhor, a minha também...”.



Sílvio acha muita graça da canção, pois dali há uma hora, sairá de sua casa. Seu relacionamento com a esposa está aos cacos e agora, de súbito, escuta este hino religioso celebrando a família. É uma ocorrência que supõe: ou Deus não existe ou ele é muito irônico.



Sílvio faz as malas, mas o refrão continua em sua cabeça:

“Abençoa senhor as famílias, amém! Abençoa senhor a minha também...”

A dúvida também permanece na cabeça de Sílvio: a coincidência da canção provará a existência de um Deus irônico. Sílvio chama um táxi pelo telefone, no mesmo momento sua esposa grita do quarto:

- Palhaço! Ainda bem que eu não dependo financeiramente de ti!



Sílvio sente um embrulho no estômago e não quer pensar em mais nada. Depois resolverá a questão dos filhos, a divisão dos bens. Agora não vale a pena qualquer discussão, no entanto, o refrão do hino é uma pendência:

“Abençoa senhor as famílias, amém! Abençoa senhor, a minha também!”

Sílvio analisa apenas as coisas que põe na mala: camisas, cuecas molhadas, uma lâmina de barbear. Pegou todos os documentos e deixou alguns livros. Livros são palavras e mais palavras que ficam mais inúteis na indeterminação de certos momentos. A esposa do quarto ainda tem tempo de dizer:
    
- Se você pensa que eu vou voltar atrás em alguma coisa, está muito enganado. Porque não saiu antes?

Sílvio decide morar na casa de um irmão até organizar alguma coisa em sua vida. Espera a chamada do serviço de táxi que, depois de 15 minutos, avisa estar na porta. Sílvio não olha para trás, mas antes de sair sente a mágoa da esposa por algum motivo que desconhece. Terá sido dinheiro, o tempo, os vizinhos? Entretanto, o refrão da canção o deixa confuso.

“Abençoa senhor as famílias, amém! Abençoa senhor, a minha também!”

Deus realmente não deve existir. Sílvio entra no táxi, depois de cinco minutos, resolve desabafar com o taxista sobre a separação:

- Esta mala tem uma razão... Estou deixando a minha mulher depois de dez anos de casado.

O taxista ainda responde:

- Jesus sabe o que  faz...

Sílvio lembrou da canção e assobia o refrão até a casa do irmão que provavelmente não será pego de surpresa. No caminho ele ainda pensa em uma voz alta divina:



- Homens sempre devem fazer  vasectomia!

DO LIVRO: "TOUROS EM COPACABANA"


 


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