Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
76 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 54945 )
Cartas ( 21059)
Contos (12121)
Cordel (9543)
Crônicas (21131)
Discursos (3109)
Ensaios - (9910)
Erótico (13133)
Frases (39899)
Humor (17551)
Infantil (3560)
Infanto Juvenil (2308)
Letras de Música (5414)
Peça de Teatro (1311)
Poesias (135650)
Redação (2874)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2374)
Textos Jurídicos (1913)
Textos Religiosos/Sermões (4195)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Contos-->O QUE É A SOLIDÃO -- 10/04/2017 - 03:52 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos



     Levou quarenta minutos até Caio imaginar que o problema poderia ser apenas falta de gasolina em seu carro. Aqueles dois motoboys ainda ajudaram a estacionar. Os dois ocupados, carregando pizzas, tiveram a gentileza de pararem as motos para  ajudar um estranho.
     Caio sabia o quanto os motoqueiros detestam que alguém prejudique a fluidez do trânsito.  E ele deveria estar nesta condição detestável: fora do carro, empurrando o fusca com o braço esquerdo,  virando o volante com a mão direita, tentando estacionar na vaga disponível.
      Quando os motoqueiros chegaram, Caio tentou se justificar: falou da velhice do carro; a irmã o emprestara, começou a dirigi-lo ontem; teria que ver antes um mecânico, um auto elétrico. Os motoqueiros não ligaram para os fatos e ajudaram na manobra.
     Na verdade, Caio não conhecia ninguém. Sua opção era mesmo caminhar por toda a avenida até chegar à avenida Nossa Senhora de Copacabana, distante meia-hora dali, onde ficava a casa da irmã, que estaria dormindo o seu sono pesado de mulher idosa.
     Um dos rapazes ainda perguntou se ele precisava de algo mais. Caio recusou, poderia ter aceito, apesar deste último motoqueiro ter criado em sua cabeça inúmeros obstáculos: calcular o tamanho do favor, separar uma gorjeta.  Sim,  um homem da sua idade sabia o quanto toda cordialidade esconde um interesse financeiro, embora também soubesse que uma  certa dose de canalhice, às vezes, é fundamental para sobrevivermos...
        Naquela hora Caio apenas não quis incentivar a velhacaria no mundo.
     Meia-noite e deveria ter aceito a ajuda. O motoqueiro poderia morrer naquela noite ao perder o controle da moto, quebrar a cabeça contra o asfalto e chegar no paraíso com a boa ação do dia.  
      Morrem tantas pessoas no Rio de Janeiro. A madrugada mesmo é um tipo de óbito.
      Caio não deveria ter lido no jornal a manchete dos quinze assassinatos, do aumento no índice de latrocínio na cidade. Tal aviso não o animava a caminhar por ali, embora precisasse somente chegar em casa.
      Pensou no posto Esso no final da avenida. Pensou na sua falta de dinheiro do táxi e quanto os taxistas da cidade são desonestos.  Já bastava não ter detectado o problema no fusca da irmã e perder quarenta minutos apertando cabos.
     Dormir no carro também seria muito perigoso. Assaltantes surgiriam do nada. Caio apressou o passo. Aquela avenida era muito escura e trava ousadias. O comércio estava fechado e quando ele passava por ali durante à noite, somente observava os entornos dos semáforos onde os delinquentes surgem no vermelho.
     Também não havia mais ônibus rumo à região da casa da sua irmã que não deveria dormir tão cedo.  Melhor não reclamar, principalmente diante dessa escadaria.  Essa enorme escadaria surgida no meio da quadra parece uma rua comprida.  Se a polícia estivesse atrás de bandidos, eles poderiam despencar daqui, pular os degraus como coelhos,  chegar à rua paralela, sumirem.     
    Caio também queria sumir. Esta última semana de trabalho foram dias difíceis. Ele bem esclareceu a sua amiga Rita: as mesas provocaram enjoo, as pessoas perturbaram porque não havia um rodízio de rostos e ele repetia conceitos mornos de obrigações profissionais que não mudavam. No entanto, neste momento tudo está diferente.  Talvez tenha sido o acidente, há quinze dias, quando dormiu e destruiu o seu carro contra o muro. Quis o extraordinário que ele acordasse no hospital com uma dor no peito por causa da pancada contra o volante e uma sensação de afastamento.
    E depois o que mais escutou foi você teve sorte, você quase morreu, Deus te protegeu. As frases tornaram-se um eco. Um eco diferente: “Quase!”; “Por um triz!”; “Por pouco!”; “Você não sabe do que escapou!”; “Deu perda total, mas graças a Deus não te aconteceu nada”; “Você sobreviveu por milagre!”.      
     Caio sentia não ter sobrevivido. Certamente não sobreviveu porque já estava morto de uma forma diferente. Do contrário, o fusca da irmã não teria parado em um sábado à noite, naquela rua perigosa. Locais e horários perigosos parecem carregar a certeza dos homens de meia idade solteiros: toda a sua vida transcorreu sem novidades.
     Mas se anos e anos se harmonizaram apenas com bocejos, então algo precisava ser feito - pensou Caio. A tristeza precisava sair do seu coração.
     Caio poderia ter pedido gasolina aos motoqueiros. Talvez agora um deles estivesse quebrando a cabeça contra um asfalto ou encontrando sua namorada, justificando o atraso com a ajuda que deu para um velho unha-de-fome que nem deu caixinha. Caio ainda pensou:
    “A velhacaria do mundo é sem fim, mas esta desconfiança também precisa sair do meu coração”.
    Caio encontra um pequeno hotel. Decide passar a noite ali. Amanhã tudo será diferente.



DO LIVRO:"TOUROS EM COPACABANA"


 


Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Seguidores: 17Exibido 69 vezesFale com o autor