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Contos-->UM OUTRO CONDUTOR -- 06/08/2017 - 01:07 (PAULO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Sandoval trabalhava como condutor de  trens do metrô na cidade do Rio de Janeiro, mas algo lhe inspirava durante seu expediente:  a imagem da grávida sentada mastigando biscoito. Esta imagem principalmente, entre algumas outras imagens dentro dos vagões (o advogado precisava chegar a audiência; o estudante atrasado para a prova final; outro adolescente fora do horário em seu primeiro dia de emprego; o executivo calculou descer na Cinelândia e pegar um táxi ao aeroporto porque voos não esperam) faziam Sandoval sentir a importância do seu trabalho para a vida de todos os passageiros. Gostava mais quando o trem parava por causa de algum incidente. Os passageiros distraídos no início e depois impacientes, respiravam fundo, e somente ele, o condutor, sendo capaz de mudar tudo. 


  Somente Sandoval que, quando brecava a noventa metros de uma estação, procurava ser brusco para que a grávida esfarelasse o biscoito de leite contra o rosto e a barriga de oito meses rolasse sobre o passageiro da direita atrás do equilíbrio. 


  Sandoval dominava todos os incidentes e talvez dominasse os partos. Muitas grávidas saíram de sua composição direto a maternidade.


  Naquela manhã, Sandoval aproveitou a queda de um homem nos trilhos da estação Maracanã e imaginou novamente, a agitação da parada do seu trem nos passageiros. Quanta ansiedade não deveria haver em cada vagão e Sandoval ali como o condutor responsável pelo destino de todos: a sorte da prostituta que voltava para casa; a sina da outra freira que deveria se internar em um convento. As duas irmanadas pela aflição de estarem presas junto com Sandoval; isto naquele horário, dentro dos vagões, significava o aperto de seis pessoas por metro quadrado. Sandoval sabia das coisas.


  Sandoval analisou melhor e concluiu como ele era feliz sendo o responsável pela libertação dos aflitos e torturados: o epilético marcara uma ressonância magnética e já pressentia a falta de espaço no tubo funéreo; o aposentado todos os dias saía de casa experimentando livrar-se das reclamações da mulher... mas se voltasse muito tarde seriam novas reclamações em um casamento inconciliável e eterno. Quantas vidas... Algumas chegariam sentadas, outras em pé, outras espremidas contra a porta. 


  Sandoval repetiu, pelo áudio do trem, a justificativa  aos passageiros: 


 


  - Estamos aguardando a liberação da central para prosseguirmos a viagem. 


 


  Sandoval sabia, poderiam demorar um pouco mais. Trinta segundos mais dentro de uma aflição que poderia durar mais trinta segundos. Qual o fim? Aquele ponto em que a destruição do trem estaria a um átimo de ocorrer em migalhas jamais vistas, embora menor do que o alívio de todos os passageiros quando percebem a composição sendo acionada devagar, batendo ferros, começando a seguir o seu trajeto.


  Para Sandoval nenhum salário compensava a satisfação de guiar este cavalo de Troia todos os dias. Sim, um cavalo de Troia atrasado a soltar vários outros cavalos em cada estação.  


  Sandoval está de licença médica desde o dia 12 de outubro. Foi hospitalizado por causa de um Acidente Vascular Cerebral. Ele chegou a perceber: parecia chegar a uma estação muito estranha, havia uma plataforma enorme, homens martelavam trilhos luminosos e impediam o prosseguimento do seu trem, mas os homens bateram, bateram até somente a cabeça de Sandoval seguir caminho em um acionamento não autorizado pela central.


 


 DO MEU LIVRO: "TOUROS EM COPACABANA" 


*não publicado


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