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Contos-->Laudo, laudas. -- 10/09/2017 - 19:30 (BRASIL EUGENIO DA ROCHA BRITO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
LAUDO, LAUDAS

Brasil Eugênio da Rocha Brito


Já é o segundo dia que pego estes contos enviados. Ler tais coisas já está cansando minha beleza. Certo que, quando aceitei ser membro da comissão julgadora deste concurso, não poderia estar esperando vir a chegar às minhas mãos nenhuma obra soberba, tais quais as de Guimarães Rosa, Oswald de Andrade, Osman Lins ou outros notáveis escritores brasileiros, mas também, pela mãe do guarda! Se existissem prêmios para linguajares barrocos ou gongóricos, se travestindo de atuais, neste início da década de 80, teríamos que providenciar medalhinhas aos montes para arcar com tais imaginadas premiações... Sinta esta aqui: “O bem-apessoado gentil-homem, tomado de súbita e inebriante ousadia, insolitamente se acercou da jovem senhorita, sentindo todo seu corpo tremular, desde as pontas dos fios de seus cabelos, até as extremidades de seus artelhos”. É dose! Bem diferente, mas talvez de nível tão meritório/aceitável, quanto trechos de escritos da inefável Da. Maria das Mercês Silveira, celebrada poetisa de Santo Inácio do Passa Sete, glória local, eternamente recomendada por comissões dessa cidade para vir a ser homologada como candidata a vaga na Academia Paulista de Letras, já em razão do êxito (??!!) de seu consagrado livro “O radiante desabrochar da rosa encarnada”, obra que teve sua 1ª.edição patrocinada no ano de 1950 pela Comissão de Cultura da sua cidade atrás mencionada.
Bem, não se pode dizer que nada há de, pelo menos, apreciável nestes contos enviados, sejamos assim bem honestos. Sente-se, aqui e ali, alguma coisa promissora, porém, sequencialmente, não conseguem com que o nível seja mantido, às vezes até descambando para coisas difíceis de serem aguentadas. Que pena! Pessoalmente julgo que a decadência ocorrida e ainda ocorrente no ensino neste país, desde os cursos primário e ginasiano, passando pelo denominado colegial, é a coisa mais responsável por hoje a porcentagem das pessoas mais bem preparadas, ao término de tais cursos, ser tão mais baixa do que era ao tempo das pessoas que comigo, nos anos 30, 40, 50, estudaram desde o curso primário até, eventualmente, se formarem em cursos universitários. Xô, xô, paulificantes digressões! Vamos voltar para as análises dos contos enviados. Cacildes! Apareceu um conto aqui que me começa a permitir certo entusiasmo... Ah, até parece que o que acabei de dizer foi como um mau agouro, a vaca já foi “p’ro” brejo e “ói lá”. Este seria bem um exemplo de fato muito ocorrente entre contos aqui inscritos. Há autores que parecem ter em seu poder um enredo interessante, que bem tratado poderia ser cativante, mas se perdem, parecendo não saber o que fazer com ele. Que chato, que desperdício isso de alguém, parecendo tão promissor, já morrer nadando tão antes de chegar à praia. Quantas são as pessoas que não conseguem atinar que um enredo já é, por si, algo especial para sobre ele se construir uma estória, um conto, mas estes não são apenas redutíveis ao tal enredo. Há muito que ser trabalhado, há caminhos tomados que, logo adiante, podem denotar não serem adequados, pelo que teremos que abandoná-los optando por novos rumos. Não quero aqui me ver atolado, mais uma vez, nessa desgastante discussão quanto ao que se deve entender por forma e por conteúdo. Entretanto, não quero me furtar a vir dizer que me estarrece o fato de que tantas pessoas, que se dizem muito dadas à leitura, não se tenham apercebido que o enredo – se quiserem aquele enredo mais linear, mais identificável por tal nome de batismo popular, o tal enredo enfim – ele apenas será o pretexto do texto (valeria jogar com o trocadilho, o pré-texto do texto, por que não?). De qualquer modo, eu afirmaria, endossando o pensamento de tantos afamados escritores e vultos da semiótica, semiologia, que a criação se faz a partir de e com a linguagem, construindo-se uma obra literária.
Ser jurado é uma barra! Doze anos atrás inventaram de me colocar naquele Festival Universitário de Música e bem me lembro o que passei. Ao início das reuniões o empossado como Presidente do Júri, pelo jeito alguém que nenhuma intimidade possuía com as músicas populares da época, etc., deu uma série de instruções bobocas quanto à forma de serem avaliadas as músicas inscritas e de como proceder, consequentemente, a atribuição de notas. Assim, nos instruiu para dividir tal avaliação das obras em 2 partes. Teríamos que atribuir notas/pontos entre 1 e 10 para a obra, no que respeitava à música e, também, os mesmos valores entre 1 e 10, no que respeitava às letras/textos. Após, se procederia à obtenção de médias aritméticas das notas músicas/letras para resultar a nota da obra concorrente. Tudo isso me parecia um disparate. Resolvi solicitar a palavra para pedir um esclarecimento. Perguntei então “p’ro” distinto: “Senhor, gostaria de saber de como deveríamos proceder se, entre as obras inscritas, aparecer algo como a obra “Casa Forte” do Edu Lobo, a qual, interpretada pela Elis Regina, é apenas música vocalizada, sem letras/textos. A resposta que se seguiu só poderia ser brilhante/antológica (de anta zoológica?): “Espero que isso não ocorra. Se porventura ocorrer, aí iremos então considerar a questão”.
No fim da década de 40 houve um concurso literário da revista “O Cruzeiro” onde, se não me falha a memória, “Sagarana”, do então desconhecido João Guimarães Rosa foi inscrita, concorreu e... nerusca. Alguma outra obra da época terá levado o prêmio maior, mais que isso não sei. Quase posso garantir que, algo tal como isso comentado, não tem condições de acontecer neste concurso, do qual como um jurado colocado em 2 fases estou participando. Explicando melhor, eu fui designado pela própria equipe total dos jurados para, de início, fazer como que uma pré-triagem do material recebido, após o que, tudo que passar por este crivo, seguirá para o exame pleno e circunstanciado de todo o corpo dos jurados (entre o qual novamente estou incluído). Estou com tal procedimento sendo alvo de uma deferência? Pode até ser, mas conforme a frase tida como gafe cometida por um maiúsculo compositor de nossa música, não foi falado para mim que “haveria um dinheirinho nisso” (e bem que poderia haver).
Agora falando sério, até o momento tudo que passou pelo meu crivo está mais para desanimador. Nada que lide com algo de inusitado, ou que seja muito cuidadosamente elaborado, que, em escala reduzida que seja, venha a conseguir nos convencer, nos entusiasmar, apenas lugares mais que comuns, xaropadas. Ainda há também aqueles que talvez julgando o que fazem procedente como indício/índice de modernidade, parecem confundir, nos textos, ausência de preconceitos com uso inoportuno/gratuito de pura pornografia. Qui que é isso, minha gente! Não vamos querer nos enganar. É mais que claro que neste concurso não irão surgir nada parecido a Dickens, Twain, Steinbeck, Tolstoi, Dostoievski, Joyce, Borges, Machado de Assis, Guimarães Rosa e outros que tais. Por outro lado, será que merecemos um tão imenso desfilar de babaquices? Não sei se é coisa um tanto antiga ou talvez até também recente, mas a mim parece que existe, ou, melhor dizendo, está voltando a existir, um “ saint-exuperismo”, uma espécie de intensa valorização de uma linha pseudo-filosófica, duma chatice, mesmice que talvez como doença possa ser debelada com a aplicação de um bom antídoto, tal como uma injeção de 5 c.c. de algo de Oswald de Andrade, não seria o caso? A propósito, quando lá pelos anos 50, pela primeira vez eu li “O pequeno príncipe”, obra tão comentada de Saint-Exupéry, fui assaltado por uma sensação a qual, já outras vezes me atingiu quando, lendo certas obras, assistindo certos filmes, sensação essa que consiste no seguinte: a gente subitamente se detém visando dar tempo para melhor pensar sobre o que acabamos de ler/assistir e... que coisa! Será que me faltaram condições para bem entender ISSO apresentado ou a coisa é mesmo decepcionante? No caso desta comentada obra, sobre a qual, na década de 50 em especial tantas louvações eram registradas, quando tão usual era o fato de as jovens selecionadas para os muito ocorrentes concursos de “Miss” neste país, ao serem inquiridas quanto a qual seria sua leitura predileta, seu “livro de cabeceira”, quase que maciçamente cravavam: “Ah, O Pequeno Príncipe”! Como eu apenas tenha lido tal obra após tais fatos apontados, pude passar a considerar que tais depoimentos extraídos das belas candidatas poderiam lhes terem sido recursos ensinados pelas pessoas que as assessoravam, as convenientemente preparavam para o concurso em pauta.
Desde aí fui tomado por uma tristeza, que logo se transmutou em real preocupação: será que se poderia levar estritamente a sério, quer como apreciável obra literária, quer como veículo de pregação de uma defensável cosmovisão, na qual estaria integrada, tal obra do francês escritor-aviador? Ora, de minha parte nada encontrava digno de nota, nada mais profundo como pensamentos do que citações quase ao tipo das que, nos anos 30 e 40, enxameavam os, na época muito difundidos, almanaques como os de “A saúde da mulher” e coisas que tais. Sim, de modo algum quero menosprezar a figura de uma pessoa que terá sido um ser talvez muito correto, possuidor de cultura acima da média, bem intencionado na vontade de dividir com outros informações/conjecturas que poderiam ser de interesse mais pleno. Entretanto, tais constatações não implicam em podermos necessariamente considerá-lo um bom escritor, como inclusive não o são muitos dos até renomados críticos de literatura, arte, etc. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!
Ah, meus tempos de latinista, aqueles quatro anos de ginásio, lidando com as cinco declinações, os textos das obras “De bello gallico” de Julio Cesar e “Eneida” de Virgílio e ainda tantas outras coisas. Ao início do ano letivo de 1945, no 4º.ano ginasial Classe B, Mista, do “Colégio Paulistano” em S.Paulo, nosso professor de latim era o douto e muito famoso Dr. Celestino Correia Pina, o muito temido “homem das silabadas” (punia todo e qualquer erro de identificação de sílabas tônicas aplicando até, no caso do aluno cometer 3 “silabadas” num mesmo mês, 50% de redução na nota mensal apurada nas provas escritas e nas arguições orais quando o aluno a(s) cometesse. Começou aquele 1945 tomando da “Eneida” o trecho iniciado em “Hanc quoque deserimus sedem paucisque relictis ...” até “noctem hiemenque ferens et inhorruit unda tenebris”, Livro III. Após muito breves considerações iniciais do Prof. Pina, nesta 1ª aula do ano, ele divisou nossa colega Enid, repetente que cursara latim no ano de 1944 lá com ele, pelo que de pronto se dirigiu à jovem lhe perguntando: “Senhorita, por acaso terá lembrança de como era o trecho da mesma “Eneida” que no ano passado estudamos? “Sem hesitação, de imediato ela respondeu “Arma virumque cano...” (e nesse ponto encerrou sua resposta) “Muito bem, alvíssaras... entretanto a srta. não completou o verso que continua em Troiae qui primus ab oris ,etc., etc. e o trecho nosso objeto de estudo foi até “quidue dolens regina deum tot voluere casus” Sentiram vocês de como era o nosso Prof. Pina? Eu apenas poderia dizer que muito divergiria dele, mas que reconheço ter enormemente com ele aprendido, não apenas a língua latina, bem como estar convicto de que ele abriu minha mente para muitas coisas por mim insuspeitadas, além do que, em algumas vezes que pessoalmente com ele vim a casualmente encontrar, inclusive anos após, quando eu já aluno da Escola Politécnica, ele sempre foi muito atencioso e gentil. Voltando a 1945 devo dizer que ele deu o assunto com Enid encerrado quando sentenciou “Arma virumque cano são as palavras latinas que iniciam não apenas o Livro I, bem como toda a obra “Eneida”. E, mais que isso, vocês aprenderão, no que respeita à literatura portuguesa, que a magnífica obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões se inicia tomando de Virgílio, talvez até isso sendo sentida homenagem, a frase inicial do Canto I, início de toda a obra, como sendo “As armas e os barões assinalados”. O importante para ser posto em evidência é que o verbo que toma isso de “as armas e os barões, etc.” como um objeto direto, Camões só faz com que ele apareça no 7º. e penúltimo verso da 2ª. estrofe desse Canto I, quando ele coloca “CANTANDO ESPALHAREI por toda a parte...”. Aí então teremos a correspondência magistral com “arma virumque cano “ (canto as armas e o varão...).
Talvez no mesmo dia tivemos a 1ª aula com o pouquíssimo conhecido Prof. Dr. José Moura Leopoldo e Silva, o qual, pelo menos para mim e, talvez, para alguns outros alunos, foi considerado como alguém especial, marcante. Entretanto, sob certos aspectos, ele seria quase o inverso do Prof. Pina. Vivia mal-ajambrado, tanto no que respeita as vestes como no descaso ao não pentear, convenientemente domar sua vasta cabeleira. Ademais, embora estivesse longe de ser um coxo, algum deficiente que forçadamente claudicasse, ele, talvez, tivesse uma das pernas ligeiramente mais curta que a outra, razão pela qual tinha um andar muito peculiar, de passos muito curtos para quem teria uma estatura perto de 1,75 m ou pouquíssimo mais que isso. Tal jeito de andar parecia meio inseguro, quase que prometendo/prenunciando que ele viesse a cometer tropeços, coisa que nunca vimos acontecer para ele. Bastou isso que seu jeito de andar parecesse meio trôpego, para alguns de nossos colegas bolarem para ele o apelido de “Zé Caninha”. Ele era alguém ao mesmo tempo que muito educado, um tanto fechado, nunca sorridente, por demais introvertido. Entretanto, ao ministrar uma aula ele se metamorfoseava em pessoa muito falante, entusiasmado, mas sempre mantendo sua voz em volume baixo. Aliás, em todas as suas atitudes bem transparecia de como ele era modesto, capaz de fazer considerações de alto nível como se falasse de algo corriqueiro. O que mais, talvez, nele me haja deixado marca maiúscula, terá sido o fato seguinte. A grade do ensino previsto para aquele 4º.ano ginasial apenas contemplava uma certa superficial revisão de assuntos referentes a gramática, sintaxe e um mergulho maior nos estudos de obras literárias. Entretanto, de modo algum vinha a contemplar estudos outros e, atendendo nosso professor uma compreensão de como seria muitíssimo conveniente virmos a nos inteirar de como nossa língua veio a se tornar conforme se apresentava naqueles meados do século XX, ele, sem alarde, sem sequer estar citando as palavras etimologia, etimológico e outras afins, passou a nos ensinar tantas coisas que diziam respeito às formações das palavras desde o latim de origem, pelos trajetos da derivação popular e da derivação erudita, conforme ele assim nos apresentava.
Outra vez, naquele 1945, ano no qual poucos meses após a 2ª Grande Guerra teve encerramentos nos 2 palcos onde ocorria, Europa e Região do Oceano Pacífico, eu pude gozar de um descortinamento, uma abertura da mente paralela àquela a mim propiciada pelo Prof.Pina. Aliás, não poderia afirmar, de modo categórico que ambos estes professores teriam, naqueles anos, resolvido entrosarem suas aulas para podermos, nós alunos, virmos a obter o que nos foi na ocasião oferecido, mas existiram episódios, em especial levados a efeito pelo Prof. Pina, que me intrigaram -- e continuam hoje me intrigando -- de como ele abordou certos pontos em momentos tão oportunos para comentar algo nesse cruzamento “Eneida--Lusíadas”. Um exemplo seria de quando, sem mais essa nem aquela, Prof.Pina subitamente nos trouxe, assim de um modo intempestivo, a citação tirada do Canto I, E.102 de “Os Lusíadas”: “Oh! Maldito o primeiro que no mundo/nas ondas vela pôs em seco lenho!”. Naqueles meus incompletos 15 anos, isso lido e ainda na ocasião pouco entendido, se comparado ao que disso e de leituras posteriores sorvidas desde a E.94 (quando vim a saber do velho do Restelo e seus anátemas), pude vir a compreender, já na ocasião muita comichão cerebral me trouxe. Pessoal, sejamos honestos: se um pensador já afirmou que poesia é como uma prosa condensada que, em poucas palavras, tanto nos revela, eis aí algo que fez um garoto de quase 15 anos vir a muito tentar mais intensa e profundamente entender. Tais pouco mais de 10 palavras para mim são um exemplo magnífico de construção poética, desculpem-me os que de mim discordem. Voltando a falar das aulas do Prof. José Moura, ainda hoje penso quanto a ele devo, por ter podido não só compreender, como me deleitar com isso dele nos historiar de que modo, por ex., de salus/salutis, em latim, veio a palavra portuguesa saúde, de regina/reginae veio rainha, de ruga/rugae vieram, na derivação popular rua e na derivação erudita ruga (ói lá, uma rua está para o solo da cidade como uma ruga para nossa pele, quem diria...). Foi assim de modo sorrateiro, mas bem-vindo, mais que defensável que aquele nosso professor nos fez conhecer, de um modo aventureiro, gostoso de ser saboreado, tais ensinamentos tão propícios. Aférese, síncope, apócope, metátese, metaplasmos talvez parecessem até especiais xingamentos para outros garotos e garotas de nossas idades, mas para, pelo menos alguns dos interessados alunos de nossa turma, eram descobertas talvez tão interessantes e valiosas como os tesouros de piratas de que tantos contos falavam... Beleza!
Pois é, estou registrando estas coisas no ano de 1980.Em tantas ocasiões eu e os de minha idade passamos por tantas fases de nossas vidas, nos estudos, nas profissões adotadas, nas formações de nossas famílias. Hoje, muitos de nós pelo menos já sendo pais, talvez uns poucos tendo chegado a ser avós. O triste é constatar de como, no que respeita ao ensino, considero eu termos tido muito menos ofertas procedentes/enriquecedoras do que nos deveria ter sido ofertado. Se formos então focar não no todo que representariam os ensinos, inclusive das profissões de nível universitário, mas apenas, por ex., como um engenheiro, um médico, um economista, um advogado, um dentista, recebem de adequada formação no campo de capacitação de razoavelmente poder lidar com a nossa língua, prefiro sobre tal coisa me calar, para não fazer uso de impropérios. É aí que me lembro de que, 35 anos atrás, pude ter aulas com professores como Dr. Pina e Dr. José Moura. Certo que, no curso científico, na Faculdade, tive também alguns excelentes mestres, como o foram o genial Tore Nils Olof Folmer Johnson, Remi Benedito da Silva, Simão Faiguenboim, Telemaco H. de M.Van Langendonck, J. Octávio M. Camargo, Benedito Castrucci, José Augusto Martins e, talvez, poucos outros. Entretanto, o todo do ensino, a consideração de como as grades curriculares se deviam desenvolver, como se deveriam entretecer para se permitir formar um profissional mais bem aparelhado para bem desempenhar seus papéis na sociedade, isto até hoje não me parece ter acontecido. Cansei e canso de ver colegas engenheiros, ou de outras profissões de nível universitário, até chegarem a pedir, para algum colega, que lhes redija, por escrito rascunhado, o “despacho” que deverão dar no expediente/processo que lhes veio para ser exarado um “parecer”. Isto é coisa frequentíssima, pelo que vi acontecer e/ou pelo que soube ocorrer ou haver acontecido. Estes são aqueles momentos em que mais lembro, não apenas daqueles meus professores no ano de 1945, mas até me revolto ao lembrar que, desde então, nunca mais, fossem nos estudos curriculares do chamado curso científico, nos não curriculares do chamado “cursinho”, muito menos (obviamente) no curso de engenharia na Escola Politécnica da USP, por todo esse tempo, nada me foi ensinado, por exemplo, quanto à Etimologia, estudo que me parece deveria ter integrado, obviamente, sem intenção de aprofundamento, o currículo do então chamado curso colegial. Apenas, inclusive porquanto é ciência que nos pode fornecer muita segurança ao procurarmos registrar a correta grafia de uma palavra de nosso idioma, para não se falar de quanto melhor nos aparelha para dominar conhecimentos de tantas outras áreas do saber humano.
Tanto tratei de como sobremaneira aprecio obras como as de Virgílio e Camões, de tantos séculos passados, que me sinto agora no dever de falar sobre obras concebidas em épocas mais recentes, em especial neste século XX (no qual eu nasci). Formando-me em engenharia civil em dezembro de 1953, desde havia anos tencionava voltar a estudar música, agora indo bem mais além, pretendendo fazer curso de composição musical, pelo que procurei tentar vir a me tornar aluno do Prof. H. J. Koellreutter. Após este regressar de curso de férias da Pro-Arte em Teresópolis, vim a procurá-lo, na então Escola Livre de Música na Rua Sergipe na capital paulista, cidade em que desde 1939 com meus pais residia. Eu teria que me alongar demasiado se pretendesse aqui registrar tudo que memorizei sobre aquela, tão para mim, decisiva conversa que entre nós aconteceu. De momento, bastaria contar que ele me aceitou para seu aluno e as aulas particulares, por duas noites a cada semana, logo puderam começar. Uma das primeiras pessoas que logo lá vim a conhecer foi o jovem Luiz Carlos Lessa Vinholes, gaúcho de Pelotas, alguém apenas 3 anos mais novo que eu. Naqueles dias não poderia eu imaginar que nos tornaríamos tão chegados amigos, neste ano de 1980 eu casado, pai de 3 filhos, residindo em Santos-SP, e ele, em funções na Embaixada do Brasil em Ottawa, Canadá, também casado e pai de 2 filhos. Voltando ao foco do assunto, entre os alunos da escola circulavam poesias do grupo noigandres, na revista noigandres no 2 e, em as lendo, foi meu primeiro contato com os poemas dos integrantes desse grupo. Na época, sinceramente não conhecia James Joyce a não ser por ouvi-lo citado ou ter lido citações sobre ele. Melhor vim a conhecer sobre as ideias e as obras desse grupo de poetas da referida revista, ao ler os suplementos de sábado do Estadão, nos quais li artigos, principalmente escritos por Augusto de Campos.
Creio, pois, que tempos após, quando já me tornara apreciador dos escritos de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, me deparei, no Suplemento literário do Estadão, do dia 29/11/1958, com um excelente artigo, “O lance de dados do Finnegans Wake “, nele incluído o fragmento 3 desta obra joyceana , tudo da autoria de Augusto, inclusive sua magistral recriação poética na ”tradução”, em português, de tal fragmento. Após a leitura que fiz, muitas coisas passaram a se remexer em minha mente. Apreciador, e desde 1954 mergulhado no estudo de música, passei a tentar traçar paralelos entre a politonalidade musical que surpreendíamos em obras de Stravinsky, Honegger, Milhaud e outros compositores destes tempos, e tal prosa/poesia de Joyce, quando uma palavra cunhada pelo autor (que no “Panaroma do Finnegans Wake”, à página 22, Augusto e Haroldo chamam de “palavras-valise”), no meu entender Joyce faz acontecer algo mais complexo que uma polissemia, porquanto esta se refere à possibilidade de uma “não-alterada” palavra poder abarcar vários e diferentes significados pelas inserções dela em diferentes contextos, enquanto a “palavra-valise”, por vir a nascer em consequência da aglutinação em um só -- digamos artificialmente construído termo/palavra -- de mais de um termo/palavra, pertinentes ao léxico original da língua --, assim dá origem a possíveis alternativas leituras feitas a partir de possíveis significados, que já fazem parte de nossos “ repertórios de significados “ para leitores do texto apresentado. É aí que a tal obra joyceana desperta em mim, ao agora focarmos a música, uma comparação/homologia com a bitonalidade, a politonalidade. Se achar oportuno, quem isto estiver lendo procure ouvir as 12 peças “Saudades do Brasil”, obras para piano do compositor francês Darius Milhaud, peças politonais que creio nunca serem chocantes e sim, já na 1ª audição, bastante aceitáveis ou muito mais que isso.
Assim, tomando apenas trechos do Fragmento 3 do Finnegans Wake” no original de James Joyce e na recriação de Augusto, temos “... as any camelot prince of dinmurk ...” --------- “... como qualquer camelot príncipe da sinamarga ...”, “...with an earsighted view of old hopeinhaven...” ----------------- “numa ouvidente visão da velha boaesperança...” *
O brasileiro Guimarães Rosa também faz uso de “palavras-valises” em suas obras. Poderiam aqueles que não aceitariam tais ”modernidades” chamar tais coisas de “obras herméticas”? Lembremo-nos de Oswald de Andrade: “ A massa um dia comerá o biscoito fino que fabrico”. E não é que ele está com a razão?
Ah, mais um conto de 18 laudas. Já devo ter lido umas 3.000 laudas e me parece que tenho outro tanto para ainda ler. Haja saco! Laudo, laudas, laudavi, laudatum, laudare. É mesmo, meu povo. Laudare, verbo latino, é louvar. E, de momento, não há sentimento mais distante de tal idéia de louvação, do que isto que sinto agora com relação a este mar de laudas. Como já disse Gilberto Gil, só farei a louvação do que deva ser louvado. A propósito, um amigo poeta, ainda hoje vivo, certa vez me disse que a obra literária seria, para aqueles que muito pretendiam se auto-intitularem artistas, a opção mais fácil e barata. Bastaria se possuir papel, um lápis ou esferográfica e, desde então, se poderia cometer um poema, um conto, etc. Não que isso, por si só, já representasse um salvo-conduto ou credencial do portador ser um artista, mas sim que muitos gostariam de vir a se convencer, a si próprios, de que isso, já assim os situariam, numa esdrúxula operação na qual seria ampliado o muito conhecido ditado, daqui em diante transformado em “De médico, artista e louco, todo mundo tem um pouco.”
Eu, sinceramente, embora já tendo textos de minha autoria publicados em revistas, jornais, livros, etc., não creio poder merecer minha inserção na categoria de escritores, porquanto considero que, para poder estar nesse nicho, precisaria preencher um elenco de qualidades, habilitações, algumas apenas possíveis de serem alcançadas numa prática reiterada do ofício. Mesmo assim, de modo que se poderia acoimar de “amadorístico”, já, conforme atrás revelei, andei e ando cometendo tais estocadas... Afirmarei algo agora que, creio, mais poderá não ser aceito, julgado procedente, do que bem aceito, mas sendo uma tese que há tempo tenho como válida, aqui a exponho. Afirmo que, quando eu escrevo/escrevi um conto, eu tento erigir a construção do mesmo, partindo de um texto classificável como crônica. Tendo assim um arcabouço estabelecido, eu nele injeto muitos elementos trabalhados sobre memórias de fatos comigo no passado realmente acontecidos, ainda possivelmente acrescentando narrações de fatos reais ou fictícios — ou mesmo um amálgama de uns e outros — e, talvez, reflexões, digressões, desde que eu me convença de que os processos utilizados em tal modo de construção permitam que o resultado exiba coerência, seja uno. Pessoalmente para mim não seria defensável considerar que uma obra deste modo concebida e realizada não fosse, no fim das contas, um conto.
Há, ainda nestes dias dos anos 80 um preconceito que, felizmente, parece estar caminhando para a extinção, voltada contra a obra artística que antes era marginalizada se o modo dela ser veiculada não fosse considerado partido de “uma boa procedência”. Hoje, já por muitos é reconhecido, que existe realmente criação artística nas letras de canções de autoria de Cole Porter, Lorenz Hart, Ira Gershwin, Johnny Mercer, Noel Rosa, Chico Buarque, Tom Jobim (qual é a dúvida? Ele escreveu textos ótimos para muitas de suas músicas), Caetano Veloso, Gilberto Gil, J. C. Capinam, Aldir Blanc e tantos outros... Já, com bem menor boa vontade, acontece o reconhecimento do valor artístico (por que não?), da louvável criatividade que podemos encontrar em “jingles”, em textos de propaganda veiculados, quer em jornais, “out-doors”, rádio ou TV: “Prefira a tranquilometragem dos pneus X “, em jornais e out-doors” há cerca de 12 anos atrás(aproveitem a ocasião para aqui surpreender mais uma aparição de palavra-valise). Dessa mesma época é a propaganda da Shell pelos Mutantes, em rádio e TV, que eles corajosamente incluíram em um de seus primeiros LP’s. Mais antiga ainda o comercial da pasta Wolfin para conservar objetos de prata : “Prata Preta? Preta Prata? WOL-FIN. FIM da PRATA PRETA”, assim sendo veiculada uma “poesia concreta com animação” no veículo constituído pela TV. Muitos torceram o nariz. Convenhamos que seria esperar demais que, de uma hora para outra, a mesma mentalidade que aceita (e não concordaria com um “sucedâneo” bem diferente) o fardão dos acadêmicos, venha a aceitar como também artístico algo classificável como propaganda...
Chegou a vez de eu ser submetido a possíveis análises e, assim, talvez alcunhado pelos PMDBistas, PSDBistas, PTistas, PDSistas, PTBistas, PDTistas de plantão. Seria por uns colocado no grupo dos elitistas, inclusive por confessar apreciar Joyce e Guimarães Rosa? Por outros apenas podendo ser nada mais que um reaça, um submetido ao sistema, por inclusive elevar o “status” disso tão incrustado no capitalismo selvagem como seria a nefasta publicidade? Haveria ainda os que me considerariam um execrável populista, por ter confessado meu entusiasmo na apreciação das poesias dos autores de música popular brasileira e americana? Muito além disso, minha gente, eu demais gosto da ourivesaria, do requinte, mas também nunca desprezaria a geral, corintiano e flamenguista que sou. Brado, junto com Caetano e Gal Costa, que eu quero a geral, como também eles, na matinê do “Cinema Olímpia”. Estou muito solidário com os poetas concretos, na admiração muitas vezes por eles confessada, pelas letras de Cole Porter, principalmente pela magistral “You´re the top”.
Tal assunto permitiria mais considerações. Desde há séculos, no Ocidente, as manifestações musicais foram classificadas em duas categorias distintas: música erudita e música popular. Tive eu a ocasião de registrar, em um artigo que escrevi, lá por 1965,para o jornal “A Tribuna” desta Santos, uma questão propondo como que uma pergunta: O que é mais criativo, o que mais viria a ser, digamos, algo superiormente substancial como música : certas suítes de Khachaturian ou ainda, muitas das obras eruditas de Hekel Tavares, estas de um lado , colocadas frente a “Mood Indigo” por Duke Ellington, “Ko-Ko”, “Ornithology” e outras obras /interpretações de Charlie Parker e ainda “Lament”, ”Impressionism”, ”Fugue for rhythm section” e tantas outras peças por Stan Kenton ? Dentro da mesma ordem de ideias, seria muito procedente registrar como, ao que me lembre em 1967/1968, os poetas concretos, dos quais era dito serem formalistas, elitistas, etc., tiveram a lucidez e a honestidade de não apenas saudarem, como, mais que isso virem a se solidarizar com os inventivos artistas classificados como populares, Caetano e Gil, bem ao início do assim chamado “Tropicalismo/Tropicália”. Em 1970, no Prefácio à segunda edição do “Panaroma do Finnegans Wake” (editado em 1971), Augusto e Haroldo de Campos o encerram com uma justa citação/homenagem à “...voz mais inventiva da nova geração”, se referindo a Caetano, do qual citam trechos de um artigo publicado em fins de 1969 em “O Pasquim”: “Não verás um Paris como este “. Gesto nobre e raro esse dos concretos e que, como, pessoalmente um deles mesmo comigo comentou, gratifica, na realidade, mais a eles próprios por se permitirem vir a não se fechar para experiências que somente virão a enriquecê-los.
Bem, deixemos de tantas digressões e voltemos a este compromisso meu de mergulhar nas leituras destes contos enviados. Epa! Pera aí! Este conto “João da Silva” nem talvez pretenda disfarçar. É como um resumo e muito canhestramente escrito, quase que copiado daquele filme de 1941 do Frank Capra, “Meet John Doe”, que aqui no Brasil teve o titulo de “Adorável Vagabundo”, o qual, contou com Gary Cooper, Barbara Stanwyck e outros bons coadjuvantes. É que esta fita nos anos 60, 70, e até nestes dias de 1980 foi tantas vezes reprisada na TV, ... que um cara não aguentou... Sentindo de como tal filme fazia razoável sucesso, o “nosso escritor”, de pronto afanou a coisa e transformou o John Doe/”João Ninguém” num João da Silva deste país tropical. Que maravilha... Meu filho Beto, me faz um favor. Traz aqui “p’ra” mim alguns daqueles gibis e, melhor ainda, aquelas revistinhas do Asterix, pois eu quero dar umas olhadas neles antes de me deitar p”ra dormir. Sabe? Cá entre nós, eu preciso me desintoxicar.







Nota: Creio ser muito importante que eu venha a fazer certos comentários sobre tal conto, o qual, junto com outros 2, também de minha autoria, vieram concorrer em Concurso interno de contos para funcionários da Sabesp em julho/agosto de 1980. Enquanto, por exemplo, eu reescrevi, nestes dias de 2017, o conto “A morte do vira-lata”, por julgar que muito do escrito original se achava muito”datado”, muito dependente de um contexto existente naqueles anos de 1980, já logo me convenci que este “Laudo, laudas”, desde que eu, mesmo agindo sobre o texto original (como em certa amplitude o fiz), não viesse a introduzir comentários sobre textos, composições, declarações, ocorrências, etc., que tiveram existência, que hajam surgido após meados de 1980, seria muito mais autêntico --- digamos assim --- se eu o editasse bem mantendo as condições que ocorriam quando ele foi originalmente concebido e escrito. E então assim foi feito Cumpre ainda comentar que, conforme é meu particular processo de “cometer textos”, também neste eu me servi de muitas ocorrências comigo acontecidas, muitos outros fatos de que tive conhecimento mediato ou imediato, etc. Assim, eu nos anos 60 participei, por 3 vezes, como jurado em festivais de música, sendo minha última participação (a mais intensa, demorada e trabalhosa), no Festival de MPB organizado pela Prefeitura Municipal de Santos, em 1969, quando até me liberaram por 5 semanas de minhas funções como engenheiro da mesma PMS, para atender exclusivamente aos assuntos do citado festival, não apenas como jurado na parte trabalhosa da triagem inicial, bem como uma espécie de consultor para discutir de como balizar os processos de realização do evento. Devo, entretanto afirmar que, mesmo tendo peso até no julgar textos das canções quando na fase de triagem inicial, eu nunca participei de qualquer júri montado em concursos de cunho exclusivamente literário (conforme o colocado neste conto seria).
Quanto ao que relato sobre nossa vida de estudante, no muito marcante ano de 1945, além do que no conto é registrado, creio ser importante dar outras informações pertinentes, em especial sobre carreiras e notoriedades alcançadas por alguns de meus colegas de classe, a maioria destes citados, já vindo a terem sido colegas nossos desde anos atrás no curso ginasial.


Alencar Burti - Pessoa de muitas raras qualidades, desde aqueles anos. Jovem, fez cursos de gemologia, porquanto trabalhava com joias, a princípio em estabelecimento comercial de seu tio e, logo mais, montando lojas com 2 outros sócios, passando depois a trabalhar em compra e venda de veículos novos e semi-novos. De uns 30 anos para cá ocupou cargos de Presidência da ACSP , do SEBRAE, DA FACESP e da CACB(Confederação da Associações Comerciais e Empresas do Brasil). Há tempos apenas o vejo em notíciários na TV, mas de vez em quando nos falamos por telefonemas.
Caetano Sorrentino Netto – Ao tempo de ginásio, bom amigo e colega, um dos promotores das bagunças e momentos hilariantes na sala, durante as aulas daqueles professores tolerantes. Em 1968, por eu ter vindo, desde 1963, a residir em Santos, o reencontrei aqui como médico especialista em radiologia e imagem. Desde cerca de 30 anos ele é sócio-proprietário da CRS (Clínica Radiológica de Santos), onde, além de Diretor, trabalha como médico junto com descendentes também médicos. Vez ou outra nos revemos.
Deusdedit Goulart de Faria - Não mais o reencontrei desde 1960, quando ele estava se iniciando como advogado de atuação no Forum paulistano, muito entusiasmado. Soube algo de sua carreira ascendente até anos 80 e, desde então, não mais tive dele notícias. Parece-me que ele terá falecido poucos anos atrás, pelo que ex-colegas comigo comentaram.
Gilberto Otoniel Toni - Arquiteto de certo renome. Também desde que mudei de S.Paulo para Santos, não mais pessoalmente o reencontrei. Seu irmão, nascido lá por 1926, o Maestro Olivier Toni, que eu bem conheci, faleceu há, talvez, menos de um ano.
Queenti Matsuura - Este meu ex-colega nissei foi uma das pessoas mais éticas, mais corretas e sinceras que tive como colega. Morava numa pensão na capital, já que era de família instalada no Paraná, tendo, desde anos 50, voltado para sua cidade, Maringá. Fez renome como exímio enxadrista, pelo que, após idoso, um concurso de xadrez da Federação de Xadrez do Paraná tem o nome dele. Sei disso pela internet e já tentei contato com ele, através de tal Federação, sem obter êxito.


CHAMADA * Creio que, em especial, para quem possa não ter conhecimentos mais extensos sobre a obra “Hamlet” de Shakespeare, a qual, apenas para elucidações básicas, diria ser uma peça teatral, ficcional, que tem seu protagonismo na figura de um príncipe da Dinamarca, de nome Hamlet, filho do rei de mesmo nome, Hamlet. Tal rei foi assassinado pelo seu irmão, de nome Cláudio, que não apenas traiçoeiramente lhe tirou a vida, bem como impôs seu casamento com sua cunhada, a viúva rainha Gertrudes (mãe do príncipe Hamlet), vindo então a se tornar rei da Dinamarca. No dizer da Wikipedia, Shakespeare, nesta obra, lida com sentimentos e procedimentos que envolvem traição, vingança, incesto, corrupção, moralidade e talvez outras coisas aqui não apontadas. O príncipe Hamlet tem, nesse texto, uma saga terrível, de muito sofrimento, de desejos constantes de praticar vingança — ao mesmo tempo em que se revela indeciso, temeroso, sem condições de concretamente vir a executar aquilo que apenas fica no limbo da sua pretensão. Assim é o príncipe da Dinamarca, uma vítima de sina amarga...
Já, Camelot é o nome tanto da cidade lendária onde vive a corte do Rei Artur, como o do castelo da cidade. Os contos sobre o Rei Artur e os famosos “Cavaleiros da Távola Redonda” têm origem em lendas que circulavam principalmente nas regiões do sul da Inglaterra. Camelot, se esta palavra procurarmos no ”Dicionário Larousse de Poche”, encontraremos: s.m. mercador ambulante que vende sobre a via pública artigos de baixo valor. (Aqui, no Brasil, aportuguesaram tal termo grafando-o como camelô, assim mantendo a pronúncia original do francês). É oportuno notar que, na transcrição de Augusto, ele mantém a palavra Camelot, a um só tempo inglesa/francesa, permitindo integrar em nossa “leitura” os correspondentes significados, em uma e outra língua, conforme se depreende ter sido o que pretendeu James Joyce.

Quando, cerca de talvez uns 20 a 30 dias atrás, falando com meu primogênito Cláudio, desde talvez 2008 residente em Braga, no Minho, Portugal, lhe passando a notícia de que o próximo texto que eu preparava para editar no site “Usina de letras” era o nomeado “Laudo, laudas”, o qual, no seu texto original, havia sido um dos 3 com os quais em 1980 concorri no concurso interno da Sabesp para contos inéditos, ele, se mostrou preocupado. Rapidamente me enviou mensagem na qual afirmava razoavelmente se lembrar de tal conto, me advertindo que, com tantas citações em latim que encerrava, faria com que enorme parte dos que houvessem iniciado sua leitura, logo viessem a, de vez, abandoná-la, fazendo ainda outras observações de como os textos já publicados no citado site denotavam preferências que eu iria, quase certamente, contrariar. Isso quase fez com que eu viesse a correr o risco ainda maior de me alongar, fazendo considerações a partir de citações e digressões envolvendo “Pós-escrito a “O Nome da Rosa”, “Lector in fabula” e “Interpretação e superinterpretação”, três obras do genial Umberto Eco. Decidi então, apenas do “Pós-escrito...”, trazer alguma coisa, em texto de minha responsabilidade, tentando reproduzir algo sobre comentário de Eco quando ele se refere às críticas feitas a ele por, em o “Nome da Rosa”, ter inserido tantos textos em latim e haver feito certas considerações que poderiam ter impossibilitado que houvesse até mesmo uma razoável aceitação de parte de poucos ou muitos pretensos leitores da obra. De um modo mais palatável, eu diria que Eco respondeu a tal objeção afirmando que, para ele, sempre, para qualquer obra literária, haveria a possibilidade de existirem vários níveis de leitura, inclusive aquela de leitores desconsiderarem alguns trechos do texto global, ainda assim podendo se darem por razoavelmente ou bem satisfeitos por conseguirem extrair uma “sua (s) leitura (s)” do que vieram a captar do texto escrito.
Procurando a palavra LAUDO na Enciclopédia Delta-Larousse, tomei: Peça escrita, fundamentada, em que os peritos expõem as observações e estudos que fizeram e consignam as conclusões da perícia.
Mesma operação de procura em tal Enciclopédia nos fornece, para a palavra LAUDA, o que se segue: Página de livro//cada lado de uma folha de papel. Quando por anos escrevi no jornal “ A Tribuna”, aprendi com o pessoal do meio jornalístico, especialmente nos anos 60, 70, 80 ou mesmo início da década de 90, que sempre era referido o tamanho do texto datilografado como que medido em laudas. O autor do texto se obrigava a registrar, de modo datilografado, seu texto até um certo limite de X laudas para, digamos, poder caber, espacialmente poder ser inserido no setor respectivo (artístico, esportivo, político, etc). Era o tempo em que havia nos jornais um importante e decisivo setor da Revisão. Ainda nos anos 90 tudo isso foi alterado, extinguiu-se o setor de revisão ao tempo que as redações passaram a contar com PC´s espalhados pelas salas de trabalho jornalístico. Quando em 1980 escrevi o texto original deste conto, joguei com as palavras e as estimulações delas para lidar com os significados atrás comentados e com as outras palavras assemelhadas do verbo latino laudare, ao nível semântico, novamente, ou seja, “brincando” com os significados do LAUDO, da LAUDA e LAUDAS e de LAUDARE. Trocadilhando, seria um proceder de ludo, assim lúdico com LUDO/LAUDAS/LAUDARE.


Uma última inserção que neste conto introduzo, muito tem a ver com fatos realmente ocorridos na época e que, a meu juízo, como que performam um conto adicional ao que estou acabando de registrar. Trata-se do seguinte : creio que sempre que há um grupo de pessoas juntas, fazendo qualquer curso de aprendizado, ao mesmo tempo que poderão existir simpatias de alguns para com os que se afirmam como mais estudiosos, existe também algo — que me parece muito arraigado ao gênero humano — uma satisfação indisfarçável de alguns poucos(pelo menos), quando ocorre de um destes caxias, CDF’s, cometerem algum erro, pelo que, ao menos momentaneamente, por tal deslize, venham a ser publicamente corrigidos pelo professor. Neste momento irrompem algumas risadas ou manifestações do tipo. Pois, certa manhã, na aula de português do prof. José Moura, o mesmo estava lendo uma passagem de certo texto em estudo e, vindo a aparecer a palavra ânfora, ele, virando-se para a classe, lançou a pergunta: “o que vem a ser uma ânfora?” Havendo um silêncio de quase 1 minuto, ele se virou para onde eu sentava e insistiu: “Brasil, o que é uma ânfora? Pelo texto você já pode concluir que seria um vaso de duas...”, “De pronto eu disse: 2 bocas ...” Logo o prof. afirmou: “Não, é sim um vaso com duas asas, etc.”. Espocaram risos e piadinhas, partidas de alguns colegas, pelo que, mais que rapidamente o prof. emendou: “Brasil, eu entendi o seu raciocínio, o qual até mereceria elogios, mas a terminação ORA, desta palavra, nada tem a ver com o termo latino os, oris (boca), da qual origem vem oral, orifício e tantas outras palavras”. De imediato surgiu um burburinho, partido dos colegas que me tinham como um deles, não alguém ansioso por se destacar, por se mostrar superior. Agora é que vem o mais surpreendente. Certo que eu estava careca de saber isso sobre os, oris e também quanto a alguns termos dele derivados. Entretanto, tenho de confessar que, ao momento que, sem mais, eu bradei: duas bocas, sinceramente não havia conscientemente feito qualquer ligação de ânfora com os, oris. Será que, de modo inconsciente, eu haja feito tal ligação imaginada por meu professor? Eu mais tendo a acreditar que não, pelo que meu caro prof. J. Moura me proporcionou ser salvo pelo gongo! BOINNNNNN...
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