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Crônicas-->RECORDAÇÃO AMARGA -- 15/11/2007 - 20:42 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
RECORDAÇÃO AMARGA

Paccelli José Maracci Zahler

Silvinho foi nosso colega por pouco tempo, o suficiente para ficar traumatizado com algumas atitudes autoritárias e repressivas durante a vigência da ‘lista negra’, onde turmas foram mescladas, grupos desfeitos, colegas obrigados a assinar ‘termos de ajustes de conduta’, colegas ‘convidados’ a trocar de colégio. Foram nossos ‘anos de chumbo’. Nenhum atraso era admitido, todavia, sempre seguidos de bilhetes para os pais.
Fui encontrado pelo Silvinho, por acaso, em um centro comercial de Brasília, há algum tempo atrás.
Achei incrível ele ter me reconhecido após tantos anos. Eu não tinha a mínima idéia de quem era aquele senhor de cabelos grisalhos e já avô.
À medida que conversávamos, dada sua insistência, fui refrescando a minha memória. Mesmo assim, estava difícil lembrar-me dele. Entretanto, tínhamos um ponto em comum, o fato de termos estudado no mesmo colégio, na mesma época.
Entre uma conversa e outra, veio à tona o período da ‘lista negra’, uma pasta classificadora de cor preta, onde tudo era anotado nominalmente: brigas, brincadeiras, piadas, atrasos, indisciplina, gentilezas, boas apresentações de trabalhos, boas provas.
De um momento para outro, Silvinho ficou com os olhos marejados e me disse que, até hoje, não havia superado um trauma sofrido naquele período.
Como ele era novo no colégio, ficara impressionado com a quantidade de apelidos dos alunos e professores. Alguns interessantes, que descreviam a personalidade das pessoas, outros jocosos e maldosos, até ofensivos, mas todos levavam na brincadeira. Isso pouco importava para os púberes e adolescentes que só pensavam em aproveitar aquela época de forma inconseqüente.
Silvinho não tinha idéia de quanto tempo ainda ficaria no colégio porque seu pai era militar e podia ser transferido a qualquer momento para outra cidade. Assim, um dia na biblioteca, teve a idéia de anotar em uma folha de caderno uma relação de apelidos para guardar de recordação:
“Relação de Apelidos do Auxiliadora:
Avelino, o feminino; Ana Banana; Zebu; Xiru; ‘Miss Pig’; Átila, o huno; Ferrugem; Fumacinha; Ernesto Honesto; Diabo; Zé Peido; Porconcelos; Silveira Carrapato nas Cadeiras; Nestor Fiofó Indolor; Alberto Fiofó Aberto; Mosquito; Erwin Fiofó Sem Fim; Cavalão; Vampiro; Dr. Jeckill; Caveira; Dado; Jacaré;Gam; Betinho; Cachorrão; Amigo da Onça; E.T.; Cachorro Louco; Touro Sentado; Venenosa...”
Quando Pedrinho sentou-se ao seu lado e viu a lista, o advertiu a tomar muito cuidado porque a ‘lista negra’ também valia para a biblioteca.
O colégio inteiro estava sob a égide da ‘lista negra’, tanto que o diretor chegava de mansinho em cada janela das salas de aula para observar o desempenho dos professores e o comportamento dos alunos.
Quando caiu em si, Silvinho disse-me ter sentido um calafrio e ter ficado em pânico.
Para piorar, o responsável pela biblioteca, um aspirante a padre, parecia onipresente, olhando, conferindo, anotando, prestando atenção em tudo.
Quando alguém precisava de um livro, entregava um pedido e ele ia até a estante pegá-lo. Antes de entregá-lo, observava o estado de conservação, verificava as páginas e, se o livro fosse devolvido com algum risco a mais, mesmo de lápis, o nome do aluno passava a integrar a ‘lista negra’.
Silvinho continuou seu relato dizendo ter ficado apavorado ao pensar na possibilidade de ser flagrado pelo bedel e expulso do colégio, pois isso iria prejudicá-lo no ingresso no próximo colégio. Então, pegou o pedaço de papel e, sem fazer barulho, picou-o e jogou-o na lixeira da biblioteca. Com tremores pelo corpo devidos ao medo, foi embora para casa planejando não aparecer na biblioteca por algumas semanas.
No dia seguinte, o colégio estava em polvorosa porque o diretor estava procurando o autor daquelas ‘indecências’ encontradas em pedaços de papel na lixeira da biblioteca.
Silvinho ficou atônito ao saber que o dedicado bedel dera-se ao trabalho de vasculhar a lixeira da biblioteca para encontrar ‘provas’ de desrespeito e indisciplina. Ele encontrara os pedaços de papel e os montara como se monta um quebra-cabeças, entregando-os ao diretor com a recomendação de recolher a caligrafia de todos os alunos para descobrir o autor das ‘indecências’ e expulsá-lo exemplarmente do colégio.
Silvinho teve crise nervosa, perdeu o sono, fez tratamento com psicólogo, contudo, para sua sorte, seu pai foi transferido antes que a coisa tomasse vulto. Trocou de colégio e respirou aliviado.
Ainda hoje, ao lembrar-se do episódio, o passado retorna e ele não consegue segurar as lágrimas.
Perguntou-me se eu sabia a razão para uma atitude tão rigorosa e repressora para uma brincadeira de criança, para uma anotação pessoal.
Eu não soube responder, porém revelei que um dia achei uma paródia interessante e a anotei em um pedaço de papel, quando estudava em um colégio de freiras.
A paródia dizia assim:
“Estava à toa no banho,
O chuveiro fechou,
Resvalei no sabão,
Caí de bunda no chão.”
A professora viu a minha anotação, me deu uma chamada na frente de toda a turma por ter escrito uma ‘indecência’ e escreveu um bilhete para os meus pais, exigindo uma corrigenda.
A vida me ensinou que existem coisas piores: roubar dos pobres, corromper-se, locupletar-se com o erário, explorar menores e desvalidos, prejudicar as pessoas para beneficiar-se.
Nossa conversa terminou e nunca mais reencontrei o Silvinho.

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