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Contos-->Minha Vida e As Cinco Dimensões - Parte II -- 01/12/2017 - 07:28 (ALEXANDRE MOTTA JUSTO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Eu nunca fui um homo sapiens muito corajoso, por isso sempre gostei das guerras dos deuses em que ficávamos embaixo das árvores conversando enquanto eles se matavam por nós. Quer dizer, na verdade eles não se matavam porque simplesmente não existiam.

Nosso grupo cria em sete deuses. O mais poderoso de todos era o sol. Eu não sabia o que era o sol e nem ele era chamado assim por ninguém. Só fiquei ciente de nossa estupidez pouco tempo depois, quando muitas coisas me foram esclarecidas pelos guardiões das cinco dimensões e pelos meus detestáveis pais adotivos.

Curiosamente todos os grupos cultuavam os mesmos deuses e o sol também era o deus mais poderoso de todos, o que nos levou a acreditar que era esse o motivo pelo qual as batalhas dos deuses sempre terminavam sem vencedores, pois como poderiam os deuses lutarem contra si mesmos? Eu particularmente achava essa tese inteligentíssima. O que eu não sabia é que ela provocava explosões solares de tanto que o sol ria de nossa estupidez. Ah sim, também tenho que esclarecer isso mais tarde: o sol é uma consciência absurdamente superior que veio da galáxia de Andrômeda para simplesmente ser o nosso sol. Foi uma das muitas assombrosas revelações que tive na Casa do Conhecimento.

Eu nunca tinha me afastado do meu grupo para nada e aquela noite era justamente a noite em que eu não deveria ter me afastado de jeito nenhum.

Estava muito escuro e eu caminhei por muito tempo sempre achando que no próximo passo eu atolaria em uma poça d’água ou toparia com um animal infartado que eu poderia levar para o grupo dizendo que foi morto por mim.

Mas foi para algo terrível e monstruoso que meus passos me levaram. Enquanto caminhava a céu aberto ouvi vozes, cânticos e risos vindo da floresta. Meu coração, pobre coração que em pouco tempo seria arrancado do meu peito, batia forte. Eu era capaz de senti-lo vibrando. O medo tomou conta de mim, mas o meu destino, que está escrito no livro negro número 456.768, capítulo 157.345, página 2.547.389 do do quinto andar superior da Casa do Conhecimento, fez com que eu seguisse em frente. Simplesmente não era uma escolha minha. O momento finalmente chegará e ninguém nada poderia fazer.

O som dos risos, cânticos e vozes agora se misturava a um cheiro que eu conhecia muito bem. Era o cheiro de uma erva à qual jamais ousamos dar um nome, pois aspirar sua fumaça nos deixava em contato direto com os deuses, em especial com os deuses da natureza.

Apesar de somente o líder do nosso grupo poder aspirar a fumaça da erva sem nome (aliás não dávamos nomes a nenhuma erva, de tal modo que chamá-la de “erva sem nome” já era dar-lhe um nome), em certas ocasiões ele nos permitia experimentá-la. Era maravilhoso. Eu praticamente podia tocar os deuses, cada um de uma cor. E para minha surpresa eles tinham rostos comuns e eram sujos como nós (até porque nós nunca vimos alguém limpo, de tal forma que seria impossível ter alucinações com pessoas, deuses ou qualquer outra forma de vida limpos). Na época eu não sabia o que eram alucinações e nem o que era ser limpo. Eu via coelhos saindo do mato e se oferecendo para serem devorados por mim ou fêmeas da minha idade suplicando para copular comigo e achava que essa coisa toda era real. Os deuses eram bons e nos prometiam exatamente tudo o que desejávamos sem que fosse preciso pedir. Eu realmente admirava os deuses. Mas depois todos iam embora e a fome e a sede voltavam. Aquela mais forte do que esta.

Fui me aproximando devagar, curioso para saber qual dos grupos com os quais constantemente guerreávamos estava fazendo aquela festa e porque não fomos convidados. Ah, pensei, se todos os grupos estiverem nessa festa menos o meu amanhã haverá uma guerra entre nossos deuses (a menos que sobrasse bastante erva sem nome, pois nesse caso a guerra poderia ser trocada pelo contato direto com os deuses). Porém, como ficaria sabendo em poucos minutos não se tratava de uma festa e ninguém, muito menos eu, fora convidado para ela.

Finalmente cheguei na clareira onde estavam e logo percebi que era um grupo desconhecido. Mais do que desconhecido, eles eram estranhos, diferentes. Eles eram limpos, muito embora eu não tivesse ideia de que limpeza existia; eu apenas notei que havia algo diferente em seus corpos nus. Eles eram maiores e mais fortes do que todos os homens que eu já vira na minha vida. Seus cabelos também eram diferentes: eram compridos e brilhosos. Seus olhos estavam muito vermelhos e, o mais impressionante, é que eles se comunicavam com extrema facilidade. Hoje, depois de tantos milênios, eu sei que eles possuíam uma linguagem extremamente avançada. Definitivamente eles não eram como nós.

Fiquei algum tempo escondido atrás de uma árvore observando com medo a assombrosa cerimônia que ali acontecia. Todos estavam nus. Alguns machos copulavam com várias fêmeas ao mesmo tempo, enquanto outros machos e fêmeas apenas riam e dançavam. Em suas mãos e espalhados pelo chão pedras com formas que eu nunca vira em nenhum grupo de humanos. E de algumas dessas saía um líquido de uma estranha cor que eles bebiam em grandes quantidades. A erva sem nome tinha sua fumaça inalada por todos. Todos bebiam, cantavam, usavam a erva, dançavam, copulavam, faziam um barulho ensurdecedor. Todos, menos um. E foi esse homem que, sem saber, deu início à minha jornada.


(CONTINUA)
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ALEXANDRE MOTTA JUSTO