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Contos-->O mundo encantado dos sonhos(miniconto) -- 06/02/2018 - 10:56 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
 
Arrependera-se de nunca ter levado Emília a conhecer o quarto secreto. Mas agora era tarde. Estava crescida e não queria mais ser vista com uma boneca.  Entrou sozinha. E quando a porta para o invisível se abriu, uma luz a levou a outras  paragens: praias, rios, montanhas, vales  e campinas. Mas tudo aquilo lhe parecia familiar. Podia jurar que tinha visto aquele cenário antes!... Por fim, viu uma menina, e a menina era ela mesma, debruçada sobre a mesa, escrevendo livros. Sua memória auditiva trouxe a voz de seu pai, reproduzindo Toquinho: ‘Numa folha qualquer. Eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas. É fácil fazer um castelo...’ Viu também o pai entregar-lhe uma folha de papel em branco. ‘Tome! Este é o túnel do tempo. É só  imaginar e podes antecipar tua festa de debutantes, casar,  ter filhos,  e voltar a ser menina outra vez. Se quiseres, podes contar muitas histórias, e como Serna, terás um livro com mais de cem asas para voar’. 
Relutou. 
Não arriscaria apresentar os originais de seu livro a alguma editora. Tinha muitos escritos guardados, mas não lhe pareciam coisa de publicar em livro. Eram sonhos, apenas sonhos nos quais se via de vestido longo, maquiada. Bonita, linda, maravilhosa, a valsar com o namorado na festa  de seus quinze anos. Em seguida, via-se sozinha numa ilha. Encontrava um náufrago e caminhava na orla com ele deixando pegadas na areia.  Adiante,  a montanha se lhe mostrava  como cenário muitas vezes  visto. Não ultrapasse os muros abissais — disse-lhe o anjo da guarda. 
— Robert! É você? 
— Ravenala!... 
— Como  chegou aqui, Robert? 
— Sonhei que estava no quarto secreto, e o homem pregado na cruz apontou  para uma porta estreita. Entrei. Acho que estamos perdidos numa ilha. 
— Perdidos? Isso aqui, isso aqui é meu mundo! 
— Queres dizer um paraíso, não? 
— Sim, o paraíso perdido. 
— Não mais perdido. Nós o encontramos. 
— Olha aquele paredão azulado! Céu bonito, sol crepuscular! 
— Não há parede.  
Nuvens pintam uma aquarela no espelho das águas. 
— Parece neve luminosa. 
— Nebulosa difusa? Estamos no princípio, na criação do universo. 
— Não sinto o calor da explosão. Sinto frio. 
— Somos náufragos. A algidez vem das vestes molhadas. Precisamos aquecê-las.  
Catou gravetos e folhas secas. Misturou as folhas   com resina de mico e filetes de algas ressequidas. Fez faísca com o atrito de duas pedras. Mas a faísca não foi suficiente para fazer subir labaredas. 
— Use a lente da máquina fotográfica! 
— Que máquina? 
— Do celular. 
— Perdemos no naufrágio. 
— Não! Está em teu bolso.   
Estavam dois metros abaixo de uma abertura de pedras que dava para uma gruta. O acesso, parecia inacessível, um paredão liso e escorregadio tão extenso que sumia de vistas.  
— Estamos no purgatório. 
— Talvez não. Quem sabe, no primeiro céu! 
A base úmida, lavada pela maré alta dificultava a combustão dos gravetos e das algas secas que recolheram. 
— Como um palito de fósforo faz falta!... 
— Tente outra vez o atrito das pedras... Faça uma cama com espaçamento para o oxigênio circular. 
— Sim, sim...assim será melhor. 
As primeiras ondas de fumaça invadiam as narinas, não como agente poluidor, mas como meio de salvação. 
—Numa ilha o dia parece infindo como sol da meia-noite! 
— Não estamos no circuito polar. 
—  Não sabemos. 
— Repare bem na linha  da orla.  Não estamos só. Há um homem de terno azul com uma pasta de executivo na mão. 
— Não o vejo. 
— Tomou o trem. 
— Cadê o  trem!  
— Já foi. 
— E os trilhos? 
— Não há trilho, nem estação. 
— Então, estamos sonhando. 
— Talvez não! Talvez tenhamos ultrapassado os muros abissais. 
— Como? 
— Viagem astral. 
— Não lido com essas coisas. 
— Mas, estás em viagem pelo invisível. 
— Isso parece uma ilha! 
— Deve ser triste não ter o que fazer numa ilha deserta. 
—Provavelmente, durante a sobrevivência numa ilha, o náufrago deseja ter morrido afogado a viver solitário. Luta para salvar a vida, e quando alcança terra firme, a solidão enche-lhe de tristeza o coração. Grita, mas sua  voz não encontra eco. Seu grito não ultrapassa os vitrais azulados do céu. Sobreviver. Lutar para sobreviver. Afora isto, nada mais  tem a fazer numa ilha, senão olhar o horizonte. Ter miragens, ver nas espumas flutuantes a borda falsa ou o castelo de um navio; o monstro do lago Ness ou um xaveco pirata. O náufrago conta as horas em sua sombra. E morre de  sede olhando a imensidão de água salgada. 
— Há sempre água potável em uma ilha.  
O sonho foi interrompido por velhos passos, há muito, conhecidos. 
— Acorda, Ravenala. Se não se levantar logo vais perder a primeira aula. 
— Cadê Bob? 
— Que Bob? Ele esteve aqui ontem... 
— Hoje já é ontem? 
— Somos apenas passageiros em viagem  no  trem da vida, mas sempre haverá um ontem, um hoje e um depois. 
— Deve ser triste a vida de um náufrago numa ilha deserta, não vó? 
— De onde você tirou isso, menina? 

  E Ravenala apagou a ideia de encontrar um náufrago. Preferia descobrir uma ilha em que ninguém jamais houvesse habitado, nem mesmo os fenícios. Assim, com caneta e papel, cruzaria os céus nas asas de uma aeronave. Seu pensamento a interrompeu. ‘ E o medo de avião?’ Então, por que não viajar de navio, deixar o cabelo esvoaçar ao vento da proa, e os olhos se encantarem com o sol que se põe atrás das asas de uma gaivota. — pensou. ‘E, se o navio naufragar’ — ‘Bem, se o navio naufragar, poderei  descobrir uma ilha, uma ilha deserta e batizá-la com o nome  Basileia de Salomão. Gravar meu nome nas paredes de uma gruta e escrever minha história em  livro de pedra. 
***
Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou."
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