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Contos-->O indescritível mundo dos sonhos -- 11/02/2018 - 21:17 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




Tinha muitos escritos guardados, mas não lhe pareciam coisa de publicar em livro. Eram sonhos, apenas sonhos nos quais se via de vestido longo, maquiada. Bonita, linda, maravilhosa, a valsar com o namorado na festa  de seus quinze anos. Em seguida, via-se sozinha numa ilha. Encontrava um náufrago e caminhava com ele  na orla, deixando pegadas na areia.  Adiante,  a montanha se lhe mostrava  como cenário muitas vezes  visto. E como em alocução interior, ouviu a voz de um anjo: ‘Não ultrapasse a parede dos  muros abissais.’ 

— Robert! É você? 

— Ravenala!... 

—Como  você chegou aqui, Robert? 

— Sonhei que estava no quarto secreto, e o homem pregado na cruz apontou  uma porta estreita. Entrei. Acho que estamos perdidos numa ilha. 

— Perdidos? Isso aqui, isso aqui é meu mundo! 

— Queres dizer um paraíso, não? 

— Sim, o paraíso perdido. 

— Não mais perdido. Nós o encontramos. 

— Olha aquele paredão azulado! Céu bonito, sol crepuscular! 

— Não há parede.  

— Parece neve luminosa. 

— Nebulosa difusa? Estamos no princípio, na criação do universo. 

— Não sinto o calor da explosão. Sinto frio. 

— Somos náufragos. A algidez vem das vestes molhadas. Precisamos aquecê-las.  

Catou gravetos, folhas e algas secas. Fez faísca com o atrito de duas pedras. Mas a faísca não foi suficiente para fazer subir labaredas. 

— Use a lente da máquina fotográfica! 

— Que máquina? 

— O celular. 

— Perdemos no naufrágio. 

— Não! Está em teu bolso.   

Estavam dois metros abaixo de uma abertura de pedras que dava para uma gruta. O acesso parecia inacessível, um paredão liso e escorregadio tão extenso que sumia de vistas.  

— Estamos no purgatório. 

— Talvez não. Quem sabe, no primeiro céu! 

A base úmida, lavada pela maré alta dificultava a combustão dos gravetos e das algas secas que recolheram. 

— Tente outra vez. Faça uma cama com espaçamento para o oxigênio circular. 

— Sim, sim...assim será melhor. 

Levantou-se uma pequena nuvem de fumaça.

— Olhe o trem...

Que trem?

— Repare bem na linha  da orla.  Não estamos só. Há um homem de terno azul com uma pasta de executivo na mão. 

— Não o vejo. 

— Tomou o trem. 

— Cadê o  trem!  

— Já foi. 

— E os trilhos? 

— Não há trilho, nem estação. 

— Então, estamos sonhando. 

— Talvez não! Talvez tenhamos ultrapassado as barreiras dos muros abissais. 

— Como? 

— Viagem astral. 

— Não lido com essas coisas. 

— Mas, estamos em viagem pelo invisível. 

— É uma ilha linda!

— Deve ser triste não ter o que fazer numa ilha deserta. 

— O náufrago luta para salvar a vida, e quando alcança terra firme, a solidão de uma ilha enche-lhe de tristeza o coração. 

Grita, e seu grito não ultrapassa os vitrais azulados do céu. Sobreviver. Lutar pela vida. Afora isto, nada mais  tem a fazer numa ilha, senão olhar o horizonte. Ter miragens, ver nas espumas flutuantes a borda falsa ou o castelo de um navio; o monstro do lago Ness ou um xaveco pirata. O náufrago morre de  sede olhando a imensidão de água salgada.

— Há sempre água potável em uma ilha.  

O sonho foi interrompido por velhos passos... 

— Acorda, Ravenala. Se não se levantar logo vai perder a primeira aula. 

— Cadê Bob? 

— Que Bob? Ele esteve aqui ontem... 

— Hoje já é ontem? 

— Sempre haverá um ontem, um hoje e um depois. 

— Deve ser triste a vida numa ilha deserta, não vó? 

— De onde você tirou isso, menina? 

  E Ravenala apagou a ideia de encontrar um náufrago. Preferia descobrir uma ilha em que ninguém jamais houvesse habitado, nem mesmo os fenícios. Assim, com caneta e papel, cruzaria os céus nas asas de uma aeronave. Seu pensamento a interrompeu. ‘ E o medo de avião?’ Então, por que não viajar de navio, deixar o cabelo esvoaçar ao vento da proa, e os olhos se encantarem com o sol que se põe atrás das asas de uma gaivota — ‘E, se o navio naufragar’ — ‘Bem, se o navio naufragar, poderei  descobrir uma ilha, uma ilha deserta e batizá-la com o nome  Basileia de Salomão. Gravar meu nome nas paredes de uma gruta e escrever histórias em  livro de pedra.  

Teve medo. Sentiu-se prisioneira da Caverna de Platão. 

— Viste o filme ‘O Náufrago?’

— Vi.

— Ainda assim, queres morar numa ilha?

— Às vezes tenho medo. Mas, não permito que os temores afastem meu espírito dos caminhos que me levam a  desvendar mistérios.

— Mistérios? Cochilaste o tempo todo durante a aula, pensando em mistérios?

— Fala baixo, Bob. Será que a professora percebeu que dormi?

— Não consigo desvendar os mistérios guardados no coração de uma mulher.

— Para Bob. Eu me refiro à professora.

Robert   sabia que a fêmea escolhe o parceiro pela capacidade de lhe dar uma cria geneticamente saudável. Mas que atrativo tinha  ele? Beleza física, cultura, recursos financeiros? Nada! Nada disso ele tinha. 

— Já pensaste em ser freira?

— Por que esta pergunta agora?

— Ora, as freiras são consagradas a Deus. E eu não arriscaria concorrer com o Criador.

—  Bob...

— Será por que não se fazem imagens feias de santos, ou imagens de santos, feios? Todo santo é bonitinho. Até São Simão...

— A  beleza é espiritual, não física. O escultor transfere para a matéria a beleza espiritual da representação plástica que ele reproduz, até mesmo por uma questão comercial. Entre um santinho feio e um bonito, o mercado financeiro dá preferência ao belo.

— Creio nisso, mas não justifica a imagem de um Jesus loiro. A região onde  Ele nasceu não tem loiros!

— Quem fez a primeira imagem de Jesus na Europa, por certo, era loiro... Mas nossa  imagem e semelhança  com Deus deve ser espiritual. Não na carne.

— Decepcionado com esta informação?
-- Deus vê o coração.


Robert   reconhece que seu discurso oral não era nada comparável com a de um grande conquistador de mulheres. Ingênuo demais, ele era.

— Recebi teu  convite de aniversário.

— Claro, entreguei em suas mãos!

— Ih!... Ih!...
***
Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou."






Enviado por Adalberto Lima em 11/02/2018

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