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Contos-->NOITE CINZENTA -- 13/02/2018 - 15:19 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Queria ser o regalo e não o pranto. 
O  ombro amigo, a mão que afaga 
Também o  amor que o vento sopra. 
Sopra fortemente e não apaga.
 
 
Guardava um frasco com o perfume das lágrimas que não podia enxugar. Conhecera um rico bicheiro no dia em que seu fusca acabou a gasolina na Mariz e Barros. O veículo estancou. Martiniano de Castro mandou estacionar seu Cadilac vermelho-acetinado. E ele  mesmo, fez a transposição do combustível para o fusca branco de Chanana. Ali ela  conheceu também Androceu Lotus  Moreira , o motorista gordo e rosado como porco duroc.
O cadilac.
Na garagem de Martiniano de Castro, o Cadilac disputava os cuidados do dono com um fuscão preto. O bicheiro dizia que o fusca era uma relíquia do seu tempo de funcionário público, quando limpava as ruas que os outros sujavam. Mas, era no fuscão que ia à caça de namoradas e se apresentava como representante de vendas. Correu o boato que Androceu estava de  caso amoroso   com a mulher do patrão. Tudo mentira! O rapaz era cria dos Castros, mordomo e motorista deles. Fora praticamente,  babá da pequena Morgana, enfim, um moleque de mandados. Tudo, sem carteira assinada.  
A mulher do bicheiro, não faria uma coisa dessas! Mulher lavada e enxaguada nos sacramentos da Igreja, não trairia o marido. Candice  jamais faria uma coisa dessas!  Mas... Sem apurar a veracidade dos fatos, o marido teria lavado a honra mandando castrar o motorista, e isso aconteceu, numa sombria madrugada do Rio de Janeiro, quando Lotus Moreira voltava da casa de Ninfeia, intrigado, sem entender o porquê da namorada ter terminado o relacionamento com ele. Talvez por causa da bebedeira... Ninfeia reclamava dos beijos com gosto de cachaça e nicotina. Mas o patrão dele  fumava e bebia, ainda assim tinha  muito dinheiro e mulheres. 
Chovia.
A praça Afonso Pena e adjacências, estavam totalmente inundadas. Vez por outra a explosão de um transformador da Light, lançava fagulhas iluminando, por um instante, um pequeno trecho da rua Doutor Sartani. Em vão, Androceu tentava pegar um táxi que passava na Tijuca, com água quase entrando pelas portas. Ninguém parava para prestar socorro. Aflitos, os taxistas procuravam salvar primeiro suas almas. Pois foi naquela noite escura. Naquela noite de trevas, que dois homens encapuzados abordaram Androceu.
— Ei, você profanou meu santuário! — disse um deles com a voz  arrastada, tropeçando nas palavras como   um bêbado. Androceu Moreira  ouviu só isso, antes de sentir o nariz tapado por um  lenço embebido em  éter. Os homens fizeram o serviço. Os dois homens encapuzados fizeram o serviço e largaram a vítima esvaindo-se em sangue,  em frente a um hospital público. Depois deste incidente, Androceu apegou-se mais ainda aos Castros, porque Martiniano  não lhe deixou faltar nada. Assinou a carteira profissional, pagou adiantado um mês de salário. E assumiu as despesas com exames de laboratório, que o Sistema de Saúde Pública não cobria. 
O rico bicheiro  contempla um exemplar  do ciclo das Ninfeias,  assinado por Monet. Fuma um charuto cubano e arquiteta um plano para comprar o amor da professorinha. 
 — Vá vender um bilhete a Chanana Tupixá, diretora da Escola Normal na Tijuca. Pegue o fusca, fique nas proximidades o tempo que for preciso.
— Professor não arrisca a sorte  em jogo do bicho!
— Conversa homem! Faça o jogo dela para o sorteio da tarde e me passe os números jogados. Sei o que fazer.
 Acanhado, Androceu não abordou a diretora, mas, ela o reconheceu.
— O  senhor me emprestou gasolina não foi mesmo?
— Sim, sim! 
E contou a ela as dores do seu coração. A vida sofrida, o trabalho exaustivo vendendo  jogo do bicho... Enfim, a vida escrava que levava numa mansão alheia  na Barra da Tijuca.
— Não podes mudar teu  passado, mas, podes livrar-se de algumas lembranças dolorosas, colocando uma redoma em torno delas, ou criando uma ponte, um atalho. Não podes apagar tua história, mas é possível reescrevê-la. Se quiseres aparecer por aqui, saio às 17:00h. Tenho formação em Psicologia e posso ajudá-lo... Por que não cobrou a gasolina?
— O carro é do patrão.
—Quero jogar no gato e no dragão, disse ela. 
— Não jogue no gato, que talvez você não ganhe! E dragão não faz parte do jogo do bicho. Arrisque  uma milhar no primeiro prêmio e se ganhar, o patrão paga na hora o prêmio.
Ela pensou na possibilidade de ter em sua garagem um fusca branco e um preto. Jogou trinta cruzeiros e antes das oito horas do dia seguinte, sorridente, o cambista a procurou na escola. 
— A senhora ganhou o prêmio grande, seu Martiniano quer fazer, pessoalmente, o pagamento. Posso levá-la ao escritório dele.
Chanana não era de pegar carona com qualquer pessoa. Mas seu fusca estava passando por manutenção, e o gentil  Moreira já se tornara conhecido.
— Esta é a felizarda — Moreira enfiou a cara no  chão como porco farejando nenúfar.
— Olha só!... Deus ajudou e você ganhou sozinha o prêmio grande.
— Deus não interfere em jogo. Embora não seja pecado ter muito dinheiro, Deus não interfere em jogo.  Muita gente faz promessas para ganhar na loteria e tenta enganar a Deus, dizendo que dará boa parte aos pobres. Dá nada! Fica mais sovina e mesquinho do que antes. Se, realmente, ganhei um bom prêmio, e antes que meu ouro escorra entre os dedos, quero dividi-lo com Androceu.
— Então, case-se com ele, respondeu o bicheiro como se batesse martelo de sentença.
As palavras de Martiniano soaram como uma profecia, e sob o pretexto de tratamento psicológico, os encontros do cambista com a psicóloga se amiudaram.
Dulcineia, a irmã postiça de Chanana intervém:
— Minha linda Tupixá!  Embora mais nova, sinto-me no direito de te dar conselhos. Tens na mão as chaves para abrir o coração de um príncipe. E no coração dele morar e viver feliz como nos contos de fada. Não é em toda esquina que se pode encontrar uma ruiva de lábios carnudos e de alma pura como a tua. Não permita que o negrume toque  a brancura de tua alma. Não dê crédito a aquele animal. Sabes que o bicheiro é casado. O Androceu, também não presta, mas... pelo menos é solteiro.
— Martiniano é apenas um amigo que me ajuda... No dia do noivado, ele nos deu o fuscão preto. E olha que é peça de estimação, lembrança de quando era pobre. 
—Talvez em paga dos muitos anos que Androceu lhe prestou serviço, sem salário... Falo só por mim não! Jeremias já reparou também.
— Doce Dulcineia. Fico agradecida pelo carinho... Não se preocupe comigo. Tomarei cuidado.
— Androceu Moreira  não é homem para se casar com uma moça prendada como você. Recebe  dinheiro regrado, e o fusca do patrão esteve sempre disponível para o malandro tratar de negócios escusos. Muitas vezes  tapeava o bicheiro, trazendo para Martiniano uma prostituta recém-chegada à Vila Mimosa. “Essa é quase virgem. Só viveu um mês com o marido.” Martiniano também não serve pra você.  É casado e mulherengo! Conheço os dois de há muito!... É o que se comenta no bar do Português.
Dulcineia censura:
— Não quero você afinado com Português. 
— Sabes que não bebo. Só vou encontrar amigos. 
—E Androceu é seu amigo?
— Digamos, conhecido.

***
Adalberto Lima, recortes de "Estrela que o vento soprou."

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